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6.6.23

Certificados de Aforro: de caros a baratos para o Estado num fim-de-semana

Sérgio Aníbal, in Público

Até sexta-feira, cada nova subscrição de Certificados de Aforro representava para o Estado uma emissão de dívida a taxas de juro superiores às obrigações do Tesouro a 10 anos. O cenário agora mudou.

Desde o início deste ano a pagar mais juros pelos Certificados de Aforro do que pela emissão de obrigações do Tesouro a 10 anos, o Estado vai passar agora, com a nova série lançada pelo Governo, a ter nas novas subscrições de certificados que venham a ser feitas uma fonte de financiamento que, pelo menos nos primeiros anos, lhe sai mais barata do que os títulos de dívida de longo prazo que lança no mercado.

A suspensão da série E dos Certificados de Aforro anunciada na sexta-feira pelo Ministério das Finanças e o lançamento já a partir desta segunda-feira de uma nova série deste produto, a F, vão ter como consequência uma mudança na forma como o Estado se vinha a financiar desde o início deste ano.

Assim, as regras da série E previam que a taxa de juro anual a pagar em cada trimestre pelo Estado ao aforrador seria equivalente à Euribor a três meses mais um ponto percentual, com um valor máximo de 3,5%.

De facto, para além de serem muito mais competitivas do que as taxas de juro oferecidas pelos bancos nos seus depósitos, as taxas que o Estado se comprometia, até ao final da semana passada, a pagar a quem subscrevesse novos Certificados de Aforro estavam a um nível mais alto do que aquelas que suportava ao emitir no mercado obrigacionista títulos de dívida com prazos até 10 anos.

Mesmo sem contar com os prémios de permanência que a partir do segundo ano são aplicados, a taxa de juro dos Certificados de Aforro ascendia neste momento ao máximo de 3,5%. Este é um valor que, para as contas do Estado, lhe sai mais caro do que a taxa de juro de 3,05% que se regista actualmente nas obrigações de Tesouro a 10 anos ou que os 2,68% das obrigações a cinco anos, por exemplo.


25.5.23

Segurança Social com excedente de 4000 milhões, o maior “em mais de uma década”

Pedro Crisóstomo, in Público


Mesmo com os encargos extras da pandemia e das medidas anti-inflação, a despesa cresceu menos do que a receita. Pagamentos com subsídios de desemprego diminuíram em 316 milhões.


A Segurança Social registou um excedente orçamental de 4059 milhões de euros em 2022. É o maior valor “em mais de uma década”, quando se olha para as contas em contabilidade pública, faz notar o Conselho das Finanças Públicas (CFP) num relatório divulgado nesta quinta-feira sobre a evolução das contas deste instituto.

Com o aumento da receita a superar o crescimento da despesa, a diferença no excedente em relação a 2021 ronda os 1711 milhões de euros. O saldo exclui as operações relativas ao Fundo Social Europeu (FSE) e ao Fundo Europeu de Auxílio às Pessoas Mais Carenciadas (FEAC).

[Artigo exclusivo para assinantes]

30.8.21

Poupanças aplicadas pelos portugueses duplicaram na pandemia para 22,7 mil milhões

Luís Villalobos e Rosa Soares, in Público on-line

Pandemia deu impulso de 12,3 mil milhões nas poupanças aplicadas pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados do Estado entre Março de 2020 e Junho deste ano. Depósitos representaram 76% do total.

O dinheiro aplicado pelos portugueses em depósitos, fundos e certificados desde Março de 2020, quando se iniciou a pandemia, chegou aos 22.736 milhões de euros em Junho deste ano, um valor que fica 118%, ou 12.286 milhões, acima do mesmo período de 2018/2019.

Este é o resultado de uma poupança forçada pelo confinamento, com entraves do ponto de vista da procura e da oferta, e pela incerteza da crise global provocada pela covid-19, mitigada pelos apoios ao nível do emprego (e salários) como o layoff simplificado. Só no segundo trimestre de 2020, por exemplo, o rendimento disponível dos portugueses diminuiu, em média, 2% face ao período homólogo, e o consumo privado registou uma quebra inédita de 12,3%.

Dos que conseguiram poupar - mesmo com medidas de apoio há quem tenha sofrido fortes quebras de rendimento ou perdido o emprego -, a principal opção foi pelos depósitos, que chegaram aos 18.053 milhões de euros nos 16 meses em análise, subindo 9361 milhões face ao mesmo período de 2018/2019 e representando 76% do total da poupança extra.

Os depósitos têm vindo a bater novos recordes (o total chegou aos 169,9 mil milhões de euros, contabilizando aqui já os valores de Julho disponibilizados esta quinta-feira pelo Banco de Portugal), e os valores nas contas à ordem nunca estiveram tão próximos do montante dos depósitos a prazo (eram 47,2% do total em Junho), num contexto de baixa inflação.
Aversão ao risco e liquidez

Neste contexto, segundo os especialistas contactados pelo PÚBLICO, destaca-se a primazia dada à questão da liquidez, num “clima de grande incerteza” e com “rendibilidades relativamente baixas dos activos alternativos aos depósitos à ordem”, como refere Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra. Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa, sublinha também “a ausência de uma remuneração expressiva que motive as famílias a constituírem depósitos a prazo”, porque estes estão com “taxas de juro implícitas de quase zero”.

Em Portugal aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI

“Considerando o conjunto dos activos financeiros das famílias”, realça Paula Carvalho, responsável pelo Departamento de Estudos Económicos e Financeiros do BPI, em Portugal “aloca-se uma maior proporção a depósitos bancários por comparação com outros países europeus – em 2019, 44% dos activos financeiros das famílias em Portugal face a 38% em Espanha, por exemplo, segundo dados do Eurostat -, o que evidenciará um misto de maior aversão ao risco e menor literacia financeira”.
Mais dois mil milhões depositados em Abril

Só em Abril de 2020, mês de maior confinamento logo após a declaração da pandemia, foram depositados 2039 milhões de euros, quase quatro vezes mais do que em idêntico período do ano anterior. A este factor pode estar ligada a tal opção por liquidez que esteve muito sublinhada logo em Março, período em que houve uma forte saída de activos como os fundos.

Em Março de 2020, de acordo com os dados do Banco de Portugal, os particulares retiraram 1256 milhões de euros que estavam em fundos ligados a obrigações, imobiliário e acções, um movimento que ocorreu na generalidade dos mercados financeiros. Esse valor foi depois reposto e mesmo superado até ao final do ano, tendo sido o instrumento de poupança que mais acelerou na actual conjuntura, acabando por se registar uma diferença de 3359 milhões de euros face aos montantes aplicados entre Março de 2018 e Junho de 2019 – e que não foram além dos 121 milhões.

16.805 Os particulares tinham 16,8 mil milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho. No período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, o valor chegou aos 28,7 mil milhões de euros.

Fundos a crescer, mas longe de 2007

Ao todo, os particulares tinham 16.805 milhões de euros em fundos no final do passado mês de Junho, com destaque para as unidades de participação ligadas às obrigações e ao imobiliário, em detrimento das acções. Mesmo assim, apesar dos valores aplicados durante a pandemia e do crescimento dos últimos anos (em Junho de 2016 estava abaixo dos oito mil milhões), a aposta dos particulares em fundos está bem longe do período imediatamente anterior à crise financeira de 2008, quando chegou aos 28,7 mil milhões de euros.

“O aumento da preferência por fundos de investimento significa que os aforradores percepcionam esta escolha como tendo um menor risco e/ou um potencial de remuneração mais elevado que no passado recente, comparando com alternativas, nomeadamente instrumentos com capital garantido”, diz Paula Carvalho. Assim, refere esta responsável do BPI, os aforradores mostram estar “disponíveis para assumir um risco mais elevado e uma maior volatilidade, com a contrapartida esperada de uma melhor remuneração”, mas ainda numa pequena escala, “resultado da avaliação comparada de riscos e de uma atitude de prudência das famílias portuguesas em relação às suas aplicações financeiras”.
 



Para Paulo Rosa, “a recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento”. “Impulsionada pela pandemia, uma boa parte da poupança extra concentrou-se nas famílias de maiores rendimentos e a subscrição de fundos de investimento está mais associada a estes agregados de rendimentos mais elevados”, refere este responsável do Banco Carregosa, explicando que “a propensão marginal para consumir é menor nas famílias de maiores rendimentos e, consequentemente, acréscimos de poupança serão diversificados por um número maior de alternativas e instrumentos financeiros”. Assim, acrescenta, “parte poderá ter sido canalizada para fundos de investimentos e justifica, em parte, a maior aceleração na subscrição” deste tipo de poupança.

Por outro lado, diz Paulo Rosa, “os investidores portugueses ainda estão muito apreensivos e recuperam gradualmente o seu apetite pelo risco”. “A aversão ao risco em Portugal agravou-se acentuadamente há 12 anos com a crise do subprime nos EUA, a que se seguiram dificuldades na banca nacional, diminuição do peso e da importância da praça portuguesa, e a intervenção da troika em 2011”, contextualiza.

A recuperação dos mercados financeiros e uma poupança acrescida das famílias de maiores rendimentos justificam grande parte da subida dos fundos de investimento Paulo Rosa, economista chefe do Banco Carregosa

Sobre a diferença dos valores actuais dos fundos e dos que se verificavam em 2007, Pedro Bação também destaca “o impacto da desconfiança depois do choque da crise financeira internacional”, recordando que “muitos activos ainda não recuperaram totalmente o valor perdido nessa crise”. A esses elementos, diz, “junta-se o facto de, não obstante os ganhos pós-choque pandémico, as rendibilidades dos fundos de investimento (especialmente dos que investem mais em acções) serem ainda relativamente baixas quando vistas num horizonte temporal mais longo”.

No que diz respeito ao ritmo de aplicação de verbas em fundos desde que a pandemia começou, este professor de economia de Coimbra destaca quatro factores, a começar pela remuneração. “As valorizações ocorridas nos últimos meses estão a ajudar muito as empresas gestoras de fundos de investimento a vender os seus títulos”. Isso, diz, é facilitado por um segundo factor, “que resulta de os fundos serem frequentemente vendidos através dos bancos, que, tendo eles próprios actividades de gestão de fundos de investimento, têm um incentivo para direccionar as poupanças dos clientes para esses fundos de investimento, que proporcionam rendimentos importantes em comissões de gestão”.

Em terceiro lugar, refere, os fundos de investimento “também beneficiam de, em geral, terem um grau de liquidez elevado, pelo menos ao fim de alguns meses”, a que se junta o facto de terem vantagens face à aquisição directa de acções ou obrigações (como a gestão da carteira e custos de transacção).

Há, depois, os produtos do Estado, os certificados de aforro e os certificados do tesouro, e que, apesar de já ultrapassarem um stock de 30 mil milhões de euros, acabaram por ter uma prestação menos positiva na pandemia: entre Março de 2020 e Junho deste ano houve um reforço de 1203 milhões de euros, menos 434 milhões face a Março de 2018/Junho de 2019.

Pedro Bação destaca que os instrumentos de poupança do Estado “têm relativamente pouca visibilidade” e taxas de rendibilidade que “só se tornam atraentes à custa da perda de liquidez. “Certamente a maior parte dos aforradores com poupanças mais significativas terá gestores de conta nos bancos com que trabalham, e esses gestores de conta não irão fazer publicidade aos certificados de aforro, mas sim aos fundos de investimento vendidos através do banco”, diz, acrescentando que “o canal de venda, bem como os serviços associados (home banking), desfavorece claramente os instrumentos de poupança patrocinados pelo Estado”.

Para Paulo Rosa, “os depósitos a prazo são mais interessantes quando aplicados em prazos mais curtos como 6 a 12 meses”, enquanto os produtos do Estado “são mais interessantes para horizontes temporais mais longos, devido aos prémios de permanência e bonificações que proporcionam”.

Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo Pedro Bação, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Certo é que, refere, a “preferência por liquidez continua a dominar as poupanças dos portugueses”, algo que está reflectido no facto de os certificados de aforro e os do tesouro corresponderem a apenas 17% dos montantes de depósitos.

Além destas opções, os especialistas notam que está também a ser canalizado dinheiro para o mercado imobiliário. Depois, poderá haver quem também aplique dinheiro em alternativas como o ouro ou arte, e o Banco de Portugal também já deu nota de que se assistiu no ano passado a uma retenção de notas como “reserva de valor”, ou seja, como segurança em tempos conturbados tal como aconteceu na crise financeira iniciada em 2008.
Economia à espera do consumo

Conforme já escreveu o PÚBLICO, entre Abril de 2020 e Março de 2021 a taxa de poupança das famílias foi de 14,3% do rendimento disponível (mais 9549 milhões de euros em termos absolutos), o que é o valor mais alto, pelo menos, desde o início do século e quase o dobro dos 7,8% registados nos doze meses imediatamente anteriores.

215,2 No final de Junho os portugueses tinham 215,2 mil milhões de euros aplicados em depósitos, certificados do Estado e fundos

De acordo com as estimativas do Banco de Portugal, o valor do acréscimo de poupança poderá chegar aos 17,5 mil milhões de euros entre o ano passado e 2023, montante que poderá fazer subir as taxas de crescimento do consumo actualmente previstas.

Questionada sobre se estima que grande parte da poupança arrecada durante a pandemia venha a ser gasta em consumo num futuro próximo, a responsável do departamento de estudos económicos e financeiros do BPI, Paula Carvalho, diz que uma parte será usada, mas que não se pode “antecipar qual a dimensão dessa parte”. “Será sempre um movimento gradual, previsivelmente a favor do consumo, mas também do investimento”, refere.

“Creio que não haverá um boom espectacular do consumo, que leve a ultrapassar ou pelo menos atingir rapidamente os níveis pré-pandemia, mas à medida que nos desconfinamos há certamente um efeito muito positivo sobre o consumo”, responde Pedro Bação.

Por seu lado, Paulo Rosa recorda que “a poupança tende a aumentar em períodos de crise e a descer em períodos de menos incerteza”, e que “parte da poupança amealhada pelas famílias de rendimentos menos elevados poderá alimentar e aumentar o consumo num futuro próximo e quando a incerteza for menor”.

Todavia, acrescenta, “os agregados de rendimentos mais elevados respondem por boa parte da poupança durante a pandemia e nestas faixas de rendimentos a propensão marginal ao consumo é menor”.

22.2.21

Pandemia trouxe a menor taxa de execução do OE em dez anos

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Governo explica taxa de execução da despesa pública mais baixa do que o normal em ano de pandemia com a quebra das receitas próprias dos organismos públicos e a consequente diminuição da despesa que podem realizar.

A taxa de execução da despesa pública inscrita no orçamento suplementar de 2020 apresentado pelo Governo em Junho é a mais baixa dos últimos dez anos. Um resultado que ocorre num momento de crise económica profunda e que o Governo diz que acontece por causa da quebra extraordinária que a pandemia provocou nas despesas financiadas com as receitas próprias dos organismos da Administração Pública.

A discussão sobre a execução do OE em 2020 tem estado acesa nas últimas semanas, com o Governo a ser acusado de estar a poupar nas despesas numa altura em que o apoio do Estado às empresas e às famílias se revela mais importante do que nunca. Em particular, o Executivo é criticado por não ter realizado todas as despesas que tinha sido autorizado a fazer pelo Parlamento.

João Leão tem respondido a essas críticas afirmando que os dados até agora divulgados da execução orçamental estão em contabilidade pública e que, nessa óptica, aquilo que está inscrito no OE não é uma estimativa, mas apenas um tecto de despesa. E que, por isso, afirma o ministro das Finanças, o normal é a execução ficar abaixo do orçamentado, algo que acontece em todos os orçamentos, sejam do Estado ou de autarquias.

Uma análise do PÚBLICO às taxas de execução dos orçamentos do Estado da última década confirma que, como diz João Leão, em todos os anos o nível da despesa pública executada ficou abaixo daquilo que tinha sido autorizado pelo Parlamento, com diferenças na ordem dos milhares de milhões de euros. No entanto, também é claramente visível que o ano de 2020 foi aquele em que esta diferença atingiu uma dimensão mais significativa.

Entre 2011 e 2019, usando os valores inscritos em cada OE em contabilidade pública e comparando-os com a despesa registada nos boletins de execução orçamental publicados em Janeiro pela Direcção Geral do Orçamento (DGO), a taxa de execução dos últimos orçamentos ficou invariavelmente entre os 96% e os 98%. Isto é, as Administrações Públicas – que incluem para além da Administração Central, também as autarquias, os governos regionais e os serviços e fundos autónomos – realizaram um total de despesa que ficou entre 2% e 4% abaixo do montante autorizado nos OE.

Em 2020, considerando o OE suplementar publicado em Junho, a taxa de execução da despesa foi consideravelmente mais baixa, de 93,2%. No OE suplementar estava inscrita uma despesa total de 101.302,6 milhões de euros, mas, de acordo com o boletim da DGO publicado em Janeiro, foi executada uma despesa de 94.436,6 milhões de euros, ou seja, menos 6866 milhões de euros.



Para que se tivesse registado uma taxa de execução mais próxima das dos outros anos da última década, de 96%, por exemplo, teria sido preciso executar mais 2800 milhões de euros de despesa.

O Ministério das Finanças, em resposta às questões colocadas pelo PÚBLICO, explica que esta menor taxa de execução orçamental durante o ano de 2020 se deve, não a uma tentativa de conter a despesa num ano em que o défice disparou, mas ao facto de, do lado da receita, se terem registado este ano alguns resultados extraordinários relacionados com a pandemia que acabaram por ter influência também na execução da despesa.

Em particular, as Finanças dizem que, se ao nível da receita de impostos da Administração Central, a execução até ficou acima do orçamentado, no que diz respeito às receitas próprias e aos fundos europeus, a taxa de execução foi de apenas 89%. As receitas próprias são receitas que diversos organismos públicos têm, como por exemplo as custas nos tribunais ou as taxas de reguladores, e sem as quais não podem realizar parte da despesa prevista no seu orçamento.

O Governo argumenta que este tipo de receita ressentiu-se com a pandemia e que “cerca de 76,2% do desvio registado na execução da despesa da Administração Central encontra explicação no resultado da receita própria e da receita de fundos europeus, ou seja, 4200 milhões do total de 5500 milhões de euros”. “Se corrigirmos deste último efeito, a taxa de execução teria sido de 97,5%, em linha com os anos anteriores”, garantem as Finanças.
Para além dos tectos

Para além dos tectos de despesa aprovados pelo Parlamento, em contabilidade pública, os Governo apresentam nos orçamentos do Estado as suas estimativas de quanto é que realmente prevêem gastar durante o ano. Neste caso, contudo, a informação relativa à execução apenas é apresentada em contabilidade nacional, e esta informação ainda não está disponível (apenas será divulgada pelo INE no final de Março).

Contudo, quando apresentou o OE para 2021 em Outubro, o Governo também apresentou, para o ano de 2020, uma estimativa de despesa em contabilidade pública. Neste caso, não se está a falar de tectos de despesa mas da previsão do Governo que era, a apenas três meses do final do ano, de uma despesa total das Administrações Públicas de 96.586 milhões de euros. Isto é, mesmo assim, a despesa acabou por ficar 2149 milhões de euros abaixo daquilo que estava a ser previsto em Outubro, um número que dá argumentos aos que defendem que o Governo poderia ter ido mais longe nos apoios orçamentais dados durante a crise.

Em favor do Governo está o facto de o ano passado ter sido, a vários níveis, de constante incerteza, por causa da pandemia. E um dos factores de incerteza esteve precisamente na forma como seriam executadas as medidas criadas para enfrentar a crise económica provocada pela covid-19.

Esta sexta-feira, na sua análise aos dados da execução orçamental, a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) da Assembleia da República fez uma comparação entre as previsões de despesa que o Governo apresentou no Programa de Estabilidade e no OE suplementar para as medidas anti-covid e a forma como essas medidas foram executadas. Não chegou a uma conclusão para o valor global (em muitas das medidas, as previsões ou não foram divulgadas ou eram de despesa mensal), mas assinala que, por um lado, se verificou “uma sobreestimação considerável nas medidas covid-19 anunciadas no Programa de Estabilidade de 2020”, e por outro, que no OE suplementar “encontra-se uma heterogeneidade considerável na magnitude dos desvios nas medidas para as quais havia esta previsão”.

Há medidas que tiveram uma execução próxima da previsão, como a do layoff simplificado, houve outras cuja despesa superou as expectativas, como o subsídio de doença por infecção através do coronavírus e o apoio ao teletrabalho. Mas houve outras, como as da protecção aos trabalhadores independentes e informais, do Rendimento Social de Inserção COVID-19 ou do apoio à retoma progressiva, cuja execução orçamental ficou claramente abaixo do estimado.

No relatório, a UTAO fala ainda daquilo que diz ser “o alargamento dos desvios entre execução e previsão verificado neste ano, por comparação com os que existiram no passado”, reconhecendo que “uma parte dos erros de previsão em 2020 tem explicação na pandemia e, portanto, tem justificação na incerteza associada à mesma”. Ainda assim, avisa, este desvio "deve servir como alerta para a necessidade de reconstrução do pensamento e da acção estratégicos nos serviços públicos”.


18.9.20

Sem novas medidas, economia só regressaria ao nível pré-covid em 2024

Sérgio Aníbal, in Público on-line

Conselho das Finanças Públicas revê em baixa projecções para o crescimento e antecipa uma défice orçamental mais alto, acima de 7% durante este ano.

Se o plano de recuperação da Europa acabasse por não ser aplicado e o Governo não tomasse novas medidas, a economia portuguesa e as suas finanças públicas não voltariam antes de 2024 aos níveis em que se encontravam antes da pandemia, começando logo este ano com uma queda recorde do PIB de 9,3%, algo que dificilmente poderá ser já evitado.

O cenário é traçado esta quinta-feira pelo Conselho das Finanças Públicas (CFP), que reviu em baixa as projecções para a evolução da economia e dos indicadores orçamentais durante este ano, apontando depois para um ritmo de retoma lenta no ano seguinte.

Com habitualmente, as novas projecções da entidade liderada por Nazaré Costa Cabral foram feitas assumindo um cenário de políticas invariáveis, isto é, apenas são levadas em conta as medidas já em vigor. Nestas circunstâncias, aquilo que o CFP agora antecipa é que, desde logo, a economia portuguesa se contraia 9,3% no total deste ano.

Em Junho, a queda esperada era um pouco mais moderada, de 7,5% e o CFP explica este maior pessimismo com “a incorporação de informação para o segundo trimestre, que confirmou uma quebra na actividade económica causada pela pandemia mais acentuada” do que o antecipado em Junho. É destacada em particular a evolução mais negativa das exportações de serviços, onde se inclui as receitas com turismo. Nas contas do CFP, as exportações registarão uma quebra de 22,5% em 2020.

Este resultado económico tão negativo – bem pior do que a diminuição de 6,9% do PIB prevista pelo Governo no OE suplementar – influencia obviamente aquilo que acontece no mercado de trabalho e o CFP aponta agora para que a taxa de desemprego, que foi de 6,5% em 2019, irá chegar aos 10% este ano. Em Junho esperava uma subida para 9%.

E nas finanças públicas, devido sobretudo à consideração de um impacto mais negativo das medidas tomadas para combater a pandemia, o CFP estima agora que o défice orçamental dispare para 7,2% (um pouco mais que os 7% projectados pelo Governo), quando em Junho antecipava um valor de 6,4%.
Retoma moderada

Depois virá a recuperação. Ela inicia-se, diz o CFP, logo a partir do segundo semestre deste ano, mas nos indicadores económicos anuais apenas se nota em 2021.

A expectativa do conselho que avalia as finanças públicas portuguesas é que, sem que sejam tomadas novas medidas, a retoma será feita de forma relativamente lenta, não permitindo que nos diversos indicadores, sejam eles de actividade económica, emprego ou orçamentais, se regresse rapidamente aos níveis anteriores à crise.

No caso do crescimento do PIB, o CFP prevê que seja de 4,8% em 2021, 2,8% em 2022, estabilizando nos dois anos seguintes em torno de 1,7%. É um ritmo que, a verificar-se, apenas permitiria que o valor do PIB voltasse ao nível registado antes da crise em 2024.

No caso do desemprego, a descida iniciar-se-ia também em 2021, para 8,8%, mas em 2024 o indicador ainda estaria em 6,8%, acima dos 6,5% registados em 2019.

No que diz respeito ao défice, a barreira dos 3% seria ainda ligeiramente ultrapassada em 2021 e igualada em 2022, chegando-se a 2024 com um saldo ainda claramente negativo, de 2,4%. E seria na dívida pública que se poderia observar uma herança mais clara da presente crise, com o seu peso no PIB, que em 2019 chegou aos 117,7% a permanecer teimosamente acima da barreira dos 130%.

Todos estes números, é claro, apenas se concretizarão, assume o CFP, se nada for feito de novo em termos de políticas. Não inclui portanto, medidas que venham a ser adoptadas pelo Governo, por exemplo, no OE 2021. E não inclui a esperada passagem à prática do plano de recuperação da Europa e do quadro financeiro plurianual para 2021-2027.


Em relação ao plano de recuperação, o CFP assume que é daqui que pode surgir o efeito positivo “mais importante para o cenário macroeconómico no médio prazo, tanto pelo impacto directo dos recursos financeiros como estímulo à economia portuguesa, como pelo efeito indirecto do plano ao impulsionar as economias dos principais parceiros comerciais portugueses com um reflexo positivo na procura externa”.

No entanto, os responsáveis do CFP fazem questão de alertar que, no balanço entre riscos positivos (como o do plano de recuperação) e os riscos negativos, não é possível ainda ter uma ideia sobre quais é que podem vir a pesar mais.

Em primeiro lugar porque a dimensão dos riscos existentes é ainda desconhecida. Na apresentação do relatório publicado esta quinta-feira, a presidente do CFP assinalou que, em relação à evolução da economia, “o ambiente é ainda de grande incerteza”, não sendo possível ainda saber, entre um potencial benefício do plano de recuperação e uma possível evolução mais negativa da pandemia, “qual será o que tem o peso maior”.

E em segundo lugar, porque mesmo em relação ao plano de recuperação e ao novo quadro de fundos europeus ainda há muitas incertezas. “A forma como os fundos poderão vir a ser utilizados será decisiva. É verdade que é uma oportunidade histórica para o nosso crescimento sustentável, mas há desafios por resolver, nomeadamente saber em que áreas, sectores e indústrias vamos investir, como é que vamos usar os fundos para que a capacidade produtiva do país não se perca. E há ainda a questão de saber se estes fundos serão bem empregues, evitando gastos desnecessários. Temos um histórico nesta matéria que não é muito positivo”, alertou Nazaré Costa Cabral.

No caso do orçamento, para além do efeito que um crescimento mais rápido ou mais lento possa vir a ter, o CFP assinala ainda a existência de vários riscos negativos, que podem colocar as contas numa situação de ainda maior desequilíbrio. A possibilidade do diferimento do prazo de pagamento de impostos acabar por se transformar num incumprimento, caso as empresas declarem insolvência, a possibilidade de utilização integral dos 3890 milhões de euros previstos no âmbito do Acordo de Capitalização Contingente do Novo Banco, a possibilidade de o impacto do empréstimo à TAP poder vir a ser superior ao previsto e a concretização de pressões orçamentais sobre as componentes mais rígidas da despesa pública, como prestações sociais e despesas com pessoal.

28.1.19

Portugal entre os países em que as prestações sociais mais pesam

Ana Cristina Pereira, in Púbico on-line

Novo relatório da OCDE indica que “Itália, Polónia e Portugal canalizam mais de 70% das despesas sociais para as prestações sociais”, como pensões.

As despesas com prestações sociais e serviços sociais e de saúde têm em Portugal um peso no PIB maior do que a média dos 36 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O país destaca-se pela porção que canaliza para prestações sociais, em particular pensões.

Neste prédio de “contornos finos”, a Foz do Douro esconde-se atrás de portadas
De acordo com o relatório publicado esta quarta-feira por aquela organização internacional, a França lidera a tabela, com a maior fatia de despesa pública nesta área (acima de 30% do PIB). A Áustria, a Finlândia, a Bélgica, a Dinamarca, a Alemanha, a Itália e a Suécia também atribuem um quarto do PIB ou mais.

No outro extremo, o México, o Chile, a Coreia do Sul, a Turquia, a rondar os 10% ou abaixo. Portugal ficou-se pelos 22,6% em 2018, acima da média estimada para o total de países da OCDE, fixada em 20%​.

Este conjunto de países gasta mais com prestações sociais (12%) do que com serviços sociais ou de saúde (8%). “Itália, Polónia e Portugal canalizam mais de 70% e a Grécia mais de 80% das despesas sociais para as prestações sociais”, refere o documento, como subsídios de desemprego, de apoio à família, de alívio da pobreza, mas, sobretudo, vários tipos de pensões.

OCDE vê sistemas de pensões mais fortes mas recomenda mais poupança
O pequeno relatório chama a atenção para o facto de a recuperação económica já ter conduzido a uma queda da despesa com as várias prestações de desemprego. Na prática, “caírem de 1% do PIB em média em 2010 para 0,7% do PIB, em 2015”. E isso nota-se, de forma mais acentuada, na Bélgica, na Alemanha, na Islândia, na Irlanda, na Espanha e nos Estados Unidos.
Pelo contrário, a despesa pública com serviços sociais, como lares de idosos ou centros ocupacionais para pessoas com deficiência, tem aumentado continuamente. E isso não será alheio ao envelhecimento da população.


22.2.16

“Pedimos a Bruxelas que as regras sejam claras e iguais para todos”

Nuno Ribeiro e Paulo Pena, in Público on-line

O ministro dos Negócios Estrangeiros deixa um aviso para a União Europeia: "A ideia de que há regras diferentes consoante a geografia ou a ideologia dos Governos seria fatal para a Europa."

Às nove da manhã, em vésperas de um decisivo Conselho Europeu dedicado ao cisma Britânico, Augusto Santos Silva recebe o PÚBLICO no Palácio das Necessidades. Tem os jornais do dia numa pequena mesa de leitura, ao lado da sua secretária de trabalho. Vai queixar-se do papel das "fontes sem rosto" que mandam recados de Bruxelas. É quase ríspido a afirmar que o Governo não negoceia Orçamentos com a Comissão Europeia. E é com ironia que reage quando questionado sobre as dificuldades sentidas nesse diálogo com as instâncias comunitárias: "A ideia de que Portugal pudesse servir de sinal de aviso é tão horrível, tão sinistra, que um ministro dos Negócios Estrangeiros só pode dizer sobre ela o mesmo que São Tomé: Só vendo."

Foi mais difícil negociar o Orçamento com o PCP e o BE ou com a Comissão Europeia?
São processos diferentes. O Orçamento de Estado (OE) é negociado em Portugal com os parceiros que apoiam o Governo, não é negociado em Bruxelas. O que aconteceu, cumprindo as regras do semestre europeu, foi que o Governo apresentou um esboço de orçamento e beneficiou da análise técnica que a Comissão, cumprindo as regras do tratado aplicável, fez sobre esse esboço. Não houve negociação política entre o Governo e a Comissão.

Quem pediu mais explicações, os militantes do PS ou Bruxelas?
A opinião pública compreendeu bem a proposta de lei do OE. Os nossos objectivos são ficar abaixo do limite de 3% para o défice; reduzir o défice estrutural, que aumentou em 2015 em 0,6% e vai baixar este ano; reduzir a dívida pública; reduzir a despesa pública no PIB e aumentar o rendimento disponível das famílias, que na nossa previsão aumentará 3% em 2016. Acho que isto é muito compreensível. Ao mesmo tempo que acabamos com a isenção de IMI dos fundos imobiliários repusemos a cláusula de salvaguarda do IMI para as famílias. Suspendemos a redução do IRC e reduzimos o IVA da restauração. Acabamos com o quociente familiar, que fazia com que as famílias mais ricas beneficiassem mais, e introduzimos uma dedução uniforme para as famílias em função do número de filhos.

O que lamenta ter ficado pelo caminho? O programa de estímulo do PS que a esquerda rejeitou, ou o desagravamento fiscal que Bruxelas não aceitou?O que ficou prejudicado foi o agravamento fiscal em impostos, designadamente sobre os produtos petrolíferos, cujas consequências sobre os custos das empresas procuramos minorar, mas não é possível eliminar totalmente. A nossa previsão é que a majoração em 20% da dedução que as empresas de transportes podem fazer em relação ao custo do gasóleo e da gasolina equilibra as suas contas. O agravamento do ISP atinge o conjunto da economia e tínhamos procurado evitar isso. Apostávamos mais do que a Comissão Europeia num crescimento económico mais robusto, de 2,1%, e o valor final, depois das reuniões técnicas em Bruxelas é de 1,8%. Do nosso ponto de vista, quanto mais rápido for o crescimento da economia melhor é a consolidação estrutural das finanças públicas. Esse é um debate que continua a existir na Europa, entre aqueles que pensam - do meu ponto de vista, erradamente - que a melhor forma de consolidar as contas públicas é atacar a economia, e aqueles que - como eu - pensam que a consolidação das finanças e o crescimento da economia e do emprego são duas faces da mesma moeda.

Sendo que os primeiros são mais numerosos...
Não sei se são mais numerosos. Têm uma influência excessiva e perniciosa em muitas das instituições, em particular nas europeias e no FMI. Das europeias retiro o BCE, que foi a primeira, na Europa, a compreender que é preciso fazer uma viragem de política.

Está a falar da influência do Partido Popular Europeu (PPE)...
No Parlamento Europeu é normal que o debate se faça entre famílias políticas. Não há nada de perverso, pelo contrário, é muito saudável. A única coisa que não aceitamos é que na Comissão Europeia esse debate possa existir, porque isso não faz sentido. A Comissão é integrada por comissários do PPE, socialistas e liberais, mas como Comissão - guardiã dos tratados, representante de todos os países, independentemente da sua dimensão - tem a responsabilidade de assegurar que as regras são cumpridas da mesma forma por todos, sem olhar a geografia, nem a ideologia.

O discurso do Governo parece a quadratura do círculo. Como vai ser possível pôr a economia a crescer sem investimento público?
Não vejo qualquer quadratura do círculo. O primeiro instrumento que temos é a execução dos fundos comunitários. Quando assumimos funções, tinham sido pagos às empresas quatro milhões dos fundos do acordo de parceria 2014-2010. Hoje, esse valor subiu para 60 milhões. O compromisso é que nos primeiros 100 dias de Governo chegue aos 100 milhões. Segundo instrumento: continuar e desenvolver o que estava bem feito, o apoio ao sector exportador. Sabemos que as exportações portuguesas em 2015 subiram 4%, aumentaram 6% para a União Europeia (EU) e as importações subiram 2%. O nosso défice comercial reduziu-se. Temos de fazer mais naquilo que fomos piores nos últimos anos: a atracção do investimento. A meta é simples. Continuar com o reforço das exportações e ganhar a atracção do investimento. Quarto instrumento: capitalização das empresas sobre endividadas ao sistema bancário. Quando a banca teve de apertar a torneira, as empresas, sobretudo as PME, sofreram efeitos devastadores. Com o colapso do BES, esse efeitos foram ainda piores. Por isso pedimos a uma equipa, dirigida por José António Barros, anterior presidente da AEP, um homem das empresas, que num prazo relativamente curto fizesse propostas sobre outras formas de capitalização. Mecanismos de capitalização menos dependentes dos humores do sistema bancário são essenciais.

Reuniu-se em Bruxelas com o vice-presidente da Comissão. O que estava na sua agenda?
Conhecermo-nos pessoalmente, pois o comissário Timmermans é o primeiro vice-Presidente da Comissão e eu sou, além de MNE, o número dois do Governo português. Era importante que falássemos. E que pudéssemos trocar opiniões cara a cara sobre a forma como a Comissão vê os esforços do Governo português e como o Governo lê a leitura da Comissão sobre os seus esforços.

Disse que “o Governo não espera mais tolerância, nem compreensão, porque a Comissão Europeia não é uma entidade que deva tolerar o Governo português.”
Exactamente.

Bruxelas exorbitou competências e desvalorizou o papel das instituições portuguesas?
Não sei responder a essa pergunta porque não conheço o rosto das pessoas que falam em nome da Comissão nos órgãos de comunicação social, tecendo considerações, algumas acertadas outras absolutamente despropositadas, sobre assuntos de política interna, sem mostrarem a cara.

Não é aceitável que o Orçamento português seja visto pensando na situação política em Espanha, qualquer que ela seja. […] Uma Comissão que viu o Governo português falhar sistematicamente todos os compromissos orçamentais, desconfia desse país
Augusto Santos Silva

Está a falar de fontes da Comissão?
Das fontes anónimas que, dizendo falar em nome da Comissão, se pronunciaram logo na tarde em que Portugal apresentou o plano orçamental. Sendo absolutamente impossível que apresentassem uma análise fundamentada desse plano.

Existe uma quinta coluna em Bruxelas contra o Governo português?
Não, não. Já não estamos na segunda guerra mundial. Já não há quintas colunas.

Então, como classifica a situação?
Como uma forma incompreensível e indigna de tentar condicionar o debate político.

Disse que devia haver uma relação mais fluida da Comissão Europeia com Portugal, que deviam ser considerados aspectos sociais e constitucionais do nosso país. Esta ponderação não existiu?
Nos problemas de comunicação a responsabilidade é de ambas as partes. Por exemplo, várias vezes sou interrogado por colegas que dizem: "Achamos que vocês estão no bom caminho, mas não conseguimos compreender que vão já aumentar os funcionários públicos". Ao que eu respondo que não há aumento, que os funcionários públicos não são aumentados há seis anos. Vamos apenas eliminar os cortes que fizemos sobre os salários. "Mas os salários tinham sido cortados?" Sim, os salários tinham sido cortados. "E porque fazem isso agora?" Porque o programa de ajustamento terminou, e porque o Tribunal Constitucional considerou que esses cortes eram temporários e excepcionais. É preciso que não só os nossos parceiros conheçam os números do défice e da dívida, e que tenhamos de passar vários dias a explicar como é que cada um de calcula o défice estrutural, mas é muito importante que conheçam as razões constitucionais e estejam alertados para a situação social portuguesa. Quando digo aos meus colegas que as famílias portuguesas perderam 11% do seu rendimento nos últimos quatro anos, eles dizem-me que isto não pode continuar.

Qual é o problema político que está por trás desse problema de comunicação?
Um problema de comunicação sobre assuntos políticos é um problema político. Uma Comissão que viu sistematicamente o Governo português falhar todos os compromissos orçamentais, desconfia. É natural que quando chegamos a Bruxelas para discutir a redução do défice estrutural nos digam que Portugal, no ano passado, em vez de reduzir, aumentou o défice estrutural. Tenho de dar razão à Comissão quando parece desconfiar do comprometimento do país com a execução orçamental. Tenho de dizer, peço desculpa, mas o Governo é outro e o comprometimento é outro.

É legítima a pressão de Bruxelas?
Não vejo pressão de Bruxelas. Vejo a Comissão a desenvolver o seu trabalho. Analisou o esboço orçamental, houve reuniões, de natureza técnica, a maioria das quais sobre a forma de cálculo de um número. Nós consideramos como medidas não estruturais - o corte dos salários - coisas que a Comissão entendia, porque alguém lhes disse daqui, que eram estruturais.

Alguém? O Governo anterior?
Alguém lhes disse. Do ponto de vista da responsabilidade política o Governo anterior. Mas deixo o passado para os historiadores. O que estou a dizer é que não houve pressão. A Comissão pronunciou-se. Com base nisso, o Eurogrupo chamou a atenção para alguns riscos. A nossa obrigação é mostrar que os riscos estão controlados. Mas insisto: uma Comissão e um Ecofin que olha para um país que nos últimos quatro anos aprovou oito orçamentos, não houve um ano que não tivesse apresentado orçamentos rectificativos, compreendo que tenha de ser mais exigente do que seria se tivesse havido uma execução orçamental rigorosa.

Está a colocar a fasquia de exigência do Governo muito alta...
Sim, é verdade. Temos um nível de exigência bastante superior àquele que era tradição no passado recente.

Essa exigência não põe em risco o apoio do Governo no Parlamento?
Não creio. Todos temos a consciência de que é preciso responder às dificuldades que enfrentamos com muita exigência.

É por isso que o Governo andou a explicar o Orçamento no fim-de semana?
Não. O Governo português é um Governo minoritário do PS que beneficia do apoio de uma maioria parlamentar. É natural que os ministros se empenham em explicar em sessões públicas a lógica e os resultados esperados pelo orçamento.

A opinião pública não estava a perceber o Orçamento?
Como disse antes, acho que as pessoas compreendem bem as opções deste Orçamento, mas há uma coisa que as pessoas não compreendem: que nós, os europeus, sejamos tão flexíveis em relação a regras, que são fundadoras da UE, como a livre circulação de trabalhadores e a não-discriminação de ninguém em função da sua nacionalidade, que sejamos tão compreensivos na resposta a dificuldades de países que têm a ver com estas regras, e depois sejamos tão duros a discutir à centésima, quando não à milésima, a situação orçamental de países cujas populações empobreceram, emigraram e tiveram de cortar na satisfação das suas necessidades básicas. Isso é uma coisa que as pessoas não compreendem. Incluo-me entre essas pessoas. Mas não sou só eu. Juncker também se inclui. Por isso saudamos a comunicação de Janeiro de 2015, que conclui que o Tratado Orçamental é um conjunto de regras que deve ser alicerçado com inteligência. Por isso, aplicamos com inteligência algumas regras para que o Reino Unido pudesse permanecer na UE. O que pedimos é que as regras sejam claras e iguais para todos. Se somos inteligentes e flexíveis a aplicar as regras relativas ao Estado de Direito que se colocam hoje em alguns estados-membros - e é bom que sejamos flexíveis e prudentes - também sejamos flexíveis e prudentes quando olhamos para a recessão técnica em que a Grécia está mais uma vez mergulhada. É uma desigualdade de tratamento, a ideia, mesmo que infundada, de que há regras diferentes consoante a geografia ou a ideologia dos Governos. Essa ideia seria fatal para a coesão da UE. É preciso contrariá-la.

Como se tem visto, pelas declarações de governantes de outros países (Schauble, Enda Kenny), a União Europeia é muitas vezes palco para as agendas nacionais. Um Estado endividado, como Portugal, pode ser um bode expiatório?
Não acredito. A ideia de que Portugal pudesse servir de bode expiatório, ou ainda mais grave, de sinal de aviso para outros, é uma ideia tão horrível, tão sinistra, tão maquiavélica, que um ministro dos Negócios Estrangeiros o que pode dizer sobre ela é o mesmo que São Tomé: Só vendo. Não acredito. Mas era o que diziam essas tais fontes anónimas, que o que estava em causa era Espanha. Não é aceitável, que o Orçamento português seja visto pensando na situação política em Espanha, qualquer que ela seja. Não posso acreditar que essa ideia seja verdadeira.

Já falou com Marcelo Rebelo de Sousa?
Não posso responder, mas é público e notório que a reunião sucedeu. O Presidente eleito falou com vários ministros, seria incompreensível que nesses ministros não estivesse o dos Negócios Estrangeiros. Mas a razão pela qual não respondo é que sei qual é o meu lugar. Não sou eu que tenho de dizer quando falo com o Presidente, é o Presidente, o incumbente ou o próximo, que o têm de dizer, se entenderem e quando entenderem.

Conta com mudanças na actuação do principal partido da oposição, o PSD?
É um bocado difícil, por razões compreensíveis. Os dois partidos de direita estão numa fase de transição, até de suspensão. O CDS porque vai escolher uma nova liderança, o PSD porque tem a mesma liderança. É patente o processo de ajustamento em curso no PSD, o que posso dizer é que aguardo com todo o respeito o desenlace desse processo.

Então, qual é o significado da proposta de António Costa de convidar o PSD a consensos?
Eles já existiram, continuam a existir e é muito importante para o país que continuem a existir. É evidente que a política externa portuguesa é de largo espectro político-partidário. Em relação a todas as prioridades há um consenso que atravessa todo o Parlamento. Se retirarmos das prioridades da política externa a questão, única e sensível do Atlântico Norte, o apoio é unânime.

Há mudança do PCP e do Bloco em relação à Europa?
Aconteceram muitas coisas históricas no último semestre. Diria, sem querer ser ofensivo para ninguém, que a política portuguesa se caracteriza por a esquerda estar a mexer e a direita não. Isto foi evidente na campanha eleitoral [das legislativas], mais pela parte do Bloco que sempre foi um partido por uma outra Europa, mas houve também um aggioarnamento do PCP que pessoalmente saúdo. Em relação a estas prioridades há leituras diferentes, mesmo entre PS e PSD há leitura diferente das prioridades à UE, à ligação norte-atlântica, aliás o meu juízo pessoal é que é preciso reforçar essa ligação. Entre o PS e o PSD na justiça, segurança interna, defesa nacional, política europeia, política externa, no comprometimento com a União Económica e Monetária… os consensos não são só potenciais mas absolutamente necessários.

Passos Coelho é um obstáculo a esses consensos?
Se é um obstáculo ou um trunfo compete aos militantes do PSD decidir. Qualquer líder do PSD é o interlocutor legítimo e merece todo o respeito.

Como ouviu Passos Coelho dizer que quando deixou o Governo o Banif dava lucro?
O problema do Banif não era de gestão, o Banif fez um esforço muito importante de redução de encargos, de agências, de pessoal, de ajustamento às novas condições de mercado e de mudança da sua estrutura accionista. O problema era de responsabilidade do accionista. Havia um accionista principal, o Estado, que tinha a maioria do capital a partir do momento em que o Banif se capitalizou com fundos públicos, que ignorou olimpicamente as dificuldades do banco e viveu com o chumbo sucessivo de pelo menos sete, há quem diga oito, planos de reestruturação apresentados na Direcção Geral da Concorrência da UE e não cuidou de acudir a esse problema que era seu como accionista. A verdade dos factos é que o PS tomou consciência de um problema significativo com o Banif após as eleições no período de reuniões entre partidos para a constituição do novo Governo.

Quando António Costa se referiu a surpresas?
Exactamente. Foi a ainda ministra das Finanças [Maria Luís Albuquerque] que veio dar o nome à coisa e dizer “há um problema com o Banif”. Mesmo aí, era um problema e, passadas três semanas da tomada de posse, percebemos que tínhamos o problema, o grande problema.

É legítimo concluir que a forma de resolver esse grande problema resultou de uma enorme pressão de Bruxelas?
Não. É legítimo concluir que a forma de resolver o problema foi a melhor possível tendo em conta as regras existentes, as regras que passariam a ser aplicadas a partir de 1 de Janeiro [normas da resolução da banca europeia] e o tempo. A solução de um problema bancário com estas restrições não pode necessariamente ser óptima.

Há risco de “espanholização” da banca portuguesa como advertiu Francisco Louçã?
Não sei se há risco de “espanholização”. Do nosso ponto de vista, há uma condição sine qua non para a estabilização do sistema financeiro português que é a permanência da Caixa Geral de Depósitos (CGD) como banco integralmente público. Essa é uma garantia muito forte face a quaisquer riscos de perda do poder de decisão nacional sobre a nossa banca. Não tenho uma concepção nacionalista nem acho que o capital estrangeiro seja por natureza mau, distingo entre capital produtivo – as empresas que estão cá para ficar – e os nómadas, os fundos que vêm apenas para comprar agora e vender depois, para fazerem o máximo dinheiro no mínimo tempo possível. O ponto essencial é que, ao contrário do que sectores importantes da direita defenderam, a permanência da CGD em mãos públicas é absolutamente essencial para uma regulação judiciosa do sistema bancário português.

Vê perigo para economia portuguesa que o Novo Banco seja comprado por uma entidade espanhola?
É uma questão a acompanhar com muito cuidado e o actual Governo decidiu adiar até Agosto de 2017 o prazo para a sua solução. O pior são soluções apressadas.

Na Europa há uma concentração bancária incentivada pelo Banco Central Europeu. Isto afecta-nos?
Alguma consolidação (bancária] vai ser necessária, é preciso acompanhá-la com cuidado para evitar efeitos nefastos para a economia e as famílias. As responsabilidades do Estado são assumidas pelo Banco de Portugal mas o Governo tem de acompanhar e ver até que ponto a dinâmica da consolidação mantém protegidos os interesses da economia e das famílias.

A UE está a jogar a sua sobrevivência com o Brexit e o drama dos refugiados?
A Europa está a viver uma profunda crise existencial em quatro planos. Os que referiu e outros dois: a radicalização política no interior da União, a vulnerabilidade da fronteira de segurança face ao terrorismo global, e a coesão europeia em matéria económica. Se continuarmos só a olhar para orçamentos e descurarmos a economia e o emprego vamos ter cada vez mais pessoas a votarem nas extremas-direitas com agenda social, com a qual têm muito mais votos do que com a agenda racista e xenófoba habitual. Dito isto, já assisti a três ou quatro crises existenciais da Europa. A crise de 1989 não foi menos desafiante porque era uma nova avenida que se abria e podia ser percorrida com entusiasmo. Hoje é um pouco mais depressivo.

As relações da Rússia com o Ocidente não abrem, também, uma zona de incerteza?
Há uma zona de incerteza que pode ser gerida porque a NATO e a Rússia têm uma ameaça comum, o terrorismo não estatal e das forças terroristas que já se organizam quase como Estados. Essa ameaça comum representa uma necessidade e também uma possibilidade para que o diálogo dos países da NATO e da UE, de um lado, e a Rússia se restabeleça. Para isso, é muito importante que todos sejamos muito racionais, prudentes e inter compreensivos na gestão da crise no Médio Oriente. Há ali um barril de pólvora.

O que tem falhado?
Se Putin continuar a pensar que a Síria representa uma oportunidade para fazer subir a sua popularidade interna como restabelecedor da dignidade da Rússia ofendida em 1989 e 91 e esquecer que a ameaça comum é mais importante do que essa política. Isso tem derivadas em vários aspectos, nos nossos filhos, amigos e em nós mesmos. Há ataques em cidades onde estão pessoas comuns a divertir-se, a fluir das suas cidades. Acho que os russos também compreendem isso. Mas do lado da UE e da NATO há a necessidade de não alinhar numa escalada retórica que faça relembrar os termos da guerra fria. Tem sido essa a posição de Portugal: não se pode tratar a Rússia como se a Rússia não fosse a Rússia e não existissem interesses comuns. Tem de se manter a pressão sem excessos e sem provocações que, a mais das vezes, vêm de Moscovo. O Ocidente tem de olhar para a Rússia como um país que está existencialmente sempre em tensão entre o seu lado europeu e o seu lado não europeu. O Ocidente europeu tem toda a vantagem em dialogar com a Rússia que sempre foi europeia.

Quanto à base das Lajes, em que direcção trabalha o Governo?
Portugal não pode substituir-se à administração norte-americana. Já tive a oportunidade dizer aos Estados Unidos, através do seu embaixador em Lisboa, que a ligação entre os dois países é essencial para Portugal e este Governo quer reforçá-la. Que essa relação vai muito mais longe do que a base das Lajes, a cooperação inclui a área da Defesa mas também há a cooperação tecnológica, científica, económica e política, pois às vezes há a tentação de pensar, em Lisboa e em Washington, que o único que nos liga é a base das Lajes. Disse ao embaixador que, contudo, a base era um problema em relação ao qual Portugal tem interesses e os Estados Unidos responsabilidades.

Quais os pontos que considera que a nova visão estratégica da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] deve contemplar?
Todos os membros da CPLP pensam que é a altura, e aí não há nenhuma singularidade portuguesa, que o já feito, estabilização da concertação entre Estados ao nível político-diplomático, promoção da língua e cooperação multilateral tem de estender-se à sociedade civil e à cidadania. Através de programas de mobilidade de estudantes e professores, da maior facilidade de reconhecimento de habilitações e qualificações profissionais, da maior facilidade na concessão de vistos, no nosso ponto de vista nos limites do acordo de Schengen. Avanços na portabilidade de direitos de pessoas que circulam entre países da CPLP. Outro nosso contributo, é enriquecer o estatuto de país observador associado. Outra sugestão é que a CPLP olhe também para os falantes de português que não vivem nos países da CPLP, não apenas as comunidades da diáspora mas as que, por exemplo, na Ásia Oriental têm como língua de herança ou materna o português.






21.12.15

A pobreza persistente

in Público on-line

Os indicadores do INE sobre o risco de pobreza e as condições de vida mostram que a regressão registada em 2012 e 2013 parece ter sido travada nos dois últimos anos. Uma ligeira reanimação da economia e a paragem dos sucessivos cortes sociais e das pensões podem ser a principal explicação. Uma explicação que serve para apaziguar os piores receios sobre a condição de vida das classes sociais e etárias mais frágeis, mas que justifica ao mesmo tempo uma apreensão sombria para o futuro próximo. Porque não se vislumbrando um ritmo de crescimento capaz de debelar o alto índice de desemprego e de aumentar os salários reais, nem sendo crível que a crise das finanças públicas venha a tolerar um reforço das políticas de rendimento, o cenário que se vislumbra continua a justificar todos os receios e toda a prioridade. Um país no qual 20% das pessoas subsistem com 400 euros por mês não é um país que recomende nem a renúncia nem o conformismo.

28.7.14

Salário médio dos trabalhadores gregos caiu 20% em cinco anos

Raquel Almeida Correia, in Público on-line


O salário médio dos trabalhadores do sector privado na Grécia caiu 20% no espaço de cinco anos. De acordo com dados divulgados neste domingo pelo jornal Kathimerini, citados pela AFP, a remuneração mensal bruta caiu de 1014 para 817 euros entre 2009 e 2013.

O jornal helénico, que se baseia em informação das autoridades estatísticas do país, refere que quatro em dez trabalhadores ganharam menos de 750 euros por mês no ano passado, o que corresponde a 630 euros líquidos. A maioria (53,7%) recebeu uma remuneração abaixo de 1000 euros (cerca de 820 euros líquidos).

Por outro lado, o número de trabalhadores do sector privado com salários acima de 4000 euros registou um acréscimo de 56% entre 2012 e 2013, conferindo-lhes um peso 3% do total no ano passado.

Já o número de assalariados com contrato a tempo parcial também subiu, na ordem dos 41%, o que fez com que passassem a representar perto de um quarto do universo global.

Fruto da intervenção das autoridades externas, em Abril de 2010, a Grécia viu-se forçada a aplicar medidas de austeridade para ajustar as contas públicas, com consequências para os rendimentos da população.

O salário mínimo nacional, fixado em 580 euros (511 para os trabalhadores com menos de 25 anos) vai ficar congelado pelo menos até 2016. E o desemprego continua a ser o mais elevado da União Europeia, tendo a taxa superado os 27% em Maio deste ano.

Ligeira subida em Portugal
Em Portugal, os últimos dados conhecidos, compilados pelo Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia, apontam para um ganho médio mensal de 1125,9 euros para os trabalhadores por conta de outrém a tempo completo, em Outubro de 2013. Face ao período homólogo, tratou-se de um aumento de 0,2%.

No entanto, relativamente a Outubro de 2011 (o período de comparação disponível), trata-se de um recuo de 1,6%, visto que naquela data a retribuição média era de 1142,6 euros. Os dados não abrangem, porém, os trabalhadores a tempo parcial.

Já no sector público, o salário médio mensal na administração central foi, em Janeiro deste ano, de 1451,5 euros. De acordo com a Síntese Estatística do Emprego Público, divulgada pelo Ministério das Finanças, trata-se de uma redução de 5,9%, para a qual contribuíram de forma decisiva os cortes aplicados desde 2011 – cujo regime será reposto agora, depois de o Tribunal Constitucional ter chumbado, no final de Maio, um agravamento das reduções remuneratórias na função pública.

Tal como na Grécia, os cortes salariais também foram impostos na sequência do programa de assistência financeira acordado com a troika em 2011.

BCE defende aumentos na Alemanha
Na Alemanha, os salários dos trabalhadores têm vindo continuamente a subir, o que o economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE) justificou com a situação económica do país.

Em entrevista ao Der Spiegel, citada pela AFP, Peter Praet afirmou que os aumentos salariais são adequados tendo em conta que “a inflação é baixa e o mercado de trabalho está em boas condições”.

Ainda assim, o responsável defendeu que, nos países em a crise persiste, também deve ser seguido o mesmo caminho para “recuperar a competitividade”.

30.4.14

IVA e descontos dos trabalhadores sobem para tapar buraco nas pensões

Raquel Martins, in Publico on-line

Taxa máxima do IVA passa para 23,25% e TSU dos trabalhadores aumenta 0,2 pontos percentuais em 2015. Pensões acima de 1000 euros têm corte de 2,5% a 3%.

A reforma do sistema de pensões passará pela criação de uma contribuição de solidariedade, que corta entre 2% e 3,5% nas pensões acima de 1000 euros, e pelo aumento do IVA e dos descontos para a Segurança Social já a partir de 2015.

De acordo com o Documento de Estratégia Orçamental (DEO), divulgado nesta quarta-feira, a taxa normal do IVA sobe de 23% para 23,25% e os descontos dos trabalhadores para os sistemas de Segurança Social passam de 11% para 11,2%.

A Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES) será extinta, mas os cortes nas pensões vão continuar, embora com outro nome e com taxas de redução menores.

A partir do próximo ano, as pensões acima de 1000 euros estarão sujeitas a um corte entre 2% e 3,5%, que terá um carácter de progressividade. Assim, pensões de valor mensal entre 1000 e 2000 terão um corte de 2%. Nas pensões mais altas, o corte é de 2% sobre o valor de 2000 euros e de 5,5% sobre o remanescente até 3500 euros. As pensões de valor superior a 3500 euros terão uma contribuição adicional de 15% para o montante que exceda 4611 euros (11 vezes o Indexante de Apoios Sociais) e de 40% sobre o montante que ultrapasse 7126,74 euros. Estas taxas marginais e os montantes que sobre elas se aplicam são iguais às que estão a ser aplicadas actualmente.

Estas contribuições incidirão “de igual forma sobre as pensões do Regime Geral da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações, tendo natureza contributiva e garantindo solidariedade inter-geracional”, precisa o Governo.

Novo aumento de impostos
De acordo com as contas apresentadas pelo Executivo, esta extinção da CES tem um impacto negativo de 660 milhões de euros, que será quase totalmente compensado pelas alternativas agora propostas.

A contribuição de sustentabilidade permitirá encaixar 372 milhões de euros em 2015, a que se somam os 100 milhões decorrentes do aumento dos descontos para os sistemas de Segurança Social e os 150 milhões decorrentes do aumento do IVA. Ao todo, o Estado consegue uma receita de 622 milhões de euros, um valor abaixo do que arrecadava com a CES.

O Governo avança, assim, com mais um aumento de impostos, ao subir a taxa normal do IVA em 0,25 pontos percentuais, para 23,25%, o valor mais elevado de sempre. A receita que será arrecadada adicionalmente com esta subida, lê-se no documento, “reverterá integralmente para os sistemas de pensões”.

“Este incremento do IVA apenas se verificará na taxa normal, mantendo-se inalteradas a taxa mínima e a taxa intermédia”, refere-se no documento. Em 2008, a taxa normal do IVA chegou a descer de 21% para 20%, para logo voltar a subir. A última alteração desta taxa foi em 2011, quando passou para 23%. No entanto, ainda em 2012 houve uma alteração profunda à lista de bens sujeitos à taxa reduzida e à taxa intermédia, implicando subida em sectores como a restauração. A medida teve um impacto de quase 1% do PIB, perto de 1700 milhões de euros.

No documento, o Governo justifica que “a excepcionalidade da CES implica encontrar medidas que sejam simultaneamente justas, permitam assegurar a equidade intra e inter-geracional, e produzam efeitos imediatos. Mais ainda, deverão permitir evitar o agravamento da situação, bem como promover o início do processo de amortização da dívida implícita do sistema”.

Actualização depende de “factor de equilíbrio”
Tal como já tinha sido avançado pelo PÚBLICO, a actualização anual das pensões em pagamento passará a depender de um factor de equilíbrio, que terá em conta a relação entre as receitas e as despesas do sistema e “reflectirá todas as alterações estruturais registadas nas variáveis demográficas e económicas que o caracterizam”.

No documento explica-se que quando esse factor for negativo, haverá uma cláusula de salvaguarda que assegurará que não haverá redução de pensões. Quando for positivo, “haverá lugar a uma compensação pelo valor negativo acumulado em anos anteriores". Isto significa que o aumento será moderado, porque será descontado o efeito dos anos em que devia ter havido um corte.

21.2.14

Cerca de 80% dos pensionistas recebem reforma média de 364 euros

Pedro Crisóstomo, in Público on-line

Mais de quatro meses depois de apresentar o OE, o Governo publicou o “Orçamento Cidadão”. Onde é gasto o dinheiro dos contribuintes? Como se distribuem as pensões? Síntese das Finanças dá algumas pistas.

Em que valências é aplicada a despesa pública? De onde vem a receita do Estado? Como se distribuem as pensões de velhice? Em que projecções se baseia o Governo para prever as receitas e as despesas? E como resumir numa linguagem simples e em poucas linhas os mapas, artigos, alíneas, números e quadros das 239 páginas da Lei do Orçamento do Estado? Foi para resolver esta última pergunta (e dar resposta às primeiras) que o Ministério das Finanças lançou nesta quinta-feira o primeiro “Orçamento Cidadão” — uma síntese das principais medidas orçamentais do lado da despesa e da receita para 2014.

Em 31 páginas, é explicado não só o que é, afinal, um orçamento — e o que lá está inscrito —, mas também o que, segundo o Governo, justifica as decisões que decorrem dessa política. Uma das análises do documento tem a ver com as pensões e o seu peso na despesa pública. Segundo o Ministério das Finanças, 79,6% dos pensionistas da Caixa Geral de Aposentações (CGA) e da Segurança Social recebem uma pensão média mensal de 364 euros. Ao todo, são 1,9 milhões de pensionistas, um universo onde estão, por exemplo, reformados do regime não contributivo ou que recebem pensões do regime agrícola.

As pensões pagas pela CGA e Segurança Social ascendem a 19.240 milhões de euros num total de 2.408.881 pensionistas. Na análise das Finanças, são consideradas apenas as pensões de velhice ou as pessoas “que as recebem acumulando com outras prestações, como pensões de sobrevivência ou invalidez”, não sendo contabilizados os beneficiários que ainda estão no activo e que recebem alguma outra prestação.

Para o economista Paulo Trigo Pereira, presidente do Institute of Public Policy Thomas Jefferson – Correia da Serra, think tank que colaborou na elaboração do documento, estes dados “mostram a desigualdade que existe em Portugal” na velhice.

Mas também em relação aos escalões de rendimento dos agregados familiares os dados reflectem essa desigualdade, diz ao PÚBLICO Trigo Pereira, chamando a atenção para o facto de 65,6% dos contribuintes terem rendimentos anuais colectáveis inferiores a dez mil euros.

9,4% da despesa na aquisição de bens e serviços na saúde
O “Orçamento Cidadão” traça ainda uma visão global sobre onde é gasto o dinheiro dos contribuintes em 2014. Dos 75.860 milhões de euros da despesa do Estado (administração central e Segurança Social), dois terços representam gastos com “transferências para famílias, instituições de solidariedade social e para o exterior (por exemplo União Europeia), juros, subsídios a empresas e transferências para a administração regional e local”. Um terço tem a ver com gastos com pessoal e aquisição de bens e serviços. Mais à lupa: 43,8% são transferências correntes, 15,1% representam despesas com pessoal, 9,9% com juros e encargos associados e 13% na compra de bens e serviços na saúde (9,4% na saúde e apenas 3,6% nos restantes áreas).

E de onde vem a receita do Estado? As receitas de impostos garantem mais de metade do total (25% conseguidos em impostos directos e 29% em impostos indirectos). E a estes somam-se as contribuições pagas pelas entidades patronais e pelos trabalhadores à Segurança Social (27%), receitas correntes (16%) e receitas de capital da União Europeia (3%).

No montante que entra para os cofres do Estado através dos impostos (35.651 milhões de euros segundo a previsão do executivo), são seis as principais fontes de colecta: o IRS, o IRC, o IVA, o imposto sobre o tabaco, o imposto sobre produtos petrolíferos e energéticos, e o imposto de selo.

No documento de 31 páginas, as Finanças tentam responder a outras perguntas: o que é um orçamento do cidadão, como se faz, como se aprova, quais os documentos que o compõem ou como se monitoriza a previsão das receitas e de despesas ao longo do ano.

E dá ainda algumas pistas sobre o que está na base dessas projecções: “Para prever as receitas que serão arrecadadas e as despesas que terão que ser efectuadas, é necessário ter uma previsão da evolução da economia nacional, bem como da economia internacional que a condiciona. O cenário macroeconómico constitui essa previsão, sendo assim uma componente central do OE. Inclui as previsões quanto à conjuntura económica internacional (nomeadamente a evolução do preço do petróleo e a evolução das economias da área do euro) e as previsões em relação à evolução da economia nacional (incluindo o PIB, taxa de inflação e taxa de desemprego)”, lê-se no documento.

Documento publicado com atraso
A publicação tem o carimbo do Ministério das Finanças e foi preparada com a colaboração do think tank dirigido pelo economista Paulo Trigo Pereira.

O executivo previa divulgar o documento poucas semanas depois da apresentação do OE no Parlamento, mas a síntese só foi publicada no site do Governo mais de quatro meses depois de 15 de Outubro, o dia em que a proposta chegou às mãos de Assunção Esteves, presidente da Assembleia da República. Pelo meio, o orçamento entrou em vigor em vigor e foi já apresentado um orçamento rectificativo para acomodar o impacto orçamental do corte nas pensões acima de 600 euros pagas pela Caixa Geral de Aposentações (CGA), declarado inconstitucional.

Segundo a TSF, o secretário de Estado do Orçamento, Hélder Reis, explicou que o atraso na publicação da síntese se deveu fundamentalmente à demora do ministério na resposta aos pedidos do think tank.

A ideia de lançar este projecto, explicou Paulo Trigo Pereira, surge enquadrada “numa iniciativa de transparência orçamental à escala mundial”, o Open Budget Initiative, para “tornar acessível aos cidadãos o processo orçamental”, com gráficos, quadros coloridos, explicações curtas, informações simplificadas ou um pequeno glossário.

3.2.14

O aumento da idade da reforma “faz sentido, mas a aplicação imediata é criticável”

Raquel Martins e Sérgio Aníbal, in Público on-line

Em entrevista ao PÚBLICO, o antigo vice-presidente do Instituto de Segurança Social, Miguel Coelho, defende que o equilíbrio do sistema só é possível se afectar quem já está a receber pensões.

O antigo vice-presidente do Instituto de Segurança Social, Miguel Coelho, defende, em entrevista ao PÚBLICO, que a reforma da Segurança Social não pode passar apenas pelas pensões de velhice e tem de abranger outras prestações sociais para que haja resultados num horizonte de cinco a dez anos.

Professor na Universidade Lusíada, o especialista alerta que o equilíbrio do sistema só é possível se afectar quem já está a receber pensões. No livro que lançou recentemente sobre a situação actual e as perspectivas de reforma, defende que uma reforma depende de um entendimento alargado entre os actores políticos, sob pena de o calendário político se sobrepor aos interesses da população.

No seu livro diz que o peso crescente das despesas sociais no PIB e a incapacidade de reduzir os níveis de desigualdade permitem concluir que o sistema de Segurança Social está esgotado. O problema está no sistema em si ou na forma como a economia e a sociedade têm evoluído?
Um bom sistema público de Segurança Social deve, em cada momento, procurar responder às necessidades da sociedade e, de forma sustentada, assegurar as condições mínimas de dignidade àqueles que são mais desfavorecidos. Este modelo, datado e que surgiu tardiamente face ao resto da Europa, está obviamente esgotado.

Porquê?
Por várias razões. Desde logo, o sistema é extraordinariamente complexo, com dificuldade de articulação das diferentes prestações e na concretização do próprio quadro legal, e não é equitativo. Trata situações iguais de forma distinta.

Quer exemplificar?
Por exemplo, há um tratamento diferente entre um indivíduo que recebe uma pensão de sobrevivência e trabalha e entre outro que recebe uma pensão de sobrevivência e uma pensão de velhice. Enquanto o segundo é penalizado pelo novo esquema de pensões de sobrevivência, o primeiro, ainda que o rendimento global seja equivalente, não é afectado.

Mas isso não decorre das decisões políticas que vão sendo tomadas?
O grande problema é que, nos últimos anos, o sistema tem apenas resultado de decisões políticas. Em Portugal, tomam-se as decisões políticas e depois arranja-se um suporte técnico para essas mesmas decisões. O sistema tem sido construído parcelarmente. Hoje, por exemplo, discute-se a questão das pensões e incide-se muito nas pensões de velhice do sistema previdencial. Se olharmos para esta componente, ela representa 8.100 milhões de euros de despesa por ano. A despesa total do sistema de Segurança Social é de 23.000 milhões. Estamos a falar de 35% da despesa total do sistema.

As decisões políticas não têm ido no caminho certo?
Por norma, toma-se uma decisão política em função de duas componentes: a necessidade de responder a problemas financeiros imediatos e a determinados grupos de interesse ou áreas sociais, que procuram ver defendidos os seus interesses.

Foi o que aconteceu com o recente aumento da idade da reforma?
A decisão de aumentar a idade da reforma faz sentido. Poderemos discutir os tempos de aplicação dessa medida e os termos em que essa alteração é feita. Esta alteração resultou de uma necessidade de poupança imediata. Embora ache que a poupança não será tão grande como a prevista, há aqui um apagão de um montante de despesa durante 2014. Esta medida faz sentido, mas a aplicação imediata é criticável. Há um quadro de expectativas dos trabalhadores e das empresas que foi completamente posto em causa por uma decisão tão imediata e tão brusca.

A Segurança Social, pelas suas características, deveria ficar de fora da resolução de problemas orçamentais de curto prazo?
Não. É possível promover alterações no sistema, com efeitos imediatos na despesa, coerentes com uma revisão integral do sistema. Há um conjunto de medidas relativamente simples que permitiriam imediatamente reduzir despesa.

Que medidas são essas?
Dou o exemplo das pensões mínimas. Politicamente é muito apelativo falar da protecção das pensões mínimas como o exemplo de protecção social. Mas há centenas de milhares de reformados que recebem pensões mínimas e que não são pobres. Recebem porque em determinado momento isso fazia sentido e era uma forma de trazer as pessoas para o sistema. Hoje já não faz sentido. Essa pensão mínima deveria ser atribuída sob condição de recurso, isto é, àqueles que verdadeiramente necessitam. Na Segurança Social há casos de indivíduos que têm pensões mínimas, que incorporam o tal complemento social, e que, simultaneamente, recebem pensões de outros sistemas de valor superior a 5000 euros.

Que outros sistemas?
Por exemplo, da Caixa Geral de Aposentações (CGA). Estamos a falar de casos anteriores a 2007, quando não havia unificação de pensões. Mas pode acontecer também ter uma pensão de França e, simultaneamente, uma pensão mínima.

Mas são muitos casos e montantes significativos?
Estamos a falar de uma despesa superior a mil milhões de euros por ano. Se admitirmos que todos os anos atribuímos um valor correspondente ao complemento social de 100 milhões de euros e que 40% dessas pessoas não têm direito à pensão, teremos uma poupança de 40 milhões de euros todos os anos. Outra questão tem a ver com as transferências de verbas para as IPSS. Hoje transferimos 1400 milhões de euros para as IPSS, sem garantia de que os beneficiários indirectos destas transferências são efectivamente pessoas que, em circunstâncias normais, seriam apoiadas pelo Estado.

Como é que se faria esse controlo?
Há duas formas. A primeira seria sujeitar a condição de recurso os utentes das IPSS apoiados pelo Estado. A segunda seria criar uma espécie de cheque IPSS, em que o Estado atribuía à pessoa que verdadeiramente necessita um cheque que poderia ser descontado em serviços numa IPSS.

Actualmente não há controlos?
Existe um conjunto de acordos de cooperação com as IPSS. Por exemplo, nos lares de terceira idade, há um conjunto de vagas protocoladas. Se essas vagas forem preenchidas, o Estado paga um montante fixo. E as vagas podem ser preenchidas por quem precisa ou por quem não precisa. O modelo está formatado para beneficiar aqueles que têm mais dinheiro em detrimento dos que têm menos dinheiro, porque aqueles que têm mais dinheiro podem ter uma comparticipação familiar muito superior aos outros.

O Estado não consegue fiscalizar?
Não, não consegue. O que acontece não ultrapassa os limites da lei, o quadro legal é que está ultrapassado. Se hoje falamos de cheque ensino, porque não falar de cheque terceira idade. Seguramente que o dinheiro desta forma seria atribuído a quem mais necessita.

Essa mudança poria em causa a sobrevivência de algumas instituições.
Sou um grande defensor da economia social, mas não vejo na economia social o papel messiânico que se lhe quer dar como resolução de todos os problemas. E não é despejando dinheiro em cima dos problemas que se resolvem os problemas.

Essa era outra forma de conseguir poupanças?
Não está apenas em causa a redução de despesa, há também a eficiência com que se faz esta despesa. É possível fazer mais e melhor com o dinheiro que existe.

As sugestões que faz teriam o impacto orçamental necessário?
Esse impacto vai ser cumulativo ao longo dos anos. Não há nenhuma forma de fazer cortes de dimensão significativa para resolver o problema do défice sem destruturar o sistema. A opção é: podemos ou não fazer isto de uma forma mais gradual? Quanto tempo temos? É possível fazer uma reforma com impacto visível daqui a quatro ou cinco anos, construindo um modelo harmonioso e coerente. É óbvio, e voltamos à questão das pensões, que o sistema de pensões está desequilibrado. Mas tenho de ter um equilíbrio entre os compromissos que assumi no passado e as minhas capacidades presentes. Ninguém põe em causa que há necessidade de fazer alguma redução para determinados níveis nas pensões em pagamento, mas tem de haver um processo gradual que permita uma adaptação do próprio visado a essa nova situação. Além disso, o valor de corte devia ser considerado como uma dívida contingente ao beneficiário. Receberia no futuro, caso as condições económicas o permitissem e caso estivesse vivo.

Mas isso não aumentaria a dívida?
Depende. Sendo uma dívida contingente o seu valor na realidade pode ser próximo de zero, depende da probabilidade de essa dívida vir a ser paga no futuro.

Faz sentido falar em dívida contingente e adaptação aos cortes quando se trata de pessoas que já não trabalham?
Teremos que equilibrar a necessidade de ver alinhados alguns benefícios com o que é o valor a que as pessoas teriam direito, com as circunstâncias particulares de uma população envelhecida que não pode mudar de vida. Um período de transição mais alargado, garantindo ainda alguns direitos e a probabilidade de vir a receber o dinheiro no futuro é o equilíbrio possível.

Está a que qualquer solução de corte na despesa terá de afectar as pensões em pagamento?
O equilíbrio do sistema de Segurança Social não é possível sem que haja alguma alteração nas pensões em pagamento. A questão é qual o montante e reduzir esse corte ao montante mínimo essencial, mas também deveremos fazer essa alteração no prazo máximo possível para evitar esta situação abrupta para muitos dos pensionistas.

Essas condições não estão a ser preenchidas pela Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES)…
É uma medida que coloca o corte como definitivo, no sentido em que o valor não é recuperado pelo pensionista, e é imediato. Estamos a falar de uma alteração de um momento para o outro da pensão. E não sei se este corte com esta dimensão será verdadeiramente o necessário, se conjugarmos isso com outras medidas que poderiam ser tomadas. A questão da pensão mínima por exemplo e as próprias pensões de sobrevivência. Há aqui vários aspectos que, somados, tornariam num horizonte de cinco anos o sistema muito mais sustentável.

Mas no seu livro defende uma alteração mais profunda. Fala de um sistema mais flexível, amigo do crescimento económico. O que quer dizer com isso?
O que defendo para as pensões em formação é a possibilidade de se transitar imediatamente, para trabalhadores abaixo dos 50 anos, para um sistema do tipo sueco com quatro pilares. Um primeiro pilar é de capitalização nocional. Parte do desconto vai para uma conta corrente e é capitalizado de acordo com determinados factores, nomeadamente o crescimento económico e a produtividade, e a partir de determinada idade a pessoa tem o direito de transformar essa contribuição numa pensão, que é paga em função das entradas de recursos dos outos trabalhadores. Há um segundo pilar de capitalização pura em que a pessoa é obrigada a descontar para um sistema de capitalização como se de um fundo de pensões se tratasse. O terceiro pilar é facultativo e passa por aplicações em planos de poupança reforma ou fundos de pensões da responsabilidade exclusiva do trabalhador. O quarto pilar é um complemento social, pago pelos impostos, que garantiria um montante mínimo de pensão, se a soma do pilar um e do pilar dois ficasse abaixo de um determinado nível.

Isso implicaria um aumento da taxa social única (TSU) e uma alteração da sua repartição?
A questão da repartição da TSU é um dos aspectos essenciais, mas acho que a médio prazo era possível não aumentar os descontos.

Como é que compensaria a quebra das receitas?
Temos um fundo de estabilização de 12.000 milhões de euros. O fundo é uma almofada do sistema, não é algo intocável. Poderia servir para fazer face a esta transição. A reforma do sistema de Segurança Social é muito mais do que uma reforma do subsistema das pensões de velhice. Era possível, conjugando aqui várias medidas, distribuindo-as no tempo, mas sempre com base num plano e num trabalho técnico profundo, fazer essa reforma num horizonte temporal de cinco a dez anos.

Há no discurso político vontade para fazer uma reforma assim? Tem-se falado sobretudo no plafonamento.
Isso obriga a um entendimento profundo entre os diversos actores políticos. Se não houver esse entendimento numa base alargada, vamos sistematicamente deixar que o calendário político se sobreponha aos interesses da população.

Uma das questões de que fala no seu livro é que a máquina da Segurança Social é pesada e pouco transparente. A reforma também tem de passar por aí?
Seguramente que sim. Esta reforma tem de passar antes de mais pela simplificação do quadro legal. Não é possível administrar um sistema que é de uma complexidade tal que é inoperacional. Depois tem de passar pela estrutura do ministério: defendo a fusão de um conjunto de institutos, embora ache que não há gente a mais na Segurança Social. Podemos dizer que era preciso gente com outras competências em algumas áreas. Há ainda a questão do próprio sistema informático que, resultado desta complexidade do quadro legal, tem alguma dificuldade em responder às necessidades dos serviços e dos beneficiários.

No final deste ano, deveriam terminar medidas temporárias, como a CES. Como é que, no futuro, se consegue garantir igual nível de poupança?
Sem um plano global, o que vai acontecer no próximo orçamento é uma nova discussão sobre um conjunto de medidas avulsas para garantir que não há um aumento da despesa. A saída da troika não nos reduz as responsabilidades, aumenta-as, até porque há obrigações ao nível do défice. Para 2015 teremos um desafio ainda maior e não temos instrumentos para além dos habituais. Quanto mais tempo se adiarem estas reformas, menos grau de liberdade teremos. Esta foi a grande oportunidade perdida, porque se tivéssemos feito a reforma do sistema em 2011, seguramente em 2015 e 2016 começávamos a ver os primeiros resultados dessa reforma.

Não tem grande esperança em relação à solução duradoura que está a ser preparada pelo Governo?
Se o mandato do grupo de trabalho for encontrar uma solução equivalente, vamos continuar com os mesmos problemas. Se se vai dedicar a uma reforma global, então há caminho a percorrer, sendo certo que os resultados não serão visíveis a seis meses, nem a um ano, nem a dois.

20.11.13

OCDE antecipa melhoria do mercado de trabalho em 2014

Raquel Martins e Ana Brito, in Público on-line

Projecções da OCDE para o défice são mais pessimistas e antecipam que Portugal vai falhar as metas acordadas com a troika até 2015.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) está mais optimista do que o Governo na evolução do mercado de trabalho e antecipa que o pico do desemprego deverá ocorrer no final deste ano, para depois começar a recuperar em 2014.


As previsões económicas da OCDE divulgadas esta terça-feira apontam para uma taxa de desemprego de 16,7% este ano. Mas daí em diante, a expectativa é que baixe para 16,1% no próximo ano e para 15,8% no seguinte. Estes números são bem mais positivos do que os esperados pelo Governo, que apontam 2014 como o ano em que o país atingirá a mais elevada taxa de desemprego de sempre (17,7%), acima dos 17,4% esperados para 2013.

As previsões de Outono da OCDE são também mais optimistas do que as de Maio, altura em que a organização estimava uma taxa de desemprego de 18,2% em 2013 e de 18,6% em 2014.

A explicação para esta revisão em baixa está na evolução da taxa de desemprego nos dois últimos trimestres, que acabou por surpreender a organização. “O ritmo da contracção económica abrandou, reflectindo, principalmente, o reforço das exportações, e a confiança das empresas e dos consumidores está a aumentar. A taxa de desemprego está a cair há dois trimestres consecutivos, tendo atingido os 15,6% no terceiro trimestre de 2013, e é expectável que este declínio continue à medida que a economia recupere”, lê-se nas páginas dedicadas a Portugal.

Os dados do desemprego divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no início de Novembro apontam para uma queda homóloga da taxa pela primeira vez em cinco anos e também para uma queda trimestral. Mas ao mesmo tempo, registam a destruição de 103 mil empregos em Portugal e uma diminuição em 135 mil pessoas da população activa. O total de desempregados registados nos centros de emprego também vem caindo, mas as novas inscrições em Setembro e Outubro foram das mais elevadas dos últimos 13 anos.

Economia recua
A OCDE antevê um recuo de 1,7% para a economia portuguesa este ano, uma melhoria face à contracção de 2,7% estimada nas perspectivas de Maio e muito próximo da estimativa de -1,8% do Governo. A organização melhorou também as suas perspectivas para 2014 e espera agora um crescimento de 0,4%, metade do previsto pelo executivo. Em 2015 os sinais de recuperação serão mais evidentes e as estimativas apontam para um crescimento de 1,1%, mais uma vez abaixo da previsão do Governo e da troika, que aponta para um crescimento de 1,5%.

Já em relação ao consumo privado, a OCDE espera um recuo de 2,3% em 2013 (o Governo, uma queda de 2,5%). E ao contrário das estimativas do Governo no Orçamento do Estado (OE) para 2014, que apontam para um recuperação de 0,1% no próximo ano, a OCDE antevê que o indicador se mantenha em terreno negativo (-0,6%) e só recupere em 2015.

O olhar da OCDE também é mais pessimista do que o do Governo no que toca à evolução do défice público, considerando que Portugal vai falhar as metas orçamentais acordadas com a troika neste ano e em 2014 e 2015, de 5,5%, 4% e 2,5%, respectivamente. Segundo a OCDE, o défice público deverá fixar-se em 2013 nos 5,7%, caindo para 4,6% e 3,6% nos dois anos seguintes.

Outro dos temas no radar da OCDE é um hipotético chumbo do Tribunal Constitucional (TC) a medidas do OE 2014. Em declarações telefónicas à Lusa, Jens Arnold, economista responsável pela análise da economia portuguesa, considerou que um novo chumbo do TC “iria seguramente tornar o caminho da consolidação orçamental mais difícil", podendo "levantar riscos de confiança [nos mercados]”, com impacto negativo nas taxas de juro. Outro risco prende-se com o cenário político.

Referindo-se à "turbulência política" do Verão passado, Jens Arnold frisou que são situações que não ajudam a “solidificar a confiança dos mercados”. A remodelação – que depois da saída de Vítor Gaspar das Finanças, levou à nomeação de Maria Luís Albuquerque, com um “pedido de demissão irrevogável” de Paulo Portas pelo meio e o seu posterior recuo e “promoção” a vice-primeiro-ministro –, “ilustrou algumas tensões políticas existentes”. A OCDE considera que, “por agora, as tensões estão controladas”, mas o episódio “demonstrou que há uma possibilidade de riscos políticos no contexto actual", referiu o responsável à Lusa.

Também na terça-feira, o INE divulgou que o indicador de actividade económica aumentou em Setembro, atingindo o nível mais elevado desde Maio de 2011. Segundo a síntese económica de conjuntura do INE, o consumo privado e o investimento voltaram a recuperar em Setembro e o indicador de clima económico acentuou a tendência de recuperação registada desde o início do ano.

13.11.13

Portugal é dos países europeus onde mais se demora a pagar dívidas

Camilo Soldado, in Público on-line

Consumidores, empresas e entidades públicas estão entre os que mais se atrasam a pagar dívidas. Pior pagador que o Estado português só Grécia, Itália e Espanha.

Segundo o estudo anual Intrum Justitia, que questionou 10.000 empresas de 29 países europeus (800 das quais em Portugal), o Estado português demora, em média, 133 dias a regularizar as dívidas, mais 73 dias do que o previsto, e mais 72 do que a média europeia.

Portugal é dos países com maior prazo de pagamento acordado, mas também onde as partes se atrasam mais a regularizar as dívidas. Em relação ao estudo de 2012, as empresas e o Estado diminuíram, no entanto, o número de dias que demoram a pagar. O mesmo não aconteceu com os particulares, que mantêm o registo.

A média europeia de perdas por incobráveis (facturas que não são liquidadas, considerado dinheiro perdido) é de 3% do volume total de vendas, o que significa que as empresas perderam 350 mil milhões de euros em 2013. Em Portugal, a percentagem sobe para 3,9%, o que se traduz numa perda de 5900 milhões de euros. Deste número, 2600 milhões de euros são devidos pelo Estado a empresas.

O director geral da Intrum Justitia, Luís Salvaterra afirma que, em Portugal, “quase ninguém paga a tempo”, o que considera “aflitivo”. E com este atraso “as empresas perdem competitividade”, acredita. Isto numa altura de escassez na concessão de crédito à economia.

Luís Salvaterra explica que, hoje em dia, as empresas se financiam “com os fornecedores e não com os bancos” pois, mesmo as empresas que o podem fazer, “não vão pagar a tempo” se recebem com atraso, porque afecta o seu fluxo de caixa.

O presidente da CIP, António Saraiva, alerta que os atrasos de pagamento resultam na “concorrência desleal” entre empresas e tem consequências directas na de postos de trabalho.

Apesar de haver uma lista de credores do Estado português publicada desde 2008 e do valor elevado que este deve às empresas, apenas uma empresa privada denunciou a dívida desde então. Luís Salvaterra justifica esta situação com o “receio de perder aquela que será, eventualmente, uma posição preferencial”, por exemplo, “em concursos públicos”. “É dinheiro garantido – podem receber mais tarde, mas recebem”, esclarece.

A nível europeu, o estudo mostra que 25% das falências são causadas por problemas de liquidez que resultam de atrasos e não pagamentos. A partir dos seis meses após a venda, menos de metade do valor em falta é restituído.

Apenas a Suíça e Finlândia registam uma taxa abaixo de 1,9% de dívidas incobráveis.

Serviços são o sector mais atingido
Apesar da recuperação do indicador de clima económico nos últimos meses, as empresas continuam a ser afectadas pelo baixo consumo. Em Portugal, os serviços empresariais como agências de comunicação, publicidade e marketing são os mais afectados pelo não pagamento de dívidas. Em 2013, este sector verificou uma taxa de dívidas incobráveis na ordem dos 6%.

A construção é o segundo sector mais afectado, ao perder 5,2% do volume total de vendas, enquanto na saúde o valor é de 4,4%. Para Portugal, não há dados sobre o sector dos media, que, a nível europeu, verificou o maior agravamento na percentagem de incobráveis.

Luís Salvaterra não prevê que “vá haver melhorias rápidas”, quer ao nível dos privados, quer ao nível das empresas.

A experiência com o Processo de Revitalização Especial (PER) – programa lançado em 2012 que pretende auxiliar devedores que se encontrem em situação económica difícil susceptíveis de recuperação – não tem sido, segundo Salvaterra, “muito positiva”.

Apesar de o decreto-lei 62/2013 ter entrado em vigor em Maio, também a legislação não teve grande impacto. A lei que segue directivas europeias e que pretende estimular o cumprimento do pagamento de dívidas é, segundo o director geral da Intrum Justitia, “desconhecida” e “a grande maioria das empresas não a aplica”.

Uma das soluções apontadas pelo dirigente seria, a seguir ao cumprimento do Estado, uma maior divulgação da lei por parte do Instituto de Apoio à Pequenas e Médias Empresas e à Inovação (IAPMEI) e da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP).

Presidente do CES critica “obsessão” da troika em reduzir salários

in Público on-line

Silva Peneda diz que patrões estão abertos à subida do salário mínimo, que teria impacto na economia e no consumo.

O presidente do Conselho Económico e Social (CES), José Silva Peneda, criticou a “obsessão” da troika em reduzir os custos unitários do trabalho em Portugal e defendeu a subida do salário mínimo nacional (SMN), contrariando a posição dos credores.

“Se há matéria que é tipicamente de concertação social é o salário mínimo nacional (SMN) e acho que o poder político tem de legislar sobre isso. Mas, claramente, o primeiro sinal é a concertação social que o deve dar e os parceiros sociais já se mostraram mais que disponíveis para tratar do assunto, mas a troika não o permite”, disse Silva Peneda à Lusa.

O antigo ministro do Emprego do Governo de Aníbal Cavaco Silva defendeu ser importante que “os parceiros sociais pudessem negociar”, a subida do salário mínimo, actualmente nos 485 euros.

No entanto, “não o podem aplicar, uma vez que a troika não o permite até Junho”, lamentou Silva Peneda, salientando que todos os parceiros sociais, incluindo as confederações patronais, já se mostraram disponíveis para aplicarem este aumento a partir de Janeiro do próximo ano.
“A leitura que fazemos é que há uma disponibilidade muito grande por parte dos patrões. É evidente que seria desejável que isso não fosse negociado sozinho e há parceiros sociais que estariam disponíveis para negociar o SMN, mas gostariam que houvesse mais flores no ramalhete”, afirmou.

Se, por um lado, há sectores que o podem aplicar de imediato, outros haverá que não o podem fazer, salientou Silva Peneda, acrescentando que são essas particularidades que algumas entidades gostariam de analisar.
Apesar da imposição externa “nas circunstâncias actuais, eu sou favorável à evolução do SMN porque isto teria um impacto positivo na economia e no consumo”.

Silva Peneda criticou igualmente a troika, composta pelo Banco Central Europeu (BCE), Comissão Europeia (CE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), pela “obsessão” na redução dos custos unitários do trabalho em Portugal, tendo mesmo defendido a redução do SMN para os jovens, o que o Governo rejeitou.

“Uma das críticas que fazemos à troika é que esta apostou tudo na redução dos custos unitários de trabalho. A obsessão da troika foi a redução dos custos unitários de trabalho, a par com a reforma da legislação laboral, tudo nesse sentido, quando esse não é o factor de competitividade mais importante”, insistiu Silva Peneda.

O presidente do CES considerou ainda, a este propósito, que a competitividade do país não pode ser feita à custa da desvalorização salarial, pois “isso não garante futuro a ninguém e é apostar no desenvolvimento do terceiro mundo”.

“Com certeza que temos de manter os custos unitários controlados, mas não podemos basear a nossa estratégia de desenvolvimento unicamente nesse objectivo”, concluiu Silva Peneda.