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7.6.23

Síndrome de Tourette: uma vida cheia de tiques e de “autodescoberta”

Inês Pinto Pereira, in Público


Os tiques não escolhem hora ou dia para aparecer e podem dificultar a realização de algumas tarefas do dia-a-dia. O PÚBLICO ouviu quatro testemunhos para entender as implicações da doença.

Foram precisos 43 anos para ter o diagnóstico de Síndrome de Tourette (ST), mas os tiques estão presentes na vida de Gil Trindade, agora com 48 anos, desde que era criança. André Borges, de 42 anos, tem tiques desde os oito, mas só no ano passado procurou ajuda especializada, uma vez que os sintomas da síndrome se intensificaram na idade adulta. Os tiques podem ter uma grande influência na vida social e laboral destas pessoas, como é o caso de Diogo, que teve de abandonar a escola precocemente, e de José, que se reformou aos 24 anos. Para eles, a Síndrome de Tourette, cujo Dia Europeu se celebra a 7 de Junho, é uma "autodescoberta".

A ST é diagnosticada "pelo aparecimento e persistência de tiques" simples e complexos, que deverão manifestar-se com frequência durante pelo menos um ano e que habitualmente geram "interferência no funcionamento social e pessoal do indivíduo", afirma Ana Araújo, médica de psiquiatria do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra. Estes movimentos involuntários, que se repetem várias vezes ao dia, podem ser motores quando, por exemplo, alguém encolhe os ombros, bate palmas ou abana a cabeça. Ou podem ser fónicos, que acontece quando se tosse ou se reproduz sons. Um tique é "como se fosse uma comichão que eu tenho de coçar. É algo que eu tenho de fazer, senão não me sinto bem", afirma Diogo, de 25 anos, cujos tiques apareceram por volta dos sete anos. "Inicialmente era só piscar os olhos com muita força", numa frequência de "cinco vezes a cada minuto ou mais".

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2.5.23

Envelhecer com saúde? Medicina de longevidade vai estar em debate em Cascais

Alexandra Campos, in Público online

“Longevity Med Summit” vai reunir cientistas e investidores de vários países, a 4 e 5 de Maio, em Cascais.

Leia aqui mais sobre este tema: Só um sexto dos idosos diz ter boa saúde. Portugal é o terceiro pior na União Europeia

O futuro passa por prevenir e tratar as doenças associadas ao envelhecimento. Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo, mas, se os portugueses ganharam anos de vida, o país continua distante daqueles que têm uma longevidade com maior número de anos livres de doença, destacam os responsáveis pela organização daquele que é apresentado como o “maior evento” sobre medicina da longevidade – o “Longevit Med Summit” –, que vai reunir em Cascais, nos próximos dias 4 e 5 de Maio, investigadores e cientistas de renome internacional e empreendedores com um total de “10 mil milhões” de euros disponíveis para investir nesta área.

Envelhecer com saúde é possível e é sobre a revolução tecnológica em curso, sobre novas terapias e diagnósticos, e sobre oportunidades de negócio nesta área que se vai falar neste encontro.

“O aumento da esperança de vida traz muitos desafios ao sistema de saúde. Se atrasarmos a progressão do envelhecimento biológico, vamos prevenir as doenças todas. O ideal é que as pessoas não fiquem doentes. E a investigação científica tem dado muitas pistas sobre como se pode aumentar a longevidade saudável”, observa Cláudia Cavadas, investigadora no Centro de Neurociências e Biologia Celular e professora da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, uma das oradoras, lembrando que a longevidade de cada pessoa depende apenas em cerca de 25% dos seus factores genéticos.

“A fórmula para a longevidade já é conhecida, passa pela alimentação saudável, qualidade do sono, interacção social, cuidados de saúde adequados, prevenção e prática de exercício físico", elenca, defendendo que “é preciso capacitar os profissionais de saúde” para este novo paradigma.

Neste encontro em que são esperados “mais de mil participantes”, vão debater-se os avanços da ciência do envelhecimento e falar-se de turismo de saúde, biotecnologia, medicina de precisão, medicina regenerativa e inteligência artificial, explica Jorge Lima, o responsável pela organização, para quem também é fulcral mobilizar os médicos para que passem a utilizar as novas ferramentas.

"O futuro da medicina é tratar as doenças associadas ao envelhecimento", diz Jorge Lima, notando que actualmente é "grande a ênfase no envelhecimento saudável" e é "crescente o interesse científico nas áreas da longevidade saudável".

Convicto de que as novas soluções e tecnologias se vão tornar mais acessíveis à medida que forem ganhando escala, defende que são muitas as novas oportunidades de negócio associadas à longevidade. No encontro vão, aliás, participar investidores de países como Estados Unidos, Israel, Reino Unido e Singapura e, além de fundos de investimento, há também empresas e laboratórios interessados no desenvolvimento deste "mercado da longevidade", afirma.

Entre os oradores, destacam-se Shai Efrati, professor da Sagol School of Neuroscience da Tel Aviv University (Israel), “um dos principais cientistas de pesquisa em medicina hiperbárica do mundo”, Charles Brenner, presidente da Alfred E Mann Family Foundation (Departamento de Diabetes e Metabolismo do Cancro) no City of Hope National Medical Center (Estados Unidos), responsável por diversas pesquisas sobre a correlação do metabolismo, a diabetes e o aparecimento de doenças oncológicas, Andrea B. Maier, professora de Medicina na Universidade Nacional de Singapura e investigadora na área da gerontologia e prevenção de doenças relacionadas com a idade, e Aubrey de Grey , investigador inglês e autor do livro intitulado Ending Aging.


14.2.23

Porque é que médicos internos estrangeiros escolhem Portugal para estagiar?

 Ana Mafalda Inácio, in DN

Elisa é médica italiana e chega a Portugal a falar quase corretamente a língua mãe para fazer estágio num dos Centros de Excelência da Rede Europeia de Reumatologia, no Hospital Santa Maria. Thaís, Letícia, Teófilo e Everton vieram do Brasil para aprofundar o conhecimento, a prática clínica e as técnicas usadas na Gastroenterologia do mesmo hospital. A referenciação internacional dos serviços e o renome dos profissionais levaram-nos a esta escolha.

Sexta-feira. Início de tarde. Elisa Fiorentini, de 29 anos, médica italiana, despede-se do Serviço de Reumatologia do Hospital Santa Maria, em Lisboa. No dia seguinte, bem cedo, regressa a Itália e à sua unidade de origem, onde é médica interna, o Hospital Universitário Careggi, em Florença. Esteve cinco semanas na nossa capital a fazer estágio num dos centros certificados como de excelência na área reumatológica pela rede European Reference NetWork (ERN).

Elisa fala quase corretamente o português, língua que diz ter querido aprender quando, em 2017, veio fazer Erasmus ao nosso país, já durante o curso de medicina. Na altura, conta, escolheu ficar seis meses, "tinha medo de ficar mais tempo", confessa, de não se adaptar, era um novo país, um novo hospital, mas ao fim de um mês na Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Nova de Lisboa, já se tinha arrependido de não ter optado pelo período mais longo, um ano, "só que já não havia nada a fazer". Agora, no terceiro ano da especialidade, optou de novo por Portugal. Candidatou-se a um estágio da rede ERN e conseguiu, mais uma vez, "foi muito pouco tempo", comenta a rir. "Tenho muita pena de me ir embora amanhã".

Num dos antigos anfiteatros da Faculdade de Medicina de Lisboa, no Hospital Santa Maria, Elisa conhece outros médicos internos, Thaís, Letícia, Teófilo e Everton, acabados de chegar de Belo Horizonte, no Brasil, para um estágio no serviço de Gastroenterologia, e com o qual completam os dois anos de "residência em clínica médica", uma espécie de internato em clínica geral. Só depois deste concluído, poderão fazer nova prova para escolherem a especialidade a exercer no futuro.

Elisa está de partida, mas não descarta a possibilidade de voltar, um dia. "Este projeto termina aqui, mas nunca digo que não. Desde a minha experiência no Erasmus que aprendi a perder o medo de algo que não conheço. Na altura, tive uma boa experiência. E agora também. Fui muito bem recebida".

Os outros colegas médicos estão a iniciar a formação, mas ao fim de três dias já questionam se "o Revalida será muito difícil" - ou seja, a equivalência dos seus cursos de Medicina em Portugal. Os cinco são exemplos de muitos outros internos que, nesta altura do ano, chegam ao Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte para fazer formação em vários serviços.

A modalidade não é nova, uns vêm ao abrigo de organizações internacionais, como o caso da European Reference NetWork, outros chegam através de protocolos e parcerias diretas com serviços de hospitais estrangeiros. Mas a escolha cabe a cada um e todos concordam que o mais importante neste tipo de formação é ser feita num serviço com "referenciação internacional" e com "profissionais de renome".

No caso dos médicos brasileiros, todos vieram sem ser ao abrigo de acordos entre hospitais. "Pesquisámos o serviço de gastro de Santa Maria, porque é muito completo, além da enfermaria tem também a componente de procedimentos técnicos, exames, e no Brasil estes raramente são feitos pelos gastrenterologistas, e isso é muito importante para nós", explicam-nos.

Como também é importante poder concretizar o objetivo de experienciar a prática da medicina num país diferente. "Cada vez mais, o conhecimento não pode ser restrito, sobretudo para os jovens médicos. A teoria é a mesma para todos o que se formam em Medicina, mas a prática é diferente e é isso que queremos ver aqui", argumenta Everton Rodrigues.

Ao fim de cinco semanas, Elisa Fiorentini fala da sua experiência e confessa: "Levo muita coisa daqui". Se na altura do Eramus foi incentivada a sair de Itália por duas amigas, que estavam determinadas a entrar neste programa e que a levaram a pensar: "O que faço? Fico sozinha aqui, ou arrisco também", tendo decidido arriscar. Agora, também foi incentivada pela chefe do seu serviço a sair e a aprofundar o conhecimento.

"Queria um serviço de reconhecimento internacional com conhecimento em doenças raras, porque a reumatologia tem muitas doenças raras e cada centro centro tem os seus doentes. Por exemplo, o centro de reumatologia do meu hospital trata muitas doenças, mas está muito focado na esclerose sistémica, e eu queria estar num centro maior para pode observar outras doenças e a forma de lidar com elas, e o serviço de Santa Maria tinha isso", explica.

A médica italiana assume que uma das coisas mais importantes que observou no serviço português foram as consultas multidisciplinares. "Tem muitas. As doenças de reumatologia não têm só a ver com articulações, têm a ver com muitas outras, até do tipo autoimune, e as consultas multidisciplinares acabam por ser muito importantes para se ter uma visão global do doente, a visão de outros especialistas. Às vezes, só quando olhas para um problema de vários ângulos é que percebes qual é a solução. Se não for assim, cada especialista só vê a sua pequena parte e isso não permite, nem um bom diagnóstico nem uma boa gestão da doença", argumenta.

Elisa diz mesmo que este foi o primeiro objetivo que a trouxe aqui. Por isso, reforça satisfeita, "levo muita coisa. Mais conhecimento sobre algumas doenças, que no meu hospital vejo menos, e sobretudo o ter percebido quando é necessário o apoio de outro especialista e o saber pedir ajuda quando o teu conhecimento já não chega. Isto é algo que todos os médicos deveriam experienciar e fazer, porque cada vez mais ninguém consegue saber tudo sobre cada doença".

Outra coisa que não vai descurar "é que sei que este centro funciona desta maneira e se no futuro precisar de algum conselho também sei que posso contar com as pessoas e com o intercâmbio de informação, conhecimento e experiência".
"Cada vez mais, o conhecimento não pode ser restrito, sobretudo para os jovens médicos. A teoria é a mesma para todos o que se formam em Medicina, mas a prática é diferente e é isso que queremos ver aqui".

Os colegas brasileiros concordam, dizendo mesmo que este foi também um dos motivos que os trouxe para um serviço hospitalar fora do Brasil. Thaís Costa, de 27 anos, formada na PUC de Minas Gerais, Pontifícia Universidade Católica, já tem a certeza de que "gastroenterologia é sua especialidade. Letícia Martins, de 28 anos, formada na Faculdade de Medicina de Barbacena, também uma cidade de Minas Gerais, está na dúvida. "Na verdade, eu tinha para mim que era gastro que queria fazer, mas depois durante a residência comecei a perceber que o que mais gosto é do cuidar, de lidar e comunicar com o doente, e tenho estado a pensar na especialidade de geriatria. Sei que em Portugal não é uma especialidade, mas no Brasil é e há muitos médicos", mas isso não a impediu de querer vir conhecer na área de gastro o que diz ser "a prática de outra medicina".
Ambas exercem no mesmo hospital público, Santa Casa da Misericórdia de Belo Horizonte, e ambas reconhecem que foram muito incentivadas pelo "chefe para fazer este mês optativo no fim da residência fora do país. Ele sempre nos diz que é muito importante termos experiências com outras medicinas, para vermos o que se faz de diferente. Ficámos a saber que o serviço de Santa Maria é muito forte nesta área e candidatámo-nos ao estágio, enviando currículo e carta de motivação e conseguimos", refere Letícia. Para Thaís, um dos aspetos que a levou a escolher o serviço de Santa Maria foi o facto de o seu diretor, Rui Tato Marinho (agora diretor clínico do hospital) ser um especialista em hepatites e o facto de ser um serviço muito completo, com "enfermarias e unidades de exames, procedimentos endoscópios".

Muitas horas de trabalho é queixa no Brasil, Itália e em Portugal

Ao fim de três dias, Thaís diz que o que mais a impressionou foi os internos do serviço poderem lidar com as técnicas de exames (endoscopia e colonoscopia), desde o primeiro ano da especialidade. "Aprendem logo todo o tipo de procedimento, no Brasil não é assim. Quando entramos na especialidade, fazemos dois anos, mas se quisermos fazer procedimentos técnicos temos de fazer mais dois anos, porque é outra especialidade". Letícia concorda que esta é uma das grandes diferenças em relação à formação específica no seu país. "O que já percebemos é que, aqui, os procedimentos ou os exames ficam muito restritos aos médicos de gastro. Lá, um cirurgião geral pode fazer os dois anos de endoscopia e virar endoscopista. É uma especialidade à parte".

Mas há mais. Thaís destaca que, "apesar da rotina de enfermaria ser bem parecida com a nossa, os internos não ficam só com o trabalho de enfermaria, circulam muito. Vão para a consulta, fazem a urgência e também procedimentos técnicos. É um trabalho mais variado". Para já, a ideia com que ficam "é que cá há mais qualidade de vida para os médicos e que a forma de pensar é diferente. No Brasil, não nos podemos queixar de desemprego médico, mas o nosso trabalho é mais desvalorizado e a quantidade de horas de trabalho é muito maior". Os cinco riem-se, porque esta é uma das queixas em todo lado. Tanto no Brasil, como em Portugal ou em Itália, "também somos muito parecidos", diz Elisa.

Teófilo Bom Conselho é o mais jovem de todos. Tem 25 anos, o ser médico sempre foi um sonho de criança, apesar de na família não haver um único médico. "Desde que me lembro que dizia que queria ser médico. Foi um caminho muito difícil, muita preparação, porque medicina é dos cursos mais concorridos e com notas mais altas para se entrar na faculdade. Entrei com 17 anos. Fiz os seis anos de curso e formei-me em 2020. No início de 2021, comecei a residência médica, que acabo no final de fevereiro".
Depois, o seu caminho será ir para São Paulo, onde quer fazer a especialidade gastro, sobre a qual também não tem dúvidas. "É o que quero. Ficou muito bem definido para mim na residência, porque no início cardiologia também era uma opção", confessando ainda que a sua vinda a Portugal também foi incentivada pelo colega Everton. "Eu tinha tudo preparado para fazer este estágio na Universidade de São Paulo, é uma das melhores do Brasil, mas o Everton conseguiu o estágio aqui e acabou incentivando a candidatar-me. E vim, não podia perder a oportunidade de conhecer uma medicina diferente".

Teófilo e Everton trabalham ambos no Hospital Metropolitano Dr. Célio Castro, em Belo Horizonte, uma unidade muito recente, construída em 2015 propositadamente para "dar resposta à população com acesso ao serviço público". Everton explica que "é um hospital diferente de todos os outros hospitais públicos de Belo Horizonte". Isto porque "é uma Parceria Público Privada, é um hospital público gerido pelo privado e então tem uma incrível estrutura e a funcionalidade é enorme. A resposta é muita rápida e muito fluida", mas é um hospital centrado na área da "Medicina Interna, Cirurgia Geral, Medicina Intensiva e Neurologia. Não tem gastro e também vou ter de sair". O seu futuro também irá passar por outro hospital e por outra cidade, certamente São Paulo.
Mas os dois confessam que vão de "cabeça aberta". Teófilo diz que vai a pensar mais na área da hepatologia, mas a olhar também para a opção de imagiologia, sabendo, à partida, que o que dá mais dinheiro é esta última, embora, diga, "a hepatologia também pode dar, se conseguir entrar numa equipa de transplante".

Everton, de 26 anos, diz gostar "mais da parte de Imagiologia, dos procedimentos, mas também sou apaixonado pela parte clínica, gosto de lidar com as pessoas, mas estou 60% inclinado para a imagem e 40% para a clínica". O ser médico "também faz parte dos primórdios da minha existência, embora fosse também uma coisa distante, porque na minha família não há um único médico, eu sou o primeiro. Sempre gostei de pessoas, sinto-me bem a cuidar e não me veria a fazer outra coisa". Para Everton, o sair do Brasil após a especialidade também é uma opção. "Estou tão encantado que não teria nenhum impedimento de voltar e tentar o revalida, poder começar a emigrar aos poucos".

Para os cinco jovens médicos, o conhecimento em medicina é universal e todos defendem que "o valor da vida é igual para todos". Por isso, "todas deveriam ter acesso aos cuidados de saúde da mesma forma. Um doente é um doente, a doença não é diferente porque é pobre ou rico", sustenta Elisa, argumentando que para ela, em termos de futuro, o mais importante seria os Estados investirem mais em cuidados de saúde no sistema público. "Em Itália, como em Portugal a parte privada da saúde está a ganhar tanta força como a parte pública e, assim, a Saúde já não é acessível para todos da mesma maneira".

No futuro, Teófilo diz que gostaria que a Saúde fosse mais valorizada no Brasil. "A teoria é muito boa, mas na pratica falta muita coisa, falta de investimento a todos os níveis, municipal, distrital, estadual". Para Everton, há duas coisas que fariam a diferença, "uma é que os recursos da saúde fossem destinados mais à prevenção do que ao tratamento da doença, a outra é que, independentemente de todo o desenvolvimento tecnológico, não se perca a arte de cuidar com a mão, de lidar com as pessoas".

Por cá, internos não quiseram preencher 161 vagas

Em 2022, foram lançadas 2057 vagas para o internato em especialidades, a começar em 2023. Foi o maior número de sempre, referiu o Ministério da Saúde, mas este aumento também registou o maior número de sempre de vagas por preencher, 161. A esmagadora maioria em unidades da Grande Lisboa, 103. Destas, 90 da carreira hospitalar e 71 dos cuidados primários. Do total de candidatos a concurso, 438 recusaram qualquer uma das vagas. As especialidades mais atingidas foram Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Farmacologia Clínica, Imunohemoterapia, Patologia Clínica e Saúde Pública. O Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte recebeu em janeiro 210 médicos internos, 95 para fazer uma especialidade e 115 para formação geral.

27.11.15

Apanhar a doença antes que ela nos apanhe a nós

in o Observador

Muitas vidas podem ser salvas se alguns problemas de saúde forem detetados a tempo. Não se trata de viver com a mania das doenças, mas apenas de visitar o médico anualmente e seguir os seus conselhos.

Diabetes, hipertensão arterial ou certos tipos de cancro são alguns dos problemas de saúde que podem ser facilmente diagnosticados com uma simples ida ao médico. Esta prática, que normalmente se designa por check-up, ajuda a detetar situações clínicas ainda numa fase inicial, melhorando as possibilidades de tratamento. Permite também que o médico dê orientações para que o doente desenvolva hábitos de vida saudável e previna o aparecimento de doenças evitáveis.

A avaliação regular do estado de saúde é importante, desde logo porque “nem sempre quando afirmamos que estamos bem de saúde isso é verdade”. Quem o diz é José Ramos Osório, especialista em Medicina Geral e Familiar e um dos médicos assistentes CUF no Hospital CUF Cascais. Nas suas palavras, “existem muitas patologias silenciosas que se manifestam apenas em situações agudas graves, ou muito evoluídas, por vezes até colocando em risco a vida”. Por isso, o clínico não tem dúvidas em recomendar: “Sem sermos hipocondríacos devemos dar alguma atenção ao nosso corpo e efetuar exames médicos de rotina.” Para tal, a articulação com o médico assistente é fundamental, já que em conjunto com este “deverão ser estabelecidos os exames auxiliares de diagnóstico necessários em cada etapa das nossas vidas e de acordo com o sexo, idade, antecedentes pessoais e familiares”. José Ramos Osório deixa claro que “não existem padrões preestabelecidos, mas antes devem ser ajustados individualmente”, o que é o mesmo que dizer que cada caso é um caso e a avaliação do estado de saúde é adaptada a cada pessoa.

Questionado sobre as principais situações de saúde que podem ser detetadas com este procedimento, o médico aponta as patologias que numa fase inicial não apresentam sintomas, dando como exemplo o cancro da mama ou cólon. Por passarem despercebidas inicialmente, “só um exame médico cuidado e complementado com exames auxiliares de diagnóstico escolhidos individualmente poderá levar a um diagnóstico atempado, ou seja, em tempo útil de tratamento”, esclarece.

Ao contrário do que muita gente pensa, a visita regular ao médico, mesmo quando tudo parece bem, deve ser feita por todas as pessoas sem exceção. “Todas as pessoas devem regularmente consultar o seu médico assistente e com ele desenhar um plano para a vida tendo em conta a idade, o sexo e os antecedentes familiares”, diz José Ramos Osório, salientando que “quem tem antecedentes pessoais ou familiares não deve descurar nem adiar etapas desse plano, que foi estabelecido pelo médico tendo em conta o seu historial”.

O que se faz num check-up?

A avaliação regular do estado de saúde é algo muito simples, sem implicar exames complicados nem intervenções muito invasivas. “O check-up deve começar sempre por uma consulta médica e nesta etapa serão definidos os exames auxiliares de diagnóstico mais adequados à pessoa em questão”, esclarece o especialista. Ainda assim, há exames considerados padrão e que devem ser efetuados por um adulto jovem, nomeadamente, análises sanguíneas que incluam a glicemia (açúcar no sangue), o perfil lipídico (colesterol e triglicerídeos), função hepática e renal, bem como o PSA nos homens com mais de 50 anos, para avaliar o risco de cancro da próstata.

De acordo com José Ramos Osório, regularmente também deve ser efetuado um eletrocardiograma, uma radiografia do tórax e, no caso das mulheres, mamografia e ecografia mamária bem como ecografia pélvica. Ainda assim, o clínico frisa que “os exames a efetuar devem ser determinados pelo médico, pois são auxiliares de diagnóstico e como tal devem ajudar o médico a tomar decisões”.

Também a periodicidade do check-up irá ser adequada a cada situação, “mas os exames apontados como padrão geral devem ser efetuados anualmente a partir dos 45 anos, embora existam pessoas que devido à carga familiar e genética terão que começar a fazer mais cedo”, realça o clínico do Hospital CUF Cascais.

E desengane-se quem evita a realização de exames por recear os eventuais efeitos negativos dos mesmos. Segundo o médico, “os níveis de radiação dos atuais equipamentos são muito baixos e pouco nocivos para a saúde”. Mas mesmo assim, reforça que “estes exames só devem ser efetuados se necessários e se ajudarem em alguma coisa o clínico no seu diagnóstico”.

Sinais de alerta

Em vez de apresentar uma lista de sinais de alerta a que devemos estar atentos, José Ramos Osório prefere chamar a atenção para a relação que todos devemos manter com o nosso corpo: “Todos sabemos as nossas capacidade físicas e conhecemos melhor que ninguém o nosso corpo.” Nesse sentido, “se as mulheres se habituarem a fazer a palpação mamária mensalmente serão as primeiras a detetar qualquer sinal de alerta”, diz, aconselhando nesse caso a contactar de imediato o médico. A este propósito, lembra que “as mulheres habituadas a fazer sistematicamente a palpação das mamas são as principais responsáveis pelo diagnóstico precoce deste tipo de cancro, sendo que mais de 40% dos nódulos mamários são detetados pela própria mulher”.

A terminar, o especialista deixa um conselho: “Decidam sempre com a ajuda do médico assistente a realização do tipo de exames a efetuar. Será sempre mais útil um exame feito à medida do que um padronizado. Além disso, parem um pouco, observem e escutem os sinais do vosso corpo. Na dúvida falem com o vosso médico.”