Mostrar mensagens com a etiqueta Défice. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Défice. Mostrar todas as mensagens

25.5.23

Segurança Social com excedente de 4000 milhões, o maior “em mais de uma década”

Pedro Crisóstomo, in Público


Mesmo com os encargos extras da pandemia e das medidas anti-inflação, a despesa cresceu menos do que a receita. Pagamentos com subsídios de desemprego diminuíram em 316 milhões.


A Segurança Social registou um excedente orçamental de 4059 milhões de euros em 2022. É o maior valor “em mais de uma década”, quando se olha para as contas em contabilidade pública, faz notar o Conselho das Finanças Públicas (CFP) num relatório divulgado nesta quinta-feira sobre a evolução das contas deste instituto.

Com o aumento da receita a superar o crescimento da despesa, a diferença no excedente em relação a 2021 ronda os 1711 milhões de euros. O saldo exclui as operações relativas ao Fundo Social Europeu (FSE) e ao Fundo Europeu de Auxílio às Pessoas Mais Carenciadas (FEAC).

[Artigo exclusivo para assinantes]

20.4.22

FMI prevê retoma mais fraca em Portugal e défice maior que os 1,9% de Medina em 2022

Luís Reis Ribeiro, in Diário de Notícias

FMI diz retoma de 4%, ministro das Finanças acredita em 4,9%. No défice, Fundo aponta para 2,4% do PIB, mas Medina reiterou, há uma semana, meta de 1,9% em 2022.

A economia portuguesa deve crescer cerca de 4% em vez dos 4,9% previstos pelo governo na proposta de Orçamento do Estado de 2022 (OE2022) e o défice deve ultrapassar 1,9% do produto interno bruto (PIB), a meta assumida pelo ministro das Finanças, Fernando Medina, há uma semana, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), que calcula o défice português nos 2,4% do PIB no final deste ano.

O novo panorama económico do FMI (outlook) foi discutido pela cúpula da instituição de Washington a 11 de abril, mas a equipa que o elabora não é clara sobre a data concreta em que fechou estas previsões.

Ainda assim é, neste momento, o FMI é a entidade que recolheu informação mais recente. Isso explica que seja também a mais pessimista quanto à retoma de Portugal.

Em março, o Conselho das Finanças Públicas (CFP) assumiu um crescimento de 4,8% em 2022. O Banco de Portugal 4,9%. O cenário do governo na proposta de OE2022 reiterou a meta de 4,9%. O FMI diz 4%.


6.9.21

O princípio do fim do “milagre” económico português?

Ricardo Cabral, opinião, in Público on-line

A covid-19 traduziu-se num choque negativo na balança comercial portuguesa que pode ser, pelo menos em parte, permanente.

Na passada semana, o INE publicou as estatísticas sobre a evolução trimestral da economia portuguesa (as estatísticas das contas nacionais trimestrais).

No 2.º trimestre de 2021, o PIB nominal cresceu 14,5% em relação ao trimestre homólogo, uma taxa excelente, mas que ainda assim apenas deixa o PIB nominal praticamente ao nível do 1.º trimestre de 2019. Em termos reais, o PIB cresce 15,5% em relação ao período homólogo do ano anterior, porque o INE estima que os preços caíram 0,9% nesse período.

Pela primeira vez desde o 1.º trimestre de 2020, o PIB anual cresce em termos nominais, no ano terminado no 2.º trimestre de 2021, ainda que a uma taxa modesta de 0,1%.
Razões para considerar que a crise covid-19 foi completamente ultrapassada?

Infelizmente não. A balança comercial (de bens e serviços) está a puxar o PIB para baixo, com um efeito negativo crescente, que se tem agravado de trimestre para trimestre. No 2.º trimestre de 2021, o défice da balança comercial atingiu 3,7% do PIB, quando no 2.º trimestre de 2019, antes do início da pandemia, a balança comercial apresentava um excedente de +0,2% do PIB. É necessário recuar uma década (2.º trimestre de 2011) para observar um défice da balança comercial igual ou superior.

Por outras palavras, no 2.º trimestre de 2021 e em termos nominais, a procura interna já ultrapassou o pico atingido antes do deflagrar da pandemia covid-19, suportada pelo consumo bem como, em menor grau, pelo investimento.

Mas, com o contributo negativo da balança de bens e serviços que, em termos anuais, se aproxima dos 3% do PIB (défice de 2,6% do PIB no ano concluído no 2.º trimestre de 2021), é pouco provável que o PIB nominal supere os níveis atingidos em 2019 já em 2021.
A pandemia veio colocar em causa o modelo de desenvolvimento do país

Como se vem defendendo há muito nesta coluna, a crise do euro – de endividamento externo de vários estados-membros da Área do Euro que resulta de uma deficiente arquitectura da União Económica e Monetária – não foi verdadeiramente resolvida. As autoridades europeias empurraram o problema com a barriga, com consequências negativas para o desenvolvimento da economia portuguesa no médio e no longo prazo.

É certo, a política monetária contribuiu para reduzir a taxa de juro, assegurando uma muito melhor dinâmica das dívidas externa e pública de países como Portugal.

Por outro lado, a política de austeridade europeia adoptada por sucessivos governos nacionais deprimiu a procura interna de forma a reduzir a taxa de crescimento das importações, resultando num aumento da taxa de cobertura das importações de bens em torno de 65%-70% entre 1996 e meados de 2011, para em torno de 80%-85% desde 2012.
Apostar tudo em dois cavalos: turismo e benefícios fiscais para o imobiliário

Face aos constrangimentos europeus que restringem a autonomia (e a soberania) das autoridades nacionais e as políticas públicas, a estratégia de política adoptada acabou por se traduzir numa especialização nos sectores onde o país apresenta vantagens comparativas e na criação de incentivos fiscais para atrair para Portugal não-residentes com elevado património, nomeadamente, vistos “gold” e o estatuto dos não-residentes habituais.

A instabilidade no Médio Oriente e a redução dos preços do transporte aéreo estimularam de modo significativo o crescimento do turismo de curta duração que, com o desenvolvimento da oferta nacional, deram então uma preciosa ajuda para uma década de ouro da indústria do turismo nacional.
 

Aumentar

Gráfico 1. Balança de bens e balança de serviços (Portugal, soma móvel últimos 12 meses)

Sobretudo em resultado do crescimento dessa indústria (ter presente a relevância das receitas de exportação da TAP), o contributo da balança de serviços para o PIB, em contas nacionais, aumentou 4 pontos percentuais, de cerca de +3% do PIB em 2010 para quase +7% do PIB em 2019. O gráfico 1 revela o crescimento continuado do excedente da balança de serviços entre 2010 e 2019 (soma móvel dos últimos 12 meses, em milhões de euros). A balança de bens, em contraste, deteriorou-se entre 2013 e 2019.

O gráfico 2 mostra que o excedente crescente da balança de serviços, ao superar o défice da balança de bens, permitiu que a balança de bens e serviços fosse excedentária entre Dezembro de 2012 e Abril de 2020 (soma móvel dos últimos 12 meses, em milhões de euros), contribuindo de forma determinante para o equilíbrio das contas externas do país nesse período.
 

Aumentar

Gráfico 2. Balança de bens e serviços e respectivas componentes (Portugal, soma móvel últimos 12 meses)
A covid-19 veio colocar em causa essa estratégia de política macroeconómica nacional

O maior dinamismo da procura interna em 2021 tem-se traduzido numa ligeira deterioração balança de bens. Contudo, até ao 2.º trimestre, as exportações de serviços continuam muito abaixo dos níveis registados até 2019 (em termos anuais, cerca de 12 mil milhões de euros abaixo, ou 5,8% do PIB).

O Verão parece ter dado um impulso ao turismo, mas parece pouco provável que o turismo volte a ter o papel e a importância que tinha até 2019 para a economia nacional. Pelo que se coloca a questão: onde encontrar actividade económica que possa gerar exportações líquidas de 3%-4% do PIB para substituir o contributo do turismo e reequilibrar as contas externas do país?
O PRR não é o “el dorado”

As associações empresariais do país (e alguns partidos da oposição) têm-se multiplicado em críticas ao PRR do governo com o argumento que vai pouco dinheiro para as empresas (e que a maior parte dos fundos vai para o sector público).

Essa crítica parece pouco fundamentada, porque se afigura que não são compreendidas as dificuldades das políticas públicas (e do governo) a este respeito. O PRR, como estabelecido, está empenhado em “dar” dinheiro às empresas. O problema é que a menos que se queira dar dinheiro directamente aos empresários sem que estes tenham qualquer obrigação de investir, não é fácil encontrar, em número e dimensão económica, projectos do sector privado estruturados que possam utilizar esses fundos para desenvolver a sua actividade e sobretudo aumentar as exportações (ou para substituir as importações).

O tecido empresarial português dificilmente será capaz de processar tal volume de dinheiro a fundo perdido em projectos economicamente viáveis.

É, por conseguinte, pouco provável que o PRR seja capaz de vir a dar um contributo muito significativo (i.e., de mais de 1% do PIB por ano) para a balança comercial portuguesa.
Enfiar a cabeça na areia?

Em síntese: a covid-19 traduziu-se num choque negativo na balança comercial portuguesa que, para já, parece ser de cerca de 3%-4% do PIB por ano na balança de serviços. É possível que esse choque seja, pelo menos em parte, permanente e se tal for o caso, o endividamento externo rapidamente voltará à sua trajectória de crescimento insustentável e, desta feita, não é com austeridade que corrigimos um problema desta dimensão como também não o foi em 2011-2013. Nessa altura, felizmente e em contraste, tivemos a ajuda do crescimento do turismo.

Por conseguinte, as autoridades nacionais enfrentam o enorme desafio de dinamizar a estrutura produtiva do país de modo a torná-la capaz de reequilibrar as contas externas do país num prazo relativamente curto (5 anos?), quase sem instrumentos de política industrial. Essa afigura-se uma missão bastante difícil, após décadas a insistir na mesma tecla – a das exportações –, sem sucesso, desta vez mesmo com os salários reais a descer (ou se calhar por isso mesmo). Seria bom não continuar a insistir numa estratégia que não resultou no passado.

28.8.20

Portugal: Segurança Social com défice de 448 milhões de euros em julho

in Portugal Digital

Governo sublinha que este resultado é explicado “pelo aumento considerável da despesa efetiva, em 1.943,9 milhões de euros, ou 12,7%, devido às medidas extraordinárias adotadas para responder à pandemia por covid-19”.

O saldo da Segurança Social caiu 127,8% em julho face ao mesmo mês do ano passado, registando um défice de 448,4 milhões de euros, depois de um excedente de 352,2 milhões de euros em junho.

De acordo com a síntese de execução orçamental, divulgada pela Direção-Geral do Orçamento (DGO), o saldo global da Segurança Social caiu de 1.611,3 milhões de euros em julho de 2019 para um valor negativo de 448,4 milhões de euros em julho deste ano, traduzindo uma variação de -2.059 milhões de euros em termos homólogos.

Em comunicado, o gabinete da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social sublinha que este resultado é explicado “pelo aumento considerável da despesa efetiva, em 1.943,9 milhões de euros, ou 12,7%, devido às medidas extraordinárias adotadas para responder à pandemia por covid-19”, bem como por uma redução da receita.

Do lado da receita efetiva, o comunicado do Ministério liderado por Ana Mendes Godinho assinala que esta cifrou-se em 16.772,8 milhões de euros, o que traduz uma redução de 0,7% face ao período homólogo de 2019.

“Esta variação decorre, essencialmente, do decréscimo das contribuições e quotizações em 247,6 milhões de euros (-2,4%), do aumento das transferências do exterior em 28,1 milhões de euros (+4,2% do que no período homólogo) e ao aumento das transferências correntes da Administração Central em 224,8 milhões de euros”, detalha o comunicado.

A despesa efetiva totalizava em julho 17.221,2 milhões de euros, refletindo um aumento homólogo de 12,7%, explicado em grande parte pelas medidas excecionais e temporárias de apoio ao emprego tomadas no âmbito da pandemia e que, só por sí, geraram um acréscimo de despesa de 1.094 milhões de euros.

Segundo a síntese de execução orçamental a despesa com subsídios de desemprego aumentou 21,4% em termos homólogos, para 855,2 milhões de euros.

A despesa com a Prestação Social para a Inclusão (PSI) aumentou, por seu lado, 26,6%, para 239,3 milhões de euros, face ao mesmo período de 2019.

Entre as rubricas de despesa que registaram crescimento homólogos mais expressivos estão ainda as relativas a ações de formação profissional, que aumentaram 23,1%, para 576,3 milhões de euros, e o subsídio por doença, com uma subida homóloga de 16,5%, para 421,6 milhões de euros.

2.8.18

Dívida pública alivia de máximo histórico para 246,7 mil milhões de euros em junho

in o Observador

A dívida pública caiu em junho para os 246,7 mil milhões de euros, de acordo com a informação divulgada esta quarta-feira pelo Banco de Portugal.

A dívida pública na ótica de Maastricht, calculada de acordo com a definição utilizada no Procedimento dos Défices Excessivos, caiu em junho para os 246,7 mil milhões de euros.

De acordo com os dados divulgados esta quarta-feira pelo Banco de Portugal, a dívida reduziu-se em 3,6 mil milhões de euros relativamente ao final de maio, mês em que atingiu um máximo histórico de 250,3 mil milhões de euros. Este é o valor mais baixo do montante de dívida pública desde março deste ano.

A justificar esta descida está o decréscimo dos títulos de dívida e dos empréstimos. “Os ativos em depósitos das administrações públicas diminuíram 4,8 mil milhões de euros, pelo que a dívida pública líquida de depósitos registou um aumento de 1,1 mil milhões de euros em relação ao mês anterior, totalizando 227,5 mil milhões de euros”, explica o Banco de Portugal.

11.7.17

Estado da Nação: Menos défice e desemprego desde 2015 mas mais dívida e poupança em mínimos

in Diário de Notícias

Portugal tem menos défice e menos desemprego e a atividade económica está a crescer mais, mas a dívida pública continua a subir e a taxa de poupança das famílias está em mínimos históricos.

Nas vésperas do dia em que os deputados da Assembleia da República debatem o Estado da Nação, agendado para esta quarta-feira, a Lusa fez um retrato da evolução do país através do que dizem os indicadores económicos e orçamentais desde 2015, o ano em que o atual Governo assumiu funções, comparando com os dados mais recentes já disponíveis para este ano.

O Produto Interno Bruto (PIB) está a crescer este ano ao ritmo mais elevado dos últimos dez anos: no primeiro trimestre, cresceu 2,8% face ao período homólogo, depois de ter progredido 1,6% em 2015 e 1,4% no ano passado.

A taxa de desemprego também tem estado sucessivamente a cair: em 2015 foi de 12,4% e em 2016 permaneceu acima dos dois dígitos mas recuou para os 11,1% da população ativa.

A estimativa provisória do Instituto Nacional de Estatística (INE) para a taxa de desemprego aponta para que tenha ficado nos 9,4% em maio deste ano.

Na frente orçamental, o défice das administrações públicas está igualmente em queda: em 2015 foi de 4,4%, já contando com o impacto do Banif, e, em 2016, foi de 2% do PIB, o mais baixo da história da democracia portuguesa e que permitiu o encerramento do Procedimento por Défice Excessivo (PDE).

Este desempenho foi, no entanto, ajudado pelo valor recorde da despesa que ficou por descativar até ao final do ano (cerca de 940 milhões de euros), pelo Programa Especial de Regularização do Endividamento ao Estado (PERES), que permitiu um perdão total ou parcial de juros aos contribuintes que regularizassem as suas dívidas fiscais (cerca de 550 milhões), e pelo regime de reavaliação de ativos (mais 100 milhões de euros).

Para 2017, os dados mais recentes são relativos ao primeiro trimestre e apontam para um défice de 2,1% até março, abaixo dos 3,3% verificados no mesmo período do ano passado e acima da meta de 1,5% para a totalidade do ano, um desempenho que faz com que o objetivo anual seja alcançável, segundo os analistas.

A dívida pública, por seu lado, ainda não inverteu a tendência de subida que tem vindo a ser anunciada sucessivamente e, em 2015, atingiu os 129% do PIB, tendo disparado para os 130,3% em 2016 e voltado a subir para os 130,5% no primeiro trimestre deste ano.

Também a poupança das famílias nunca esteve tão baixa: depois de ter caído para os 4,5% do rendimento disponível em 2015 e para os 4,3% em 2016, no primeiro trimestre deste ano, as famílias pouparam apenas 3,8% do seu rendimento disponível, o valor mais baixo desde 1999, o primeiro ano da série do INE.

Por oposição, um indicador que tem vindo a evoluir favoravelmente é a confiança dos consumidores que, em junho deste ano, o último mês para o qual o INE já tem dados, voltou a aumentar para um novo máximo desde novembro de 1997, o ano a partir do qual esta informação está disponibilizada.

Do mesmo modo, também o clima económico continuou a subir no mês passado, para o máximo desde junho de 2002.

25.7.16

Bruxelas e Portugal: há fumo sem fogo?

in Publico on-line

Sanções? Espanha tenta evitá-las, Portugal enfrenta-as com retórica, Bruxelas continua a pressionar.

No sábado, uma carta assinada pelo vice-presidente da Comissão Europeia, o finlandês Jyrki Katainen, gerou uma onda de afirmações e desmentidos, onde ouvimos sucessivamente dizer que a Comissão Europeia propõe sanções a Portugal, que a Comissão desmente ter proposto quaisquer sanções e, por fim, que a Comissão se limitou (a pedido do presidente do Parlamento Europeu, diga-se) a identificar, não mais do que isso, os fundos estruturais que podiam ser afectados caso Portugal viesse mesmo a ser alvo de sanções. Tudo certo, portanto. A carta, independentemente das interpretações feitas (e tantas foram) acerca do seu conteúdo, cumpriu o objectivo: manter a pressão e instalar um clima de nervosismo. E resultou. António Costa veio logo ameaçar processar Bruxelas. Do lado espanhol, Luis de Guindos aproveitou o G20, na China, para angariar apoios que permitam salvar Espanha de uma eventual multa por violação da meta do défice. E que apoios arranjou o ministro Luis de Guindos? Nada menos, disse, do que os dos seus homólogos alemão, francês e italiano. Espanha estará, assim, a salvo ou quase. Portugal, por sua vez, arriscou argumentar. Na passada segunda-feira, Costa garantiu por carta que as metas orçamentais serão cumpridas. Mas só esta quarta-feira se perceberá se a argumentação nacional surtirá algum efeito.

Na langue de bois de Bruxelas, neste capítulo, a última moda é “diálogo estruturado”. Jyrki Katainen usou a expressão na sua carta e fonte de Bruxelas repetiu-a ao PÚBLICO: “Uma decisão sobre suspensão dos fundos” (a tal lista de 16, que não são todos) só será tomada “na sequência de um diálogo estruturado”. Mas o que contará nessa… “estruturação”? As pressões de Bruxelas para que haja realmente uma multa, por simbólica que seja? As garantias de Costa? O comentário de Marcelo, dizendo que as sanções não têm “mínima lógica”? A carta de Jyrki Katainen será uma cortina de fumo. Mas não há fumo sem fogo.


×

18.7.16

Portugal avisa Bruxelas que portugueses não aceitariam sanções

in Jornal de Notícias

O Governo respondeu à Comissão Europeia reiterando que a adoção de sanções seria injusta, porque teria "um impacto negativo" no apoio do povo português ao projeto europeu.

Nas conclusões das alegações fundamentadas de Portugal no âmbito do processo de apuramento de eventuais sanções, assinadas pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, sublinha-se que "além dos danos económicos e financeiros" a adoção de sanções "teria um impacto altamente negativo no nível de apoio ao projeto europeu em Portugal, que tem sido largamente consensual desde 1976".

"As sanções nunca seriam compreendidas pelo povo português"

"Por estas razões, as sanções nunca seriam compreendidas pelo povo português", afirma Mário Centeno.

Antes, o ministro das Finanças, que se diz disponível para esclarecimentos adicionais, reitera que a aplicação de sanções a Portugal seria injustificada porque "o país está no caminho certo para eliminar o défice excessivo e seria contraproducente porque prejudicaria os esforços para ser bem-sucedido nesta tarefa".

Na carta, dirigida ao vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis, e ao comissário Pierre Moscovici, o Governo retoma os argumentos políticos contra a aplicação de sanções, salientando que a Europa vive "o período mais desafiante" desde a sua criação.

O Governo português salienta que uma eventual multa seria aplicada a Portugal depois de um programa de ajustamento que foi "repetidamente classificado como bem-sucedido pela Comissão Europeia".

"No contexto desse programa, Portugal reduziu o seu défice público de 8,6% do PIB [Produto Interno Bruto] em 2010 para pouco acima de 3% em 2015, excluindo medidas temporárias. Também implementou um grande número de reformas estruturais", refere o ministro, dizendo que estas medidas provocaram uma recessão, um aumento do desemprego e largos fluxos de emigração de trabalhadores jovens e qualificados.

Segundo o executivo, "em 2014 o país iniciou um período de recuperação económica que falhou, contudo, em ganhar impulso", dizendo esperar que esta seja acelerada nos próximos trimestres.

"Impor sanções a um país que está a implementar um caminho exigente de redução do défice é desproporcionado", afirma o ministro, acrescentando que tal acontece num ambiente internacional difícil e num período social complexo.

Na carta, o executivo volta a considerar que a decisão tomada por Bruxelas de abrir o processo de aplicação de sanções se refere ao período de 2013-2015.

"Contudo, o impacto de qualquer ação que possa ser adotada pela Comissão, incluindo sanções pecuniárias e a suspensão de fundos estruturais e de investimento, seria sentido quer no presente quer no futuro", acrescenta.

Mário Centeno compromete-se a reduzir este ano o défice "claramente abaixo dos 3%, num caminho compatível com a previsão da Comissão Europeia de 2,7%", dizendo que a aplicação de sanções comprometeria este objetivo.

O ministro acrescenta ainda que a recente decisão do Reino Unido de sair da União Europeia e a crise dos refugiados em curso são "alterações estruturais que afetarão a Europa por um período prolongado", sendo necessárias ações que promovam o bem-estar dos cidadãos.

"O Governo português está e sempre esteve totalmente comprometido com o cumprimento dos requisitos necessários a uma completa participação na União Europeia e na zona euro e em continuar a trabalhar em conjunto com a Comissão Europeia", conclui.

As alegações de Portugal são compostas por uma carta assinada pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, de cinco páginas, e um anexo de nove, disponíveis no Portal do Governo.

Na semana passada, o Conselho de Ministros das Finanças da União Europeia (Ecofin) decidiu que Portugal vai ser alvo de sanções por não ter adotado "medidas eficazes" para corrigir os défices excessivos entre 2013 e 2015.

As sanções podem ir até 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) -- cerca de 360 milhões de euros -, levando ainda a uma suspensão dos fundos comunitários a partir de janeiro de 2017.

No entanto, pode também acontecer que estas sanções sejam reduzidas a zero e que os fundos europeus não venham de facto a ser cancelados, dependendo da argumentação apresentada pelo Governo e do entendimento final que a Comissão Europeia fizer.

22.2.16

“Pedimos a Bruxelas que as regras sejam claras e iguais para todos”

Nuno Ribeiro e Paulo Pena, in Público on-line

O ministro dos Negócios Estrangeiros deixa um aviso para a União Europeia: "A ideia de que há regras diferentes consoante a geografia ou a ideologia dos Governos seria fatal para a Europa."

Às nove da manhã, em vésperas de um decisivo Conselho Europeu dedicado ao cisma Britânico, Augusto Santos Silva recebe o PÚBLICO no Palácio das Necessidades. Tem os jornais do dia numa pequena mesa de leitura, ao lado da sua secretária de trabalho. Vai queixar-se do papel das "fontes sem rosto" que mandam recados de Bruxelas. É quase ríspido a afirmar que o Governo não negoceia Orçamentos com a Comissão Europeia. E é com ironia que reage quando questionado sobre as dificuldades sentidas nesse diálogo com as instâncias comunitárias: "A ideia de que Portugal pudesse servir de sinal de aviso é tão horrível, tão sinistra, que um ministro dos Negócios Estrangeiros só pode dizer sobre ela o mesmo que São Tomé: Só vendo."

Foi mais difícil negociar o Orçamento com o PCP e o BE ou com a Comissão Europeia?
São processos diferentes. O Orçamento de Estado (OE) é negociado em Portugal com os parceiros que apoiam o Governo, não é negociado em Bruxelas. O que aconteceu, cumprindo as regras do semestre europeu, foi que o Governo apresentou um esboço de orçamento e beneficiou da análise técnica que a Comissão, cumprindo as regras do tratado aplicável, fez sobre esse esboço. Não houve negociação política entre o Governo e a Comissão.

Quem pediu mais explicações, os militantes do PS ou Bruxelas?
A opinião pública compreendeu bem a proposta de lei do OE. Os nossos objectivos são ficar abaixo do limite de 3% para o défice; reduzir o défice estrutural, que aumentou em 2015 em 0,6% e vai baixar este ano; reduzir a dívida pública; reduzir a despesa pública no PIB e aumentar o rendimento disponível das famílias, que na nossa previsão aumentará 3% em 2016. Acho que isto é muito compreensível. Ao mesmo tempo que acabamos com a isenção de IMI dos fundos imobiliários repusemos a cláusula de salvaguarda do IMI para as famílias. Suspendemos a redução do IRC e reduzimos o IVA da restauração. Acabamos com o quociente familiar, que fazia com que as famílias mais ricas beneficiassem mais, e introduzimos uma dedução uniforme para as famílias em função do número de filhos.

O que lamenta ter ficado pelo caminho? O programa de estímulo do PS que a esquerda rejeitou, ou o desagravamento fiscal que Bruxelas não aceitou?O que ficou prejudicado foi o agravamento fiscal em impostos, designadamente sobre os produtos petrolíferos, cujas consequências sobre os custos das empresas procuramos minorar, mas não é possível eliminar totalmente. A nossa previsão é que a majoração em 20% da dedução que as empresas de transportes podem fazer em relação ao custo do gasóleo e da gasolina equilibra as suas contas. O agravamento do ISP atinge o conjunto da economia e tínhamos procurado evitar isso. Apostávamos mais do que a Comissão Europeia num crescimento económico mais robusto, de 2,1%, e o valor final, depois das reuniões técnicas em Bruxelas é de 1,8%. Do nosso ponto de vista, quanto mais rápido for o crescimento da economia melhor é a consolidação estrutural das finanças públicas. Esse é um debate que continua a existir na Europa, entre aqueles que pensam - do meu ponto de vista, erradamente - que a melhor forma de consolidar as contas públicas é atacar a economia, e aqueles que - como eu - pensam que a consolidação das finanças e o crescimento da economia e do emprego são duas faces da mesma moeda.

Sendo que os primeiros são mais numerosos...
Não sei se são mais numerosos. Têm uma influência excessiva e perniciosa em muitas das instituições, em particular nas europeias e no FMI. Das europeias retiro o BCE, que foi a primeira, na Europa, a compreender que é preciso fazer uma viragem de política.

Está a falar da influência do Partido Popular Europeu (PPE)...
No Parlamento Europeu é normal que o debate se faça entre famílias políticas. Não há nada de perverso, pelo contrário, é muito saudável. A única coisa que não aceitamos é que na Comissão Europeia esse debate possa existir, porque isso não faz sentido. A Comissão é integrada por comissários do PPE, socialistas e liberais, mas como Comissão - guardiã dos tratados, representante de todos os países, independentemente da sua dimensão - tem a responsabilidade de assegurar que as regras são cumpridas da mesma forma por todos, sem olhar a geografia, nem a ideologia.

O discurso do Governo parece a quadratura do círculo. Como vai ser possível pôr a economia a crescer sem investimento público?
Não vejo qualquer quadratura do círculo. O primeiro instrumento que temos é a execução dos fundos comunitários. Quando assumimos funções, tinham sido pagos às empresas quatro milhões dos fundos do acordo de parceria 2014-2010. Hoje, esse valor subiu para 60 milhões. O compromisso é que nos primeiros 100 dias de Governo chegue aos 100 milhões. Segundo instrumento: continuar e desenvolver o que estava bem feito, o apoio ao sector exportador. Sabemos que as exportações portuguesas em 2015 subiram 4%, aumentaram 6% para a União Europeia (EU) e as importações subiram 2%. O nosso défice comercial reduziu-se. Temos de fazer mais naquilo que fomos piores nos últimos anos: a atracção do investimento. A meta é simples. Continuar com o reforço das exportações e ganhar a atracção do investimento. Quarto instrumento: capitalização das empresas sobre endividadas ao sistema bancário. Quando a banca teve de apertar a torneira, as empresas, sobretudo as PME, sofreram efeitos devastadores. Com o colapso do BES, esse efeitos foram ainda piores. Por isso pedimos a uma equipa, dirigida por José António Barros, anterior presidente da AEP, um homem das empresas, que num prazo relativamente curto fizesse propostas sobre outras formas de capitalização. Mecanismos de capitalização menos dependentes dos humores do sistema bancário são essenciais.

Reuniu-se em Bruxelas com o vice-presidente da Comissão. O que estava na sua agenda?
Conhecermo-nos pessoalmente, pois o comissário Timmermans é o primeiro vice-Presidente da Comissão e eu sou, além de MNE, o número dois do Governo português. Era importante que falássemos. E que pudéssemos trocar opiniões cara a cara sobre a forma como a Comissão vê os esforços do Governo português e como o Governo lê a leitura da Comissão sobre os seus esforços.

Disse que “o Governo não espera mais tolerância, nem compreensão, porque a Comissão Europeia não é uma entidade que deva tolerar o Governo português.”
Exactamente.

Bruxelas exorbitou competências e desvalorizou o papel das instituições portuguesas?
Não sei responder a essa pergunta porque não conheço o rosto das pessoas que falam em nome da Comissão nos órgãos de comunicação social, tecendo considerações, algumas acertadas outras absolutamente despropositadas, sobre assuntos de política interna, sem mostrarem a cara.

Não é aceitável que o Orçamento português seja visto pensando na situação política em Espanha, qualquer que ela seja. […] Uma Comissão que viu o Governo português falhar sistematicamente todos os compromissos orçamentais, desconfia desse país
Augusto Santos Silva

Está a falar de fontes da Comissão?
Das fontes anónimas que, dizendo falar em nome da Comissão, se pronunciaram logo na tarde em que Portugal apresentou o plano orçamental. Sendo absolutamente impossível que apresentassem uma análise fundamentada desse plano.

Existe uma quinta coluna em Bruxelas contra o Governo português?
Não, não. Já não estamos na segunda guerra mundial. Já não há quintas colunas.

Então, como classifica a situação?
Como uma forma incompreensível e indigna de tentar condicionar o debate político.

Disse que devia haver uma relação mais fluida da Comissão Europeia com Portugal, que deviam ser considerados aspectos sociais e constitucionais do nosso país. Esta ponderação não existiu?
Nos problemas de comunicação a responsabilidade é de ambas as partes. Por exemplo, várias vezes sou interrogado por colegas que dizem: "Achamos que vocês estão no bom caminho, mas não conseguimos compreender que vão já aumentar os funcionários públicos". Ao que eu respondo que não há aumento, que os funcionários públicos não são aumentados há seis anos. Vamos apenas eliminar os cortes que fizemos sobre os salários. "Mas os salários tinham sido cortados?" Sim, os salários tinham sido cortados. "E porque fazem isso agora?" Porque o programa de ajustamento terminou, e porque o Tribunal Constitucional considerou que esses cortes eram temporários e excepcionais. É preciso que não só os nossos parceiros conheçam os números do défice e da dívida, e que tenhamos de passar vários dias a explicar como é que cada um de calcula o défice estrutural, mas é muito importante que conheçam as razões constitucionais e estejam alertados para a situação social portuguesa. Quando digo aos meus colegas que as famílias portuguesas perderam 11% do seu rendimento nos últimos quatro anos, eles dizem-me que isto não pode continuar.

Qual é o problema político que está por trás desse problema de comunicação?
Um problema de comunicação sobre assuntos políticos é um problema político. Uma Comissão que viu sistematicamente o Governo português falhar todos os compromissos orçamentais, desconfia. É natural que quando chegamos a Bruxelas para discutir a redução do défice estrutural nos digam que Portugal, no ano passado, em vez de reduzir, aumentou o défice estrutural. Tenho de dar razão à Comissão quando parece desconfiar do comprometimento do país com a execução orçamental. Tenho de dizer, peço desculpa, mas o Governo é outro e o comprometimento é outro.

É legítima a pressão de Bruxelas?
Não vejo pressão de Bruxelas. Vejo a Comissão a desenvolver o seu trabalho. Analisou o esboço orçamental, houve reuniões, de natureza técnica, a maioria das quais sobre a forma de cálculo de um número. Nós consideramos como medidas não estruturais - o corte dos salários - coisas que a Comissão entendia, porque alguém lhes disse daqui, que eram estruturais.

Alguém? O Governo anterior?
Alguém lhes disse. Do ponto de vista da responsabilidade política o Governo anterior. Mas deixo o passado para os historiadores. O que estou a dizer é que não houve pressão. A Comissão pronunciou-se. Com base nisso, o Eurogrupo chamou a atenção para alguns riscos. A nossa obrigação é mostrar que os riscos estão controlados. Mas insisto: uma Comissão e um Ecofin que olha para um país que nos últimos quatro anos aprovou oito orçamentos, não houve um ano que não tivesse apresentado orçamentos rectificativos, compreendo que tenha de ser mais exigente do que seria se tivesse havido uma execução orçamental rigorosa.

Está a colocar a fasquia de exigência do Governo muito alta...
Sim, é verdade. Temos um nível de exigência bastante superior àquele que era tradição no passado recente.

Essa exigência não põe em risco o apoio do Governo no Parlamento?
Não creio. Todos temos a consciência de que é preciso responder às dificuldades que enfrentamos com muita exigência.

É por isso que o Governo andou a explicar o Orçamento no fim-de semana?
Não. O Governo português é um Governo minoritário do PS que beneficia do apoio de uma maioria parlamentar. É natural que os ministros se empenham em explicar em sessões públicas a lógica e os resultados esperados pelo orçamento.

A opinião pública não estava a perceber o Orçamento?
Como disse antes, acho que as pessoas compreendem bem as opções deste Orçamento, mas há uma coisa que as pessoas não compreendem: que nós, os europeus, sejamos tão flexíveis em relação a regras, que são fundadoras da UE, como a livre circulação de trabalhadores e a não-discriminação de ninguém em função da sua nacionalidade, que sejamos tão compreensivos na resposta a dificuldades de países que têm a ver com estas regras, e depois sejamos tão duros a discutir à centésima, quando não à milésima, a situação orçamental de países cujas populações empobreceram, emigraram e tiveram de cortar na satisfação das suas necessidades básicas. Isso é uma coisa que as pessoas não compreendem. Incluo-me entre essas pessoas. Mas não sou só eu. Juncker também se inclui. Por isso saudamos a comunicação de Janeiro de 2015, que conclui que o Tratado Orçamental é um conjunto de regras que deve ser alicerçado com inteligência. Por isso, aplicamos com inteligência algumas regras para que o Reino Unido pudesse permanecer na UE. O que pedimos é que as regras sejam claras e iguais para todos. Se somos inteligentes e flexíveis a aplicar as regras relativas ao Estado de Direito que se colocam hoje em alguns estados-membros - e é bom que sejamos flexíveis e prudentes - também sejamos flexíveis e prudentes quando olhamos para a recessão técnica em que a Grécia está mais uma vez mergulhada. É uma desigualdade de tratamento, a ideia, mesmo que infundada, de que há regras diferentes consoante a geografia ou a ideologia dos Governos. Essa ideia seria fatal para a coesão da UE. É preciso contrariá-la.

Como se tem visto, pelas declarações de governantes de outros países (Schauble, Enda Kenny), a União Europeia é muitas vezes palco para as agendas nacionais. Um Estado endividado, como Portugal, pode ser um bode expiatório?
Não acredito. A ideia de que Portugal pudesse servir de bode expiatório, ou ainda mais grave, de sinal de aviso para outros, é uma ideia tão horrível, tão sinistra, tão maquiavélica, que um ministro dos Negócios Estrangeiros o que pode dizer sobre ela é o mesmo que São Tomé: Só vendo. Não acredito. Mas era o que diziam essas tais fontes anónimas, que o que estava em causa era Espanha. Não é aceitável, que o Orçamento português seja visto pensando na situação política em Espanha, qualquer que ela seja. Não posso acreditar que essa ideia seja verdadeira.

Já falou com Marcelo Rebelo de Sousa?
Não posso responder, mas é público e notório que a reunião sucedeu. O Presidente eleito falou com vários ministros, seria incompreensível que nesses ministros não estivesse o dos Negócios Estrangeiros. Mas a razão pela qual não respondo é que sei qual é o meu lugar. Não sou eu que tenho de dizer quando falo com o Presidente, é o Presidente, o incumbente ou o próximo, que o têm de dizer, se entenderem e quando entenderem.

Conta com mudanças na actuação do principal partido da oposição, o PSD?
É um bocado difícil, por razões compreensíveis. Os dois partidos de direita estão numa fase de transição, até de suspensão. O CDS porque vai escolher uma nova liderança, o PSD porque tem a mesma liderança. É patente o processo de ajustamento em curso no PSD, o que posso dizer é que aguardo com todo o respeito o desenlace desse processo.

Então, qual é o significado da proposta de António Costa de convidar o PSD a consensos?
Eles já existiram, continuam a existir e é muito importante para o país que continuem a existir. É evidente que a política externa portuguesa é de largo espectro político-partidário. Em relação a todas as prioridades há um consenso que atravessa todo o Parlamento. Se retirarmos das prioridades da política externa a questão, única e sensível do Atlântico Norte, o apoio é unânime.

Há mudança do PCP e do Bloco em relação à Europa?
Aconteceram muitas coisas históricas no último semestre. Diria, sem querer ser ofensivo para ninguém, que a política portuguesa se caracteriza por a esquerda estar a mexer e a direita não. Isto foi evidente na campanha eleitoral [das legislativas], mais pela parte do Bloco que sempre foi um partido por uma outra Europa, mas houve também um aggioarnamento do PCP que pessoalmente saúdo. Em relação a estas prioridades há leituras diferentes, mesmo entre PS e PSD há leitura diferente das prioridades à UE, à ligação norte-atlântica, aliás o meu juízo pessoal é que é preciso reforçar essa ligação. Entre o PS e o PSD na justiça, segurança interna, defesa nacional, política europeia, política externa, no comprometimento com a União Económica e Monetária… os consensos não são só potenciais mas absolutamente necessários.

Passos Coelho é um obstáculo a esses consensos?
Se é um obstáculo ou um trunfo compete aos militantes do PSD decidir. Qualquer líder do PSD é o interlocutor legítimo e merece todo o respeito.

Como ouviu Passos Coelho dizer que quando deixou o Governo o Banif dava lucro?
O problema do Banif não era de gestão, o Banif fez um esforço muito importante de redução de encargos, de agências, de pessoal, de ajustamento às novas condições de mercado e de mudança da sua estrutura accionista. O problema era de responsabilidade do accionista. Havia um accionista principal, o Estado, que tinha a maioria do capital a partir do momento em que o Banif se capitalizou com fundos públicos, que ignorou olimpicamente as dificuldades do banco e viveu com o chumbo sucessivo de pelo menos sete, há quem diga oito, planos de reestruturação apresentados na Direcção Geral da Concorrência da UE e não cuidou de acudir a esse problema que era seu como accionista. A verdade dos factos é que o PS tomou consciência de um problema significativo com o Banif após as eleições no período de reuniões entre partidos para a constituição do novo Governo.

Quando António Costa se referiu a surpresas?
Exactamente. Foi a ainda ministra das Finanças [Maria Luís Albuquerque] que veio dar o nome à coisa e dizer “há um problema com o Banif”. Mesmo aí, era um problema e, passadas três semanas da tomada de posse, percebemos que tínhamos o problema, o grande problema.

É legítimo concluir que a forma de resolver esse grande problema resultou de uma enorme pressão de Bruxelas?
Não. É legítimo concluir que a forma de resolver o problema foi a melhor possível tendo em conta as regras existentes, as regras que passariam a ser aplicadas a partir de 1 de Janeiro [normas da resolução da banca europeia] e o tempo. A solução de um problema bancário com estas restrições não pode necessariamente ser óptima.

Há risco de “espanholização” da banca portuguesa como advertiu Francisco Louçã?
Não sei se há risco de “espanholização”. Do nosso ponto de vista, há uma condição sine qua non para a estabilização do sistema financeiro português que é a permanência da Caixa Geral de Depósitos (CGD) como banco integralmente público. Essa é uma garantia muito forte face a quaisquer riscos de perda do poder de decisão nacional sobre a nossa banca. Não tenho uma concepção nacionalista nem acho que o capital estrangeiro seja por natureza mau, distingo entre capital produtivo – as empresas que estão cá para ficar – e os nómadas, os fundos que vêm apenas para comprar agora e vender depois, para fazerem o máximo dinheiro no mínimo tempo possível. O ponto essencial é que, ao contrário do que sectores importantes da direita defenderam, a permanência da CGD em mãos públicas é absolutamente essencial para uma regulação judiciosa do sistema bancário português.

Vê perigo para economia portuguesa que o Novo Banco seja comprado por uma entidade espanhola?
É uma questão a acompanhar com muito cuidado e o actual Governo decidiu adiar até Agosto de 2017 o prazo para a sua solução. O pior são soluções apressadas.

Na Europa há uma concentração bancária incentivada pelo Banco Central Europeu. Isto afecta-nos?
Alguma consolidação (bancária] vai ser necessária, é preciso acompanhá-la com cuidado para evitar efeitos nefastos para a economia e as famílias. As responsabilidades do Estado são assumidas pelo Banco de Portugal mas o Governo tem de acompanhar e ver até que ponto a dinâmica da consolidação mantém protegidos os interesses da economia e das famílias.

A UE está a jogar a sua sobrevivência com o Brexit e o drama dos refugiados?
A Europa está a viver uma profunda crise existencial em quatro planos. Os que referiu e outros dois: a radicalização política no interior da União, a vulnerabilidade da fronteira de segurança face ao terrorismo global, e a coesão europeia em matéria económica. Se continuarmos só a olhar para orçamentos e descurarmos a economia e o emprego vamos ter cada vez mais pessoas a votarem nas extremas-direitas com agenda social, com a qual têm muito mais votos do que com a agenda racista e xenófoba habitual. Dito isto, já assisti a três ou quatro crises existenciais da Europa. A crise de 1989 não foi menos desafiante porque era uma nova avenida que se abria e podia ser percorrida com entusiasmo. Hoje é um pouco mais depressivo.

As relações da Rússia com o Ocidente não abrem, também, uma zona de incerteza?
Há uma zona de incerteza que pode ser gerida porque a NATO e a Rússia têm uma ameaça comum, o terrorismo não estatal e das forças terroristas que já se organizam quase como Estados. Essa ameaça comum representa uma necessidade e também uma possibilidade para que o diálogo dos países da NATO e da UE, de um lado, e a Rússia se restabeleça. Para isso, é muito importante que todos sejamos muito racionais, prudentes e inter compreensivos na gestão da crise no Médio Oriente. Há ali um barril de pólvora.

O que tem falhado?
Se Putin continuar a pensar que a Síria representa uma oportunidade para fazer subir a sua popularidade interna como restabelecedor da dignidade da Rússia ofendida em 1989 e 91 e esquecer que a ameaça comum é mais importante do que essa política. Isso tem derivadas em vários aspectos, nos nossos filhos, amigos e em nós mesmos. Há ataques em cidades onde estão pessoas comuns a divertir-se, a fluir das suas cidades. Acho que os russos também compreendem isso. Mas do lado da UE e da NATO há a necessidade de não alinhar numa escalada retórica que faça relembrar os termos da guerra fria. Tem sido essa a posição de Portugal: não se pode tratar a Rússia como se a Rússia não fosse a Rússia e não existissem interesses comuns. Tem de se manter a pressão sem excessos e sem provocações que, a mais das vezes, vêm de Moscovo. O Ocidente tem de olhar para a Rússia como um país que está existencialmente sempre em tensão entre o seu lado europeu e o seu lado não europeu. O Ocidente europeu tem toda a vantagem em dialogar com a Rússia que sempre foi europeia.

Quanto à base das Lajes, em que direcção trabalha o Governo?
Portugal não pode substituir-se à administração norte-americana. Já tive a oportunidade dizer aos Estados Unidos, através do seu embaixador em Lisboa, que a ligação entre os dois países é essencial para Portugal e este Governo quer reforçá-la. Que essa relação vai muito mais longe do que a base das Lajes, a cooperação inclui a área da Defesa mas também há a cooperação tecnológica, científica, económica e política, pois às vezes há a tentação de pensar, em Lisboa e em Washington, que o único que nos liga é a base das Lajes. Disse ao embaixador que, contudo, a base era um problema em relação ao qual Portugal tem interesses e os Estados Unidos responsabilidades.

Quais os pontos que considera que a nova visão estratégica da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] deve contemplar?
Todos os membros da CPLP pensam que é a altura, e aí não há nenhuma singularidade portuguesa, que o já feito, estabilização da concertação entre Estados ao nível político-diplomático, promoção da língua e cooperação multilateral tem de estender-se à sociedade civil e à cidadania. Através de programas de mobilidade de estudantes e professores, da maior facilidade de reconhecimento de habilitações e qualificações profissionais, da maior facilidade na concessão de vistos, no nosso ponto de vista nos limites do acordo de Schengen. Avanços na portabilidade de direitos de pessoas que circulam entre países da CPLP. Outro nosso contributo, é enriquecer o estatuto de país observador associado. Outra sugestão é que a CPLP olhe também para os falantes de português que não vivem nos países da CPLP, não apenas as comunidades da diáspora mas as que, por exemplo, na Ásia Oriental têm como língua de herança ou materna o português.






20.11.13

OCDE antecipa melhoria do mercado de trabalho em 2014

Raquel Martins e Ana Brito, in Público on-line

Projecções da OCDE para o défice são mais pessimistas e antecipam que Portugal vai falhar as metas acordadas com a troika até 2015.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) está mais optimista do que o Governo na evolução do mercado de trabalho e antecipa que o pico do desemprego deverá ocorrer no final deste ano, para depois começar a recuperar em 2014.


As previsões económicas da OCDE divulgadas esta terça-feira apontam para uma taxa de desemprego de 16,7% este ano. Mas daí em diante, a expectativa é que baixe para 16,1% no próximo ano e para 15,8% no seguinte. Estes números são bem mais positivos do que os esperados pelo Governo, que apontam 2014 como o ano em que o país atingirá a mais elevada taxa de desemprego de sempre (17,7%), acima dos 17,4% esperados para 2013.

As previsões de Outono da OCDE são também mais optimistas do que as de Maio, altura em que a organização estimava uma taxa de desemprego de 18,2% em 2013 e de 18,6% em 2014.

A explicação para esta revisão em baixa está na evolução da taxa de desemprego nos dois últimos trimestres, que acabou por surpreender a organização. “O ritmo da contracção económica abrandou, reflectindo, principalmente, o reforço das exportações, e a confiança das empresas e dos consumidores está a aumentar. A taxa de desemprego está a cair há dois trimestres consecutivos, tendo atingido os 15,6% no terceiro trimestre de 2013, e é expectável que este declínio continue à medida que a economia recupere”, lê-se nas páginas dedicadas a Portugal.

Os dados do desemprego divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) no início de Novembro apontam para uma queda homóloga da taxa pela primeira vez em cinco anos e também para uma queda trimestral. Mas ao mesmo tempo, registam a destruição de 103 mil empregos em Portugal e uma diminuição em 135 mil pessoas da população activa. O total de desempregados registados nos centros de emprego também vem caindo, mas as novas inscrições em Setembro e Outubro foram das mais elevadas dos últimos 13 anos.

Economia recua
A OCDE antevê um recuo de 1,7% para a economia portuguesa este ano, uma melhoria face à contracção de 2,7% estimada nas perspectivas de Maio e muito próximo da estimativa de -1,8% do Governo. A organização melhorou também as suas perspectivas para 2014 e espera agora um crescimento de 0,4%, metade do previsto pelo executivo. Em 2015 os sinais de recuperação serão mais evidentes e as estimativas apontam para um crescimento de 1,1%, mais uma vez abaixo da previsão do Governo e da troika, que aponta para um crescimento de 1,5%.

Já em relação ao consumo privado, a OCDE espera um recuo de 2,3% em 2013 (o Governo, uma queda de 2,5%). E ao contrário das estimativas do Governo no Orçamento do Estado (OE) para 2014, que apontam para um recuperação de 0,1% no próximo ano, a OCDE antevê que o indicador se mantenha em terreno negativo (-0,6%) e só recupere em 2015.

O olhar da OCDE também é mais pessimista do que o do Governo no que toca à evolução do défice público, considerando que Portugal vai falhar as metas orçamentais acordadas com a troika neste ano e em 2014 e 2015, de 5,5%, 4% e 2,5%, respectivamente. Segundo a OCDE, o défice público deverá fixar-se em 2013 nos 5,7%, caindo para 4,6% e 3,6% nos dois anos seguintes.

Outro dos temas no radar da OCDE é um hipotético chumbo do Tribunal Constitucional (TC) a medidas do OE 2014. Em declarações telefónicas à Lusa, Jens Arnold, economista responsável pela análise da economia portuguesa, considerou que um novo chumbo do TC “iria seguramente tornar o caminho da consolidação orçamental mais difícil", podendo "levantar riscos de confiança [nos mercados]”, com impacto negativo nas taxas de juro. Outro risco prende-se com o cenário político.

Referindo-se à "turbulência política" do Verão passado, Jens Arnold frisou que são situações que não ajudam a “solidificar a confiança dos mercados”. A remodelação – que depois da saída de Vítor Gaspar das Finanças, levou à nomeação de Maria Luís Albuquerque, com um “pedido de demissão irrevogável” de Paulo Portas pelo meio e o seu posterior recuo e “promoção” a vice-primeiro-ministro –, “ilustrou algumas tensões políticas existentes”. A OCDE considera que, “por agora, as tensões estão controladas”, mas o episódio “demonstrou que há uma possibilidade de riscos políticos no contexto actual", referiu o responsável à Lusa.

Também na terça-feira, o INE divulgou que o indicador de actividade económica aumentou em Setembro, atingindo o nível mais elevado desde Maio de 2011. Segundo a síntese económica de conjuntura do INE, o consumo privado e o investimento voltaram a recuperar em Setembro e o indicador de clima económico acentuou a tendência de recuperação registada desde o início do ano.

6.11.13

Zona euro. Menos crescimento e mais desemprego em 2014

in iOnline

Países da moeda única devem crescer 1,1%, menos 0,1 pontos


A Comissão Europeia reviu em ligeira baixa as previsões para a economia da zona euro, antevendo agora que esta cresça 1,1% no próximo ano. Em Maio passado, as previsões de Bruxelas anunciavam um salto de 1,2% no PIB conjunto deste grupo de países. Já para o corrente ano, a previsão permaneceu igual: uma contracção de 0,4% na zona euro.

Em relação ao desemprego no espaço da moeda única, as previsões não são animadoras: esta taxa deverá bater um novo recorde desde que existe euro, atingindo os 12,2% na região ao longo do próximo ano, valor que pressupõe igualmente uma revisão de 0,1 pontos acima da anterior previsão feita por Bruxelas, que em Maio falava em 12,1%.

Quanto ao conjunto de toda a União Europeia, e depois de o corrente ano ser de estagnação, em 2014 prevê-se uma subida de 1,4%, que em 2015 chegará a 1,9%. Ainda assim, um total de dez países vão ver a economia contrair este ano, cenário que se repetirá em dois países no próximo ano: Chipre e Eslovénia. Já na taxa de desemprego a nível comunitário, a expectativa é que se mantenha a rondar os 11% tanto este ano como no próximo.

As previsões divulgadas ontem por Bruxelas mostram ainda uma outra vertente relevante: as economias sob programa de assistência financeira devem regressar ao crescimento económico ao longo de 2014. Portugal, Grécia, Irlanda e mesmo Espanha, países que, à excepção da Irlanda, vivem em 2013 mais um ano recessivo, deverão ter no próximo ano acesso a um ligeiro balão de oxigénio que, no caso português, chega precisamente no ano de regresso aos mercados - para as previsões de crescimento de outros países a título individual veja as páginas 8-9.

26.9.13

João Salgueiro. “Pedir flexibilização do défice é cometer suicídio”

Por Sérgio Soares, in iOnline

O economista considera que uma parte dos problemas que o país actualmente enfrenta se deve-se ao facto de o resgate internacional ter sido mal negociado

O economista e ex-ministro das Finanças João Salgueiro disse que “estamos a cometer suicídio” quando pedimos aos nossos parceiros internacionais a flexibilização do défice, o que considerou “uma coisa vergonhosa”.

“Nós queremos licença para continuar a aumentar a dívida?”, interrogou-se ontem, em Lisboa, durante uma palestra promovida pela SOFID .

João Salgueiro disse que “negociamos o resgate em situação de necessidade”, considerando que isso “foi muito mau” porque o país devia ter negociado com tempo, como fez nos dois anteriores resgates com o Fundo Monetário Internacional e que “correram muito bem”.

“Em Maio de 2011, o modelo de políticas económicas que estava a ser seguido teve uma certidão de óbito e esgotou-se”, disse, sublinhando que “devíamos ter inflectido antes, mas deixamos o modelo ir até à morte quando já não havia dinheiro para pagar as importações de cereais e de outros bens de primeira necessidade e em vésperas de uma rotura de pagamentos.

Por outro lado, João Salgueiro considera que uma parte dos problemas que o país actualmente enfrenta se deve-se ao facto de o resgate internacional ter sido mal negociado.

“Ninguém é culpado de não saber. O problema é quando as pessoas não sabem que não sabem”, afirmou, referindo-se à ignorância dos decisores.

Um dos erros que apontou foi ter-se aceite na negociação do Memorando de Entendimento que as empresas públicas são empresas que podem ir ao mercado financiar-se. “O que aconteceu depois, explicou, é que como os bancos estão envolvidos no financiamento dessas empresas públicas, tiveram de cortar o crédito às empresas produtivas e exportadores, o que foi dramático”.

O economista considera que para se manter vivo o sector do Estado deficitário foi-se cortar o crédito para o funcionamento e expansão do sector produtivo. “Nós não soubemos negociar, mas os irlandeses fizeram finca-pé para manterem as taxas que entendiam para o IRC. Não era só para atrair capitais, foi para mostrar que a prioridade que dão ao investimento e as condições que oferecem é palavra de honra”.

Para o antigo ministro das finanças do governo de Pinto Balsemão, o país partilha dos equívocos de algumas pessoas que, quando estão em dificuldades financeiras, vão ao banco dizer que estão em grande aflição e que precisam de dinheiro, e que naturalmente nenhum banco lhes concede crédito nessas circunstâncias.

“Nós andamos a dizer à opinião pública mundial que temos dificuldades e que, portanto, não podemos cumprir as metas de equilíbrio financeiro”, afirmou. “Na prática, não há nenhuma razão para estarmos a pagar as taxas de juro que pagamos, mas os mercados acreditam no que dizemos: estamos em grandes dificuldades e não sabemos como havemos sair disto”.

Para o economista, a consequência é ter juros mais caros e até a eventualidade de uma rotura e de vir a ser necessário um segundo resgate financeiro.

“A banca só reestrutura um crédito a uma empresa quando está convencido que ela vai sobreviver”, disse, estabelecendo uma analogia entre a situação de insolvência de um particular e a do país face aos seus credores.

“A única maneira de negociar é quando já somos viáveis”, sublinhou, chamando a atenção para o facto de após a realização das eleições alemãs, Portugal ter passado a ser considerado “o problema número um” europeu. “Passámos de uma situação para o outro extremo. Estávamos próximos da saída do programa de ajustamento, sem comparação com a Grécia, e agora de repente somos o problema número um europeu”, acrescentou.

Segundo o economista, desde 1978, durante o governo de Mota Pinto, que se anda a dizer o que é preciso fazer.

Mota Pinto “disse que era preciso fazer reformas estruturais e até as enumerou: pôr a justiça a funcionar, aliviar a carga fiscal, criar um novo enquadramento da legislação laboral, e combater a burocracia, entre outras medidas. Em suma, tudo o que continua a ser necessário hoje. Os governos dizem que tem se se avançar nesse caminho para tornar o país competitivo mas depois não o fazem”, acusou.

“Se queremos sair deste buraco temos de fazer o que é preciso fazer e rapidamente, e o que se deve saber é qual é o ajustamento necessário e qual a melhor maneira e menos traumática de o fazer”, sublinhando que “há muita coisa que se pode fazer sem grande traumatismo e sem grande despesa”.

“Extinguir alguns serviços é traumático para quem perde o emprego mas para o resto do país é um alívio”, declarou.

Para o antigo governante, os portugueses protestam contra os efeitos da austeridade, mas não protestam contra as causas da austeridade, aludindo à falta de rigor na gestão dos recursos públicos e aos problemas que impedem a competitividade da economia.

“Quando empresas públicas foram pôr as suas sedes na Holanda deram um sinal ao exterior. Então porque não ficam em Portugal? Isto não nos fez pensar?” , sublinhou.

“Assistimos à deslocalização do dinheiro que estava no Centro Internacional de Negócios da Madeira, cerca de 60 mil milhões de euros, sem pestanejar”, afirmou. “Tínhamos ali aquele dinheiro gerido por portugueses e agora ele foi distribuído por outros offshores e por bancos estrangeiros”.

“Tudo somado é um grande desmazelo”, acrescentou, sublinhando que devíamos olhar para o que alguns países como a Coreia do Sul, onde se morria literalmente de fome, Taiwan ou Singapura fizeram, e que conseguiram obter credibilidade e ultrapassar as suas dificuldades.




20.9.13

“Orçamento Cidadão” vai “trocar por miúdos” as medidas do Governo para 2014

in Público on-line

Documento de 15 a 20 páginas será elaborado por um think tank do Instituto Superior de Economia e Gestão.

O Governo vai lançar este ano o “Orçamento Cidadão”, um projecto para facilitar a leitura do Orçamento do Estado para 2014, simplificando em poucas páginas a linguagem técnica e os objectivos que constam da proposta de lei que o executivo tem de apresentar no Parlamento até 15 de Outubro.

A preparação do documento cabe ao Institute of Public Policy Thomas Jefferson-Correia da Serra, do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), sendo do Governo a responsabilidade “técnica”, que decorre das opções do próprio orçamento.

A ideia, explicou durante a apresentação da iniciativa a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, passa por simplificar a linguagem para que cada um interprete mais facilmente todo o enquadramento da estratégia orçamental.

O novo think tank, dirigido pelo economista Paulo Trigo Pereira, adiantou em comunicado que o documento sintetiza os pontos essenciais do orçamento, com “quadros simplificados e linguagem objectiva” de modo a que os cidadãos percebam mais facilmente as “prioridades e decisões implícitas na política orçamental”. Objectivo: “trocar por miúdos uma coisa tão complexa” como o orçamento, disse o economista aos jornalistas no final da cerimónia de assinatura do protocolo.

Quando o OE é apresentado à Assembleia da República com a previsão de despesa e de receita do Estado para o ano seguinte, são anexados à proposta de lei dezenas de mapas orçamentais (desde as receitas e despesas dos vários serviços, fundos autónomos, programas, Segurança Social às transferências para os municípios e freguesias). Com o documento segue também um extenso relatório (o do orçamento deste ano tinha 276 páginas).

Já o “Orçamento Cidadão” terá 15 a 20 páginas e será um documento simples a apresentar “muito provavelmente” entre uma semana a 15 dias depois da apresentação da proposta do OE, em formato digital e disponível para consulta online.

A ideia base passa por “transmitir a um cidadão comum, que não percebe nada de economia – nem tem nada que perceber –, as opções e as orientações do Governo em relação ao OE; como se compara com o ano anterior e a trajectória para os anos vindouros”, acrescentou Trigo Pereira.

Segundo Maria Luís Albuquerque, a iniciativa pretende apresentar o documento “sem a especificidade técnica e o detalhe da informação que a proposta de lei exige, para que todos possam interpretar de forma autónoma as escolhas do Governo e o impacto que estas escolhas têm na economia e na sociedade”.

Na Europa, são ainda muito poucos os países que têm um “Orçamento Cidadão”, mas na Nova Zelândia e no Brasil, há já experiência na produção de um documento idêntico. E “os países que são melhor avaliados em termos de transparência têm um orçamento do cidadão”, reforçou Paulo Trigo Pereira.

28.6.13

Défice de 10,6% no primeiro trimestre

Sérgio Aníbal

Valor supera os 7,9% registados no mesmo período do ano passado. Governo fala de "sucesso"

O défice público disparou, nos primeiros três meses de 2013, para 10,6%, um ponto de partida do ano que torna mais difícil a concretização do objectivo final de défice de 5,5%.

Os números foram divulgados esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e representam a evolução das contas públicas em contabilidade nacional, a metodologia que é usada nos dados enviados a Bruxelas, nos relatórios do défice e da dívida.

No primeiro trimestre, o défice público ascendeu a 4167,3 milhões de euros, ou seja, 10,6% do PIB registado no mesmo período. Em 2012, também nos três primeiros meses do ano, o saldo negativo tinha sido de 3206,9 milhões de euros (7,9% do PIB).

Este agravamento teve como uma das principais explicações a necessidade de contabilização como despesa da injecção de capital de 700 milhões de euros feita pelo Estado no Banif. Ainda assim, mesmo sem contar com esse valor, registar-se-ia um agravamento do défice público em termos homólogos, um resultado particularmente preocupante, tendo em conta o agravamento fiscal que foi porto em prática.

Para o total do ano, a tarefa parece agora ficar ainda mais difícil. O objectivo para 2013 é de um défice de 5,5%, ou seja, cerca de 9000 milhões de euros. Será necessária uma melhoria de desempenho bastante significativa nos três outros trimestres do ano para que a meta seja cumprida.

No entanto, numa reacção imediata aos números divulgados pelo INE, o secretário de Estado do Orçamento mostrou bastante optimismo em relação à evolução das contas públicas.

“Estes dados indicam o sucesso do programa de ajustamento”, disse Luís Morais Sarmento.

Confrontado com o facto de o défice estar acima dos 7,9% verificados no mesmo período do ano passado, o secretário de Estado garantiu que “o perfil do défice não é idêntico ao do ano passado”, lembrando que o Estado está já a pagar “parte substancial dos subsídios” aos funcionários públicos. Morais Sarmento referia-se ao subsídio de Natal, cujo corte no ano passado foi chumbado pelo Tribunal Constitucional e que está a ser pago em duodécimos desde Janeiro.

22.2.13

Economia contrai este ano 1,9% e desemprego sobe para 17,5%

Isabel Arriaga Cunha, in Público on-line

A economia portuguesa vai cair este ano 1,9%, quase o dobro do previsto, que se segue a uma contracção muito superior ao esperado de 3,2% em 2012, avança a Comissão Europeia nas suas previsões económicas publicadas esta sexta-feira de manhã.

Bruxelas assume sem rodeios que estas projecções – que contrastam com as suas anteriores estimativas e do Governo de um crescimento negativo de 1% este ano e de 1,8% no passado – constituíram uma evolução "inesperada" e mesmo uma "surpresa", que atribui sobretudo ao aumento do desemprego, à queda do consumo interno e à redução das exportações em resultado da deterioração da conjuntura europeia.

Segundo Bruxelas, aliás, o desemprego, que atingiu no ano passado 15,7% da população activa, continuará a aumentar até atingir um "pico" de 17,5% este ano. Esta evolução continuará a pesar sobre o consumo interno, que por sua vez continuará a afectar o crescimento económico pelo menos durante a primeira metade deste ano.

Estes números foram antecipados por Vítor Gaspar que, na quarta-feira no Parlamento, anunciou que na próxima avaliação regular da troika haverá uma revisão das perspectivas económicas. "Neste momento, o meu julgamento provisório aponta para uma revisão em baixa da previsão da actividade económica da ordem de um ponto percentual", revelou Vítor Gaspar, o que corresponde ao aumento da previsão da contracção económica de 1% para 2% em 2013. Desta forma, o ministro das Finanças vem ao encontro das previsões do Banco de Portugal, que já tinha avançado em Janeiro com uma previsão de recessão de 1,9% para este ano.

Apesar disso, a Comissão acredita que a economia portuguesa poderá começar a descolar no segundo semestre de 2013 e conhecer uma "ligeira" retoma de 0,8% em 2014.

Os riscos negativos que pesam sobre estas previsões são no entanto elevados, de tal forma que Bruxelas admite que poderão voltar a ter de ser revistas em baixa: este será o caso se o agravamento do desemprego e os aumentos de impostos assumidos no quadro do ajustamento orçamental português tiverem um impacto na economia pior do que o previsto.

Outros factores em que a Comissão baseia as perspectivas de retoma da economia portuguesa são a evolução positiva da situação dos mercados financeiros e das trocas comerciais, duas áreas que permanecem "frágeis".

Bruxelas admite aliás implicitamente que, por todas estas razões, o objectivo de um défice orçamental de 2,9% do PIB em 2014 – previsto no programa de ajustamento assumido pelo país junto dos credores internacionais – poderá estar em risco porque depende da confirmação da retoma da actividade como previsto no segundo semestre deste ano, o que permanece rodeado de incerteza.

O cumprimento do défice previsto para 2014 também está dependente da redução "permanente" das despesas públicas no valor de 1,75 pontos percentuais – uma referência às poupanças permanentes de 4 mil milhões de euros nos gastos do Estado que o Governo quer realizar.

6.9.12

“Estamos a cavar um bocadinho mais de défice”

in RR

O endividamento das empresas públicas do sector dos transportes ultrapassa já os 30 milhões orçamentados.

O ex-ministro da Economia, Daniel Bessa, diz que os portugueses têm razões para se preocuparem com a derrapagem das contas das empresas do sector dos transportes.

De acordo com o boletim informativo da Direcção Geral do Tesouro os prejuízos quase duplicaram no primeiro semestre. O endividamento ultrapassa já os 30 milhões orçamentados.

“Os portugueses têm razões para estarem preocupados com este assunto, porque é uma área onde sentimos que há problemas de controlo, onde se diz que vai acontecer isto ou aquilo e depois não acontece”, explica Daniel Bessa.

O ex-ministro aceita que em muitos casos há factores externos que influenciam, mas no caso actual vê mais uma situação de descontrolo: “Aqui no caso das empresas são coisas que parecem mais de comando nosso, portanto se as coisas não acontecem como foi determinado, há problemas de execução que precisam de ser vistos. Estamos aqui a cavar um bocadinho mais de défice, um bocadinho mais de dívida. Não estamos a falar de números dramáticos, mas cavadela a cavadela, estes casos significam que temos um pouco mais de problemas”, conclui.