Mostrar mensagens com a etiqueta Longevidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Longevidade. Mostrar todas as mensagens

2.5.23

Envelhecer com saúde? Medicina de longevidade vai estar em debate em Cascais

Alexandra Campos, in Público online

“Longevity Med Summit” vai reunir cientistas e investidores de vários países, a 4 e 5 de Maio, em Cascais.

Leia aqui mais sobre este tema: Só um sexto dos idosos diz ter boa saúde. Portugal é o terceiro pior na União Europeia

O futuro passa por prevenir e tratar as doenças associadas ao envelhecimento. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, mas, se os portugueses ganharam anos de vida, o país continua distante daqueles que têm uma longevidade com maior número de anos livres de doença, destacam os responsáveis pela organização daquele que é apresentado como o “maior evento” sobre medicina da longevidade – o “Longevit Med Summit” –, que vai reunir em Cascais, nos próximos dias 4 e 5 de Maio, investigadores e cientistas de renome internacional e empreendedores com um total de “10 mil milhões” de euros disponíveis para investir nesta área.

Envelhecer com saúde é possível e é sobre a revolução tecnológica em curso, sobre novas terapias e diagnósticos, e sobre oportunidades de negócio nesta área que se vai falar neste encontro.

“O aumento da esperança de vida traz muitos desafios ao sistema de saúde. Se atrasarmos a progressão do envelhecimento biológico, vamos prevenir as doenças todas. O ideal é que as pessoas não fiquem doentes. E a investigação científica tem dado muitas pistas sobre como se pode aumentar a longevidade saudável”, observa Cláudia Cavadas, investigadora no Centro de Neurociências e Biologia Celular e professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, uma das oradoras, lembrando que a longevidade de cada pessoa depende apenas em cerca de 25% dos seus factores genéticos.

“A fórmula para a longevidade já é conhecida, passa pela alimentação saudável, qualidade do sono, interacção social, cuidados de saúde adequados, prevenção e prática de exercício físico", elenca, defendendo que “é preciso capacitar os profissionais de saúde” para este novo paradigma.

Neste encontro em que são esperados “mais de mil participantes”, vão debater-se os avanços da ciência do envelhecimento e falar-se de turismo de saúde, biotecnologia, medicina de precisão, medicina regenerativa e inteligência artificial, explica Jorge Lima, o responsável pela organização, para quem também é fulcral mobilizar os médicos para que passem a utilizar as novas ferramentas.

"O futuro da medicina é tratar as doenças associadas ao envelhecimento", diz Jorge Lima, notando que actualmente é "grande a ênfase no envelhecimento saudável" e é "crescente o interesse científico nas áreas da longevidade saudável".

Convicto de que as novas soluções e tecnologias se vão tornar mais acessíveis à medida que forem ganhando escala, defende que são muitas as novas oportunidades de negócio associadas à longevidade. No encontro vão, aliás, participar investidores de países como Estados Unidos, Israel, Reino Unido e Singapura e, além de fundos de investimento, há também empresas e laboratórios interessados no desenvolvimento deste "mercado da longevidade", afirma.

Entre os oradores, destacam-se Shai Efrati, professor da Sagol School of Neuroscience da Tel Aviv University (Israel), “um dos principais cientistas de pesquisa em medicina hiperbárica do mundo”, Charles Brenner, presidente da Alfred E Mann Family Foundation (Departamento de Diabetes e Metabolismo do Cancro) no City of Hope National Medical Center (Estados Unidos), responsável por diversas pesquisas sobre a correlação do metabolismo, a diabetes e o aparecimento de doenças oncológicas, Andrea B. Maier, professora de Medicina na Universidade Nacional de Singapura e investigadora na área da gerontologia e prevenção de doenças relacionadas com a idade, e Aubrey de Grey , investigador inglês e autor do livro intitulado Ending Aging.


2.1.23

Envelhecimento: um longo caminho a percorrer

André Rito, Sara Tarita, Ilustradora in Expresso

Portugal: no final do ano fazemos um balanço sobre o projeto Longevidade, lançado em fevereiro pelo Expresso. Especialistas são consensuais: falta preparar a transição demográfica

Viver mais e melhor. Este foi o ponto de partida do projeto Longevidade, lançado em fevereiro deste ano pelo Expresso. Uns meses depois, e já no início de dezembro, a ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, esteve presente no 9º Congresso do Envelhecimento Ativo e Saudável. Organizado pelo consórcio Ageing Coimbra, o debate incluiu temas como o impacto da solidão na saúde ou o défice cognitivo associado ao envelhecimento. Perante dados que mostram que Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, a ministra disse que não temos uma “sociedade preparada para os mais velhos”.

Essa é também a opinião de alguns membros do Conselho Consultivo do projeto Longevidade. “Trata-se de uma verdadeira revolução, que é necessária e urgente, tornando-se dentro de pouco tempo emergente”, afirma Nuno Marques, médico e presidente do Observatório Português do Envelhecimento, que tem trabalhado nesta área sobretudo na zona do Algarve, região distinguida pela Comissão Europeia como um centro de referência para o envelhecimento ativo e saudável. “As ideias têm passado, e percebeu-se desde já que a temática do envelhecimento é pluridisciplinar. Desde a componente social, reformas, saúde, economia, digitalização, condições de habilitação, segurança, acessibilidades ou cuidados aos idosos.”

Trata-se, portanto, de um assunto transversal a toda a sociedade portuguesa. Mas este não é um desafio exclusivamente português: países como o Japão (o mais envelhecido do mundo), Suíça, Países Baixos, França, Irlanda, Reino Unido e Finlândia têm antecipado as consequências do envelhecimento com políticas orientadas para a economia da longevidade. E se, em 2017, Portugal tinha delineado uma proposta de estratégia nacional para o envelhecimento ativo e saudável, com a pandemia o Governo acelerou e prometeu um investimento de €400 milhões, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência. Objetivo: encorajar iniciativas que permitam preparar e investir na transição demográfica de forma gradual e concreta.

“Algumas iniciativas têm sido tomadas no sentido de pôr a longevidade no centro da agenda política de Portugal, mas tenho de reconhecer que isto está longe de acontecer”, disse ao Expresso Maria Amélia Cupertino de Miranda, presidente da Fundação António Cupertino de Miranda, que tem organizado programas para capacitar os mais velhos, como o projeto Eu e a Minha Reforma, que envolve seis municípios do Norte do país: Porto, Maia, Vila Nova de Gaia, Valongo, Santo Tirso e Matosinhos.

“A iniciativa nasce da constatação de um grave défice social, que é a existência de uma muito baixa literacia financeira e digital das pessoas mais velhas. A iliteracia financeira inibe a qualidade de vida de todos, em especial a dos mais velhos”, afirmou a presidente da fundação, acrescentando a necessidade de estender o projeto a todos os municípios. Até porque um dos principais impactos da longevidade será a futura sustentabilidade da Segurança Social: atualmente temos 182 idosos por cada 100 jovens, um desequilíbrio que terá tendência para se agravar nas próximas décadas, dizem os especialistas. “É preciso escrever uma Estratégia da Longevidade e também um Plano de Ação com um conjunto de medidas que possam integrar políticas públicas e fiscais, para depois o Governo (poder central e local) poder investir na promoção de políticas públicas direcionadas às vidas longas que neste século vamos viver”, acrescentou Maria Amélia Cupertino de Miranda.

Perante este cenário, impõe-se a pergunta: o que foi feito? “A perceção que tenho é de que a sociedade está dividida entre o foco no envelhecimento, com um sector académico e social muito centrados nele, e o foco na longevidade, graças a um sector da saúde (sobretudo o privado) e financeiro”, afirma Ana Sepúlveda, fundadora da 40+Lab — consultora que trabalha com o tema da longevidade —, lembrando a necessidade de “envolver os cidadãos e dar visibilidade aos temas mais relevantes”. “Vamos ter a estratégia nacional aprovada. Tarde, mas é melhor que nada.”

Saúde, cuidados e economia

Foi em Salamanca, durante o Congresso Internacional Economia da Longevidade, que vários especialistas defenderam a importância de se criar uma nova categoria da economia, ligada à circunstância de estarmos a viver mais anos. Para quem se dedica a estudar o fenómeno, o aumento da esperança média de vida pode ser uma oportunidade económica e social. Segundo a Universidade de Oxford, a longevidade representa já €7,1 triliões a nível mundial, com vários negócios a florescerem e investimentos em campos como a inovação, saúde, habitação e cuidados domiciliários.

“Para que o paradigma do envelhecimento mude e as pessoas vivam uma longa vida, com sentido positivo, integrando a força de trabalho até mais tarde, com saúde, atividade física e intelectual, compromisso, felicidade e sem stresse financeiro, é indispensável uma mudança essencial: o país tem de crescer economicamente. É fundamental”, afirma Maria Amélia Cupertino de Miranda. “Se assim acontecer, alinhando o crescimento económico a políticas públicas e fiscais amigas dos mais velhos, então, sim, teremos conseguido mudar o paradigma do envelhecimento.”

Atualmente, em Portugal, existe apenas um gabinete público para dar resposta aos desafios da longevidade. Sediada no Funchal, a Direção Regional de Políticas Integradas de Longevidade prevê que nos próximos três anos sejam lançados concursos públicos na área da saúde no valor de €54 milhões. Parte deste montante está destinado a mudar o modelo dos lares de terceira idade, para dar uma melhor resposta às necessidades de cuidados de longa duração. Aliás, o apoio ao domicílio e uma maior eficácia das unidades de cuidados continuados afiguram-se como principais vetores de mudança neste tempo de longevidade. Porque não basta viver mais tempo, é preciso que esse tempo adicional seja vivido com saúde.

Basta comparar Portugal com os restantes países da União Europeia para se concluir que o país está muito abaixo da média no que respeita aos anos de vida saudável depois dos 65: se há países onde os cidadãos vivem 12 anos sem doenças, Portugal fica-se pelos 7, enquanto a média europeia está fixada nos 10 anos. “Portugal não dispõe dos cuidados adequados para lidar com essa morbilidade. O nosso sistema de saúde foi pensado para crises agudas. Falta adaptar-se aos cuidados prolongados, investindo também no apoio social. A integração do sector social será fundamental para que o envelhecimento seja vivido de forma mais sustentada, assegurando assim maior qualidade de vida”, conclui Luís Jerónimo, diretor-adjunto do Programa Gulbenkian de Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian.
P&R

Portugal é o quarto país mais envelhecido do mundo. Qual é a perceção da população portuguesa?

Segundo os especialistas contactados pelo Expresso, a perceção pública sobre a temática tem melhorado, mas é ainda insuficiente.

Que estratégias públicas existem para lidar com o envelhecimento?

Portugal destinou, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, perto de €400 milhões para o envelhecimento. Seguindo as recomendações europeias do “Livro Verde do Envelhecimento”, algumas medidas já estão a ser implementadas.

Qual é a posição do Governo relativamente à longevidade?

Embora o assunto seja muitas vezes subvalorizado pelo poder público, recentemente a ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, disse que Portugal tem ainda “um caminho longo a percorrer” na área do envelhecimento ativo.
BEST OF DOS TEXTOS DE LONGEVIDADE NO NOSSO SITE

Como adaptar as empresas à longevidade

Vários especialistas defendem a necessidade de valorizar o trabalho sénior através da adaptação das empresas.



Uma app para caminhadas

O exercício físico é essencial no tratamento da doença arterial periférica, que afeta sobretudo pessoas com mais de 65 anos. Esta aplicação já foi testada por 160 utentes do Hospital de Santo António.

Inclusão: um radar em Lisboa

Dinamizado pela Santa Casa em colaboração com vários parceiros, o Projeto Radar trabalha para a inclusão social dos seniores.

Longevidade

Vamos viver mais anos. Que avanços na saúde podem marcar as próximas décadas? Qual o impacto do envelhecimento nas poupanças, nas cidades, na vida social? Em 2022, o Expresso, com o apoio da Fidelidade e da Novartis, lançou um projeto sobre este novo desafio.

Textos originalmente publicados no Expresso de 30 de dezembro de 2022

20.12.22

Quais devem ser as estratégias das empresas para melhor lidarem com a longevidade?

in Expresso

As declarações dos protagonistas de mais umas Conversas sem Fim, desta vez sobre trabalho, inclusão e longevidade

“Aquilo que todas as empresas devem ter, sejam elas do Estado ou não, seria um ambiente de trabalho promotor de bem-estar”, defende Diana Vilela Breda, CEO do Hospital Arcebispo João Crisóstomo

“Para o envelhecimento ativo, precisamos que o trabalho seja adaptado ao trabalhador”, explica Jorge Barroso Dias, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina do Trabalho & Diretor Clínico de Saúde Ocupacional da CM Lisboa

“Nós não podemos gerir as pessoas como se tratasse de uma massa uniforme”, acredita Maria de Belém Roseira, ex-ministra da Saúde

“Se nós olharmos para as empresas e para as pessoas como sistemas e organismos vivos e não como uma máquina, já estamos a começar a ver tudo de forma diferente”, sublinha Regina Cruz, fundadora da WellBeing 3.8

“A nossa longevidade vai depender de nós, não da empresa onde eu trabalho, não da minha família, vai depender do que eu escolho para mim”, lembra Ricardo Parreira, CEO da PHC Software

“O stress dos trabalhadores é uma coisa que as organizações devem, de facto, avaliar e perceber e definir um conjunto de ações e de políticas que possam ir de encontro a tudo o que contribua para a diminuição desse stress”, refere Sílvia Nunes, diretora, Michael Page e autora do podcast “Profiler”

20.5.22

“Longevidade, viver mais e melhor”. Santa Casa participa em projeto do Expresso

in Santa Casa Misericórdia de Lisboa

Durante 2022, o Expresso irá trazer para o domínio público o tema da longevidade e os possíveis efeitos na sociedade. A iniciativa pretende colocar a matéria na agenda pública e posicionar Portugal a nível europeu para estas questões. Provedor da Santa Casa integra o Conselho Consultivo do projeto.

O projeto do Expresso pretende avaliar de que forma a longevidade e as respetivas políticas públicas estão presentes em Portugal. Para alcançar este objetivo, o Expresso construiu uma comunidade de stakeholders e parceiros informais que vão trabalhar e debater os temas da Longevidade. Paralelamente, foi constituído um Conselho Consultivo composto pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Associação Age Friendly, Agência Nacional de Inovação, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Dr. António Cupertino Miranda, Fundação Calouste Gulbenkian, Novartis, Fidelidade, Multicare, Impresa, Observatório do Envelhecimento e União das Misericórdias Portuguesas.

Conselho Consultivo do projeto

O Conselho Consultivo do projeto do Expresso “Longevidade, viver mais e melhor” tem como missão apontar caminhos estratégicos para uma mudança gradual e sustentada no que toca ao envelhecimento em Portugal.

A primeira reunião do Conselho Consultivo realizou-se esta segunda-feira, 16 de maio, e contou com a participação do provedor da instituição, Edmundo Martinho, convidado pelo Expresso para integrar o mesmo.

Melhorar o acesso dos mais velhos aos cuidados de saúde é um dos grandes desafios colocados pelo aumento da esperança média de vida em Portugal. Paralelamente, observam-se outros como: o desenvolvimento e implementação de uma estratégia de desenvolvimento para as questões da longevidade; a abordagem sobre o impacto da transição demográfica na saúde e economia e o aumento dos cuidadores que prestam auxílio ao domicílio.



Webtalks

Ainda no âmbito do projeto do Expresso, subordinado ao tema da longevidade, está prevista a realização de seis eventos digitais em formato de webtalk, transmitidos através do Facebook do Expresso, que têm como objetivo debater temas ligados à economia da longevidade.

A primeira sessão destas webtalks decorreu esta segunda-feira, 16 de maio. Organizada em três painéis, a iniciativa contou com a participação de Maria da Luz Cabral, coordenadora do Projeto Políticas Públicas na Longevidade da Santa Casa, Nuno Marques, presidente do Observatório Nacional do Envelhecimento, Luís Jerónimo, Fundação Calouste Gulbenkian, Simon Gineste, presidente do Grupo Novartis Portugal, Manuel Villaverde Cabral, professor e investigador, e Daniel Riscado, responsável do Centro de Transformação da Fidelidade. A sessão foi moderada pelo diretor adjunto do Expresso, Martim Silva.

Um tema de todos

Comecemos pelos números da nossa realidade: Portugal é o quarto país mais envelhecido do mundo. Reflexo das baixas taxas de natalidade e do aumento da esperança média de vida – temos 182 idosos por cada 100 jovens -, a longevidade será um dos temas centrais não apenas da nossa sociedade, como de todo o mundo. Os seus impactos serão transversais: serviços, saúde, habitação, educação, emprego, banca, finanças, tecnologia e turismo, nenhuma destas áreas deixará de ser afetada pelo envelhecimento da população — e pela sua longevidade. Os desafios da chamada ‘economia cinzenta’ são enormes. Basta pensar, por exemplo, no impacto que a redução de jovens no ativo pode ter nos sistemas de pensões dos reformados.

20.4.22

As histórias de quem recusa o “limite de idade”: António Barreto, Maria de Belém, Isabel do Carmo e Correia de Campos

Sofia Correia Baptista, in Expresso




Getty Images
O envelhecimento ativo é sinónimo de viver mais tempo e com saúde. Portugal definiu uma estratégia até 2025, alinhada com os objetivos da Organização Mundial de Saúde, para maximizar a capacidade das pessoas idosas


Há um livro de Vitorino Nemésio em que o poeta se insurge contra o fim da vida ativa. Chama-se "Limite de Idade" - é um manifesto contra o tempo, no momento mais triste da sua carreira, a passagem à idade da reforma. Hoje, o envelhecimento ativo é um desígnio das sociedades mais desenvolvidas, uma forma de compensar o desequilíbrio demográfico e aumentar a longevidade de forma saudável. O Expresso ouviu as histórias de quem continua a trabalhar muito para lá dos 65 anos.


ANTÓNIO BARRETO, SOCIÓLOGO, 80 ANOS

Quando nasceu, em 1942, António Barreto tinha uma esperança média de vida (EMV) de 54 anos. “Já vivi mais 25 do que era suposto”, diz ao Expresso o sociólogo, que continua a trabalhar diariamente, e cuja EMV – que é medida todos os anos – passou para os 86. “Não posso dizer que seja uma ansiedade permanente, até porque o meu trabalho não tem um contributo físico, que exija deslocações, movimento, força física, coisas que dão nota de envelhecimento. Mas, uma vez por outra, é impossível não pensar: até quando vou poder trabalhar?”

Cientista social, ex-ministro dos governos de Mário Soares, António Barreto foi presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos – que criou o portal de informação estatística, PORDATA – e defende a abolição do “limite de idade”, citando o poeta Vitorino Nemésio. “Tive o prazer de o ouvir, nos anos 60, a rosnar contra essa imposição selvagem. O único limite de idade é a morte.”

Portugal definiu para o período 2017-2025 uma estratégia para o envelhecimento ativo e saudável através de um conjunto de ações focadas na “saúde, participação, segurança e investigação”. Questionado sobre o assunto, Barreto diz que Portugal tem “políticas errantes” no que respeita à natalidade e envelhecimento.


“Tenho para mim que o mais importante é favorecer o envelhecimento ativo, produtivo, das pessoas que conseguem criar, desenvolver serviços, produção artística, intelectual. Mas grande parte das políticas são de passividade, encaminhar os idosos para os lares. Tudo isto é gravoso, apesar de no discurso político escutarmos com muita frequência a importância da vida ativa.”

MARIA DE BELÉM, EX-MINISTRA, 72 ANOS

João Carlos Santos

Para Maria de Belém, parar não é uma hipótese: acredita que continuar com a sua atividade é “essencial para manter uma vida saudável”, ao mesmo tempo que “quase todas as semanas acontecem desafios para novos projetos, novas intervenções, novas coisas para fazer”. “Mesmo que pensasse [em parar], não me deixavam!”, garante a antiga deputada e ex-ministra da Saúde, de 72 anos.

Maria de Belém é presença assídua em palestras e conferências a convite de diversas organizações, um “sinal de que as pessoas e as entidades confiam naquilo que eu possa transmitir”. Para si própria, também é “estimulante”, uma vez que a obriga a “pensar e estudar”. “Tenho de estudar muito para me manter atualizada.”

Com uma agenda que está sempre “muito ocupada”, Maria de Belém conta ao Expresso, entre risos, que “as pessoas da família têm de se inscrever na agenda” para poderem contar com ela. “Se a minha filha precisa que eu fique a fazer de avó tem de pôr na agenda, porque se não é uma coisa que falha”, explica. O seu dia a dia “varia muito”, por isso “tem de ser tudo muito organizado”.


O que não falha é a vontade de continuar a participar a nível social: “Felizmente, até hoje, nunca me queixei de falta de energia. Se ainda temos energia e podemos dar um contributo positivo à sociedade, devemos fazê-lo.” Isto porque tanto a atividade física como a cerebral são essenciais no “controlo do processo de envelhecimento, que é um processo inexorável”.

Neste momento, a “grande batalha” da candidata à Presidência da República em 2016 é “a luta contra as desigualdades”, uma área em que “há sempre objetivos não concretizados” e que é “uma tarefa infinda, que está sempre com possibilidades de recuar”. “É preciso estar sempre com os olhos abertos e com vontade de corrigir aquilo que possa ser corrigível”, alerta.

Maria de Belém espera que esta rotina tão dinâmica contribua para a sua própria longevidade. “Acho que quem é e foi sempre muito ativo, a última coisa que quer é ficar dependente dos outros, porque sabe o trabalho e o incómodo que isso causa e que já não terá grande qualidade de vida”, conclui.

ISABEL DO CARMO, MÉDICA, 81 ANOS

Parar também não está nos planos de Isabel do Carmo. Aos 81 anos, a médica especialista em endocrinologia dá consultas quatro vezes por semana. Na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa dá algumas aulas no mestrado em doenças metabólicas e comportamento alimentar. “Mantenho tudo, exceto o hospital”, de onde saiu em 2013.

O ativismo político atravessou toda a vida de Isabel do Carmo e, por estes dias, conta a sua experiência na peça Esta é a minha história de amor, em cena no Teatro Nacional D. Maria II. Ainda hoje mantém “muita atividade cívica”. Integra o grupo de profissionais de saúde Estamos do lado da solução, que é “muito ativo”. A propósito da exposição Império do Medo, tem participado em conferências por todo o país sobre a escravatura e a luta contra o racismo.

Está ainda a preparar um novo livro, além dos artigos de opinião que publica pontualmente. “Faço estas coisas porque tenho prazer em fazê-las e sinto muito o dever – não é uma questão moral, é uma questão de posição – de intervir, na medida do possível”, explica. Esta “atividade intensa” é algo que lhe dá “prazer”, mas tem um “lado negativo”. “Tem como consequência que tenho pouco tempo para a família e gostaria de ter mais, sobretudo para os meus netos”, lamenta.

As atividades com os netos contribuem para uma vida saudável e para a longevidade. “Os avós da minha geração são muito ativos com os netos, sobretudo as mulheres”, aponta. Isabel do Carmo considera que, com o “aumento da esperança de vida, aquilo que faz melhor à saúde das pessoas é serem ativas”. “Há muitas formas de ser ativo. Há pessoas que, com a minha idade, fazem uns quilómetros por dia a andar”, exemplifica.

A única diferença que sente é na importância do sono. Enquanto quando era mais nova “fazia diretas”, hoje em dia se dorme menos de nove horas fica “arrasada”. “Não tenho falta de energia nem de vontade”, garante. Essa vontade traduz-se em metas que quer ajudar a cumprir, relacionadas sobretudo com os “combates” que tem travado na área da Saúde, e também com a escrita.

ANTÓNIO CORREIA DE CAMPOS, POLÍTICO, 79 ANOS

A longevidade corre na família de António Correia de Campos: a mãe morreu com 97 anos, o pai aos 104. Este último, aos 80, “fazia projetos como se tivesse 20”, conta o antigo ministro da Saúde. “Foi uma pessoa que me ensinou a lidar com a longevidade. Só aos 102 deixou de conduzir e ficou muito zangado”, recorda. No ano anterior, tinha instalado 21 painéis fotovoltaicos em casa e tratava do seu pequeno olival. “Nunca parou.”

Correia de Campos explica: “o mais importante na vida é ter projetos”. Tem 79 anos e continua a trabalhar: “É a única coisa que sei fazer. Eu tenho de ter projetos.” Entre eles estão a preparação de um livro sobre temas atuais da área da Saúde e um possível livro de memórias – ainda não sabe se irá publicar –, que já conta com mil páginas. Além de contributos com várias instituições nacionais, neste momento o “trabalho mais importante” que desempenha é internacional: integra um grupo de 20 líderes globais que sensibilizam para a “pandemia silenciosa” da resistência aos antibióticos.

O dia a dia “varia muito”, com um ritmo “muito livre”. “Levanto-me às sete horas, ponho-me logo no computador, vejo as notícias do dia e depois, se estou bem-disposto, desato a escrever toda a manhã ou resolvo problemas urgentes”, conta. Surge também “muita gente com pedidos, propostas, intervenções”. “Procuro manter-me atualizado e manter muita documentação.”

Correia de Campos sente a mesma energia e vontade de contribuir. “Eu nasci para o serviço público”, aponta. “Os especialistas dizem que a melhor forma de manter as pessoas ativas é a atividade intelectual e também a física, as duas em conjunto. Escrever, ler, pensar, discutir, é muitíssimo importante.” Acrescenta que há “outra coisa que é muito importante: um almoço semanal com amigos”, assegurando que alguns “estariam muito pior” se não houvesse este encontro, que classifica como “essencial”.


30.11.21

De olho nos maiores de 65 anos. Velhice em Portugal vai ser passada a pente fino mas já há dados preocupantes

Sónia Calheiros, in Visão

O recém-criado Observatório Nacional do Envelhecimento vai recolher, analisar e disponibilizar toda a informação existente sobre os maiores de 65 anos em Portugal, para promover o conhecimento científico nesta área. O envelhecimento deverá atingir um em cada cinco indivíduos no mundo em 2030 e um em cada quatro em 2050

A tendência de um País cada vez mais envelhecido não inverte. Portugal é o quinto país com maior índice de envelhecimento na Europa. O número de pessoas com mais de 65 anos face ao número de jovens tem tido, todos os anos, um crescimento exponencial de 140 por cento. Segundo dados das Nações Unidas, em 2019, Portugal tinha o quarto maior rácio de dependência associada à população envelhecida. Um rácio de 38% que irá aumentar para 71% em 2050.

Vale a pena olhar para trás e lembrar que, há 60 anos, a população acima dos 65 anos representava 3%, atualmente representa 22% e daqui a três décadas estará próximo de metade da população.

Este panorama nacional é traçado por Nuno Marques, cardiologista e presidente do Algarve Biomedical Center (ABC) criado, há cinco anos, com o Centro Hospitalar Universitário do Algarve e a Universidade do Algarve – um dos oito centros académicos clínicos existentes no País. A criação do Observatório Nacional do Envelhecimento pelo ABC visa passar da investigação para uma componente formativa, aproveitando a região do Algarve, reconhecida como um centro de referência europeu em termos do envelhecimento ativo, através do Algarve Active Ageing que agrega várias entidades da região em torno de medidas para o envelhecimento ativo.

O recém-criado Observatório Nacional do Envelhecimento vai reunir informação dispersa até hoje – recolhida pelo Instituto Nacional de Estatística, a Pordata, câmaras municipais, instituições de saúde, segurança social e índices económicos – seguida de uma análise mais fina. “Esta questão do envelhecimento – tantas vezes abordada só como uma questão de saúde – é muito mais do que isso. Tem um componente social importantíssimo, das condições do trabalho e da passagem à reforma fundamental, modelos de economia que se estão a desenvolver em torno das condições, como das prestações de serviços, habitabilidade, transportes”, analisa Nuno Marques. “Se queremos dar às pessoas condições para que tenham, acima de tudo, uma excelente qualidade de vida quando envelhecem temos de ter estes dados todos reunidos e analisados de forma conjunta. Daqui sairão propostas de medidas e serão avaliadas as políticas públicas e privadas na área do envelhecimento”, acrescenta.

Este ano, o Governo através do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, durante a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, aprovou o Livro Verde sobre o envelhecimento, que contém uma série de medidas e metas a serem cumpridas pelos vários países e define de forma clara uma estratégia para o envelhecimento. “Mas falta-nos um plano de ação e de medidas concretas”, lamenta Nuno Marques. Entretanto, foi criada em Portugal a RePEnSA – Rede Portuguesa de Envelhecimento Saudável e Ativo.

Quanto mais cedo se atuar na prevenção melhor. “Em Portugal, o número de anos de qualidade de vida após os 65 anos está uma década atrasado face aos países nórdicos, por exemplo, com a Suécia à cabeça dos países a viverem mais e melhor. Já conseguimos percorrer muito do caminho da longevidade, do aumento do número de anos de vida, mas não da qualidade de vida”, explica o presidente do ABC.

Portugal apresenta, nos últimos anos, um crescimento de 1,6 anos de esperança média de vida saudável após os 65 anos. Contudo, os valores nacionais são de apenas 6,6 anos para os homens (ou seja, em média, os homens têm uma vida saudável até aos 71,6 anos) e 5,4 anos para as mulheres (ou seja, em média, as mulheres têm uma vida saudável até aos 70,4 anos), o que é estatisticamente inferior à média europeia de 8,4 e 8,2 anos, respetivamente. Salienta-se ainda que estamos muito distantes de países como a Dinamarca onde a esperança de vida saudável após os 65 anos é de 13 anos nos homens e 14 anos nas mulheres.

A pensar no futuro e de como se pode repensar o modo de cuidar e prevenir o envelhecimento, Nuno Marques fala de um foco na mudança de hábitos, que irão ter resultados a médio prazo, nunca antes de dez anos. É preciso “modificar a forma dos cuidados que estão a ser prestados à população, principalmente, os dirigidos às pessoas que ainda têm capacidade para estar em casa, mas necessitam de alguns cuidados para manterem a sua autonomia, prevenindo a degradação”. Em breve, será disponibilizada uma rede de serviços de apoio domiciliário multidisciplinares, desde fisioterapia, psicólogos, nutricionistas, entre outras valências. Outro passo que Nuno Marques considera importante é rever o modelo dos estabelecimentos residenciais para idosos, “porque muitas das pessoas que estão nestas instituições, dependentes por situações de doenças, na realidade precisam de cuidados continuados adequados e de cuidados paliativos em final de vida”.

Para saber mais
GNR sinalizou em outubro mais de 44 mil idosos a viverem sozinhos ou isolados
Governo lança aviso de 220 ME para “alargar respostas” ao envelhecimento
Ministra da Coesão realça valor internacional do Instituto do Envelhecimento
PR defende “colaboração permanente” entre Estado e setor social para enfrentar “desafios” do envelhecimento

16.11.21

86% das pessoas quer acabar os dias em casa

 Fátima Ferrão, in Expresso

Portugal tem que criar uma economia da longevidade, que seja um dos pilares fundamentais da sociedade e um eixo de desenvolvimento económico. Uma conclusão com a concordância de todos os peritos presentes na conferência “Parar para Pensar: Longevidade”, integrada no ciclo de oito debates, que juntam o Expresso à Deco Proteste, e que contam com o patrocínio da Google. Conheça as conclusões da conversa de hoje no edifício da Impresa

Portugal é o quarto país mais envelhecido do mundo e, segundo as previsões de evolução demográfica, será o terceiro entre 2030 e 2040. Uma realidade que coloca um conjunto de desafios sociais e económicos ao sector público, mas também às empresas e ao privado. “É preciso garantir a dignidade no envelhecimento”, defende António Lacerda Sales, um dos convidados da conferência “Parar para Pensar: Longevidade”, que decorreu hoje no edifício sede da Impresa. Para o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, depois dos 65 anos e da reforma, as pessoas continuam a querer – “e muito bem” -, participar na vida ativa com projetos e escolhas. No fundo, acredita, “a longevidade é uma sementeira que começa na concepção, e que se reflete e determina tudo o que fazemos ao longo da vida”. Isto significa, diz ainda o governante, que “temos que olhar muito seriamente e com muita responsabilidade para esta questão”.

Ana Sepúlveda, socióloga e fundadora do 40+ Lab, consultora para os temas do envelhecimento e da longevidade, acredita que, apesar de ainda haver um longo caminho a percorrer em Portugal na abordagem a estas temáticas, no último ano, “foram dados passos muito grandes”. A criação da rede Repensa, que junta o trabalho realizado pelos quatro centros de estudos dedicados à questão do envelhecimento que, anteriormente, trabalhavam de forma isolada, foi “um grande avanço”. Ainda assim “não olhamos para a economia da longevidade que, em alguns países, já foi colocada como um dos pilares fundamentais da organização económica e social”.

Na opinião de Maria da Luz Cabral há, de facto, muito a fazer para transformar mentalidades e para mudar a estrutura da sociedade, de forma a dar resposta ao aumento da esperança média de vida das pessoas. Nas empresas, exemplifica, é necessário flexibilizar a saída do mercado de trabalho e preparar essa nova fase da vida que, não obrigatoriamente será menos ativa. A coordenadora do projeto de políticas públicas na longevidade da Santa Casa da Misericórdia acredita que “é preciso capacitar os profissionais a partir da experiência e do conhecimento dos mais velhos, que é obrigatório continuar a integrar nas empresas e na sociedade”. Uma opinião partilhada por Carlos Lobo, sócio fundador da Lobo Vasques, sociedade de advogados especializada em direito fiscal. “É uma oportunidade vivermos mais tempo, mas estamos a transformar o que podia ser um ativo, num passivo”, diz, acrescentando que “temos que mudar mentalidades e o atual anátema da velhice”.

Outras conclusões:

Maria da Luz Cabral revela que, segundo um estudo realizado no projeto que coordena na Santa Casa da Misericórdia, 86% das pessoas inquiridas manifestaram desejo de terminar os dias na sua casa. Mas para concretizar esta vontade será necessário apostar no reforço de estruturas como o apoio domiciliário, mas num formato personalizado de acordo com cada um. “Temos que criar uma sociedade que cuida bem, com cuidado humano”, diz. Carlos Lobo complementa: “Toda a estrutura do Estado tem que ajustar-se para ter mais pessoas a cargo”.

“Temos que evitar que a vida depois dos 65 anos seja de solidão e de falta de atividade”, afirma António Lacerda Sales. E “será necessária uma maior confluência intergeracional, e uma estratégia na área do envelhecimento ativo e da economia da longevidade”. E esta mudança tem que começar de cima para baixo, acrescenta Ana Sepúlveda. “Do poder económico, para o poder público, Portugal tem que encontrar o seu espaço neste mundo”.

António Lacerda Sales recorda também os desafios que se colocarão em Portugal com a concretização das projeções que apontam para que, em 2070, o país tenha dois milhões de pessoas a menos, dois terços da população com mais de 65 anos e quatro milhões de pessoas ativas. A solução, defende, tem que começar a ser pensada desde já, criando uma estratégia nacional para a longevidade, articulada com uma estratégia europeia, uma vez que todos se debatem com os mesmos problemas.


“Longevidade é uma mentalidade emergente”


15.11.21

“Longevidade é uma mentalidade emergente”

Fátima Ferrão, in Expresso

O envelhecimento das sociedades, por força do aumento da esperança média de vida, está a colocar um conjunto de novos desafios que obrigam a repensar a organização social e a economia. O tema estará em debate na conferência “Parar para Pensar: Longevidade”, que decorre na próxima segunda-feira, dia 15, e que junta o Expresso à Deco Proteste, com o patrocínio da Google. Ainda durante a semana, o último debate deste ciclo de oito, acontece na sexta-feira, 19, e terá como mote a Democracia, que enfrenta novos desafios e ameaças, muitos deles como resultado da pandemia

São cerca de 5000 os portugueses com 100 ou mais anos e, segundo as previsões, este número deverá duplicar até 2050. Portugal é um dos países demograficamente mais envelhecidos da Europa e do mundo, com cerca de metade da população com idade acima dos 50 anos, o que coloca um conjunto de desafios sociais e económicos. “Estas mudanças vão exigir que cidades, transportes, bancos, ou outros serviços sejam diferentes do que são hoje”, aponta Ana Sepúlveda. A diretora executiva da 40+Lab, que defende o desenvolvimento de uma economia da longevidade, recorda que a sociedade e as empresas não podem esquecer a importância das pessoas com mais de 65 anos, pois elas continuam a ter um forte impacto no consumo e no trabalho. “O Estado tem que criar condições para que as pessoas trabalhem até mais tarde e para a promoção da intergeracionalidade”, reforça.

Na opinião da responsável pelo projeto 40+Lab, o talento jovem é importante nas organizações, mas a capacidade de reflexão, aliada à experiência profissional, tornam os mais velhos, peças fundamentais nas empresas. “As organizações têm que mudar o paradigma de gestão de pessoas”, defende. Ana Sepúlveda será uma das convidadas do debate “Parar para Pensar: Longevidade”, que decorre na segunda-feira, 15. À especialista no tema juntam-se ainda António Lacerda Sales, secretário de Estado Adjunto e da Saúde, e Carlos Lobo, sócio fundador da Lobo, Vasques & Associados. Marta Atalaya, jornalista da SIC, será a moderadora da sétima conferência, de um ciclo de oito.

Para fechar a semana, na sexta-feira, 19, terá lugar o último debate “Parar para Pensar”, cujo tema será a Democracia. Os oradores confirmados são, para já, José Ribeiro e Castro, advogado e antigo presidente do CDS, e João Nuno Amaral, diretor do gabinete de comunicação do Parlamento. Especialistas no tema, os convidados procurarão dar resposta a um conjunto de respostas que se impõem. Como está a democracia a mudar em Portugal, e no mundo, e que desafios se colocam serão o mote para lançar a conversa.

"PARAR PARA PENSAR: LONGEVIDADE" E “PARAR PARA PENSAR: DEMOCRACIA”

O que é?

As conferências "Parar para Pensar: Longevidade" e “Parar para Pensar: Democracia” são, respetivamente, as duas últimas de um ciclo de oito que junta o Expresso e a Associação Deco Proteste, com o apoio da Google, e que têm por objetivo promover a discussão sobre temas estruturantes no pós-pandemia.

Quando, onde e a que horas?

No dia 15 de novembro, às 16h30, o debate será sobre a Longevidade e, no dia 19 de novembro, às 20h00, o tema será a Educação. Para assistir em na página de Facebook do Expresso (15 de novembro) e na SIC Notícias (19 de novembro).

Quem são os oradores?

Na conferência "Parar para Pensar: Longevidade", os oradores são:
Ana Sepúlveda, Diretora Executiva da 40+Lab
António Lacerda Sales, Secretário de Estado Adjunto e da Saúde
Carlos Lobo, Sócio Fundador da Lobo, Vasques & Associados

Na conferência "Parar para Pensar: Democracia", os oradores são:
José Ribeiro e Castro, advogado e antigo presidente do CDS
João Nuno Amaral, diretor do gabinete de comunicação do Parlamento


Porque é que estes temas são centrais?

Impõe-se, cada vez mais, o debate sobre o tema da longevidade, numa altura em que Portugal tem mais de metade da população com idades acima dos 50 anos. O país está também entre os que contam com uma população mais envelhecida na Europa e no mundo. Que desafios coloca o aumento da esperança média de vida à sociedade e à economia? Como garantir um envelhecimento ativo, e com qualidade de vida aos cidadãos?

Já no que se refere ao tema da Democracia, as mudanças que o mundo sofreu ao longo dos últimos dois anos têm impacto na organização da sociedade, não apenas ao nível político, mas de forma transversal. Que desafios e ameaças se impõe, no pós-pandemia? A resposta não será simples, mas certamente serão apontados caminhos, ao longo do debate, nas diferentes perspetivas dos peritos convidados.

Onde posso assistir?

Simples, clique AQUI para assistir ao debate "Parar para Pensar: Longevidade" e veja na SIC Notícias o “Parar para Pensar: Democracia”

5.2.18

Novos e velhos amigos, o melhor antídoto contra a solidão

Por Mariza Tavares, Rio de Janeiro, in Globo.com

Auge das conexões sociais de homens e mulheres se dá por volta dos 25 anos, mas interação é crítica para a saúde mental

Acho que está claro para todos nós que podemos nos sentir sozinhos mesmo que estejamos acompanhados. Quantas vezes já presenciamos casais que mal toleram dividir uma mesa de restaurante? Mas não é da solidão a dois que falo, e sim da sensação dolorosa de não ter ninguém para compartilhar uma alegria ou tristeza. Nesse caso, a solidão é como um ferimento que não sara. Estudo realizado em 2016 mostrou que o auge das conexões sociais de homens e mulheres se dá por volta dos 25 anos. A partir dessa idade, as pessoas passam a concentrar suas energias na carreira e nos relacionamentos estáveis, deixando de lado o círculo de amigos. À medida que envelhecemos, esse grupo se restringe ainda mais, principalmente depois da aposentadoria, mas a necessidade de interação social é crítica para a saúde mental. A maioria não se dá conta disso, acreditando que cultivar amizades é quase um penduricalho ou exigência da sociedade, mas a questão é tão séria que a Grã-Bretanha criou, mês passado, uma secretaria de Estado para cuidar dos cerca de nove milhões de britânicos que padecem do mal. Estima-se que ali metade das pessoas acima dos 75 anos viva só, sem interagir com ninguém durante dias. Nos EUA, segundo reportagem do jornal “The New York Times”, mais de 42 milhões de americanos acima dos 45 anos sofrem de solidão crônica. Esse blog também tratou do tema: seu impacto na saúde equivale a fumar 15 cigarros por dia.

Amigos: necessidade de interação social é crítica para a saúde mental

Por isso, não se feche para os amigos, antigos ou recentes. Quando alguém entrar em contato, não diga apenas que está muito ocupado, porque isso vai soar como um fora. Se a semana estiver corrida, explique que na seguinte sua agenda estará livre. Cultive uma rotina de encontros: semanais, quinzenais, mensais. Os companheiros de infância valem ouro, nessas relações há afeto, reminiscências, laços que podem ser refeitos como se o tempo nem tivesse passado. Reencontre-os. Reconecte-se. Embora não se possa garantir que a experiência seja 100% satisfatória, talvez você se surpreenda com sentimentos que estavam adormecidos. E não fuja dos encontros familiares: batizados, casamentos e aniversários de bodas podem ser oportunidades para rever pessoas queridas.

Há quem fique ansioso ou estressado quando se trata de estabelecer contato com estranhos, mas há maneiras suaves para fazer essa ponte. Uma delas é buscar informações, com vizinhos, moradores do mesmo bairro, ou até em redes sociais, que sejam úteis para sua vida. Pode ser a indicação sobre um profissional para fazer reparos na casa; sobre um médico ou fisioterapeuta; ou sobre cuidados com animais de estimação – aliás, ter um cão ou um gato abre um enorme leque de possibilidades de interação. Esse pode ser o primeiro passo para estabelecer uma conexão e mapear interesses em comum, mas preste atenção para evitar armadilhas: dar conselhos que não foram solicitados, gabar-se ou se envolver em algum tipo de fofoca.

2.6.14

Portuguesas vivem cada vez mais tempo, mas com menos saúde

Alexandra Campos, in Público on-line

As portuguesas têm uma esperança de vida que é das melhores do mundo, mas desfrutam de muito menos anos saudáveis do que as mulheres dos países melhor classificados na Europa. Uma diferença que pode chegar a uma década.

Em apenas cinco décadas, as mulheres portuguesas ganharam quase 20 anos de vida, em média. A esperança de vida aumentou de forma impressionante, colocando Portugal no top ten mundial (em 2012, era de quase 84 anos). Mas há um reverso da medalha: as portuguesas desfrutam de menos anos de vida saudável do que as mulheres de grande parte dos países europeus. Conseguimos adiar a morte, mas não a doença. Os baixos salários e reformas e a herança pesada de uma "vida dura" de muitas mulheres que hoje são idosas, com reflexo na qualidade de vida, podem explicar uma parte deste resultado. Porém, há também que ter em conta que este indicador inclui uma auto-avaliação e, constatam os especialistas, "as mulheres queixam-se muito".

Compare-se Portugal com a Noruega, o país melhor classificado em Healthy Life Years (HLY, sigla em inglês), indicador do número de anos de vida que uma pessoa pode esperar viver sem incapacidades ou limitações funcionais de longa duração. Quando se olha para a esperança de vida à nascença das portuguesas, 83,6 anos (os dados do base europeia Eurostat são diferentes dos do Instituto Nacional de Estatística recentemente divulgados porque este último calcula a média por triénios), estamos entre os melhores do mundo. As portuguesas já vivem mais, em média, do que as norueguesas, mas quando se tenta avaliar a qualidade com que passam os últimos anos de vida a diferença é enorme. Às segundas aguarda-as um cenário de envelhecimento bem mais animador: aos 65 anos, podem contar (e estamos sempre a falar de médias) com quase 16 anos de vida sem incapacidades. De regresso a Portugal, o futuro apresenta-se mais negro: aos 65 anos, na idade em que habitualmente se entra na reforma, as portuguesas podem esperar por seis anos de vida saudável. São quase dez anos de diferença.

Viver mais tempo é importante, mas saber se esse tempo é vivido com boa saúde também. Tanto que este dado é considerado desde há uma década como um dos indicadores estruturais da Comissão Europeia. Não basta por a ênfase na longevidade, mas avaliar também a qualidade de vida e o bem-estar dos cidadãos. O problema é que, no mapa da União Europeia (os dados são da Comissão Europeia ), olhando para os anos de vida saudável no feminino, Portugal apenas aparece à frente de alguns países do Leste. A Eslováquia é o pior classificado, com uma média de 3,1 HLY (ver quadro).

Mesmo no contexto nacional, as mulheres perdem para os homens neste indicador específico (ver texto ao lado). Vivem mais anos, mas com menos qualidade.

"São muito queixosas"
Como se explica este aparente paradoxo? “O envelhecimento é mais complicado para as mulheres. Em Portugal as mulheres têm graves problemas de morbilidade, muitas doenças. Também são muito queixosas. Algumas tiveram carreiras profissionais muito incompletas, e, por isso, têm pensões mais baixas. Vivem mais tempo mas em pior estado de saúde”, reflecte a socióloga Ana Fernandes, do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

“Há uma série de factores que contribuem para a qualidade de vida. As mulheres auferem menores salários, faltam mais tempo para cuidar dos filhos, dos maridos, dos pais, têm reformas inferiores”, corrobora Maria João Quintela, médica especialista em geriatria . O rendimento também conta. “Se uma pessoa não tem dinheiro para comprar uma prótese auditiva, para substituir os óculos, fica mais incapacitada”, observa.

Mas este indicador reflecte também o preço que se paga pelo aumento da longevidade, notam os especialistas. “A longevidade acaba por trazer esse tipo de penalização”, observa Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, que alerta para o facto de os HLY dependerem em parte da avaliação subjectiva do estado de saúde.

Os portugueses sempre foram dos piores a avaliar o seu estado de saúde. De acordo com o último relatório da OCDE “Health at a Glance 2013”, Portugal era o terceiro dos 34 países da organização com o menor número de pessoas que dizia ter boa ou muito boa saúde (cerca de metade dos inquiridos, contra 69% da média da OCDE).

Adiámos a morte mas não a doença
“Com a longevidade, as mulheres vão adquirindo um conjunto de doenças crónicas, doenças que não matam, mas que moem muito”, destaca igualmente Manuel Villaverde Cabral, director do Instituto do Envelhecimento . “As mulheres queixam-se muito mas a verdade é que nos enterram a todos [aos homens]”, ironiza.

“Quanto mais aumenta a longevidade, mais pioram os indicadores de saúde. A longevidade aumenta a fragilidade, a dependência, as doenças crónicas, as demências, as fracturas, os cancros”, enumera a ex-coordenadora da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, Inês Guerreiro.

A especialista acrescenta que a explicação para a discrepância entre países e sexos pode ainda estar relacionada, entre outros factores, com o facto de muitas portuguesas nascidas antes da Segunda Guerra Mundial não terem tido acesso a instrução . Em Portugal, também só há pouco tempo se começou a investir em reabilitação: “Antes, se alguém sofria um AVC ficava anos e anos numa cama”.

16.5.14

Esperança média de vida aumentou seis anos

in Jornal de Notícias

A esperança de vida aumentou nos países menos desenvolvidos entre 1990 e 2012, com um crescimento de nove anos, em média, de acordo com as estatísticas anuais da Organização Mundial de Saúde. De uma forma geral, a esperança média de vida aumentou seis anos em todo o Mundo.

Segundo o relatório, a Libéria foi o país que registou o maior aumento desde o início da década de 1990 (20 anos, dos 42 para 62 anos em 2012), seguida da Etiópia (de 45 para 64 anos), Maldivas (dos 58 para os 77 anos) e Camboja (de 54 para 72 anos).

A OMS destaca ainda Timor-Leste, onde a esperança média de vida subiu dos 50 para os 66 anos, e ainda o Ruanda, dos 48 para os 65 anos.

De uma forma geral, a esperança média de vida aumentou seis anos em todo o Mundo: uma rapariga nascida em 2012 pode viver até aos 73 anos e um rapaz até aos 68.

O Japão é o país onde as mulheres têm a maior esperança de vida à nascença (87 anos), seguindo-se Espanha, Suíça e Singapura (85,1), Itália (85), França (84,9), Austrália e Coreia do Sul (84,6), Luxemburgo (84,1) e, por fim, Portugal (84).

Quanto aos homens nascidos em 2012, os islandeses são os que vivem mais (81,2 anos), surgindo a Suíça em segundo lugar (80,7 anos) e depois a Austrália (80,5 anos). Em Israel, Singapura, Nova Zelândia e Itália, os rapazes podem esperar viver até aos 80,2 anos, enquanto no Japão e na Suécia a esperança é de 80 anos. Por fim, o Luxemburgo tinha, em 2012, uma esperança média de vida para os homens de 79,7 anos.

"Uma razão importante que justifica que a esperança de vida global tenha aumentado tanto é que estão a morrer menos crianças antes do seu quinto aniversário", afirmou a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, na apresentação do relatório.

No entanto, a organização alertou que ainda prevalece uma grande divisão entre países pobres e ricos: "As pessoas de países com rendimentos elevados continuam a ter muito mais probabilidades de ter uma vida longa do que as pessoas em países com baixos rendimentos", explicou.

Um rapaz nascido em 2012 num país desenvolvido pode esperar viver até aos 76 anos, mais 16 anos do que um rapaz que nasça num país menos desenvolvido. Quanto às mulheres, a diferença ainda é maior - de 19 anos, entre os 82 anos de vida estimados nos países mais ricos contra os 63 anos nos países pobres.

De um modo global, as mulheres vivem mais do que os homens: nos países desenvolvidos, a diferença é de seis anos, enquanto nos menos desenvolvidos é de três anos.

"Nos países desenvolvidos, muito do ganho na esperança de vida deve-se ao sucesso em lidar com doenças não transmissíveis", afirmou Ties Boerma, diretor do departamento de estatísticas de saúde e de sistemas de informação da OMS, que acrescentou que "há menos homens e mulheres a morrer antes dos 60 anos devido a doenças cardíacas ou acidente vascular-cerebral [AVC]".

Por um lado, os países mais desenvolvidos conseguem "monitorizar e controlar a tensão arterial elevada" e, por outro, a redução do consumo de tabaco também permite às pessoas viverem até mais tarde em muitos países.

7.5.14

'Brasil vai envelhecer rápido e na pobreza'

Por Maria Fernanda Ziegler, in Saúde IG

Para Alexandre Kalache, países desenvolvidos enriqueceram para depois envelhecer; Brasil, que terá 65 milhões de idosos em 2050, deve priorizar investimentos em saúde e previdência

Para Alexandre Kalanche, os idosos de hoje devem viver a gerontolescência


Alexandre Kalache adora falar de velhos. Ele é o presidente do Centro Internacional de Longevidade e um dos mais respeitados especialistas no assunto. Os números espantam. Em pouco tempo a população brasileira vai envelhecer rapidamente e, diferente do que aconteceu no Japão e em países da Europa, a mudança ocorrerá na pobreza. E, ainda por cima, em uma sociedade muito voltada para os valores ligados à juventude.

O médico considera que é preciso pensar sobre o que as pessoas de 40 anos hoje querem fazer com os anos que lhes foram dados de presente. Se vão viver 80 ou 90 anos, que seja com saúde. Mas isso não tem sido prioridade no Brasil. Achou que o cenário é de caos à vista? A boa notícia é que você vai viver bastante.

iG: Quais serão as transformações no País com esta mudança populacional?Alexandre Kalache: O Brasil é entre os países com mais de 10 milhões de habitantes o que vai mais rapidamente envelhecer. E eu sempre afirmo isso, os países desenvolvidos primeiro enriqueceram para depois envelhecer, nós estamos envelhecendo muito mais rápido que eles e com pobreza. Daqui há 35 anos, o Brasil vai ter 65 milhões de idosos. É muita gente! Com exceção do México, é uma população maior que a de qualquer país latino americano. É um país tão grande quanto a Alemanha. É um contingente imenso que precisa de investimentos.

iG: Como devem ser feitos estes investimentos?
Kalache: Não só de política para os idosos, mas também de política para que os adultos de hoje possam chegar bem na velhice. Basta você ter 30 anos hoje para que daqui a 35 você tenha 65. A gente não está falando de um grupo que saiu do vácuo. Estamos falando dos adultos de hoje. São duas linhas que não competem, mas que se somam. A forma como as pessoas vão envelhecer vai depender de oportunidades para ter quatro capitais fundamentais: saúde (acesso e prevenção), finanças (previdência privada e público), social (caprichar para ter amigo), e educação. Isso depende de políticas. Não se faz do nada. Infelizmente, o governo federal está desleixado. Faz lei, mas não tem orçamento.

iG: Como essas políticas poderiam ser complementares?
Kalache: A lógica é que, se houver boa política de saúde e previdência, o idoso sai mais barato pra País. Um idoso que recebe uma pensão não contributiva [sem ter contribuído para o INSS] e que vai comprar comida e remédio para a família, está sendo um agente de desenvolvimento. Das grandes políticas do Brasil de redistribuição de renda, a de pensão não contributiva a que mais favorece para a construção de uma classe C. É apontada como a mais eficaz. Em relação à saúde, vemos isto nas medidas de prevenção. O que é caro? Caras são as complicações em decorrência de doenças como hipertensão, por exemplo. Não é melhor investir em prevenção?

iG: O Brasil está envelhecendo rapidamente. A seu ver, o que está sendo feito em termos de políticas públicas sobre o envelhecimento da população?
Kalache: Já foi muito pior do que é hoje. Está bom hoje? Não. De qualquer forma, houve um avanço. Nestes últimos 20, 25 anos, mudou muito a perspectiva. A criação do Estatuto do Idoso, em 2003, fez com que o idoso passasse a ser um cidadão com direito, não mais um alvo de ações filantrópicas ou de caridade. Então, quando uma velhinha entra numa fila de prioridades, ou que tem direito de não pagar o ônibus, não é caridade, é direito. Outro grande avanço, como eu já disse, são as pensões não contributivas. Aquela velhinha do interior que trabalhou na roça a vida inteira nunca contribuiu para o INSS não porque não quisesse, mas porque não tinha emprego formal. Ao receber sua aposentadoria, ela vai ser respeitada na família em vez de ser visto como um fardo. Ela pode decidir onde vai gastar o dinheiro. Vai comprar comida para o neto, remédio para o filho doente.

iG : Mas ainda é preciso melhorar muito...
Kalache: Ah, sim. Está muito ruim. Se você comparar o Programa Nacional do Idoso com os programas que cuidam de política para mulheres e crianças, por exemplo, vai ver que a estrutura do primeiro é muito menor, com equipe e recursos muito menores. E o pior: mesmo com um orçamento pequeno de R$ 12 milhões no biênio, que não é nada, somente 20% do montante foi gasto. Então é muito ruim. A gente ainda precisa fazer muito esforço para dizer que as políticas estão respondendo a este envelhecimento rápido e sem precedentes.

iG: Há 40 anos, uma pessoa de 40 anos era considerada velha. Hoje, uma de 60 não é. O que explica esta mudança?
Kalache: A gente vive numa sociedade muito voltada para aos valores da juventude, para a aparência. O que é bonito é o jovem, a força, a potência, o poder. Nos fixamos muito à beleza externa, física, sem perceber e valorizar uma beleza que você só acumula quando tem experiência, na sabedoria. Você não consegue ser um sábio aos 32 anos. Se for para ser um dia, vai ser mais velho, lá pelos 70.

iG: Quando você acha que este estigma de velho pode mudar?
Kalache: Acho que já está havendo uma revolução de valores aqui. Temos esta geração de babyboomers muito grande que nasceu depois da Segunda Guerra e que teve mais acesso a saúde, educação e dinheiro no bolso. Foi a primeira geração a ter a adolescência, um conceito novo - antes ou a pessoa saía abruptamente da infância com 14 anos para trabalhar ou morreria de fome. Em todas as fases da vida, os baby boomers contestaram. Isto tudo está no nosso DNA. Os velhos de hoje vivem a gerontolescência.

iG: O que é isso?
Kalache: Os adultos estão passando a velhice como uma transição gradual. Só que, diferente da adolescência, a velhice vai durar 20, 25 anos. Você vai com 50 e poucos anos até os 80 fazendo barulho, com muito mais percepção dos seus direitos e coerente com o que sempre pensou. Se sempre foi um ativista, sempre lutou pelos direitos humanos, vai cada vez mais lutar para dizer: 'é possível ser um velho bonito, com recursos para a sociedade'. Vai ser uma batalha do ativismo de exigir os direitos. Existe um estatuto, mas a gente vai lutar para que ele seja posto em prática, que empodere a pessoa para que ela seja um cidadão pleno, atuante, ativo da sua sociedade.

iG: Houve um aumento grande na expectativa de vida. Hoje, uma pessoa com 40 está ainda na metade da vida. Antes, ela estava se preparando para o fim da vida. As referências são outras. Que conselho você daria para essas pessoas?
Kalache: Meu conselho é que elas parem e pensem se querem que a o outra metade da sua vida seja da mesma forma que estão vivendo hoje. Será que não é preciso se reinventar? Fazer um ano sabático, um mestrado, mudar de carreira. Antigamente, se você fizesse uma escolha aos 18, ela te seguiria até os 50, 55 anos. Hoje, não. Então é preciso pensar muito na qualidade da sua vida para que estas décadas que foram dadas de presente sejam usufruídas com qualidade. Não é uma crise dos 40, é uma oportunidade de repensar. Quer ver só um exemplo?

iG: Quero.
Kalache: É o caso do Jorginho Guinle. Ele era um playboy de uma das famílias mais ricas do Brasil. Quando chegou ao final da vida [morreu aos 88], ele disse: 'se eu soubesse que ia durar tanto, teria feito coisas diferentes'. Jorginho morreu pobre, queimou o dinheiro todo da família. Aproveitou bem até os 50, mas terminou doente e morando em apartamento emprestado. Isso porque não previu que viveria tanto. Por isso, meu conselho para as pessoas de 40 anos é que prevejam que vão viver muito, que vão chegar aos 80 ou 90 anos. A forma que elas vão viver vai depender das escolha que fizerem hoje.



5.3.13

Homens esperam viver 61 anos saudáveis e mulheres 59 anos

por Agência Lusa, publicado por Helder Robalo, in Diário de Notícias

A esperança de vida à nascença em Portugal era de 59 anos para as mulheres e de 61 anos para os homens, em 2011, inferior à média da União Europeia (UE) de 62 anos para ambos os sexos.

De acordo com os dados divulgados hoje pelo gabinete de estatísticas europeu Eurostat, em 2011, na UE, à nascença, os homens esperavam viver de boa saúde (ausência de limitações ou de incapacidades devido a um problema de saúde) 61,8 anos e as mulheres 62,2 anos.

Portugal ficou abaixo da média europeia, sendo a esperança média de vida em boas condições de saúde de 58,7 anos para as mulheres e de 60,7 anos para os homens.

Aos 50 anos, as portuguesas esperavam viver saudáveis mais 14,7 anos e os portugueses mais 16,8 anos, enquanto a média da UE era de 17,9 anos para as mulheres e de 17,5 anos para os homens.

Aos 65 anos, as mulheres portuguesas ainda esperavam viver com boas condições de saúde durante 6,4 anos e os homens 7,9 anos, um registo novamente abaixo da média da UE (8,6 anos para ambos os sexos).

Entre os 27 Estados-membros, era em Malta (71 anos as mulheres e 70 anos os homens) e na Suécia (70 anos as mulheres e 71 anos os homens) onde, à nascença, os homens e as mulheres esperavam viver mais anos em boas condições de saúde.

Já a Eslováquia (52 anos para as mulheres para as mulheres e os homens) e a Eslovénia (54 anos em ambos os sexos) eram os países onde, à nascença, a esperança média de vida em condições em condições saudáveis era mais baixas.

3.4.12

Portugueses com mais de 100 anos triplicaram na última década

Por Alexandra Campos, in Público on-line

Há 1791 centenários. A tendência é para que haja cada vez mais. Mas haverá condições para uma vida com qualidade?

Os ingleses têm assegurado o aumento de cidadãos centenários. Em Portugal, o número triplicou na última década, passando dos 589 no Censos 2001 para 1791 no ano passado. Para os portugueses, as hipóteses de viverem mais anos são boas, mas há naturais receios de uma degradação da qualidade de vida.

As projecções oficiais do instituto de estatística inglês dizem: um em cada três bebés nascidos este ano no Reino Unido pode chegar aos 100 anos. Sugestivamente intitulado Quais são as hipóteses de sobreviver até aos 100 anos, o relatório do Office for National Statistics (ONS) prevê também que mais de 95 mil pessoas que actualmente têm 65 anos têm grandes probabilidades de celebrar o seu 100.º aniversário em 2047. O número de centenários deverá, aliás, aumentar 40 vezes nos próximos 50 anos, de acordo com o documento, citado pelo The Telegraph.

Divulgadas na semana passada, as projecções baseadas nas taxas de mortalidade indicam que as mulheres têm mais hipótese de soprar 100 velas do que os homens. No caso dos cerca de 826 mil bebés que nascem este ano no Reino Unido, isso poderá acontecer a 39% das raparigas e apenas 32% dos rapazes.

O aumento dos centenários tem sido e continuará a ser exponencial: segundo o ONS, as pessoas com 100 ou mais anos passaram de seis centenas em 1961 para 13 mil em 2010, prevendo-se 456 mil em 2060.

Maior longevidade não é, todavia, sinónimo de saúde e maior qualidade de vida, avisam os especialistas. E este é o cerne da questão. Para muitos cidadãos, o futuro pode significar isolamento social, à medida que perdem amigos e familiares, e isolamento físico, se a saúde piorar e ficarem encurralados em casas não adaptadas às suas necessidades, alerta David Sinclair, director do Centro Internacional de Longevidade britânico, citado pelo The Guardian.

"A possibilidade de tantas pessoas vieverem mais tempo é obviamente uma boa notícia, mas há aqui um grande "mas". Os actuais centenários são pouco representativos, em vários sentidos. São pessoas que escaparam ao cancro, a tromboses e, assim, são mais saudáveis do que muitos mais jovens. O problema reside em vivermos mais tempo mas em piores condições de saúde e sozinhos em casas pouco adequadas. Outro problema é que somos péssimos a planear o futuro. Não vejo sinais de que estejamos a pensar em medidas para lidar com este fenómeno", acrescenta.

O aumento da longevidade até níveis há bem pouco tempo impensáveis é uma realidade que pode ser replicada, com adaptações, em países com condições sociais semelhantes às do Reino Unido. Os resultados até podem ser mais avassaladores: em Outubro de 2009, um estudo na revista médica britânica The Lancet, baseado no progresso dos índices de qualidade de vida, sugeria que mais de metade dos então recém-nascidos poderia chegar aos 100 anos.

Em Portugal, o que acontecerá? "É preciso perceber qual é o cenário" que os especialistas utilizam, diz, cautelosa, Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia. Chegar a um número de centenários tão elevado "será verdade ou não em função das hipóteses e dos cenários". E é necessário reflectir nas consequências desta evolução: "Se as pessoas viverem com qualidade de vida, será óptimo. Se não, será complicado. A sociedade terá entretanto de se adaptar a outro modelo etário."

"Fazer projecções da esperança média de vida com base numa tábua de mortalidade e nas condições actuais é uma coisa. E, se se agravarem as condições ambientais, como a temperatura, a subida do nível médio das águas do mar, a degradação dos suportes de bem-estar, nomeadamente alimentar?", pergunta Jorge Malheiros, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa.

Malheiros destaca igualmente a questão da qualidade de vida dos centenários. "É um desafio conseguir viver com qualidade e com autonomia. Se a dependência aumentar muito, serão menos a sustentar uma massa maior. E isto é sobretudo um desafio para a forma como se concebe a sociedade", reflecte.

7.3.12

Quase 26% das mulheres portuguesas correm risco de pobreza

in Agência Financeira

62 milhões de mulheres e 54 milhões de homens estão nesta situação na União Europeia



Celebra-se esta quinta-feira o Dia Mundial da Mulher, uma altura de balanços e estatísticas no feminino. Quantas mulheres existem a mais do que os homens entre a população europeia e entre os idosos? Qual a percentagem de mulheres em risco de pobreza ou exclusão social? Como é que as taxas de emprego para homens e mulheres diferem pelo nível de educação? E será que as mulheres compram mais bens e serviços através da Internet do que os homens? As respostas a estas perguntas estão num relatório do Eurostat que foi divulgado esta quarta-feira.

No final do ano passado, existiam 257 milhões de mulheres na União Europeia, mais do que os homens (245 milhões). Contas feitas, 105 mulheres para cada 100 homens. Em Portugal a média é idêntica - 106,7 mulheres por cada 100 homens.

A proporção é significativamente maior se nos concentrarmos na população idosa: 139,7 mulheres para cada 100 homens em Portugal, mais do que a média europeia (138,2).

Quanto ao risco de pobreza, também é maior entre o sexo feminino. Portugal apresenta aqui estatísticas mais negras: 25,8% das mulheres estão nesta situação, contra 24,8% dos homens. Ambos os casos acima da média dos 27 da União Europeia.

Em 2010, estavam contabilizadas 62 milhões de mulheres (24,5%) e 54 milhões de homens (22,3%) risco de pobreza ou exclusão social no Velho Continente.

A proporção de mulheres em risco de pobreza ou exclusão social é, de resto, superior à dos homens em todos os Estados-Membros. As maiores diferenças entre mulheres e homens foram registradas na Itália (26,3% contra 22,6%), Áustria (18,4% e 14,7%) e Eslovénia (20,1% e 16,5%). Os países com menos desigualdades a este nível são a Estónia, Letónia, Lituânia e a Hungria (todos com diferenças de menos de 1 ponto percentual).

No mercado de trabalho, também ainda há diferenças substanciais, com 67,7% das mulheres empregadas em Portugal, comparando com 78,1% dos homens.

Entre as habilitações baixas ou médias, as diferenças são maiores (60,5% contra 75,5% de homens e 76,3% contra 83,6%) do que entre pessoas licenciadas (85,1% mulheres face a 85,9 homens%).

Outro indicador revelado pelo Eurostat prende-se com as compras e serviços adquiridos pela Internet. Os homens portugueses compram mais viagens e fazem mais reservas em hotéis (46% contra 40% de mulheres), mas elas ganham, por exemplo, na compra de roupas por esta via (43% face 26% de homens).

Oito em cada dez trabalhadores com redução de horário são do sexo feminino, segundo um estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE), que recorda que são as mulheres quem mais tenta conciliar vida familiar e trabalho.
«Entre os trabalhadores que optaram por reduzir o horário de trabalho em benefício dos filhos, as mulheres representavam 78,6% dos casos em 2010», revela o INE na véspera do Dia Mundial da Mulher.

Também o INE confirma que as mulheres estão mais vulneráveis à pobreza em Portugal, porque têm menos oportunidades de emprego, apesar de terem cada vez mais estudos.

Olhando para os principais factos do retrato demográfico feminino na última década percebe-se que a discriminação ainda é uma realidade nacional: apesar de terem aderido às novas tecnologias e integrarem o mercado de trabalho, têm taxas de desemprego mais elevadas do que os homens.

O número de beneficiárias de prestações de desemprego aumentou 36,7 na última década, período em que diminuiu o número de jovens que abandonam precocemente a escola e aumentou o número de mulheres com nível de escolaridade superior (duplicou o número de doutoradas) e secundário.