Bloomberg, in Público online
A Europa aqueceu mais rápido do que o resto do mundo e o sector agrícola é o mais afectado. Medidas para combater a seca são debatidas em Espanha, mas desagradam a agricultores e conservadores.
Uma rede de poços escavados na Idade Média permite aos agricultores da aldeia de Letur, no Sul de Espanha, cultivar oliveiras, tomates e cebolas numa das regiões mais áridas da Europa. Agora, a seca, que se alastra por todo o continente, ameaça até mesmo este antigo oásis.
Um complexo sistema tem mantido a terra da aldeia húmida e fresca ao longo de guerras, invasões estrangeiras e desastres naturais. Mas os 200 agricultores que dele dependem começam a preocupar-se pela primeira vez, à medida que os níveis de água em múltiplas e gigantescas barragens espanholas descem para mínimos sem precedentes e os canais construídos nos anos 70, que transformaram a região circundante numa potência agrícola, começam a secar.
Se a seca se prolongar por muito mais tempo, Luis López, um olivicultor de 43 anos, receia que as explorações industriais vizinhas, que utilizam o moderno sistema de irrigação para cultivar culturas com grande consumo de água, como a alface e a melancia, comecem a explorar as reservas preservadas de Letur.
“Sinto-me como se fôssemos a última aldeia gaulesa da banda desenhada Astérix”, diz López, referindo-se à saga de ficção sobre a aldeia que resiste à ocupação dos romanos. “Preocupa-me que, quando eles ficarem sem água, venham buscar a nossa.”
A seca só vai intensificar esta batalha pela água. Alfonso Sánchez, professor de matemática e ambientalista
A Espanha, uma região desértica da União Europeia, sofre com a seca mais severamente e por mais tempo do que outras grandes economias da UE. A sua proximidade com África coloca-a directamente no caminho das correntes de ar quente que se dirigem a norte, vindas do deserto do Sara.
Mas o calor não abranda em Espanha; o tempo mais quente e seco torna-se a norma em toda a Europa. A batalha da água que se trava em Letur é um presságio de conflitos que se vão desenrolar noutros locais e o que quer que aconteça à indústria agrícola espanhola — uma das principais fontes de abastecimento dos seus vizinhos — será sentido em toda a região.
“A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência”, defende Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique do Mónaco. “Torna-se também um problema financeiro, porque é preciso gastar mais dinheiro na procura de alimentos.”
O sector agrícola é um dos mais afectados
Os anos seguidos de seca podem ser devastadores, pois sectores como a agricultura não têm tempo para recuperar, pelo que os impactos se acumulam estação após estação, crescendo exponencialmente. A produção espanhola de azeite — que representa 45% da oferta mundial — deverá reduzir-se para mais da metade nesta estação, enquanto a de cereais como o trigo e a cevada cairá até 60%, segundo Gabriel Trenzado, director das Cooperativas Agro-alimentares de Espanha, um grupo da indústria agrícola.
A situação ainda não é tão grave noutras partes da UE, onde a previsão oficial é de que a colheita de cereais, no seu conjunto, recupere cerca de 7% em relação à época passada. A precipitação em França, o principal produtor de cereais da União, melhorou desde o período de seca do Inverno, e as classificações das culturas para a colheita de trigo de 2023 são as mais elevadas para esta altura em mais de uma década. Em algumas zonas, a chuva é excessiva, acarretando um atraso nas plantações de cevada e de beterraba-sacarina em partes da Alemanha devido ao mês de Março mais chuvoso desde 2001.
A Espanha é o celeiro da Europa e a falta de água, a falta de produção agrícola, é uma questão de sobrevivência. Nathalie Hilmi, economista ambiental do Centre Scientifique de Monaco.
Os agricultores da região não têm de enfrentar apenas a seca, mas também um clima menos previsível. Em 2022, a Espanha viveu uma onda de calor semelhante à que assolou o país em Abril deste ano, até que a tempestade Ciril provocou uma descida invulgar das temperaturas, levando a perdas de milhões de euros por parte dos produtores de frutos e nozes. “O facto de haver seca não significa que não chova, significa que as chuvas, por vezes, chegam em alturas inesperadas”, disse Trenzado. “Tudo é muito sensível.”
Os preparativos da Europa para um futuro mais seco esforçam-se para acompanhar o ritmo das rápidas mudanças climáticas. O continente aqueceu quase duas vezes mais depressa do que o resto do mundo nas últimas três décadas, segundo a Organização Meteorológica Mundial, e o impacto económico tem sido significativo.
A interrupção da passagem de mercadoria devido aos rios estarem nos níveis mais baixos de sempre causou perdas de milhares de milhões de euros. Além disso, também prejudicou a produção de electricidade a partir de centrais hidroeléctricas e nucleares, agravando a escassez de energia causada pela invasão russa na Ucrânia e contribuindo para a pior crise de custo de vida que a Europa enfrentou nas últimas gerações. As quebras nas colheitas provocadas pela seca podem ainda contribuir para a subida dos preços dos alimentos.
A diminuição do escoamento para os lagos e mares da Europa também agrava os riscos ambientais, aumentando a temperatura da água e prejudicando os ecossistemas, segundo o programa europeu Copernicus Climate Change Service (C3S). E há ainda a maior probabilidade de incêndios florestais, que, no ano passado, queimaram paisagens europeias com dimensões três vezes maior do que o Luxemburgo.
É o segundo ano consecutivo de condições extremamente secas e quentes no Sudoeste da Europa, impulsionadas por uma onda de calor antes do Verão que começou três meses mais cedo do que o habitual. A Espanha acaba de registar o mês de Abril mais quente e mais seco da história.
Por outro lado, a neve acumulada nos Alpes, uma das principais fontes de água para França e Itália, é a mais baixa em mais de uma década, agravando anos de chuvas e queda de neve abaixo da média. Mais a norte, a Alemanha e o Reino Unido registaram anomalias pluviométricas tão graves como as de Espanha.
As alterações climáticas correspondem a projecções científicas de menos precipitação e temperaturas mais elevadas na Europa num planeta mais quente, declarou Andrea Toreti, investigador sénior do Centro de Investigação Comum (JRC, na sigla em inglês) da União Europeia, um órgão científico independente que aconselha as autoridades da UE. Mas a ocorrência regular deste nível de seca era prevista ocorrer só em 2043. “Se nada for feito, prevemos que este evento possa ocorrer quase todos os anos”, disse.
Em Itália, onde a escassez de água afecta a região agrícola mais produtiva do país, a crise tornou-se uma prioridade governamental gerida por uma unidade especial liderada pelo vice-primeiro-ministro Matteo Salvini. A França, que este ano sofreu o mais longo período de Inverno sem chuva de que há registo, estabeleceu um novo objectivo para reduzir o consumo de água em 10% até ao final desta década.
“A seca do ano passado foi excepcional em comparação com o que já vivemos, mas não será excepcional em comparação com o que viveremos”, disse o Presidente francês Emmanuel Macron num discurso em Março. “Ninguém está a dizer que esta situação vai melhorar.”
Agricultores e políticos discordam das medidas adoptadas pelo Governo
O Governo espanhol tem-se esforçado por encontrar soluções. Apesar de ter gastado milhares de milhões para melhorar o seu sistema de gestão da água, os reservatórios espanhóis ainda têm cerca de metade da sua capacidade. Numa recente reunião de emergência do Conselho de Ministros, as autoridades deram luz verde a um pacote de 2,2 mil milhões de euros que inclui reduções fiscais e ajuda aos agricultores, a juntar às medidas já anunciadas que custarão 22 mil milhões de euros.
O mais controverso é o facto de o Governo espanhol limitar a quantidade de água utilizada na irrigação das culturas. A medida enfureceu os agricultores e encorajou os políticos conservadores antes das eleições autárquicas do final do mês, vistas como um termómetro para as perspectivas do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, que procura a reeleição em Dezembro. Sánchez, que tem insistido em medidas mais fortes para combater as alterações climáticas, também entrou em conflito com os legisladores de direita que pretendem alargar os direitos à água dos agricultores numa das zonas húmidas mais protegidas da Europa, localizada no Sul de Espanha.
Sánchez reconheceu não haver uma resposta fácil. “O debate em torno da seca vai estar no centro do debate político e territorial do nosso país nos próximos anos”, disse aos deputados em Abril.
A competição pelo acesso à água em Espanha já está a colocar vários grupos uns contra os outros: grandes empresas agrícolas e pequenos agricultores, activistas ambientais e lobistas empresariais, políticos locais e o Governo central.
As tensões estão à vista em Almería, uma província que regista regularmente as temperaturas mais elevadas da Europa. A terra costumava ser tão seca e árida que ali foram filmados filmes de Western, como O Bom, o Mau e o Vilão, protagonizado por Clint Eastwood. Tudo mudou em 1979, quando o Governo construiu cerca de 300 quilómetros de canais e gasodutos — conhecidos como transvase Tejo-Segura — que trouxeram água da planície central para o deserto do Sul.
Mais de quatro décadas depois, a terra fértil de Almería abriga tantas estufas que o “mar de coberturas de plástico” pode ser visto do espaço. Tornou-se o coração do sector espanhol de frutas e legumes frescos, que movimenta 18 mil milhões de euros. Durante todo o ano, as explorações agrícolas fornecem frutos que necessitam de água em abundância para crescer, como as laranjas e os limões, às cadeias de supermercados de toda a Europa.
Mas esta proeza da engenharia não protegeu o abastecimento de água da região da seca crescente. Em Pulpí, uma cidade de Almería, as grandes explorações agrícolas tiveram de reduzir as áreas cultivadas, comprar água a outras cidades e arrendar terras mais a norte com acesso à água suficiente para manter a produção. Há dois anos, a Barragem de Negratin, que fornece o maior volume da água de Pulpí, teve de parar de bombear devido à descida do nível da água.
Os produtores de alimentos de Pulpí reagiram ferozmente ao plano do Governo espanhol de limitar a água retirada do transvase Tejo-Segura. “Sem água, Almería vai regredir décadas”, declarou José Caparrós, executivo de uma grande quinta, que pertence a um grupo responsável por gerir sistema de irrigação da cidade. “Precisamos de opções para ter acesso à água e alimentar o país.”
A reacção estendeu-se a toda cadeia alimentar espanhola — que engloba as zonas do Sudeste de Almería, Valência e Múrcia — com um grupo de pressão a afirmar que as restrições podem custar à indústria cerca de 6 mil milhões de euros e 15.000 postos de trabalho.
Alguns políticos aproveitaram o descontentamento nas suas campanhas para as eleições locais de 28 de Maio. Ximo Puig, presidente de Valência e membro do partido socialista de Sánchez, discordou abertamente do Governo central a respeito do plano de restrição do acesso à água. Em vez disso, repetiu a retórica dos candidatos da oposição que também tentam conquistar os votos dos agricultores. A vitória destes candidatos pode aumentar a resistência às políticas ambientais e de conservação da água de Sánchez antes das eleições gerais de Dezembro.
A luta para evitar novos poços ilegais
Alfonso Sánchez, um professor de Matemática do liceu que se tornou ambientalista e que vive em Múrcia, viu como a agricultura em grande escala — possibilitada pela captação de água subterrânea e de rios próximos — remodelou a sua cidade natal, Caravaca de la Cruz. Na década de 1990, centenas de pequenos agricultores não tiveram outra opção senão vender as suas terras a grandes empresas ou juntar-se a elas na produção de culturas que necessitam de muita água. Anos de agricultura mecanizada reduziram os recursos hídricos em até 60% na região, de acordo com um relatório do grupo verde de Sánchez.
Em vez de mudarem as suas práticas e de se adaptarem às condições mais secas dos últimos anos, muitos agricultores abriram poços ilegais para explorar água subterrânea. A Greenpeace estima que existam mais de um milhão de poços não autorizados em Espanha, utilizados principalmente para irrigar as culturas. Sánchez está a trabalhar para evitar que surjam mais, mas teme que a situação só piore à medida que a água se torna menos disponível. “Estamos a nadar contra a corrente”, salientou. “A seca só vai intensificar esta batalha pela água.”
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19.5.23
Portugal tem 89% do seu território em seca
in Jornal Económico
A situação de seca meteorológica agravou-se no nosso País no passado mês de abril, estando 89% do território continental em seca, 34% da qual em seca severa e extrema, de acordo dados recentemente divulgados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Portugal registou em abril um aumento significativo da área e da intensidade em seca meteorológica, sendo especialmente grave a situação dos distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro classificadas nas classes de seca severa a extrema.
No fim do mês passado, 33,2% do território estava em seca moderada, 22% em seca fraca, 19,9% em seca severa, 14,1% em seca extrema e 10,8% normal.
Precisamos de agir
A DECO quer ajudá-lo a poupar água! Partilhamos consigo a campanha informativa ÁGUA COM CONTA E MEDIDA sobre desperdício e uso eficiente da água. É urgente combater a seca severa em Portugal. Use a Água Com Conta e Medida e poupe mais de 120 litros num dia!
Enfrentamos diariamente o flagelo das alterações climáticas, mas continuamos a desperdiçar água, em grande parte por políticas de má gestão deste recurso essencial à vida. Para que a água não falte já amanhã, é urgente que todos os consumidores alterem rotinas, ajustem consumos e adotem comportamentos que permitam, sem perder o seu bem-estar, reduzir os efeitos do período de seca grave que atravessamos.
ÁGUA COM CONTA E MEDIDA destaca ideias para reduzir e poupar de forma fácil e simples.
Na casa de banho
Um banho de imersão pode gastar em média 150 litros de água, prefira um duche rápido de 5 minutos e reduzirá o consumo de água em 90 litros!
Em cada descarga de autoclismo pode gastar até cerca de 15 litros de água. Evite descargas desnecessárias não fazendo da sua sanita um caixote do lixo.
Caso não tenha uma dupla descarga no seu autoclismo, coloque uma garrafa de 1,5 litros, cheia de areia, dentro do depósito da água. Pode diminuir a descarga para 8 litros. Pode ainda regular o parafuso de plástico que comanda a boia. Poupará até 4 litros por descarga completa.
Feche a torneira enquanto escova os dentes e ensaboa as mãos, por minuto, as poupanças podem chegar aos 12 litros de água.
Providencie a reparação de torneiras que pingam. Uma torneira a pingar de 5 em 5 segundos, num dia, consome 30 litros de água, ao fim de uma semana são 210 litros. Feche bem as torneiras e mantenha a canalização doméstica em bom estado.
Na cozinha
Use as máquinas de lavar loiça e roupa apenas com carga completa, sem recorrer a ciclos com pré-lavagem. Prefira os programas eco e poupa cerca de 20% em água.
Não deixe a água a correr enquanto lava a loiça à mão. Encha uma bacia com água limpa para retirar o detergente da louça lavada.
Reaproveite águas residuais para as suas regas e reduza o desperdício de água.
Utilize redutores de caudal nas torneiras.
No exterior
Regue as plantas nas horas de menor calor, de preferência à noite, para evitar perdas por evaporação. Ao usar uma mangueira pode gastar até 18 litros de água a cada minuto. Nestes tempos, e se possível use um balde e no futuro, experimente instalar um sistema de rega “gota a gota”.
Reduza, ou mesmo evite agora, as lavagens do automóvel, que pode consumir até 560 litros de água. Se precisa mesmo, use balde e esponja consumirá só cerca de 50 litros de água.
Descubra todas estas dicas no nosso vídeo informativo:
Pode contar com o apoio da DECO.
Informe-se e contacte o Gabinete de Proteção Financeira: 213 710 238 ou gas@deco.pt. Relate-nos o seu problema pela linha WhatsApp 966 449 110. Visite o nosso site DECO.PT e siga-nos nas páginas de Facebook, Twitter, Instagram e Linkedin.
A situação de seca meteorológica agravou-se no nosso País no passado mês de abril, estando 89% do território continental em seca, 34% da qual em seca severa e extrema, de acordo dados recentemente divulgados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
Portugal registou em abril um aumento significativo da área e da intensidade em seca meteorológica, sendo especialmente grave a situação dos distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro classificadas nas classes de seca severa a extrema.
No fim do mês passado, 33,2% do território estava em seca moderada, 22% em seca fraca, 19,9% em seca severa, 14,1% em seca extrema e 10,8% normal.
Precisamos de agir
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ÁGUA COM CONTA E MEDIDA destaca ideias para reduzir e poupar de forma fácil e simples.
Na casa de banho
Um banho de imersão pode gastar em média 150 litros de água, prefira um duche rápido de 5 minutos e reduzirá o consumo de água em 90 litros!
Em cada descarga de autoclismo pode gastar até cerca de 15 litros de água. Evite descargas desnecessárias não fazendo da sua sanita um caixote do lixo.
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Feche a torneira enquanto escova os dentes e ensaboa as mãos, por minuto, as poupanças podem chegar aos 12 litros de água.
Providencie a reparação de torneiras que pingam. Uma torneira a pingar de 5 em 5 segundos, num dia, consome 30 litros de água, ao fim de uma semana são 210 litros. Feche bem as torneiras e mantenha a canalização doméstica em bom estado.
Na cozinha
Use as máquinas de lavar loiça e roupa apenas com carga completa, sem recorrer a ciclos com pré-lavagem. Prefira os programas eco e poupa cerca de 20% em água.
Não deixe a água a correr enquanto lava a loiça à mão. Encha uma bacia com água limpa para retirar o detergente da louça lavada.
Reaproveite águas residuais para as suas regas e reduza o desperdício de água.
Utilize redutores de caudal nas torneiras.
No exterior
Regue as plantas nas horas de menor calor, de preferência à noite, para evitar perdas por evaporação. Ao usar uma mangueira pode gastar até 18 litros de água a cada minuto. Nestes tempos, e se possível use um balde e no futuro, experimente instalar um sistema de rega “gota a gota”.
Reduza, ou mesmo evite agora, as lavagens do automóvel, que pode consumir até 560 litros de água. Se precisa mesmo, use balde e esponja consumirá só cerca de 50 litros de água.
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15.5.23
Seca: a “maior catástrofe de sempre” já está à nossa espera na bacia do Sado
Carlos Dias (texto) e Matilde Fieschi (fotografia), in Público
Espera-se o pior na produção de cereais e na pecuária. Os animais não têm alimento e os produtores pecuários já enfrentam a escassez de água. As searas estão perdidas. Nem a palha se aproveita.
Já não é Primavera nesta região alentejana. Os anos seguidos de seca, associados à intervenção desregrada do homem, estão a deixar o Sul do país numa situação crítica, sobretudo para as actividades em regime de sequeiro. Agora, o que por lá encontramos são sobreiros secos, muita cortiça que "não ganhou o ano", o rio Sado moribundo, fios de água para alimentar culturas e animais, cevadas e trigos com um palmo de altura. “Faltando água na Primavera, falta-nos tudo. É assim o destino", resume o agricultor Joaquim Sobral.
Uma estranha sensação de vazio tomou o lugar nos olhares antes pasmados com uma das mais impressionantes paisagens naturais que a Primavera devolvia à planície alentejana. Milhões de flores de esteva, pampilhos, magarças, papoilas, que realçavam as tonalidades verde, rosa, amarela, vermelha e roxa, foram substituídas por uma deprimente imagem deixada pelas sucessivas ondas de calor e a escassez de chuva: uma tonalidade cinza que desconforta.
Os ribeiros deixaram de correr em Março e os poços estão a secar em Maio. A busca desesperada por água leva as máquinas a esburacar a terra cada vez mais fundo, por vezes centenas de metros. Até os animais que apascentam nos campos deixaram de encontrar o pasto natural. Necessitam de ser alimentados à mão com fenos, forragens e rações, que só se encontram à custa de preços altos.
É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano. Rui Manuel Gonçalves dos Santos
José Maria Rasquilha, vice-presidente da Associação Nacional de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), descreve ao PÚBLICO um panorama preocupante: “Vamos ter a maior catástrofe de sempre desde que há registos sobre os impactos da seca” nos sectores da produção de cereais e pecuária.
Um cenário que era impossível de prever em Dezembro, quando “o melhor Outono em muitos anos, com níveis hídricos altíssimos entre os 82% e os 85%”, garantia um ano agrícola excepcional que galvanizou os agricultores para apostar no aumento das áreas semeadas de cereais", recorda o dirigente da ANPOC.
No entanto, e depois de cinco meses sem precipitação atmosférica em grandes extensões do Alentejo, as cevadas e os trigos semeados no início do ano têm neste momento um palmo de altura. Não deram grão nem comida para os animais e, em muitos casos, não será possível fazer o aproveitamento da palha que, em circunstâncias normais, asseguraria a alimentação dos efectivos pecuários.
Num contexto em que os fenos e forragens escasseiam tanto em Portugal como em Espanha, o recurso está na aquisição de palhas em França, mas a custos proibitivos. “Estamos muito apreensivos com o que aí vem. A gravidade da situação vai-nos obrigar a esperar pelo Verão do próximo ano para saber se as condições climáticas são mais favoráveis para a produção de cereais” e de alimento para o gado, analisa José Maria Rasquilha, dando conta de que os produtores pecuários já estão a enfrentar as consequências resultantes da falta de água.
O PÚBLICO percorreu parte do território abrangido pela bacia do Sado no triângulo formado pelos concelhos de Santiago do Cacém, Ourique e Castro Verde, a região mais fustigada pelos efeitos da seca. Encontrámos um desolador retrato de uma terra carente. A falta de água torna ainda mais visível a dimensão da doença que afecta sobreiros, muitos deles centenários, e na propagação de mimosas (Acacia dealbata), uma planta infestante que eclode por todo o lado a par das florestações de eucaliptos.
Silvana Sobral, 72 anos, residente perto de Foros do Locário, Santiago do Cacém, não se recorda da persistente falta de água como a que as pessoas da região têm suportado nos últimos anos. “Já vivemos melhor do que agora”, diz, quando, há cerca de 20 anos, a sua família fez um grande investimento para produzir arroz. “Agora não temos água para manter a cultura”, refere inconformada. Restam algumas cabeças de gado e as crescentes dificuldades em alimentar os animais.
Forragem em vez de arroz
Ana Rita Simões, “esposa e sogra de agricultores”, destaca com mais pormenor a dimensão do problema ao atravessar uma ribeira. Ainda tem água, “mas depressa ficará seca, a manter-se este tempo”.
Os dados do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) sobre os volumes de água armazenados, no final de Abril, na barragem de Campilhas, que fornece água para o regadio na região do Alto Sado, confirmam que, entre o início do actual século e 2015, os volumes de água armazenados registam oito anos de pleno enchimento. A última vez foi em 2015. De então para cá os valores apresentam-se sempre abaixo dos 40%.
Em 2022, o volume armazenado ficou reduzido a 4,7%. E em Abril de 2023, situava-se já nos 12,8%. Rita Simões confirma que, de “Alcácer do Sal para baixo, não choveu”. Com efeito, em Janeiro de 2023, quando a esmagadora maioria das barragens públicas nacionais apresentava níveis de armazenamento superiores a 80%, a reserva em Campilhas, afluente do rio Sado, mantinha-se inalterada: 12,5%. E assim continua. No vermelho, com 3,3 milhões de metros cúbicos, quando tem capacidade para armazenar 28 milhões.
Mesmo assim, em vez de arroz “fizemos sementeiras de forragem de azevém” para os animais, dando continuidade à opção que já tinha sido tomada em 2022. “Em anos normais, a forragem crescia, dava-se um corte e a seguir vinha outro. Este ano só deu um”, lamenta a esposa e sogra de agricultores.
“Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.” Joaquim Sobral
De 30 para dois fardos de forragem por hectare
O canal do sistema de rega que transporta a água de Campilhas projecta-se no horizonte cheio de ervas e folhas secas. A observação estava a ser feita quando se aproximava lentamente um fio de água. “É para regar as culturas permanentes”, explica ao PÚBLICO Joaquim Sobral, produtor de arroz e de gado e que toda a gente trata por “Barrigoto”, alcunha que diz ter ficado desde moço. “Mesmo sendo pouca [a água em Campilhas], têm de abrir os descarregadores, senão as árvores [oliveiras e amendoeiras] morrem.”
A leitura que faz da situação não o tranquiliza. “Só sei dizer que isto está mesmo mau. Muito mau. No ano passado suportámos uma seca terrível. Este ano, e mais cedo, vamos por um caminho ainda pior.”
Nas condições actuais, “fazer um hectare de arroz custa mais de mil euros em água”, que sofreu um corte substancial para quem faz a cultura. “E ainda temos os adubos e os herbicidas”, acrescenta o agricultor de 75 anos, com uma expressão de desalento: "Isto está na última.” Conta que houve anos em que não se atrevia a atravessar a ribeira de Campilhas. Com o braço em círculo definia a extensão da área que antes ficara submersa pelas cheias, “até onde a vista alcança”.
Imagens assim já fazem parte de um passado longínquo. “Tínhamos um ano seco de 10 em 10 anos. Agora, na última década, já tivemos metade dos anos com seca”, salienta Joaquim Sobral, rendeiro, nas terras que cultiva e onde apascenta o gado. “Os animais é que são o nosso maior problema”, frisando que, em anos normais, “tirava 30/40 fardos de forragem por hectare". "Este ano fiquei entre dois e quatro fardos.” A explicação para a escassez é fácil de encontrar: “Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.”
Tem dois filhos ligados aos trabalhos do campo e sem vontade de ir para outro lado, “apesar de o horário de trabalho ser de 24 horas por dia” e o futuro não ser promissor. Mesmo com Alqueva. “O preço da água não dá para fazer arroz”, sentencia, reconhecendo não ter condições para fazer amêndoas ou azeite. “Também precisamos de um pouco de arroz e de carne na nossa alimentação, não acha?"
Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses. Rui Manuel Gonçalves dos Santos
Barragens no vermelho
Na albufeira de Campilhas, junto à tomada de água (estrutura de captação e distribuição de água) coberta de ninhos de andorinha, um sobreiro nasceu de forma espontânea nas fendas da rocha xistosa. Teve tempo para crescer à medida que a cota do espelho de água se reduz, como na outra barragem do sistema de rega: Monte da Rocha, localizada no concelho de Ourique.
Assegura a rede pública de abastecimento nos concelhos de Ourique, Castro Verde, Almodôvar, Mértola e Odemira, ao todo cerca de 18 mil habitantes. E há muitos anos que consomem água tratada de um charco que obriga a medidas reforçadas no seu tratamento. No dia 12 de Maio, o volume armazenado nesta albufeira era de apenas 10 milhões de metros cúbicos, 10% da sua capacidade máxima de enchimento. É outra barragem pública que se encontra no vermelho.
O percurso do rio Sado que é retido pela barragem do Monte da Rocha apresenta-se, a montante e dezenas de quilómetros a jusante, completamente seco. Quando se olha para a sua foz ao largo de Setúbal, para a pujança dos empreendimentos turísticos que cobrem o cordão dunar que o rio e o oceano formaram ao longo de milhões de anos, dificilmente se compreenderá que a montante o rio deixou de correr há muitos meses. O historial nos armazenamentos de água nesta albufeira é em tudo idêntico ao que se observa na barragem de Campilhas.
Desde 2015 que os níveis de escassez se repetem até que chegue o prometido transvase de Alqueva, para garantir o consumo humano e o regadio de três mil hectares de terras com fraca aptidão agrícola, como a exploração de Rui Manuel Gonçalves dos Santos, com quem o PÚBLICO conversou enquanto uma máquina enfardava o que restava de uma seara de triticale, um cereal híbrido “fabricado” pelo homem e muito usado na constituição de rações para a produção de leite, ovos, aves ou suínos. “Por causa da seca, a seara não criou bago [grão] e estamos a enfardar o feno”, explica o agricultor, sublinhando as dificuldades em fazer regadio. “Só dão água para oito dias quando precisamos para 20.”
O recurso alternativo está na produção de cereais ou na pecuária. “Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses.” Entretanto, a seara de triticale também se perdeu.
“No ano passado, a situação por causa da seca foi má, mas este ano ainda consegue ser pior”, realça Gonçalves dos Santos, frisando o prejuízo até para o montado de sobro. “É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não o vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano”, ou seja, devido à seca e às altas temperaturas, fica limitada a disponibilidade da cortiça para a colheita, uma vez que, como resposta natural, esta adere fortemente ao tronco e impossibilita o levantamento da camada sem danificar a árvore.
Muitos agricultores com povoamentos de sobreiros decidiram adiar a colheita por mais um ano, esperando que a chuva do próximo ano favoreça as árvores. “Além do mal que já têm – a fitóftora (Phytophthora cinnamomi) –, a seca não veio ajudar.” Também este agricultor espera que o próximo Outono traga chuva em abundância e, a seguir, a Primavera, que a região este ano perdeu de vista.
Nas aldeias e nos montes do Alentejo, a vida esmoreceu para dar lugar ao desalento e à vontade de partir. Até a vontade de rezar para que chova deixou de fazer sentido. Mas não se deixa de olhar o céu à espera de que a chuva volte de novo a alagar os campos e a encher as ribeiras.
Já não é Primavera nesta região alentejana. Os anos seguidos de seca, associados à intervenção desregrada do homem, estão a deixar o Sul do país numa situação crítica, sobretudo para as actividades em regime de sequeiro. Agora, o que por lá encontramos são sobreiros secos, muita cortiça que "não ganhou o ano", o rio Sado moribundo, fios de água para alimentar culturas e animais, cevadas e trigos com um palmo de altura. “Faltando água na Primavera, falta-nos tudo. É assim o destino", resume o agricultor Joaquim Sobral.
Uma estranha sensação de vazio tomou o lugar nos olhares antes pasmados com uma das mais impressionantes paisagens naturais que a Primavera devolvia à planície alentejana. Milhões de flores de esteva, pampilhos, magarças, papoilas, que realçavam as tonalidades verde, rosa, amarela, vermelha e roxa, foram substituídas por uma deprimente imagem deixada pelas sucessivas ondas de calor e a escassez de chuva: uma tonalidade cinza que desconforta.
Os ribeiros deixaram de correr em Março e os poços estão a secar em Maio. A busca desesperada por água leva as máquinas a esburacar a terra cada vez mais fundo, por vezes centenas de metros. Até os animais que apascentam nos campos deixaram de encontrar o pasto natural. Necessitam de ser alimentados à mão com fenos, forragens e rações, que só se encontram à custa de preços altos.
É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano. Rui Manuel Gonçalves dos Santos
José Maria Rasquilha, vice-presidente da Associação Nacional de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC), descreve ao PÚBLICO um panorama preocupante: “Vamos ter a maior catástrofe de sempre desde que há registos sobre os impactos da seca” nos sectores da produção de cereais e pecuária.
Um cenário que era impossível de prever em Dezembro, quando “o melhor Outono em muitos anos, com níveis hídricos altíssimos entre os 82% e os 85%”, garantia um ano agrícola excepcional que galvanizou os agricultores para apostar no aumento das áreas semeadas de cereais", recorda o dirigente da ANPOC.
No entanto, e depois de cinco meses sem precipitação atmosférica em grandes extensões do Alentejo, as cevadas e os trigos semeados no início do ano têm neste momento um palmo de altura. Não deram grão nem comida para os animais e, em muitos casos, não será possível fazer o aproveitamento da palha que, em circunstâncias normais, asseguraria a alimentação dos efectivos pecuários.
Num contexto em que os fenos e forragens escasseiam tanto em Portugal como em Espanha, o recurso está na aquisição de palhas em França, mas a custos proibitivos. “Estamos muito apreensivos com o que aí vem. A gravidade da situação vai-nos obrigar a esperar pelo Verão do próximo ano para saber se as condições climáticas são mais favoráveis para a produção de cereais” e de alimento para o gado, analisa José Maria Rasquilha, dando conta de que os produtores pecuários já estão a enfrentar as consequências resultantes da falta de água.
O PÚBLICO percorreu parte do território abrangido pela bacia do Sado no triângulo formado pelos concelhos de Santiago do Cacém, Ourique e Castro Verde, a região mais fustigada pelos efeitos da seca. Encontrámos um desolador retrato de uma terra carente. A falta de água torna ainda mais visível a dimensão da doença que afecta sobreiros, muitos deles centenários, e na propagação de mimosas (Acacia dealbata), uma planta infestante que eclode por todo o lado a par das florestações de eucaliptos.
Silvana Sobral, 72 anos, residente perto de Foros do Locário, Santiago do Cacém, não se recorda da persistente falta de água como a que as pessoas da região têm suportado nos últimos anos. “Já vivemos melhor do que agora”, diz, quando, há cerca de 20 anos, a sua família fez um grande investimento para produzir arroz. “Agora não temos água para manter a cultura”, refere inconformada. Restam algumas cabeças de gado e as crescentes dificuldades em alimentar os animais.
Forragem em vez de arroz
Ana Rita Simões, “esposa e sogra de agricultores”, destaca com mais pormenor a dimensão do problema ao atravessar uma ribeira. Ainda tem água, “mas depressa ficará seca, a manter-se este tempo”.
Os dados do Serviço Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH) sobre os volumes de água armazenados, no final de Abril, na barragem de Campilhas, que fornece água para o regadio na região do Alto Sado, confirmam que, entre o início do actual século e 2015, os volumes de água armazenados registam oito anos de pleno enchimento. A última vez foi em 2015. De então para cá os valores apresentam-se sempre abaixo dos 40%.
Em 2022, o volume armazenado ficou reduzido a 4,7%. E em Abril de 2023, situava-se já nos 12,8%. Rita Simões confirma que, de “Alcácer do Sal para baixo, não choveu”. Com efeito, em Janeiro de 2023, quando a esmagadora maioria das barragens públicas nacionais apresentava níveis de armazenamento superiores a 80%, a reserva em Campilhas, afluente do rio Sado, mantinha-se inalterada: 12,5%. E assim continua. No vermelho, com 3,3 milhões de metros cúbicos, quando tem capacidade para armazenar 28 milhões.
Mesmo assim, em vez de arroz “fizemos sementeiras de forragem de azevém” para os animais, dando continuidade à opção que já tinha sido tomada em 2022. “Em anos normais, a forragem crescia, dava-se um corte e a seguir vinha outro. Este ano só deu um”, lamenta a esposa e sogra de agricultores.
“Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.” Joaquim Sobral
De 30 para dois fardos de forragem por hectare
O canal do sistema de rega que transporta a água de Campilhas projecta-se no horizonte cheio de ervas e folhas secas. A observação estava a ser feita quando se aproximava lentamente um fio de água. “É para regar as culturas permanentes”, explica ao PÚBLICO Joaquim Sobral, produtor de arroz e de gado e que toda a gente trata por “Barrigoto”, alcunha que diz ter ficado desde moço. “Mesmo sendo pouca [a água em Campilhas], têm de abrir os descarregadores, senão as árvores [oliveiras e amendoeiras] morrem.”
A leitura que faz da situação não o tranquiliza. “Só sei dizer que isto está mesmo mau. Muito mau. No ano passado suportámos uma seca terrível. Este ano, e mais cedo, vamos por um caminho ainda pior.”
Nas condições actuais, “fazer um hectare de arroz custa mais de mil euros em água”, que sofreu um corte substancial para quem faz a cultura. “E ainda temos os adubos e os herbicidas”, acrescenta o agricultor de 75 anos, com uma expressão de desalento: "Isto está na última.” Conta que houve anos em que não se atrevia a atravessar a ribeira de Campilhas. Com o braço em círculo definia a extensão da área que antes ficara submersa pelas cheias, “até onde a vista alcança”.
Imagens assim já fazem parte de um passado longínquo. “Tínhamos um ano seco de 10 em 10 anos. Agora, na última década, já tivemos metade dos anos com seca”, salienta Joaquim Sobral, rendeiro, nas terras que cultiva e onde apascenta o gado. “Os animais é que são o nosso maior problema”, frisando que, em anos normais, “tirava 30/40 fardos de forragem por hectare". "Este ano fiquei entre dois e quatro fardos.” A explicação para a escassez é fácil de encontrar: “Faltando água na Primavera falta-nos tudo. É assim o destino.”
Tem dois filhos ligados aos trabalhos do campo e sem vontade de ir para outro lado, “apesar de o horário de trabalho ser de 24 horas por dia” e o futuro não ser promissor. Mesmo com Alqueva. “O preço da água não dá para fazer arroz”, sentencia, reconhecendo não ter condições para fazer amêndoas ou azeite. “Também precisamos de um pouco de arroz e de carne na nossa alimentação, não acha?"
Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses. Rui Manuel Gonçalves dos Santos
Barragens no vermelho
Na albufeira de Campilhas, junto à tomada de água (estrutura de captação e distribuição de água) coberta de ninhos de andorinha, um sobreiro nasceu de forma espontânea nas fendas da rocha xistosa. Teve tempo para crescer à medida que a cota do espelho de água se reduz, como na outra barragem do sistema de rega: Monte da Rocha, localizada no concelho de Ourique.
Assegura a rede pública de abastecimento nos concelhos de Ourique, Castro Verde, Almodôvar, Mértola e Odemira, ao todo cerca de 18 mil habitantes. E há muitos anos que consomem água tratada de um charco que obriga a medidas reforçadas no seu tratamento. No dia 12 de Maio, o volume armazenado nesta albufeira era de apenas 10 milhões de metros cúbicos, 10% da sua capacidade máxima de enchimento. É outra barragem pública que se encontra no vermelho.
O percurso do rio Sado que é retido pela barragem do Monte da Rocha apresenta-se, a montante e dezenas de quilómetros a jusante, completamente seco. Quando se olha para a sua foz ao largo de Setúbal, para a pujança dos empreendimentos turísticos que cobrem o cordão dunar que o rio e o oceano formaram ao longo de milhões de anos, dificilmente se compreenderá que a montante o rio deixou de correr há muitos meses. O historial nos armazenamentos de água nesta albufeira é em tudo idêntico ao que se observa na barragem de Campilhas.
Desde 2015 que os níveis de escassez se repetem até que chegue o prometido transvase de Alqueva, para garantir o consumo humano e o regadio de três mil hectares de terras com fraca aptidão agrícola, como a exploração de Rui Manuel Gonçalves dos Santos, com quem o PÚBLICO conversou enquanto uma máquina enfardava o que restava de uma seara de triticale, um cereal híbrido “fabricado” pelo homem e muito usado na constituição de rações para a produção de leite, ovos, aves ou suínos. “Por causa da seca, a seara não criou bago [grão] e estamos a enfardar o feno”, explica o agricultor, sublinhando as dificuldades em fazer regadio. “Só dão água para oito dias quando precisamos para 20.”
O recurso alternativo está na produção de cereais ou na pecuária. “Tínhamos uma exploração de bovinos, mas já vendemos os animais porque as reservas de alimento davam apenas para três meses.” Entretanto, a seara de triticale também se perdeu.
“No ano passado, a situação por causa da seca foi má, mas este ano ainda consegue ser pior”, realça Gonçalves dos Santos, frisando o prejuízo até para o montado de sobro. “É ano de tirar a cortiça nalguns dos nossos povoamentos, mas não o vamos fazer. A Primavera foi seca e a cortiça não ganhou o ano”, ou seja, devido à seca e às altas temperaturas, fica limitada a disponibilidade da cortiça para a colheita, uma vez que, como resposta natural, esta adere fortemente ao tronco e impossibilita o levantamento da camada sem danificar a árvore.
Muitos agricultores com povoamentos de sobreiros decidiram adiar a colheita por mais um ano, esperando que a chuva do próximo ano favoreça as árvores. “Além do mal que já têm – a fitóftora (Phytophthora cinnamomi) –, a seca não veio ajudar.” Também este agricultor espera que o próximo Outono traga chuva em abundância e, a seguir, a Primavera, que a região este ano perdeu de vista.
Nas aldeias e nos montes do Alentejo, a vida esmoreceu para dar lugar ao desalento e à vontade de partir. Até a vontade de rezar para que chova deixou de fazer sentido. Mas não se deixa de olhar o céu à espera de que a chuva volte de novo a alagar os campos e a encher as ribeiras.
11.5.23
Famalicão agrava multas pelo consumo ilícito da água da rede pública
Olímpia Mairos, in RR
A coima máxima vai fixar-se nos 3.740 euros no caso das pessoas singulares, chegando aos 44.890 euros para as pessoas coletivas.
A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão vai agravar as coimas aplicadas pela utilização ilegal e indevida da água da rede de abastecimento público.
Segundo a autarquia, a decisão vai ao encontro a um estudo da Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos (ERSAR) que, recentemente, apontou o consumo ilícito de água da rede pública “como uma das principais razões para as grandes perdas de água que se registam no país, colocando em discussão pública um projeto de recomendação com procedimentos e boas práticas a adotar visando a redução dessas mesmas perdas”.
Neste contexto, a autarquia famalicense decidiu aumentar a coima mínima aplicada às pessoas singulares de 350 para 1.500 euros, subindo para 7.500 euros no caso das pessoas coletivas. A coima máxima vai fixar-se nos 3.740 euros no caso das pessoas singulares, chegando aos 44.890 euros para as pessoas coletivas.
Para o vereador do Ambiente, Hélder Pereira, esta é uma medida exemplificativa da “aposta séria” da autarquia no combate às perdas de água, acrescentando que “haverá uma maior fiscalização nas zonas em que se verifiquem picos de consumo e consumos anormais de água da rede pública”.
Uma medida que tem por base o documento elaborado pela ERSAR que indica que os consumos ilícitos efetuados pelos utilizadores advêm principalmente de atos de manipulação dos contadores e de ligações ilícitas.
De acordo com a autarquia de Famalicão, as manipulações de contadores podem ocorrer “com a imobilização ou destruição do contador através de ações mecânicas, térmicas ou outras, existindo também situações em que se verifica a remoção do próprio contador”.
Já quanto às ligações ilícitas, a autarquia explica que “estas podem ocorrer através de ligação direta à rede de distribuição, ligações a sistemas de incêndio ou ainda através de ligação em derivação (“bypass”) ao contador”.
Recorde-se que a situação de seca meteorológica se agravou em Portugal continental no mês de abril, estando 89% do território continental em seca, 34% da qual em seca severa e extrema, segundo os últimos dados do IPMA.
Em um mês, a área em seca em Portugal continental quase duplicou em relação a março, quando era de 48%.
De acordo com o último boletim climatológico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), verificou-se no fim de abril um aumento significativo da área e da intensidade em seca meteorológica, destacando-se a região Nordeste na classe de seca moderada e na região sul os distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro nas classes de seca severa a extrema.
A coima máxima vai fixar-se nos 3.740 euros no caso das pessoas singulares, chegando aos 44.890 euros para as pessoas coletivas.
A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão vai agravar as coimas aplicadas pela utilização ilegal e indevida da água da rede de abastecimento público.
Segundo a autarquia, a decisão vai ao encontro a um estudo da Entidade Reguladora dos Serviços de Água e Resíduos (ERSAR) que, recentemente, apontou o consumo ilícito de água da rede pública “como uma das principais razões para as grandes perdas de água que se registam no país, colocando em discussão pública um projeto de recomendação com procedimentos e boas práticas a adotar visando a redução dessas mesmas perdas”.
Neste contexto, a autarquia famalicense decidiu aumentar a coima mínima aplicada às pessoas singulares de 350 para 1.500 euros, subindo para 7.500 euros no caso das pessoas coletivas. A coima máxima vai fixar-se nos 3.740 euros no caso das pessoas singulares, chegando aos 44.890 euros para as pessoas coletivas.
Para o vereador do Ambiente, Hélder Pereira, esta é uma medida exemplificativa da “aposta séria” da autarquia no combate às perdas de água, acrescentando que “haverá uma maior fiscalização nas zonas em que se verifiquem picos de consumo e consumos anormais de água da rede pública”.
Uma medida que tem por base o documento elaborado pela ERSAR que indica que os consumos ilícitos efetuados pelos utilizadores advêm principalmente de atos de manipulação dos contadores e de ligações ilícitas.
De acordo com a autarquia de Famalicão, as manipulações de contadores podem ocorrer “com a imobilização ou destruição do contador através de ações mecânicas, térmicas ou outras, existindo também situações em que se verifica a remoção do próprio contador”.
Já quanto às ligações ilícitas, a autarquia explica que “estas podem ocorrer através de ligação direta à rede de distribuição, ligações a sistemas de incêndio ou ainda através de ligação em derivação (“bypass”) ao contador”.
Recorde-se que a situação de seca meteorológica se agravou em Portugal continental no mês de abril, estando 89% do território continental em seca, 34% da qual em seca severa e extrema, segundo os últimos dados do IPMA.
Em um mês, a área em seca em Portugal continental quase duplicou em relação a março, quando era de 48%.
De acordo com o último boletim climatológico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), verificou-se no fim de abril um aumento significativo da área e da intensidade em seca meteorológica, destacando-se a região Nordeste na classe de seca moderada e na região sul os distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro nas classes de seca severa a extrema.
No Mira, o abuso de poder e a venda ilegal de água já levaram Governo a agir
Carlos Dias, in Público online
Violação de normas, abuso de poder, venda ilegal de água e a “forma displicente” como promove a conservação das infra-estruturas de rega impuseram a destituição da Associação de Beneficiários do Mira.
Várias denúncias “por alegadas irregularidades” cometidas pela direcção da Associação de Beneficiários do Mira (ABM) forçaram a Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) à destituição do órgão gestor Aproveitamento Hidroagrícola do Mira (AHM) e a nomear uma comissão administrativa para assegurar a campanha de rega de 2023.
No despacho elaborado pela DGADR, datado de 20 Março de 2023 e assinado pela ministra da Agricultura e Alimentação (MAA), Maria do Céu Antunes, a que o PÚBLICO teve acesso, é feita a referência à prática de actos de “manifesto abuso de poder, (…) ao vedar a aferição da legalidade dos actos praticados e das deliberações tomadas, nomeadamente, impedindo a consulta de processos e documentos administrativos”.
De entre os fundamentos que sustentam a decisão da DGADR, destaca-se uma providência cautelar de “suspensão de eficácia de acto administrativo” requerida pela empresa Campo Sol, Lda., junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja, em Agosto de 2022. A empresa queixa-se de ter sido privada do fornecimento de água, decisão que diz “violar as normas” a que a ABM está vinculada, “contrariando” assim o regulamento do AHM.
A Campo Sol, Lda. invoca, entre outros fundamentos que diz justificarem a providência cautelar, a criação de um “mercado paralelo e não regulamentado dos direitos de água”, em que os proprietários dos terrenos inseridos no AHM, que não exercem actividade agrícola, “vendem os seus direitos” da água de rega a “preços abusivos” aos agricultores, prática que será “intermediada por terceiros”, alega a empresa.
O despacho da DGADR refere ainda que, entre a prova documental exposta por aquela empresa, “consta documentação” respeitante a vários contratos de cedência de água a outros prédios, os quais foram aceites pela ABM e nos quais não é exercida qualquer actividade agrícola, sendo que tal prática – a utilização de água fora do local beneficiado – “consubstancia uma contra-ordenação” prevista no regulamento do AHM.
O negócio associado à venda ilegal de água entre agricultores que tinham débito atribuído mas não fizeram o seu uso para outros agricultores que dela necessitavam envolveu verbas que podem ter oscilado entre os 500 e os 2500 euros por hectare. Obviamente que os valores à volta desta água servida de forma clandestina não são oficiais. A prática está sob investigação e foi uma das causas que contribuíram para a destituição da direcção da Associação de Beneficiários do Mira. Não foi possível, no entanto, apurar qual o volume de água transaccionado de forma ilegal.
Perdido o financiamento para executar projecto
As denúncias formuladas pela DGADR à direcção da ABM estendem-se à “forma displicente” como a associação promove a manutenção e a conservação das infra-estruturas de rega. E destaca uma situação concreta: durante o ano de 2022, a DGADR “prorrogou por três vezes” o prazo para que a associação pudesse obter uma dotação orçamental de 30 milhões de euros, através do PDR2020, para “melhorar” a eficiência do sistema de rega do Mira.
Leia mais sobre seca no Azul:
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P24. A seca avança a Sul. “Há campanhas agrícolas que já não se vão fazer”
Seca asfixia Espanha: “É preciso converter a Andaluzia no Silicon Valley da Europa”
Este financiamento destinava-se à construção da estação elevatória de Santa Clara, à impermeabilização dos troços do canal condutor geral, do canal de Milfontes e do canal de Odeceixe, à reabilitação do sifão de Baiona e à construção de três reservatórios de regularização.
Contudo, o acesso ao financiamento obrigava a ABM a possuir um projecto de execução concluído e aprovado pelas entidades competentes, pelo que a DGADR deu indicações expressas para que a candidatura de construção da nova estação elevatória de Santa Clara, considerada no actual contexto de escassez de água, fosse, obrigatoriamente, apresentada até ao dia 2 de Setembro de 2022.
Mas acontece que o respectivo projecto de execução "nunca foi aprovado pela DGADR", refere-se no despacho, que acrescenta: o documento submetido pela ABM para apreciação não era um projecto de execução, mas um projecto de concepção-construção. Assim, até ao momento, a ABM “não conseguiu obter financiamento para nenhuma das intervenções consideradas de importância relevante", conclui o documento.
O nível de água mais baixo dos últimos 50 anos
A albufeira da barragem de Santa Clara armazena, neste momento, 172,4 hm3 dos 485 hm3 que pode receber, o que equivale a 36% da sua capacidade máxima. É o mais baixo dos volumes de água registados ao longo dos últimos 50 anos, ou seja, desde que a barragem foi inaugurada, limitação que obrigou à instalação de um sistema de bombeamento para fornecer água à agricultura e assegurar o consumo humano.
Actualmente, a albufeira de Santa Clara, está a ser explorada no seu volume morto (244.7 hm3), resultado de sucessivos anos em que se registaram consumos superiores às afluências, dada a fraca precipitação atmosférica que surge associada às perdas de água por evaporação e no circuito hidráulico colocando em causa as várias utilizações que suporta.
A progressiva escassez de recursos hídricos forçou à instalação um novo sistema de captação que ultrapassasse a limitação do actual (107 metros acima do nível do mar). Neste sentido foi autorizada em Outubro de 2022 a captação de água até à cota 105 metros e a redução do volume reservado para a agricultura, que passou de 80,5 hm3/ano para 60,5 hm3/ano. Mesmo assim, a redução do volume de armazenamento acentuou-se de então para cá nesta área do Mira. Para a campanha de rega de 2023 vão ser disponibilizados 14,3 hm3.
Os pequenos frutos (framboesas, mirtilos e amoras) na maioria produzidos em estufa e em vaso, são responsáveis pelo consumo de 39% e a horticultura por 36% dos recursos hídricos disponibilizados pela barragem para a agricultura, totalizando os dois 75%.
Os consumos da campanha de rega de 2022 ascenderam aos 32 de hm3. Para 2023 está previsto um débito de 14,3 hm3, sendo que deste volume, cerca de 10,8 hm3 (75%) serão destinados à rega de culturas em estufa e em vaso, mais hortícolas.
Em 2022 a área inscrita para rega foi de 9188 hectares. Em 2023 a área inscrita aumentou para os 9725 hectares.
Situações anómalas na campanha de rega de 2021
As situações anómalas na gestão da ABM estendem-se à elaboração da campanha de rega de 2021, depois de a DGADR ter constatado que os valores reportados pela associação “suscitaram fundadas dúvidas”, entre outros, os relativos às áreas e culturas regadas dentro e fora do perímetro, neste último caso, os chamados agricultores precários (com explorações fora do perímetro de rega).
Os dados apresentados pela ABM para o ano de 2021, ao serem comparados com os de 2020, levam à “constatação” de que as áreas de culturas permanentes precárias “deixaram de existir”, mas, em contrapartida, as áreas de culturas permanentes dentro do perímetro de rega “passaram a ser” o somatório das áreas localizadas “dentro” e “fora” do regadio”.
Ou seja: em 2021, devido às restrições impostas pelos recursos hídricos disponíveis, deixaram de existir utentes precários, mas as áreas dentro do perímetro de rega aumentaram. E, nalguns casos, a soma das áreas de cultivo dentro e fora dos blocos de rega em 2020 “é igual ou muito aproximado dos valores enviados relativos ao ano de 2021”.
A ABM informou que os dados apresentados resultam de "instruções internas do serviço relacionadas com as restrições ao consumo impostas na campanha de 2021, assim apenas foi permitido a inscrição de áreas beneficiadas contabilizando-se para efeitos estatísticos apenas dentro do Aproveitamento Hidroagrícola do Mira.”
Para o planeamento da campanha de rega de 2023 “ainda não foram definidos” os critérios de atribuição dos 14,3 hectómetros cúbicos de água que este ano foram destinados à agricultura de regadio, apesar de já estar a decorrer.
A DGADR não se conformou com a resposta e a troca de argumentos entre as duas entidades manteve-se ao longo de quase seis meses. Até que em Dezembro de 2022 a ABM informou que “… procedeu novamente à verificação dos dados relativos às culturas permanentes do AHM, tendo-se concluído que os valores indicados no relatório e contas de 2021, nos quadros das áreas regadas, contêm um lapso…”, que será corrigido para ser incluído no relatório e contas de 2022. A DGADR continua a aguardar que lhe seja enviada a alteração prometida.
Entretanto, para o planeamento da campanha de rega de 2023, “ainda não foram definidos” os critérios de atribuição dos 14,3 hectómetros cúbicos de água que este ano foram destinados à agricultura de regadio, apesar de já estar a decorrer.
O volume de água a debitar para o regadio está sujeito aos critérios de atribuição plasmados no Plano de Contingência para Situações de Seca, adaptado às condições actuais de reduzidas disponibilidades de água, de “forma a reduzir o impacto económico e social na área beneficiada pelo AHM”, explica a direcção-geral.
Neste sentido, a DGADR, entre as várias directivas e instruções que diz já ter transmitido à ABM, salienta que o planeamento de rega “deveria ratear áreas a regar, considerar as inscrições para os beneficiários que regaram na campanha de 2022, excepto caso haja investimentos já comprometidos, e divulgar de forma activa a impossibilidade de regar novas áreas”. Ficam assim impedidas novas culturas em estufa.
E a campanha de 2023?
O planeamento da campanha de 2023 deixará de atribuir a dotação de rega “igual para todos os tipos de usos, uma vez que não são usos igualmente prioritários e com necessidades de água equivalentes”. Foi, igualmente, dada orientação na priorização do tipo de culturas, onde, por exemplo, “as culturas não agrícolas não seriam prioritárias (relva e floricultura)”, decisão que abrange a empresa Camposol Lda.
Da falta de implementação atempada do Plano de Contingência (PC) e da garantia na operacionalidade do Plano de Investimentos (PI), “poderão advir consequências extraordinariamente gravosas para a actividade das empresas agrícolas instaladas no perímetro de rega” que poderão ser “geradoras de responsabilidade civil extracontratual para a entidade gestora e para o Estado português”, assinala o despacho da DGADR.
Este organismo entende que deverão ser tomadas “medidas urgentes para pôr cobro a esta situação”, revelando que já está em curso um Inquérito Administrativo por “existir uma deficiência grave na actuação da direcção da ABM”. O despacho conclui que esta entidade “mostra-se incapaz de implementar e concretizar os PC e PI e não possui uma visão estratégica que permita, pelo menos, assegurar a campanha de rega de 2023”.
Assim, a direcção-geral propôs ao Ministério da Agricultura a “destituição da direcção da ABM e a nomeação, em sua substituição, de uma comissão administrativa que assegure com urgência a campanha de rega de 2023”.
Nos esclarecimentos prestados ao PÚBLICO, o presidente da direcção da ABM, Miguel Figueira, adiantou que o procedimento administrativo, iniciado pela DGADR, com vista à “eventual demissão” do órgão a que preside “foi oportunamente e tempestivamente respondido”, acrescentando que foram refutados “todos os factos que lhe eram apontados”.
Em relação à interposição da providência cautelar requerida pela empresa Campo Sol, Lda., Miguel Figueira disse que a acção da empresa se enquadra “no exercício dos normais direitos vivenciados em democracia, cabendo aos tribunais aferir a sua procedência ou improcedência”, frisando ainda que a direcção da ABM “actuou sempre dentro das suas competências estatutárias e de acordo com os limites que as leis lhe impõem”.
O PÚBLICO questionou a Campo Sol Lda. sobre as decisões tomadas pela ABM e as consequências resultantes para a empresa, mas até ao momento não recebeu qualquer resposta.
Violação de normas, abuso de poder, venda ilegal de água e a “forma displicente” como promove a conservação das infra-estruturas de rega impuseram a destituição da Associação de Beneficiários do Mira.
Várias denúncias “por alegadas irregularidades” cometidas pela direcção da Associação de Beneficiários do Mira (ABM) forçaram a Direcção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) à destituição do órgão gestor Aproveitamento Hidroagrícola do Mira (AHM) e a nomear uma comissão administrativa para assegurar a campanha de rega de 2023.
No despacho elaborado pela DGADR, datado de 20 Março de 2023 e assinado pela ministra da Agricultura e Alimentação (MAA), Maria do Céu Antunes, a que o PÚBLICO teve acesso, é feita a referência à prática de actos de “manifesto abuso de poder, (…) ao vedar a aferição da legalidade dos actos praticados e das deliberações tomadas, nomeadamente, impedindo a consulta de processos e documentos administrativos”.
De entre os fundamentos que sustentam a decisão da DGADR, destaca-se uma providência cautelar de “suspensão de eficácia de acto administrativo” requerida pela empresa Campo Sol, Lda., junto do Tribunal Administrativo e Fiscal de Beja, em Agosto de 2022. A empresa queixa-se de ter sido privada do fornecimento de água, decisão que diz “violar as normas” a que a ABM está vinculada, “contrariando” assim o regulamento do AHM.
A Campo Sol, Lda. invoca, entre outros fundamentos que diz justificarem a providência cautelar, a criação de um “mercado paralelo e não regulamentado dos direitos de água”, em que os proprietários dos terrenos inseridos no AHM, que não exercem actividade agrícola, “vendem os seus direitos” da água de rega a “preços abusivos” aos agricultores, prática que será “intermediada por terceiros”, alega a empresa.
O despacho da DGADR refere ainda que, entre a prova documental exposta por aquela empresa, “consta documentação” respeitante a vários contratos de cedência de água a outros prédios, os quais foram aceites pela ABM e nos quais não é exercida qualquer actividade agrícola, sendo que tal prática – a utilização de água fora do local beneficiado – “consubstancia uma contra-ordenação” prevista no regulamento do AHM.
O negócio associado à venda ilegal de água entre agricultores que tinham débito atribuído mas não fizeram o seu uso para outros agricultores que dela necessitavam envolveu verbas que podem ter oscilado entre os 500 e os 2500 euros por hectare. Obviamente que os valores à volta desta água servida de forma clandestina não são oficiais. A prática está sob investigação e foi uma das causas que contribuíram para a destituição da direcção da Associação de Beneficiários do Mira. Não foi possível, no entanto, apurar qual o volume de água transaccionado de forma ilegal.
Perdido o financiamento para executar projecto
As denúncias formuladas pela DGADR à direcção da ABM estendem-se à “forma displicente” como a associação promove a manutenção e a conservação das infra-estruturas de rega. E destaca uma situação concreta: durante o ano de 2022, a DGADR “prorrogou por três vezes” o prazo para que a associação pudesse obter uma dotação orçamental de 30 milhões de euros, através do PDR2020, para “melhorar” a eficiência do sistema de rega do Mira.
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Este financiamento destinava-se à construção da estação elevatória de Santa Clara, à impermeabilização dos troços do canal condutor geral, do canal de Milfontes e do canal de Odeceixe, à reabilitação do sifão de Baiona e à construção de três reservatórios de regularização.
Contudo, o acesso ao financiamento obrigava a ABM a possuir um projecto de execução concluído e aprovado pelas entidades competentes, pelo que a DGADR deu indicações expressas para que a candidatura de construção da nova estação elevatória de Santa Clara, considerada no actual contexto de escassez de água, fosse, obrigatoriamente, apresentada até ao dia 2 de Setembro de 2022.
Mas acontece que o respectivo projecto de execução "nunca foi aprovado pela DGADR", refere-se no despacho, que acrescenta: o documento submetido pela ABM para apreciação não era um projecto de execução, mas um projecto de concepção-construção. Assim, até ao momento, a ABM “não conseguiu obter financiamento para nenhuma das intervenções consideradas de importância relevante", conclui o documento.
O nível de água mais baixo dos últimos 50 anos
A albufeira da barragem de Santa Clara armazena, neste momento, 172,4 hm3 dos 485 hm3 que pode receber, o que equivale a 36% da sua capacidade máxima. É o mais baixo dos volumes de água registados ao longo dos últimos 50 anos, ou seja, desde que a barragem foi inaugurada, limitação que obrigou à instalação de um sistema de bombeamento para fornecer água à agricultura e assegurar o consumo humano.
Actualmente, a albufeira de Santa Clara, está a ser explorada no seu volume morto (244.7 hm3), resultado de sucessivos anos em que se registaram consumos superiores às afluências, dada a fraca precipitação atmosférica que surge associada às perdas de água por evaporação e no circuito hidráulico colocando em causa as várias utilizações que suporta.
A progressiva escassez de recursos hídricos forçou à instalação um novo sistema de captação que ultrapassasse a limitação do actual (107 metros acima do nível do mar). Neste sentido foi autorizada em Outubro de 2022 a captação de água até à cota 105 metros e a redução do volume reservado para a agricultura, que passou de 80,5 hm3/ano para 60,5 hm3/ano. Mesmo assim, a redução do volume de armazenamento acentuou-se de então para cá nesta área do Mira. Para a campanha de rega de 2023 vão ser disponibilizados 14,3 hm3.
Os pequenos frutos (framboesas, mirtilos e amoras) na maioria produzidos em estufa e em vaso, são responsáveis pelo consumo de 39% e a horticultura por 36% dos recursos hídricos disponibilizados pela barragem para a agricultura, totalizando os dois 75%.
Os consumos da campanha de rega de 2022 ascenderam aos 32 de hm3. Para 2023 está previsto um débito de 14,3 hm3, sendo que deste volume, cerca de 10,8 hm3 (75%) serão destinados à rega de culturas em estufa e em vaso, mais hortícolas.
Em 2022 a área inscrita para rega foi de 9188 hectares. Em 2023 a área inscrita aumentou para os 9725 hectares.
Situações anómalas na campanha de rega de 2021
As situações anómalas na gestão da ABM estendem-se à elaboração da campanha de rega de 2021, depois de a DGADR ter constatado que os valores reportados pela associação “suscitaram fundadas dúvidas”, entre outros, os relativos às áreas e culturas regadas dentro e fora do perímetro, neste último caso, os chamados agricultores precários (com explorações fora do perímetro de rega).
Os dados apresentados pela ABM para o ano de 2021, ao serem comparados com os de 2020, levam à “constatação” de que as áreas de culturas permanentes precárias “deixaram de existir”, mas, em contrapartida, as áreas de culturas permanentes dentro do perímetro de rega “passaram a ser” o somatório das áreas localizadas “dentro” e “fora” do regadio”.
Ou seja: em 2021, devido às restrições impostas pelos recursos hídricos disponíveis, deixaram de existir utentes precários, mas as áreas dentro do perímetro de rega aumentaram. E, nalguns casos, a soma das áreas de cultivo dentro e fora dos blocos de rega em 2020 “é igual ou muito aproximado dos valores enviados relativos ao ano de 2021”.
A ABM informou que os dados apresentados resultam de "instruções internas do serviço relacionadas com as restrições ao consumo impostas na campanha de 2021, assim apenas foi permitido a inscrição de áreas beneficiadas contabilizando-se para efeitos estatísticos apenas dentro do Aproveitamento Hidroagrícola do Mira.”
Para o planeamento da campanha de rega de 2023 “ainda não foram definidos” os critérios de atribuição dos 14,3 hectómetros cúbicos de água que este ano foram destinados à agricultura de regadio, apesar de já estar a decorrer.
A DGADR não se conformou com a resposta e a troca de argumentos entre as duas entidades manteve-se ao longo de quase seis meses. Até que em Dezembro de 2022 a ABM informou que “… procedeu novamente à verificação dos dados relativos às culturas permanentes do AHM, tendo-se concluído que os valores indicados no relatório e contas de 2021, nos quadros das áreas regadas, contêm um lapso…”, que será corrigido para ser incluído no relatório e contas de 2022. A DGADR continua a aguardar que lhe seja enviada a alteração prometida.
Entretanto, para o planeamento da campanha de rega de 2023, “ainda não foram definidos” os critérios de atribuição dos 14,3 hectómetros cúbicos de água que este ano foram destinados à agricultura de regadio, apesar de já estar a decorrer.
O volume de água a debitar para o regadio está sujeito aos critérios de atribuição plasmados no Plano de Contingência para Situações de Seca, adaptado às condições actuais de reduzidas disponibilidades de água, de “forma a reduzir o impacto económico e social na área beneficiada pelo AHM”, explica a direcção-geral.
Neste sentido, a DGADR, entre as várias directivas e instruções que diz já ter transmitido à ABM, salienta que o planeamento de rega “deveria ratear áreas a regar, considerar as inscrições para os beneficiários que regaram na campanha de 2022, excepto caso haja investimentos já comprometidos, e divulgar de forma activa a impossibilidade de regar novas áreas”. Ficam assim impedidas novas culturas em estufa.
E a campanha de 2023?
O planeamento da campanha de 2023 deixará de atribuir a dotação de rega “igual para todos os tipos de usos, uma vez que não são usos igualmente prioritários e com necessidades de água equivalentes”. Foi, igualmente, dada orientação na priorização do tipo de culturas, onde, por exemplo, “as culturas não agrícolas não seriam prioritárias (relva e floricultura)”, decisão que abrange a empresa Camposol Lda.
Da falta de implementação atempada do Plano de Contingência (PC) e da garantia na operacionalidade do Plano de Investimentos (PI), “poderão advir consequências extraordinariamente gravosas para a actividade das empresas agrícolas instaladas no perímetro de rega” que poderão ser “geradoras de responsabilidade civil extracontratual para a entidade gestora e para o Estado português”, assinala o despacho da DGADR.
Este organismo entende que deverão ser tomadas “medidas urgentes para pôr cobro a esta situação”, revelando que já está em curso um Inquérito Administrativo por “existir uma deficiência grave na actuação da direcção da ABM”. O despacho conclui que esta entidade “mostra-se incapaz de implementar e concretizar os PC e PI e não possui uma visão estratégica que permita, pelo menos, assegurar a campanha de rega de 2023”.
Assim, a direcção-geral propôs ao Ministério da Agricultura a “destituição da direcção da ABM e a nomeação, em sua substituição, de uma comissão administrativa que assegure com urgência a campanha de rega de 2023”.
Nos esclarecimentos prestados ao PÚBLICO, o presidente da direcção da ABM, Miguel Figueira, adiantou que o procedimento administrativo, iniciado pela DGADR, com vista à “eventual demissão” do órgão a que preside “foi oportunamente e tempestivamente respondido”, acrescentando que foram refutados “todos os factos que lhe eram apontados”.
Em relação à interposição da providência cautelar requerida pela empresa Campo Sol, Lda., Miguel Figueira disse que a acção da empresa se enquadra “no exercício dos normais direitos vivenciados em democracia, cabendo aos tribunais aferir a sua procedência ou improcedência”, frisando ainda que a direcção da ABM “actuou sempre dentro das suas competências estatutárias e de acordo com os limites que as leis lhe impõem”.
O PÚBLICO questionou a Campo Sol Lda. sobre as decisões tomadas pela ABM e as consequências resultantes para a empresa, mas até ao momento não recebeu qualquer resposta.
10.5.23
Há quem contorne a seca no Algarve com uma agricultura que regenera
Idálio Revez, in Público online
“Temos de permitir que a natureza faça o seu caminho, e abandonar as plantas mais exigentes em água.” Há agricultores no Algarve que optaram por respeitar os escassos recursos existentes. Com sucesso.
Na Quinta do Freixo, onde não há falta de água, não se plantaram pomares de abacateiros, como seria de esperar. “Essa seria a opção fácil”, diz o sócio-gerente da empresa agrícola, Luís Silva, defensor de uma visão holística para o futuro do mundo rural, em que todas as suas componentes – vegetais e animais – desempenham um papel fundamental. Assim sendo, como é que as ovelhas e outros animais podem ajudar a manter o ecossistema e a terra fértil? A resposta a esta questão serviu de tema para um congresso internacional, realizado no final de Abril e que contou com a presença de 110 pessoas oriundas de 30 países, desde a Nova Zelândia aos EUA, passando pela vizinha Espanha.
A Quinta do Freixo, uma propriedade com 700 hectares situada no interior do concelho de Loulé, foi o local escolhido para juntar agricultores e investigadores preocupados com futuro do planeta. “Estamos numa zona que não é o Alentejo da moda, nem o Algarve do turismo clássico”, diz o sócio-gerente de uma exploração que não segue as linhas clássicas da agricultura. Luís Silva mostra o resultado, no território, do trabalho de um rebanho com mil ovelhas e 600 borregos. “Comem as ervas e deixam o estrume.” O solo agradece o fertilizante natural nele depositado e a regeneração das sementes, sublinha, faz-se de forma espontânea. “A matéria orgânica comporta-se como uma esponja na absorção da humidade” e, a partir daí, tendo a água garantida, todos os seres – animais e vegetais – entram na cadeia reprodutiva, assegurando que a vida pulsa neste espaço.
O que é a agricultura regenerativa?
As alterações climáticas evidenciam os velhos problemas dos países da bacia do Mediterrâneo: chuvas cada vez menos frequentes e mais intensas. “O solo é o maior reservatório, mas para funcionar com esse objectivo precisa de ter práticas agrícolas compatíveis com a preservação dos ecossistemas”, diz o director Regional de Agricultura do Algarve, Pedro Monteiro, destacando a importância da agricultura regenerativa. O conceito, reconhece, “não sendo novo, está a ter uma nova abordagem pela necessidade de encontrar novas soluções para o problema da seca”. No país, adianta, são pouco mais de meia dúzia de projectos a serem ensaiados, dois dos quais estão no Algarve
Os solos em Portugal, diz Pedro Monteiro, também professor da Universidade do Algarve, são pobres e, como tal, têm pouca capacidade de retenção da água. O que a agricultura regenerativa preconiza é aumentar a matéria orgânica na terra para esta criar as condições para uma maior absorção da chuva. A pastorícia, tal como se fazia nos métodos tradicionais da agricultura, está no centro do processo, onde nada se perde e tudo se transforma. Os animais ficam durante um período de tempo numa parcela e ao deixarem na terra os dejectos proporcionam o fermento para que todo o ecossistema renasça. Depois, o gado roda para outro sítio e assim se vai formando um mosaico de biodiversidade, com a natureza a ganhar novas formas e cores.
O tipo de culturas utilizado na agricultura regenerativa é outra das formas de encarar os desafios que se colocam a um território, cada vez mais dependente dos escassos recursos hídricos. A figueira e a alfarrobeira, árvores pouco exigentes em água, readquiriram, neste contexto, uma nova importância e não apenas económica. Os pomares intensivos de citrinos e abacateiros estão nas antípodas do novo conceito que está a ser trilhado: A terra só dá ao homem se ele a souber cuidar e alimentar. Até agora, o recurso aos adubos químicos tem sido prática corrente, para garantir a política da produção máxima a custos menores. Mas até quando?
Os visitantes são convidados a subir para os reboques dos tractores. Os assentos, improvisados, são fardos de palha, amarrados por cordas. “O transporte está homologado [condições de segurança]?”, graceja o representante da Direcção Regional de Agricultura, João Santana. O veículo segue em velocidade lenta. Junto a uma mina de água, Gustavo Alés, espanhol, chama a atenção para a importância dos animais selvagens – raposas e javalis – para manter o equilíbrio das espécies. “Javalis?”, questiona a professora da Universidade do Algarve, Emília Madeira, considerando que os porcos selvagens “são uma praga” devido ao descontrolo da espécie que se verifica por várias regiões do país. “Tenho um vídeo de uma raposa que entrou pelo restaurante adentro”, revela Luís Silva, lembrando que os “animais andam a vaguear” pela quinta, em harmonia com os outros seres. Ao fim e ao cabo, explica, “a gestão holística é perceber como funciona a relação das plantas com os animais e as milhares de ligações que se estabelecem. Não podemos estar contra a natureza, que é o que temos feito”, sublinha.
O tractor sobe a encosta e os adeptos da visão “holística” aplicada ao mundo rural são convidados a observar o desempenho das ovelhas, enquanto estas se alimentam. Os animais, diz Gustavo Alés, “são indissociáveis da actividade do agricultor como sucede há milhares de anos”. O que há de novo, prossegue o consultor do projecto Quinta do Freixo, é o maneio dos animais.
O rebanho (1600 cabeças) fica confinado a 1,5 hectares durante uma semana, ao invés do que se passava no passado, em que se dispersava por dezenas hectares. Na semana seguinte, passa para outra parcela. De princípio, explica, os animais comem as ervas mais apetitosas, como se estivessem num restaurante self-service. “Uma refeição gourmet”, diz o agrónomo Luís Silva. Porém, o método ensaiado foi concebido para levar os animais a diversificar a alimentação, sem direito a escolha de ementa. Numa perspectiva de conservação do ecossistema, diz, não é aconselhável lavrar a terra e mandar abaixo as ervas. Por outro lado, a exposição da terra nua ao sol, enfatiza Luís Silva, “descontrola por completo a microbiologia”. Durante o Verão, exemplifica, a superfície da terra nesta zona algarvia chega a atingir os 50 a 60 graus. Se houver cobertura vegetal, “a temperatura reduz 15 a 20 graus”. As conclusões surgem a partir do resultado das amostras recolhidas em 20 pontos, onde é feita a análise do solo e avaliada a diversidade faunística.
O facto de a quinta se localizar junto ao sítio de Paisagem Protegida da Rocha da Pena e perto da Fonte Grande (Alte) confere-lhe uma situação privilegiada em recursos hídricos. No entanto, a área de regadio é feita com parcimónia. Do conjunto dos 700 hectares da propriedade, 300 são utilizados para pastagens e produção hortícola. Nas restantes parcelas, extrai-se o figo, alfarroba e cortiça. A exploração completa-se com sector da transformação: produção de compotas, queijo de figo e aguardente e ainda há uma unidade de alojamento de agro-turismo com 16 quartos. Do conjunto dos clientes regulares, diz o proprietário, destacam-se os amantes do birdwatching, percursos pedestres e cicloturistas.
O método da gestão holística, que se ensaia nesta quinta há três anos, leva mais de 50 anos de prática noutros países; porém, durante décadas os agricultores estiveram divorciados da academia. Com as alterações climáticas e a terra a dar sinais de cansaço, a “aproximação entre cientistas e agricultores tornou-se imprescindível”. Essa foi a conclusão do congresso, que contou com a presença de Allan Savory, de 88 anos de idade, presidente do Instituto Savory, com sede no Colorado (EUA), bem como alunos e investigadores da Universidade do Algarve.
A agricultura regenerativa, do ponto de vista técnico, disse Allan, “tem conhecidos benefícios ambientais – falta é convencer os políticos”. A Quinta do Freixo, entretanto, anunciou que, graças a este método, recuperou seis hectares de zona de mato (esteva) para pastagem e vai prosseguir com o projecto. No próximo ano, pretende alargar a experiência a mais duas dezenas de hectares, introduzindo a criação de porcos, galinhas e vacas. “Temos de permitir que a natureza faça o seu caminho, e ao mesmo tempo abandonar as plantas mais exigentes em água”, rematou Luís Silva. E deixou uma nota de satisfação: “O nosso carneiro Zambujo voltou a receber (pela segunda vez) a distinção do melhor exemplar da raça campaniça na Ovibeja.”
Sem recorrer ao regadio, Rosa produz os primeiros figos maduros da Europa
Os pássaros namoram os figos que vão crescendo. A fruta, ainda verde, daqui por um mês já estará madura é à venda nos mercados de Paris. “Tudo o que produzo é para exportação, somos os primeiros produtores a chegar à Europa com figos biológicos.” A jovem agricultora Rosa Dias, da Quinta da Fornalha (Castro Marim), decidiu trilhar um percurso contrário àquele que é seguido pelos vizinhos espanhóis do outro lado do Guadiana, onde não há água que chegue para tanto regadio. “Aprendi a fazer aquilo que os meus avós faziam: cultivar a terra respeitando a natureza.” A quinta, de 30 hectares, é outro dos exemplos, a juntar à Quinta do Freixo, onde se pratica a agricultura regenerativa. “Só não tenho é o rebanho das ovelhas”, comenta.
Rosa Dias, licenciada em Psicologia Social, não se deixou seduzir pela cultura dos campos de abacateiros e citrinos como se vê em redor da sua propriedade, exigentes em rega. Por isso optou pelas culturas tradicionais, de sequeiro. “A água é escassa, estamos no clima mediterrânico, ouvimos e lemos, mas ignora-se o que a história nos ensina”, enfatiza. Nesta altura, com mais um ano consecutivo de seca severa, diz, “devíamos estar a conservar a pouca humidade que existe no solo, em vez de aumentar as áreas de regadio”. Ali, à beirinha do rio, chegam as brisas do Guadiana, bênção divina nos dias de calor tórrido. No entanto, a suavidade do vento não chega para matar a sede da terra. Por vezes, sente-se um sopro de ar quente que vem do interior da serra do Nordeste algarvio, como se fosse um prenúncio de incêndio. A diferença de temperaturas entre o dia e a noite, dizem os agricultores, calibra os açúcares da fruta, quando o stress hídrico não deita tudo a perder.
“O figo-lampo, preto, nos finais de Maio já está a sair.” As primeiras colheitas, recorda, podem atingir os 8 euros/quilo nos mercados de França e Alemanha. No pico da produção, Rosa Dias exporta, em média, uma tonelada por semana. “Se tivesse ficado em Lisboa, provavelmente, seria mais uma a fazer estudos de mercado”, diz, a olhar para o verde-escuro das folhas das figueiras. “Os figos são a minha cara”, diz a sorrir.
O regresso à terra onde nasceu, recorda, fê-la reviver os sonhos de criança. “Sou um bocadinho romântica”, admite. Sublinha que aprendeu também a ser gestora: “A quinta estava na falência, a exploração do meu pai não correu bem.” Livrou-se do garrote dos bancos, em 2016, ao fim de seis anos de actividade. A partir daí lançou-se num novo desafio. Em complemento à exploração agrícola, criou um alojamento local para 11 famílias. “Estamos a construir [literalmente] um projecto pedra a pedra.”
As folhas das árvores vão caindo, precipitadas por uma Primavera anormalmente quente. “Já o meu avô dizia: o solo precisa de ser alimentado e a água é vital.” A neta aprendeu a lição.
“Natureza em profundo sofrimento”
Quando chega o mês de Agosto, o Algarve turístico não se dá conta do que se passa na maior parte do território. A pouco mais de meia dúzia de quilómetros de distância das grandes cadeias de hotéis, mais para o interior, a água não corre nas torneiras como se fosse um bem infinito: “A natureza está em profundo sofrimento.” O stress hídrico, lembra Rosa Dias, faz parte da história dos povos do Sul, mas a aceleração do problema, obrigando todo o ecossistema a reagir causa apreensão. “Costumo dizer que, no Verão, vivemos a hibernação ao contrário: as cobras, sapos e outros bichos enfiam-se na terra para se protegerem do calor.”
Na quinta, mostra o pequeno bosque em redor da casa, como se fosse uma bolsa de oxigénio e frescura. As árvores, plantadas de forma a delinear percursos pedestres, têm apenas uma função: criar sombras e amenizar o clima.
A época dos fogos avizinha-se, como se fosse uma fatalidade que se repete ano após ano. O investimento nos meios de combate a incêndios, observa, não resolve todos os problemas. “Não se discutem as más práticas agrícolas, nem formas de melhorar a gestão do território.” As verbas do fundo ambiental, sugere, deveriam ser aplicadas em equipamentos públicos para triturar os sobrantes das podas, fornecendo assim mais matéria para fertilizar o solo. Na falta desse tipo de intervenção, critica, os agricultores, “fazem queimas ou oferecem [a madeira] aos espanhóis que a transportam para Huelva, transformando-a em pellets”.
A Quinta da Fornalha está integrada no perímetro de rega do sotavento algarvio, com água fornecida pelo sistema de barragens Beliche-Odeleite. A agricultura faz-se nas várzeas, seguindo a tradição da localidade. No resto da propriedade, além das culturas das leguminosas (ervilhas e favas), predomina o pomar de sequeiro (figueiras, oliveiras, alfarrobeiras) e ainda uma pequena parcela de citrinos. A quinta possui uma barragem com cerca de um hectare, que não está a ser utilizada. A função é servir de “reserva” e um lugar de repouso de aves e outros animais que ali encontram o seu habitat, como se fossem turistas a gozar férias.
“Temos de permitir que a natureza faça o seu caminho, e abandonar as plantas mais exigentes em água.” Há agricultores no Algarve que optaram por respeitar os escassos recursos existentes. Com sucesso.
Na Quinta do Freixo, onde não há falta de água, não se plantaram pomares de abacateiros, como seria de esperar. “Essa seria a opção fácil”, diz o sócio-gerente da empresa agrícola, Luís Silva, defensor de uma visão holística para o futuro do mundo rural, em que todas as suas componentes – vegetais e animais – desempenham um papel fundamental. Assim sendo, como é que as ovelhas e outros animais podem ajudar a manter o ecossistema e a terra fértil? A resposta a esta questão serviu de tema para um congresso internacional, realizado no final de Abril e que contou com a presença de 110 pessoas oriundas de 30 países, desde a Nova Zelândia aos EUA, passando pela vizinha Espanha.
A Quinta do Freixo, uma propriedade com 700 hectares situada no interior do concelho de Loulé, foi o local escolhido para juntar agricultores e investigadores preocupados com futuro do planeta. “Estamos numa zona que não é o Alentejo da moda, nem o Algarve do turismo clássico”, diz o sócio-gerente de uma exploração que não segue as linhas clássicas da agricultura. Luís Silva mostra o resultado, no território, do trabalho de um rebanho com mil ovelhas e 600 borregos. “Comem as ervas e deixam o estrume.” O solo agradece o fertilizante natural nele depositado e a regeneração das sementes, sublinha, faz-se de forma espontânea. “A matéria orgânica comporta-se como uma esponja na absorção da humidade” e, a partir daí, tendo a água garantida, todos os seres – animais e vegetais – entram na cadeia reprodutiva, assegurando que a vida pulsa neste espaço.
O que é a agricultura regenerativa?
As alterações climáticas evidenciam os velhos problemas dos países da bacia do Mediterrâneo: chuvas cada vez menos frequentes e mais intensas. “O solo é o maior reservatório, mas para funcionar com esse objectivo precisa de ter práticas agrícolas compatíveis com a preservação dos ecossistemas”, diz o director Regional de Agricultura do Algarve, Pedro Monteiro, destacando a importância da agricultura regenerativa. O conceito, reconhece, “não sendo novo, está a ter uma nova abordagem pela necessidade de encontrar novas soluções para o problema da seca”. No país, adianta, são pouco mais de meia dúzia de projectos a serem ensaiados, dois dos quais estão no Algarve
Os solos em Portugal, diz Pedro Monteiro, também professor da Universidade do Algarve, são pobres e, como tal, têm pouca capacidade de retenção da água. O que a agricultura regenerativa preconiza é aumentar a matéria orgânica na terra para esta criar as condições para uma maior absorção da chuva. A pastorícia, tal como se fazia nos métodos tradicionais da agricultura, está no centro do processo, onde nada se perde e tudo se transforma. Os animais ficam durante um período de tempo numa parcela e ao deixarem na terra os dejectos proporcionam o fermento para que todo o ecossistema renasça. Depois, o gado roda para outro sítio e assim se vai formando um mosaico de biodiversidade, com a natureza a ganhar novas formas e cores.
O tipo de culturas utilizado na agricultura regenerativa é outra das formas de encarar os desafios que se colocam a um território, cada vez mais dependente dos escassos recursos hídricos. A figueira e a alfarrobeira, árvores pouco exigentes em água, readquiriram, neste contexto, uma nova importância e não apenas económica. Os pomares intensivos de citrinos e abacateiros estão nas antípodas do novo conceito que está a ser trilhado: A terra só dá ao homem se ele a souber cuidar e alimentar. Até agora, o recurso aos adubos químicos tem sido prática corrente, para garantir a política da produção máxima a custos menores. Mas até quando?
Os visitantes são convidados a subir para os reboques dos tractores. Os assentos, improvisados, são fardos de palha, amarrados por cordas. “O transporte está homologado [condições de segurança]?”, graceja o representante da Direcção Regional de Agricultura, João Santana. O veículo segue em velocidade lenta. Junto a uma mina de água, Gustavo Alés, espanhol, chama a atenção para a importância dos animais selvagens – raposas e javalis – para manter o equilíbrio das espécies. “Javalis?”, questiona a professora da Universidade do Algarve, Emília Madeira, considerando que os porcos selvagens “são uma praga” devido ao descontrolo da espécie que se verifica por várias regiões do país. “Tenho um vídeo de uma raposa que entrou pelo restaurante adentro”, revela Luís Silva, lembrando que os “animais andam a vaguear” pela quinta, em harmonia com os outros seres. Ao fim e ao cabo, explica, “a gestão holística é perceber como funciona a relação das plantas com os animais e as milhares de ligações que se estabelecem. Não podemos estar contra a natureza, que é o que temos feito”, sublinha.
O tractor sobe a encosta e os adeptos da visão “holística” aplicada ao mundo rural são convidados a observar o desempenho das ovelhas, enquanto estas se alimentam. Os animais, diz Gustavo Alés, “são indissociáveis da actividade do agricultor como sucede há milhares de anos”. O que há de novo, prossegue o consultor do projecto Quinta do Freixo, é o maneio dos animais.
O rebanho (1600 cabeças) fica confinado a 1,5 hectares durante uma semana, ao invés do que se passava no passado, em que se dispersava por dezenas hectares. Na semana seguinte, passa para outra parcela. De princípio, explica, os animais comem as ervas mais apetitosas, como se estivessem num restaurante self-service. “Uma refeição gourmet”, diz o agrónomo Luís Silva. Porém, o método ensaiado foi concebido para levar os animais a diversificar a alimentação, sem direito a escolha de ementa. Numa perspectiva de conservação do ecossistema, diz, não é aconselhável lavrar a terra e mandar abaixo as ervas. Por outro lado, a exposição da terra nua ao sol, enfatiza Luís Silva, “descontrola por completo a microbiologia”. Durante o Verão, exemplifica, a superfície da terra nesta zona algarvia chega a atingir os 50 a 60 graus. Se houver cobertura vegetal, “a temperatura reduz 15 a 20 graus”. As conclusões surgem a partir do resultado das amostras recolhidas em 20 pontos, onde é feita a análise do solo e avaliada a diversidade faunística.
O facto de a quinta se localizar junto ao sítio de Paisagem Protegida da Rocha da Pena e perto da Fonte Grande (Alte) confere-lhe uma situação privilegiada em recursos hídricos. No entanto, a área de regadio é feita com parcimónia. Do conjunto dos 700 hectares da propriedade, 300 são utilizados para pastagens e produção hortícola. Nas restantes parcelas, extrai-se o figo, alfarroba e cortiça. A exploração completa-se com sector da transformação: produção de compotas, queijo de figo e aguardente e ainda há uma unidade de alojamento de agro-turismo com 16 quartos. Do conjunto dos clientes regulares, diz o proprietário, destacam-se os amantes do birdwatching, percursos pedestres e cicloturistas.
O método da gestão holística, que se ensaia nesta quinta há três anos, leva mais de 50 anos de prática noutros países; porém, durante décadas os agricultores estiveram divorciados da academia. Com as alterações climáticas e a terra a dar sinais de cansaço, a “aproximação entre cientistas e agricultores tornou-se imprescindível”. Essa foi a conclusão do congresso, que contou com a presença de Allan Savory, de 88 anos de idade, presidente do Instituto Savory, com sede no Colorado (EUA), bem como alunos e investigadores da Universidade do Algarve.
A agricultura regenerativa, do ponto de vista técnico, disse Allan, “tem conhecidos benefícios ambientais – falta é convencer os políticos”. A Quinta do Freixo, entretanto, anunciou que, graças a este método, recuperou seis hectares de zona de mato (esteva) para pastagem e vai prosseguir com o projecto. No próximo ano, pretende alargar a experiência a mais duas dezenas de hectares, introduzindo a criação de porcos, galinhas e vacas. “Temos de permitir que a natureza faça o seu caminho, e ao mesmo tempo abandonar as plantas mais exigentes em água”, rematou Luís Silva. E deixou uma nota de satisfação: “O nosso carneiro Zambujo voltou a receber (pela segunda vez) a distinção do melhor exemplar da raça campaniça na Ovibeja.”
Sem recorrer ao regadio, Rosa produz os primeiros figos maduros da Europa
Os pássaros namoram os figos que vão crescendo. A fruta, ainda verde, daqui por um mês já estará madura é à venda nos mercados de Paris. “Tudo o que produzo é para exportação, somos os primeiros produtores a chegar à Europa com figos biológicos.” A jovem agricultora Rosa Dias, da Quinta da Fornalha (Castro Marim), decidiu trilhar um percurso contrário àquele que é seguido pelos vizinhos espanhóis do outro lado do Guadiana, onde não há água que chegue para tanto regadio. “Aprendi a fazer aquilo que os meus avós faziam: cultivar a terra respeitando a natureza.” A quinta, de 30 hectares, é outro dos exemplos, a juntar à Quinta do Freixo, onde se pratica a agricultura regenerativa. “Só não tenho é o rebanho das ovelhas”, comenta.
Rosa Dias, licenciada em Psicologia Social, não se deixou seduzir pela cultura dos campos de abacateiros e citrinos como se vê em redor da sua propriedade, exigentes em rega. Por isso optou pelas culturas tradicionais, de sequeiro. “A água é escassa, estamos no clima mediterrânico, ouvimos e lemos, mas ignora-se o que a história nos ensina”, enfatiza. Nesta altura, com mais um ano consecutivo de seca severa, diz, “devíamos estar a conservar a pouca humidade que existe no solo, em vez de aumentar as áreas de regadio”. Ali, à beirinha do rio, chegam as brisas do Guadiana, bênção divina nos dias de calor tórrido. No entanto, a suavidade do vento não chega para matar a sede da terra. Por vezes, sente-se um sopro de ar quente que vem do interior da serra do Nordeste algarvio, como se fosse um prenúncio de incêndio. A diferença de temperaturas entre o dia e a noite, dizem os agricultores, calibra os açúcares da fruta, quando o stress hídrico não deita tudo a perder.
“O figo-lampo, preto, nos finais de Maio já está a sair.” As primeiras colheitas, recorda, podem atingir os 8 euros/quilo nos mercados de França e Alemanha. No pico da produção, Rosa Dias exporta, em média, uma tonelada por semana. “Se tivesse ficado em Lisboa, provavelmente, seria mais uma a fazer estudos de mercado”, diz, a olhar para o verde-escuro das folhas das figueiras. “Os figos são a minha cara”, diz a sorrir.
O regresso à terra onde nasceu, recorda, fê-la reviver os sonhos de criança. “Sou um bocadinho romântica”, admite. Sublinha que aprendeu também a ser gestora: “A quinta estava na falência, a exploração do meu pai não correu bem.” Livrou-se do garrote dos bancos, em 2016, ao fim de seis anos de actividade. A partir daí lançou-se num novo desafio. Em complemento à exploração agrícola, criou um alojamento local para 11 famílias. “Estamos a construir [literalmente] um projecto pedra a pedra.”
As folhas das árvores vão caindo, precipitadas por uma Primavera anormalmente quente. “Já o meu avô dizia: o solo precisa de ser alimentado e a água é vital.” A neta aprendeu a lição.
“Natureza em profundo sofrimento”
Quando chega o mês de Agosto, o Algarve turístico não se dá conta do que se passa na maior parte do território. A pouco mais de meia dúzia de quilómetros de distância das grandes cadeias de hotéis, mais para o interior, a água não corre nas torneiras como se fosse um bem infinito: “A natureza está em profundo sofrimento.” O stress hídrico, lembra Rosa Dias, faz parte da história dos povos do Sul, mas a aceleração do problema, obrigando todo o ecossistema a reagir causa apreensão. “Costumo dizer que, no Verão, vivemos a hibernação ao contrário: as cobras, sapos e outros bichos enfiam-se na terra para se protegerem do calor.”
Na quinta, mostra o pequeno bosque em redor da casa, como se fosse uma bolsa de oxigénio e frescura. As árvores, plantadas de forma a delinear percursos pedestres, têm apenas uma função: criar sombras e amenizar o clima.
A época dos fogos avizinha-se, como se fosse uma fatalidade que se repete ano após ano. O investimento nos meios de combate a incêndios, observa, não resolve todos os problemas. “Não se discutem as más práticas agrícolas, nem formas de melhorar a gestão do território.” As verbas do fundo ambiental, sugere, deveriam ser aplicadas em equipamentos públicos para triturar os sobrantes das podas, fornecendo assim mais matéria para fertilizar o solo. Na falta desse tipo de intervenção, critica, os agricultores, “fazem queimas ou oferecem [a madeira] aos espanhóis que a transportam para Huelva, transformando-a em pellets”.
A Quinta da Fornalha está integrada no perímetro de rega do sotavento algarvio, com água fornecida pelo sistema de barragens Beliche-Odeleite. A agricultura faz-se nas várzeas, seguindo a tradição da localidade. No resto da propriedade, além das culturas das leguminosas (ervilhas e favas), predomina o pomar de sequeiro (figueiras, oliveiras, alfarrobeiras) e ainda uma pequena parcela de citrinos. A quinta possui uma barragem com cerca de um hectare, que não está a ser utilizada. A função é servir de “reserva” e um lugar de repouso de aves e outros animais que ali encontram o seu habitat, como se fossem turistas a gozar férias.
8.5.23
Portugal “não tem estratégia para a água”, mas usa-a “à vontadinha”
Andréia Azevedo Soares, in Público online
Portugal possui uma comissão para a seca que se reuniu 13 vezes em seis anos. Em plena crise climática, especialistas defendem medidas estruturais (e não reactivas) de combate à escassez da água.
Foto Portugal tem de pensar na agricultura que tem e na que quer, pensar se quer continuar a cultivar o que tem cultivado.
Portugal possui uma comissão para a seca que se reuniu 13 vezes em seis anos. Em plena crise climática, especialistas defendem medidas estruturais (e não reactivas) de combate à escassez da água.
Foto Portugal tem de pensar na agricultura que tem e na que quer, pensar se quer continuar a cultivar o que tem cultivado.
Portugal possui uma Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca que organizou 13 reuniões em seis anos. Face à seca extrema que o Sul do país atravessa, este grupo de decisores políticos reuniu-se há duas semanas e reagiu anunciando medidas como a proibição de novas estufas no Alentejo. Em tempos de crise climática, os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO frisam que está na hora de medidas “estruturais” – e não “reactivas” – de combate à escassez da água.
“Comissões destas são criadas para resolver emergências. Quando as emergências passam a ser um novo normal, temos de fazer outra coisa, deve haver uma adaptação. Não podemos tratar emergências anuais como se fossem emergências que acontecem a cada década. A única certeza que temos é a de que vamos ter secas mais frequentes. Como tal, temos de ter planos de contingência para abastecimento público, temos de adoptar medidas estruturantes como a mudança de legislação e do preço da água”, defende Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica.
Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero, também defende “mudanças estruturais” que permitam ao país gerir estrategicamente a água. “Não devíamos ter comissões, devíamos ter um plano eficiente para uso da água. Caso contrário, temos estas comissões ad aeternum”, diz o professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
O presidente da Zero recorda que, no século XXI, em plena crise climática, Portugal “não tem uma estratégia para a água”. “Tínhamos um plano [o Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água (PNUEA)] que deveria estar em vigor entre 2012 e 2020, mas que foi abandonado a partir de 2015. Desde então, estamos um pouco a funcionar em função das necessidades, sem estratégia”, lamenta Francisco Ferreira numa conversa telefónica com o PÚBLICO.
Não devíamos ter comissões, devíamos ter um plano eficiente para uso da água. Caso contrário, temos estas comissões ad aeternum. Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero e professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa
A Resolução do Conselho de Ministros n.º 80/2017, que prevê a criação da comissão, estipula que uma das funções do grupo de trabalho é precisamente a promoção da “implementação das medidas preconizadas pelo Programa para o Uso Eficiente da Água [PNUEA] que podem ser executadas de imediato e preparar as medidas a adoptar a médio e longo prazo, numa perspectiva de preparação para uma maior resiliência a eventos de seca”.
Contudo, como pode uma comissão zelar pela implantação de medidas de um documento que nem sequer está actualizado? O PNUEA disponível hoje estipula limites para o desperdício de água para cada sector especificamente para o período 2012-2020. Além de desactualizado, o programa criado em 2005 não pôde ainda ser avaliado quanto à sua eficácia. Os resultados oficiais deste programa de combate ao desperdício de água nunca chegaram a ser tornados públicos, continuando inexplicavelmente na gaveta, segundo o jornal Eco.
“É chegado o momento de aplicar, sem hesitações, as medidas previstas no PNUEA, cuja actualização, do seu Plano de Implementação 2012-2020, nunca foi colocada em prática”, recordava Rui Godinho, presidente do conselho directivo da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas, num artigo de opinião publicado em 2022.
Medidas reactivas ou estruturais?
A comissão da seca existe desde o dia 7 de Junho de 2017, um ano que foi marcado por uma seca “gravíssima”. Ficou óbvio então que eventos climáticos extremos seriam cada vez mais intensos e frequentes devido à mudança do clima e que, por isso, seria necessária a existência de uma comissão de carácter “permanente” que não tivesse uma função meramente “reactiva”. Esta comissão é constituída por membros do Governo responsáveis por diferentes áreas, incluindo o ambiente, a agricultura, as florestas e o desenvolvimento rural, além de várias outras entidades, consoante a gravidade da situação.
“A incerteza e imprevisibilidade da seca e dos seus impactos justificam que se dedique uma atenção permanente a este fenómeno e não apenas uma actuação reactiva a situações extremas”, lê-se no texto da resolução n.º 80/2017 publicada em Diário da República.
A geógrafa Maria José Roxo, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, acredita que, nos últimos anos, os decisores políticos limitaram-se a reagir. “Não podemos estar sistematicamente a reagir. Precisamos de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não ver nada no terreno. Sou uma geógrafa de campo, isto custa-me muito”, confessa a investigadora numa conversa telefónica com o PÚBLICO.
Não podemos estar sistematicamente a reagir. Precisamos de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não ver nada no terreno. Maria José Roxo, geógrafa e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
A mais recente reunião da comissão para a seca realizou-se no dia 21 de Abril, tendo sido o primeiro encontro de 2023. Após o encontro, os ministérios do Ambiente e da Agricultura anunciaram a manutenção de medidas para poupar água, anunciando outras como suspensão de novas estufas no Sudoeste alentejano e a interdição do uso da água para a rega nalguns pontos do país onde há défice hídrico.
São medidas que respondem à seca prolongada que o Sul do país testemunha? “É óbvio que não são medidas suficientes”, avalia Maria José Roxo. Para a geógrafa, esta questão da água “tem de ser um assunto contínuo”. “Aquilo que conhecemos do ponto de vista científico é que isto constitui uma realidade para continuar. Não se podem interromper as campanhas [de sensibilização], temos de melhorar as infra-estruturas de regadio, combater os desperdícios nas redes. Não podemos estar sempre a reagir”, reforça.
Joaquim Poças Martins, por sua vez, recorda que, como estamos diante de um fenómeno global de mudança do clima, temos de nos “preparar para um novo normal”. E o que é essa nova normalidade? “São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois de outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca”, diz o especialista em gestão hídrica, para quem uma comissão dedicada à seca acabaria por ser “um trabalho a tempo inteiro”. “Quase até poderíamos criar o Ministério da Seca”, refere o docente da FEUP.
Os dados do mais recente Relatório de Monitorização Agro-meteorológica e Hidrológica, feito pelo grupo de trabalho que presta assessoria técnica à comissão, sublinham “casos críticos no país”, como a barragem de Bravura (Aproveitamento Hidroagrícola do Alvor) e do Arade (Aproveitamento Hidroagrícola de Silves, Lagoa e Portimão). Na primeira, as reservas de águas estão destinadas “exclusivamente para abastecimento público”, o que compromete “irremediavelmente” o sector agrícola. Já no Arade, é compulsória a adopção do plano de contingência para situações de seca.
Que caminhos a seguir?
Não fazendo o elogio de medidas reactivas, que estratégias preconizam então os especialistas? Poças Martins explica que as soluções precisam de ser estudadas, e também que é preciso ver como outros países gerem a pouca água que têm. Há exemplos de nações mais prósperas do que Portugal, mas com menos recursos hidrológicos, garante o especialista. O segredo está na gestão da água: adopção de sistemas de rega gota a gota, por exemplo, ou a introdução de taxas moderadoras de consumo.
“Vejamos o caso de Israel: é um país mais seco do que o nosso, mas que não está a sofrer com falta de água. E os agricultores em Israel ganham mais dinheiro do que os portugueses. Não foi sempre assim. Nos anos 90, na sequência de problemas graves, adoptaram uma série de políticas públicas, incluindo a nacionalização da água. A água em Israel pertence ao Estado – quem capta a água tem de medir [o consumo] e pagar. Em Portugal, [água para a agricultura] quase não se mede nem se paga”, explica Joaquim Poças Martins.
O especialista em gestão hídrica refere que usamos a água subterrânea “à vontadinha” – e que, em bom rigor, não devia ser assim, deveriam ter uma licença, “mas a maioria não tem e, mesmo com licença, não paga”. Como a água para fins agrícolas em Portugal é “quase de graça”, argumenta Poças Martins, os agricultores não têm incentivos para poupar água. É na agricultura que temos de prestar atenção quando falamos de recursos hídricos, pois é também no sector onde se verifica uma gigantesca fatia do consumo.
“A água dos poços aqui custa zero e lá 60 cêntimos por metro cúbico. Israel reutiliza toda a água residual e paga ainda 30 cêntimos o metro cúbico. Em Portugal, a reutilização de água residual é quase zero porque o agricultor tem água no poço. Desperdiçamos um volume de águas residuais, distribuído ao longo do país, que equivale a uma barragem inteira do Alqueva. Isto permitiria ter muito menos escassez, mas não estamos a usar – são recursos que vão parar ao mar”, lamenta Poças Martins.
Barragens cheias de sedimentos
A água que desperdiçamos todos os dias também desespera Maria José Roxo. A geógrafa não compreende como os decisores não aproveitaram o período de seca para remover os sedimentos das albufeiras, permitindo assim que as barragens armazenassem uma maior quantidade da água que caiu do céu no fim de 2022 e no início de 2023.
“A preservação da água tem muito a ver com a preservação do recurso solo. Preciso de solo para ter água potável e preciso de ter cobertura do solo para ter boa água nas barragens. O que aconteceu com as grandes chuvadas de Dezembro, e do início de Janeiro, foram águas que levaram toneladas de sedimentos para as barragens, colmatando-as. Estas barragens deveriam ter sido limpas. Perdemos uma oportunidade única de remover estes sedimentos. Essa água toda foi desperdiçada”, afirma Maria José Roxo.
Outro caminho que os especialistas consideram premente é o que passa por repensar as culturas que queremos ter no país e, fazendo contas, definir os grandes investimentos em que queremos apostar. Desejamos mais barragens? Queremos construir unidades de dessalinização? Para servir quais culturas? E a que custo ambiental? Tudo isso tem de ser ponderado em função de uma aposta estratégica.
São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois de outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca (...) Quase até poderíamos criar o Ministério da Seca. Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica
“Sabemos quais são as nossas prioridades, mas temos de planificar os investimentos. Se eu for para uma determinada cultura que consome demasiada água, tenho de pensar se compensa o investimento no regadio, por exemplo – há um limite para a subsidiação. Precisamos não só de sentar e analisar o custo e o benefício em relação às opções tomadas, mas também apostar fortemente numa maior eficiência hídrica”, alerta Francisco Ferreira.
Para o ambientalista, a construção de unidades de dessalinização – como a que foi anunciada para o litoral alentejano – deve ser vista como “um investimento de último recurso”. Já Poças Martins pensa que a criação de novas barragens – hipótese admitida pela tutela do ambiente e da acção climática – deve ser encarada com igual cautela, seja pelo custo, seja pelo impacto ambiental.
“Portugal tem de pensar na agricultura que tem e na que quer, pensar se quer continuar a cultivar o que tem cultivado, como tem cultivado. Há agricultores que pedem mais barragens, ou que se traga água do Norte para o Sul, do ponto de vista económico e ambiental não funciona. Não faz qualquer sentido fazer um transvase do Norte para o Sul [a chamada auto-estrada da água], no meu ponto de vista. Quanto às barragens, é preciso ver quem as paga. Já temos bastantes barragens. Acho mais sensato primeiro usar bem a água que temos e depois pensar como conseguimos mais”, conclui o professor da Faculdade de Engenharia do Porto.
“Comissões destas são criadas para resolver emergências. Quando as emergências passam a ser um novo normal, temos de fazer outra coisa, deve haver uma adaptação. Não podemos tratar emergências anuais como se fossem emergências que acontecem a cada década. A única certeza que temos é a de que vamos ter secas mais frequentes. Como tal, temos de ter planos de contingência para abastecimento público, temos de adoptar medidas estruturantes como a mudança de legislação e do preço da água”, defende Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica.
Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero, também defende “mudanças estruturais” que permitam ao país gerir estrategicamente a água. “Não devíamos ter comissões, devíamos ter um plano eficiente para uso da água. Caso contrário, temos estas comissões ad aeternum”, diz o professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
O presidente da Zero recorda que, no século XXI, em plena crise climática, Portugal “não tem uma estratégia para a água”. “Tínhamos um plano [o Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água (PNUEA)] que deveria estar em vigor entre 2012 e 2020, mas que foi abandonado a partir de 2015. Desde então, estamos um pouco a funcionar em função das necessidades, sem estratégia”, lamenta Francisco Ferreira numa conversa telefónica com o PÚBLICO.
Não devíamos ter comissões, devíamos ter um plano eficiente para uso da água. Caso contrário, temos estas comissões ad aeternum. Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero e professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa
A Resolução do Conselho de Ministros n.º 80/2017, que prevê a criação da comissão, estipula que uma das funções do grupo de trabalho é precisamente a promoção da “implementação das medidas preconizadas pelo Programa para o Uso Eficiente da Água [PNUEA] que podem ser executadas de imediato e preparar as medidas a adoptar a médio e longo prazo, numa perspectiva de preparação para uma maior resiliência a eventos de seca”.
Contudo, como pode uma comissão zelar pela implantação de medidas de um documento que nem sequer está actualizado? O PNUEA disponível hoje estipula limites para o desperdício de água para cada sector especificamente para o período 2012-2020. Além de desactualizado, o programa criado em 2005 não pôde ainda ser avaliado quanto à sua eficácia. Os resultados oficiais deste programa de combate ao desperdício de água nunca chegaram a ser tornados públicos, continuando inexplicavelmente na gaveta, segundo o jornal Eco.
“É chegado o momento de aplicar, sem hesitações, as medidas previstas no PNUEA, cuja actualização, do seu Plano de Implementação 2012-2020, nunca foi colocada em prática”, recordava Rui Godinho, presidente do conselho directivo da Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas, num artigo de opinião publicado em 2022.
Medidas reactivas ou estruturais?
A comissão da seca existe desde o dia 7 de Junho de 2017, um ano que foi marcado por uma seca “gravíssima”. Ficou óbvio então que eventos climáticos extremos seriam cada vez mais intensos e frequentes devido à mudança do clima e que, por isso, seria necessária a existência de uma comissão de carácter “permanente” que não tivesse uma função meramente “reactiva”. Esta comissão é constituída por membros do Governo responsáveis por diferentes áreas, incluindo o ambiente, a agricultura, as florestas e o desenvolvimento rural, além de várias outras entidades, consoante a gravidade da situação.
“A incerteza e imprevisibilidade da seca e dos seus impactos justificam que se dedique uma atenção permanente a este fenómeno e não apenas uma actuação reactiva a situações extremas”, lê-se no texto da resolução n.º 80/2017 publicada em Diário da República.
A geógrafa Maria José Roxo, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, acredita que, nos últimos anos, os decisores políticos limitaram-se a reagir. “Não podemos estar sistematicamente a reagir. Precisamos de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não ver nada no terreno. Sou uma geógrafa de campo, isto custa-me muito”, confessa a investigadora numa conversa telefónica com o PÚBLICO.
Não podemos estar sistematicamente a reagir. Precisamos de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não ver nada no terreno. Maria José Roxo, geógrafa e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
A mais recente reunião da comissão para a seca realizou-se no dia 21 de Abril, tendo sido o primeiro encontro de 2023. Após o encontro, os ministérios do Ambiente e da Agricultura anunciaram a manutenção de medidas para poupar água, anunciando outras como suspensão de novas estufas no Sudoeste alentejano e a interdição do uso da água para a rega nalguns pontos do país onde há défice hídrico.
São medidas que respondem à seca prolongada que o Sul do país testemunha? “É óbvio que não são medidas suficientes”, avalia Maria José Roxo. Para a geógrafa, esta questão da água “tem de ser um assunto contínuo”. “Aquilo que conhecemos do ponto de vista científico é que isto constitui uma realidade para continuar. Não se podem interromper as campanhas [de sensibilização], temos de melhorar as infra-estruturas de regadio, combater os desperdícios nas redes. Não podemos estar sempre a reagir”, reforça.
Joaquim Poças Martins, por sua vez, recorda que, como estamos diante de um fenómeno global de mudança do clima, temos de nos “preparar para um novo normal”. E o que é essa nova normalidade? “São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois de outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca”, diz o especialista em gestão hídrica, para quem uma comissão dedicada à seca acabaria por ser “um trabalho a tempo inteiro”. “Quase até poderíamos criar o Ministério da Seca”, refere o docente da FEUP.
Os dados do mais recente Relatório de Monitorização Agro-meteorológica e Hidrológica, feito pelo grupo de trabalho que presta assessoria técnica à comissão, sublinham “casos críticos no país”, como a barragem de Bravura (Aproveitamento Hidroagrícola do Alvor) e do Arade (Aproveitamento Hidroagrícola de Silves, Lagoa e Portimão). Na primeira, as reservas de águas estão destinadas “exclusivamente para abastecimento público”, o que compromete “irremediavelmente” o sector agrícola. Já no Arade, é compulsória a adopção do plano de contingência para situações de seca.
Que caminhos a seguir?
Não fazendo o elogio de medidas reactivas, que estratégias preconizam então os especialistas? Poças Martins explica que as soluções precisam de ser estudadas, e também que é preciso ver como outros países gerem a pouca água que têm. Há exemplos de nações mais prósperas do que Portugal, mas com menos recursos hidrológicos, garante o especialista. O segredo está na gestão da água: adopção de sistemas de rega gota a gota, por exemplo, ou a introdução de taxas moderadoras de consumo.
“Vejamos o caso de Israel: é um país mais seco do que o nosso, mas que não está a sofrer com falta de água. E os agricultores em Israel ganham mais dinheiro do que os portugueses. Não foi sempre assim. Nos anos 90, na sequência de problemas graves, adoptaram uma série de políticas públicas, incluindo a nacionalização da água. A água em Israel pertence ao Estado – quem capta a água tem de medir [o consumo] e pagar. Em Portugal, [água para a agricultura] quase não se mede nem se paga”, explica Joaquim Poças Martins.
O especialista em gestão hídrica refere que usamos a água subterrânea “à vontadinha” – e que, em bom rigor, não devia ser assim, deveriam ter uma licença, “mas a maioria não tem e, mesmo com licença, não paga”. Como a água para fins agrícolas em Portugal é “quase de graça”, argumenta Poças Martins, os agricultores não têm incentivos para poupar água. É na agricultura que temos de prestar atenção quando falamos de recursos hídricos, pois é também no sector onde se verifica uma gigantesca fatia do consumo.
“A água dos poços aqui custa zero e lá 60 cêntimos por metro cúbico. Israel reutiliza toda a água residual e paga ainda 30 cêntimos o metro cúbico. Em Portugal, a reutilização de água residual é quase zero porque o agricultor tem água no poço. Desperdiçamos um volume de águas residuais, distribuído ao longo do país, que equivale a uma barragem inteira do Alqueva. Isto permitiria ter muito menos escassez, mas não estamos a usar – são recursos que vão parar ao mar”, lamenta Poças Martins.
Barragens cheias de sedimentos
A água que desperdiçamos todos os dias também desespera Maria José Roxo. A geógrafa não compreende como os decisores não aproveitaram o período de seca para remover os sedimentos das albufeiras, permitindo assim que as barragens armazenassem uma maior quantidade da água que caiu do céu no fim de 2022 e no início de 2023.
“A preservação da água tem muito a ver com a preservação do recurso solo. Preciso de solo para ter água potável e preciso de ter cobertura do solo para ter boa água nas barragens. O que aconteceu com as grandes chuvadas de Dezembro, e do início de Janeiro, foram águas que levaram toneladas de sedimentos para as barragens, colmatando-as. Estas barragens deveriam ter sido limpas. Perdemos uma oportunidade única de remover estes sedimentos. Essa água toda foi desperdiçada”, afirma Maria José Roxo.
Outro caminho que os especialistas consideram premente é o que passa por repensar as culturas que queremos ter no país e, fazendo contas, definir os grandes investimentos em que queremos apostar. Desejamos mais barragens? Queremos construir unidades de dessalinização? Para servir quais culturas? E a que custo ambiental? Tudo isso tem de ser ponderado em função de uma aposta estratégica.
São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois de outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca (...) Quase até poderíamos criar o Ministério da Seca. Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica
“Sabemos quais são as nossas prioridades, mas temos de planificar os investimentos. Se eu for para uma determinada cultura que consome demasiada água, tenho de pensar se compensa o investimento no regadio, por exemplo – há um limite para a subsidiação. Precisamos não só de sentar e analisar o custo e o benefício em relação às opções tomadas, mas também apostar fortemente numa maior eficiência hídrica”, alerta Francisco Ferreira.
Para o ambientalista, a construção de unidades de dessalinização – como a que foi anunciada para o litoral alentejano – deve ser vista como “um investimento de último recurso”. Já Poças Martins pensa que a criação de novas barragens – hipótese admitida pela tutela do ambiente e da acção climática – deve ser encarada com igual cautela, seja pelo custo, seja pelo impacto ambiental.
“Portugal tem de pensar na agricultura que tem e na que quer, pensar se quer continuar a cultivar o que tem cultivado, como tem cultivado. Há agricultores que pedem mais barragens, ou que se traga água do Norte para o Sul, do ponto de vista económico e ambiental não funciona. Não faz qualquer sentido fazer um transvase do Norte para o Sul [a chamada auto-estrada da água], no meu ponto de vista. Quanto às barragens, é preciso ver quem as paga. Já temos bastantes barragens. Acho mais sensato primeiro usar bem a água que temos e depois pensar como conseguimos mais”, conclui o professor da Faculdade de Engenharia do Porto.
3.8.22
Consumo diário de energia aumentou 7,2% em julho e bateu recordes no verão
in Expresso
As temperaturas elevadas levaram o consumo de energia elétrica em Portugal a subir 7,2% em julho e a atingir o valor mais elevado de sempre no verão no dia 13 de julho
O consumo de energia elétrica em Portugal subiu 7,2% em julho em relação ao período homólogo, devido às temperaturas elevadas, tendo atingido, no dia 13, o valor mais elevado de sempre no verão, segundo dados da REN.
Assim, de acordo com a informação divulgada pela REN - Redes Energéticas Nacionais, o “consumo de energia elétrica em Portugal aumentou 7,2% no mês de julho, face ao período homólogo, impulsionado pelas temperaturas acima dos valores normais que se fizeram sentir”.
Paralelamente, “no dia 13, uma quarta-feira, registou-se mesmo o consumo diário mais elevado de sempre em Portugal em período de verão, 163,5 GWh [gigawatts-hora], ultrapassando o anterior máximo, registado em 2010”, destacou.
De acordo com os mesmos dados, “com correção dos efeitos de temperatura e número de dias úteis registou-se um crescimento homólogo mensal de 4,9%”, indicou a REN.
De acordo com a empresa, “nos primeiros sete meses do ano, o consumo cresceu, face ao mesmo período do ano anterior, 3,5%, ou 3,3% com correção da temperatura e dias úteis”.
Por sua vez, “o regime hidroelétrico continua seco, com um índice de produtibilidade de 0,30 (média histórica de 1)”, indicou, mas alertando que este valor tem “pouco significado porque se trata de um período do ano em que as afluências são praticamente nulas”.
Já “o regime eólico ficou também abaixo dos valores médios, registando 0,88 (média histórica de 1), enquanto nas fotovoltaicas foi mais favorável com 1,08 (média histórica de 1)”.
Segundo a REN, “a produção renovável abasteceu 36% do consumo, a produção não renovável 35%, enquanto os restantes 29% corresponderam a energia importada”.
No período de “janeiro a julho o índice de produtibilidade hidroelétrica registou 0,34 (média histórica de 1), o de produtibilidade eólica 0,94 e o de produtibilidade solar 1,10” sendo que “a produção renovável abasteceu 46% do consumo, repartida pela eólica com 24%, hidroelétrica com 10%, biomassa com 7% e fotovoltaica com 5%”, tendo a produção a gás natural abastecido 32% do consumo e os restantes 22% corresponderam a energia importada.
Por sua vez, “o mercado de gás natural voltou a registar uma evolução mensal homóloga positiva, 5,4%, devido ao comportamento do segmento de produção de energia elétrica que cresceu 38%”, mas “no segmento convencional mantém-se a tendência de quebra, com uma variação mensal homóloga negativa de 14,8%”.
Entre janeiro e julho, “o consumo de gás natural está praticamente em linha com o verificado no mesmo período do ano anterior, registando uma queda marginal de 0,3%, resultado de uma quebra de 21% no segmento convencional e de um crescimento de 47% no segmento de produção de energia elétrica”, disse a REN.
A empresa recordou que o “aprovisionamento do sistema nacional” se mantém “quase integralmente a partir do terminal de GNL de Sines”.
As temperaturas elevadas levaram o consumo de energia elétrica em Portugal a subir 7,2% em julho e a atingir o valor mais elevado de sempre no verão no dia 13 de julho
O consumo de energia elétrica em Portugal subiu 7,2% em julho em relação ao período homólogo, devido às temperaturas elevadas, tendo atingido, no dia 13, o valor mais elevado de sempre no verão, segundo dados da REN.
Assim, de acordo com a informação divulgada pela REN - Redes Energéticas Nacionais, o “consumo de energia elétrica em Portugal aumentou 7,2% no mês de julho, face ao período homólogo, impulsionado pelas temperaturas acima dos valores normais que se fizeram sentir”.
Paralelamente, “no dia 13, uma quarta-feira, registou-se mesmo o consumo diário mais elevado de sempre em Portugal em período de verão, 163,5 GWh [gigawatts-hora], ultrapassando o anterior máximo, registado em 2010”, destacou.
De acordo com os mesmos dados, “com correção dos efeitos de temperatura e número de dias úteis registou-se um crescimento homólogo mensal de 4,9%”, indicou a REN.
De acordo com a empresa, “nos primeiros sete meses do ano, o consumo cresceu, face ao mesmo período do ano anterior, 3,5%, ou 3,3% com correção da temperatura e dias úteis”.
Por sua vez, “o regime hidroelétrico continua seco, com um índice de produtibilidade de 0,30 (média histórica de 1)”, indicou, mas alertando que este valor tem “pouco significado porque se trata de um período do ano em que as afluências são praticamente nulas”.
Já “o regime eólico ficou também abaixo dos valores médios, registando 0,88 (média histórica de 1), enquanto nas fotovoltaicas foi mais favorável com 1,08 (média histórica de 1)”.
Segundo a REN, “a produção renovável abasteceu 36% do consumo, a produção não renovável 35%, enquanto os restantes 29% corresponderam a energia importada”.
No período de “janeiro a julho o índice de produtibilidade hidroelétrica registou 0,34 (média histórica de 1), o de produtibilidade eólica 0,94 e o de produtibilidade solar 1,10” sendo que “a produção renovável abasteceu 46% do consumo, repartida pela eólica com 24%, hidroelétrica com 10%, biomassa com 7% e fotovoltaica com 5%”, tendo a produção a gás natural abastecido 32% do consumo e os restantes 22% corresponderam a energia importada.
Por sua vez, “o mercado de gás natural voltou a registar uma evolução mensal homóloga positiva, 5,4%, devido ao comportamento do segmento de produção de energia elétrica que cresceu 38%”, mas “no segmento convencional mantém-se a tendência de quebra, com uma variação mensal homóloga negativa de 14,8%”.
Entre janeiro e julho, “o consumo de gás natural está praticamente em linha com o verificado no mesmo período do ano anterior, registando uma queda marginal de 0,3%, resultado de uma quebra de 21% no segmento convencional e de um crescimento de 47% no segmento de produção de energia elétrica”, disse a REN.
A empresa recordou que o “aprovisionamento do sistema nacional” se mantém “quase integralmente a partir do terminal de GNL de Sines”.
4.11.21
"Água é um direito humano básico fundamental"
De Euronews
O aquecimento global não está a atingir todas as regiões da mesma forma. Mas a falta de água em algumas áreas pode pode levar a uma instabilidade mais abrangente e a novas vagas de migrantes.
A realidade é conhecida do antigo ministro do governo da Autoridade Palestiniana com a pasta da Água, Shadad Attili.
"As alterações climáticas estão a afetar a pluviosidade, ao mudarem o padrão de precipitação e isso reflete-se também no agricultor que costumava plantar as culturas. Ele depende da pluviosidade. A água é um direito humano básico fundamental. Se as pessoas não têm água, vão mudar-se para lugares onde há água. Se as pessoas não tiverem comida suficiente, elas vão mudar-se para lugares onde há comida. Isto cria instabilidade interna. Cria também instabilidade regional. Portanto, é grave. É realmente sério".
Shadad Attili acredita, no entanto que é possível encontrar uma solução para o problema, caso haja vontade política.
"O Fundo Ecológico e o financiamento devem ser permitidos aos países em desenvolvimento para enfrentar as consequências das alterações climáticas: a adaptação, a mitigação e tudo o mais. Temos de encorajar a reserva de água. Temos de melhorar a governação, os sistemas de irrigação agrícola. Temos também de reformar todos os setores e mais concretamente o setor da água, a fim de reduzir as perdas e de manter cada gota de água na nossa região".
O aquecimento global não está a atingir todas as regiões da mesma forma. Mas a falta de água em algumas áreas pode pode levar a uma instabilidade mais abrangente e a novas vagas de migrantes.
A realidade é conhecida do antigo ministro do governo da Autoridade Palestiniana com a pasta da Água, Shadad Attili.
"As alterações climáticas estão a afetar a pluviosidade, ao mudarem o padrão de precipitação e isso reflete-se também no agricultor que costumava plantar as culturas. Ele depende da pluviosidade. A água é um direito humano básico fundamental. Se as pessoas não têm água, vão mudar-se para lugares onde há água. Se as pessoas não tiverem comida suficiente, elas vão mudar-se para lugares onde há comida. Isto cria instabilidade interna. Cria também instabilidade regional. Portanto, é grave. É realmente sério".
Shadad Attili acredita, no entanto que é possível encontrar uma solução para o problema, caso haja vontade política.
"O Fundo Ecológico e o financiamento devem ser permitidos aos países em desenvolvimento para enfrentar as consequências das alterações climáticas: a adaptação, a mitigação e tudo o mais. Temos de encorajar a reserva de água. Temos de melhorar a governação, os sistemas de irrigação agrícola. Temos também de reformar todos os setores e mais concretamente o setor da água, a fim de reduzir as perdas e de manter cada gota de água na nossa região".
6.9.21
“Há falta de água em Santa Clara, mas a uns cortam e a outros deixam aumentar?”
Ana Dias Cordeiro (texto) e Rui Gaudêncio (fotografias), in Público on-line
Num contexto de seca, a Associação dos Beneficiários do Mira foi autorizada a expandir a área elegível para rega dos grandes produtores de uma monocultura intensiva. Passados dois anos, limitou o acesso à água da Barragem de Santa Clara. Ao impor uma tabela por hectare, a decisão afecta mais os pequenos agricultores, obrigados a cortar na sua agricultura de subsistência na campanha de 2021.
A vida dos pequenos agricultores nas terras do rio Mira deu muitas voltas, antes e depois da construção da Barragem de Santa Clara, nos anos 1960, quando a chuva dava à terra o que ela precisava. Mais tarde, quando pela primeira vez conheceram a seca, valeu-lhes aquilo que trazia a barragem. A água era distribuída e paga.
Em retrospectiva, nunca o que mudou foi tão mau como neste ano nesta freguesia do concelho de Odemira. Prova disso é que nunca antes, como agora, tinham deixado de ver o prado infinitamente verde à sua frente. Mesmo no tempo seco.
Em Março deste ano, a Associação dos Beneficiários do Mira, que detém a concessão da barragem e gere a distribuição para a rega, impôs um limite da água a que os produtores da região têm direito, limite a partir do qual passam a pagar o triplo do preço por litro. Para os pequenos agricultores os novos preços são incomportáveis. Maria Antónia Cortes, que tem na venda dos Cabazes da Horta a sua renda, abdicou de muito. “Eu deixei de poder fazer as produções que exigem mais água: espinafres, agrião, essas coisas tive de reduzir. Não pude pôr coisas na estufa, porque no Verão a estufa pede sempre mais.”
Agora a estufa parece uma tenda desgarrada pelo vento onde a vegetação que secou preenche o vazio. “Eu tinha árvores, eu tinha pêras, pêros, ameixas, pêssegos, nespereiras, figueiras – basta ver agora como estão secas”, diz, acompanhando o gesto com o olhar em volta.
“Eu tinha tudo isso, para meter nos cabazes. Há coisas que não pude cultivar, não tive rendimento delas. O feijão, este ano, foi por metade. O mesmo aconteceu com a couve que exige mais fresquidão.”
Tomateiros, couves e arrozais
Nas décadas de 60 e 70, houve quem entre os moradores destes montes junto ao Rio Mira se tenha mudado de Monchique para Sabóia e freguesias vizinhas, uns 25 quilómetros acima, e comprado terrenos para a agricultura. Outros, vindos das aldeias próximas, apostaram na diversidade das colheitas em terras onde brotavam mantos de arrozais, ao lado de tomateiros, couves, beterrabas, alfaces e muito mais.
Foi o caso de Maria Antónia que nasceu numa aldeia a 11 quilómetros onde agora vai buscar a água que lhe falta junto à barragem.
“Houve tempo em que toda a gente semeava, estas várzeas todas eram semeadas. Agora não”, diz Maria Antónia Cortes. “Umas pessoas saíram daqui, outras ficam velhas e não podem continuar a trabalhar no campo.”
Sem água potável
Mas nem tudo mudou. Agora, como antes, na sua casa, como em tantas outras nestas colinas e vales, não há água canalizada — nunca foi instalada uma rede pública de abastecimento.
O que não imaginava era chegar para lá dos 70 anos sem saber como dar a beber aos animais, ou ter que inventar, e desistir das sementeiras que mais água consomem.
A decisão de Março foi denunciada pelo movimento Juntos pelo Sudoeste e motivou uma reportagem na revista alemã Der Spiegel, publicada na semana passada, sobre o que esta diz serem as “incongruências” de um modelo que depende de rega em grandes quantidades e que continua a crescer em pleno parque natural do sudoeste alentejano, sem que as autoridades portuguesas intervenham para devolver a água aos pequenos regantes. Tal acontece porque a entidade que administra a água da albufeira do Mira é controlada pelos seus maiores usuários — os grandes proprietários, escreve a revista.
Para dar de beber às vacas, Maria Antónia sai munida de uma bilha de 1000 litros, na carrinha com o marido, duas ou três vezes por semana. Vai até ao terreno da família extrair água do canal com uma mangueira. “É para dar uma gotinha às árvores, para elas não secarem mesmo até ao Inverno.”
A agricultora diz que o corte no abastecimento decidido pela Associação dos Beneficiários do Mira (AB Mira) seria acolhido de outra forma se os grandes produtores das monoculturas intensivas de frutos vermelhos, no litoral, não tivessem tido a possibilidade de aumentar a área de cultivo, tendo acesso a ainda mais água.
“Quando passamos no canal, vemos o canal cheio para empresas que nem portuguesas são”, lança Maria Antónia. “É isso que dói. Não é levarem água para lá. Se têm agricultura lá, é necessário levarem água para lá. Dói é tirarem-nos a nós que não temos grande gasto [na agricultura] comparativamente a essas empresas. Mas somos humanos e precisamos porque a água é um bem essencial.”
Reduzir o consumo
Perante estas queixas, o Ministério da Agricultura remete para o contexto em que “os actuais níveis de água na albufeira impõem prudência nos consumos”. Contactado, o gabinete de imprensa lembra que não é o Governo mas a AB Mira que tem “a responsabilidade de gerir os recursos hídricos disponíveis” porque é quem detém a concessão da exploração da barragem.
E sublinha que tal é feito “respeitando os princípios gerais da equidade e as prioridades estabelecidas na lei: em primeiro lugar, o abastecimento público; em segundo lugar, a rega”. Porém, não tem em conta que para os agricultores a prioridade é a rega, como garantia de sustento — até porque não beneficiam do abastecimento público de água.
Para o uso doméstico, como o banho ou a lavagem da loiça ou da roupa, Maria Antónia tem água na cisterna, que é limpa por um filtro. Para beber, ou compra ou vai à fonte em Monchique com garrafões. “É a única maneira. Não temos água potável aqui, não temos água corrente.”
Como um soberano nestes montes, Mário Rui Guerreiro surge lento no horizonte com o seu rebanho. O pastor de 44 anos intercala as passadas com paragens desatentas para navegar no telemóvel. Mais de uma vez escreveu no Facebook que cortar a água desta forma aos pequenos agricultores “é uma coisa que não devia estar a acontecer” — como de um aviso se tratasse para largarem o seu trabalho ou a sua terra.
Sabe de quem faz das tripas coração. Conhece os cantos ao rio Mira, um dos dois que abastecem a Barragem de Santa Clara, e os charcos onde dá de beber às ovelhas.
Pelo sorriso estampado e a conversa fácil, nada mais parece desejar para lá dos declives vazios entre Sabóia (onde se anseia pela chuva no Inverno) e Santa Clara (onde o rio chegou a ser só lodo e este trazia o peixe já morto, antes de ser resposta água na ribeira).
“O principal problema é o modelo de exploração” agrícola que resulta numa expansão de uma agricultura intensiva “que consome cada vez mais água", diz Diogo Coutinho, coordenador do projecto CLARA (Centro para o Futuro Rural) e membro do grupo SOS Rio Mira, para quem há um uso excessivo de um recurso cada vez mais escasso com o aumento da área admitida pelo Estado para as monoculturas intensivas no Perímetro de Rega do Mira dos municípios de Odemira e Aljezur.
A Associação dos Beneficiários do Mira, dominada por dois ou três grandes produtores, nacionais e estrangeiros, através dos votos enquanto associados, é quem define as regras, no quadro da concessão que detém através do acordo com o Governo. Assim, e pela dimensão que assume, uma pequena minoria de multinacionais impõe a sua vontade a uma grande maioria de pequenos produtores, denuncia.
"Há um desequilíbrio gigantesco”, acrescenta Diogo Coutinho. Lembra que o problema se agravou com a permissão do Governo para triplicar a área de produção intensiva do litoral há dois anos. “Não se expandia a área se houvesse preocupação com a redução da água e o aumento da sua eficiência.”
Plano de contingência
Em situação de seca, a AB Mira acciona o plano de contingência. “As suas regras são as mesmas para os ‘grandes’ e os ‘pequenos’”, diz o Ministério da Agricultura quando confrontado com o que dizem os agricultores da região sobre a disponibilização de água em grandes quantidades para as grandes produções de frutos vermelhos em estufas a perder de vista para os lados de São Teotónio. Também questionada, a AB Mira não respondeu.
O plano de contingência foi apresentado na assembleia geral da AB Mira e aprovado por maioria de votos sustentada nas grandes produtoras, enquanto associadas. E nele, é feita a distinção entre os regantes de pleno direito (agricultores integrados na zona definida no contrato de concessão como o perímetro de rega) e os regantes a título precário.
Taxas agravadas
Com a aprovação do plano para a campanha agrícola deste ano, aos primeiros foi estabelecido um limite de 3500 m3 de água por hectare, acima do qual passam a pagar uma taxa agravada em que, por cada litro a mais, pagam três vezes mais; aos segundos, aplicou-se o mesmo regime, a partir do limite máximo permitido de 1000 m3 por hectare. Tal resulta da necessidade invocada pela AB Mira de, nesta campanha, reduzir para menos de metade a captação máxima de água habitual.
“A gente sabe que a água lá está é pouca, a água para sair de lá tem de ser bombada”, diz José Conceição Manuel ao cair da noite ainda atarefado na horta que quase contorna a casa. “Nós fomos os principiantes disto, aqueles que puseram isto de pé quando tudo aqui começou. Há falta de água. Mas a uns cortam e a outros dão condições para aumentar? Nós estamos indignados é de ver que para os grandes é [água] à vontadinha.”
Vacas como rainhas
Do cimo do monte onde arranjou condições para criar os filhos, que em adultos deixaram Sabóia, José da Conceição Manuel mostra a área hoje seca que ainda no ano passado se cobria de verde.
“Estou a tratar os animais só a seco ali no curral. No ano passado, estava tudo verde para a frente e ali para cima. As vacas eram umas rainhas, tinham tudo o que queriam”, continua.
“Nós fomos avisados para não semear muito e eles ali — na Zambujeira do Mar ou em São Teotónio — não foram em nada reduzidos. Pelo contrário: as grandes companhias que vêm lá de fora, com aqueles grandes projectos, podem fazer hectares de estufas, à farta, e depois aqui não temos”, diz José Monchiquense, como é conhecido por ser natural de Monchique.
“O que estou a pensar fazer? Nada. É acabar de vender os bichinhos que aí tenho, para não morrerem à fome e pôr-me encostado. Eu já tenho quase 80 anos, também já perco pouco.”
"Ninguém dará"
Quem também já não espera e, pelo contrário, nem se revolta é Manuel Lourenço à beira de completar 88 anos. O seu monte é oposto ao de José Monchiquense, mas fica no cimo, do outro lado da estrada, e só acessível por uma estrada estreita de terra batida.
“Eu tenho de puxar a água da ribeira para aqui, com um motor, mas a ribeira não tem água. Uma gotinha aqui e ali, vai para ali para aquele tanque”, diz apontando, curvado pela idade, no escuro da noite.
“E do tanque vai ali para o lugar de beber, de dar água aos animais.” Manuel Lourenço tem alguma água da barragem para o regadio das plantações mais abaixo, mas não tem para a casa. “Antes tinha porque corria aí na ribeira, agora veio esta seca. Se chover, teremos água e corre tudo bem. Se a chuva não der mais ninguém dará.”
Num contexto de seca, a Associação dos Beneficiários do Mira foi autorizada a expandir a área elegível para rega dos grandes produtores de uma monocultura intensiva. Passados dois anos, limitou o acesso à água da Barragem de Santa Clara. Ao impor uma tabela por hectare, a decisão afecta mais os pequenos agricultores, obrigados a cortar na sua agricultura de subsistência na campanha de 2021.
A vida dos pequenos agricultores nas terras do rio Mira deu muitas voltas, antes e depois da construção da Barragem de Santa Clara, nos anos 1960, quando a chuva dava à terra o que ela precisava. Mais tarde, quando pela primeira vez conheceram a seca, valeu-lhes aquilo que trazia a barragem. A água era distribuída e paga.
Em retrospectiva, nunca o que mudou foi tão mau como neste ano nesta freguesia do concelho de Odemira. Prova disso é que nunca antes, como agora, tinham deixado de ver o prado infinitamente verde à sua frente. Mesmo no tempo seco.
Em Março deste ano, a Associação dos Beneficiários do Mira, que detém a concessão da barragem e gere a distribuição para a rega, impôs um limite da água a que os produtores da região têm direito, limite a partir do qual passam a pagar o triplo do preço por litro. Para os pequenos agricultores os novos preços são incomportáveis. Maria Antónia Cortes, que tem na venda dos Cabazes da Horta a sua renda, abdicou de muito. “Eu deixei de poder fazer as produções que exigem mais água: espinafres, agrião, essas coisas tive de reduzir. Não pude pôr coisas na estufa, porque no Verão a estufa pede sempre mais.”
Agora a estufa parece uma tenda desgarrada pelo vento onde a vegetação que secou preenche o vazio. “Eu tinha árvores, eu tinha pêras, pêros, ameixas, pêssegos, nespereiras, figueiras – basta ver agora como estão secas”, diz, acompanhando o gesto com o olhar em volta.
“Eu tinha tudo isso, para meter nos cabazes. Há coisas que não pude cultivar, não tive rendimento delas. O feijão, este ano, foi por metade. O mesmo aconteceu com a couve que exige mais fresquidão.”
Tomateiros, couves e arrozais
Nas décadas de 60 e 70, houve quem entre os moradores destes montes junto ao Rio Mira se tenha mudado de Monchique para Sabóia e freguesias vizinhas, uns 25 quilómetros acima, e comprado terrenos para a agricultura. Outros, vindos das aldeias próximas, apostaram na diversidade das colheitas em terras onde brotavam mantos de arrozais, ao lado de tomateiros, couves, beterrabas, alfaces e muito mais.
Foi o caso de Maria Antónia que nasceu numa aldeia a 11 quilómetros onde agora vai buscar a água que lhe falta junto à barragem.
“Houve tempo em que toda a gente semeava, estas várzeas todas eram semeadas. Agora não”, diz Maria Antónia Cortes. “Umas pessoas saíram daqui, outras ficam velhas e não podem continuar a trabalhar no campo.”
Sem água potável
Mas nem tudo mudou. Agora, como antes, na sua casa, como em tantas outras nestas colinas e vales, não há água canalizada — nunca foi instalada uma rede pública de abastecimento.
O que não imaginava era chegar para lá dos 70 anos sem saber como dar a beber aos animais, ou ter que inventar, e desistir das sementeiras que mais água consomem.
A decisão de Março foi denunciada pelo movimento Juntos pelo Sudoeste e motivou uma reportagem na revista alemã Der Spiegel, publicada na semana passada, sobre o que esta diz serem as “incongruências” de um modelo que depende de rega em grandes quantidades e que continua a crescer em pleno parque natural do sudoeste alentejano, sem que as autoridades portuguesas intervenham para devolver a água aos pequenos regantes. Tal acontece porque a entidade que administra a água da albufeira do Mira é controlada pelos seus maiores usuários — os grandes proprietários, escreve a revista.
Para dar de beber às vacas, Maria Antónia sai munida de uma bilha de 1000 litros, na carrinha com o marido, duas ou três vezes por semana. Vai até ao terreno da família extrair água do canal com uma mangueira. “É para dar uma gotinha às árvores, para elas não secarem mesmo até ao Inverno.”
A agricultora diz que o corte no abastecimento decidido pela Associação dos Beneficiários do Mira (AB Mira) seria acolhido de outra forma se os grandes produtores das monoculturas intensivas de frutos vermelhos, no litoral, não tivessem tido a possibilidade de aumentar a área de cultivo, tendo acesso a ainda mais água.
“Quando passamos no canal, vemos o canal cheio para empresas que nem portuguesas são”, lança Maria Antónia. “É isso que dói. Não é levarem água para lá. Se têm agricultura lá, é necessário levarem água para lá. Dói é tirarem-nos a nós que não temos grande gasto [na agricultura] comparativamente a essas empresas. Mas somos humanos e precisamos porque a água é um bem essencial.”
Reduzir o consumo
Perante estas queixas, o Ministério da Agricultura remete para o contexto em que “os actuais níveis de água na albufeira impõem prudência nos consumos”. Contactado, o gabinete de imprensa lembra que não é o Governo mas a AB Mira que tem “a responsabilidade de gerir os recursos hídricos disponíveis” porque é quem detém a concessão da exploração da barragem.
E sublinha que tal é feito “respeitando os princípios gerais da equidade e as prioridades estabelecidas na lei: em primeiro lugar, o abastecimento público; em segundo lugar, a rega”. Porém, não tem em conta que para os agricultores a prioridade é a rega, como garantia de sustento — até porque não beneficiam do abastecimento público de água.
Para o uso doméstico, como o banho ou a lavagem da loiça ou da roupa, Maria Antónia tem água na cisterna, que é limpa por um filtro. Para beber, ou compra ou vai à fonte em Monchique com garrafões. “É a única maneira. Não temos água potável aqui, não temos água corrente.”
Como um soberano nestes montes, Mário Rui Guerreiro surge lento no horizonte com o seu rebanho. O pastor de 44 anos intercala as passadas com paragens desatentas para navegar no telemóvel. Mais de uma vez escreveu no Facebook que cortar a água desta forma aos pequenos agricultores “é uma coisa que não devia estar a acontecer” — como de um aviso se tratasse para largarem o seu trabalho ou a sua terra.
Sabe de quem faz das tripas coração. Conhece os cantos ao rio Mira, um dos dois que abastecem a Barragem de Santa Clara, e os charcos onde dá de beber às ovelhas.
Pelo sorriso estampado e a conversa fácil, nada mais parece desejar para lá dos declives vazios entre Sabóia (onde se anseia pela chuva no Inverno) e Santa Clara (onde o rio chegou a ser só lodo e este trazia o peixe já morto, antes de ser resposta água na ribeira).
“O principal problema é o modelo de exploração” agrícola que resulta numa expansão de uma agricultura intensiva “que consome cada vez mais água", diz Diogo Coutinho, coordenador do projecto CLARA (Centro para o Futuro Rural) e membro do grupo SOS Rio Mira, para quem há um uso excessivo de um recurso cada vez mais escasso com o aumento da área admitida pelo Estado para as monoculturas intensivas no Perímetro de Rega do Mira dos municípios de Odemira e Aljezur.
A Associação dos Beneficiários do Mira, dominada por dois ou três grandes produtores, nacionais e estrangeiros, através dos votos enquanto associados, é quem define as regras, no quadro da concessão que detém através do acordo com o Governo. Assim, e pela dimensão que assume, uma pequena minoria de multinacionais impõe a sua vontade a uma grande maioria de pequenos produtores, denuncia.
"Há um desequilíbrio gigantesco”, acrescenta Diogo Coutinho. Lembra que o problema se agravou com a permissão do Governo para triplicar a área de produção intensiva do litoral há dois anos. “Não se expandia a área se houvesse preocupação com a redução da água e o aumento da sua eficiência.”
Plano de contingência
Em situação de seca, a AB Mira acciona o plano de contingência. “As suas regras são as mesmas para os ‘grandes’ e os ‘pequenos’”, diz o Ministério da Agricultura quando confrontado com o que dizem os agricultores da região sobre a disponibilização de água em grandes quantidades para as grandes produções de frutos vermelhos em estufas a perder de vista para os lados de São Teotónio. Também questionada, a AB Mira não respondeu.
O plano de contingência foi apresentado na assembleia geral da AB Mira e aprovado por maioria de votos sustentada nas grandes produtoras, enquanto associadas. E nele, é feita a distinção entre os regantes de pleno direito (agricultores integrados na zona definida no contrato de concessão como o perímetro de rega) e os regantes a título precário.
Taxas agravadas
Com a aprovação do plano para a campanha agrícola deste ano, aos primeiros foi estabelecido um limite de 3500 m3 de água por hectare, acima do qual passam a pagar uma taxa agravada em que, por cada litro a mais, pagam três vezes mais; aos segundos, aplicou-se o mesmo regime, a partir do limite máximo permitido de 1000 m3 por hectare. Tal resulta da necessidade invocada pela AB Mira de, nesta campanha, reduzir para menos de metade a captação máxima de água habitual.
“A gente sabe que a água lá está é pouca, a água para sair de lá tem de ser bombada”, diz José Conceição Manuel ao cair da noite ainda atarefado na horta que quase contorna a casa. “Nós fomos os principiantes disto, aqueles que puseram isto de pé quando tudo aqui começou. Há falta de água. Mas a uns cortam e a outros dão condições para aumentar? Nós estamos indignados é de ver que para os grandes é [água] à vontadinha.”
Vacas como rainhas
Do cimo do monte onde arranjou condições para criar os filhos, que em adultos deixaram Sabóia, José da Conceição Manuel mostra a área hoje seca que ainda no ano passado se cobria de verde.
“Estou a tratar os animais só a seco ali no curral. No ano passado, estava tudo verde para a frente e ali para cima. As vacas eram umas rainhas, tinham tudo o que queriam”, continua.
“Nós fomos avisados para não semear muito e eles ali — na Zambujeira do Mar ou em São Teotónio — não foram em nada reduzidos. Pelo contrário: as grandes companhias que vêm lá de fora, com aqueles grandes projectos, podem fazer hectares de estufas, à farta, e depois aqui não temos”, diz José Monchiquense, como é conhecido por ser natural de Monchique.
“O que estou a pensar fazer? Nada. É acabar de vender os bichinhos que aí tenho, para não morrerem à fome e pôr-me encostado. Eu já tenho quase 80 anos, também já perco pouco.”
"Ninguém dará"
Quem também já não espera e, pelo contrário, nem se revolta é Manuel Lourenço à beira de completar 88 anos. O seu monte é oposto ao de José Monchiquense, mas fica no cimo, do outro lado da estrada, e só acessível por uma estrada estreita de terra batida.
“Eu tenho de puxar a água da ribeira para aqui, com um motor, mas a ribeira não tem água. Uma gotinha aqui e ali, vai para ali para aquele tanque”, diz apontando, curvado pela idade, no escuro da noite.
“E do tanque vai ali para o lugar de beber, de dar água aos animais.” Manuel Lourenço tem alguma água da barragem para o regadio das plantações mais abaixo, mas não tem para a casa. “Antes tinha porque corria aí na ribeira, agora veio esta seca. Se chover, teremos água e corre tudo bem. Se a chuva não der mais ninguém dará.”
14.3.21
Cerca de 2,7 milhões de pessoas na Somália em risco de fome por falta de água
in o Observador
A ONU alerta para a degradação da situação humanitária no país africano. O número de habitantes que poderão sofrer de falta de alimentos representa um aumento de 65% face aos números atuais.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla inglesa) alertou esta sexta-feira para a degradação da situação humanitária na Somália devido à falta de água, que coloca em risco de fome pelo menos 2,7 milhões de pessoas.
“Um grande número de problemas humanitários, incluindo conflitos, insegurança alimentar e um clima errático afetaram a Somália durante décadas“, disse o porta-voz do OCHA, Jens Laerke, em declarações citadas pela agência de notícias espanhola, a Efe.
A previsão indica que a temporada atual de chuva, entre março e junho, ficará abaixo do esperado, o que contribui para agravar a falta de água, colocando em risco a sobrevivência do gado, pelo que o número de habitantes da Somália que poderão sofrer de falta de alimentos deverá ser de 2,7 milhões, o que representa um aumento de 65% face aos números atuais, segundo a OCHA. Entre os afetados pelos problemas de acesso aos alimentos estão 840 mil crianças com menos de cinco anos, apontou o responsável.
A ONU e todas as organizações que prestam assistência no terreno pediram mil milhões de dólares, cerca de 830 milhões de euros, de financiamento para prestar ajuda humanitária a 4 milhões de pessoas na Somália ao longo do ano, mas até agora só conseguiram angariar 2,5% desse montante, estando em estudo o acesso a um fundo especial para situações críticas, que poderá desbloquear 20 milhões de dólares (16,7 milhões de euros), conclui a Efe.
A ONU alerta para a degradação da situação humanitária no país africano. O número de habitantes que poderão sofrer de falta de alimentos representa um aumento de 65% face aos números atuais.
O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla inglesa) alertou esta sexta-feira para a degradação da situação humanitária na Somália devido à falta de água, que coloca em risco de fome pelo menos 2,7 milhões de pessoas.
“Um grande número de problemas humanitários, incluindo conflitos, insegurança alimentar e um clima errático afetaram a Somália durante décadas“, disse o porta-voz do OCHA, Jens Laerke, em declarações citadas pela agência de notícias espanhola, a Efe.
A previsão indica que a temporada atual de chuva, entre março e junho, ficará abaixo do esperado, o que contribui para agravar a falta de água, colocando em risco a sobrevivência do gado, pelo que o número de habitantes da Somália que poderão sofrer de falta de alimentos deverá ser de 2,7 milhões, o que representa um aumento de 65% face aos números atuais, segundo a OCHA. Entre os afetados pelos problemas de acesso aos alimentos estão 840 mil crianças com menos de cinco anos, apontou o responsável.
A ONU e todas as organizações que prestam assistência no terreno pediram mil milhões de dólares, cerca de 830 milhões de euros, de financiamento para prestar ajuda humanitária a 4 milhões de pessoas na Somália ao longo do ano, mas até agora só conseguiram angariar 2,5% desse montante, estando em estudo o acesso a um fundo especial para situações críticas, que poderá desbloquear 20 milhões de dólares (16,7 milhões de euros), conclui a Efe.
16.12.20
Parlamento Europeu aprova lei para melhorar qualidade de água da torneira na União Europeia
in o Observador
A lei prevê que se reduza a quantidade de substâncias, como o chumbo, presentes na água da torneira. Caso se reduza o consumo de água engarrafada, os europeus podem poupar mais de 600 milhões por ano.
O Parlamento Europeu (PE) aprovou esta terça-feira uma diretiva que visa fornecer melhor qualidade de água da torneira, ao reduzir o limiar de substâncias contaminantes, e aumentar o acesso gratuito a água potável na UE.
Na diretiva aprovada, prevê-se que os Estados-membros reduzam a quantidade de certas substâncias, como o chumbo, presentes na água da torneira, e que a Comissão Europeia, até ao início de 2022, apresente uma lista de substâncias nocivas para a saúde — e que vão de microplásticos a fármacos — que não podem entrar em contacto com a água potável.
Frisando que, caso se reduza o consumo de água engarrafada na UE, os cidadãos europeus podem poupar mais de 600 milhões de euros anualmente, o Parlamento prevê também que os Estados-membros disponibilizem gratuitamente água em edifícios públicos e encorajem os serviços de restauração a “fornecer água aos consumidores gratuitamente ou a baixo preço”.
Os Estados-Membros devem também tomar medidas para melhorar o acesso à água por parte dos grupos vulneráveis, tais como refugiados, comunidades nómadas, pessoas sem-abrigo e culturas minoritárias, nomeadamente os ciganos”.
É ainda realçado que os países da UE não poderão “em circunstância alguma” permitir que a atual qualidade da água se deteriore no espaço europeu.
O relator do PE da diretiva aprovada, Christian Hansen, em debate antes da aprovação da legislação, referiu que esta era necessária para que “a população conhecesse a qualidade da água potável e da torneira”.
Os nossos cidadãos devem saber que, ao beberem água da torneira, têm a mesma qualidade que se beberem água engarrafa, enquanto que a água engarrafada consome mil vezes mais energia para ser transportada e fabricada do que a água da torneira. A isto acrescentam-se todos os detritos de plástico derivados das embalagens de plástico”.
A diretiva é a primeira iniciativa de cidadania europeia a ser adotada pela UE e a tornar-se legislação.
A iniciativa em questão, Right2Water (Direito à Água), tinha sido lançada em 2013 e sido assinada por mais de 1,8 milhões cidadãos europeus nesse ano.
Na altura, os signatários pediam um acesso justo e universal à água potável para todos na UE.
A lei prevê que se reduza a quantidade de substâncias, como o chumbo, presentes na água da torneira. Caso se reduza o consumo de água engarrafada, os europeus podem poupar mais de 600 milhões por ano.
O Parlamento Europeu (PE) aprovou esta terça-feira uma diretiva que visa fornecer melhor qualidade de água da torneira, ao reduzir o limiar de substâncias contaminantes, e aumentar o acesso gratuito a água potável na UE.
Na diretiva aprovada, prevê-se que os Estados-membros reduzam a quantidade de certas substâncias, como o chumbo, presentes na água da torneira, e que a Comissão Europeia, até ao início de 2022, apresente uma lista de substâncias nocivas para a saúde — e que vão de microplásticos a fármacos — que não podem entrar em contacto com a água potável.
Frisando que, caso se reduza o consumo de água engarrafada na UE, os cidadãos europeus podem poupar mais de 600 milhões de euros anualmente, o Parlamento prevê também que os Estados-membros disponibilizem gratuitamente água em edifícios públicos e encorajem os serviços de restauração a “fornecer água aos consumidores gratuitamente ou a baixo preço”.
Os Estados-Membros devem também tomar medidas para melhorar o acesso à água por parte dos grupos vulneráveis, tais como refugiados, comunidades nómadas, pessoas sem-abrigo e culturas minoritárias, nomeadamente os ciganos”.
É ainda realçado que os países da UE não poderão “em circunstância alguma” permitir que a atual qualidade da água se deteriore no espaço europeu.
O relator do PE da diretiva aprovada, Christian Hansen, em debate antes da aprovação da legislação, referiu que esta era necessária para que “a população conhecesse a qualidade da água potável e da torneira”.
Os nossos cidadãos devem saber que, ao beberem água da torneira, têm a mesma qualidade que se beberem água engarrafa, enquanto que a água engarrafada consome mil vezes mais energia para ser transportada e fabricada do que a água da torneira. A isto acrescentam-se todos os detritos de plástico derivados das embalagens de plástico”.
A diretiva é a primeira iniciativa de cidadania europeia a ser adotada pela UE e a tornar-se legislação.
A iniciativa em questão, Right2Water (Direito à Água), tinha sido lançada em 2013 e sido assinada por mais de 1,8 milhões cidadãos europeus nesse ano.
Na altura, os signatários pediam um acesso justo e universal à água potável para todos na UE.
30.3.17
Lisboa vai ter centro internacional de investigação sobre água
in Notícias ao Minuto
Portugal vai ter um centro internacional para a água, com parceiros de todo o setor e de todo o mundo, para desenvolver investigação, encontrar novas soluções, e passar conhecimento a decisores, empresas e sociedade.
"A ideia é criar, em Lisboa, em Portugal, um centro internacional dedicado às questões da água, o Lisbon International Centre for Water [Centro Internacional da Água de Lisboa], com o objetivo de desenvolver, numa rede internacional extensa, o melhor conhecimento existente no setor dos recursos hídricos e dos serviços de águas e passá-lo" para várias componentes da sociedade, avançou à agência Lusa o coordenador do projeto.
Jaime Melo Baptista, investigador coordenador no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), realçou a importância de apoiar novas soluções técnicas, de produtos ou serviços, que contribuam para capacitar os responsáveis e profissionais e obter mais eficiência na utilização de um recurso decisivo para reduzir a pobreza, melhorar a saúde e o desenvolvimento.
O projeto, promovido pelo LNEC, obteve financiamento europeu, através do programa Teaming, que apoia a criação de centros de excelência e está integrado no Horizonte 2020, e "até final do ano vai estar pronto a funcionar", assegurou o especialista nesta área.
Com um investimento inicial de 400 mil euros, o centro tem previsto um orçamento de 15 milhões de euros, em sete anos, e 40 parceiros, número que Melo Baptista espera aumentar, mesmo em termos internacionais.
"Pretende passar o conhecimento sobre o setor da água em Portugal, na Europa e no mundo, para os decisores políticos, técnicos e empresariais, para que tomem melhores decisões, mas também para os profissionais da área da água, portugueses e estrangeiros, através de mecanismos de capacitação não tradicionais", baseados em ligações à distância, especificou o especialista.
O novo centro, diferente de tudo o que existe no mundo nesta área, segundo Melo Baptista, conjuga investigação, em laboratórios já existentes, com a aplicação dos resultados obtidos, por exemplo novos produtos ou equipamentos, na atividade industrial, e incentiva o desenvolvimento de 'startups'.
O projeto é baseado no LNEC, que tem instalações experimentais e laboratórios.
O centro, que é multidisciplinar, é apoiado pelos ministérios do Ambiente, Economia, Infraestruturas e Ciência, através da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), além de operadores do setor, como a Águas de Portugal, municípios e entidades privadas.
Tem também o apoio de associações do setor, como a Parceria Portuguesa para a Água, a Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Água (APDA), a Associação Portuguesa de Empresas de Tecnologias Ambientais (APEMETA), a Direção Geral do Consumidor, a Deco, a Direção Geral de Saúde e universidades portuguesas.
A estas entidades nacionais juntam-se a Associação Internacional da Água, a UNESCO e várias universidades estrangeiras, como do Reino Unido, França, Espanha, Alemanha e Brasil.
"Queremos ter aqui investigadores estrangeiros, dar formação a portugueses, mas também a profissionais de outros países", acrescentou.
Melo Baptista, que foi presidente da Entidade Reguladora dos Serviços da Água e Resíduos (ERSAR), explicou que, na base da iniciativa estão "os objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, em que a água é uma das 17 prioridades e cruza com praticamente todas as outras, sendo decisiva para reduzir a pobreza, melhorar a saúde e o desenvolvimento", mas também documentos da OCDE ou da Associação Internacional da Água.
O centro está vocacionado para ajudar os países a atingir aqueles objetivos, combinando política, gestão, tecnologia, economia, com aspetos jurídicos e sociais.
Na melhoria do acesso à água e da sua utilização, "a eficiência dos serviços é um tema imenso, mas também temos as alterações climáticas, a gestão de recursos, a componente social ou o desenvolvimento de tecnologias inovadoras", explicou ainda o coordenador do projeto.
Portugal vai ter um centro internacional para a água, com parceiros de todo o setor e de todo o mundo, para desenvolver investigação, encontrar novas soluções, e passar conhecimento a decisores, empresas e sociedade.
"A ideia é criar, em Lisboa, em Portugal, um centro internacional dedicado às questões da água, o Lisbon International Centre for Water [Centro Internacional da Água de Lisboa], com o objetivo de desenvolver, numa rede internacional extensa, o melhor conhecimento existente no setor dos recursos hídricos e dos serviços de águas e passá-lo" para várias componentes da sociedade, avançou à agência Lusa o coordenador do projeto.
Jaime Melo Baptista, investigador coordenador no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), realçou a importância de apoiar novas soluções técnicas, de produtos ou serviços, que contribuam para capacitar os responsáveis e profissionais e obter mais eficiência na utilização de um recurso decisivo para reduzir a pobreza, melhorar a saúde e o desenvolvimento.
O projeto, promovido pelo LNEC, obteve financiamento europeu, através do programa Teaming, que apoia a criação de centros de excelência e está integrado no Horizonte 2020, e "até final do ano vai estar pronto a funcionar", assegurou o especialista nesta área.
Com um investimento inicial de 400 mil euros, o centro tem previsto um orçamento de 15 milhões de euros, em sete anos, e 40 parceiros, número que Melo Baptista espera aumentar, mesmo em termos internacionais.
"Pretende passar o conhecimento sobre o setor da água em Portugal, na Europa e no mundo, para os decisores políticos, técnicos e empresariais, para que tomem melhores decisões, mas também para os profissionais da área da água, portugueses e estrangeiros, através de mecanismos de capacitação não tradicionais", baseados em ligações à distância, especificou o especialista.
O novo centro, diferente de tudo o que existe no mundo nesta área, segundo Melo Baptista, conjuga investigação, em laboratórios já existentes, com a aplicação dos resultados obtidos, por exemplo novos produtos ou equipamentos, na atividade industrial, e incentiva o desenvolvimento de 'startups'.
O projeto é baseado no LNEC, que tem instalações experimentais e laboratórios.
O centro, que é multidisciplinar, é apoiado pelos ministérios do Ambiente, Economia, Infraestruturas e Ciência, através da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), além de operadores do setor, como a Águas de Portugal, municípios e entidades privadas.
Tem também o apoio de associações do setor, como a Parceria Portuguesa para a Água, a Associação Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Água (APDA), a Associação Portuguesa de Empresas de Tecnologias Ambientais (APEMETA), a Direção Geral do Consumidor, a Deco, a Direção Geral de Saúde e universidades portuguesas.
A estas entidades nacionais juntam-se a Associação Internacional da Água, a UNESCO e várias universidades estrangeiras, como do Reino Unido, França, Espanha, Alemanha e Brasil.
"Queremos ter aqui investigadores estrangeiros, dar formação a portugueses, mas também a profissionais de outros países", acrescentou.
Melo Baptista, que foi presidente da Entidade Reguladora dos Serviços da Água e Resíduos (ERSAR), explicou que, na base da iniciativa estão "os objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, em que a água é uma das 17 prioridades e cruza com praticamente todas as outras, sendo decisiva para reduzir a pobreza, melhorar a saúde e o desenvolvimento", mas também documentos da OCDE ou da Associação Internacional da Água.
O centro está vocacionado para ajudar os países a atingir aqueles objetivos, combinando política, gestão, tecnologia, economia, com aspetos jurídicos e sociais.
Na melhoria do acesso à água e da sua utilização, "a eficiência dos serviços é um tema imenso, mas também temos as alterações climáticas, a gestão de recursos, a componente social ou o desenvolvimento de tecnologias inovadoras", explicou ainda o coordenador do projeto.
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