2.5.23
Indústria e construção perdem 81 mil pessoas qualificadas num mercado mais polarizado
Profissões altamente escolarizadas e as não qualificadas são aquelas que mais trabalhadores ganharam na última década. A profissão de vendedor perdeu 9% do efectivo, mas continua a mais numerosa.
O mercado laboral português está a passar por uma polarização em que as profissões altamente escolarizadas e as não qualificadas são aquelas que mais crescem em número de trabalhadores, 24% e 19%, respectivamente. Por outro lado, as estatísticas da Pordata, neste Dia do Trabalhador, mostram que o grupo profissional que perdeu mais pessoas foi o dos trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices. Perdeu mais de 81 mil trabalhadores em dez anos.
Embora certas profissões deste grupo sejam as que têm um maior número de trabalhadores, tanto a indústria como a construção debatem-se com falta de pessoas, um mal geral que atravessa muitas profissões distintas, desde professores a pessoal da hotelaria.
Olhando para os alertas lançados apenas nos últimos dois anos, o sector da construção precisa de encontrar "mais de 70 mil" profissionais, como já veio dizer o presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, Reis Campos.
A indústria do mobiliário precisa de sangue novo e procura 5000 trabalhadores para contrariar o envelhecimento, as saídas por reforma, a emigração e a falta de interesse por um sector que, em 2022, teve um novo recorde de exportações, superando o anterior, de 2019.
Não se trata de um problema português. Toda a indústria europeia precisa de gente, como o demonstram os números da Comissão Europeia, que, para o sector da moda, projecta a necessidade de encontrar meio milhão de trabalhadores para a próxima década.
O mercado laboral pode ser descrito por grandes grupos profissionais ou por profissões, conforme se pretenda um retrato mais geral de tendências ou uma radiografia mais detalhada à economia, respectivamente. Além disso, pode-se olhar para o peso de cada grupo profissional no mercado laboral, e como é que este evoluiu na última década.
Indústria e construção perdem peso
Desde 2011, a população empregada cresceu 1,5%, tendo acrescentado cerca de 65 mil trabalhadores. Mas os grupos profissionais com mais peso hoje em dia não são exactamente os mesmos de há dez anos.
Em 2011, os mais importantes eram o dos serviços pessoais, de protecção, de segurança e vendedores (com 20% do emprego) e o dos trabalhadores qualificados da indústria, construção e artífices (16%).
Dez anos depois, o dos serviços pessoais, de protecção, de segurança e vendedores continua na frente, mas com menos peso (18% em vez de 20%), depois de perder 42 mil trabalhadores (-5%) na última década. Aqui estão incluídos os assistentes de viagem, cozinheiros, empregados de mesa e bar, cabeleireiros, vendedores, auxiliares de educadores de infância, auxiliares de saúde, agentes da PSP e guardas da GNR, por exemplo.
O segundo grupo mais importante deixou de ser o da indústria, construção e artífices, que valia 16% do emprego em 2011 e agora vale 14%, e passou a ser o das actividades intelectuais e científicas. Ao acrescentar quase 158 mil trabalhadores, este último contingente foi o que mais cresceu, passando de 649 mil trabalhadores para mais de 806 mil.
É um aumento de 24%, graças ao qual iguala o peso no total da população empregada dos serviços pessoais, de protecção, de segurança e vendedores, passando de 15% para os mesmos 18%.
Este grupo dos especialistas das actividades intelectuais e científicas inclui profissões muito diversas, como engenheiros, arquitectos, médicos, profissionais de enfermagem e outros profissionais de saúde, mas também os professores, os especialistas em assuntos jurídicos ou em ciências sociais e religiosas.
Um país de vendedores
Na análise por profissão, a dos vendedores continua a ser a mais numerosa (365 mil pessoas, incluindo vendedores e comerciantes de loja, operadores de caixa e vendedores ao domicílio), apesar de ter perdido 9% da força laboral que tinha em 2011.
Entre as maiores, segue-se a dos empregados de escritório e secretários, que cresceu 9% no mesmo período, para 280 mil. E em terceiro lugar surge a dos trabalhadores qualificados da construção, electricidade e electrónica (que inclui pedreiros, carpinteiros, estucadores, canalizadores, pintores e electricistas, entre outros). Embora sejam menos 12% do que há dez anos, ainda há 273 mil trabalhadores qualificados da construção.
Este é o retrato que se obtém na Pordata separando 4,4 milhões de empregados (à data do último registo censitário, em 2021) pela Classificação Portuguesa das Profissões (de 2010).
Os números do INE, tal como compilados por aquela base de dados, permitem outras conclusões, todas elas evidenciando a clara polarização que há nos ganhos do mercado laboral em torno de dois extremos, o das profissões mais escolarizadas e o das menos qualificadas.
Em termos nominais, os maiores aumentos registaram-se entre trabalhadores não qualificados da indústria e da construção (+51 mil), empregados de escritório e secretários (+23 mil), profissionais de saúde (que não médicos e enfermeiros, com mais 21 mil; neste lote estão médicos dentistas, farmacêuticos, fisioterapeutas, nutricionistas), enfermeiros (+19 mil) e engenheiros (+19 mil).
A produtividade por hora trabalhada em Portugal é 65% da média europeia, a quinta mais baixa do lote de 27 países que integram hoje em dia a UE
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Em percentagem, contudo, os cinco maiores aumentos pertencem às profissões de directores de vendas, marketing e de desenvolvimento de negócios (+73%); outros profissionais de saúde (+65%); arquitectos, urbanistas, agrimensores e designers (+54%); profissionais de enfermagem (+40%) e engenheiros (+30%).
As profissões que mais diminuíram o seu efectivo em termos nominais foram directores e gerentes, do comércio a retalho e por grosso (-42 mil), trabalhadores de limpeza em casas particulares, hotéis e escritórios (-39 mil), vendedores (-36 mil); trabalhadores qualificados da construção, electricidade e electrónica (-36 mil) e os professores (-29 mil).
Em percentagem, as cinco maiores descidas registaram-se nos auxiliares de educadores de infância e de professores (-32%); directores das indústrias transformadoras, extractivas, da construção, transportes e distribuição (-34%); trabalhadores qualificados da impressão, do fabrico de instrumentos de precisão, joalheiros, artesãos e similares (-34%); trabalhadores do tratamento da madeira e cortiça, marceneiros e similares (-40%); e directores e gerentes, do comércio a retalho e por grosso (-64%).
Por sectores, quase meio milhão de pessoas trabalhava no comércio a retalho (461 mil), 348 mil na administração pública, 328 mil na educação, e 277 mil nas actividades de saúde. Em conjunto, estes trabalhadores são um terço do total da mão-de-obra.
Os sectores com maiores perdas nos últimos dez anos são a construção (-68 mil na promoção imobiliária), o comércio (-59 mil no retalho), a educação (-48 mil), a indústria transformadora (-42 mil no vestuário) e alojamento e restauração (-37 mil na restauração).
Técnicos de saúde abaixo da média
Em termos de ganho médio (montante ilíquido recebido por mês, incluindo remuneração de base, horas extras, subsídio de férias ou prémios), os trabalhadores por conta de outrem em empresas ganhavam, em média, 1294 euros. "Face a 2011, é um aumento de 210 euros que, descontado o efeito da inflação, é apenas de 118 euros", refere a Pordata, a propósito da efeméride deste 1 de Maio.
Por grupos profissionais, acima da média ficam os salários de representantes do poder legislativo e de órgãos executivos (+1483 euros); as profissões intelectuais e científicas (+701 euros); os técnicos de nível intermédio (+314 euros), com excepção dos da saúde, que ganham menos 108 euros do que a média nacional.
"Já as profissões mais mal pagas são as de assistente na preparação de refeições (761 euros), trabalhador de limpeza (791 euros) e trabalhador dos cuidados pessoais (818 euros), que incluem os auxiliares de educadores de infância e de professores e auxiliares nos serviços de saúde (auxiliares de saúde e ajudantes familiares)."
Estes níveis de ganhos estão desigualmente distribuídos por sectores, desde o que paga melhor (electricidade, gás e água, cerca de 3000 euros) ao que paga pior (alojamento, restauração e similares, 914 euros). Estão certamente influenciados pela produtividade, que é uma das mais baixas de toda a União Europeia (UE). A produtividade por hora trabalhada em Portugal é 65% da média europeia, a quinta mais baixa do lote de 27 países que integram hoje em dia a UE.
28.4.23
Mortalidade infantil aumentou no ano passado: morreram 217 bebés
Dados do INE revelam que no ano passado morreram 217 crianças com menos de um ano, mais 26 do que em 2021. O saldo natural melhorou.
A taxa de mortalidade infantil aumentou em 2022: no ano passado, morreram 217 crianças com menos de um ano, mais 26 do que em 2021, segundo os dados das Estatísticas Vitais do Instituto Nacional de Estatística (INE) publicadas esta sexta-feira.
Estes números reflectem-se num aumento da taxa de mortalidade infantil de 2,4 óbitos por mil nados-vivos em 2021 para 2,6 em 2022, segundo a nota explicativa do INE.
Os dados revelam que nasceram 83.671 crianças de mães residentes em Portugal, representando um acréscimo de 5,1% (mais 4089 nados-vivos) relativamente ao ano anterior. Do total de nados-vivos, 60,2% nasceram fora do casamento, isto é, eram filhos de pais não casados entre si.
Os dados revelam ainda que 42.925 das crianças eram do sexo masculino e 40.746 do sexo feminino, “representando uma relação de masculinidade de 105 (por cada 100 crianças do sexo feminino nasceram cerca de 105 do sexo masculino)” — esta proporção é considerada natural, já que nascem sempre mais bebés do sexo masculino.
Segundo o INE, à semelhança de anos anteriores, Setembro voltou a ser o mês com mais nascimentos. A variação homóloga, com excepção do mês de Abril (-1,3%), foi sempre positiva, tendo-se verificado a maior subida em Novembro (+11,2%).
Estes dados revelam também que a natalidade aumentou em todas as regiões do país, com excepção do Algarve (-1,3%). Nas regiões Norte (+6,2%), Centro (+5,5%) e Área Metropolitana de Lisboa (+6,0%), a subida foi superior ao valor nacional (+5,1%). A Região Autónoma da Madeira registou o menor acréscimo (+0,8%).
Saldo natural melhorou
No mesmo ano, registaram-se 124.311 óbitos de pessoas residentes em território nacional, menos 0,4% (menos 491) do que em 2021. Do total de óbitos, 62.615 foram de pessoas do sexo feminino e 61.696 do sexo masculino.
Em Janeiro e Fevereiro de 2022, houve um decréscimo da mortalidade em relação aos meses homólogos de 2021 (-40,4% e -16,6% óbitos, respectivamente), que em 2021 foram ainda marcados pela pandemia de covid-19. Entre Março e Dezembro de 2022, e com excepção do mês de Novembro, em todos os meses o número de óbitos foi superior ao observado em 2021. O mês de Dezembro foi o que registou maior mortalidade (12.269 óbitos).
A maioria dos óbitos ocorreu em idades avançadas: 86,6% dos óbitos corresponderam a pessoas com 65 e mais anos e mais de metade (60,7%) a óbitos de pessoas com 80 e mais anos.
“O aumento do número de nados-vivos e o decréscimo do número de óbitos determinaram o desagravamento do saldo natural, de -45.220 em 2021 para -40.640 em 2022”, lê-se na nota explicativa publicada pelo INE, que revela ainda que, em 2022, “foram celebrados 36.952 casamentos em Portugal (mais 27,2% do que em 2021)”.
A idade média do casamento foi de 39,9 anos para os homens e 37,4 anos para as mulheres; a idade média ao primeiro casamento foi de 35,1 anos para os homens e 33,7 anos para as mulheres.
Da análise dos dados ficamos ainda a saber que, dos casamentos celebrados, 36.151 realizaram-se entre pessoas de sexo oposto (28.508 em 2021) e 801 entre pessoas do mesmo sexo (549 em 2021), dos quais 413 casamentos entre homens e 388 casamentos entre mulheres (287 e 262, respectivamente, em 2021).
<_o3a_p>Do total de casamentos entre pessoas de sexo oposto, 73,0% (27.175) foram realizados apenas na forma civil, 26,7% (9662) foram celebrados pelo rito católico e 0,3% (115) segundo outras formas religiosas.
Sublinha o INE que, em 68,5% dos casos, os noivos já moravam juntos.
Nesse ano, ocorreram também 49.230 dissoluções de casamento por morte do cônjuge, representando um decréscimo de 1,4% em relação a 2021 (49.908), das quais resultaram 14.385 viúvos e 34.845 viúvas.
25.1.23
Uniões de facto aumentaram 38,2% e divorciados já são mais que os viúvos
As famílias desmultiplicam-se em diferentes formas de viver a conjugalidade: os casamentos recuam (os segundos nem tanto), vive-se em união de facto, as famílias recompostas e monoparentais aumentam.
Em termos de conjugalidade o país deixou há muito de ser monocórdico e as famílias desfazem-se e recompõem-se a ritmos muito pouco lineares. Desde logo, os divorciados correspondem já a 8% da população. São mais 2,4 pontos percentuais que em 2011 e isso bastou para que tenham ultrapassado a população com estado civil viúvo (7,5%). Os casados também perderam terreno, representando agora 41% da população (menos 5,6 pontos percentuais), ao mesmo tempo que as pessoas que optam por viver em união de facto cresceram 38,2% na última década. São agora mais de um milhão. Em 2021, a percentagem da população em união de facto era de 11,2%, valor que em 2011 se situava nos 8,1%.
A tendência é transversal e não surpreende quem, como a demógrafa Maria João Valente Rosa, vinha notando o aumento exponencial das crianças nascidas fora do casamento: 60% das crianças nascidas em 2021. “Em 2015, este valor já tinha ultrapassado os 50% e o que isto nos mostra é que o casamento já não é pré-condição para se pensar na parentalidade”, interpreta a investigadora.
Refira-se que, também aqui, o país se mostra desigual. O Algarve aparece como a região com a maior proporção de uniões de facto (15,5%) e a região Norte, tradicionalmente mais conservadora e mais marcada pela presença da Igreja Católica, com a menor (8,8%). “É no grupo etário dos 30 aos 39 anos que se regista a proporção mais elevada de população residente em Portugal a viver em união de facto: 27,3%”, refere o INE.
“A conjugalidade não está em crise, a forma de a viver é que se tornou muito menos linear do que no passado. Se antes conseguíamos contar a história das pessoas de forma simples, elas casavam e tinham filhos, hoje combinam-se múltiplas trajectórias e múltiplas formas de viver com o outro e que muitas vezes não passam sequer por partilhar casa”, descreve Maria João.
Os números mostram que os agregados domésticos constituídos por apenas uma pessoa reforçaram o seu peso: representam 24,8% das famílias, num valor que aumentou 18,6% face a 2011. “É o envelhecimento, mas não é só, porque muitas vezes entra-se na vida adulta sem se iniciar a conjugalidade”, sublinha ainda Valente Rosa.
A socióloga Anália Torres aponta, por seu turno, outro dado que reforça esta mutabilidade das famílias: “Os casamentos estão a diminuir, mas os segundos casamentos têm vindo a aumentar.”
Com ou sem casamento e com ou sem divórcio, as famílias reconstituídas (em que existe pelo menos um filho não comum ao casal) são quase 125 mil, mais 2,3 pontos percentuais do que em 2011, “representando 8,8% dos núcleos familiares de casais com filhos”. Outra constante é o crescimento das famílias monoparentais: são agora 18,55 do total nacional de famílias, mais 3,6 pontos percentuais. As famílias compostas por mãe com filhos predominam (85,6% do total de núcleos familiares monoparentais) e são agora quase 500 mil, face às 84 mil famílias compostas por pais com filhos.
Taxa de analfabetismo recuou para 3,1%
Estas mudanças operam-se ao mesmo ritmo a que tem aumentado o nível de escolarização da população. O olhar retrospectivo da década apresenta-nos uma população em que 1,8 milhões de pessoas (21,2% da população com 21 ou mais anos de idade) frequentaram o Ensino Superior.
Apesar do caminho já percorrido, apenas 3% da população com diploma universitário obtém o doutoramento. E, apesar de as mulheres estarem mais representadas nas licenciaturas, os mestrados e doutoramentos continuam a ser mais frequentados pelos homens.
A população com o ensino secundário e pós-secundário, por seu turno, aumentou de 16,75 para 24,7%.
“São dados interessantíssimos”, na óptica de Maria João Valente Rosa, mas ainda insuficientes. “A maioria da população adulta, com 18 ou mais anos de idade, ainda não tem o secundário completo”, sublinha a investigadora, para concluir que, nas sociedades de informação em que vivemos, “ainda há muito investimento a ser feito no reforço de competências e das qualificações”.
Na última década, refira-se, a taxa de analfabetismo recuou 2,1 pontos percentuais. Era de 5,2% em 2011 e baixou para os actuais 3,1%. Por detrás desta percentagem, contam-se 292.809 pessoas que continuam sem saber ler nem escrever, sendo que o Alentejo surge como a região com a maior taxa de analfabetismo (5,4%), e, sem surpresas, a taxa de analfabetismo nas mulheres (3,1%) é superior em um ponto percentual à dos homens (2%).
11.1.23
Mais de 60 mil portugueses emigraram. Reino Unido, Espanha e Suíça lideram destino
Por Lusa, in Público
O Relatório da Emigração 2021 indica que, nesse ano, terão emigrado mais 15 mil do que em 2020. Angola é o único país não europeu no “top 10” das preferências para emigrar.Cerca de 60 mil portugueses emigraram em 2021, mais 15 mil do que no ano anterior, numa "recuperação assinalável" de saídas, após quebra brutal em 2020, com o Reino Unido a retomar a posição de principal destino, segundo o Relatório da Emigração.
O documento, a que a agência Lusa teve acesso e que será apresentado esta quarta-feira no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa, é uma iniciativa da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas e baseia-se nos dados recolhidos pelo Observatório da Emigração, um centro de investigação do Iscte - Instituto Universitário de Lisboa, junto das instituições responsáveis pelas estatísticas da imigração.
O Relatório da Emigração 2021 indica que, nesse ano, terão emigrado cerca de 60 mil portugueses, mais 15 mil do que em 2020, ano em que se registou o número de saídas mais baixo em 20 anos, em parte devido ao impacto da pandemia de covid-19 na circulação de pessoas.
O documento refere que, entre 2019 e 2020, "a emigração teve uma quebra da ordem dos 44%, em consequência dos efeitos conjugados da crise pandémica e do "Brexit" [saída do Reino Unido da União Europeia]".
"As políticas de confinamento colocaram obstáculos à mobilidade e produziram uma crise económica global de grandes proporções que explicam a travagem abrupta das migrações internacionais", escrevem os autores.
Em 2021, emigraram metade dos portugueses que o fizeram em 2013. À excepção de 2020, só em 2003 se registaram valores tão baixos. Com um pico em 2013, desde esse ano que se tem registado uma tendência de descida na emigração.
Ainda longe dos níveis da pré-pandemia
Em 2021, as migrações iniciaram "uma recuperação assinalável", tendo crescido, em Portugal, cerca de 33% em relação a 2020. "Não regressaram ainda aos níveis pré-pandemia mas encontram-se, de novo, numa trajectória de crescimento".
"É ainda cedo para se saber se esse crescimento será sustentável ou se a emigração estabilizará num patamar inferior" Relatório da Emigração
Os autores do relatório consideram que "é ainda cedo para se saber se esse crescimento será sustentável ou se a emigração estabilizará num patamar inferior ao que se desenhava antes da pandemia", inclinando-se mais para a última hipótese, "dados os efeitos prolongados do "Brexit"".
"Ao contrário do que aconteceu com a pandemia, os efeitos da saída do Reino Unido da União Europeia prolongam-se no tempo, tornando mais difícil as entradas naquele que era o principal destino da emigração portuguesa — pelo menos das entradas de migrantes menos qualificados", salienta-se.
Citando os dados disponibilizados pelas Nações Unidas em 2022, a exposição aponta para 2.631.559 portugueses emigrados - pessoas nascidas em Portugal a viver no estrangeiro, que representavam, em 2019, cerca de 26% da população residente no país, sendo o oitavo país do mundo com mais emigrantes.
Em todo o mundo, no mesmo ano, existiam mais de 247 milhões de migrantes internacionais, ou seja, 3,4% da população mundial.
Em 2021, dos 23 países de destino com elevados fluxos de emigração portuguesa, mais de metade (14) eram europeus.
Os destinos onde se registaram entradas superiores a cinco mil portugueses no último ano, para o qual há informação estatística, são todos europeus. O Reino Unido liderou os destinos dos emigrantes portugueses (12 mil entradas), seguindo-se Espanha (8 mil), Suíça (8 mil), França (6 mil) e Alemanha (6 mil).
No ano em análise, o número de portugueses emigrados no Reino Unido totalizou 156.295, menos 5,7% do que em 2020, sendo a maioria (53,1%) mulheres e apenas 2,5% com mais de 65 anos.
Portugueses são 1,6% nos nascidos no estrangeiro
Este indicador faz com que o Reino Unido seja o segundo país, a seguir à Irlanda, com uma comunidade portuguesa emigrada mais jovem. Os portugueses representavam 1,6% do total dos nascidos no estrangeiro a residir no Reino Unido, o quarto do mundo onde residem mais portugueses emigrados.
Fora da Europa, os principais países de destino da emigração portuguesa integram o espaço da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP): Angola (1708 em 2019) e Moçambique (mil em 2016, último ano para o qual existem dados disponíveis).
Registou-se "um ligeiro aumento" de entradas em todos os países analisados, com excepção da Austrália (menos 48,7%) e de Macau (menos 73,1%).
Os homens emigram mais do que as mulheres e, ao nível da faixa etária, este movimento é constituído essencialmente por pessoas de idade jovem.
A França continua a ser o país do mundo com maior número de residentes nascidos em Portugal, resultante sobretudo da grande vaga de emigração dos anos de 1960/70, contando com 598 mil indivíduos.
Na Suíça residem 207 mil nascidos em Portugal, seguindo-se os Estados Unidos da América (162 mil), o Reino Unido (156 mil), o Brasil (138 mil, em 2010), o Canadá (134 mil) e a Alemanha (115 mil).
Nasceram em Portugal 23% dos imigrantes a residir no Brasil (em 2010), 9% dos que residiam em França, e 8% dos imigrantes em Cabo Verde (2018) e na Suíça.
2.12.22
Pandemia fez diminuir esperança de vida à nascença
Esperança de vida à nascença está agora nos 80,72 anos. Pandemia fez aumentar número de mortes sobretudo entre quem tem mais de 60 anos.A esperança de vida à nascença diminuiu 4,1 meses para toda a população: fixou-se nos 80,72 anos quando era de 81,06 anos. Este é o resultado do aumento do número de óbitos no contexto da pandemia, sobretudo entre quem tem 60 ou mais anos, mostram os mais recentes dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Do triénio anterior, 2018-2020, para este, 2019-2021, a redução da esperança de vida à nascença “foi equivalente ao progresso observado nos últimos quatro períodos, retomando valores próximos dos estimados para 2015-2017 (com 80,78 anos)”, afirma o INE.
A diminuição foi maior nos homens do que nas mulheres, mostram ainda as tábuas de mortalidade: à nascença, os homens podiam esperar viver 77,67 anos e as mulheres 83,37 anos, o que é uma diminuição de 4,8 meses para os homens e de 3,6 meses para as mulheres.
Já a esperança de vida aos 65 anos, no período 2019-2021, também diminuiu 4,1 meses e foi agora estimada em 19,35 anos para o total da população. Igualmente se verificaram diferenças entre os sexos: aos 65 anos, os homens podiam esperar viver mais 17,38 anos e as mulheres 20,80 anos, o que correspondeu a uma redução de, respectivamente, 4,6 e 3,7 meses relativamente a 2018-2020. Segundo o INE, a redução da esperança de vida aos 65 anos neste triénio retomou valores próximos dos estimados para 2014-2016 (19,31 anos) e equivaleu ao progresso observado nos últimos cinco períodos, retomando valores próximos dos estimados para 2014-2016 (19,31 anos).
Censos 2021: o país não devia estar a discutir o desequilíbrio demográfico?
Ajudar os cansados das cidades a mudarem-se para o interior, preparar hospitais para picos de procura, repensar lares, apostar em especialidades geriátricas. Eis como olhar o envelhecimento de frente.
A imagem de um país irremediavelmente mais envelhecido, com menos habitantes e com tendência a afundar-se no litoral, que emerge dos Censos 2021 está longe de constituir surpresa. Mas, se assim é, se temos hoje 182 idosos por cada 100 jovens e 20% da população concentrada em 1,1% da área do território, porque não estamos todos a discutir formas de contrariar estes desequilíbrios? “Temos mesmo de começar a olhar para estes problemas e começar a antecipar os seus efeitos, nomeadamente ao nível do envelhecimento”, alerta Pedro Góis, sociólogo e investigador das migrações do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
Porque resulta claro que nem o aumento em 37,5% da presença de estrangeiros verificado na última década em Portugal vai rejuvenescer o país, os governantes têm de “deixar de ter vistas curtas”, como concorda a demógrafa Maria João Valente Rosa. “Sabemos pelos Censos que a população diminuiu em 2,1% na última década, mas a população acima dos 44 anos aumentou. E é interessante notar que as pessoas com 85 ou mais anos de idade passaram de 234 para 353 mil e as pessoas com mais de 100 anos duplicaram a sua expressão no país. Portanto, é preciso começarmos a repensar os nossos pressupostos de sociedade, que não estão adaptados a estas novas realidades”, acrescenta a também professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Detenhamo-nos por instantes no retrato do país em números que foi divulgado nesta quarta-feira. Nos últimos 10 anos, perdemos 219.112 residentes, num decréscimo de 2,1% que só encontra paralelo na década de 1960, em que aldeias e cidades do interior se esvaziaram à boleia da emigração. A quebra populacional é extensível à maior parte das regiões, com excepção do Algarve e da Área Metropolitana de Lisboa, que cresceram 3,6% e 1,7%, respectivamente. E, enquanto 20% dos residentes se concentram nos sete municípios mais populosos que abarcam os referidos 1,1% da área do país, outros 20% espalham-se por 208 municípios menos povoados e que ocupam 65,8% da área do país.
“Esse desequilíbrio, que nos dá conta de vastas áreas do território vazias, preocupa-me porque os locais que podiam funcionar como âncoras e dinamizador de um interior vasto também estão a perder população”, começa por notar o geógrafo Jorge Malheiros, para quem o problema até surge nomeado no discurso político, “mas os subsídios ficam aquém do que se espera e o carácter estrutural das políticas que estão pensadas também fica aquém”.
Importaria assim “cuidar melhor dos serviços públicos nestas áreas” e, mais do que pretender forçar a natalidade nos concelhos do interior, “facilitar a mudança para estas zonas de uma população mais velha, mais qualificada e experiente, mas ainda com saúde e que está cansada de viver nas grandes cidades”. “Não é transferir os idosos para o interior”, ressalva o investigador, “mas, designadamente nesta altura em que desenvolvemos as redes de comunicação e aprendemos as vantagens de estar fora das cidades, abrir este novo horizonte que vai para além dos jovens e da fecundidade”.
Efectivamente, a baixa natalidade e o aumento da longevidade conjugados agudizaram o estreitamento da base da pirâmide etária. Em 2021, a idade média da população aumentou para os 45,4 anos, o que traduz um aumento de 3,1 anos face a 2011, ao mesmo tempo que o país começou a ter 182 idosos por cada 100 jovens (128 em 2011).
Ao mesmo tempo, “o índice de rejuvenescimento da população activa em 2021 é 76, significando que, potencialmente, por cada 100 indivíduos que saem do mercado de trabalho, apenas ingressam 76”, conclui o INE.
Em termos globais, as pessoas com 65 ou mais anos de idade são já 23,4% da população, enquanto as crianças e jovens até aos 14 anos de idade são apenas 12,9% dos residentes. No intervalo censitário, de resto, assistiu-se a um decréscimo da população em todos os escalões etários até aos 39 anos, particularmente no grupo dos 30 aos 39 anos. “Em contrapartida”, enfatiza o INE, “todos os grupos acima dos 44 anos aumentaram a sua importância relativa”.
“Devíamos estar a preparar-nos em termos de infra-estruturas e serviços para este momento em que vamos todos ser mais velhos: os hospitais têm de estar preparados para os picos de gripe que vão levar muito mais gente às urgências, por exemplo; dentro da formação médica e de enfermagem, temos de começar a investir nas especialidades geriátricas, temos de pensar a estruturação dos cuidados continuados; de pensar se os lares que temos hoje são aqueles em que vamos querer estar”, retoma Pedro Góis.
Os desequilíbrios na distribuição da população no território também convocam a necessidade de “começar a pensar em agregar populações em locais que garantam qualidade de vida, em vez de deixar as pessoas a sobreviver em territórios desertificados, um pouco à semelhança, de resto, do que se fez há uns anos com as escolas”. “Não há milagres. Os que não nasceram já não vão nascer e não são os estrangeiros que vão vir para esses locais preencher os vazios”, reforça, dizendo-se convicto de que, vistos com maior zoom, os resultados destes censos “vão mostrar muitas freguesias em que já não está ninguém”.
Brasileiros dominam
Quando os Censos se realizaram, em Abril de 2021, havia 542.314 estrangeiros a residir no país, ou seja, 5,2% da população, contra os 3,7% de 2011. No intervalo censitário, o crescimento dos estrangeiros foi de 37,5%. Os brasileiros compunham de longe a maior comunidade estrangeira, com 199.810 pessoas, seguindo-se os angolanos (com 31.556 pessoas) e os cabo-verdianos (27.144). “Sem a mão-de-obra brasileira, o país não sobreviveria, basta olhar para o sector turístico”, avisa Góis, lembrando o recente alerta de Lula da Silva, aquando da sua passagem por Portugal, para que regressem.
Apesar de em muito menor número, os dados recolhidos pelo INE evidenciam ainda o forte crescimento das comunidades estrangeiras provenientes do Nepal (aumentaram de 959 pessoas em 2011 para 13.224 no ano passado) e do Bangladesh (de 853 para 9150 pessoas). “É a mão-de-obra mais barata do mundo”, ilustra ainda Pedro Góis, à laia de explicação para este crescimento da população asiática.
No outro lado da moeda, os Censos 2021 dão conta que o número de portugueses que já residiram no estrangeiro e que regressaram, entretanto, ultrapassavam os 1,6 milhões. Os ex-emigrantes concentram-se nas regiões Norte e Centro, além de na Madeira, sendo que regressaram maioritariamente de países como a França (23,2%), Angola (14%), Suíça (8,1%) e Brasil (7,2%). “Os que aparecem como regressados são, além dos retornados dos anos 70 e 80, são maioritariamente pessoas mais idosas e que vêm envelhecer o país, depois de terem chegado ao fim da carreira laboral nos países de acolhimento”, remata Góis.
O país em números
13,3%
foi quanto cresceu a população de Odemira, o concelho que mais cresceu na última década, sobretudo por causa do aumento da presença de imigrantes. No seu todo, a população reduziu-se em 219.112 pessoas, sendo que o Algarve e a Área Metropolitana de Lisboa foram as únicas regiões que cresceram
182
É o número de idosos por cada 100 jovens. Há dez anos, este índice de envelhecimento era de 128 idosos por cada 100 jovens, sendo que o Centro e o Alentejo apresentam os valores mais altos, com 229 e 219 idosos por cada 100 jovens, respectivamente. No extremo oposto, os Açores têm apenas 113 idosos por cada 100 jovens
76
É o número de pessoas que entram no mercado de trabalho por cada 100 que saem. A sustentabilidade e o rejuvenescimento da população activa agravaram-se em todas as regiões do país
1,7%
Foi quanto aumentaram os alojamentos na última década, num crescimento “significativamente inferior ao verificado em décadas anteriores”, segundo o INE, que aponta o Alentejo como a região que apresenta o parque habitacional mais envelhecido do país
22,3%
Dos alojamentos são arrendados e 70% são ocupados pelos respectivos proprietários, sendo os municípios do Norte e do Centro aqueles onde as casas são mais comummente habitadas pelos donos
112,5
Metros quadrados é a área média útil dos alojamentos em Portugal, sendo que, dos 4.142.581 alojamentos de residência habitual, 66,7% tinham uma área útil inferior a 119 metros quadrados
63,65
Dos alojamentos familiares de residência habitual estão sublotados (com divisões excedentes) e 12,7% estavam sobrelotados, com a maioria dos seus habitantes (76,5%) a acusarem a necessidade de mais uma divisão
19,9
Minutos é a duração média das deslocações pendulares entre casa e o trabalho ou a escola, num decréscimo muito ligeiro face aos 20 minutos de 2011. Na Área Metropolitana de Lisboa a média sobe para os 25,1 minutos, enquanto nos Açores, o percurso se faz em apenas 14,3 minutos em média.
21.11.22
O problema não é sermos muitos, é consumirmos demasiado
Quase a chegar aos 8 mil milhões de humanos, está o mundo mesmo sobrepovoado? Mais do que excesso de população, o problema está, como defendem muitos cientistas, no excesso de consumo.
Interactivo. Oito mil milhões de humanos. Quantos havia quando nasceu?
Com o mundo prestes a alcançar a marca dos 8 mil milhões de habitantes, há perguntas a fazer: quantas pessoas cabem realmente no nosso planeta? E está o mundo, de facto, sobrepovoado? O debate sobre qual é o número ideal de seres humanos é antigo – remonta ao século XVIII – e polémico e, quando somamos mais um milhar de milhões, como acontecerá esta terça-feira, as opiniões voltam a dividir-se.
Na semana passada, a revista The Economist titulava: “A população atingiu os 8 mil milhões. Não entremos em pânico”. No artigo em causa, a publicação advoga que quer o medo da sobrepopulação quer da subpopulação são manifestamente exagerados. O planeta não está nem à beira do excesso de habitantes nem do inverso colapso populacional, mesmo que no primeiro caso, os dois últimos mil milhões tenham sido alcançados no espaço de doze anos cada (os 7 mil milhões entre 1998 e 2010 e os 8 mil milhões entre 2010 e 2022).
“Oito mil milhões de pessoas é um marco importante para a humanidade”, disse a chefe do Fundo de População das Nações Unidas, Natalia Kanem, numa declaração oficial, saudando ao mesmo tempo o aumento da esperança de vida e a diminuição do número de mortes maternas e infantis.
“Ainda assim, percebo que este momento poderá não ser celebrado por todos”, acrescentou Kanem. “Alguns expressam a preocupação de que o nosso mundo está sobrepovoado. Estou aqui para dizer que o grande número de vidas humanas não é motivo de medo”.
Para muitos especialistas na matéria, dizer que o mundo tem gente a mais é estar a colocar a questão errada. “Muitos para quem, muitos para quê? Se me perguntarem se eu estou a mais? Digo que não”, afirma Joel Cohen, do Laboratório de Populações da Universidade Rockefeller, em Nova Iorque, citado pela agência France-Presse.
Para o cientista, a questão de quantas pessoas pode suportar o mundo tem dois lados: os limites naturais e escolhas humanas. Que estão ambos ligados: “As nossas escolhas fazem com que os humanos consumam muito mais recursos biológicos do que o planeta é capaz de regenerar a cada ano”, acrescenta Cohen.
O mais recente relatório climático da ONU menciona o crescimento populacional como um dos principais responsáveis pelo aumento das emissões de gases de efeito de estufa, ainda assim menor do que o crescimento económico. Mais do que excesso de população, o problema está, como defendem muitos cientistas, no excesso de consumo.
“Estamos a consumir os recursos renováveis de 1,7 planetas Terra. Se as coisas não mudarem, precisaremos de três até 2050. À medida que mais pessoas exigem mais da natureza, pioramos a já catastrófica perda de biodiversidade, acelerando a escassez de água, poluição e desmatamento”, escreveu Robin Maynard, director da organização Population Matters, sediada no Reino Unido, no jornal Guardian, no mês passado.
Ainda assim, Maynard defende que oito mil milhões de pessoas no planeta é um número que começa a ser incomportável, inclusivamente para as outras espécies. “Os governos, os organismos internacionais e as sociedades não podem ignorar o papel da população no que diz respeito ao clima, à vida selvagem e aos colapsos dos ecossistemas que hoje enfrentamos”, considera.
Mas, se em vez de tentarmos ajustar o número de pessoas que habitam o mundo, virarmos o foco antes para para o que fazemos, o que consumimos, a pegada que deixamos? A quantidade de recursos que cada pessoa consome no seu dia-a-dia tem mais impacto do que o número de humanos sobre a Terra, isto num mundo em que, estima a ONU, um terço dos alimentos que produzimos é desperdiçado a cada ano.
E, aqui, a “culpa” é dos países mais ricos que, para além de consumirem mais, têm taxas de natalidade menores do que as nações mais pobres. Ou seja, reduzir o consumo individual pode ser a receita para reduzir a pegada da humanidade sem esmagar o crescimento dos países menos desenvolvidos.
Um estudo da Oxfam publicado em 2015 estimava que a pegada ecológica de quem faz parte do 1% com os maiores rendimentos era, pelo menos, 175 vezes maior do que alguém nos 10% mais pobres. Segundo a ONU, os países pobres e de rendimento médio-baixo, de onde virá 90% do crescimento populacional na próxima década, são responsáveis por apenas um sétimo das emissões mundiais de dióxido de carbono.
“O problema é a extrema desigualdade, o consumo excessivo dos ultra-ricos do mundo e um sistema que dá prioridade aos lucros em relação ao bem-estar social e ecológico. É aqui que devemos focar nossa atenção”, afirma Heather Alberro, especialista em desenvolvimento sustentável na Universidade de Nottingham Trent, no Reino Unido, citada pelo site The Conversation.
Até porque, na realidade, a população humana não está a aumentar exponencialmente, antes a desacelerar. Na tendência actual, a população global chegará aos 9 mil milhões em 2037 e atingirá o pico em 10,4 mil milhões entre 2080 e 2100, sendo que metade do crescimento projectado entre 2022 e 2050 ocorrerá em apenas oito países, cinco deles em África (República Democrática do Congo, Egipto, Etiópia, Nigéria e Tanzânia) e três na Ásia (Índia, Paquistão e Filipinas). E se no próximo ano a Índia irá, provavelmente, ultrapassar a China como o país mais populoso do mundo, este ano, o continente africano já superou as populações combinadas da Europa e América do Norte.
1.9.22
Menos crianças e mais idosos: Portugal é o país da UE que está a envelhecer mais rapidamente
Em 1990, o rácio era de 66 idosos por cada 100 jovens. Hoje estamos nos 182 por cada 100. Pordata calculou a evolução entre 2015 e 2020 nos vários países da UE. E em Portugal há quase duas vezes mais idosos do que jovens e crianças.
Portugal é país da União Europeia onde o índice de envelhecimento — o rácio entre o grupo dos mais velhos (a partir dos 65 anos) e o dos mais novos (0 a 14 anos) — tem crescido com maior rapidez nos últimos anos.
Cálculos feitos pela equipa da base de dados estatísticos Pordata para o período compreendido entre 2015 e 2020 indicam que Portugal registou “uma taxa de crescimento médio anual do índice de envelhecimento” da ordem dos 3,6%, o ritmo mais acelerado no conjunto dos países da UE, mesmo superior ao de Itália — que em 2020 era o país com mais idosos por cada 100 jovens e crianças. Portugal subira, então, para o segundo lugar da lista.
O envelhecimento “não é dramático” mas “as sociedades precisam da energia dos jovens”
“Esta taxa de crescimento foi calculada na lógica das taxas de juro, olhando para 2015 e 2020, sem considerar valores intermédios”, explica ao PÚBLICO a directora da Pordata, Luísa Loura. O que se observa é um estreitamento progressivo e veloz da base da pirâmide etária e o alargamento do topo, que se voltou a acentuar em 2021, quando a relação entre os mais velhos e os mais novos passou para 182 por 100 em Portugal, de acordo com os dados provisórios do último censo. “É a base da pirâmide que está muito estreita”, enfatiza.
Este indicador é relevante porque ilustra o processo de duplo envelhecimento da população residente em Portugal. E o que se percebe é que o processo “está a ser mais rápido do que nos outros países”, em resultado do aumento da esperança de vida, por um lado, e da contínua quebra da fecundidade e da natalidade, por outro, nota Luísa Loura.
Centro e Alentejo são as regiões mais envelhecidas
Quando divulgou os resultados provisórios do Censos 2021, em Dezembro passado, o Instituto Nacional de Estatística (INE) chamou a atenção para este fenómeno. “O envelhecimento demográfico em Portugal continuou a acentuar-se de forma muito expressiva, salientando os desequilíbrios já evidenciados na década anterior”, destacou o INE, lembrando que em 2011 este índice era de 128 idosos por cada 100 crianças e jovens até aos 14 anos, e de 102 em 2001, ano em que a relação entre os dois grupos etários se inverteu.
Desde então, o número praticamente duplicou, corresponde agora quase ao dobro do total de jovens e crianças e a transformação aconteceu num curtíssimo espaço de tempo — em 1990, o rácio era ainda de 66 idosos por cada 100 jovens. A equipa da Pordata calcula que as taxas de crescimento médio anual do índice de envelhecimento ficaram acima dos 3% durante os anos 90 do século passado, para “abrandarem durante a primeira década deste século” e voltarem a crescer a partir de 2010.
O envelhecimento demográfico é uma tendência transversal ao conjunto dos países da União Europeia, onde as consistentemente baixas taxas de natalidade e a maior esperança de vida estão a transformar a forma da pirâmide etária desde há décadas.
Porém, na análise de curto prazo feita pela Pordata, projecto da Fundação Francisco Manuel dos Santos, entre 2015 e 2020 há dois países em que o índice de envelhecimento não aumentou: a Alemanha e a Suécia registaram mesmo uma ligeiríssima redução neste período (menos 0,1%). De resto, este rácio subiu em todos os outros países e com maior rapidez, além de Portugal, na Irlanda (que, ainda assim, continua a ser o menos envelhecido de todos, com 72 idosos por 100 crianças em 2020), na Finlândia e nos Países Baixos.
Em Portugal, o aumento do índice de envelhecimento é comum a todas as regiões do país, como sinalizou o INE, mas era mais expressivo no Centro e no Alentejo, com 229 e 219 idosos por cada 100 jovens no ano passado, respectivamente. Em contrapartida, a Região Autónoma dos Açores, Área Metropolitana de Lisboa e Região Autónoma da Madeira tinham então os índices mais baixos: 113, 151 e 157. Oleiros, Alcoutim e Almeida eram os municípios do país mais envelhecidos, com sete vezes mais idosos do que jovens.
Na última década, a população decresceu em todos os grupos etários, com excepção dos idosos, que representavam no ano passado já quase um quarto do total dos residentes no país (23,4%) e o grupo das crianças e jovens até aos 14 anos foi o que sofreu a redução mais expressiva, correspondendo então a apenas 12,9% da população.
Imigrantes, precisam-se
Feitas as contas, procuram-se explicações e respostas. “A distância entre os dois grupos — os mais novos e os mais velhos — está a acentuar-se em Portugal. O grupo dos mais novos está a diminuir muito e o dos mais velhos está a aumentar muito. A consequência é esta e é preocupante”, sintetiza Paulo Machado, presidente da Associação Portuguesa de Demografia.
“O problema é que toda a nossa organização social assenta na relação entre grandes grupos etários e, quando isto se desequilibra, temos que perguntar: como é que nos organizamos agora?” Para Paulo Machado, “a solução à vista é a imigração”. Os imigrantes chegam em idades mais jovens e têm mais filhos, e a sua contribuição para a natalidade é significativa, lembra.
Mas isso não será suficiente para “estancar a hemorragia” populacional e as “as projecções indicam que, pelo menos até 2050, 2060”, este índice continuará a agravar-se e “até lá o país poderá perder 2,5 milhões de habitantes”.
“Temos que trabalhar em duas frentes — dar condições aos jovens portugueses para terem famílias mais numerosas e criar condições para que quem vem de fora se sinta cá bem e fique”, complementa Luísa Loura, apontando o exemplo da Alemanha, país que “abriu muito as portas à imigração”.
A directora da Pordata sublinha ainda que há países, como a França, que conseguem ter um índice de longevidade (número de pessoas com 80 e mais anos por cada 100 com 65 e mais anos) dos mais elevados e, simultaneamente, um dos índices de envelhecimento mais baixos. “Isto significa que França consegue ter a base da pirâmide suficientemente alargada, conseguiu reforçá-la com uma série de políticas para a natalidade que surtiram efeito.”
Portugal, pelo contrário, não está a conseguir ampliar a base da pirâmide e esse é que é “o nosso problema”. E o futuro não se afigura risonho, se nada se alterar entretanto. O índice se envelhecimento continuará crescer nos próximos 35 anos, porque o grupo etário dos 45 aos 49 anos e os grupos acima destas idades, “dos 50 aos 54 anos e por aí fora”, são os mais volumosos e “têm muito peso na pirâmide etária”, explica.
Na década de 50, o número de idosos atingirá o valor mais elevado, momento a partir do qual passa a decrescer. Estamos, portanto, num processo de aceleração do envelhecimento que não vai durar para sempre mas ainda vai durar muitos anos. “É imprescindível que Portugal integre pessoas vindas de outros países”, repete.
No mesmo sentido, nas projecções populacionais feitas em Março de 2020, o INE já apontava para uma quase duplicação do índice de envelhecimento em Portugal entre 2018 e 2080, ano poderá haver 300 idosos por cada 100 jovens, em resultado do contínuo decréscimo da população mais nova.
“O índice de envelhecimento só tenderá a estabilizar na proximidade de 2050, quando as gerações nascidas num contexto de níveis de fecundidade abaixo do limiar de substituição das gerações já se encontrarem no grupo etário 65 e mais”, concluía.
6.5.22
Portugal a aquecer e a envelhecer: uma combinação crítica para o país
Espera-se um aumento na ocorrência de doenças respiratórias na população e o respetivo impacto na sociedade, no mercado de trabalho e nos serviços de saúde. A nível global, os custos económicos da poluição do ar representam 3,3% do PIB.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a poluição atmosférica seja responsável por 43% das mortes e casos de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), 29% das mortes e casos de cancro de pulmão e por 17% das mortes e casos de infeções respiratórias agudas em todo o mundo. Isto sem falar noutras doenças fora do âmbito respiratório, mas que a evidência científica começa a estabelecer relações com a poluição do ar, nomeadamente problemas cardíacos, oncológicos, risco de AVC, risco de diabetes, envelhecimento da pele, etc. A exposição à poluição do ar é assim responsável por milhões de mortes e anos perdidos de vida saudável anualmente e pelos consequentes impactos na sociedade e na economia.
Neste âmbito, pela primeira vez, um estudo global do Centro de Pesquisa para a Energia e Ar Limpo (CREA, sigla em inglês) quantificou os custos económicos da poluição do ar pelos combustíveis fósseis estimando-os em 3,3% do PIB global, excedendo em muito os custos projetados da redução de uso de combustíveis fósseis. O impacto na produtividade também foi quantificado, cifrando-se em 1,8 mil milhões de dias de ausência do trabalho por ano. Focando-se no ano de 2018, este estudo quantificou 4,5 milhões de mortes a nível global devido à exposição à poluição do ar por combustíveis fósseis, sendo que cada morte foi associada a uma perda de 19 anos de vida. O CREA avaliou também os países onde o impacto é maior e a China lidera o ranking com custos pela poluição do ar a representarem 6,6% do PIB, seguindo-se a Bulgária e a Hungria, ambos os países com 6%, e depois os restantes países do Leste da Europa. Já os custos per capita colocam os países desenvolvidos no topo da tabela, com o Luxemburgo, os EUA e a Suíça no pódio.
Na esfera europeia, apesar das melhorias registadas nos últimos anos, fruto de esforços nacionais e concertados, a poluição do ar ainda continua a ser um grande problema. Segundo a Agência Europeia do Ambiente, em 2019, na Europa a 27, a poluição do ar foi responsável por 307 mil mortes prematuras. O Plano de Ação Zero Poluição estabelece a meta de reduzir o número de mortes prematuras devido à exposição a partículas finas em 55% até 2030, em comparação com 2005.
Nas alturas em que há incêndios florestais significativos, há imediatamente a seguir um aumento da má qualidade do ar.António Jorge Ferreira, PneumologistaNa realidade, atualmente mais de 80% da população citadina está exposta a níveis de poluição acima dos recomendados pela Organização Mundial da Saúde, provocando todos estes danos à sociedade, à economia e à saúde das pessoas. "A nível respiratório, a asma e a DPOC são seguramente as duas patologias que vemos com mais realidade e que se prendem muito diretamente com a área da saúde ambiental. Os principais compostos que avaliamos na qualidade do ar, como a matéria particulada, o ozono, os dióxidos de enxofre e de azoto e o monóxido de carbono, estão diretamente relacionados com várias patologias. O impacto pode começar logo na vida intrauterina, havendo uma perturbação do crescimento pulmonar saudável, o que pode levar a anos mais tarde a uma diminuição da capacidade funcional respiratória. O ambiente poluído também leva à inflamação crónica das vias respiratórias e pode inclusive aumentar o risco de outras doenças", assinala António Jorge Ferreira, pneumologista e coordenador da Comissão de Trabalho de Doenças Ocupacionais e Ambiente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP). O tema esteve em debate na conferência "O Pulmão e o Ambiente", organizada pela SPP no passado dia 30 de abril, em Lisboa.
Em 2021, a OMS divulgou novas guidelines sobre a qualidade do ar, reconhecendo que a sua poluição tem impactos na sociedade ao nível do tabaco e da alimentação não saudável. Neste sentido, baixou os níveis de exposição aceitável a elementos como monóxido de carbono, ozono, partículas finas, entre outros, encorajando os países a pô-las em prática de forma a reduzir os impactos da poluição atmosférica na sociedade.
Portugal: efeitos do calor, incêndios e seca
Apesar de a qualidade do ar em Portugal ter vindo a melhorar ao longo dos anos, fenómenos extremos associados às alterações climáticas, como o calor, os incêndios e a seca estão a afetar cada vez mais o país. Na realidade, na região do Mediterrâneo, onde Portugal está inserido, a temperatura média já atingiu os 1,5º de tecto previsto no Acordo de Paris para evitar problemas ambientais catastróficos. Não esquecendo a exposição a pontuais vagas de poeiras provenientes de África, sendo que a última incidência no país foi a maior dos últimos 16 anos. Todos estes fenómenos extremos conjugados potenciam o desenvolvimento ou agravamento de doenças respiratórias, destaca o pneumologista: "Nós sabemos que nas alturas em que há incêndios florestais significativos há imediatamente a seguir um aumento da má qualidade do ar, com muita matéria particulada na atmosfera e resíduos da combustão destes incêndios florestais. Vimos isso no fatídico ano de 2017."
E isto tem ligação direta com a saúde dos portugueses. Um artigo conjunto de cientistas da Universidade de Lisboa, intitulado "Poluição do Ar e Admissões na Emergência Hospitalar -Evidências na Área Metropolitana de Lisboa", publicado em 2020, concluiu que foi encontrado "um número considerável de associações entre poluição do ar e admissões de emergências hospitalares em todas as doenças analisadas, sejam elas circulatórias ou respiratórias". "Também descobrimos que os municípios com maiores níveis de vulnerabilidade à poluição do ar (tráfego, densidade populacional, características socioeconómicas, mudanças climáticas) apresentam mais relações entre ar poluído e admissões em emergência hospitalar." Neste sentido, um projeto internacional (Fireurisk), delineado a partir da Universidade de Coimbra, está a avaliar o impacto dos eventos extremos dos incêndios florestais na Europa e formas integradas de combater os seus efeitos.
Por outro lado, os fenómenos climáticos adversos afetam com mais incidência as populações mais vulneráveis, nomeadamente os idosos. Um estudo recente realizado por Mónica Rodrigues, investigadora no Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Coimbra, projeta o impacto das alterações climáticas na mortalidade em Portugal a curto e a longo prazo. Em particular, o estudo identificou os grupos de idade (inferior a 65 anos e +65 anos) em risco no âmbito do impacto das alterações climáticas sobre as doenças do aparelho circulatório nas Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto. Os resultados, explica Mónica Rodrigues, evidenciam que para os períodos futuros se prevê "um aumento da temperatura, quer no verão, quer no inverno, com maior frequência de ondas de calor, tendo influência na mortalidade". "Por exemplo, na Área Metropolitana de Lisboa, durante os meses de verão, observa-se um aumento da mortalidade associada ao calor extremo, em todas as idades, na ordem de 1,58% e 0,10% em ambos os períodos (2051-2065 e 2085-2099, respetivamente), comparativamente ao período histórico (1991-2005)."
Segundo a especialista, os resultados obtidos através da modelação climática e em saúde "podem, e devem influenciar a formulação de políticas e incluir uma abordagem preventiva". O mesmo defende António Jorge Ferreira: "O país está a aquecer e nós estamos a envelhecer, ou seja, temos uma população cada vez mais frágil. Tem, portanto, de haver um investimento significativo na área do envelhecimento ativo e saudável. Os próprios serviços de saúde têm de se reorientar nesse sentido".
Para acompanhar os níveis de qualidade do ar da sua localidade, pode consultar visualizadores nos sites da Agência Portuguesa do Ambiente (QualAr) e da Agência Europeia do Ambiente.
25.2.22
O futuro de todos nós em debate
Porque construir um futuro para um envelhecimento saudável é possível, reserve já lugar na sua agenda para assistir, no próximo dia 15 de março, das 9h00 às 13h00, à 3ª edição do “Fórum Reino Unido - Portugal sobre Envelhecimento Saudável”.
Conferência «Construir um Futuro para um Envelhecimento Saudável»:
Neste evento, que permitirá a partilha de experiências, melhores práticas e ideias sobre envelhecimento ativo e saudável, um conjunto de oradores portugueses e britânicos tentarão encontrar respostas para os grandes desafios de uma sociedade em permanente mudança mas também cada vez mais envelhecida.
- Que desafios nos coloca uma sociedade em envelhecimento?
- Como será envelhecer em 2030?
- Como garantir a qualidade de vida de uma população cada vez mais envelhecida?
Estas e outras questões serão abordadas por vários especialistas, de várias áreas, em discursos e mesas redondas, tendo por base uma perspetiva de vida independente em serviços de cuidados continuados. Serão ainda discutidas várias outras temáticas relacionadas com tecnologias e serviços de saúde; conceção centrada na pessoa; construção de edifícios e muito mais.
A moderação dos debates estará a cargo do jornalista da Renascença José Pedro Frazão.
PROGRAMA (em atualização):
09:00 – 09:30 - Receção dos participantes
09:30 - 09:40 - Sessão de Abertura
· Edmundo Martinho, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
· Christopher Sainty, Embaixador Britânico em Portugal
· Representante do Governo Português (TBC)
09:40 – 10:10 - Keynote Speaker – Sarah Harper, Oxford Institute of Population Ageing
10:10 – 11:10 - Mesa Redonda - Como garantir a qualidade de vida numa população em envelhecimento?
Moderador: José Pedro Frazão, Renascença
· Eduardo Gomensoro, Diretor de Vacinas para a Europa, GSK
· Alexandre Kalache, Presidente, Centro Internacional de Longevidade – Brasil
· David Sinclair, Diretor, Centro Internacional de Longevidade – Reino Unido
11:10 – 11:30 - Coffee break
11:30 - 12:30 - Mesa redonda - Como será o processo de envelhecimento em 2030 ?
Moderador: José Pedro Frazão, Renascença
· Paul McGarry, Coordenador estratégico, Greater Manchester Ageing Hub
· António Carvalho, Professor Associado de Arquitetura e Urbanismo, Politecnico di Milano
12:30 - 13:00 - Keynote speaker – Adalberto Campos Fernandes, Professor Escola Nacional de Saúde Pública, Universidade Nova de Lisboa
13:00 - Sessão de Encerramento
Como assistir:
Pode assistir aos vários painéis de debate ao vivo na Sala de Extrações da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, no Largo Trindade Coelho, remotamente via zoom (ambos mediante inscrição prévia) ou em direto no site e no Facebook da Renascença.
O debate realiza-se em língua inglesa com tradução simultânea para português, assim como em língua gestual Portuguesa.
Construir um Futuro para um Envelhecimento Saudável é um tema que nos interessa a todos, que envelhecemos, e é o tema da terceira edição do “Fórum Reino Unido- Portugal sobre Envelhecimento Saudável”. Um evento produzido em parceria pela Embaixada Britânica em Lisboa e a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa com apoio Renascença.
Inscreva-se já na 3ª edição do “Fórum Reino Unido - Portugal sobre Envelhecimento Saudável”:
- Para assistir presencialmente
- Para assistir remotamente
23.2.22
Quase 11% de crianças em privação material e social, segundo o INE
Instituto Nacional de Estatística acaba de publicar resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento das Famílias, nomeadamente dos módulos Saúde e Privação Material das Crianças e Condições de Vida e Situação das Crianças que Vivem em Famílias Separadas ou Reconstituídas. Mais de 15% das crianças não podem passar férias fora de casa uma semana por ano.
Em 2021, dos 1,5 milhões de crianças com menos de 16 anos em Portugal, quase 11% pertenciam a agregados familiares em privação material e social, mostram dados do Instituto Nacional de Estatística, que acaba de publicar pela primeira vez os destaques Saúde e Privação Material das Crianças e Condições de Vida e Situação das Crianças que Vivem em Famílias Separadas ou Reconstituídas.
Esta percentagem – que é exactamente de 10,7% – é ligeiramente inferior à da população em geral, situada nos 13,5%. Também o indicador de privação material e social severa mostra que esta afectou ligeiramente menos as crianças com menos de 16 anos (5,1%) do que a população em geral (6%).
Estas dificuldades traduzem-se em privação a vários níveis, sendo que as taxas para as famílias com crianças foram superiores às da população em geral num dos itens de privação material e social sobre a habitação: no atraso em algum dos pagamentos regulares relativos a rendas, prestações de crédito ou despesas correntes da residência principal, ou outras despesas não-relacionadas com a residência principal, que nas famílias com crianças foi de 9,3%, enquanto para o resto foi de 6,9%.
As consequências das privações foram, assim, de diversa natureza: por exemplo, 15,5% das crianças não conseguiam passar férias fora de casa pelo menos uma semana por ano; 9,7% das crianças não conseguiam participar regularmente numa actividade extracurricular ou de lazer; 6,6% não podiam participar em viagens e actividades escolares não-gratuitas; 4,3% das crianças não podiam comprar roupa nova; 1,6% não conseguiam celebrar ocasiões especiais; e 1,5% não podia convidar amigos de vez em quando, para brincarem e comerem juntos.
Para a privação material e social influenciam factores como a composição familiar e a escolaridade dos pais. As crianças que vivem em famílias com dois adultos e duas crianças representaram 13,4% das que estavam em privação material e social, enquanto as que vivam em famílias monoparentais onde há pelo menos uma criança foram quase 20% – percentagem que baixou para os 12,4% quando o agregado tinha dois adultos. Por outro lado, foi nos agregados com mais do que dois adultos que se verificou a maior taxa de crianças em privação material: 33,2%.
Como em outras questões, também nesta o nível de escolaridade dos pais foi uma das características que mais afectaram as crianças em privação material e social, ou seja, quanto mais escolarizados os pais, menor a probabilidade de o filho sofrer privações: a percentagem de crianças em privação que vivia num agregado em que pelo menos um dos pais tinha o ensino superior foi de 8,4%, enquanto essa percentagem era de 54,8% quando ambos tinham o ensino básico ou nenhum e de 32,8% quando um deles tinha o secundário ou pós-secundário.
Por outro lado, ao nível da saúde, os resultados mostram que 90,5% das crianças com menos de 16 anos apresentavam um estado de saúde muito bom ou bom, o que é bastante mais alto em relação à média nos cinco anos anteriores para a população dos 16 aos 64 anos (61,3%). Dos que não tinham um resultado positivo, 8,1% referiam um estado de saúde razoável. O INE revela ainda que a região de residência foi a característica que mais distinguiu as crianças em relação à avaliação do estado de saúde, com os do continente a assinalarem 1,8 pontos percentuais acima da taxa registada na Madeira e 6,3 acima nos Açores. Ainda em relação à satisfação das necessidades de saúde, 6,5% das crianças não tinham dinheiro para consultas/tratamentos dentários nos 12 meses anteriores à entrevista, algo que no caso de outras consultas e tratamentos médicos teve uma expressão residual – só 1,5% das crianças não foi ao médico por falta de dinheiro.
Guarda partilhada em 18,7% dos casos
Os dados do INE mostram ainda que apenas 1,8% da população adulta em idade activa tinha filhos menores fora do seu agregado familiar, estava na faixa dos 40 anos, e que, dentro desse perfil, apenas 18,7% tinham a guarda partilhada, ou seja, a guarda das crianças que viviam fora do agregado estava atribuída sobretudo ao progenitor com quem viviam (74,1%). A maioria dos filhos menores fora do agregado tinha entre dez e 13 anos (29,0%) e entre 14 e 17 anos (31,2%). Neste perfil de quem tinha filhos fora do agregado, 93,8% eram homens.
Já em relação às distâncias entre as residências de pais e filhos fora do agregado, verificou-se que mais de 70% dos progenitores moravam perto dos filhos: a dez minutos ou menos de distância para 30,1% dos progenitores, e de 11 a 30 minutos para 40,3%. Cerca de 74,5% tinham um quarto individual ou partilhado para os filhos fora do agregado dormirem: as crianças ali passaram por mês, em média, quatro noites (20,9%), entre quatro e sete noites (19,3%) e entre oito e 15 noites (25,1%).
Por outro lado, segundo responderam ao INE, no ano anterior 41,6% partilharam o seu tempo com os filhos fora do agregado todas as semanas em refeições, brincadeiras, trabalhos de casa, passeios, conversas, deslocações casa-escola; 15,9% referiram que o fizeram diariamente. Cerca de 42,3% referiram ter contactado os filhos fora do agregado todos os dias através do telefone, videochamada ou redes sociais nos 12 meses anteriores; 32,1% fizeram-no todas as semanas.
Este destaque foi obtido a partir do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento das Famílias. Segundo a nota metodológica, em 2021 o inquérito dirigiu-se a 16.478 famílias, das quais 10.973 com resposta completa, com recolha de dados sobre 26.822 pessoas; 23.730 com 16 e mais anos. Os dados do módulo Saúde e Privação Material das Crianças respeitam às pessoas com menos de 16 anos no final de 2020, residentes em 3092 agregados, e foram obtidos através de entrevistas aos representantes dos agregados domésticos privados. Os dados do módulo Condições de Vida e Situação das Crianças que Vivem em Famílias Separadas ou Reconstituídas dizem respeito às pessoas com 16 ou mais anos no final de 2020.
22.2.22
Emigração desceu em 2021, mas remessas foram as mais altas desde o euro
Joana Gorjão Henriques, in Público on-line
A Suíça voltou a ser o principal país de remessas de emigrantes em 2021. Total atingiu quase os 3,7 mil milhões de euros, mais 1,8% do que no ano passado, mostram os dados do Banco de Portugal.
No ano passado a emigração para o estrangeiro diminuiu, em grande parte resultado da pandemia e dos efeitos do Brexit, já que o Reino Unido era um dos destinos de eleição de portugueses e sofreu uma baixa de 70%.
Só que, mesmo assim, as remessas foram as mais altas desde que foi introduzida a moeda euro, mostram os dados do Banco de Portugal compilados pelo Observatório da Emigração: entraram no país 3.677.76 milhões de euros em remessas de emigrantes, mais 1.8% do que no ano passado, o que representa uma inversão da tendência de descida que se tinha registado no ano anterior.
O pico da emigração portuguesa atingiu as 120 mil saídas em 2013, e o das remessas aconteceu em 2001, ainda antes da introdução do euro, com um valor um pouco mais elevado do que o do ano passado, feita a correspondência para a nova moeda: 3.736.82 milhões de euros. Segundo mostra o Observatório da Emigração, entre 2001 a 2021 a variação no valor das remessas dos emigrantes recebidas em Portugal faz o desenho de uma curva em ‘U': desceu até 2009, e voltou a subir em 2010, com 2012 e 2013 a serem anos de destaque, ultrapassando a barreira dos 3 mil milhões neste último.O Observatório da Emigração chama porém a atenção para o facto de as variações deverem ser analisadas “com cautela” já que, “em alguns casos, estas mudanças podem ser explicadas mais por variações cambiais do que por modificações na emigração”.
São os países onde vivem mais portugueses, mas também para onde mais portugueses emigraram, Suíça e França, que mais enviaram dinheiro para Portugal no ano passado: juntos, representaram mais de 56% do total em 2021. A Suíça continuou a ser o principal país de envio de remessas, com 28% do total, algo que repete a tendência do ano anterior. Foram viver para a Suíça no ano passado 7.542 portugueses, continuando este a ser o segundo país do mundo com mais emigrantes portugueses (eram 210.731 em 2020), depois de França com mais de meio milhão.
Já em relação ao Reino Unido a quebra na emigração foi muito significativa: tinham sido 20 mil os portugueses a ir viver para aquele país em 2020 e foram três vezes menos em 2021. Mesmo assim, o Reino Unido foi o terceiro principal país de envio de remessas, com 11,7%, ficando Angola em quarto com 6,8% e os Estados Unidos com a mesma percentagem. As remessas enviadas de Espanha, que era um dos países de eleição da emigração portuguesa e sofreu uma quebra de mais de 36%, foram quase metade das da Alemanha ficando estes dois países em sexto e sétimo lugar respectivamente.
18.2.22
População estrangeira residente em Portugal aumentou outra vez
Os brasileiros são os mais numerosos, seguidos dos britânicos, cabo-verdianos e indianos. Há mais de 714 mil estrangeiros a morar em Portugal.
A população estrangeira residente em Portugal aumentou em 2021 pelo sexto ano consecutivo.
Dados provisórios do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) indicam que 714.123 cidadãos estrangeiros residiam no país no final do ano passado, mais 7,8% do que em 2020, quando viviam em território nacional 662.095. O aumento da população estrangeira é um fenómeno que se verifica desde 2016, altura em que viviam no país 397.731 pessoas, tendo quase que duplicado em 2021.
Segundo o SEF, foi em 2019 que se verificou o maior aumento de estrangeiros: 22,9%. As nacionalidades mais representadas são as oriundas do Brasil (209.072), seguido do Reino Unido (42.071), Cabo Verde (35.913), Índia (30.995) e Itália (30.887). Apesar disso, as novas autorizações de residência atribuídas a imigrantes em 2021 diminuíram quase 8% face ao ano anterior.
No ano passado foram atribuídas cerca de 109 mil novas autorizações de residência, enquanto no ano anterior tinham sido concedidas 118.124. O SEF avança que os novos títulos emitidos em 2021 foram sobretudo atribuídos a indianos, brasileiros, nepaleses, italianos, franceses e alemães.
Segundo este serviço de segurança, foram concedidas autorizações de residência para exercício de actividade profissional a 13.027 brasileiros, 5.685 indianos e 1.876 nepaleses. Foram também aprovadas concessões de residência a 5.307 italianos, 4.750 franceses e 3.937 alemães.
No âmbito do reagrupamento familiar foram passadas no ano passado 8.482 autorizações de residência a 8.492 brasileiros, 732 angolanos e 572 indianos.
Nascimentos caem 6% em 2021. Quase 10% das mortes foram com covid
Portugal voltou a registar saldo natural negativo, mostram dados do INE.
O número de mortes em 2021 aumentou 1,2% face ao ano anterior e o número de nascimentos baixou 5,9%, agravando o saldo natural negativo em Portugal, revelam dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados esta sexta-feira.
“Em 2021, registaram-se 125.147 óbitos em Portugal, mais 1.468 (1,2%) do que em 2020 e mais 12.856 (11,4%) do que em 2019”, segundo as “Estatísticas Vitais - Dados mensais” do INE. Desde 2009 que o número de óbitos registados no país é superior ao número de nascimentos.
Relativamente ao número de mortos por covid-19, os dados indicam que foram registados, no ano passado, 12.004 (6.972 em 2020), correspondendo a 9,6% do total de óbitos.
No mês de Janeiro de 2022, o número de óbitos foi 11.690, valor superior ao registado no mês de Dezembro de 2021 (mais 245 óbitos) e inferior ao observado no mês de Janeiro de 2021 (menos 7.981 - 40,6%).
O número de mortos por covid-19 ascendeu a 972 em Janeiro, representando 8,3% do total de óbitos, mais 454 face a Dezembro de 2021 e menos 4.183 relativamente ao mês de Janeiro do mesmo ano, revelam os dados.
Em Dezembro de 2021 registaram-se 6.875 nados-vivos, correspondendo a um aumento de 9,4% relativamente ao mesmo mês de 2020.
“O número total de nados-vivos registados em 2021 foi 79.692, valor inferior ao verificado em 2019 e 2020, respectivamente, menos 7.334 e menos 4.999 nados-vivos”, salienta o INE.
Em Dezembro de 2021, o saldo natural foi de menos 4.542, desagravando-se relativamente ao do mês homólogo de 2020, quando registou o valor de menos 6.703.
“O saldo natural de 2021 foi -45.289, agravado relativamente ao observado em 2019 (-25.214) e 2020 (-38.932)”, referem os dados do INE.
21.1.22
Desafios de um país a envelhecer
Entre os estados membros da União Europeia, Portugal é dos países mais envelhecidos, onde cerca de um em cada quatro portugueses tem mais de 65 anos. Os dados provisórios dos Censos de 2021 revelam que Portugal está a ter um "duplo envelhecimento": um incremento expressivo da população idosa e uma redução do número de jovens. E como temos olhado para este fenómeno?
Este fenómeno resulta em vários fatores sociais positivos. Muitos de nós continuarão a trabalhar à medida que envelhece, a apoiar as suas famílias, a transmitir conhecimento e a contribuir para a produção de valor social e económico para a nossa sociedade. A imagem do idoso completamente dependente e incapaz está (ou deveria estar) completamente ultrapassada. No entanto, embora a longevidade seja uma conquista, também pode criar inúmeros desafios individuais e coletivos para fazer face às necessidades mais complexas da população envelhecida.
Com o "duplo envelhecimento" é necessário criar novas oportunidades de trabalho e de aprendizagem ao longo da vida, elaborar programas de participação ativa onde se sintam envolvidos na sociedade e úteis para com as outras pessoas, investir na avaliação e deteção atempada do risco de solidão e isolamento social, e incentivar intervenções preventivas na doença crónica e saúde mental.
A sociedade atual tem de refletir e antecipar estas e outras questões, ou arriscamos atingir as próximas décadas totalmente desprovidos de meios e sem qualquer política que nos garanta envelhecer com qualidade e acesso adequado aos serviços de saúde.
A investigação tem demonstrado que idosos mais escolarizados e com literacia digital tendem a ser mais eficientes na utilização de serviços de saúde e estão mais consciencializados para os benefícios do recurso a cuidados de saúde de qualidade. Os cuidados de saúde, os cuidados de longa duração e outros serviços que promovam uma vida saudável e independente precisam de funcionar adequadamente para as atuais e futuras gerações de idosos.
A promoção do envelhecimento ativo e saudável deve ser uma prioridade política e uma responsabilidade individual e coletiva, sendo de estranhar que neste período eleitoral o tema tenha ficado fora da agenda.
Tal como o demógrafo Chris Wilson afirmou "o século XX foi principalmente um século de crescimento populacional, o século XXI será de envelhecimento populacional". O impacto das tendências demográficas expressa-se lentamente, mas são necessárias políticas de longo prazo. São necessárias políticas para o futuro que comecem hoje - que transformem o envelhecimento da população numa oportunidade para a sociedade se reinventar.
investigadora no Centro de Medicina Digital P5 da Escola de Medicina da UMinho
16.11.21
86% das pessoas quer acabar os dias em casa
Fátima Ferrão, in Expresso
Portugal tem que criar uma economia da longevidade, que seja um dos pilares fundamentais da sociedade e um eixo de desenvolvimento económico. Uma conclusão com a concordância de todos os peritos presentes na conferência “Parar para Pensar: Longevidade”, integrada no ciclo de oito debates, que juntam o Expresso à Deco Proteste, e que contam com o patrocínio da Google. Conheça as conclusões da conversa de hoje no edifício da ImpresaPortugal é o quarto país mais envelhecido do mundo e, segundo as previsões de evolução demográfica, será o terceiro entre 2030 e 2040. Uma realidade que coloca um conjunto de desafios sociais e económicos ao sector público, mas também às empresas e ao privado. “É preciso garantir a dignidade no envelhecimento”, defende António Lacerda Sales, um dos convidados da conferência “Parar para Pensar: Longevidade”, que decorreu hoje no edifício sede da Impresa. Para o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, depois dos 65 anos e da reforma, as pessoas continuam a querer – “e muito bem” -, participar na vida ativa com projetos e escolhas. No fundo, acredita, “a longevidade é uma sementeira que começa na concepção, e que se reflete e determina tudo o que fazemos ao longo da vida”. Isto significa, diz ainda o governante, que “temos que olhar muito seriamente e com muita responsabilidade para esta questão”.
Ana Sepúlveda, socióloga e fundadora do 40+ Lab, consultora para os temas do envelhecimento e da longevidade, acredita que, apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer em Portugal na abordagem a estas temáticas, no último ano, “foram dados passos muito grandes”. A criação da rede Repensa, que junta o trabalho realizado pelos quatro centros de estudos dedicados à questão do envelhecimento que, anteriormente, trabalhavam de forma isolada, foi “um grande avanço”. Ainda assim “não olhamos para a economia da longevidade que, em alguns países, já foi colocada como um dos pilares fundamentais da organização económica e social”.
Na opinião de Maria da Luz Cabral há, de facto, muito a fazer para transformar mentalidades e para mudar a estrutura da sociedade, de forma a dar resposta ao aumento da esperança média de vida das pessoas. Nas empresas, exemplifica, é necessário flexibilizar a saída do mercado de trabalho e preparar essa nova fase da vida que, não obrigatoriamente será menos ativa. A coordenadora do projeto de políticas públicas na longevidade da Santa Casa da Misericórdia acredita que “é preciso capacitar os profissionais a partir da experiência e do conhecimento dos mais velhos, que é obrigatório continuar a integrar nas empresas e na sociedade”. Uma opinião partilhada por Carlos Lobo, sócio fundador da Lobo Vasques, sociedade de advogados especializada em direito fiscal. “É uma oportunidade vivermos mais tempo, mas estamos a transformar o que podia ser um ativo, num passivo”, diz, acrescentando que “temos que mudar mentalidades e o atual anátema da velhice”.
Outras conclusões:
Maria da Luz Cabral revela que, segundo um estudo realizado no projeto que coordena na Santa Casa da Misericórdia, 86% das pessoas inquiridas manifestaram desejo de terminar os dias na sua casa. Mas para concretizar esta vontade será necessário apostar no reforço de estruturas como o apoio domiciliário, mas num formato personalizado de acordo com cada um. “Temos que criar uma sociedade que cuida bem, com cuidado humano”, diz. Carlos Lobo complementa: “Toda a estrutura do Estado tem que ajustar-se para ter mais pessoas a cargo”.
“Temos que evitar que a vida depois dos 65 anos seja de solidão e de falta de atividade”, afirma António Lacerda Sales. E “será necessária uma maior confluência intergeracional, e uma estratégia na área do envelhecimento ativo e da economia da longevidade”. E esta mudança tem que começar de cima para baixo, acrescenta Ana Sepúlveda. “Do poder económico, para o poder público, Portugal tem que encontrar o seu espaço neste mundo”.
António Lacerda Sales recorda também os desafios que se colocarão em Portugal com a concretização das projeções que apontam para que, em 2070, o país tenha dois milhões de pessoas a menos, dois terços da população com mais de 65 anos e quatro milhões de pessoas ativas. A solução, defende, tem que começar a ser pensada desde já, criando uma estratégia nacional para a longevidade, articulada com uma estratégia europeia, uma vez que todos se debatem com os mesmos problemas.
“Longevidade é uma mentalidade emergente”
28.10.21
Um em cada cinco portugueses está em risco de pobreza, revela novo indicador
Eurostat divulgou esta quinta-feira os novos indicadores do risco de pobreza e exclusão social. O alargamento do conceito foi mais notório entre os idosos, cuja taxa de risco de pobreza e exclusão social subiu de 20,2% para 21,4% no ano passado.
São, afinal, 20% os portugueses que estão em risco de pobreza ou exclusão social, segundo os dados revelados esta quinta-feira pelo Eurostat, relativos a 2020. Os últimos indicadores do Instituto Nacional de Estatística (INE), relativos ao mesmo período temporal, apontavam para uma taxa de ligeiramente inferior, de 19,8% (2.037 milhares de pessoas), mas a adopção de um novo indicador inflacionou esta realidade estatística. Deste modo, a proporção das crianças e jovens até aos 18 anos de idade em risco de pobreza ou exclusão social aumenta para os 21,9% (eram 21,6%). Mas a mudança mais visível observa-se nos idosos, cuja taxa aumentou dos 20,2% para os 21,4%.
“No novo indicador, a privação material severa passa a considerar 13 em vez de nove itens (e altera o nome para privação material e social severa) e a intensidade laboral per capita muito reduzida passa a abranger as pessoas até aos 64 anos (antes considerava apenas idades até aos 59 anos), explicitou ao PÚBLICO Ernestina Baptista, do gabinete de comunicação do INE, acrescentando que o novo inquérito sobre o rendimento e condições de vida dos portugueses, cuja divulgação está aprazada para o dia 26 de Novembro, irá já “descrever e apresentar os resultados para o novo indicador” usado para quantificar a população que está em risco de pobreza e exclusão social.
Para melhor compreender esta alteração recorde-se que no conceito de risco de pobreza cabem todos os indivíduos cujo rendimento fica abaixo dos 60% do rendimento mediano por adulto de cada país. Na prática, este risco de pobreza não mede por si só a riqueza de cada um, limitando-se a separar a população entre os que vivem abaixo ou acima daquela linha, numa proporção que vai variando consoante a evolução dos salários mínimos e médios de cada país.
Para apurar a taxa do risco de pobreza e exclusão social, somavam-se aos ameaçados pelo risco de pobreza os indivíduos abaixo dos 60 anos de idade com intensidade laboral per capita muito reduzida, isto é, que viviam em agregados familiares em que os adultos entre os 18 e os 59 anos de idade (excluindo estudantes) trabalhavam em média menos de 20% do tempo de trabalho disponível. E a estes somavam-se ainda os submergidos em situações de privação material severa, ou seja, com dificuldades em aceder a pelo menos três de um conjunto de nove itens, entre os quais se incluem a capacidade de fazer face a uma despesa inesperada de custo próximo do valor da linha de pobreza (504 euros, em 2019), de pagar uma semana de férias ou de custear uma refeição de carne ou peixe a cada dois dias, de manter a casa aquecida ou a existência de contas em atraso relativas às despesas essenciais.
A actualização dos conceitos deu-se, portanto, nestes dois campos, alargando-se o universo considerado na intensidade laboral à faixa etária dos 64 anos e somando quatro novos itens ao conceito de privação material. Neste campo, passou a avaliar-se também o acesso à Internet, a capacidade de custear a necessária renovação do vestuário, a posse de pelo menos dois pares de calçado adequados à estação e a capacidade de gastar pequenas quantias em actividades de lazer, além da possibilidade de reunião com familiares ou amigos para uma bebida ou refeição pelo menos uma vez por mês.
Mais de 24% das crianças e jovens em risco
À luz dos novos indicadores adoptados pelo Eurostat, a União Europeia somava no ano passado 24,2% das crianças e jovens abaixo dos 18 anos de idade em risco de pobreza ou exclusão social. Nos adultos com idades entre os 18 e os 64 anos a taxa descia para os 21,7%, baixando para os 20,4% entre os que tinham 65 ou mais anos de idade. Na fotografia europeia que retrata o risco de pobreza ou exclusão entre crianças e jovens, a Roménia surge destacada por somar 41,5% das suas crianças e jovens em risco de pobreza ou exclusão social, seguindo-se a Bulgária (36,2%), a Espanha (31,8%) e a Grécia (31,5%). Mais a Norte, a Eslovénia e a República Checa destacam-se por serem os países em que aquela taxa é mais baixa: 12,1% e 12,9%, respectivamente. Estão, aliás, acima da Dinamarca e da Finlândia, países onde a taxa de pobreza ou exclusão social de crianças e jovens se fixava no ano passado nos 13,5% e 14,5%, respectivamente.
Na Europa, a escolaridade dos pais continua a ser um factor determinante no que toca ao risco de pobreza dos mais novos. A prova é que entre as crianças filhas de pais com baixa escolaridade a taxa de risco de pobreza fixava-se em 2020 nos 50,5%, baixando drasticamente para os 7,7% entre aquelas cujos pais possuem uma escolaridade elevada.
Igualmente determinante parece ser o local onde se nasce. Entre as crianças com pelo menos um dos progenitores imigrantes a taxa de pobreza era de 32,9%, contra os 15,3% registados entre os menores cujos pais eram ambos nativos do país.
À semelhança de anos anteriores, e do que se passa, de resto, em Portugal, as famílias monoparentais com crianças dependentes surgem como as mais marcadas pelo risco de pobreza ou exclusão social: 42,1%, na média europeia. Muito acima, portanto, da taxa de 15,7% das famílias compostas por dois adultos sem crianças dependentes (até 18 anos ou entre os 18 e os 24 anos desde que sem actividade económica e que continuem a residir com pelo menos um dos pais). “Genericamente, o risco de pobreza ou exclusão para um adulto com crianças dependentes está 19,9 pontos percentuais acima do das diferentes famílias sem crianças dependentes (42,1% contra 22,3%)”, precisa o Eurostat.
Nos agregados familiares com crianças e com intensidade laboral reduzida (cabem aqui todos os adultos que trabalharam em média menos 20% do tempo de trabalho possível) o risco de pobreza ameaça 71,9 famílias em cada 100. Entre as famílias com baixa intensidade laboral sem crianças dependentes, aquela taxa baixa para os 52,5%.
O destaque do gabinete estatístico da União Europeia enfatiza, de igual modo, aquilo que já se sabe, isto é, as crianças que crescem em risco de pobreza ou exclusão social têm menores probabilidades de terem bom desempenho escolar e de gozarem de boa saúde, correndo assim muitos maiores riscos de, uma vez adultos, ficarem desempregados, pobres e socialmente excluídos.
O risco de pobreza e exclusão social entre as crianças e jovens vem diminuindo nos últimos anos. Entre 2015 e 2020, desceu de 27,5% para os referidos 24,2%. “No entanto, em quatro estados-membros o risco de pobreza ou exclusão social para as crianças era mais alto em 2020 do que em 2015, nomeadamente na Alemanha, Luxemburgo, Suécia e França”, aponta o Eurostat.
9.8.21
Um quarto dos bebés nascidos no Algarve são filhos de mãe estrangeira
Enquanto os nascimentos em Portugal diminuíram 25,1% nas últimas duas décadas, com todas as outras regiões a acompanharem essa tendência, o Algarve aumentou 3,8%, sendo a única a aumentar o número de bebés.
Um quarto dos bebés nascidos no Algarve são filhos de mães estrangeiras, na sua maioria do Brasil, mas também de países como a Índia, Nepal e Paquistão, disse à Lusa fonte do Centro Hospitalar Universitário do Algarve (CHUA).
“Nós temos um historial no Algarve, que já vem desde há longa data, em que, percentualmente, cerca de 25% dos partos são de mulheres estrangeiras, o que é muito representativo”, afirmou Fernando Guerreiro, responsável pelo departamento de Ginecologia, Obstetrícia e Reprodução do CHUA.
Segundo dados da PORDATA analisados pela agência Lusa, enquanto os nascimentos em Portugal diminuíram 25,1% nas últimas duas décadas, com todas as outras regiões a acompanharem essa tendência, o Algarve aumentou 3,8%, sendo a única a aumentar o número de bebés, de 4164 em 2001 para 4323 em 2020 (3,8%).
Nas três maternidades da região — nos hospitais públicos de Faro e Portimão e num hospital privado, em Faro —, nascem por ano, aproximadamente, 4500 bebés, um quarto dos quais de mãe estrangeira e, dentro deste grupo, cerca de 30% filhos de mães de nacionalidade brasileira.
“Em primeiro lugar continua a estar a nacionalidade brasileira, mas enquanto há uns anos tínhamos Roménia, Ucrânia e Moldávia, com cerca de 8 a 9%, verificamos, agora, um decréscimo ligeiro nessas nacionalidades e um aumento, sobretudo, da Índia, Nepal e Paquistão”, explicou Fernando Guerreiro.
Segundo o director do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do hospital de Portimão, o aumento de nascimentos entre estas comunidades asiáticas explica-se pelo facto de se tratar de “uma população jovem, já com um peso significativo na região” e que ali encontrou “condições para procriar” e constituir família.
“Na sua maioria, esta população trabalha fundamentalmente na agricultura, nas ditas estufas”, sobretudo nos concelhos do barlavento (oeste) algarvio, embora também nasçam em Portimão muitos bebés de mães estrangeiras residentes no concelho de Odemira, em Beja, onde se concentram boa parte das grandes explorações agrícolas a sul do país.
Segundo aquele responsável, Portimão recebe muitas grávidas da zona de Odemira, “que teoricamente deveriam parir em Beja”, mas que recorrem à unidade de Portimão “porque as vias de comunicação e os acessos são mais rápidos”, procura que se reflecte também nas consultas de Interrupção Voluntária da Gravidez, assim como noutras especialidades.
Na unidade de Portimão (barlavento), 10% dos nascimentos são de mães que residem em Aljezur, Vila do Bispo e Odemira e, na unidade de Faro (sotavento), Vila Real de Santo António e Castro Marim representam igualmente 10% dos nascimentos, quantificou Fernando Guerreiro.
De acordo com a distribuição geográfica dos nascimentos registados na região nas últimas duas décadas, Aljezur é o concelho com o maior aumento, passando de 31 nascimentos em 2001 para 57 em 2020 (mais 83,8%), seguido de Vila do Bispo (mais 58,0%), Silves (mais 36,0%) e Albufeira (mais 16,5%).
Em declarações à Lusa, o presidente da Câmara de Aljezur, José Gonçalves, considerou que o aumento de nascimentos no concelho, que é também acompanhado de uma subida nos residentes, segundo dados preliminares dos Censos2021, são sinal de “uma mudança de paradigma”, que leva as populações e jovens casais a procurar qualidade de vida em zonas de baixa densidade.
“Registamos com agrado este aumento dos nascimentos, que é sinal de que o paradigma está a mudar, acima de tudo porque hoje procura-se qualidade de vida e muitas vezes consegue-se essa qualidade nas zonas mais recatadas, de baixa densidade, e a pandemia veio potenciar esta questão.
Segundo o autarca, há “jovens casais que se estão a fixar em Aljezur, muitos estrangeiros, mas também alguns portugueses”, que escolheram aquele território do noroeste algarvio para “criar o seu próprio negócio e se estabelecerem”.
José Gonçalves atribuiu a fixação de jovens casais no concelho do distrito de Faro a actividades como a agricultura ou o surf, ambas com uma expressão significativa na zona, mas também às políticas de incentivo para atrair de jovens a Aljezur.
“Este tipo de incentivos, que têm tido nos últimos anos mais expressão, cativa os jovens casais”, considerou o autarca, dando como exemplos a aquisição de lotes a custos controlados para autoconstrução ou a disponibilização gratuita de manuais escolares em todos os níveis de ensino.
Entre as pessoas que se fixam no concelho estão as que “fugiram da grande cidade à procura de melhor qualidade de vida”, jovens que “saíram para estudar e trabalhar e estão a regressar”, mas também “quadros de empresas ligadas à agricultura” ou “nómadas do trabalho”, que com a pandemia e o teletrabalho procuram locais afastados das grandes cidades para se estabelecerem.
Contudo, avisou o autarca, há também “desafios” que surgem com este aumento populacional, como os preços das casas para arrendamento ou a falta de trabalhadores em áreas como a restauração, hotelaria ou construção civil.
“Temos de procurar soluções de casas com rendas a preços acessíveis para poder fixar todo um conjunto de pessoas de várias áreas, porque há uma dificuldade grande de conseguir gente para trabalhar”, concluiu.


