Bárbara Wong, in Público online
Ara, Birkenstock e Ecco têm em comum o facto de apostarem mais em tecnologia e conforto do que no design. E de todas terem fábricas em território nacional.
Começaram por ser fabricadas em terras portuguesas e só depois, muitos anos mais tarde, o seu calçado passou a ser vendido por cá. Assim fizeram a alemã Ara e a dinamarquesa Ecco. São marcas conhecidas por se preocuparem mais com a tecnologia e o conforto do calçado do que propriamente com o design. Mas há também quem faça o caminho inverso: a um ano de marcar um quarto de milénio, a Birkenstock produz em Portugal desde 2022.
Foi em Dezembro de 1974, pouco meses após a Revolução de Abril, que a Ara investiu numa fábrica em Portugal. “Num período em que a instabilidade económica e social assolava o país”, nota a marca em resposta ao PÚBLICO. “Hoje, 48 anos depois, comprova-se que foi uma aposta ganha. A Ara é actualmente uma das principais empregadoras, produtoras e exportadoras do sector do calçado em Portugal”, continua. Actualmente, a fábrica em Seia emprega cerca de 800 pessoas.
A Ecco, que este ano assinala 60 anos, está em Portugal desde 1984, em Santa Maria da Feira, onde actualmente trabalham cerca de 1200 pessoas, avança Marco Pereira, responsável ibérico da marca. “Somos pioneiros em termos tecnológicos, dos tratamentos das peles aos cuidados durante a venda, porque tudo começa no pé e no seu movimento natural, que respeitamos”, explica, acrescentando que são fornecedores de peles para marcas de luxo.
Também a Ara, que celebra no próximo ano o seu 75.º aniversário, está concentrada no conforto do seu calçado, destinado a mulheres com mais de 35 anos, que desejam andar na moda, mas confortáveis, refere a marca. São mulheres com “poder de compra elevado e clientes fiéis”, refere ainda.
Quanto à alemã Birkenstock, cujas raízes da marca remontam a 1774, este ano assinala os aniversários de três dos seus modelos mais icónicos: as Madrid, Arizona e Gizeh fazem 60, 50 e 40 anos, respectivamente. Por essa razão, a marca vai lançar uma colecção-cápsula limitada dos modelos originais. Por cá, a Birkenstock produz modelos de calçado fechado e os produtos da sua submarca Papillio.
A empresa lembra que quer os seus modelos, quer os da sua submarca assentam no conforto e esse é o segredo do seu sucesso. Embora não avance ao PÚBLICO os números no mercado português, onde está à venda apenas desde 2018, revela apenas que estes estão “em sintonia com o desenvolvimento global do negócio da marca”.
A Birkenstock sublinha ainda que o conforto aliado ao design tornaram o seu calçado “mais do que um produto, ultrapassando a barreira do tempo e das tendências”. Aliás, frisa, é uma das marcas germânicas “mais conhecidas em todo o mundo” e um “verdadeiro fenómeno numa indústria caracterizada por tendências de moda de curta duração”.
A Ara está disponível nas sapatarias portuguesas desde 2003 e, actualmente tem três lojas (duas em Lisboa e uma no Porto), um outlet na fábrica em Seia e é vendida em meia centena de lojas multimarca, espalhadas pelo país.
Quanto à Ecco, que está em 100 países e em dez mil pontos de venda, chegou aos consumidores portugueses em 2019, e está focada em reforçar a sua aposta no mercado nacional, onde já tem 15 lojas. Recentemente, abriu um espaço com 226 metros quadrados no Centro Comercial Colombo, em Lisboa, um local em que há muito queriam estar, reconhece Marco Pereira, e vão continuar a abrir mais lojas, promete, sem revelar mais pormenores. A novidade é que, além do calçado para homem e mulher, junta-se agora o de criança. Curiosidade: pais e filhos ou avós e netos podem usar os mesmos modelos.
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11.5.23
8.5.23
Upcycling: renovar o guarda-roupa é mais fácil (e barato) do que parece
Paula Cordeiro, opinião, in Público
A reinvenção ou upcycling é também uma forma de slow fashion, uma forma de viver a moda que dá prioridade à sustentabilidade e ética.
Na maior parte das vezes em que ouvimos falar de upcycling associado à moda, ou seja, reinventar peças de roupa, o contexto é alternativo, associado a uma, ou várias, subculturas da moda e do estilo que são também representação de movimentos sociais. Simplificando, a moda alternativa representa uma multiplicidade de estilos e foge ao estilo comercial das maiores marcas e cadeias de lojas de moda. Tem sempre uma componente artística ou artesanal, é independente ou de artesãos e desafia as concepções gerais associadas à moda ou ao estilo. Por isso o upcycling está-lhe tantas vezes associado.
E se pegarmos naquilo que é comercial e o transformarmos? É também upcycling?
Nos últimos anos a indústria da moda tem estado debaixo de fogo, e ainda bem, por causa do seu impacto ambiental. A fast fashion, com as suas práticas de produção rápida e barata, definindo e redefinindo tendências a cada semana criou uma cultura de desperdício na qual muitas peças de roupa são usadas uma vez. Por vezes nem deixam de ter a etiqueta porque foram compradas e nunca chegaram a ser usadas. A tendência das tendências é esta: uma abordagem mais sustentável à moda e à forma como vestimos a moda poupando a todos os níveis, incluindo o ambiente. É aqui que entra a ideia de upcycling ou de reinventar, reinventando o que já temos.
Upcycling quer dizer o quê?
Nos últimos anos, a sustentabilidade tornou-se uma palavra na moda e que a indústria da moda tem usado a seu favor. Se por um lado há cada vez mais consumidores que procuram alternativas à fast fashion, por outro a fast fashion tem usado e abusado da palavra, criando conceitos que de sustentável, provavelmente nem o nome. Por isso, abordagens alternativas têm tanta importância. Upcycling é também uma das tendências, um processo de transformação do velho em novo.
Upcycling corresponde a um processo e por isso, a palavra não se traduz facilmente. Corresponde à utilização de materiais que poderiam ser descartados, transformando-os em algo que voltamos a usar. Aplica-se a tudo, desde a transformação do lixo em novas peças que usamos (a nova marca Coachtopia é disso um exemplo), à reinvenção de peças de roupa. Difere da reciclagem porque não degradamos os materiais, usamo-los tal como os encontramos, dando-lhes uma nova vida. É uma opção sustentável, sobretudo para diminuir o impacto da fast fashion. Como?
Se reinventarmos as nossas peças de roupa, reduzimos drasticamente o número de peças que acabam nos aterros. Porque sim, quando doamos, quando entregamos nos caixotes que estão na esquina da nossa rua, não é garantido que o seu destino final seja a doação. Algumas, muitas peças, acabam por ser descartadas. Pensem sempre: se vocês não querem, por que razão hão-de outros querer? As peças de roupa, sobretudo as que são feitas de fibras têxteis artificiais e sintéticas, demoram centenas de anos para se decomporem por serem resultado da produção da indústria química, recorrendo a recursos não renováveis, como o petróleo. A sua degradação também produz gases com efeito de estufa. O que quer dizer que, não só a produção é prejudicial, como o seu descarte impacta negativamente o ambiente, num processo de degradação que pode levar até 400 anos para se completar.
A reinvenção também reduz a utilização de energias não renováveis e a energia usada para a produção de cada peça. Se vamos usar energia para reinventar? O impacto é consideravelmente inferior, a uma escala local e individual, sem comparação com processos de produção industrial.
Reinventar é (re)criar porque permite desenvolver uma abordagem criativa e individual à moda. Se reinventarmos as roupas que já temos vamos ter peças únicas que reflectem o nosso estilo pessoal e que, apesar de poderem ser resultado da fast fashion, transformaram-se em slow fashion. E numa espécie de manifesto pró-ambiente.
Esta é também uma forma de reutilizar os recursos já existentes e reduzir quer a produção de lixo quer o descarte de materiais. Mas é também uma forma muito eficaz de renovar o nosso guarda-roupa praticamente sem gastar dinheiro. Além deste benefício individual, tem outros porque permite o recurso a mercados de trocas, lojas em segunda mão, para encontrar peças que podemos adaptar. Estas passam a ser 100% nossas e parecem novas. São novas! Também estimulamos a economia local, artesãos e costureiras. Valorizar o trabalho das costureiras é também uma forma de contrariar a fast fashion.
Como começar?
Escolher as peças: devem estar em boas condições, independente de ainda servirem (tamanho) ou de serem tendência de moda. A ideia é imaginar e transformar, não seguir o que está a dar. Ou usar a tendência a nossa favor.
Dar asas à imaginação, que também se treina, olhando para a peça que temos, observando as tendências, analisando o que gostamos e com o que nos identificamos para, depois, cortar, acrescentar, tingir, alterar (mudar os botões também é upcycling, por exemplo).
Misturar padrões para criar algo nosso que assenta na perfeição e é diferente do que está nas lojas.
Dar retoques também é upcycling: mudar os punhos, alterar o colarinho para fazer um novo ou eliminá-lo por completo, apertar uma saia com botões e adicionar um fecho — tudo isto são exemplos simples que transformam uma peça de roupa.
Como reinventar e dar um up ao nosso guarda-roupa?
A imaginação é o limite! Há uns anos comprei um vestido à minha filha, na altura com 10 anos. Nunca o usou. Gostou mas depois decidiu que era demasiado feminino. Na verdade quem o quis comprar fui eu, pelo estilo boho e a combinação de tecidos. Deixou de lhe servir e pensei, vou tentar usá-lo. Era possível, desde que vestisse uma camisola por cima para não se ver que o fecho ficava completamente aberto nas costas. Como nunca quis andar na rua assim, decidi transformá-lo numa saia. Correu mal porque o trabalho não resultou como esperado. Erro de principiante.
Por ser uma peça transformada não o podia vender online ou levar para mercados de trocas. Doei. Entretanto, já reinventei outras peças de roupa. As mais recentes são um casaco estilo militar em tecido de algodão que passou de azul cerúleo a azul-escuro. Bastou comprar tinta no supermercado para o tingir e ficou perfeito. Aproveitei e ainda tingi umas calças que estavam muito gastas. Ficaram novas. Também consegui um novo casaco, único, porque o tecido ficou azul muito escuro e as costuras mantiveram a cor azul original.
Também transformei um vestido cujo padrão me apaixona mas cujo folho já enjoava. Simples: foi retirar o folho e fazer a bainha, passando de vestido meio boho com um toque urbano para um vestido 100% urbano, com um padrão tartan que tem tanto de tradicional como de punk e grunge. Mais recentemente, um vestido de algodão preto e uma blusa fast fashion branca em bordado inglês resultaram num mix inovador. O vestido passou a ser uma saia e a parte de cima foi combinada com a blusa. Tenho uma blusa preta e branca, misturando o romantismo do bordado com a simplicidade do algodão preto. A blusa tinha uma nódoa impossível de tirar. A parte de cima do vestido ficava demasiado curta para poder usar, desta combinação resultou uma blusa única.
A reinvenção ou upcycling é também uma forma de slow fashion, uma forma de viver a moda que dá prioridade à sustentabilidade e ética. É sobre comprar menos e comprar melhor, escolher peças que foram desenhadas a criadas para durar, evitando a lógica do comprar, usar e deitar fora. A slow fashion é uma extensão de uma abordagem slow à vida, mais consciente e com hábitos de consumo que procuram o menor impacto ambiental e que, se deixarmos, se transforma num estilo de vida do qual não queremos abdicar.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
A reinvenção ou upcycling é também uma forma de slow fashion, uma forma de viver a moda que dá prioridade à sustentabilidade e ética.
Na maior parte das vezes em que ouvimos falar de upcycling associado à moda, ou seja, reinventar peças de roupa, o contexto é alternativo, associado a uma, ou várias, subculturas da moda e do estilo que são também representação de movimentos sociais. Simplificando, a moda alternativa representa uma multiplicidade de estilos e foge ao estilo comercial das maiores marcas e cadeias de lojas de moda. Tem sempre uma componente artística ou artesanal, é independente ou de artesãos e desafia as concepções gerais associadas à moda ou ao estilo. Por isso o upcycling está-lhe tantas vezes associado.
E se pegarmos naquilo que é comercial e o transformarmos? É também upcycling?
Nos últimos anos a indústria da moda tem estado debaixo de fogo, e ainda bem, por causa do seu impacto ambiental. A fast fashion, com as suas práticas de produção rápida e barata, definindo e redefinindo tendências a cada semana criou uma cultura de desperdício na qual muitas peças de roupa são usadas uma vez. Por vezes nem deixam de ter a etiqueta porque foram compradas e nunca chegaram a ser usadas. A tendência das tendências é esta: uma abordagem mais sustentável à moda e à forma como vestimos a moda poupando a todos os níveis, incluindo o ambiente. É aqui que entra a ideia de upcycling ou de reinventar, reinventando o que já temos.
Upcycling quer dizer o quê?
Nos últimos anos, a sustentabilidade tornou-se uma palavra na moda e que a indústria da moda tem usado a seu favor. Se por um lado há cada vez mais consumidores que procuram alternativas à fast fashion, por outro a fast fashion tem usado e abusado da palavra, criando conceitos que de sustentável, provavelmente nem o nome. Por isso, abordagens alternativas têm tanta importância. Upcycling é também uma das tendências, um processo de transformação do velho em novo.
Upcycling corresponde a um processo e por isso, a palavra não se traduz facilmente. Corresponde à utilização de materiais que poderiam ser descartados, transformando-os em algo que voltamos a usar. Aplica-se a tudo, desde a transformação do lixo em novas peças que usamos (a nova marca Coachtopia é disso um exemplo), à reinvenção de peças de roupa. Difere da reciclagem porque não degradamos os materiais, usamo-los tal como os encontramos, dando-lhes uma nova vida. É uma opção sustentável, sobretudo para diminuir o impacto da fast fashion. Como?
Se reinventarmos as nossas peças de roupa, reduzimos drasticamente o número de peças que acabam nos aterros. Porque sim, quando doamos, quando entregamos nos caixotes que estão na esquina da nossa rua, não é garantido que o seu destino final seja a doação. Algumas, muitas peças, acabam por ser descartadas. Pensem sempre: se vocês não querem, por que razão hão-de outros querer? As peças de roupa, sobretudo as que são feitas de fibras têxteis artificiais e sintéticas, demoram centenas de anos para se decomporem por serem resultado da produção da indústria química, recorrendo a recursos não renováveis, como o petróleo. A sua degradação também produz gases com efeito de estufa. O que quer dizer que, não só a produção é prejudicial, como o seu descarte impacta negativamente o ambiente, num processo de degradação que pode levar até 400 anos para se completar.
A reinvenção também reduz a utilização de energias não renováveis e a energia usada para a produção de cada peça. Se vamos usar energia para reinventar? O impacto é consideravelmente inferior, a uma escala local e individual, sem comparação com processos de produção industrial.
Reinventar é (re)criar porque permite desenvolver uma abordagem criativa e individual à moda. Se reinventarmos as roupas que já temos vamos ter peças únicas que reflectem o nosso estilo pessoal e que, apesar de poderem ser resultado da fast fashion, transformaram-se em slow fashion. E numa espécie de manifesto pró-ambiente.
Esta é também uma forma de reutilizar os recursos já existentes e reduzir quer a produção de lixo quer o descarte de materiais. Mas é também uma forma muito eficaz de renovar o nosso guarda-roupa praticamente sem gastar dinheiro. Além deste benefício individual, tem outros porque permite o recurso a mercados de trocas, lojas em segunda mão, para encontrar peças que podemos adaptar. Estas passam a ser 100% nossas e parecem novas. São novas! Também estimulamos a economia local, artesãos e costureiras. Valorizar o trabalho das costureiras é também uma forma de contrariar a fast fashion.
Como começar?
Escolher as peças: devem estar em boas condições, independente de ainda servirem (tamanho) ou de serem tendência de moda. A ideia é imaginar e transformar, não seguir o que está a dar. Ou usar a tendência a nossa favor.
Dar asas à imaginação, que também se treina, olhando para a peça que temos, observando as tendências, analisando o que gostamos e com o que nos identificamos para, depois, cortar, acrescentar, tingir, alterar (mudar os botões também é upcycling, por exemplo).
Misturar padrões para criar algo nosso que assenta na perfeição e é diferente do que está nas lojas.
Dar retoques também é upcycling: mudar os punhos, alterar o colarinho para fazer um novo ou eliminá-lo por completo, apertar uma saia com botões e adicionar um fecho — tudo isto são exemplos simples que transformam uma peça de roupa.
Como reinventar e dar um up ao nosso guarda-roupa?
A imaginação é o limite! Há uns anos comprei um vestido à minha filha, na altura com 10 anos. Nunca o usou. Gostou mas depois decidiu que era demasiado feminino. Na verdade quem o quis comprar fui eu, pelo estilo boho e a combinação de tecidos. Deixou de lhe servir e pensei, vou tentar usá-lo. Era possível, desde que vestisse uma camisola por cima para não se ver que o fecho ficava completamente aberto nas costas. Como nunca quis andar na rua assim, decidi transformá-lo numa saia. Correu mal porque o trabalho não resultou como esperado. Erro de principiante.
Por ser uma peça transformada não o podia vender online ou levar para mercados de trocas. Doei. Entretanto, já reinventei outras peças de roupa. As mais recentes são um casaco estilo militar em tecido de algodão que passou de azul cerúleo a azul-escuro. Bastou comprar tinta no supermercado para o tingir e ficou perfeito. Aproveitei e ainda tingi umas calças que estavam muito gastas. Ficaram novas. Também consegui um novo casaco, único, porque o tecido ficou azul muito escuro e as costuras mantiveram a cor azul original.
Também transformei um vestido cujo padrão me apaixona mas cujo folho já enjoava. Simples: foi retirar o folho e fazer a bainha, passando de vestido meio boho com um toque urbano para um vestido 100% urbano, com um padrão tartan que tem tanto de tradicional como de punk e grunge. Mais recentemente, um vestido de algodão preto e uma blusa fast fashion branca em bordado inglês resultaram num mix inovador. O vestido passou a ser uma saia e a parte de cima foi combinada com a blusa. Tenho uma blusa preta e branca, misturando o romantismo do bordado com a simplicidade do algodão preto. A blusa tinha uma nódoa impossível de tirar. A parte de cima do vestido ficava demasiado curta para poder usar, desta combinação resultou uma blusa única.
A reinvenção ou upcycling é também uma forma de slow fashion, uma forma de viver a moda que dá prioridade à sustentabilidade e ética. É sobre comprar menos e comprar melhor, escolher peças que foram desenhadas a criadas para durar, evitando a lógica do comprar, usar e deitar fora. A slow fashion é uma extensão de uma abordagem slow à vida, mais consciente e com hábitos de consumo que procuram o menor impacto ambiental e que, se deixarmos, se transforma num estilo de vida do qual não queremos abdicar.
A autora escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990
26.1.23
DECO lança campanha para combater o greenwashing
Andréia Azevedo Soares, in Público online
Objectivo da DECO é ajudar os consumidores a escolherem produtos mais sustentáveis e a reconhecerem alegações ambientais enganosas. Maioria dos consumidores na UE é receptiva a alegações ambientais.A DECO encoraja os consumidores a reivindicarem mais informação às marcas que fazem alegações ambientais Paulo Pimenta
A associação de defesa dos consumidores DECO divulga, esta quinta-feira, uma campanha de sensibilização contra o greenwashing. O objectivo é ajudar as pessoas a não só a escolherem produtos mais sustentáveis, mas também a reconhecer mais facilmente alegações ambientais enganosas.
“Queremos chegar às empresas através dos consumidores. O que estamos a dizer-lhes é: não se pintem de verde, contem as coisas como elas são, evitando argumentos publicitários como ‘biológico’ ou ‘biodegradável’ apenas para convencer o consumidor”, afirma ao PÚBLICO Susana Correia, jurista da DECO.
Intitulada “Greenwashing: Não se pintem de verde! Contem as coisas como elas são”, a campanha consiste num vídeo e em conteúdos divulgados nas redes sociais. Também estão previstos três episódios do DECOpode, o podcast da entidade, dedicados ao chamado ecobranqueamento.
O greenwashing consiste em técnicas de branqueamento usadas por empresas para atrair consumidores preocupados com o ambiente. Um exemplo: uma marca posiciona-se no mercado como sustentável e, ao mesmo tempo, recorre a fornecedores que não adoptam boas práticas na produção ou extracção de matérias-primas. Outro caso comum: a companhia faz promessas infundadas nos rótulos dos seus produtos com o intuito de parecer mais “verde” e responsável.
Nem todas as situações de greenwashing são fáceis de detectar. “Por exemplo, um grande retalhista pode lançar uma nova linha de produtos, tais como calças de ganga, que utiliza menos água e, portanto, teoricamente, com menos impacto ambiental do que as outras roupas que a empresa vende. Mas essa mesma empresa pode ignorar este impacto nas restantes linhas de produtos, tudo isto sem fazer nada para abordar as outras formas de que a sua produção possa estar a prejudicar o ambiente”, exemplifica a DECO, numa nota enviada ao PÚBLICO.
Rótulo europeu Ecolabel
Então, como é que um consumidor pode proteger-se? Susana Correia recomenda que os consumidores procurem opções com o rótulo ecológico europeu (o chamado Ecolabel). Trata-se de um certificado da União Europeia, verificado por entidades competentes, que pretende garantir que um produto ou serviço possui um bom desempenho ambiental.
A DECO exorta ainda as empresas a aderir ao rótulo europeu, para manter a confiança dos clientes e dotar a cadeia de produção e consumo de uma maior transparência. Para ter direito ao selo, os fabricantes devem cumprir determinados requisitos.
A União Europeia está ainda a trabalhar numa solução que pretende facultar aos consumidores dados claros e credíveis acerca das características dos produtos. Esta iniciativa legislativa de Bruxelas, que deverá ser apresentada este ano, obrigará as empresas a fundamentar as alegações ambientais segundo métodos previamente estipulados.
Sabia que...
Segundo a DECO, 57% dos consumidores da União Europeia estão receptivos a alegações ambientais no momento de escolher e comprar.
A medida tem particular relevância se considerarmos que, segundo a DECO, “57% dos consumidores da União Europeia estão receptivos a alegações ambientais no momento de escolher e comprar”.
A DECO encoraja também os consumidores a reivindicarem mais informação às marcas e modificarem certos comportamentos (comprar roupa usada ou trocar o carro pela bicicleta, por exemplo). “As empresas preocupam-se realmente com o que o consumidor quer. É importante que os consumidores contactem as empresas e questionem o que estão a fazer para enfrentar os diferentes desafios ambientais e sociais nas suas cadeias de abastecimento e para as responsabilizar pelos objectivos e planos que fazem”, refere a nota.
“Queremos chegar às empresas através dos consumidores. O que estamos a dizer-lhes é: não se pintem de verde, contem as coisas como elas são, evitando argumentos publicitários como ‘biológico’ ou ‘biodegradável’ apenas para convencer o consumidor”, afirma ao PÚBLICO Susana Correia, jurista da DECO.
Intitulada “Greenwashing: Não se pintem de verde! Contem as coisas como elas são”, a campanha consiste num vídeo e em conteúdos divulgados nas redes sociais. Também estão previstos três episódios do DECOpode, o podcast da entidade, dedicados ao chamado ecobranqueamento.
O greenwashing consiste em técnicas de branqueamento usadas por empresas para atrair consumidores preocupados com o ambiente. Um exemplo: uma marca posiciona-se no mercado como sustentável e, ao mesmo tempo, recorre a fornecedores que não adoptam boas práticas na produção ou extracção de matérias-primas. Outro caso comum: a companhia faz promessas infundadas nos rótulos dos seus produtos com o intuito de parecer mais “verde” e responsável.
Nem todas as situações de greenwashing são fáceis de detectar. “Por exemplo, um grande retalhista pode lançar uma nova linha de produtos, tais como calças de ganga, que utiliza menos água e, portanto, teoricamente, com menos impacto ambiental do que as outras roupas que a empresa vende. Mas essa mesma empresa pode ignorar este impacto nas restantes linhas de produtos, tudo isto sem fazer nada para abordar as outras formas de que a sua produção possa estar a prejudicar o ambiente”, exemplifica a DECO, numa nota enviada ao PÚBLICO.
Rótulo europeu Ecolabel
Então, como é que um consumidor pode proteger-se? Susana Correia recomenda que os consumidores procurem opções com o rótulo ecológico europeu (o chamado Ecolabel). Trata-se de um certificado da União Europeia, verificado por entidades competentes, que pretende garantir que um produto ou serviço possui um bom desempenho ambiental.
A DECO exorta ainda as empresas a aderir ao rótulo europeu, para manter a confiança dos clientes e dotar a cadeia de produção e consumo de uma maior transparência. Para ter direito ao selo, os fabricantes devem cumprir determinados requisitos.
A União Europeia está ainda a trabalhar numa solução que pretende facultar aos consumidores dados claros e credíveis acerca das características dos produtos. Esta iniciativa legislativa de Bruxelas, que deverá ser apresentada este ano, obrigará as empresas a fundamentar as alegações ambientais segundo métodos previamente estipulados.
Sabia que...
Segundo a DECO, 57% dos consumidores da União Europeia estão receptivos a alegações ambientais no momento de escolher e comprar.
A medida tem particular relevância se considerarmos que, segundo a DECO, “57% dos consumidores da União Europeia estão receptivos a alegações ambientais no momento de escolher e comprar”.
A DECO encoraja também os consumidores a reivindicarem mais informação às marcas e modificarem certos comportamentos (comprar roupa usada ou trocar o carro pela bicicleta, por exemplo). “As empresas preocupam-se realmente com o que o consumidor quer. É importante que os consumidores contactem as empresas e questionem o que estão a fazer para enfrentar os diferentes desafios ambientais e sociais nas suas cadeias de abastecimento e para as responsabilizar pelos objectivos e planos que fazem”, refere a nota.
26.12.22
Taxa de poupança das famílias cai para mínimos de mais de uma década
Rosa Soares, in Público online
Aumento do consumo privado, em 2%, foi superior ao do crescimento do rendimento disponível (1%), atirando a taxa de poupança para mínimos de mais de uma década.
Depois do forte crescimento durante o pico da pandemia de covid-19, em que atingiu os 14%, a taxa de poupança das famílias tem vindo a cair, recuando, no terceiro trimestre, para 5,1% do rendimento disponível bruto (RDB), menos um ponto percentual relativamente ao trimestre anterior, e mínimo de mais de uma década. Para a queda contribuiu o aumento de 2% do consumo privado (2,7% no trimestre anterior, na variação em cadeia), superior ao crescimento de 1% do rendimento disponível.
Por cada 100 euros disponíveis, as famílias pouparam 5,1 euros de Julho a Setembro, o valor mais baixo desde o segundo trimestre de 2008, avança o Instituto Nacional de Estatística (INE), nas Contas Nacionais Trimestrais, divulgadas nesta sexta-feira.
“O RDB das Famílias aumentou 1% face ao trimestre anterior, verificando-se crescimentos de 1,8% e 1% das remunerações e do valor acrescentado bruto (VAB), respectivamente.”
Do lado da despesa de consumo final, o aumento foi de 2,0% (2,7% no trimestre anterior), determinando a redução da taxa de poupança para 5,1% (6,1% no trimestre anterior), o que conduziu a um défice ou necessidade de financiamento de 0,2% do produto interno bruto (PIB). Esta queda contrasta com a capacidade de financiamento dos particulares no trimestre anterior, que era de 0,4% do PIB.
O RDB ajustado nominal das famílias per capita fixou-se em 17,6 mil euros, mais 1% do que no trimestre anterior, mas em termos reais diminuiu 0,4% no período em análise, adianta o INE.
O INE salvaguarda, contudo, que nas variáveis apresentadas em termos nominais, como é o caso do consumo privado, a sua evolução é marcada pela aceleração dos preços "evidenciada pelo Índice de Preços no Consumidor no terceiro trimestre de 2022".
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) das famílias, que corresponde essencialmente à FBCF em habitação, registou uma taxa de variação de 0,8% face ao trimestre anterior e um aumento de 3% face ao mesmo período de 2021.
E a taxa de investimento das famílias manteve-se em 6,0% entre o segundo e o terceiro trimestre.
Já nas contas públicas, o terceiro trimestre terminou com um saldo orçamental positivo de 2,8%, muito acima do resultado previsto para a totalidade do ano.
Aumento do consumo privado, em 2%, foi superior ao do crescimento do rendimento disponível (1%), atirando a taxa de poupança para mínimos de mais de uma década.
Depois do forte crescimento durante o pico da pandemia de covid-19, em que atingiu os 14%, a taxa de poupança das famílias tem vindo a cair, recuando, no terceiro trimestre, para 5,1% do rendimento disponível bruto (RDB), menos um ponto percentual relativamente ao trimestre anterior, e mínimo de mais de uma década. Para a queda contribuiu o aumento de 2% do consumo privado (2,7% no trimestre anterior, na variação em cadeia), superior ao crescimento de 1% do rendimento disponível.
Por cada 100 euros disponíveis, as famílias pouparam 5,1 euros de Julho a Setembro, o valor mais baixo desde o segundo trimestre de 2008, avança o Instituto Nacional de Estatística (INE), nas Contas Nacionais Trimestrais, divulgadas nesta sexta-feira.
“O RDB das Famílias aumentou 1% face ao trimestre anterior, verificando-se crescimentos de 1,8% e 1% das remunerações e do valor acrescentado bruto (VAB), respectivamente.”
Do lado da despesa de consumo final, o aumento foi de 2,0% (2,7% no trimestre anterior), determinando a redução da taxa de poupança para 5,1% (6,1% no trimestre anterior), o que conduziu a um défice ou necessidade de financiamento de 0,2% do produto interno bruto (PIB). Esta queda contrasta com a capacidade de financiamento dos particulares no trimestre anterior, que era de 0,4% do PIB.
O RDB ajustado nominal das famílias per capita fixou-se em 17,6 mil euros, mais 1% do que no trimestre anterior, mas em termos reais diminuiu 0,4% no período em análise, adianta o INE.
O INE salvaguarda, contudo, que nas variáveis apresentadas em termos nominais, como é o caso do consumo privado, a sua evolução é marcada pela aceleração dos preços "evidenciada pelo Índice de Preços no Consumidor no terceiro trimestre de 2022".
A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) das famílias, que corresponde essencialmente à FBCF em habitação, registou uma taxa de variação de 0,8% face ao trimestre anterior e um aumento de 3% face ao mesmo período de 2021.
E a taxa de investimento das famílias manteve-se em 6,0% entre o segundo e o terceiro trimestre.
Já nas contas públicas, o terceiro trimestre terminou com um saldo orçamental positivo de 2,8%, muito acima do resultado previsto para a totalidade do ano.
21.11.22
O problema não é sermos muitos, é consumirmos demasiado
Paulo Narigão Reis, in Público online
Quase a chegar aos 8 mil milhões de humanos, está o mundo mesmo sobrepovoado? Mais do que excesso de população, o problema está, como defendem muitos cientistas, no excesso de consumo.
Interactivo. Oito mil milhões de humanos. Quantos havia quando nasceu?
Com o mundo prestes a alcançar a marca dos 8 mil milhões de habitantes, há perguntas a fazer: quantas pessoas cabem realmente no nosso planeta? E está o mundo, de facto, sobrepovoado? O debate sobre qual é o número ideal de seres humanos é antigo – remonta ao século XVIII – e polémico e, quando somamos mais um milhar de milhões, como acontecerá esta terça-feira, as opiniões voltam a dividir-se.
Na semana passada, a revista The Economist titulava: “A população atingiu os 8 mil milhões. Não entremos em pânico”. No artigo em causa, a publicação advoga que quer o medo da sobrepopulação quer da subpopulação são manifestamente exagerados. O planeta não está nem à beira do excesso de habitantes nem do inverso colapso populacional, mesmo que no primeiro caso, os dois últimos mil milhões tenham sido alcançados no espaço de doze anos cada (os 7 mil milhões entre 1998 e 2010 e os 8 mil milhões entre 2010 e 2022).
“Oito mil milhões de pessoas é um marco importante para a humanidade”, disse a chefe do Fundo de População das Nações Unidas, Natalia Kanem, numa declaração oficial, saudando ao mesmo tempo o aumento da esperança de vida e a diminuição do número de mortes maternas e infantis.
“Ainda assim, percebo que este momento poderá não ser celebrado por todos”, acrescentou Kanem. “Alguns expressam a preocupação de que o nosso mundo está sobrepovoado. Estou aqui para dizer que o grande número de vidas humanas não é motivo de medo”.
Para muitos especialistas na matéria, dizer que o mundo tem gente a mais é estar a colocar a questão errada. “Muitos para quem, muitos para quê? Se me perguntarem se eu estou a mais? Digo que não”, afirma Joel Cohen, do Laboratório de Populações da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, citado pela agência France-Presse.
Para o cientista, a questão de quantas pessoas pode suportar o mundo tem dois lados: os limites naturais e escolhas humanas. Que estão ambos ligados: “As nossas escolhas fazem com que os humanos consumam muito mais recursos biológicos do que o planeta é capaz de regenerar a cada ano”, acrescenta Cohen.
O mais recente relatório climático da ONU menciona o crescimento populacional como um dos principais responsáveis pelo aumento das emissões de gases de efeito de estufa, ainda assim menor do que o crescimento económico. Mais do que excesso de população, o problema está, como defendem muitos cientistas, no excesso de consumo.
“Estamos a consumir os recursos renováveis de 1,7 planetas Terra. Se as coisas não mudarem, precisaremos de três até 2050. À medida que mais pessoas exigem mais da natureza, pioramos a já catastrófica perda de biodiversidade, acelerando a escassez de água, poluição e desmatamento”, escreveu Robin Maynard, director da organização Population Matters, sediada no Reino Unido, no jornal Guardian, no mês passado.
Ainda assim, Maynard defende que oito mil milhões de pessoas no planeta é um número que começa a ser incomportável, inclusivamente para as outras espécies. “Os governos, os organismos internacionais e as sociedades não podem ignorar o papel da população no que diz respeito ao clima, à vida selvagem e aos colapsos dos ecossistemas que hoje enfrentamos”, considera.
Mas, se em vez de tentarmos ajustar o número de pessoas que habitam o mundo, virarmos o foco antes para para o que fazemos, o que consumimos, a pegada que deixamos? A quantidade de recursos que cada pessoa consome no seu dia-a-dia tem mais impacto do que o número de humanos sobre a Terra, isto num mundo em que, estima a ONU, um terço dos alimentos que produzimos é desperdiçado a cada ano.
E, aqui, a “culpa” é dos países mais ricos que, para além de consumirem mais, têm taxas de natalidade menores do que as nações mais pobres. Ou seja, reduzir o consumo individual pode ser a receita para reduzir a pegada da humanidade sem esmagar o crescimento dos países menos desenvolvidos.
Um estudo da Oxfam publicado em 2015 estimava que a pegada ecológica de quem faz parte do 1% com os maiores rendimentos era, pelo menos, 175 vezes maior do que alguém nos 10% mais pobres. Segundo a ONU, os países pobres e de rendimento médio-baixo, de onde virá 90% do crescimento populacional na próxima década, são responsáveis por apenas um sétimo das emissões mundiais de dióxido de carbono.
“O problema é a extrema desigualdade, o consumo excessivo dos ultra-ricos do mundo e um sistema que dá prioridade aos lucros em relação ao bem-estar social e ecológico. É aqui que devemos focar nossa atenção”, afirma Heather Alberro, especialista em desenvolvimento sustentável na Universidade de Nottingham Trent, no Reino Unido, citada pelo site The Conversation.
Até porque, na realidade, a população humana não está a aumentar exponencialmente, antes a desacelerar. Na tendência actual, a população global chegará aos 9 mil milhões em 2037 e atingirá o pico em 10,4 mil milhões entre 2080 e 2100, sendo que metade do crescimento projectado entre 2022 e 2050 ocorrerá em apenas oito países, cinco deles em África (República Democrática do Congo, Egipto, Etiópia, Nigéria e Tanzânia) e três na Ásia (Índia, Paquistão e Filipinas). E se no próximo ano a Índia irá, provavelmente, ultrapassar a China como o país mais populoso do mundo, este ano, o continente africano já superou as populações combinadas da Europa e América do Norte.
Quase a chegar aos 8 mil milhões de humanos, está o mundo mesmo sobrepovoado? Mais do que excesso de população, o problema está, como defendem muitos cientistas, no excesso de consumo.
Interactivo. Oito mil milhões de humanos. Quantos havia quando nasceu?
Com o mundo prestes a alcançar a marca dos 8 mil milhões de habitantes, há perguntas a fazer: quantas pessoas cabem realmente no nosso planeta? E está o mundo, de facto, sobrepovoado? O debate sobre qual é o número ideal de seres humanos é antigo – remonta ao século XVIII – e polémico e, quando somamos mais um milhar de milhões, como acontecerá esta terça-feira, as opiniões voltam a dividir-se.
Na semana passada, a revista The Economist titulava: “A população atingiu os 8 mil milhões. Não entremos em pânico”. No artigo em causa, a publicação advoga que quer o medo da sobrepopulação quer da subpopulação são manifestamente exagerados. O planeta não está nem à beira do excesso de habitantes nem do inverso colapso populacional, mesmo que no primeiro caso, os dois últimos mil milhões tenham sido alcançados no espaço de doze anos cada (os 7 mil milhões entre 1998 e 2010 e os 8 mil milhões entre 2010 e 2022).
“Oito mil milhões de pessoas é um marco importante para a humanidade”, disse a chefe do Fundo de População das Nações Unidas, Natalia Kanem, numa declaração oficial, saudando ao mesmo tempo o aumento da esperança de vida e a diminuição do número de mortes maternas e infantis.
“Ainda assim, percebo que este momento poderá não ser celebrado por todos”, acrescentou Kanem. “Alguns expressam a preocupação de que o nosso mundo está sobrepovoado. Estou aqui para dizer que o grande número de vidas humanas não é motivo de medo”.
Para muitos especialistas na matéria, dizer que o mundo tem gente a mais é estar a colocar a questão errada. “Muitos para quem, muitos para quê? Se me perguntarem se eu estou a mais? Digo que não”, afirma Joel Cohen, do Laboratório de Populações da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, citado pela agência France-Presse.
Para o cientista, a questão de quantas pessoas pode suportar o mundo tem dois lados: os limites naturais e escolhas humanas. Que estão ambos ligados: “As nossas escolhas fazem com que os humanos consumam muito mais recursos biológicos do que o planeta é capaz de regenerar a cada ano”, acrescenta Cohen.
O mais recente relatório climático da ONU menciona o crescimento populacional como um dos principais responsáveis pelo aumento das emissões de gases de efeito de estufa, ainda assim menor do que o crescimento económico. Mais do que excesso de população, o problema está, como defendem muitos cientistas, no excesso de consumo.
“Estamos a consumir os recursos renováveis de 1,7 planetas Terra. Se as coisas não mudarem, precisaremos de três até 2050. À medida que mais pessoas exigem mais da natureza, pioramos a já catastrófica perda de biodiversidade, acelerando a escassez de água, poluição e desmatamento”, escreveu Robin Maynard, director da organização Population Matters, sediada no Reino Unido, no jornal Guardian, no mês passado.
Ainda assim, Maynard defende que oito mil milhões de pessoas no planeta é um número que começa a ser incomportável, inclusivamente para as outras espécies. “Os governos, os organismos internacionais e as sociedades não podem ignorar o papel da população no que diz respeito ao clima, à vida selvagem e aos colapsos dos ecossistemas que hoje enfrentamos”, considera.
Mas, se em vez de tentarmos ajustar o número de pessoas que habitam o mundo, virarmos o foco antes para para o que fazemos, o que consumimos, a pegada que deixamos? A quantidade de recursos que cada pessoa consome no seu dia-a-dia tem mais impacto do que o número de humanos sobre a Terra, isto num mundo em que, estima a ONU, um terço dos alimentos que produzimos é desperdiçado a cada ano.
E, aqui, a “culpa” é dos países mais ricos que, para além de consumirem mais, têm taxas de natalidade menores do que as nações mais pobres. Ou seja, reduzir o consumo individual pode ser a receita para reduzir a pegada da humanidade sem esmagar o crescimento dos países menos desenvolvidos.
Um estudo da Oxfam publicado em 2015 estimava que a pegada ecológica de quem faz parte do 1% com os maiores rendimentos era, pelo menos, 175 vezes maior do que alguém nos 10% mais pobres. Segundo a ONU, os países pobres e de rendimento médio-baixo, de onde virá 90% do crescimento populacional na próxima década, são responsáveis por apenas um sétimo das emissões mundiais de dióxido de carbono.
“O problema é a extrema desigualdade, o consumo excessivo dos ultra-ricos do mundo e um sistema que dá prioridade aos lucros em relação ao bem-estar social e ecológico. É aqui que devemos focar nossa atenção”, afirma Heather Alberro, especialista em desenvolvimento sustentável na Universidade de Nottingham Trent, no Reino Unido, citada pelo site The Conversation.
Até porque, na realidade, a população humana não está a aumentar exponencialmente, antes a desacelerar. Na tendência actual, a população global chegará aos 9 mil milhões em 2037 e atingirá o pico em 10,4 mil milhões entre 2080 e 2100, sendo que metade do crescimento projectado entre 2022 e 2050 ocorrerá em apenas oito países, cinco deles em África (República Democrática do Congo, Egipto, Etiópia, Nigéria e Tanzânia) e três na Ásia (Índia, Paquistão e Filipinas). E se no próximo ano a Índia irá, provavelmente, ultrapassar a China como o país mais populoso do mundo, este ano, o continente africano já superou as populações combinadas da Europa e América do Norte.
31.8.22
Economia com crescimento nulo em cadeia no segundo trimestre e 7,1% em termos homólogos
Luís Villalobos, in Público on-line
Comportamento da economia portuguesa foi melhor do que o avançado pelo INE na estimativa rápida divulgada no final de Julho.
A economia portuguesa registou uma taxa de crescimento nula no segundo trimestre deste ano, quando comparado com o trimestre anterior, numa revisão em alta face aos -0,2% adiantados pelo INE na sua estimativa rápida das contas nacionais divulgada no final de Julho. Já o crescimento do PIB em termos homólogos, de acordo com os dados do INE divulgados esta quarta-feira, foi de 7,1%, mais 0,2 pontos percentuais (p.p.) face à estimativa rápida.
Estes dados seguem-se a um crescimento em cadeia no primeiro trimestre de 2,5%, com a variação homóloga a chegar aos 11,8%. Os meses de Abril a Junho deste ano sofreram com as consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, com impactos, entre outros aspectos, no custo das matérias-primas, mas a economia portuguesa acabou por não assistir a uma contracção.
Com os dados agora conhecidos, fica mais perto a hipótese de a economia portuguesa registar, na totalidade do ano, uma taxa de crescimento superior a 6%, como foi projectado tanto pelo Banco de Portugal como pela Comissão Europeia.
Apesar do abrandamento, o impulso da procura interna para a variação do PIB foi de 3,7 pontos percentuais. (10 p.p. no trimestre anterior), tendo a procura externa líquida subido para 3,5 pontos percentuais (contra os 1,7 p.p. do período anterior), com as exportações de bens e serviços a crescerem mais do que as importações, com a ajuda da recuperação do turismo.
“No segundo trimestre, os preços implícitos nos fluxos de comércio internacional aumentaram significativamente, tendo-se registado uma maior aceleração nas exportações devido às componentes de serviços, determinando uma perda menos intensa dos termos de troca que no trimestre anterior”, refere o INE. “O efeito da evolução dos termos de troca conjugado com o comportamento positivo em volume”, refere-se, “resultaram numa melhoria do Saldo Externo de Bens e Serviços em termos nominais, situando-se em -2,2% do PIB (-3,6% do PIB no 1º trimestre)”.
Comportamento da economia portuguesa foi melhor do que o avançado pelo INE na estimativa rápida divulgada no final de Julho.
A economia portuguesa registou uma taxa de crescimento nula no segundo trimestre deste ano, quando comparado com o trimestre anterior, numa revisão em alta face aos -0,2% adiantados pelo INE na sua estimativa rápida das contas nacionais divulgada no final de Julho. Já o crescimento do PIB em termos homólogos, de acordo com os dados do INE divulgados esta quarta-feira, foi de 7,1%, mais 0,2 pontos percentuais (p.p.) face à estimativa rápida.
Estes dados seguem-se a um crescimento em cadeia no primeiro trimestre de 2,5%, com a variação homóloga a chegar aos 11,8%. Os meses de Abril a Junho deste ano sofreram com as consequências da invasão da Ucrânia pela Rússia, com impactos, entre outros aspectos, no custo das matérias-primas, mas a economia portuguesa acabou por não assistir a uma contracção.
Com os dados agora conhecidos, fica mais perto a hipótese de a economia portuguesa registar, na totalidade do ano, uma taxa de crescimento superior a 6%, como foi projectado tanto pelo Banco de Portugal como pela Comissão Europeia.
Apesar do abrandamento, o impulso da procura interna para a variação do PIB foi de 3,7 pontos percentuais. (10 p.p. no trimestre anterior), tendo a procura externa líquida subido para 3,5 pontos percentuais (contra os 1,7 p.p. do período anterior), com as exportações de bens e serviços a crescerem mais do que as importações, com a ajuda da recuperação do turismo.
“No segundo trimestre, os preços implícitos nos fluxos de comércio internacional aumentaram significativamente, tendo-se registado uma maior aceleração nas exportações devido às componentes de serviços, determinando uma perda menos intensa dos termos de troca que no trimestre anterior”, refere o INE. “O efeito da evolução dos termos de troca conjugado com o comportamento positivo em volume”, refere-se, “resultaram numa melhoria do Saldo Externo de Bens e Serviços em termos nominais, situando-se em -2,2% do PIB (-3,6% do PIB no 1º trimestre)”.
30.8.22
Há mais portugueses a prever cortar em compras importantes e empresas estão menos confiantes
Vitor Ferreira, in Público online
Inquéritos de conjuntura do INE mostram que as famílias estão cautelosas e que só o sector dos serviços viu o indicador de confiança aumentar em Agosto.
Victor Ferreira30 de Agosto de 2022, 10:58
As expectativas económicas das famílias e das empresas portuguesas continuam longe do que eram antes do início da guerra na Ucrânia. Ao fim de seis meses de conflito, o indicador de confiança dos consumidores estabilizou, segundo os dados de Agosto, mas num patamar muito abaixo daquele em que se situava em Fevereiro, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia. Já do lado dos empresários, há menos confiança nos sectores da indústria, do comércio e da construção, devido às perspectivas mais negativas em relação a diversos indicadores de negócio.
Começando pelas famílias, o indicador de confiança manteve em Agosto o mesmo valor de Julho. Quando olham para a frente, e perspectivam a evolução nos próximos 12 meses, os consumidores parecem agora acreditar mais numa melhoria do clima económico do país e numa evolução mais favorável da situação financeira dos seus agregados. Porém, enchem-se de cautelas quando estimam os níveis de consumo, havendo mais famílias a avaliar a necessidade de cortarem em compras importantes nos próximos 12 meses.
Quando se olha para os dados de Agosto corrigidos de sazonalidade, torna-se ainda mais evidente que a degradação da confiança registada em Março, logo depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia está longe de uma inversão de tendência. Pelo contrário, as respostas sobre a situação económica do país nos próximos 12 meses apontam para uma curva cada vez mais negativa, com os valores a manterem uma trajectória de aproximação aos valores mínimos de confiança registados em Outubro de 2012, mas menos negativos do que os registados durante as fases mais críticas da pandemia em 2020 e 2021.
Com base nos valores corrigidos de sazonalidade, o mês de Agosto revelou que as famílias acreditam menos na sua capacidade de pouparem no momento actual, perspectivam um mercado laboral ligeiramente melhor, mas mostram-se menos confiantes numa evolução favorável dos preços ao longo do próximo ano. Tudo isto talvez ajude a explicar por que razão há mais consumidores a referir a necessidade de conter despesas, cortando em compras importantes no futuro próximo.
O mesmo pode ser dito quando se analisa as respostas dos empresários. Face às cautelas dos consumidores e às condicionantes de produção, há um maior número de sectores económicos com uma evolução desfavorável no indicador de confiança do que o contrário. Como já se referiu, só mesmo o sector dos serviços apresenta uma evolução positiva face a Julho.
O indicador de confiança da Indústria Transformadora tinha caído em Julho e, de forma mais intensa, desceu também em Agosto, recuando para um nível próximo do observado em Abril de 2021 – quando o país saía do seu segundo confinamento geral por causa da covid-19.
Todas as componentes contribuíram negativamente para este indicador, salienta o INE. As perspectivas sobre a produção de bens de consumo e bens intermédios baixaram de forma significativa na indústria transformadora, reflectindo os receios de uma recessão que diminua a procura mas também os problemas de fornecimento de matérias-primas, seja pela escassez ou pela alta de preços. Somente os bens de investimento contrariaram esta tendência.
As perspectivas de emprego para os próximos três meses melhoraram, mas continuam abaixo do nível em que se situavam antes do início da guerra na Ucrânia.
Quanto aos preços de venda no próximo trimestre, o indicador de confiança continuou a recuar, tal como tem vindo a acontecer desde Abril.
No sector da Construção e Obras Públicas, a confiança também diminuiu em Agosto, retomando o movimento descendente iniciado em Fevereiro. Neste caso, regista-se um sentimento menos favorável em relação à carteira de encomendas e, sobretudo, uma deterioração do indicador de confiança no nível de emprego para os próximos três meses, que cai nas três componentes deste sector (promoção imobiliária e construção de edifícios; engenharia civil; e actividades especializadas de construção). Isto apesar de se ter mantido estável a confiança sobre os preços de venda nos próximos três meses.
Quanto ao comércio, o indicador de confiança do comércio desceu em Julho e em Agosto. Porém, a evolução não foi uniforme. No comércio por grosso, houve uma descida, mas no comércio a retalho, as perspectivas até melhoraram em Agosto face ao mês anterior.
Há, no entanto, um sentimento ligeiramente mais negativo face à perspectiva de vendas nos próximos três meses, com o volume de stocks a piorar de forma mais significativa no comércio por grosso. As perspectivas de emprego caem para o valor mínimo deste ano, tal como sucede em relação à confiança sobre encomendas a fornecedores e preços de venda.
Pelo contrário, nos serviços, o indicador de confiança aumentou em Agosto, após ter diminuído em Julho. A perspectiva sobre a procura no próximo trimestre melhorou, mas está muito longe aos valores pré-guerra, a confiança no emprego teve uma evolução semelhante, e a única descida no indicador de confiança é quanto aos preços de venda para os próximos três meses.
O sector dos serviços é o que mais pesa na economia portuguesa em termos de valor acrescentado bruto (VAB) – isto é, o valor gerado pelas empresas depois de pagas as matérias-primas e outros consumos na produção, representando 38,1% do VAB da economia.
Para a obtenção destes dados, o INE recolheu respostas de cerca de 1200 a 1400 empresas da indústria, do comércio e dos serviços e cerca de 600 empresas da construção.
Inquéritos de conjuntura do INE mostram que as famílias estão cautelosas e que só o sector dos serviços viu o indicador de confiança aumentar em Agosto.
Victor Ferreira30 de Agosto de 2022, 10:58
As expectativas económicas das famílias e das empresas portuguesas continuam longe do que eram antes do início da guerra na Ucrânia. Ao fim de seis meses de conflito, o indicador de confiança dos consumidores estabilizou, segundo os dados de Agosto, mas num patamar muito abaixo daquele em que se situava em Fevereiro, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia. Já do lado dos empresários, há menos confiança nos sectores da indústria, do comércio e da construção, devido às perspectivas mais negativas em relação a diversos indicadores de negócio.
Começando pelas famílias, o indicador de confiança manteve em Agosto o mesmo valor de Julho. Quando olham para a frente, e perspectivam a evolução nos próximos 12 meses, os consumidores parecem agora acreditar mais numa melhoria do clima económico do país e numa evolução mais favorável da situação financeira dos seus agregados. Porém, enchem-se de cautelas quando estimam os níveis de consumo, havendo mais famílias a avaliar a necessidade de cortarem em compras importantes nos próximos 12 meses.
Quando se olha para os dados de Agosto corrigidos de sazonalidade, torna-se ainda mais evidente que a degradação da confiança registada em Março, logo depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia está longe de uma inversão de tendência. Pelo contrário, as respostas sobre a situação económica do país nos próximos 12 meses apontam para uma curva cada vez mais negativa, com os valores a manterem uma trajectória de aproximação aos valores mínimos de confiança registados em Outubro de 2012, mas menos negativos do que os registados durante as fases mais críticas da pandemia em 2020 e 2021.
Com base nos valores corrigidos de sazonalidade, o mês de Agosto revelou que as famílias acreditam menos na sua capacidade de pouparem no momento actual, perspectivam um mercado laboral ligeiramente melhor, mas mostram-se menos confiantes numa evolução favorável dos preços ao longo do próximo ano. Tudo isto talvez ajude a explicar por que razão há mais consumidores a referir a necessidade de conter despesas, cortando em compras importantes no futuro próximo.
O mesmo pode ser dito quando se analisa as respostas dos empresários. Face às cautelas dos consumidores e às condicionantes de produção, há um maior número de sectores económicos com uma evolução desfavorável no indicador de confiança do que o contrário. Como já se referiu, só mesmo o sector dos serviços apresenta uma evolução positiva face a Julho.
O indicador de confiança da Indústria Transformadora tinha caído em Julho e, de forma mais intensa, desceu também em Agosto, recuando para um nível próximo do observado em Abril de 2021 – quando o país saía do seu segundo confinamento geral por causa da covid-19.
Todas as componentes contribuíram negativamente para este indicador, salienta o INE. As perspectivas sobre a produção de bens de consumo e bens intermédios baixaram de forma significativa na indústria transformadora, reflectindo os receios de uma recessão que diminua a procura mas também os problemas de fornecimento de matérias-primas, seja pela escassez ou pela alta de preços. Somente os bens de investimento contrariaram esta tendência.
As perspectivas de emprego para os próximos três meses melhoraram, mas continuam abaixo do nível em que se situavam antes do início da guerra na Ucrânia.
Quanto aos preços de venda no próximo trimestre, o indicador de confiança continuou a recuar, tal como tem vindo a acontecer desde Abril.
No sector da Construção e Obras Públicas, a confiança também diminuiu em Agosto, retomando o movimento descendente iniciado em Fevereiro. Neste caso, regista-se um sentimento menos favorável em relação à carteira de encomendas e, sobretudo, uma deterioração do indicador de confiança no nível de emprego para os próximos três meses, que cai nas três componentes deste sector (promoção imobiliária e construção de edifícios; engenharia civil; e actividades especializadas de construção). Isto apesar de se ter mantido estável a confiança sobre os preços de venda nos próximos três meses.
Quanto ao comércio, o indicador de confiança do comércio desceu em Julho e em Agosto. Porém, a evolução não foi uniforme. No comércio por grosso, houve uma descida, mas no comércio a retalho, as perspectivas até melhoraram em Agosto face ao mês anterior.
Há, no entanto, um sentimento ligeiramente mais negativo face à perspectiva de vendas nos próximos três meses, com o volume de stocks a piorar de forma mais significativa no comércio por grosso. As perspectivas de emprego caem para o valor mínimo deste ano, tal como sucede em relação à confiança sobre encomendas a fornecedores e preços de venda.
Pelo contrário, nos serviços, o indicador de confiança aumentou em Agosto, após ter diminuído em Julho. A perspectiva sobre a procura no próximo trimestre melhorou, mas está muito longe aos valores pré-guerra, a confiança no emprego teve uma evolução semelhante, e a única descida no indicador de confiança é quanto aos preços de venda para os próximos três meses.
O sector dos serviços é o que mais pesa na economia portuguesa em termos de valor acrescentado bruto (VAB) – isto é, o valor gerado pelas empresas depois de pagas as matérias-primas e outros consumos na produção, representando 38,1% do VAB da economia.
Para a obtenção destes dados, o INE recolheu respostas de cerca de 1200 a 1400 empresas da indústria, do comércio e dos serviços e cerca de 600 empresas da construção.
26.8.22
Consumidores de gás natural vão poder voltar para o mercado regulado
Ana Brito, in Público on-line
Governo vai alterar a lei para eliminar limitações à possibilidade de regresso ao mercado regulado, à semelhança do que existe para a electricidade.
O Governo vai alterar a lei para permitir que, à semelhança da electricidade, os consumidores de gás natural também possam voltar à tarifa regulada, fixada pela ERSE, em que ficam protegidos de aumentos expressivos como os anunciados na quarta-feira pela EDP.
O ministro do Ambiente e o secretário de Estado da Energia, Duarte Cordeiro e João Galamba, anunciaram esta quinta-feira, em conferência de imprensa, a aprovação de um decreto-lei que generalizará o acesso das famílias ao mercado regulado a partir de Outubro, em que as tarifas vão aumentar 3,9% face aos valores actuais (considerando a revisão extraordinária de 3,3% em Julho).
Cabe às “famílias fazerem as contas”, mas podem contar com um aumento que será sempre inferior ao que foi anunciado pela EDP, salientaram os governantes.
A alteração à lei será feita para permitir as mudanças para o regulado a partir de 1 de Outubro.
No sector eléctrico esta possibilidade de mudança para o regulado já está prevista, mas para o gás natural só pode acontecer em circunstâncias específicas, como a falência do comercializador.
Duarte Cordeiro disse que esta é uma de várias medidas que têm estado a ser preparadas com o regulador no âmbito do aumento de preços da energia e que foi antecipada depois do anúncio da EDP.
“Os portugueses facilmente podem comparar preços” e tomar a decisão mais adequada, reforçou o ministro.
O governante anunciou também o regresso da iniciativa “bilha solidária”, que segundo o ministro teve pouca adesão. Em causa está um apoio de dez euros por botija de gás às famílias carenciadas.
Governo vai alterar a lei para eliminar limitações à possibilidade de regresso ao mercado regulado, à semelhança do que existe para a electricidade.
O Governo vai alterar a lei para permitir que, à semelhança da electricidade, os consumidores de gás natural também possam voltar à tarifa regulada, fixada pela ERSE, em que ficam protegidos de aumentos expressivos como os anunciados na quarta-feira pela EDP.
O ministro do Ambiente e o secretário de Estado da Energia, Duarte Cordeiro e João Galamba, anunciaram esta quinta-feira, em conferência de imprensa, a aprovação de um decreto-lei que generalizará o acesso das famílias ao mercado regulado a partir de Outubro, em que as tarifas vão aumentar 3,9% face aos valores actuais (considerando a revisão extraordinária de 3,3% em Julho).
Cabe às “famílias fazerem as contas”, mas podem contar com um aumento que será sempre inferior ao que foi anunciado pela EDP, salientaram os governantes.
A alteração à lei será feita para permitir as mudanças para o regulado a partir de 1 de Outubro.
No sector eléctrico esta possibilidade de mudança para o regulado já está prevista, mas para o gás natural só pode acontecer em circunstâncias específicas, como a falência do comercializador.
Duarte Cordeiro disse que esta é uma de várias medidas que têm estado a ser preparadas com o regulador no âmbito do aumento de preços da energia e que foi antecipada depois do anúncio da EDP.
“Os portugueses facilmente podem comparar preços” e tomar a decisão mais adequada, reforçou o ministro.
O governante anunciou também o regresso da iniciativa “bilha solidária”, que segundo o ministro teve pouca adesão. Em causa está um apoio de dez euros por botija de gás às famílias carenciadas.
3.8.22
Taxa de juro dos novos empréstimos à habitação acelerou para 1,47% em Junho
Rosa Soares, in Público on-line
Montante contratado caiu 93 milhões de euros para 1399 milhões de euros na habitação, mas subiu 14 milhões de euros no crédito para outros fins.
O montante de crédito à habitação contratado em Junho caiu ligeiramente, mas a taxa de juro média subiu de forma expressiva, para máximos desde 2018. De acordo com os dados divulgados esta terça-feira pelo Banco de Portugal (BdP), a taxa média subiu para 1,47% em Junho, acima dos 1,28% de Maio, e bem mais alta que os 0,81% fixados em Janeiro do corrente ano.
No total, os bancos concederam 2097 milhões de euros em novos empréstimos a particulares, menos 105 milhões face a mês anterior.
Para compra de habitação foram emprestados 1399 milhões de euros, menos 93 milhões que em Maio, um mês particularmente activo neste segmento, mas mais que os 1297 milhões de euros que no mesmo período do ano passado.
Nos outros créditos aos particulares verificou-se um comportamento misto, com o destinado ao consumo, como o crédito automóvel, a cair 27 milhões de euros, para 484 milhões de euros, e o crédito para outros fins a subir 14 milhões de euros, para 213 milhões.
Ao contrário do crédito à habitação, nos empréstimos ao consumo a taxa de juro média baixou ligeiramente, passando de 7,86% em Maio para 7,78% em Junho.
A subida da taxa média no crédito à habitação é explicada pela evolução das taxas Euribor, presentes na maioria dos novos empréstimos, que têm vindo a acumular valor praticamente desde o início do ano e já estão todas em terreno positivo.
A Euribor a 12 meses, que é praticamente o único prazo utilizado nos novos empréstimos para compra de casa, por ser a de valor mais elevado, fixou-se esta terça-feira em 0,926%, abaixo do máximo de 1,2%, registado em 22 de Julho. A de seis meses, ficou em 0,652%, e a de três meses a 0,260%.
As taxas Euribor, fixadas a partir das condições dos empréstimos que um conjunto alargado de bancos está disponível para realizar entre si, tem vindo a antecipar a alteração da política monetária do Banco Central Europeu (BCE). E confirmando ou mesmo superando as expectativas do mercado, o banco central aumentou as taxas directoras em Julho, em 0,5 pontos percentuais.
Montante contratado caiu 93 milhões de euros para 1399 milhões de euros na habitação, mas subiu 14 milhões de euros no crédito para outros fins.
O montante de crédito à habitação contratado em Junho caiu ligeiramente, mas a taxa de juro média subiu de forma expressiva, para máximos desde 2018. De acordo com os dados divulgados esta terça-feira pelo Banco de Portugal (BdP), a taxa média subiu para 1,47% em Junho, acima dos 1,28% de Maio, e bem mais alta que os 0,81% fixados em Janeiro do corrente ano.
No total, os bancos concederam 2097 milhões de euros em novos empréstimos a particulares, menos 105 milhões face a mês anterior.
Para compra de habitação foram emprestados 1399 milhões de euros, menos 93 milhões que em Maio, um mês particularmente activo neste segmento, mas mais que os 1297 milhões de euros que no mesmo período do ano passado.
Nos outros créditos aos particulares verificou-se um comportamento misto, com o destinado ao consumo, como o crédito automóvel, a cair 27 milhões de euros, para 484 milhões de euros, e o crédito para outros fins a subir 14 milhões de euros, para 213 milhões.
Ao contrário do crédito à habitação, nos empréstimos ao consumo a taxa de juro média baixou ligeiramente, passando de 7,86% em Maio para 7,78% em Junho.
A subida da taxa média no crédito à habitação é explicada pela evolução das taxas Euribor, presentes na maioria dos novos empréstimos, que têm vindo a acumular valor praticamente desde o início do ano e já estão todas em terreno positivo.
A Euribor a 12 meses, que é praticamente o único prazo utilizado nos novos empréstimos para compra de casa, por ser a de valor mais elevado, fixou-se esta terça-feira em 0,926%, abaixo do máximo de 1,2%, registado em 22 de Julho. A de seis meses, ficou em 0,652%, e a de três meses a 0,260%.
As taxas Euribor, fixadas a partir das condições dos empréstimos que um conjunto alargado de bancos está disponível para realizar entre si, tem vindo a antecipar a alteração da política monetária do Banco Central Europeu (BCE). E confirmando ou mesmo superando as expectativas do mercado, o banco central aumentou as taxas directoras em Julho, em 0,5 pontos percentuais.
Inflação na OCDE atinge 10,3% em Junho e regista máximo de 34 anos
in Público on-line
Inflação homóloga na OCDE sobe para 10,3% em Junho, um máximo desde 1988.
A inflação homóloga na OCDE subiu para 10,3% em Junho, um máximo desde 1988, devido sobretudo à subida dos preços da alimentação e da energia na maioria dos países, afirmou a organização nesta quarta-feira. A taxa de Junho compara com os 9,7% em Maio.
Num comunicado hoje divulgado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) adianta que num terço dos países da OCDE a inflação homóloga aumentou dois dígitos, com a Turquia a liderar com um acréscimo de 78,6%, ao contrário do Japão, onde subiu apenas 2,4%.
Os preços dos alimentos aumentaram 13,3% em Junho, contra 12,6% em Maio, um máximo desde Julho de 1975.
A energia aumentou 40,7% em Junho deste ano face ao mesmo mês de 2021, contra 35,4% em Maio.
Excluindo alimentos e energia, a inflação homóloga subiu 6,7%, mais três décimas de ponto percentual do que em Maio.
Os aumentos de preços foram de 7,9% nos países do G7, mais quatro décimas de ponto percentual do que em Maio, com a energia a ser o principal acelerador em França, Alemanha, Itália e Japão.
Nestes países, a inflação subjacente, excluindo os preços dos alimentos e da energia, foi de 4,7% em Junho.
O índice harmonizado na zona euro foi de 8,6%, mais cinco décimas do que em Maio, disse a OCDE, que recordou que o Eurostat estima que o aumento homólogo será de 8,9% em Julho.
Nos países do G20, o aumento dos preços foi de 9,2% em Junho, mais três décimas do que em Maio, com aumentos acentuados em todas as economias emergentes excepto a Índia.
Inflação homóloga na OCDE sobe para 10,3% em Junho, um máximo desde 1988.
A inflação homóloga na OCDE subiu para 10,3% em Junho, um máximo desde 1988, devido sobretudo à subida dos preços da alimentação e da energia na maioria dos países, afirmou a organização nesta quarta-feira. A taxa de Junho compara com os 9,7% em Maio.
Num comunicado hoje divulgado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) adianta que num terço dos países da OCDE a inflação homóloga aumentou dois dígitos, com a Turquia a liderar com um acréscimo de 78,6%, ao contrário do Japão, onde subiu apenas 2,4%.
Os preços dos alimentos aumentaram 13,3% em Junho, contra 12,6% em Maio, um máximo desde Julho de 1975.
A energia aumentou 40,7% em Junho deste ano face ao mesmo mês de 2021, contra 35,4% em Maio.
Excluindo alimentos e energia, a inflação homóloga subiu 6,7%, mais três décimas de ponto percentual do que em Maio.
Os aumentos de preços foram de 7,9% nos países do G7, mais quatro décimas de ponto percentual do que em Maio, com a energia a ser o principal acelerador em França, Alemanha, Itália e Japão.
Nestes países, a inflação subjacente, excluindo os preços dos alimentos e da energia, foi de 4,7% em Junho.
O índice harmonizado na zona euro foi de 8,6%, mais cinco décimas do que em Maio, disse a OCDE, que recordou que o Eurostat estima que o aumento homólogo será de 8,9% em Julho.
Nos países do G20, o aumento dos preços foi de 9,2% em Junho, mais três décimas do que em Maio, com aumentos acentuados em todas as economias emergentes excepto a Índia.
Consumo diário de energia aumentou 7,2% em julho e bateu recordes no verão
in Expresso
As temperaturas elevadas levaram o consumo de energia elétrica em Portugal a subir 7,2% em julho e a atingir o valor mais elevado de sempre no verão no dia 13 de julho
O consumo de energia elétrica em Portugal subiu 7,2% em julho em relação ao período homólogo, devido às temperaturas elevadas, tendo atingido, no dia 13, o valor mais elevado de sempre no verão, segundo dados da REN.
Assim, de acordo com a informação divulgada pela REN - Redes Energéticas Nacionais, o “consumo de energia elétrica em Portugal aumentou 7,2% no mês de julho, face ao período homólogo, impulsionado pelas temperaturas acima dos valores normais que se fizeram sentir”.
Paralelamente, “no dia 13, uma quarta-feira, registou-se mesmo o consumo diário mais elevado de sempre em Portugal em período de verão, 163,5 GWh [gigawatts-hora], ultrapassando o anterior máximo, registado em 2010”, destacou.
De acordo com os mesmos dados, “com correção dos efeitos de temperatura e número de dias úteis registou-se um crescimento homólogo mensal de 4,9%”, indicou a REN.
De acordo com a empresa, “nos primeiros sete meses do ano, o consumo cresceu, face ao mesmo período do ano anterior, 3,5%, ou 3,3% com correção da temperatura e dias úteis”.
Por sua vez, “o regime hidroelétrico continua seco, com um índice de produtibilidade de 0,30 (média histórica de 1)”, indicou, mas alertando que este valor tem “pouco significado porque se trata de um período do ano em que as afluências são praticamente nulas”.
Já “o regime eólico ficou também abaixo dos valores médios, registando 0,88 (média histórica de 1), enquanto nas fotovoltaicas foi mais favorável com 1,08 (média histórica de 1)”.
Segundo a REN, “a produção renovável abasteceu 36% do consumo, a produção não renovável 35%, enquanto os restantes 29% corresponderam a energia importada”.
No período de “janeiro a julho o índice de produtibilidade hidroelétrica registou 0,34 (média histórica de 1), o de produtibilidade eólica 0,94 e o de produtibilidade solar 1,10” sendo que “a produção renovável abasteceu 46% do consumo, repartida pela eólica com 24%, hidroelétrica com 10%, biomassa com 7% e fotovoltaica com 5%”, tendo a produção a gás natural abastecido 32% do consumo e os restantes 22% corresponderam a energia importada.
Por sua vez, “o mercado de gás natural voltou a registar uma evolução mensal homóloga positiva, 5,4%, devido ao comportamento do segmento de produção de energia elétrica que cresceu 38%”, mas “no segmento convencional mantém-se a tendência de quebra, com uma variação mensal homóloga negativa de 14,8%”.
Entre janeiro e julho, “o consumo de gás natural está praticamente em linha com o verificado no mesmo período do ano anterior, registando uma queda marginal de 0,3%, resultado de uma quebra de 21% no segmento convencional e de um crescimento de 47% no segmento de produção de energia elétrica”, disse a REN.
A empresa recordou que o “aprovisionamento do sistema nacional” se mantém “quase integralmente a partir do terminal de GNL de Sines”.
As temperaturas elevadas levaram o consumo de energia elétrica em Portugal a subir 7,2% em julho e a atingir o valor mais elevado de sempre no verão no dia 13 de julho
O consumo de energia elétrica em Portugal subiu 7,2% em julho em relação ao período homólogo, devido às temperaturas elevadas, tendo atingido, no dia 13, o valor mais elevado de sempre no verão, segundo dados da REN.
Assim, de acordo com a informação divulgada pela REN - Redes Energéticas Nacionais, o “consumo de energia elétrica em Portugal aumentou 7,2% no mês de julho, face ao período homólogo, impulsionado pelas temperaturas acima dos valores normais que se fizeram sentir”.
Paralelamente, “no dia 13, uma quarta-feira, registou-se mesmo o consumo diário mais elevado de sempre em Portugal em período de verão, 163,5 GWh [gigawatts-hora], ultrapassando o anterior máximo, registado em 2010”, destacou.
De acordo com os mesmos dados, “com correção dos efeitos de temperatura e número de dias úteis registou-se um crescimento homólogo mensal de 4,9%”, indicou a REN.
De acordo com a empresa, “nos primeiros sete meses do ano, o consumo cresceu, face ao mesmo período do ano anterior, 3,5%, ou 3,3% com correção da temperatura e dias úteis”.
Por sua vez, “o regime hidroelétrico continua seco, com um índice de produtibilidade de 0,30 (média histórica de 1)”, indicou, mas alertando que este valor tem “pouco significado porque se trata de um período do ano em que as afluências são praticamente nulas”.
Já “o regime eólico ficou também abaixo dos valores médios, registando 0,88 (média histórica de 1), enquanto nas fotovoltaicas foi mais favorável com 1,08 (média histórica de 1)”.
Segundo a REN, “a produção renovável abasteceu 36% do consumo, a produção não renovável 35%, enquanto os restantes 29% corresponderam a energia importada”.
No período de “janeiro a julho o índice de produtibilidade hidroelétrica registou 0,34 (média histórica de 1), o de produtibilidade eólica 0,94 e o de produtibilidade solar 1,10” sendo que “a produção renovável abasteceu 46% do consumo, repartida pela eólica com 24%, hidroelétrica com 10%, biomassa com 7% e fotovoltaica com 5%”, tendo a produção a gás natural abastecido 32% do consumo e os restantes 22% corresponderam a energia importada.
Por sua vez, “o mercado de gás natural voltou a registar uma evolução mensal homóloga positiva, 5,4%, devido ao comportamento do segmento de produção de energia elétrica que cresceu 38%”, mas “no segmento convencional mantém-se a tendência de quebra, com uma variação mensal homóloga negativa de 14,8%”.
Entre janeiro e julho, “o consumo de gás natural está praticamente em linha com o verificado no mesmo período do ano anterior, registando uma queda marginal de 0,3%, resultado de uma quebra de 21% no segmento convencional e de um crescimento de 47% no segmento de produção de energia elétrica”, disse a REN.
A empresa recordou que o “aprovisionamento do sistema nacional” se mantém “quase integralmente a partir do terminal de GNL de Sines”.
15.6.22
Aumentos levam famílias portuguesas a mudar hábitos de consumo
Alda Martins, in CNN
A rápida subida dos preços e a incerteza financeira que a guerra gerou estão a mudar a forma como as famílias se relacionam com o consumo.Cortam nos bens não essenciais e mesmo na alimentação as escolhas são mais seletivas. O critério do preço passou a ser o mais importante para a esmagadora maioria dos consumidores.
9.2.22
Acesso a crédito à habitação fica mais difícil com alteração ao prazo dos contratos
Rosa Soares, in Público on-line
Novos empréstimos a 40 anos deverão ser concedidos apenas a clientes com idade até 30 anos, o que dá menos flexibilidade num cenário de subida de taxas de juro. Deco dividida em relação a novas restrições.
A recomendação aos bancos para que adoptassem prazos mais curtos nos novos contratos de crédito à habitação já vem de 2018, mas não foi cumprida na dimensão pretendida pelo supervisor. Agora, o Banco de Portugal (BdP) fixou novos limites, como a de empréstimos a 40 anos serem concedidos apenas a consumidores com idade até 30 anos, de forma a tornar a concessão deste crédito mais segura, mas também para evitar distorções de concorrência entre instituições, nomeadamente a que é feita por entidades com estratégias mais agressivas de conquista de quota de mercado.
Depois da recomendação feita em 2018 para que a duração média dos novos contratos convergissem para 30 anos no final de 2022, o regulador definiu, recentemente, prazos mais rígidos para atingir essa meta. Assim, a partir de 1 de Abril, “a maturidade máxima deve ser de 40 anos, para mutuários com idade inferior ou igual a 30 anos; de 37 anos, para mutuários com idade superior a 30 anos e inferior ou igual a 35 anos; e de 35 anos, para mutuários com idade superior a 35 anos”.
De referir que, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira de Dezembro de 2021, “a maturidade média dos novos empréstimos à habitação manteve-se relativamente estável em cerca de 33 anos, após uma redução de 33,5 anos, em Julho de 2018, para 32,6 anos, em Dezembro de 2019, mas logo seguida de um novo aumento para 33 anos, em Setembro de 2021”, o que levou o supervisor a agir.
O BdP, que foi um dos 23 países da União Europeia (UE) a avançar com uma medida macroprudencial para o crédito (à habitação e ao consumo), mas que optou pela forma de recomendação, ao contrário da maioria das autoridades dos restantes Estados-membros, que avançaram para a sua obrigatoriedade, garante que, “de forma geral, os limites máximos definidos para a maturidade têm vindo a ser respeitados”, e que “a eficácia da recomendação não tem sido posta em causa por esta não ser de cumprimento obrigatório”.
Ao PÚBLICO, o regulador destaca o facto de “a recomendação estar sujeita ao princípio de cumprimento ou explicação (comply or explain, em língua inglesa)”, facto que lhe permite “avaliar de forma regular a adequação das justificações apresentadas pelas instituições quando se desviam do estabelecido” na medida. Garante ainda que “se a justificação apresentada pelas instituições não for considerada adequada, o Banco de Portugal interage com a instituição no sentido de regularizar a situação”.
Sem concretizar, o supervisor refere ainda que “monitoriza a implementação da recomendação com elevada frequência, e, caso seja necessário, poderá adoptar medidas adicionais para garantir o seu cumprimento”.
Também pode fazer login usando a sua conta Google
Portugal está entre os países que mais recomendações introduziram, abrangendo três vectores, e entre os que apresentam limites mais elevados ou menos restritivos. O primeiro foi a fixação do montante do empréstimo/valor da garantia (loan-to-value, ou LTV, na sigla em inglês), que é no máximo de 90% para compra de habitação própria e permanente, de 100% para imóveis detidos pelas instituições bancárias, e de 80% para outros empréstimos, como segundas habitações.
O segundo a taxa de esforço ou o peso dos créditos no orçamento familiar (debt-service-to-income, ou DSTI), que serve para medir o risco de incumprimento, que é 50%, podendo ainda atingir os 60% ou mais numa percentagem reduzida de empréstimos, e que é uma das mais elevadas no conjunto dos países. Mas, aqui, o BdP inclui no cálculo da DSTI os encargos com todos os empréstimos do mutuário, e não apenas o do crédito à habitação.
Relativamente à DSTI, o BdP introduziu ainda outra particularidade, que se bem explicada pelas instituições bancárias e tida em devida conta pelos particulares pode ser muito útil num cenário de subida das taxas de juro. Trata-se da simulação do encargo com o empréstimo no caso de subida, em três pontos percentuais, da taxa contratada. E ainda de, no cálculo da taxa de esforço e para maturidades acima da idade de reforma, ser considera ainda uma redução de rendimento com a passagem do mutuário a essa situação, uma vez que, habitualmente, se verifica uma queda do rendimento.
O terceiro vector é precisamente a duração dos contratos, agora de 40 até mutuários com 35 anos, a convergir para a média dos 30, mas bem acima, por exemplo, dos 25 anos definidos em França.
O reverso da medalha
A medida macroprudencial visa, essencialmente, regular o mercado de crédito na perspectiva das instituições bancárias, onde a concorrência tem sido desenfreada nos últimos anos, com a adopção de práticas que contrariam as regras da concorrência e de sustentabilidade. A concorrência na concessão de crédito faz-se de várias formas, nomeadamente através de spreads (ou margem comercial) mais baixos (actualmente em mínimos de 1% em várias instituições e até abaixo desse patamar em pelo menos uma delas), mas também pela fixação de prazos mais longos, entre outros.
Genericamente, os empréstimos à habitação por prazos mais longos permitem prestações mensais mais baixas (embora o custo total do crédito seja mais elevado), e taxas de esforço (ou DSTI) também mais baixas.
Mas prazos mais alargados também têm riscos mais elevados para os consumidores, como reconhece Natália Nunes, directora do Gabinete de Apoio Financeiro da Deco, nomeadamente por permitiram “a contratação de crédito por parte de famílias com orçamentos mais apertados, com maior risco de entrarem em incumprimento, e de inviabilizarem futuras reestruturações de crédito, nos casos em que se verifique incapacidade de pagamento, já que uma das medidas nesse tipo de processos passa precisamente pela extensão da maturidade dos contratos”.
Assim, a posição associação de defesa do consumidor face às novas medidas divide-se. Por um lado, considera que “é relevante a preocupação com a limitação da maturidade dos empréstimos nos anos em que o mutuário já esteja em idade de reforma (...) considerando um horizonte em que a idade máxima do mutuário tenderá para os 70 anos. Mas, por outro, “manifesta a sua preocupação com o impacto destas limitações de maturidade no valor das prestações dos empréstimos”.
Destaca ainda a Deco que o impacto da redução das maturidades no valor das prestações acontece num contexto em que “os preços do imobiliário evidenciam a manutenção ou mesmo um aumento em algumas áreas dos grandes centros urbanos, mas também de subida da inflação, que poderá desencadear uma subida de taxas de juro, e ainda de agravamento das comissões bancárias”.
A associação alerta ainda para o facto de a conjugação daqueles factores poder contribuir para “a potencial exclusão da classe média em adquirir habitação nas grandes cidades, sendo forçada a sair para as áreas limítrofes, uma vez que os valores das prestações calculadas terão de ser, também elas, vistas à luz das limitações aos rácios de taxas de esforço”. Tendo em conta este risco, pede ao BdP “um acompanhamento da implementação da actual recomendação e do mercado, de modo a proceder a adaptações destes entendimentos sempre que tal se revele necessário”.
A medida macroprudencial também incluiu o crédito ao consumo, através da recomendação da maturidade de sete anos nos novos contratos de crédito pessoal, de 10 anos nos contratos de crédito pessoal com as finalidades educação, saúde e energias renováveis, desde que devidamente comprovadas, e de 10 anos nos novos contratos de crédito automóvel. O BdP adianta que esta recomendação está a ser cumprida.
Novos empréstimos a 40 anos deverão ser concedidos apenas a clientes com idade até 30 anos, o que dá menos flexibilidade num cenário de subida de taxas de juro. Deco dividida em relação a novas restrições.
A recomendação aos bancos para que adoptassem prazos mais curtos nos novos contratos de crédito à habitação já vem de 2018, mas não foi cumprida na dimensão pretendida pelo supervisor. Agora, o Banco de Portugal (BdP) fixou novos limites, como a de empréstimos a 40 anos serem concedidos apenas a consumidores com idade até 30 anos, de forma a tornar a concessão deste crédito mais segura, mas também para evitar distorções de concorrência entre instituições, nomeadamente a que é feita por entidades com estratégias mais agressivas de conquista de quota de mercado.
Depois da recomendação feita em 2018 para que a duração média dos novos contratos convergissem para 30 anos no final de 2022, o regulador definiu, recentemente, prazos mais rígidos para atingir essa meta. Assim, a partir de 1 de Abril, “a maturidade máxima deve ser de 40 anos, para mutuários com idade inferior ou igual a 30 anos; de 37 anos, para mutuários com idade superior a 30 anos e inferior ou igual a 35 anos; e de 35 anos, para mutuários com idade superior a 35 anos”.
De referir que, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira de Dezembro de 2021, “a maturidade média dos novos empréstimos à habitação manteve-se relativamente estável em cerca de 33 anos, após uma redução de 33,5 anos, em Julho de 2018, para 32,6 anos, em Dezembro de 2019, mas logo seguida de um novo aumento para 33 anos, em Setembro de 2021”, o que levou o supervisor a agir.
O BdP, que foi um dos 23 países da União Europeia (UE) a avançar com uma medida macroprudencial para o crédito (à habitação e ao consumo), mas que optou pela forma de recomendação, ao contrário da maioria das autoridades dos restantes Estados-membros, que avançaram para a sua obrigatoriedade, garante que, “de forma geral, os limites máximos definidos para a maturidade têm vindo a ser respeitados”, e que “a eficácia da recomendação não tem sido posta em causa por esta não ser de cumprimento obrigatório”.
Ao PÚBLICO, o regulador destaca o facto de “a recomendação estar sujeita ao princípio de cumprimento ou explicação (comply or explain, em língua inglesa)”, facto que lhe permite “avaliar de forma regular a adequação das justificações apresentadas pelas instituições quando se desviam do estabelecido” na medida. Garante ainda que “se a justificação apresentada pelas instituições não for considerada adequada, o Banco de Portugal interage com a instituição no sentido de regularizar a situação”.
Sem concretizar, o supervisor refere ainda que “monitoriza a implementação da recomendação com elevada frequência, e, caso seja necessário, poderá adoptar medidas adicionais para garantir o seu cumprimento”.
Também pode fazer login usando a sua conta Google
Portugal está entre os países que mais recomendações introduziram, abrangendo três vectores, e entre os que apresentam limites mais elevados ou menos restritivos. O primeiro foi a fixação do montante do empréstimo/valor da garantia (loan-to-value, ou LTV, na sigla em inglês), que é no máximo de 90% para compra de habitação própria e permanente, de 100% para imóveis detidos pelas instituições bancárias, e de 80% para outros empréstimos, como segundas habitações.
O segundo a taxa de esforço ou o peso dos créditos no orçamento familiar (debt-service-to-income, ou DSTI), que serve para medir o risco de incumprimento, que é 50%, podendo ainda atingir os 60% ou mais numa percentagem reduzida de empréstimos, e que é uma das mais elevadas no conjunto dos países. Mas, aqui, o BdP inclui no cálculo da DSTI os encargos com todos os empréstimos do mutuário, e não apenas o do crédito à habitação.
Relativamente à DSTI, o BdP introduziu ainda outra particularidade, que se bem explicada pelas instituições bancárias e tida em devida conta pelos particulares pode ser muito útil num cenário de subida das taxas de juro. Trata-se da simulação do encargo com o empréstimo no caso de subida, em três pontos percentuais, da taxa contratada. E ainda de, no cálculo da taxa de esforço e para maturidades acima da idade de reforma, ser considera ainda uma redução de rendimento com a passagem do mutuário a essa situação, uma vez que, habitualmente, se verifica uma queda do rendimento.
O terceiro vector é precisamente a duração dos contratos, agora de 40 até mutuários com 35 anos, a convergir para a média dos 30, mas bem acima, por exemplo, dos 25 anos definidos em França.
O reverso da medalha
A medida macroprudencial visa, essencialmente, regular o mercado de crédito na perspectiva das instituições bancárias, onde a concorrência tem sido desenfreada nos últimos anos, com a adopção de práticas que contrariam as regras da concorrência e de sustentabilidade. A concorrência na concessão de crédito faz-se de várias formas, nomeadamente através de spreads (ou margem comercial) mais baixos (actualmente em mínimos de 1% em várias instituições e até abaixo desse patamar em pelo menos uma delas), mas também pela fixação de prazos mais longos, entre outros.
Genericamente, os empréstimos à habitação por prazos mais longos permitem prestações mensais mais baixas (embora o custo total do crédito seja mais elevado), e taxas de esforço (ou DSTI) também mais baixas.
Mas prazos mais alargados também têm riscos mais elevados para os consumidores, como reconhece Natália Nunes, directora do Gabinete de Apoio Financeiro da Deco, nomeadamente por permitiram “a contratação de crédito por parte de famílias com orçamentos mais apertados, com maior risco de entrarem em incumprimento, e de inviabilizarem futuras reestruturações de crédito, nos casos em que se verifique incapacidade de pagamento, já que uma das medidas nesse tipo de processos passa precisamente pela extensão da maturidade dos contratos”.
Assim, a posição associação de defesa do consumidor face às novas medidas divide-se. Por um lado, considera que “é relevante a preocupação com a limitação da maturidade dos empréstimos nos anos em que o mutuário já esteja em idade de reforma (...) considerando um horizonte em que a idade máxima do mutuário tenderá para os 70 anos. Mas, por outro, “manifesta a sua preocupação com o impacto destas limitações de maturidade no valor das prestações dos empréstimos”.
Destaca ainda a Deco que o impacto da redução das maturidades no valor das prestações acontece num contexto em que “os preços do imobiliário evidenciam a manutenção ou mesmo um aumento em algumas áreas dos grandes centros urbanos, mas também de subida da inflação, que poderá desencadear uma subida de taxas de juro, e ainda de agravamento das comissões bancárias”.
A associação alerta ainda para o facto de a conjugação daqueles factores poder contribuir para “a potencial exclusão da classe média em adquirir habitação nas grandes cidades, sendo forçada a sair para as áreas limítrofes, uma vez que os valores das prestações calculadas terão de ser, também elas, vistas à luz das limitações aos rácios de taxas de esforço”. Tendo em conta este risco, pede ao BdP “um acompanhamento da implementação da actual recomendação e do mercado, de modo a proceder a adaptações destes entendimentos sempre que tal se revele necessário”.
A medida macroprudencial também incluiu o crédito ao consumo, através da recomendação da maturidade de sete anos nos novos contratos de crédito pessoal, de 10 anos nos contratos de crédito pessoal com as finalidades educação, saúde e energias renováveis, desde que devidamente comprovadas, e de 10 anos nos novos contratos de crédito automóvel. O BdP adianta que esta recomendação está a ser cumprida.
26.10.21
Deco lança ferramenta para ajudar famílias a evitar insolvência
Rosa Soares, in Público on-line
Associação de defesa do consumidor lança guia para apoiar famílias com dificuldade em pagar todas contas. Alteração ao regime da insolvência pessoais chega ao Parlamento.
A pensar nas dificuldades financeiras que muitas famílias possam estar a sentir com o fim das moratórias de crédito, mas também para todas as restantes que não conseguem pagam as suas contas, o Gabinete de Protecção Financeira (GPF) da Deco preparou um guia digital, que pode ser livremente descarregado a partir do seu site, e ainda três vídeos didácticos, sobre as soluções que podem evitar danos maiores aos particulares.
“As ferramentas”, como lhe chama Natália Nunes, directora do CPF, estão disponíveis a partir desta segunda-feira, e são, como referiu, uma forma diferente de celebrar o Dia Mundial da Poupança, que se assinala no próximo domingo, 31 de Outubro.
Com o guia, o GPF pretende ainda dar mais informação aos consumidores sobre o regime da insolvência pessoal, que vai ser melhorado, no âmbito da transposição de uma directiva comunitária, cuja proposta de diploma já deu entrada no Parlamento.
Uma das alterações importantes ao regime será a redução substancial do tempo em que as famílias ficam com os seus rendimentos reduzidos, uma vez que boa parte deles, bem como outros bens, passam a ser afectos ao pagamento das dívidas. Esse período passará dos actuais cinco anos para 30 meses, ou seja, dois anos e meio. Findo esse período, tal como prevê a directiva europeia e é prática comum em vários países, o particular fica livre de dívidas ou tem um perdão das restantes dívidas, o que juridicamente se designa por concessão da exoneração do passivo.
As novas regras, que deverão entrar em vigor no início do próximo ano, pretendem garantir “uma segunda oportunidade” aos sobreendividados.
A redução do prazo que aí vem não deve justificar uma “corrida” a esse mecanismo, “apresentada actualmente por algumas entidades de aconselhamento como a solução para todos os problemas”. “Não é uma solução milagrosa”, garante a directora do GPF ao PÚBLICO, referindo que “só deve ocorrer depois de esgotadas outras soluções, pelas consequências que esse processo acarreta no futuro”. A título de exemplo, diz que chegam com frequência à Deco famílias que depois desse processo “não conseguem abrir uma conta bancária ou obter um novo crédito, ou mesmo contratar um pacote de telecomunicações”.
Com o guia, a associação de defesa dos consumidores pretende, numa primeira etapa, ajudar os particulares a organizar o seu orçamento, com a contabilização de todas as despesas correntes e a respectiva cobertura pelos rendimentos, e perceber onde pode haver poupanças. Num segundo patamar, nomeadamente quando há dívidas por pagar, dá a conhecer os mecanismos a que o particular ou a família pode recorrer, como os planos de pagamento de facturas em atraso referentes ao fornecimento de água, luz e outras, e ou a restruturação de créditos, à habitação ou outros. Em alguns casos são procedimentos simples, mas que muitos consumidores desconhecem, deixando o problema arrastar-se tempo e agravando-se significativamente.
Acompanhamento na insolvência
Relativamente à alteração ao regime de insolvência, cuja alteração do prazo foi revelada pelo Ministro da Economia em recente entrevista ao Jornal de Negócios, a directora do GPF defende que deveria ser acompanhada de um reforço de informação aos particulares, bem como deveria ser reforçado o seu acompanhamento durante esse período, devendo ainda ser melhorada a sua literacia financeira, de forma a evitar situações de sobreendividamento no futuro.
Natália Nunes refere, por exemplo, que há casos em que os insolventes falham o plano de pagamentos acordado, sem terem consciência das consequências, nomeadamente o alargamento do prazo para a exoneração do passivo. Por outro lado, considera negativo que não seja feita uma cativação automática dos rendimentos do devedor, como acontece quando há penhoras, de forma a não depender deste o pagamento dos montantes acordados.
Para que o processo seja o mais claro possível, Natália Nunes defende ainda que os devedores devem procurar o apoio de um advogado, ou, nessa impossibilidade, pedir apoio jurídico, para a nomeação de advogado oficioso.
O diploma de transposição da directiva 2019/1023, aprovado em Conselho de Ministros, no final de Setembro, que prevê um conjunto alargado de alterações aos regimes de Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas, não contempla algumas das preocupações da directora do GPF.
Contudo, o diploma ainda será discutido no Parlamento, prevendo-se a audição de várias entidades, como a Associação Portuguesa dos Administradores Judiciais, a Associação Portuguesa de Bancos, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, a Comissão para o Acompanhamento dos Auxiliares da Justiça, o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Superior do Ministério Público, a Ordem dos Advogados e o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público.
Associação de defesa do consumidor lança guia para apoiar famílias com dificuldade em pagar todas contas. Alteração ao regime da insolvência pessoais chega ao Parlamento.
A pensar nas dificuldades financeiras que muitas famílias possam estar a sentir com o fim das moratórias de crédito, mas também para todas as restantes que não conseguem pagam as suas contas, o Gabinete de Protecção Financeira (GPF) da Deco preparou um guia digital, que pode ser livremente descarregado a partir do seu site, e ainda três vídeos didácticos, sobre as soluções que podem evitar danos maiores aos particulares.
“As ferramentas”, como lhe chama Natália Nunes, directora do CPF, estão disponíveis a partir desta segunda-feira, e são, como referiu, uma forma diferente de celebrar o Dia Mundial da Poupança, que se assinala no próximo domingo, 31 de Outubro.
Com o guia, o GPF pretende ainda dar mais informação aos consumidores sobre o regime da insolvência pessoal, que vai ser melhorado, no âmbito da transposição de uma directiva comunitária, cuja proposta de diploma já deu entrada no Parlamento.
Uma das alterações importantes ao regime será a redução substancial do tempo em que as famílias ficam com os seus rendimentos reduzidos, uma vez que boa parte deles, bem como outros bens, passam a ser afectos ao pagamento das dívidas. Esse período passará dos actuais cinco anos para 30 meses, ou seja, dois anos e meio. Findo esse período, tal como prevê a directiva europeia e é prática comum em vários países, o particular fica livre de dívidas ou tem um perdão das restantes dívidas, o que juridicamente se designa por concessão da exoneração do passivo.
As novas regras, que deverão entrar em vigor no início do próximo ano, pretendem garantir “uma segunda oportunidade” aos sobreendividados.
A redução do prazo que aí vem não deve justificar uma “corrida” a esse mecanismo, “apresentada actualmente por algumas entidades de aconselhamento como a solução para todos os problemas”. “Não é uma solução milagrosa”, garante a directora do GPF ao PÚBLICO, referindo que “só deve ocorrer depois de esgotadas outras soluções, pelas consequências que esse processo acarreta no futuro”. A título de exemplo, diz que chegam com frequência à Deco famílias que depois desse processo “não conseguem abrir uma conta bancária ou obter um novo crédito, ou mesmo contratar um pacote de telecomunicações”.
Com o guia, a associação de defesa dos consumidores pretende, numa primeira etapa, ajudar os particulares a organizar o seu orçamento, com a contabilização de todas as despesas correntes e a respectiva cobertura pelos rendimentos, e perceber onde pode haver poupanças. Num segundo patamar, nomeadamente quando há dívidas por pagar, dá a conhecer os mecanismos a que o particular ou a família pode recorrer, como os planos de pagamento de facturas em atraso referentes ao fornecimento de água, luz e outras, e ou a restruturação de créditos, à habitação ou outros. Em alguns casos são procedimentos simples, mas que muitos consumidores desconhecem, deixando o problema arrastar-se tempo e agravando-se significativamente.
Acompanhamento na insolvência
Relativamente à alteração ao regime de insolvência, cuja alteração do prazo foi revelada pelo Ministro da Economia em recente entrevista ao Jornal de Negócios, a directora do GPF defende que deveria ser acompanhada de um reforço de informação aos particulares, bem como deveria ser reforçado o seu acompanhamento durante esse período, devendo ainda ser melhorada a sua literacia financeira, de forma a evitar situações de sobreendividamento no futuro.
Natália Nunes refere, por exemplo, que há casos em que os insolventes falham o plano de pagamentos acordado, sem terem consciência das consequências, nomeadamente o alargamento do prazo para a exoneração do passivo. Por outro lado, considera negativo que não seja feita uma cativação automática dos rendimentos do devedor, como acontece quando há penhoras, de forma a não depender deste o pagamento dos montantes acordados.
Para que o processo seja o mais claro possível, Natália Nunes defende ainda que os devedores devem procurar o apoio de um advogado, ou, nessa impossibilidade, pedir apoio jurídico, para a nomeação de advogado oficioso.
O diploma de transposição da directiva 2019/1023, aprovado em Conselho de Ministros, no final de Setembro, que prevê um conjunto alargado de alterações aos regimes de Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas, não contempla algumas das preocupações da directora do GPF.
Contudo, o diploma ainda será discutido no Parlamento, prevendo-se a audição de várias entidades, como a Associação Portuguesa dos Administradores Judiciais, a Associação Portuguesa de Bancos, a Associação Sindical dos Juízes Portugueses, a Comissão para o Acompanhamento dos Auxiliares da Justiça, o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, o Conselho Superior da Magistratura, o Conselho Superior do Ministério Público, a Ordem dos Advogados e o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público.
31.8.21
Famílias já consomem mais do que em 2019 e o investimento também está acima do pré-crise (mas as exportações estão muito abaixo)
Sónia M. Lourenço, in Expresso
Produto Interno Bruto português no segundo trimestre ficou apenas 3,4% abaixo do mesmo período de 2019. Despesas de consumo das famílias e das Administrações Públicas já ultrapassaram o patamar pré-crise, tal como o investimento. Mas as exportações, penalizadas pelo turismo, ainda contabilizam uma quebra superior a 15%
Perto de 1750 milhões de euros. Foi essa a distância a que o Produto Interno Bruto (PIB) português no segundo trimestre deste ano ficou do valor registado no mesmo período de 2019, ou seja, antes da crise pandémica. A diferença foi de apenas 3,4%, sinalizando que a economia portuguesa está perto de regressar ao patamar pré-crise. Mas, uma análise do Expresso aos dados publicados esta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que a recuperação está a ser assimétrica. Na frente interna, o consumo das famílias e das Administrações Públicas já ficou no segundo trimestre acima do segundo trimestre de 2019. Também o investimento ultrapassou o patamar pré-crise. Mas, na frente externa, as exportações, penalizadas pelo turismo, ainda contabilizam perdas a dois dígitos.
Um crescimento histórico de 15,5% - o mais elevado desde pelo menos 1978. Foi assim o comportamento da economia portuguesa no segundo trimestre deste ano, beneficiando tanto do efeito de base - um ano antes Portugal enfrentou o primeiro confinamento geral para travar a pandemia de covid-19 e a atividade económica caiu a pique - como do impulso dado pela reabertura do país após o segundo confinamento geral no início de 2021.
Como resultado, o PIB atingiu 48,99 mil milhões de euros, ficando a cerca de 1750 milhões de euros de distância do valor do segundo trimestre de 2019. Em termos percentuais, a quebra foi de 3,4%.
Contudo, por trás destes números, estão velocidades de recuperação diferentes entre os vários componentes do PIB. Na frente interna predominam as boas notícias, mas na frente externa os dados são mais sombrios.
Os números do INE indicam que no segundo trimestre deste ano a procura interna em Portugal - consumo privado e público, bem como investimento - ficou 1,1% acima do registado no segundo trimestre de 2019.
As despesas de consumo final ultrapassaram o patamar pré-crise, com o valor do segundo trimestre a ultrapassar em 1,5% o do mesmo período de 2019. E tanto as famílias residentes no país (mais 0,6%), como as Administrações Públicas (mais 5,6%) consumiram acima do período homólogo de 2019.
Onde é que as famílias estão a gastar mais? Comparando as despesas de consumo final no segundo trimestre de 2021 e no mesmo período de 2019, conclui-se que houve um aumento de 7,1% nos bens alimentares. Já nos bens duradouros - automóveis, mobílias e computadores, entre outros bens - as despesas de consumo final das famílias ficaram praticamente em linha com 2019, com uma quebra muito ligeira de 0,5%. Por fim, nos bens correntes não alimentares e serviços, o patamar pré-crise ainda não foi atingido, mas por uma margem pequena (redução de 1%).
Passando para o investimento, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) é o indicador mais importante na análise e regista um crescimento de 2,8% entre o segundo trimestre de 2019 e o mesmo período deste ano. Mais ainda, todas as componentes da FBCP, com exceção do equipamento de transporte, estão acima do patamar pré-crise pandémica. Os incrementos são de 0,4% nos recursos biológicos cultivados, de 2,3% nas outras máquinas e equipamentos e sistemas de armamento, de 9,8% na construção, e de 0,6% nos produtos de propriedade intelectual. Em sentido inverso, como referido, a FBCF em equipamento de transporte contabiliza uma queda acentuada, de 29,6%.
TURISMO PENALIZA EXPORTAÇÕES
O cenário é diferente quando se analisa a frente externa da economia portuguesa. No segundo trimestre deste ano as exportações ficaram 15,3% abaixo do valor alcançado no mesmo período de 2019, muitos penalizadas pela componente dos serviços, onde o turismo tem um peso decisivo. De facto, os dados do INE mostram que, em termos reais, as exportações de bens ficaram perto do patamar pré-crise (quebra de 5,6% entre o segundo trimestre de 2019 e o mesmo período de 2021), mas nos serviços ainda estão muito longe desse nível (menos 36,1%). Até porque a retoma parcial que se tem sentido no sector do turismo tem sido conseguida sobretudo com turistas nacionais. Já o turismo internacional com destino a Portugal permanece débil.
Quanto às importações, ficaram 4,7% abaixo do patamar do segundo trimestre de 2019, com reduções de 2,6% nos bens e de 15,2% nos serviços.
Uma nota importante a ter em conta na evolução de exportações e importações em termos reais foi a deterioração dos termos de troca para Portugal, penalizando o contributo da frente externa para o PIB. O INE destaca que "no segundo trimestre de 2021, em termos homólogos, registou-se uma perda nos termos de troca, tendo o comportamento do deflator das importações sido influenciado, em larga medida, pelo crescimento pronunciado dos preços dos produtos energéticos".
Produto Interno Bruto português no segundo trimestre ficou apenas 3,4% abaixo do mesmo período de 2019. Despesas de consumo das famílias e das Administrações Públicas já ultrapassaram o patamar pré-crise, tal como o investimento. Mas as exportações, penalizadas pelo turismo, ainda contabilizam uma quebra superior a 15%
Perto de 1750 milhões de euros. Foi essa a distância a que o Produto Interno Bruto (PIB) português no segundo trimestre deste ano ficou do valor registado no mesmo período de 2019, ou seja, antes da crise pandémica. A diferença foi de apenas 3,4%, sinalizando que a economia portuguesa está perto de regressar ao patamar pré-crise. Mas, uma análise do Expresso aos dados publicados esta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que a recuperação está a ser assimétrica. Na frente interna, o consumo das famílias e das Administrações Públicas já ficou no segundo trimestre acima do segundo trimestre de 2019. Também o investimento ultrapassou o patamar pré-crise. Mas, na frente externa, as exportações, penalizadas pelo turismo, ainda contabilizam perdas a dois dígitos.
Um crescimento histórico de 15,5% - o mais elevado desde pelo menos 1978. Foi assim o comportamento da economia portuguesa no segundo trimestre deste ano, beneficiando tanto do efeito de base - um ano antes Portugal enfrentou o primeiro confinamento geral para travar a pandemia de covid-19 e a atividade económica caiu a pique - como do impulso dado pela reabertura do país após o segundo confinamento geral no início de 2021.
Como resultado, o PIB atingiu 48,99 mil milhões de euros, ficando a cerca de 1750 milhões de euros de distância do valor do segundo trimestre de 2019. Em termos percentuais, a quebra foi de 3,4%.
Contudo, por trás destes números, estão velocidades de recuperação diferentes entre os vários componentes do PIB. Na frente interna predominam as boas notícias, mas na frente externa os dados são mais sombrios.
Os números do INE indicam que no segundo trimestre deste ano a procura interna em Portugal - consumo privado e público, bem como investimento - ficou 1,1% acima do registado no segundo trimestre de 2019.
As despesas de consumo final ultrapassaram o patamar pré-crise, com o valor do segundo trimestre a ultrapassar em 1,5% o do mesmo período de 2019. E tanto as famílias residentes no país (mais 0,6%), como as Administrações Públicas (mais 5,6%) consumiram acima do período homólogo de 2019.
Onde é que as famílias estão a gastar mais? Comparando as despesas de consumo final no segundo trimestre de 2021 e no mesmo período de 2019, conclui-se que houve um aumento de 7,1% nos bens alimentares. Já nos bens duradouros - automóveis, mobílias e computadores, entre outros bens - as despesas de consumo final das famílias ficaram praticamente em linha com 2019, com uma quebra muito ligeira de 0,5%. Por fim, nos bens correntes não alimentares e serviços, o patamar pré-crise ainda não foi atingido, mas por uma margem pequena (redução de 1%).
Passando para o investimento, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) é o indicador mais importante na análise e regista um crescimento de 2,8% entre o segundo trimestre de 2019 e o mesmo período deste ano. Mais ainda, todas as componentes da FBCP, com exceção do equipamento de transporte, estão acima do patamar pré-crise pandémica. Os incrementos são de 0,4% nos recursos biológicos cultivados, de 2,3% nas outras máquinas e equipamentos e sistemas de armamento, de 9,8% na construção, e de 0,6% nos produtos de propriedade intelectual. Em sentido inverso, como referido, a FBCF em equipamento de transporte contabiliza uma queda acentuada, de 29,6%.
TURISMO PENALIZA EXPORTAÇÕES
O cenário é diferente quando se analisa a frente externa da economia portuguesa. No segundo trimestre deste ano as exportações ficaram 15,3% abaixo do valor alcançado no mesmo período de 2019, muitos penalizadas pela componente dos serviços, onde o turismo tem um peso decisivo. De facto, os dados do INE mostram que, em termos reais, as exportações de bens ficaram perto do patamar pré-crise (quebra de 5,6% entre o segundo trimestre de 2019 e o mesmo período de 2021), mas nos serviços ainda estão muito longe desse nível (menos 36,1%). Até porque a retoma parcial que se tem sentido no sector do turismo tem sido conseguida sobretudo com turistas nacionais. Já o turismo internacional com destino a Portugal permanece débil.
Quanto às importações, ficaram 4,7% abaixo do patamar do segundo trimestre de 2019, com reduções de 2,6% nos bens e de 15,2% nos serviços.
Uma nota importante a ter em conta na evolução de exportações e importações em termos reais foi a deterioração dos termos de troca para Portugal, penalizando o contributo da frente externa para o PIB. O INE destaca que "no segundo trimestre de 2021, em termos homólogos, registou-se uma perda nos termos de troca, tendo o comportamento do deflator das importações sido influenciado, em larga medida, pelo crescimento pronunciado dos preços dos produtos energéticos".
30.8.21
Poupanças aplicadas pelos portugueses duplicaram na pandemia para 22,7 mil milhões
Luís Villalobos e Rosa Soares, in Público on-line
Pandemia deu impulso de 12,3 mil milhões nas poupanças aplicadas pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados do Estado entre Março de 2020 e Junho deste ano. Depósitos representaram 76% do total.
O dinheiro aplicado pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados desde Março de 2020, quando se iniciou a pandemia, chegou aos 22.736 milhões de euros em Junho deste ano, um valor que fica 118%, ou 12.286 milhões, acima do mesmo período de 2018/2019.
Este é o resultado de uma poupança forçada pelo confinamento, com entraves do ponto de vista da procura e da oferta, e pela incerteza da crise global provocada pela covid-19, mitigada pelos apoios ao nível do emprego (e salários) como o layoff simplificado. Só no segundo trimestre de 2020, por exemplo, o rendimento disponível dos portugueses diminuiu, em média, 2% face ao período homólogo, e o consumo privado registou uma quebra inédita de 12,3%.
Dos que conseguiram poupar - mesmo com medidas de apoio há quem tenha sofrido fortes quebras de rendimento ou perdido o emprego -, a principal opção foi pelos depósitos, que chegaram aos 18.053 milhões de euros nos 16 meses em análise, subindo 9361 milhões face ao mesmo período de 2018/2019 e representando 76% do total da poupança extra.
Os depósitos têm vindo a bater novos recordes (o total chegou aos 169,9 mil milhões de euros, contabilizando aqui já os valores de Julho disponibilizados esta quinta-feira pelo Banco de Portugal), e os valores nas contas à ordem nunca estiveram tão próximos do montante dos depósitos a prazo (eram 47,2% do total em Junho), num contexto de baixa inflação.
Aversão ao risco e liquidez
Neste contexto, segundo os especialistas contactados pelo PÚBLICO, destaca-se a primazia dada à questão da liquidez, num “clima de grande incerteza” e com “rendibilidades relativamente baixas dos activos alternativos aos depósitos à ordem”, como refere Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa, sublinha também “a ausência de uma remuneração expressiva que motive as famílias a constituírem depósitos a prazo”, porque estes estão com “taxas de juro implícitas de quase zero”.
Em Portugal aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI
“Considerando o conjunto dos activos financeiros das famílias”, realça Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, em Portugal “aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus – em 2019, 44% dos activos financeiros das famílias em Portugal face a 38% em Espanha, por exemplo, segundo dados do Eurostat -, o que evidenciará um misto de maior aversão ao risco e menor literacia financeira”.
Mais dois mil milhões depositados em Abril
Só em Abril de 2020, mês de maior confinamento logo após a declaração da pandemia, foram depositados 2039 milhões de euros, quase quatro vezes mais do que em idêntico período do ano anterior. A este factor pode estar ligada a tal opção por liquidez que esteve muito sublinhada logo em Março, período em que houve uma forte saída de activos como os fundos.
Em Março de 2020, de acordo com os dados do Banco de Portugal, os particulares retiraram 1256 milhões de euros que estavam em fundos ligados a obrigações, imobiliário e acções, um movimento que ocorreu na generalidade dos mercados financeiros. Esse valor foi depois reposto e mesmo superado até ao final do ano, tendo sido o instrumento de poupança que mais acelerou na actual conjuntura, acabando por se registar uma diferença de 3359 milhões de euros face aos montantes aplicados entre Março de 2018 e Junho de 2019 – e que não foram além dos 121 milhões.
16.805 Os particulares tinham 16,8 mil milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho. No período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, o valor chegou aos 28,7 mil milhões de euros.
Fundos a crescer, mas longe de 2007
Ao todo, os particulares tinham 16.805 milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho, com destaque para as unidades de participação ligadas às obrigações e ao imobiliário, em detrimento das acções. Mesmo assim, apesar dos valores aplicados durante a pandemia e do crescimento dos últimos anos (em Junho de 2016 estava abaixo dos oito mil milhões), a aposta dos particulares em fundos está bem longe do período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, quando chegou aos 28,7 mil milhões de euros.
“O aumento da preferência por fundos de investimento significa que os aforradores percepcionam esta escolha como tendo um menor risco e/ou um potencial de remuneração mais elevado que no passado recente, comparando com alternativas, nomeadamente instrumentos com capital garantido”, diz Paula Carvalho. Assim, refere esta responsável do BPI, os aforradores mostram estar “disponíveis para assumir um risco mais elevado e uma maior volatilidade, com a contrapartida esperada de uma melhor remuneração”, mas ainda numa pequena escala, “resultado da avaliação comparada de riscos e de uma atitude de prudência das famílias portuguesas em relação às suas aplicações financeiras”.
Para Paulo Rosa, “a recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento”. “Impulsionada pela pandemia, uma boa parte da poupança extra concentrou-se nas famílias de maiores rendimentos e a subscrição de fundos de investimento está mais associada a estes agregados de rendimentos mais elevados”, refere este responsável do Banco Carregosa, explicando que “a propensão marginal para consumir é menor nas famílias de maiores rendimentos e, consequentemente, acréscimos de poupança serão diversificados por um número maior de alternativas e instrumentos financeiros”. Assim, acrescenta, “parte poderá ter sido canalizada para fundos de investimentos e justifica, em parte, a maior aceleração na subscrição” deste tipo de poupança.
Por outro lado, diz Paulo Rosa, “os investidores portugueses ainda estão muito apreensivos e recuperam gradualmente o seu apetite pelo risco”. “A aversão ao risco em Portugal agravou-se acentuadamente há 12 anos com a crise do subprime nos EUA, a que se seguiram dificuldades na banca nacional, diminuição do peso e da importância da praça portuguesa, e a intervenção da troika em 2011”, contextualiza.
A recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa
Sobre a diferença dos valores actuais dos fundos e dos que se verificavam em 2007, Pedro Bação também destaca “o impacto da desconfiança depois do choque da crise financeira internacional”, recordando que “muitos activos ainda não recuperaram totalmente o valor perdido nessa crise”. A esses elementos, diz, “junta-se o facto de, não obstante os ganhos pós-choque pandémico, as rendibilidades dos fundos de investimento (especialmente dos que investem mais em acções) serem ainda relativamente baixas quando vistas num horizonte temporal mais longo”.
No que diz respeito ao ritmo de aplicação de verbas em fundos desde que a pandemia começou, este professor de economia de Coimbra destaca quatro factores, a começar pela remuneração. “As valorizações ocorridas nos últimos meses estão a ajudar muito as empresas gestoras de fundos de investimento a vender os seus títulos”. Isso, diz, é facilitado por um segundo factor, “que resulta de os fundos serem frequentemente vendidos através dos bancos, que, tendo eles próprios actividades de gestão de fundos de investimento, têm um incentivo para direccionar as poupanças dos clientes para esses fundos de investimento, que proporcionam rendimentos importantes em comissões de gestão”.
Em terceiro lugar, refere, os fundos de investimento “também beneficiam de, em geral, terem um grau de liquidez elevado, pelo menos ao fim de alguns meses”, a que se junta o facto de terem vantagens face à aquisição directa de acções ou obrigações (como a gestão da carteira e custos de transacção).
Há, depois, os produtos do Estado, os certificados de aforro e os certificados do tesouro, e que, apesar de já ultrapassarem um stock de 30 mil milhões de euros, acabaram por ter uma prestação menos positiva na pandemia: entre Março de 2020 e Junho deste ano houve um reforço de 1203 milhões de euros, menos 434 milhões face a Março de 2018/Junho de 2019.
Pedro Bação destaca que os instrumentos de poupança do Estado “têm relativamente pouca visibilidade” e taxas de rendibilidade que “só se tornam atraentes à custa da perda de liquidez. “Certamente a maior parte dos aforradores com poupanças mais significativas terá gestores de conta nos bancos com que trabalham, e esses gestores de conta não irão fazer publicidade aos certificados de aforro, mas sim aos fundos de investimento vendidos através do banco”, diz, acrescentando que “o canal de venda, bem como os serviços associados (home banking), desfavorece claramente os instrumentos de poupança patrocinados pelo Estado”.
Para Paulo Rosa, “os depósitos a prazo são mais interessantes quando aplicados em prazos mais curtos como 6 a 12 meses”, enquanto os produtos do Estado “são mais interessantes para horizontes temporais mais longos, devido aos prémios de permanência e bonificações que proporcionam”.
Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Certo é que, refere, a “preferência por liquidez continua a dominar as poupanças dos portugueses”, algo que está reflectido no facto de os certificados de aforro e os do tesouro corresponderem a apenas 17% dos montantes de depósitos.
Além destas opções, os especialistas notam que está também a ser canalizado dinheiro para o mercado imobiliário. Depois, poderá haver quem também aplique dinheiro em alternativas como o ouro ou arte, e o Banco de Portugal também já deu nota de que se assistiu no ano passado a uma retenção de notas como “reserva de valor”, ou seja, como segurança em tempos conturbados tal como aconteceu na crise financeira iniciada em 2008.
Economia à espera do consumo
Conforme já escreveu o PÚBLICO, entre Abril de 2020 e Março de 2021 a taxa de poupança das famílias foi de 14,3% do rendimento disponível (mais 9549 milhões de euros em termos absolutos), o que é o valor mais alto, pelo menos, desde o início do século e quase o dobro dos 7,8% registados nos doze meses imediatamente anteriores.
215,2 No final de Junho os portugueses tinham 215,2 mil milhões de euros aplicados em depósitos, certificados do Estado e fundos
De acordo com as estimativas do Banco de Portugal, o valor do acréscimo de poupança poderá chegar aos 17,5 mil milhões de euros entre o ano passado e 2023, montante que poderá fazer subir as taxas de crescimento do consumo actualmente previstas.
Questionada sobre se estima que grande parte da poupança arrecada durante a pandemia venha a ser gasta em consumo num futuro próximo, a responsável do departamento de estudos económicos e financeiros do BPI, Paula Carvalho, diz que uma parte será usada, mas que não se pode “antecipar qual a dimensão dessa parte”. “Será sempre um movimento gradual, previsivelmente a favor do consumo, mas também do investimento”, refere.
“Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo”, responde Pedro Bação.
Por seu lado, Paulo Rosa recorda que “a poupança tende a aumentar em períodos de crise e a descer em períodos de menos incerteza”, e que “parte da poupança amealhada pelas famílias de rendimentos menos elevados poderá alimentar e aumentar o consumo num futuro próximo e quando a incerteza for menor”.
Todavia, acrescenta, “os agregados de rendimentos mais elevados respondem por boa parte da poupança durante a pandemia e nestas faixas de rendimentos a propensão marginal ao consumo é menor”.
Pandemia deu impulso de 12,3 mil milhões nas poupanças aplicadas pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados do Estado entre Março de 2020 e Junho deste ano. Depósitos representaram 76% do total.
O dinheiro aplicado pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados desde Março de 2020, quando se iniciou a pandemia, chegou aos 22.736 milhões de euros em Junho deste ano, um valor que fica 118%, ou 12.286 milhões, acima do mesmo período de 2018/2019.
Este é o resultado de uma poupança forçada pelo confinamento, com entraves do ponto de vista da procura e da oferta, e pela incerteza da crise global provocada pela covid-19, mitigada pelos apoios ao nível do emprego (e salários) como o layoff simplificado. Só no segundo trimestre de 2020, por exemplo, o rendimento disponível dos portugueses diminuiu, em média, 2% face ao período homólogo, e o consumo privado registou uma quebra inédita de 12,3%.
Dos que conseguiram poupar - mesmo com medidas de apoio há quem tenha sofrido fortes quebras de rendimento ou perdido o emprego -, a principal opção foi pelos depósitos, que chegaram aos 18.053 milhões de euros nos 16 meses em análise, subindo 9361 milhões face ao mesmo período de 2018/2019 e representando 76% do total da poupança extra.
Os depósitos têm vindo a bater novos recordes (o total chegou aos 169,9 mil milhões de euros, contabilizando aqui já os valores de Julho disponibilizados esta quinta-feira pelo Banco de Portugal), e os valores nas contas à ordem nunca estiveram tão próximos do montante dos depósitos a prazo (eram 47,2% do total em Junho), num contexto de baixa inflação.
Aversão ao risco e liquidez
Neste contexto, segundo os especialistas contactados pelo PÚBLICO, destaca-se a primazia dada à questão da liquidez, num “clima de grande incerteza” e com “rendibilidades relativamente baixas dos activos alternativos aos depósitos à ordem”, como refere Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa, sublinha também “a ausência de uma remuneração expressiva que motive as famílias a constituírem depósitos a prazo”, porque estes estão com “taxas de juro implícitas de quase zero”.
Em Portugal aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI
“Considerando o conjunto dos activos financeiros das famílias”, realça Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, em Portugal “aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus – em 2019, 44% dos activos financeiros das famílias em Portugal face a 38% em Espanha, por exemplo, segundo dados do Eurostat -, o que evidenciará um misto de maior aversão ao risco e menor literacia financeira”.
Mais dois mil milhões depositados em Abril
Só em Abril de 2020, mês de maior confinamento logo após a declaração da pandemia, foram depositados 2039 milhões de euros, quase quatro vezes mais do que em idêntico período do ano anterior. A este factor pode estar ligada a tal opção por liquidez que esteve muito sublinhada logo em Março, período em que houve uma forte saída de activos como os fundos.
Em Março de 2020, de acordo com os dados do Banco de Portugal, os particulares retiraram 1256 milhões de euros que estavam em fundos ligados a obrigações, imobiliário e acções, um movimento que ocorreu na generalidade dos mercados financeiros. Esse valor foi depois reposto e mesmo superado até ao final do ano, tendo sido o instrumento de poupança que mais acelerou na actual conjuntura, acabando por se registar uma diferença de 3359 milhões de euros face aos montantes aplicados entre Março de 2018 e Junho de 2019 – e que não foram além dos 121 milhões.
16.805 Os particulares tinham 16,8 mil milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho. No período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, o valor chegou aos 28,7 mil milhões de euros.
Fundos a crescer, mas longe de 2007
Ao todo, os particulares tinham 16.805 milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho, com destaque para as unidades de participação ligadas às obrigações e ao imobiliário, em detrimento das acções. Mesmo assim, apesar dos valores aplicados durante a pandemia e do crescimento dos últimos anos (em Junho de 2016 estava abaixo dos oito mil milhões), a aposta dos particulares em fundos está bem longe do período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, quando chegou aos 28,7 mil milhões de euros.
“O aumento da preferência por fundos de investimento significa que os aforradores percepcionam esta escolha como tendo um menor risco e/ou um potencial de remuneração mais elevado que no passado recente, comparando com alternativas, nomeadamente instrumentos com capital garantido”, diz Paula Carvalho. Assim, refere esta responsável do BPI, os aforradores mostram estar “disponíveis para assumir um risco mais elevado e uma maior volatilidade, com a contrapartida esperada de uma melhor remuneração”, mas ainda numa pequena escala, “resultado da avaliação comparada de riscos e de uma atitude de prudência das famílias portuguesas em relação às suas aplicações financeiras”.
Para Paulo Rosa, “a recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento”. “Impulsionada pela pandemia, uma boa parte da poupança extra concentrou-se nas famílias de maiores rendimentos e a subscrição de fundos de investimento está mais associada a estes agregados de rendimentos mais elevados”, refere este responsável do Banco Carregosa, explicando que “a propensão marginal para consumir é menor nas famílias de maiores rendimentos e, consequentemente, acréscimos de poupança serão diversificados por um número maior de alternativas e instrumentos financeiros”. Assim, acrescenta, “parte poderá ter sido canalizada para fundos de investimentos e justifica, em parte, a maior aceleração na subscrição” deste tipo de poupança.
Por outro lado, diz Paulo Rosa, “os investidores portugueses ainda estão muito apreensivos e recuperam gradualmente o seu apetite pelo risco”. “A aversão ao risco em Portugal agravou-se acentuadamente há 12 anos com a crise do subprime nos EUA, a que se seguiram dificuldades na banca nacional, diminuição do peso e da importância da praça portuguesa, e a intervenção da troika em 2011”, contextualiza.
A recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa
Sobre a diferença dos valores actuais dos fundos e dos que se verificavam em 2007, Pedro Bação também destaca “o impacto da desconfiança depois do choque da crise financeira internacional”, recordando que “muitos activos ainda não recuperaram totalmente o valor perdido nessa crise”. A esses elementos, diz, “junta-se o facto de, não obstante os ganhos pós-choque pandémico, as rendibilidades dos fundos de investimento (especialmente dos que investem mais em acções) serem ainda relativamente baixas quando vistas num horizonte temporal mais longo”.
No que diz respeito ao ritmo de aplicação de verbas em fundos desde que a pandemia começou, este professor de economia de Coimbra destaca quatro factores, a começar pela remuneração. “As valorizações ocorridas nos últimos meses estão a ajudar muito as empresas gestoras de fundos de investimento a vender os seus títulos”. Isso, diz, é facilitado por um segundo factor, “que resulta de os fundos serem frequentemente vendidos através dos bancos, que, tendo eles próprios actividades de gestão de fundos de investimento, têm um incentivo para direccionar as poupanças dos clientes para esses fundos de investimento, que proporcionam rendimentos importantes em comissões de gestão”.
Em terceiro lugar, refere, os fundos de investimento “também beneficiam de, em geral, terem um grau de liquidez elevado, pelo menos ao fim de alguns meses”, a que se junta o facto de terem vantagens face à aquisição directa de acções ou obrigações (como a gestão da carteira e custos de transacção).
Há, depois, os produtos do Estado, os certificados de aforro e os certificados do tesouro, e que, apesar de já ultrapassarem um stock de 30 mil milhões de euros, acabaram por ter uma prestação menos positiva na pandemia: entre Março de 2020 e Junho deste ano houve um reforço de 1203 milhões de euros, menos 434 milhões face a Março de 2018/Junho de 2019.
Pedro Bação destaca que os instrumentos de poupança do Estado “têm relativamente pouca visibilidade” e taxas de rendibilidade que “só se tornam atraentes à custa da perda de liquidez. “Certamente a maior parte dos aforradores com poupanças mais significativas terá gestores de conta nos bancos com que trabalham, e esses gestores de conta não irão fazer publicidade aos certificados de aforro, mas sim aos fundos de investimento vendidos através do banco”, diz, acrescentando que “o canal de venda, bem como os serviços associados (home banking), desfavorece claramente os instrumentos de poupança patrocinados pelo Estado”.
Para Paulo Rosa, “os depósitos a prazo são mais interessantes quando aplicados em prazos mais curtos como 6 a 12 meses”, enquanto os produtos do Estado “são mais interessantes para horizontes temporais mais longos, devido aos prémios de permanência e bonificações que proporcionam”.
Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Certo é que, refere, a “preferência por liquidez continua a dominar as poupanças dos portugueses”, algo que está reflectido no facto de os certificados de aforro e os do tesouro corresponderem a apenas 17% dos montantes de depósitos.
Além destas opções, os especialistas notam que está também a ser canalizado dinheiro para o mercado imobiliário. Depois, poderá haver quem também aplique dinheiro em alternativas como o ouro ou arte, e o Banco de Portugal também já deu nota de que se assistiu no ano passado a uma retenção de notas como “reserva de valor”, ou seja, como segurança em tempos conturbados tal como aconteceu na crise financeira iniciada em 2008.
Economia à espera do consumo
Conforme já escreveu o PÚBLICO, entre Abril de 2020 e Março de 2021 a taxa de poupança das famílias foi de 14,3% do rendimento disponível (mais 9549 milhões de euros em termos absolutos), o que é o valor mais alto, pelo menos, desde o início do século e quase o dobro dos 7,8% registados nos doze meses imediatamente anteriores.
215,2 No final de Junho os portugueses tinham 215,2 mil milhões de euros aplicados em depósitos, certificados do Estado e fundos
De acordo com as estimativas do Banco de Portugal, o valor do acréscimo de poupança poderá chegar aos 17,5 mil milhões de euros entre o ano passado e 2023, montante que poderá fazer subir as taxas de crescimento do consumo actualmente previstas.
Questionada sobre se estima que grande parte da poupança arrecada durante a pandemia venha a ser gasta em consumo num futuro próximo, a responsável do departamento de estudos económicos e financeiros do BPI, Paula Carvalho, diz que uma parte será usada, mas que não se pode “antecipar qual a dimensão dessa parte”. “Será sempre um movimento gradual, previsivelmente a favor do consumo, mas também do investimento”, refere.
“Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo”, responde Pedro Bação.
Por seu lado, Paulo Rosa recorda que “a poupança tende a aumentar em períodos de crise e a descer em períodos de menos incerteza”, e que “parte da poupança amealhada pelas famílias de rendimentos menos elevados poderá alimentar e aumentar o consumo num futuro próximo e quando a incerteza for menor”.
Todavia, acrescenta, “os agregados de rendimentos mais elevados respondem por boa parte da poupança durante a pandemia e nestas faixas de rendimentos a propensão marginal ao consumo é menor”.
4.3.21
Burlas de crédito disparam com a pandemia e deverão agravar-se com fim das moratórias
Rosa Soares, in Público on-line
Continua a haver pessoas a perder casas que valem perto de 200 mil euros por pequenos empréstimos concedidos por entidades fraudulentas. Aumentam as ofertas de crédito feitas por canais digitais partir do estrangeiro.
Da pequena à grande burla, da pessoa com baixa escolaridade até licenciados. A actividade de concessão de crédito por entidades não autorizadas, ou melhor, por entidades fraudulentas, tem vindo a aumentar nos últimos anos e a ficar cada vez mais sofisticada.
Em 2020, os casos que chegaram ao Banco de Portugal (BdP), por denúncia de vítimas ou pedidos de informação prévios, deram um salto de 50%. O BdP interveio em 350 processos, um número que é uma pequena amostra dos crimes efectivamente praticados. Para o aumento de casos contribuiu o impacto da pandemia de covid-19, que esteve na origem do aumento de situações de desemprego ou de perda de rendimentos para muitas famílias.
E o cenário actual, com novo confinamento e várias actividades completamente encerradas, que será agravado pelo fim das moratórias de crédito que se avizinha, cria condições para que a actividade fraudulenta e o número de vítimas possa aumentar significativamente no corrente ano.
São as dificuldades, o desespero, ou a vergonha que atiram as pessoas para ofertas de crédito fora do radar dos bancos e de outras instituições financeiras autorizadas a fazê-lo, ficando nas mãos de redes que apenas pretendem extorquir-lhes dinheiro ou outros bens, agravando ainda mais a sua situação financeira.
Se em alguns casos as vítimas são maioritariamente pessoas com baixos conhecimentos financeiros ou idosas, que pagam à cabeça quantias que podem chegar aos 200 euros para ter um empréstimo que nunca chega a concretizar-se, há casos de burla que envolvem pessoas com formação superior e empréstimos de algum valor, com condições que podem gerar perdas muito elevadas.
Há casos que chegam ao Banco de Portugal em que as taxas de juro cobradas ficam perto dos 300%, o que dificulta, desde logo, o seu pagamento. E que têm ainda associadas garantias de hipoteca de imóveis, cheques pré-datados ou declarações de dívidas, que podem ser executadas no caso de não pagamento, o que acontece com frequência.
E tal como o PÚBLICO denunciou em 2017, continua a verificar-se um número considerável de casos de pessoas que acabam por perder as suas casas ou outros bens por causa de empréstimos de 20 ou 30 mil euros, mas em que o valor do imóvel dado como garantia, através de escrituras de compra e venda ou hipoteca, realizadas com a conivência de advogados e notários, pode aproximar-se dos 200 mil euros. Toda burla visa isso mesmo, criar condições, através de mensalidades elevadas, de várias centenas de euros, para que os particulares não as possam cumprir, para dessa forma obter o lucro mais apetecido, os bens dados como garantia.
As burlas são cada vez mais sofisticadas, através de websites que replicam muitas vezes a imagem de instituições nacionais ou estrangeiras autorizadas a operar em Portugal, alterando apenas uma letra da marca registada, o que dificulta a percepção de entidade fraudulenta, e são praticadas muitas vezes a partir de países estrangeiros, nomeadamente do Brasil, o que dificulta o seu sancionamento.
No âmbito da fiscalização da actividade financeira fraudulenta, que também inclui esquemas fraudulentos de recepção de dinheiro, em troca de rentabilidades elevadas, os chamados esquemas Ponzi ou pirâmides, mais recentemente envolvendo criptomoedas, levaram o Banco de Portugal a tomar várias medidas, que em 2020 registaram uma variação de 180% face a 2019.
Dessas iniciativas destaca-se a instauração de 14 novos processos contra-ordenacionais contra diversas entidades, pela prática indiciada de actividade financeira não autorizada e de publicidade reservada a entidades habilitadas.
PSD quer nova lei
A experiência mostra que, dado o histórico de dificuldades financeiras, associadas muitas vezes a outros problemas sociais, as pessoas afectadas não têm capacidade para tentar recuperar judicialmente o que lhes foi indevidamente retirado.
As queixas enviadas à Procuradoria-Geral da República - 47 em 2020 por parte do BdP, por indícios da prática de 69 crimes associados ao desenvolvimento de actividade financeira ilícita, nomeadamente de recepção de depósitos/fundos reembolsáveis, burla, falsificação de documentos, usura, extorsão, ameaça, branqueamento de capitais e infracções de natureza fiscal - não têm tido resultados práticos visíveis, a que não é alheia a dissimulação das estruturas a partir de outros países.
O supervisor divulgou alertas ou public warnings relativos a 40 entidades e encerrou 15 sites. Deu ainda resposta a 106 solicitações e denúncias do público, nomeadamente com vista a prevenir e auxiliar na reparação das possíveis consequências de burlas.
As ofertas de crédito chegam cada vez mais pelos canais digitais, mas também através de anúncios em jornais e revistas. A pensar nesta facilidade de divulgação, mas também noutras medidas, o PSD apresentou recentemente um projecto de lei para criar um quadro legal de protecção do consumidor e prevenção da venda não autorizada de produtos financeiros, como seguros ou fundos de pensões.
Nesse projecto, o partido social-democrata pretende que sejam criados limites à publicidade enganosa, obrigando, por exemplo, que “todas as agências de publicidade e anunciantes passem a ter de consultar os registos online e públicos dos reguladores do sector financeiro”, de modo a “verificar se aquela entidade está habilitada por algum dos reguladores”.
Continua a haver pessoas a perder casas que valem perto de 200 mil euros por pequenos empréstimos concedidos por entidades fraudulentas. Aumentam as ofertas de crédito feitas por canais digitais partir do estrangeiro.
Da pequena à grande burla, da pessoa com baixa escolaridade até licenciados. A actividade de concessão de crédito por entidades não autorizadas, ou melhor, por entidades fraudulentas, tem vindo a aumentar nos últimos anos e a ficar cada vez mais sofisticada.
Em 2020, os casos que chegaram ao Banco de Portugal (BdP), por denúncia de vítimas ou pedidos de informação prévios, deram um salto de 50%. O BdP interveio em 350 processos, um número que é uma pequena amostra dos crimes efectivamente praticados. Para o aumento de casos contribuiu o impacto da pandemia de covid-19, que esteve na origem do aumento de situações de desemprego ou de perda de rendimentos para muitas famílias.
E o cenário actual, com novo confinamento e várias actividades completamente encerradas, que será agravado pelo fim das moratórias de crédito que se avizinha, cria condições para que a actividade fraudulenta e o número de vítimas possa aumentar significativamente no corrente ano.
São as dificuldades, o desespero, ou a vergonha que atiram as pessoas para ofertas de crédito fora do radar dos bancos e de outras instituições financeiras autorizadas a fazê-lo, ficando nas mãos de redes que apenas pretendem extorquir-lhes dinheiro ou outros bens, agravando ainda mais a sua situação financeira.
Se em alguns casos as vítimas são maioritariamente pessoas com baixos conhecimentos financeiros ou idosas, que pagam à cabeça quantias que podem chegar aos 200 euros para ter um empréstimo que nunca chega a concretizar-se, há casos de burla que envolvem pessoas com formação superior e empréstimos de algum valor, com condições que podem gerar perdas muito elevadas.
Há casos que chegam ao Banco de Portugal em que as taxas de juro cobradas ficam perto dos 300%, o que dificulta, desde logo, o seu pagamento. E que têm ainda associadas garantias de hipoteca de imóveis, cheques pré-datados ou declarações de dívidas, que podem ser executadas no caso de não pagamento, o que acontece com frequência.
E tal como o PÚBLICO denunciou em 2017, continua a verificar-se um número considerável de casos de pessoas que acabam por perder as suas casas ou outros bens por causa de empréstimos de 20 ou 30 mil euros, mas em que o valor do imóvel dado como garantia, através de escrituras de compra e venda ou hipoteca, realizadas com a conivência de advogados e notários, pode aproximar-se dos 200 mil euros. Toda burla visa isso mesmo, criar condições, através de mensalidades elevadas, de várias centenas de euros, para que os particulares não as possam cumprir, para dessa forma obter o lucro mais apetecido, os bens dados como garantia.
As burlas são cada vez mais sofisticadas, através de websites que replicam muitas vezes a imagem de instituições nacionais ou estrangeiras autorizadas a operar em Portugal, alterando apenas uma letra da marca registada, o que dificulta a percepção de entidade fraudulenta, e são praticadas muitas vezes a partir de países estrangeiros, nomeadamente do Brasil, o que dificulta o seu sancionamento.
No âmbito da fiscalização da actividade financeira fraudulenta, que também inclui esquemas fraudulentos de recepção de dinheiro, em troca de rentabilidades elevadas, os chamados esquemas Ponzi ou pirâmides, mais recentemente envolvendo criptomoedas, levaram o Banco de Portugal a tomar várias medidas, que em 2020 registaram uma variação de 180% face a 2019.
Dessas iniciativas destaca-se a instauração de 14 novos processos contra-ordenacionais contra diversas entidades, pela prática indiciada de actividade financeira não autorizada e de publicidade reservada a entidades habilitadas.
PSD quer nova lei
A experiência mostra que, dado o histórico de dificuldades financeiras, associadas muitas vezes a outros problemas sociais, as pessoas afectadas não têm capacidade para tentar recuperar judicialmente o que lhes foi indevidamente retirado.
As queixas enviadas à Procuradoria-Geral da República - 47 em 2020 por parte do BdP, por indícios da prática de 69 crimes associados ao desenvolvimento de actividade financeira ilícita, nomeadamente de recepção de depósitos/fundos reembolsáveis, burla, falsificação de documentos, usura, extorsão, ameaça, branqueamento de capitais e infracções de natureza fiscal - não têm tido resultados práticos visíveis, a que não é alheia a dissimulação das estruturas a partir de outros países.
O supervisor divulgou alertas ou public warnings relativos a 40 entidades e encerrou 15 sites. Deu ainda resposta a 106 solicitações e denúncias do público, nomeadamente com vista a prevenir e auxiliar na reparação das possíveis consequências de burlas.
As ofertas de crédito chegam cada vez mais pelos canais digitais, mas também através de anúncios em jornais e revistas. A pensar nesta facilidade de divulgação, mas também noutras medidas, o PSD apresentou recentemente um projecto de lei para criar um quadro legal de protecção do consumidor e prevenção da venda não autorizada de produtos financeiros, como seguros ou fundos de pensões.
Nesse projecto, o partido social-democrata pretende que sejam criados limites à publicidade enganosa, obrigando, por exemplo, que “todas as agências de publicidade e anunciantes passem a ter de consultar os registos online e públicos dos reguladores do sector financeiro”, de modo a “verificar se aquela entidade está habilitada por algum dos reguladores”.
25.2.21
Moratórias de crédito à habitação acabam em Março para milhares de famílias
Rosa Soares, in Público on-line
Moratória pública ou do Estado para o crédito à habitação termina a 30 de Setembro, mas a dos bancos expira já no próximo mês. Reestruturação de créditos é uma das soluções para quem não consiga retomar os pagamentos.
Há milhares de famílias abrangidas pela moratória privada de crédito à habitação na iminência de retomar o pagamento das prestações dos empréstimos.
A moratória privada, criada pelos bancos para este tipo de créditos, termina já no próximo dia 31 de Março e não está previsto o seu prolongamento. Bem pelo contrário, os bancos estão a contactar os clientes, lembrando-lhes o regresso das mensalidades em Abril, mas também a “convidá-los”, nos casos em que não tenham condições financeiras para suportar a amortização de capital e juros, para procurarem soluções junto das instituições.
Essas soluções poderão passar pela renegociação do seu crédito, nomeadamente a fixação de períodos de carência de capital ou juros, alargamento do prazo do contrato, entre outras. Ou soluções mais abrangentes, como a consolidação (junção) de vários créditos. Estas soluções implicam sempre o pagamento de mais juros, pelo que devem ser um recurso apenas para quem precise mesmo delas.
Os bancos, na moratória criada no seio da Associação Portuguesa de Bancos (APB), não acompanharam a última extensão de prazo da moratória pública, para 30 de Setembro. Assim, embora com uma carteira de empréstimos mais reduzida, a moratória privada para o crédito à habitação está quase a terminar.
O Banco de Portugal (BdP) tem divulgado o número total de moratórias, mas deixou de fazer a segmentação entre públicas e privadas. A última vez que o fez, relativamente aos dados de Maio das privadas, o crédito aos consumidores envolvia 175.336 contratos e o crédito à habitação representava 128.062. Contudo, parte dessas moratórias pode ter terminado, por vontade dos particulares, ou ter sido transferida para a moratória pública (cujos critérios foram entretanto flexibilizados). Mas também poderão ter acontecido novas adesões. Nessa data, a moratória pública abrangia 385.117 contratos, 171.817 dos quais para aquisição de habitação própria permanente.
Uma parte das moratórias de crédito ao consumo privadas já terminou em Setembro ou em Dezembro de 2020 (no caso das criadas pelas instituições de crédito especializado, no âmbito da associação que as representa, a ASFAC) ou terminarão a 30 de Junho, no caso dos bancos.
Os bancos estão obrigados a fazer a avaliação prévia da solvabilidade dos clientes, nomeadamente no âmbito do PARI (Plano de Acção para o Risco de Incumprimento) para prevenir, sempre que possível, situações de incumprimento e assegurar a qualidade da carteira de crédito, mas o fim das moratórias, em contexto de crise, obriga-os a uma atenção redobrada. É nessa medida, e perante a falta de autorização da Autoridade Bancária Europeia (EBA, na sigla em inglês) para uma nova extensão das moratórias (um regime mais favorável para instituições financeiras e para os clientes), que os bancos irão propor soluções individuais, ou à medida.
A esse propósito, o presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Paulo Macedo, admitiu recentemente que a instituição estava disponível para a renegociação de créditos no caso de clientes em situação de desemprego.
Deco e APEMIP preocupadas
O Governo e os bancos têm defendido a necessidade de estender as moratórias ou encontrar outras medidas, mas apenas para os créditos das empresas integradas em sectores mais prejudicados. No entanto, nada tem sido referido em relação aos empréstimos dos particulares.
Em declarações ao PÚBLICO, Natália Nunes, directora do Gabinete de Protecção Financeira (GPF) da associação de defesa do consumidor, diz estar preocupada com o fim das moratórias e apela aos particulares para contactarem antecipadamente instituições financeiras logo que verifiquem que não têm condições para pagarem os seus créditos.
A responsável - que admite que “a situação [das famílias] está a agravar-se”, considerando mesmo que se assistirá “a um crescimento dos números de pedidos de ajuda em 2021 e 2022, e mesmo a um aumento das insolvências pessoais já no corrente ano” - destaca que a quebra de rendimentos dos particulares não abrange apenas os que estão em situação de desemprego, mas também os que estão em layoff ou cujo rendimento dependia de comissões e ou mesmo de segundos empregos, muitos deles informais, ou não declarados, que eram um complemento a salário e pensões, e que desapareceram com a pandemia.
No último ano, chegaram ao serviço de apoio financeiro aos sobreendividados 30.100 pedidos de ajuda.
Também o presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária (APEMIP) teme o impacto negativo do fim da moratória privada de crédito à habitação nas famílias e no sector imobiliário, “um dos motores da economia”.
“As moratórias foram pensadas considerando 2021 como um período de retoma económica e não o seu agravamento, que é o que está a acontecer”, defende Luís Lima, que lembra as crises de 2008 e 2012, em que muitas famílias perderam as suas casas por não conseguirem suportar o seu pagamento, uma situação com forte impacto no sector, nos bancos e na economia em geral. “Só investidores oportunistas, nomeadamente fundos, foram beneficiados com essa situação”, destaca.
O responsável associativo disse estranhar “o silêncio do Governo e dos próprios bancos sobre o vencimento desta moratória” e contesta que as preocupações relativamente a estes mecanismos se concentrem apenas nas empresas de sectores mais afectados pela pandemia. “Pensar em ajustar a dilatação do prazo das moratórias de crédito apenas para alguns sectores é um absurdo, revelador de uma certa ‘discriminação sectorial’, quando a realidade se deveria basear em pressupostos efectivos, como a facturação das empresas”, defende.
Refira-se que, de acordo com a última alteração à moratória pública para empresas, aquelas que não se encontrem nos sectores mais afectados pela crise retomarão o pagamento de juros a partir de 1 de Abril de 2021, continuando a beneficiar apenas da suspensão do pagamento de capital até 30 de Setembro.
Moratória pública ou do Estado para o crédito à habitação termina a 30 de Setembro, mas a dos bancos expira já no próximo mês. Reestruturação de créditos é uma das soluções para quem não consiga retomar os pagamentos.
Há milhares de famílias abrangidas pela moratória privada de crédito à habitação na iminência de retomar o pagamento das prestações dos empréstimos.
A moratória privada, criada pelos bancos para este tipo de créditos, termina já no próximo dia 31 de Março e não está previsto o seu prolongamento. Bem pelo contrário, os bancos estão a contactar os clientes, lembrando-lhes o regresso das mensalidades em Abril, mas também a “convidá-los”, nos casos em que não tenham condições financeiras para suportar a amortização de capital e juros, para procurarem soluções junto das instituições.
Essas soluções poderão passar pela renegociação do seu crédito, nomeadamente a fixação de períodos de carência de capital ou juros, alargamento do prazo do contrato, entre outras. Ou soluções mais abrangentes, como a consolidação (junção) de vários créditos. Estas soluções implicam sempre o pagamento de mais juros, pelo que devem ser um recurso apenas para quem precise mesmo delas.
Os bancos, na moratória criada no seio da Associação Portuguesa de Bancos (APB), não acompanharam a última extensão de prazo da moratória pública, para 30 de Setembro. Assim, embora com uma carteira de empréstimos mais reduzida, a moratória privada para o crédito à habitação está quase a terminar.
O Banco de Portugal (BdP) tem divulgado o número total de moratórias, mas deixou de fazer a segmentação entre públicas e privadas. A última vez que o fez, relativamente aos dados de Maio das privadas, o crédito aos consumidores envolvia 175.336 contratos e o crédito à habitação representava 128.062. Contudo, parte dessas moratórias pode ter terminado, por vontade dos particulares, ou ter sido transferida para a moratória pública (cujos critérios foram entretanto flexibilizados). Mas também poderão ter acontecido novas adesões. Nessa data, a moratória pública abrangia 385.117 contratos, 171.817 dos quais para aquisição de habitação própria permanente.
Uma parte das moratórias de crédito ao consumo privadas já terminou em Setembro ou em Dezembro de 2020 (no caso das criadas pelas instituições de crédito especializado, no âmbito da associação que as representa, a ASFAC) ou terminarão a 30 de Junho, no caso dos bancos.
Os bancos estão obrigados a fazer a avaliação prévia da solvabilidade dos clientes, nomeadamente no âmbito do PARI (Plano de Acção para o Risco de Incumprimento) para prevenir, sempre que possível, situações de incumprimento e assegurar a qualidade da carteira de crédito, mas o fim das moratórias, em contexto de crise, obriga-os a uma atenção redobrada. É nessa medida, e perante a falta de autorização da Autoridade Bancária Europeia (EBA, na sigla em inglês) para uma nova extensão das moratórias (um regime mais favorável para instituições financeiras e para os clientes), que os bancos irão propor soluções individuais, ou à medida.
A esse propósito, o presidente da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Paulo Macedo, admitiu recentemente que a instituição estava disponível para a renegociação de créditos no caso de clientes em situação de desemprego.
Deco e APEMIP preocupadas
O Governo e os bancos têm defendido a necessidade de estender as moratórias ou encontrar outras medidas, mas apenas para os créditos das empresas integradas em sectores mais prejudicados. No entanto, nada tem sido referido em relação aos empréstimos dos particulares.
Em declarações ao PÚBLICO, Natália Nunes, directora do Gabinete de Protecção Financeira (GPF) da associação de defesa do consumidor, diz estar preocupada com o fim das moratórias e apela aos particulares para contactarem antecipadamente instituições financeiras logo que verifiquem que não têm condições para pagarem os seus créditos.
A responsável - que admite que “a situação [das famílias] está a agravar-se”, considerando mesmo que se assistirá “a um crescimento dos números de pedidos de ajuda em 2021 e 2022, e mesmo a um aumento das insolvências pessoais já no corrente ano” - destaca que a quebra de rendimentos dos particulares não abrange apenas os que estão em situação de desemprego, mas também os que estão em layoff ou cujo rendimento dependia de comissões e ou mesmo de segundos empregos, muitos deles informais, ou não declarados, que eram um complemento a salário e pensões, e que desapareceram com a pandemia.
No último ano, chegaram ao serviço de apoio financeiro aos sobreendividados 30.100 pedidos de ajuda.
Também o presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária (APEMIP) teme o impacto negativo do fim da moratória privada de crédito à habitação nas famílias e no sector imobiliário, “um dos motores da economia”.
“As moratórias foram pensadas considerando 2021 como um período de retoma económica e não o seu agravamento, que é o que está a acontecer”, defende Luís Lima, que lembra as crises de 2008 e 2012, em que muitas famílias perderam as suas casas por não conseguirem suportar o seu pagamento, uma situação com forte impacto no sector, nos bancos e na economia em geral. “Só investidores oportunistas, nomeadamente fundos, foram beneficiados com essa situação”, destaca.
O responsável associativo disse estranhar “o silêncio do Governo e dos próprios bancos sobre o vencimento desta moratória” e contesta que as preocupações relativamente a estes mecanismos se concentrem apenas nas empresas de sectores mais afectados pela pandemia. “Pensar em ajustar a dilatação do prazo das moratórias de crédito apenas para alguns sectores é um absurdo, revelador de uma certa ‘discriminação sectorial’, quando a realidade se deveria basear em pressupostos efectivos, como a facturação das empresas”, defende.
Refira-se que, de acordo com a última alteração à moratória pública para empresas, aquelas que não se encontrem nos sectores mais afectados pela crise retomarão o pagamento de juros a partir de 1 de Abril de 2021, continuando a beneficiar apenas da suspensão do pagamento de capital até 30 de Setembro.
21.12.20
Redução da actividade económica agravou-se em Novembro
Pedro Crisóstomo, in Público on-line
Indicadores de confiança diminuíram em todos os sectores de actividade.
Depois de uma recuperação parcial no pós-primeira vaga, a actividade económica voltou a cair em Outubro e agravou essa tendência em Novembro, com uma queda do clima económico e dos indicadores de confiança em todos os sectores de actividade, revela a síntese de conjuntura divulgada nesta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Os dados económicos já disponíveis relativamente a Novembro apontam para um agravamento do indicador da actividade, que reúne um conjunto de indicadores quantitativos que reflectem a evolução da economia.
As expectativas dos consumidores para os 12 meses seguintes, seja sobre as perspectivas de evolução da situação económica do país, seja pela avaliação que fazem da sua própria situação financeira familiar ou as expectativas de realização de compras importantes, fizeram recuar o indicador de confiança dos consumidores, que tinha estado num nível “relativamente estável” nos cinco meses anteriores.
Nas empresas, o sentimento é idêntico, da construção e obras públicas, do comércio aos serviços, passando pela indústria transformadora.
Na construção e obras públicas, o indicador “diminuiu acentuadamente” por causa das apreciações sobre a carteira de encomendas e as perspectivas de emprego no sector. Foi na promoção imobiliária e construção de edifícios que a queda foi “particularmente expressiva”, embora transversal à engenharia civil e às actividades especializadas de construção, indica o INE.
No comércio, um dos segmentos afectados pelas novas medidas restritivas decididas pelo Governo para controlar a segunda vaga da pandemia de covid-19, o indicador de confiança dos empresários também “diminuiu significativamente, interrompendo o perfil ascendente observado entre Maio e Outubro”. De resto, a descida foi maior no comércio a retalho do que no comércio por grosso.
O valor mínimo do indicador, no entanto, continua a ser o mês de Abril. Para esta trajectória descendente que agora se verificou, diz o instituto estatístico, contribuíram os indicadores sobre o volume das vendas e as perspectivas sobre a actividade das empresas para os três meses seguintes, “tendo as opiniões sobre o volume de stocks contribuído positivamente”.
Quanto aos serviços, onde a quebra também foi “significativa”, contribuíram para isso as apreciações dos empresários sobre “a evolução da carteira de encomendas e, em maior grau, das perspectivas sobre a evolução da procura”. Espectáculos e outras actividades artísticas e desportivas, alojamento e restauração, transportes e armazenagem são os ramos de actividade onde a confiança mais caiu.
Menos consumo de electricidade
Há indicadores complementares que também apontam para uma deterioração da actividade no mês passado: o “montante global de levantamentos nacionais, de pagamentos de serviços e de compras em terminais de pagamento automático na rede multibanco diminuiu 11,8% em Novembro, em termos homólogos, traduzindo um agravamento face ao mês anterior (decréscimo de 6,3%); as vendas de automóveis ligeiros de passageiros caíram 28% em relação a Novembro do ano passado (as vendas de comerciais ligeiros baixaram 1,4% e, em contrapartida, assistiu-se a um crescimento de 17% na comercialização de veículos pesados).
O INE revela ainda que “o consumo médio de electricidade em dia útil registou uma variação homóloga de -3,8% em Novembro, o que compara com taxas de -1,7% e -1,6% [em] Setembro e Outubro, respectivamente”.
O Banco de Portugal sublinhava na semana passava, ao divulgar as suas novas previsões económicas, que a recuperação no terceiro trimestre “foi superior ao antecipado”, embora a evolução da pandemia e a as medidas de contenção tenham levado a uma “revisão em baixa da actividade” nestes três últimos meses do ano. A queda anual da economia deverá ser de 8,1%, podendo seguir-se uma recuperação progressiva a partir da primeira metade do próximo ano, com o Produto Interno Bruto (PIB) de 2021 a crescer 3,9%, segundo as previsões do banco central.
Na Europa, o sentimento económico também está a baixar nesta segunda vaga em que os governos decidiram reforçar as medidas de confinamento e, nalguns casos, decretar o encerramento de algumas lojas para conter a propagação do novo coronavírus.
Nas 19 economias que partilham a moeda única, o indicador “diminuiu significativamente” em Novembro, com uma deterioração da confiança dos consumidores, bem como do indicador de confiança nos sectores do comércio a retalho, serviços e ainda, embora “de forma mais moderada”, na construção e na indústria.
Indicadores de confiança diminuíram em todos os sectores de actividade.
Depois de uma recuperação parcial no pós-primeira vaga, a actividade económica voltou a cair em Outubro e agravou essa tendência em Novembro, com uma queda do clima económico e dos indicadores de confiança em todos os sectores de actividade, revela a síntese de conjuntura divulgada nesta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Os dados económicos já disponíveis relativamente a Novembro apontam para um agravamento do indicador da actividade, que reúne um conjunto de indicadores quantitativos que reflectem a evolução da economia.
As expectativas dos consumidores para os 12 meses seguintes, seja sobre as perspectivas de evolução da situação económica do país, seja pela avaliação que fazem da sua própria situação financeira familiar ou as expectativas de realização de compras importantes, fizeram recuar o indicador de confiança dos consumidores, que tinha estado num nível “relativamente estável” nos cinco meses anteriores.
Nas empresas, o sentimento é idêntico, da construção e obras públicas, do comércio aos serviços, passando pela indústria transformadora.
Na construção e obras públicas, o indicador “diminuiu acentuadamente” por causa das apreciações sobre a carteira de encomendas e as perspectivas de emprego no sector. Foi na promoção imobiliária e construção de edifícios que a queda foi “particularmente expressiva”, embora transversal à engenharia civil e às actividades especializadas de construção, indica o INE.
No comércio, um dos segmentos afectados pelas novas medidas restritivas decididas pelo Governo para controlar a segunda vaga da pandemia de covid-19, o indicador de confiança dos empresários também “diminuiu significativamente, interrompendo o perfil ascendente observado entre Maio e Outubro”. De resto, a descida foi maior no comércio a retalho do que no comércio por grosso.
O valor mínimo do indicador, no entanto, continua a ser o mês de Abril. Para esta trajectória descendente que agora se verificou, diz o instituto estatístico, contribuíram os indicadores sobre o volume das vendas e as perspectivas sobre a actividade das empresas para os três meses seguintes, “tendo as opiniões sobre o volume de stocks contribuído positivamente”.
Quanto aos serviços, onde a quebra também foi “significativa”, contribuíram para isso as apreciações dos empresários sobre “a evolução da carteira de encomendas e, em maior grau, das perspectivas sobre a evolução da procura”. Espectáculos e outras actividades artísticas e desportivas, alojamento e restauração, transportes e armazenagem são os ramos de actividade onde a confiança mais caiu.
Menos consumo de electricidade
Há indicadores complementares que também apontam para uma deterioração da actividade no mês passado: o “montante global de levantamentos nacionais, de pagamentos de serviços e de compras em terminais de pagamento automático na rede multibanco diminuiu 11,8% em Novembro, em termos homólogos, traduzindo um agravamento face ao mês anterior (decréscimo de 6,3%); as vendas de automóveis ligeiros de passageiros caíram 28% em relação a Novembro do ano passado (as vendas de comerciais ligeiros baixaram 1,4% e, em contrapartida, assistiu-se a um crescimento de 17% na comercialização de veículos pesados).
O INE revela ainda que “o consumo médio de electricidade em dia útil registou uma variação homóloga de -3,8% em Novembro, o que compara com taxas de -1,7% e -1,6% [em] Setembro e Outubro, respectivamente”.
O Banco de Portugal sublinhava na semana passava, ao divulgar as suas novas previsões económicas, que a recuperação no terceiro trimestre “foi superior ao antecipado”, embora a evolução da pandemia e a as medidas de contenção tenham levado a uma “revisão em baixa da actividade” nestes três últimos meses do ano. A queda anual da economia deverá ser de 8,1%, podendo seguir-se uma recuperação progressiva a partir da primeira metade do próximo ano, com o Produto Interno Bruto (PIB) de 2021 a crescer 3,9%, segundo as previsões do banco central.
Na Europa, o sentimento económico também está a baixar nesta segunda vaga em que os governos decidiram reforçar as medidas de confinamento e, nalguns casos, decretar o encerramento de algumas lojas para conter a propagação do novo coronavírus.
Nas 19 economias que partilham a moeda única, o indicador “diminuiu significativamente” em Novembro, com uma deterioração da confiança dos consumidores, bem como do indicador de confiança nos sectores do comércio a retalho, serviços e ainda, embora “de forma mais moderada”, na construção e na indústria.
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