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3.5.23

Solidão: a nova epidemia de saúde pública que tem tantos riscos como fumar

por Lusa, in SIC


O alerta foi feito pelo cirurgião-geral dos Estados Unidos, que afirmou ainda que as redes sociais estão a impulsionar o aumento da solidão em particular. "Como é que concebemos uma tecnologia que fortaleça as nossas relações em vez de as enfraquecer?"


A solidão generalizada nos Estados Unidos representa riscos para a saúde tão mortais como fumar uma dúzia de cigarros por dia e é a mais recente epidemia de saúde pública.

O alerta foi feito pelo cirurgião-geral dos Estados Unidos, Vivek Murthy, a principal autoridade em saúde pública, que, ao declarar a solidão como a mais recente epidemia de saúde pública, referiu que ela custa ao setor da saúde milhares de milhões de dólares por ano.

Cerca de metade dos adultos norte-americanos dizem já ter sentido solidão, afirmou Vivek Murthy, num relatório de 81 páginas do seu gabinete.


"Sabemos agora que a solidão é um sentimento comum que muitas pessoas experimentam. É como a fome ou a sede. É um sentimento que o corpo nos envia quando algo que precisamos para sobreviver está a faltar", disse Vivek Murthy numa entrevista à agência de notícias "Associated Press".

E acrescentou: "Milhões de pessoas na América estão a lutar na sombra, e isso não está certo. Foi por isso que emiti este aviso, para tirar a cortina de uma luta que demasiadas pessoas estão a viver".

Crise da solidão garavou-se com a pandemia de covid-19


A declaração destina-se a aumentar a consciencialização sobre a solidão, mas não desbloqueia o financiamento federal ou a programação dedicada a combater o problema.

A investigação mostra que os americanos, que nas últimas décadas têm vindo a envolver-se menos com os locais de culto, organizações comunitárias e até com os seus próprios familiares, têm vindo a registar um aumento constante de sentimentos de solidão. O número de agregados familiares solteiros também duplicou nos últimos 60 anos.

Mas a crise agravou-se profundamente quando a pandemia de covid-19 se espalhou, levando escolas e locais de trabalho a fechar as portas e fazendo com que milhões de americanos se isolassem em casa, longe de familiares ou amigos.

As pessoas reduziram os seus grupos de amigos durante a pandemia do coronavírus e diminuíram o tempo passado com esses amigos, segundo o relatório do cirurgião-geral. Em 2020, os americanos passavam cerca de 20 minutos por dia, pessoalmente, com amigos, quando era cerca de uma hora duas décadas antes.

Solidão aumenta o risco de morte prematura em cerca de 30%

A epidemia de solidão está a atingir especialmente os jovens, com idades compreendidas entre os 15 e os 24 anos. O grupo etário registou uma quebra de 70% no tempo passado com os amigos durante o mesmo período.

A solidão aumenta o risco de morte prematura em cerca de 30%, tendo o relatório revelado que as pessoas com fracas relações sociais apresentam também um maior risco de acidente vascular cerebral e de doença cardíaca.
“Pedalar sem idade”: o movimento que quer combater a solidão dos idosos
A solidão não é só para os mais velhos

O isolamento também aumenta a probabilidade de uma pessoa sofrer de depressão, ansiedade e demência, de acordo com a investigação. Vivek Murthy não forneceu dados que ilustrem o número de pessoas que morrem diretamente devido à solidão ou ao isolamento.

O cirurgião-geral está a apelar aos locais de trabalho, às escolas, às empresas de tecnologia, às organizações comunitárias, aos pais e a outras pessoas para que façam mudanças que aumentem a conectividade do país.

Aconselha as pessoas a juntarem-se a grupos comunitários e a largarem os telemóveis quando estão a falar com os amigos; os empregadores a pensarem cuidadosamente nas suas políticas de trabalho à distância; e os sistemas de saúde a darem formação aos médicos para que reconheçam os riscos da solidão para a saúde.

Redes sociais estão a impulsionar o aumento da solidão?

A tecnologia exacerbou rapidamente o problema da solidão, tendo um estudo citado no relatório concluído que as pessoas que utilizavam as redes sociais durante duas horas ou mais por dia tinham mais do dobro da probabilidade de se sentirem socialmente isoladas do que as que utilizavam essas aplicações durante menos de 30 minutos por dia.

Vivek Murthy afirmou que as redes sociais estão a impulsionar o aumento da solidão em particular. O relatório sugere que as empresas de tecnologia implementem proteções para as crianças, especialmente em relação ao seu comportamento nas redes sociais.


"Não há realmente nenhum substituto para a interação pessoal", disse, questionando: "À medida que passámos a utilizar cada vez mais a tecnologia para a nossa comunicação, perdemos muito dessa interação pessoal. Como é que concebemos uma tecnologia que fortaleça as nossas relações em vez de as enfraquecer?".

18.2.22

Cada vez mais idosos "reféns" da solidão no Leste da Europa

in Euronews

Quando a sua esposa, filhos, netos e amigos não têm tempo para ele, Nodar Ghonikashvili, de 70 anos, vem aqui, para este pequeno parque em Tbilisi, a capital da Geórgia.

Acontece que nem sempre é fácil encontrar alguém com quem falar e partilhar as notícias do dia, alguém que lhe possa dedicar um pouco de tempo.

"Imagine só, tenho alguma informação e preciso de a partilhar.... Quanto mais informação tiver, mais quero falar com alguém sobre o assunto. Por vezes, o meu neto não quer ouvir as minhas histórias. Claro que temos comunicação, ele pergunta-me coisas de vez em quando... Mas de qualquer forma, eu e ele pensamos de forma diferente. Portanto, é melhor viver desta forma... Claro que existe a sensação de solidão nestes momentos. Cada um tem o seu próprio negócio, todos estão ocupados", revela.

O centro de dia para idosos que Nodar frequenta está temporariamente fechado agora, devido à pandemia. Todos os dias o pessoal organiza vários eventos para cerca de 30 cidadãos idosos, para lhes lembrar que não estão sozinhos e que as suas vidas são importantes. O isolamento é ainda maior.

Inga Chkheidze, responsável do programa Social neste centro de dia, afirma: "Não é tão comum aqui os idosos terem o seu próprio negócio, ou aprenderem algo novo nesta idade. Eles têm uma certa vergonha - dizendo: 'qual é a utilidade da aprendizagem, sou demasiado velho para trabalhar, demasiado velho para me vestir para o trabalho'. A maioria das pessoas aqui prefere vestir roupas confortáveis do dia-a-dia".

Em 2021, o Fundo das Nações Unidas para as Populações (FNUP) e o London University College realizaram um inquérito em 20 países da Ásia Central e da Europa de Leste. 20% dos participantes entre 65 e 85 anos, afirmaram estar a viver uma grave solidão. De acordo com o estudo, o isolamento causado pela pandemia complicou ainda mais a situação.

Para o sociólogo Iago Katchkatchishvili, "a situação nos estados pós-soviéticos é mais dramática do que na Europa do Leste. Isto porque os programas sociais para os idosos estão aí mais desenvolvidos. É por isso que temos uma tal diferença, uma diferença ao nível da política estatal em termos de lidar com os idosos".

Os investigadores acreditam que a solução passa pelo desenvolvimento de políticas de estado para proteção dos direitos, saúde e dignidade dos cidadãos idosos.

16.11.21

Censos Sénior: GNR identifica no distrito mais de 1800 idosos sozinhos ou isolados

in a Reconquista

Recolha de dados da Operação Censos Sénior 2021 decorreu durante o mês de outubro em todo o país.

A GNR identificou 1826 idosos a viverem sozinhos ou isolados em todo o distrito de Castelo Branco.

O número é o resultado da Operação Censos Sénior 2021, que decorreu durante o mês de outubro em todo o país e no qual a guarda identificou quase 45 mil idosos a viverem nestas condições.

Em comunicado a GNR explica que este levantamento que é feito anualmente “visa garantir um conjunto de ações de patrulhamento e de sensibilização à população mais idosa, que vive sozinha, isolada, ou sozinha e isolada, através da atualização dos registos das edições anteriores”, alertando os mais velhos “para a adoção de comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes, nomeadamente em situações de violência, de burla e furto, bem como para a adoção de medidas preventivas de propagação da pandemia Covid-19”.

O primeiro Censos Sénior aconteceu há 10 anos e desde então a GNR “tem vindo a atualizar a sinalização geográfica, proporcionando assim um apoio mais próximo à nossa população idosa, o que certamente contribui, por um lado, para a criação de um clima de maior confiança e de empatia entre os idosos e os militares da GNR e, por outro, para o aumento do seu sentimento de segurança”, diz em comunicado.

A lista de distritos com maior número de idosos identificados é liderada por Vila Real com 5191, seguindo-se Guarda com 5012 e Viseu com 3543.

5.11.21

Pandemia deixou os idosos mais sós. Apenas 8% mantiveram visitas a familiares com a mesma regularidade

Ana Maia, in Público on-line

Grupo de investigadores portugueses procurou avaliar os efeitos da covid-19 nas pessoas com 60 e mais anos durante Junho e Agosto de 2020. Houve um forte impacto na saúde, segundo os resultados do trabalho publicado na revista Acta Médica Portuguesa.

A pandemia teve “um impacto significativo” junto dos mais velhos, concluiu um grupo de investigadores portugueses que procurou avaliar os efeitos da covid-19 nas pessoas com 60 e mais anos entre Junho e Agosto do ano passado. Ficaram mais sozinhos e isolados: 16% dos inquiridos disseram não ter saído de casa e mais de 80% deixaram de visitar familiares ou passaram a fazê-lo com menos regularidade.

Segundo o artigo Impacto da covid-19 na População Idosa em Portugal: Resultados do Survey of Health, Ageing and Retirement, publicado na revista Acta Médica Portuguesa, houve uma “diminuição da socialização e na deterioração de hábitos de vida” das pessoas mais velhas, com impacto na saúde mental.

Lembram os investigadores do Centro Hospitalar Lisboa Norte, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho que “aos mais velhos foi pedida especial cautela, muitas vezes com os bens essenciais levados a suas casas”, o que se traduziu “num confinamento importante e grande alteração das suas rotinas, com um pano de fundo de incerteza”.

Para este estudo transversal, que abarcou o período entre Junho e Agosto de 2020, utilizaram-se dados de uma amostra representativa da população portuguesa não institucionalizada e com mais de 60 anos, provenientes da Survey of Health, Ageing and Health (SHARE). Dos 1080 participantes, 55% tinham entre os 60 e os 69 anos, 27% estavam entre os 70 e os 79 anos, 15% entre os 80 e os 89 anos e 3% tinham mais de 90 anos. Aos mesmos foi feito um inquérito no qual se perguntou sobre a percepção do seu estado de saúde desde o início da pandemia, se saíram de casa, se sentiam mais ansiedade e solidão.

Segundo os resultados, 16% dos inquiridos disseram não ter saído de casa desde o início da pandemia e “só 23% mantiveram os mesmos hábitos de sair de casa para fazer uma caminhada, tal como antes da pandemia”. Também foi possível apurar que 29% não voltaram a sair para fazer uma caminhada e 35% reduziram estes hábitos. “Apenas 8% dos inquiridos mantiveram as visitas a familiares com a mesma regularidade e mais de 80% deixaram de visitar ou visitaram familiares com menos regularidade”, lê-se no artigo. Também 31% dos participantes referiram sentir-se mais sós desde o início da pandemia.

O retrato que resulta é também o de um importante impacto na saúde mental: 80% dos inquiridos referiram um aumento da ansiedade ou nervosismo desde o início da pandemia, 73% disseram sentir-se mais tristes ou deprimidos e 30% consideraram que o sono piorou. “Sabe-se que existe uma associação importante entre o sedentarismo e a depressão nos mais velhos, sendo a actividade física uma estratégia preventiva e também curativa da depressão nos idosos”, lembram os investigadores no artigo.
Atrasos nos tratamentos

“É importante ter também em consideração que 22% daqueles que estavam empregados perderam o trabalho devido à pandemia, e que mais de metade referiu dificuldades em continuar a pagar as suas despesas até ao final do mês, o que logicamente pode contribuir para o aumento de sintomas depressivos e ansiosos”, refere o artigo.

Numa comparação entre sexos, concluíram que “as mulheres referiram mais frequentemente o agravamento do seu estado de saúde, tal como terem ficado mais em casa desde o início da pandemia, abandonarem mais frequentemente as consultas ou tratamentos em curso e terem sentido mais dificuldades em conseguir que os seus rendimentos fossem suficientes para cobrir as despesas até ao final do mês”.

O estudo faz também uma avaliação à percepção relativa aos cuidados médicos. Durante o período analisado, 12% dos inquiridos “desistiram de algum cuidado médico por medo de serem infectados”, 56% “referiram que houve um atraso nos seus tratamentos devido à pandemia” e “em 8% dos casos esses tratamentos terão sido mesmo negados”. Mas ainda assim, mais de 80% das pessoas consideraram que o seu estado de saúde não se alterou.

“Sendo certo que está descrito na literatura internacional que o atraso no tratamento de diversas patologias, incluindo tratamentos urgentes, teve repercussão na mortalidade, esse impacto pode ser diferido no tempo e, portanto, não percepcionado de forma imediata pela nossa amostra à data da resposta ao inquérito”, referem os investigadores, que sugerem a realização de novos estudos para avaliar o impacto a longo prazo da covid-19 nesta faixa etária.

4.8.21

Idosos de S. João da Pesqueira e Tabuaço vão ter sistema de segurança em casa

in Jornal o Centro

Projeto-piloto quer prestar apoio aos idosos, garantindo a segurança em casa e procurando diminuir as situações de potencial risco

Tabuaço e S. João da Pesqueira estão entre os concelhos que vão integrar o projeto “Idosos@ Ativos@”. A iniciativa quer ajudar um total de 60 idosos que vivam sozinhos construindo-lhes uma rede familiar e de proximidade com a colaboração de familiares próximos, autarquias, parceiros sociais, voluntários e GNR.

O principal objetivo passa por prestar apoio aos idosos, assegurar condições de vida mais seguras e contribuir para um envelhecimento ativo, autónomo e saudável, garantindo a segurança em casa e procurando diminuir as situações de potencial risco.

O projeto-piloto é coordenado pelas câmaras de S. João da Pesqueira, Murça e Tabuaço e pelos centros sociais e paroquiais de Castanheiro do Sul e Trevões, no âmbito de uma candidatura ao programa Norte 2020.

Em comunicado, as entidades promotoras do projeto referem que, em cada município, serão apoiados 20 idosos a viver sozinhos para participar nesta ação.

Nesse sentido, acrescentam os promotores, vai ser instalado em cada habitação um sistema que permite que o idoso possa controlar e gerir automaticamente a iluminação da casa, a entrada de pessoas e a emissão de alertas de movimento e de temperatura excessiva, entre outras funções, com vista a torná-lo mais protegido e seguro.

Por exemplo, a iluminação e a sua intensidade funcionarão de modo automático “em função das configurações que forem decididas para cada habitação”, evitando perigos que o idoso podia incorrer em caso de andar nas zonas menos iluminadas ou à noite, daí que a iluminação ligará sempre que se movimente e poderá também ser desligada automaticamente.

Já em caso de haver alguma fonte de ignição ligada que possa provocar um incêndio, inatividade na casa ou houver entradas de pessoas sem permissão, o aumento de temperatura será detetado e dará origem à emissão de um alerta para os números de telemóvel que tenham sido indicados. O controlo será feito pelos familiares e instituições através do telemóvel.

A resposta será feita em medida das necessidades e da situação de cada idoso, que irá estar ligado às instituições que intervêm no projeto, que assumem o papel de familiares que não podem acompanhar porque vivem longe ou não o querem.

Também segundo as entidades promotoras, o projeto tem potencial para ser replicado em todo o país, sendo que a organização pretende apresentar e divulgar os seus resultados.

29.7.21

Idosos que usaram plataformas digitais para comunicar durante a pandemia sentiram-se mais solitários do que os que não tiveram qualquer contacto

in Visão

O estudo focou-se em adultos com idades superiores a 60 anos e verificou que quando comunicavam, sobretudo, virtualmente com a família e amigos, os benefícios para a saúde mental eram menores do que quem não tinha qualquer tipo de contacto

A pandemia de Covid-19 reduziu drasticamente o contacto físico entre as famílias, prejudicando, sobretudo, os adultos a partir dos 60 anos, por serem o grupo de maior risco. A maioria das pessoas manteve contacto com a família e amigos durante o isolamento através do telemóvel, por chamadas de vídeo, zoom e outras plataformas digitais, como forma de reduzir o isolamento.

Um estudo, publicado esta segunda-feira na Frontiers in Sociology, examinou como o contacto presencial e virtual entre famílias, bem como a combinação das duas formas de contacto, está relacionado com o bem-estar mental dos idosos durante a pandemia. Serviram-se de dados recolhidos entre 2018 e 2019 e em junho de 2020, dos mesmos indivíduos, para comparação com dados do Health and Retirement Study, nos EUA e da associação Understanding Society, no Reino Unido.

“Ficamos surpreendidos com a descoberta de que uma pessoa idosa que apenas teve contacto virtual durante o confinamento sentiu mais solidão e mais impactos negativos na saúde mental do que uma pessoa idosa que não teve contacto com outras pessoas”, afirmou Yang Hu, co-autor da investigação e especialista em sociologia da Universidade de Lancaster ao The Guardian.

Já vários estudos tinham relatado um aumento acentuado no sofrimento mental, distúrbios psiquiátricos e solidão nos Estados Unidos e no Reino Unido durante a pandemia. Mas os resultados desta investigação acrescentaram que o contacto presencial entre as famílias ajuda a manter o bem-estar mental dos idosos e que o contacto virtual não era uma alternativa qualitativamente equivalente.

Os dados mostraram um aumento significativo na solidão nos EUA e um declínio no bem-estar mental geral no Reino Unido depois do confinamento. Os três fatores que mais contribuíram para esta situação foram o facto de as chamadas e mensagens de texto geralmente serem insuficientes para simular o contacto cara a cara, a dependência do acesso à internet, dos recursos do dispositivo e do know-how tecnológico, que muitas vezes são estratificados devido às condições socioeconómicas e, por fim, o uso intensivo de tecnologia poder causar stress ou até mesmo levar ao esgotamento de quem não está tão à vontade para mexer com aparelhos tecnológicos.

No Reino Unido a escala de bem-estar mental geral diminuiu de 62,6% antes da Covid-19 para 46,3% durante a pandemia e nos EUA não houve grande alteração. Relativamente à solidão, 28,7% dos americanos ficaram mais solitários durante a pandemia, em comparação a 11,1% no Reino Unido. Portanto, o impacto negativo da pandemia e das medidas associadas sobre a solidão dos idosos parece ter sido maior nos Estados Unidos do que no Reino Unido.

“Não é apenas a solidão que piorou com o contacto virtual, mas a saúde mental geral. As pessoas estavam mais deprimidas, mais isoladas e sentiam-se mais infelizes como resultado direto do uso de tecnologia para comunicar”, acrescentou o especialista.

Por norma, no Reino Unido, as mulheres eram mais propensas do que os homens a depender apenas do contacto virtual com a família e nos EUA, o contacto apenas virtual foi relatado com mais frequência por aqueles que têm um curso superior, que trabalharam durante a pandemia e/ou são imigrantes. Curiosamente, em ambos os países, as pessoas que vivem sozinhas tendem a estar mais vezes fisicamente com a família, do que as pessoas que viveram com outras pessoas durante a pandemia.

Nos EUA, o contacto cara a cara mais frequente entre as famílias foi associado a um melhor bem-estar mental geral durante a pandemia, mas não foi associado a mudanças no bem-estar mental geral antes e durante a pandemia.

No Reino Unido, o contacto cara a cara frequente foi associado a um melhor bem-estar mental geral durante a pandemia e a um menor declínio do bem-estar mental após o início da pandemia.

As conclusões indicam que a pandemia prejudicou o bem-estar mental dos idosos, como evidenciado pelo notável aumento da solidão nos EUA e o declínio do bem-estar mental geral no Reino Unido e destacam que as interações entre as famílias são um recurso-chave para ajudar na manutenção da saúde psicológica dos mais velhos.

Em Portugal, de acordo com os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística, 65,3% das pessoas com idades entre os 55 e 64 usou internet e 39% com idades entre os 65 e 74. A maioria utilizou este recurso durante o confinamento para comunicar e aceder a informação.

27.7.21

Solidão duplica na UE devido à pandemia e Portugal tem 6.ª maior subida

in Público on-line

“Houve um quadruplicar da solidão entre os jovens entre os 18-35 anos, em comparação com 2016” e um em cada quatro cidadãos da UE relatou sentir-se sozinho durante os primeiros meses da pandemia, informa a Comissão Europeia.

A solidão duplicou na União Europeia (UE) entre Abril e Julho de 2020, no início da pandemia de covid-19, e Portugal é o sexto país com a maior subida, segundo um estudo da Comissão Europeia divulgado esta segunda-feira.

Os dados constam de um relatório do Centro Comum de Investigação (CCI), o serviço científico interno da Comissão Europeia, sobre solidão e isolamento social nos Estados-membros, que indica que “um em cada quatro cidadãos da UE relatou sentir-se sozinho durante os primeiros meses da pandemia”, anunciou a instituição.

Tendo por base inquéritos realizados entre Abril de 2020 e Março deste ano pela Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho, num total de mais de 180 mil pessoas com mais de 18 anos ouvidas, o executivo comunitário conclui que “os sentimentos de solidão duplicaram em todos os grupos etários nos primeiros meses da pandemia”.

Além disso, “houve um quadruplicar da solidão entre os jovens entre os 18-35 anos, em comparação com 2016”, acrescenta a Comissão Europeia na informação à imprensa.

Ao mesmo tempo, “a cobertura mediática em toda a UE sobre o fenómeno da solidão também duplicou durante a pandemia, com a consciência da questão a variar amplamente entre os Estados-membros”, principalmente em países como Itália, Espanha, Portugal, França, Alemanha e Suécia.

No relatório, o CCI da Comissão Europeia observa que “a solidão aumentou mais de 15 pontos percentuais na Bulgária, Estónia, França, Alemanha, Polónia, Portugal e Suécia”.

Em concreto, a percentagem de inquiridos em Portugal que disseram sentir-se sozinhos mais de metade do tempo nas duas semanas anteriores à entrevista passou de 6,6% em 2016 (níveis pré-pandémicos) para 21,9% em 2020 (durante a pandemia).

Com uma diferença de 15,3 pontos percentuais, Portugal foi o sexto país da UE com maior subida, só atrás da Suécia (19,5%), França (17,8%), Polónia (16,5%), Bulgária (15,8%) e Alemanha (15,7%).

“Em contraste, a Bélgica, Croácia, República Checa, Grécia, Hungria, Roménia e Espanha registaram um aumento da solidão inferior a 10 pontos percentuais durante o mesmo período de tempo”, adianta o CCI da Comissão Europeia no documento.

Em comunicado, a vice-presidente do executivo comunitário para a Democracia e Demografia, Dubravka Šuica, aponta que a covid-19 “trouxe problemas como a solidão e o isolamento social para o primeiro plano”.

“Estes sentimentos já existiam, mas havia menos consciência pública. Com este novo relatório, podemos começar a compreender e a enfrentar melhor estes problemas”, indica a responsável pela tutela.

Sendo os jovens uma das populações mais afectadas, a comissária europeia para a Juventude, Mariya Gabriel, classifica este num “desafio que está a afectar cada vez mais” esta população.

26.7.21

Apoio a idosos em Lisboa. “Queremos chegar onde mais ninguém chega”

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia), in RR

Há sete anos que a associação Amigos Improváveis ajuda a combater a solidão dos mais velhos que vivem sozinhos. Marta Antunes, da direção, explica que o principal objetivo é “conversar” e “fazer companhia”. Em setembro, reabrem as inscrições para o projeto que, antes da pandemia, contava com 149 voluntários no apoio a 56 idosos em 11 bairros de Lisboa e Oeiras.

Ouça aqui a entrevista a Marta Antunes, da associação Amigos Improváveis

No primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, instituído pelo Papa Francisco - e que se celebra este domingo, junto à festa litúrgica de São Joaquim e Santa Ana - a Renascença e a Ecclesia conversam com Marta Antunes, da direção dos Amigos Improváveis.

Esta associação nasceu em Lisboa, em 2014, por iniciativa de jovens universitários acabados de regressar da “Missão País”, e que queriam “mudar o paradigma do envelhecimento”. Marta, de 31 anos, começou por ser voluntária. Explica que “o foco são as visitas” semanais a casa dos idosos, e que tudo funciona “como uma amizade” que junta duas gerações, mas chega a envolver o resto da família.

Nesta entrevista fala do que a cativou no projeto – que se desenvolve em colaboração com paróquias e juntas de freguesia -, das dificuldades que a pandemia trouxe, e da esperança que tem em alargar o que fazem. “Idealmente, veríamos os Amigos Improváveis em todo o país”, diz. Para já, estão a “arrumar a casa” para abrir novas inscrições depois do verão.

Está na direção dos Amigos Improváveis, onde começou por ser voluntária. Foi fácil deixar-se cativar por este projeto?

Sim, foi muito fácil. Eu conheci os Amigos Improváveis em 2019, andava à procura de voluntariado nesta área do envelhecimento e do combate ao isolamento e à solidão desta fatia da população, que é cada vez maior nesta cidade grande. As inscrições estavam abertas, tive uma formação para voluntários para saber como relacionar, como estar, fui integrada numa equipa com duas pessoas que não conhecia - a Mariana e a Inês-, mas que correu muito bem.

Numa primeira visita fomos acompanhados pelo responsável de zona, porque cada freguesia tem responsáveis que cuidam e acompanham os voluntários que vão visitar os idosos. Tive o primeiro contacto com a Cilinha, uma menina de quase 90 anos, incrível, que nos recebeu de uma forma muito calorosa na sua casa, onde vive sozinha. E a partir daí correu tudo muito bem, muito descontraído, as conversas aconteceram de forma muito natural, como uma amizade.

"Chegámos a ir aos caracóis. Funciona mesmo como uma amizade, que junta duas gerações diferentes, os idosos e os jovens. Também podem ser famílias"


E continua a acompanhá-la?

Sim, ainda mantenho contacto. A Cilinha fez anos agora, há dias. Eu já não estou a visitá-la semanalmente. Habitualmente as nossas visitas aconteciam todas as semanas, é o ritmo para se começar a ganhar uma relação. O facto de trabalharmos em equipa permite que, no caso de alguma não estar tão disponível, possa ir outra e haver aqui esta regularidade, complementada sempre com telefonemas.

É mesmo como uma amizade, esta espontaneidade de uma relação que vai crescendo, vamos conhecendo a pessoa, vamos percebendo o que gosta. Chegámos a ir aos caracóis, numa tarde quente de verão, porque a Cilinha tinha imensas saudades de comer caracóis! Funciona mesmo como uma amizade, que junta duas gerações diferentes, os idosos e os jovens. Também podem ser famílias, não têm de ser necessariamente jovens universitários, e começa-se a criar aqui esta esta dinâmica.

Disse que procurou especificamente esta área de voluntariado. O que é que a cativou? Estamos também, de certa forma, a falar de uma pandemia silenciosa, que é a da solidão...

Completamente. O alerta começou a chegar quando houve uma fase em que nos noticiários se ouvia muito notícias de idosos que eram encontrados em casa já sem vida, e que ninguém tinha dado conta. Esta é a grande motivação da associação: queremos mesmo chegar onde mais ninguém chega, e temos parcerias com as juntas de freguesia, com as paróquias, muito para chegar mesmo... e às vezes a solidão está tão perto de nós. Às vezes há um vizinho no prédio ao lado do nosso que se calhar está a passar por esta situação. E também dar aqui uma missão...

Eu não sou de Lisboa, há muitos jovens que vêm estudar para Lisboa, e cada vez mais as cidades do litoral e a capital é procurada, porque não tentar também aproveitar isso para esta missão?

E criar até relações de vizinhança, porque no fundo o projeto também se baseia nisso, em criar relações de vizinhança?

Sim, e o objetivo de haver estas zonas de freguesias tão estruturadas é também para tentar ligar a área onde o voluntário passa a maior parte do tempo - seja por que vive, trabalha ou estuda naquela freguesia - com a zona onde vive o idoso, para o processo ser o mais facilitado possível.

Porque às vezes temos um dia mau, difícil de trabalho, se calhar não nos apetecia ir para o outro lado da cidade para ir ter com o nosso idoso, por maior que seja o carinho e saber que depois de lá estar vai valer a pena. Tentamos descomplicar e aproximar também nesse sentido.

Que feedback recebem da parte de quem é acompanhado?

Da minha experiência com a Cilinha, é uma gratidão enorme, mas que é recíproca, porque acabamos por lidar com uma pessoa que tem um legado, tem histórias e memórias incríveis, e eu acho que é muito bonito e muito generoso aquela pessoa abrir-nos a porta da sua casa. É onde ela vive, onde está, é o espaço dela, e abre a porta e o coração a receber aquela equipa de voluntários, que estão ali para conversar, para combinar programas, para ouvir.

Há uma sede muito grande de partilha da pessoa que está do outro lado, porque muitas vezes a companhia que tem é a televisão. No caso da Cilinha não tem família com quem possa fazer aquele telefonema que às vezes apetece fazer, vive muito do prédio, da rua, da paróquia, e acho que foi ali um balão de oxigénio, mas para ambas as partes, porque às vezes eu saía de casa da Cilinha e ia a pé até ao metro e pensava: 'valeu tanto a pena! Ainda bem que vim!". E espero que seja recíproco, naturalmente.

Já existem outras instituições que prestam apoio domiciliário quando é necessário e possível. O vosso objetivo é, sobretudo, fazer companhia, conversar? Também fazem pequenos recados?

Sim, o nosso principal foco são as visitas, é o estar, é o ouvir, é o acompanhar. E por sabermos que felizmente no nosso país há muitas entidades que depois, quando é preciso sinalizar, ou acompanhar, estão preparadas e equipadas para tal quando é necessário, temos sempre esse cuidado, e até na formação com os voluntários vamos dando essa indicação, para estarem atentos ao estado da casa, à própria evolução da pessoa nas conversas.

Mas, o nosso foco é este: é estar com regularidade. Pedimos aos voluntários para terem um compromisso mínimo de um ano, porque estas pessoas nesta idade se calhar já perderam algumas pessoas, entrar uma pessoa nova, ganhar esta confiança, criar esta relação, tem de ser construída e ganhar profundidade. Pedimos sempre aos voluntários o compromisso mínimo de um ano, que tentem ir com regularidade e, se não puderem, que avisem. Como numa amizade normal.

As visitas são semanais?

Tentamos que sejam. Claro que se houver uma semana em que não se pode ir... Isso aconteceu connosco: uma de nós não podia ir, depois durante o fim de semana ia dar um beijinho à Cilinha, ou telefonava. Tentávamos que houvesse sempre um acompanhamento regular.


"Houve uma fase em que se ouvia muito notícias de idosos que eram encontrados em casa já sem vida, e que ninguém tinha dado conta. Queremos mesmo chegar onde mais ninguém chega. Esta é a nossa grande motivação"


Esta entrevista é emitida no primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, instituído pelo Papa Francisco. Esta relação quer, de certa forma, replicar a relação mais tradicional de avós e netos, um espaço de familiaridade, carinho e partilha?

Pela parte dos afetos e do estar aberto, disponível para ouvir, para conhecer, sim. Agora com a pandemia, claro que teve de haver aqui uma pausa, mas eu digo muitas vezes: até com a nossa família, com os nossos amigos, com quantos, ou com quais é que nós estamos todas as semanas presencialmente? Portanto, acaba por se criar aqui um vínculo também muito do dia-a-dia: lembrar a consulta que ia ter, ou chegar depois de um dia que foi mais difícil e desabafar sobre alguma coisa.

Eu sinto que em determinadas alturas aquele núcleo de quatro pessoas, três voluntárias e a Cilinha, criávamos ali um momento que extrapolava, porque às vezes o contacto com a família é mais abrangente, e ali era muito específico. Eu sentia mesmo como uma amizade, vou ser sincera.

A identificação dos idosos que vão apoiar é feita com a ajuda e colaboração das paróquias e juntas de freguesia. Estas entidades depois também vos acompanham no trabalho que fazem?

Sim. Também recebemos contactos individuais de pessoas, que têm uma mãe, uma avó ou avô que gostavam que tivesse esse tipo de acompanhamento, e nós também damos resposta. Depois vamos acompanhando, vamos fazendo pontos de situação com os parceiros.

Normalmente, existem dois momentos do ano em que recebemos novos voluntários e novos idosos, corresponde mais ou menos aos semestres, em setembro/outubro e depois em fevereiro/março, e vai havendo esse acompanhamento com as parcerias. Se for necessário dar alguma informação mais específica sobre algum idoso, essa ponte é feita com os nossos responsáveis de zona, com os voluntários. Se for preciso, até, numa primeira visita estará alguém presente da família, para não haver uma estranheza tão grande.

Antes do primeiro confinamento, o projeto contava com 149 voluntários ativos, que apoiavam 56 idosos em 11 bairros de Lisboa e Oeiras. A pandemia teve algum efeito no número de voluntários e na dinâmica do trabalho?

Sim, infelizmente teve. Fomos fazendo pontos de situação para garantir que, mesmo não estando presencialmente, houvesse um acompanhamento por telefone, o que também aconteceu. Por exemplo, no caso das Universidades, em que já não havia aulas presenciais, muitos jovens tiveram de regressar à sua cidade de origem. Essa alteração da rotina, da dinâmica diária, afetou, naturalmente, a Associação.

Agora estamos num processo de arrumar a casa, perceber exatamente quem quer continuar, porque em setembro esperamos voltar a abrir inscrições, receber novas pessoas, reforçar equipas, com substituições, se for preciso. Tentámos ao máximo que não se sentisse uma quebra muito grande…

Os idosos continuaram a ser acompanhados?

Sim. Houve voluntários que passaram à janela, com o carro, para dizer “estou aqui, um beijinho!”

Reforçaram os contactos telefónicos?

Sim. Foi o possível. Sempre tentando seguir as recomendações da DGS e no contacto com as famílias, para respeitar as suas indicações e ver até onde é que cada intervenção poderia ir.

Está há pouco tempo na direção dos Amigos Improváveis, e a ideia é relançar o projeto depois do verão. Quem quiser ser voluntário, o que é que tem de fazer?

É possível ser voluntário para visitar diretamente os idosos. Podem inscrever-se individualmente ou já ter uma equipa. Depois, em setembro, vamos disponibilizar no site e nas páginas da Associação nas redes sociais o formulário de inscrição. É feita uma entrevista, uma formação e juntam-se aos Amigos Improváveis.

Fazemos sempre a correspondência entre o número de idosos que precisam de acompanhamento e o número de vagas por freguesia, fazendo uma gestão real de expectativas. Tentamos que os timings correspondam e haja respostas.

Há uma informalidade no relacionamento, o que é natural, mas também há uma exigência de compromisso e de dedicação para quem entra nesta aventura?

Tem de ser. Tipicamente, a população mais idosa que vive em Lisboa, uma grande cidade, pode sentir-se um bocadinho mais desconfiada, com dificuldade em abrir-se. É importante que os idosos sintam que podem confiar naquelas pessoas, que podem abrir a porta de casa e alimentar uma relação, que depois vai ter continuidade. Que vai haver reciprocidade.

Muitos idosos também já perderam muitas pessoas, têm aqui uma barreira maior, defesas construídas. É muito importante que, quem diz que sim, esteja presente. Vai haver dias em que não apetece ir: está a chover, queremos ir para casa, estamos com fome, o dia correu mal no trabalho, há um exame da faculdade… É aqui que se testa o verdadeiro estar, e é por isso que também há um trabalho de equipa, para se motivarem uns aos outros, para o caso de assegurar que está alguém, quando um deles não pode, de todo. Isso é muito importante.

"Estamos num processo de arrumar a casa, perceber exatamente quem quer continuar, porque em setembro esperamos voltar a abrir inscrições, receber novas pessoas, reforçar equipas, com substituições, se for preciso"

A expectativa é que o projeto cresça, no próximo ano? Mesmo em termos de área de atuação?

Sim. Idealmente, veríamos os Amigos Improváveis em todo o país, a longo prazo, quem sabe…

Neste momento estamos a reforçar as áreas que precisam e já recebemos alguns contactos para novas zonas. Estamos a avaliar o potencial de crescimento, a correspondência entre idosos e jovens, para podermos, com cuidado e garantias, alargar e continuar a crescer.

E um idoso que sinta vontade de entrar neste projeto, o que deve fazer?

Temos um email - amigosimprovaveis.voluntariado@gmail.com - e um contacto telefónico – 916577656. Pode também perguntar na sua paróquia, na Junta de Freguesia, nos parceiros. É a forma mais imediata.

A iniciativa do Papa Francisco em criar este Dia Mundial dos Avós e dos Idosos pode ajudar a recentrar atenções nos mais velhos?

Espero que sim, é uma iniciativa louvável, que obriga as pessoas a refletir. Este contacto, estas visitas e a troca de experiências obrigam-nos a refletir. A refletir no nosso envelhecimento, numa vida que acabamos por conhecer e queremos tornar melhor. Espero que esta celebração ajude a criar essa reflexão e a vontade de fazer alguma coisa, de atuar.

Foi assim que os Amigos Improváveis surgiram, num contexto de estudantes universitários, que estiveram uma semana em voluntariado na “Missão País” e que pensaram: “uma semana não chega, queremos fazer mais”. A Maria Almeida e Brito, que foi aqui o cérebro da operação, teve esta ideia, juntou um conjunto de amigos e conhecidos em casa, em 2014, começaram a distribuir-se por zonas, e o puzzle montou-se. É possível e é importante. É muito importante.

Uma das grandes preocupações tem sido encontrar alternativas a uma resposta institucional, que se massificou na sociedade, procurando apoios para recriar um ambiente familiar. Os voluntários são essenciais, para esta resposta na comunidade?

Penso que sim. Toda a gente na minha comunidade, no meu trabalho, na minha família, os meus amigos, sabiam que eu estava a fazer este voluntariado, que estava a visitar a Cilinha, partilhava o entusiasmo, o sentir.

Quem está apaixonado por este projeto vai divulgá-lo, vai querer partilhar, vai querer que o máximo de pessoas se junte a esta causa. Os voluntários acabam por ser os embaixadores e o rosto do projeto. Partilham, influenciam, trazem mais pessoas e é assim que tudo cresce, que tudo se transforma, que se inova. É com esta partilha e com esta generosidade de todos. Por isso, sem dúvida: voluntários, seja em que causa e dimensão for, são muito importantes.

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9.6.21

Constância | Projeto “Mais Vida” nasce para combater a solidão e promover envelhecimento ativo

Ana Rita Cristóvão, in Media Tejo

Intitula-se “Projeto Mais Vida” e é um projeto comunitário de combate ao isolamento que a pandemia de Covid-19 veio trazer aos idosos das freguesias do concelho de Constância. Num apoio que pode ir desde um momento de dois dedos de conversa até aconselhamento psicológico, de saúde ou de fisioterapia, o acompanhamento é gratuito e o pagamento faz-se em sorrisos.

A ideia surgiu de três jovens adultas – Ana Botas (fisioterapeuta) Micaela Moreira (estudante de enfermagem) e Tatiana Lopes (psicóloga) – e é hoje um projeto comunitário inserido no âmbito da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Constância.

Com o apoio das freguesias de Constância, Montalvo e Santa Margarida da Coutada, o “Mais Vida” tem como objetivo prestar apoio multidisciplinar aos munícipes constancienses em risco de isolamento social ou que necessitem de acompanhamento psicólogo, de saúde ou de fisioterapia.

Destinado essencialmente a pessoas idosas e vulneráveis mas aberto a toda a comunidade constanciense, o acompanhamento aos munícipes é gratuito e o único pagamento aceitável é o dos sorrisos”. Visita a idosa no âmbito do projeto Mais Vida. Foto: Projeto Mais Vida

Desde visitas para dois dedos de conversa ou para prática de exercícios com vista à estimulação cognitiva, até ao apoio na mobilidade e cuidados de saúde, o projeto tem como objetivo contribuir para o envelhecimento ativo e saudável da população constanciense e rege-se por eixos como a promoção do bem-estar físico, da mobilidade e do bem-estar emocional, ocupacional, social e cultural.

A equipa realiza as intervenções junto dos inscritos semanalmente, mediante o cumprimento das indicações da Direção-Geral da Saúde, com a entrega, à porta de casa, de exercícios lúdicos de estimulação motora e cognitiva por parte da psicóloga, promoção de atividade física e movimento por parte da fisioterapeuta e promoção de saúde e prevenção da doença com a estudante de enfermagem. Equipa do Projeto Mais Vida e presidente da direção da AHBVC, Adelino Gomes. Foto: 

Projeto Mais Vida

As inscrições para beneficiar deste apoio podem ser efetuadas por familiares ou pelos próprios requerentes através do email projetomaisvida.2021@gmail.com ou do número 938 663 443 (que funciona também como linha de apoio SOS de segunda a sexta-feira das 09h00 às 13h00).

Abrantina mas orgulhosa da sua costela maçaense, rumou a Lisboa com o objetivo de se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

12.4.21

Os idosos que não têm com quem falar

Delfim Machado, JN

"Custa muito passar o tempo sozinha". O relato de Gininha, 73 anos, do Bairro do Falcão, no Porto, abre a porta para a importância de uma simples conversa. À medida que a pandemia abranda, a recuperação do envelhecimento ativo começa a estar na ordem do dia.

Os idosos foram os mais flagelados, não só pelas mortes, mas pelo isolamento social a que foram vetados. Isto, quando muitos já viviam sozinhos e sem companhia. O relato do jornalista Alfredo Teixeira na edição de hoje do Jornal de Notícias é um murro no estômago dos que o leem. Tudo porque no Porto há pelo menos 300 Gininhas, sem ninguém para conversar e com medo de sair à rua por causa da pandemia.

A única companhia destes idosos é a dos 19 alunos finalistas dos cursos de Serviço Social e Gerontologia que, de forma voluntária, passam um pouco de tempo com quem vive sozinho. No dia em que os voluntários passam, os idosos visitados ganham vida. "São uma simpatia e quando me visitam até passo o dia melhor", admite Gininha, que continua reclusa na própria casa, apesar de Portugal ter cada vez menos casos ativos de covid-19.

Mais de um ano depois do início da pandemia, o balanço de doze meses de vida condicionada reflete-se a vários níveis na sociedade. Um deles é o da sinistralidade rodoviária. Segundo o relatório anual da Autoridade Nacional da Segurança Rodoviária, houve menos acidentes e menos mortes na estrada em 2020.

Uma das poucas exceções é o distrito de Viana do Castelo, que quase duplicou o número de mortes face a 2019. A explicação está num conjunto de acidentes atípicos, graves, que ocorreram num curto espaço de tempo e inflacionaram o número de mortes no Alto Minho.

Ainda no distrito de Viana do Castelo, e porque estamos com um pé na Páscoa, a Câmara Municipal de Monção anunciou que os restaurantes do concelho vão servir "Foda" em regime de take-away durante o próximo fim-de-semana. O prato de cordeiro assado de nome popular caricato fará novamente parte da tradição, embora a "Feira da Foda" da freguesia de Pias esteja cancelada.

Na senda das notícias curiosas, destaque para o preso que tentou fugir pela janela do Hospital Padre Américo, em Penafiel, com recurso a lençóis. Estava internado no 9º andar e foi detido durante a tentativa. Outro detido com pouca sorte, também num hospital português, foi Francesco Pelle, que andava fugido desde 2017 após uma condenação por prisão perpétua. Estava no Hospital de S, José, em Lisboa, internado com covid-19, quando a polícia o encontrou.

E que dizer de Cristiano Ronaldo? O gesto do capitão da Seleção Nacional de futebol foi tão esmiuçado pelos comentadores desportivos, de tantas formas e com tanto afinco, que a braçadeira atirada ao chão ganhou fama e está a ser leiloada para ajudar Gavrilo Djurdjevic, um bebé de seis meses que sofre de atrofia muscular espinhal e que precisa de tratamentos com custos da ordem dos dois milhões de euros.

Como nota final, caro leitor, se deixou um conjunto de notas esquecidas no multibanco da Rua de Costa Cabral, no Porto, na passada terça-feira, saiba que pode recuperá-las. Só tem de provar que são suas, talvez acertando no valor levantado. Quem as encontrou está à sua procura.

29.3.21

Solidariedade: Programa «Mais Ajuda» promove novas respostas para os idosos

in Agência Ecclesia

Iniciativa distingue 10 projetos de inovação social

Lisboa, 26 mar 2021 (Ecclesia) – O Programa ‘Mais Ajuda’ vai ajudar em 2021 dez projetos de inovação social, procurando novas respostas aos desafios da população idosa, a nível de combate a solidão e e apoio aos cuidadores.

Os vencedores da segunda edição foram anunciados esta quinta-feira, escolhidos de entre mais de 730 candidaturas recebidas, e vão receber 333 mil euros para projetos de inovação social – de IPSS (ou equiparadas) e de startups (ou empresas de empreendedorismo social).

O programa ‘Mais Ajuda’ junta o Lidl e as Rádios Renascença, RFM e Mega Hits, em parceria com a Beta-i.

A organização informa, em comunicado enviado hoje à Agência ECCLESIA, que o anúncio dos vencedores contou com a participação do Secretário de Estado para a Transição Digital, André de Aragão Azevedo, o qual frisou que “o programa Mais Ajuda está totalmente alinhado com o plano de ação do Governo para a transição digital, na medida em que traz respostas a problemas sociais, promove a inclusão e ajuda a combater as desigualdades”.

Os projetos vencedores são a AMARA– Associação pela Dignidade na Vida e na Morte; Associação Rede de Universidades da Terceira Idade ( RUTIS); Centro Social Paroquial de Meãs do Campo – Projeto Quinta dos Avós; Cruz Vermelha Portuguesa – Programa de Apadrinhamento entre jovens e seniores: combate à exclusão digital; e a Misericórdia de Pampilhosa da Serra – Projeto Rádio Sénior.

Já as startups vencedoras foram a Associação 55 Mais – Plataforma humana de base tecnológica com oferta de serviços comunitários; Associação Juvenil Transformers – Projeto Escolas de Superpoderes: dinamização de aulas semanais de diferentes talentos; Careceiver – App: simplificação do processo de partilha de informações vitais entre a rede de cuidadores informais; SeniorBiz Simplio Plataforma digital: acompanhamento/organização de cuidados prestados a idosos por estruturas residenciais; Wisify Tech Solutions – Wisify Tech Solutions Tecnologia digital: avaliação preventiva da Sarcopenia (desnutrição e perda de massa muscular).

O painel de júris responsável pela escolha dos projetos foi composto por Filipe Almeida, presidente da iniciativa Portugal Inovação Social; Isabel Figueiredo, adjunta do presidente do Grupo Renascença Multimédia; Luís de Melo Jerónimo, diretor Social Cohesion Programme da Fundação Calouste Gulbenkian; Pedro Rocha Vieira, CEO e Co-fundador da Beta-i; e Vanessa Romeu, diretora de Comunicação Corporativa do Lidl Portugal.

Para Isabel Figueiredo, esta segunda edição do Programa Mais Ajuda “comprovou, da melhor forma, que o caminho da solidariedade não conhece limites na capacidade de inovação, de cuidado com o próximo, de trazer à comunidade o melhor de si própria”.



OC

19.2.21

Jovens com síndrome de Asperger acusam solidão e frustração

Joana Rodrigues Stumpo, in JN

Socialização, durante o confinamento, "tornou-se numa necessidade para muitos, ao invés de um desafio".

Assinala-se, nesta quinta-feira, o Dia Internacional da Síndrome de Asperger, uma perturbação neurocomportamental "que se manifesta por alterações sobretudo na interação social, na comunicação e no comportamento", lê-se no site da Associação Portuguesa da Síndrome de Asperger (APSA).

Num fórum online para assinalar o dia, vários jovens associados à APSA partilharam as dificuldades que a pandemia lhes trouxe, nomeadamente a falta de interações sociais. Patrícia de Sousa, diretora técnica na APSA, salientou que a socialização se tornou numa necessidade para muitos, ao invés de um desafio. A associação trabalha no sentido da inclusão social e profissional dos jovens, através do treino de competências sociais, formação de emprego e ateliers temáticos, como música e artes.

A ausência dos ateliers em regime presencial - sendo que todas as atividades continuam online - é apontada por muitos como uma causa de frustração, uma vez que os deixa com mais tempo livre. Patrícia de Sousa esclareceu que estar em casa durante a pandemia impacta as vidas dos jovens, já que as "atividades presenciais são interrompidas", mas "há continuidade" de crescimento em determinadas aptidões, como a cozinha e outras tarefas domésticas. A necessidade de alterar a rotina foi também apontada como um desafio.

De acordo com os jovens, a APSA contribuiu na criação de mecanismos de socialização, nomeadamente na criação e manutenção de amizades. Um dos jovens apontou como benéfico "o facto de haver pessoas que compreendem" a sua doença.

A APSA ajudou ainda a que os jovens conhecessem mais sobre a síndrome e como lidar com a doença.

Apesar das dificuldades, muitos estão integrados do mercado profissional com a ajuda da APSA, que dá formação profissional aos jovens, através do Programa Empregabilidade, a associação estabeleceu parcerias com empresas, de maneira a facilitar a integração destes jovens no mercado.

Para o futuro, muitos desejam ter um emprego com um salário estável e mais autonomia, com muitos a expressar vontade de viver sozinhos. Apesar das dificuldades na socialização, os jovens expressaram, ainda, o desejo de ter uma relação amorosa.

Piedade Líbano Monteiro, presidente da APSA, sublinhou a importância de eventos deste cariz, uma vez que "falamos muito sobre a síndrome, mas raramente ouvimos as pessoas com a doença". A presidente relembrou que "há muitos obstáculos que se podem ultrapassar desde que haja um conjunto de gente com esse objetivo".

A APSA foi criada em 2003 por vontade de um grupo de pais. Na Casa Grande, um projeto desta iniciativa, são feitas atividades de integração comunitária para jovens a partir dos 16 anos com síndrome de Asperger.

15.2.21

Pandemia afasta crianças e adolescentes de práticas solidárias

Porto Canal com Lusa

Lisboa, 12 fev 2021 (Lusa) -- As crianças e os jovens adolescentes estão hoje praticamente impedidos de desenvolver projetos de voluntariado e ações de solidariedade essenciais à sua formação, devido ao confinamento social imposto pela pandemia de covid-19, alerta o investigador Adalberto Dias de Carvalho.

Em entrevista à agência Lusa, o professor catedrático, aposentado, da Universidade do Porto, especialista em filosofia da Educação, adverte que a atual situação terá consequências na formação dos jovens.

"A formação para os valores faz-se não através de modelos teóricos, mas da vivência real, em que se tomam as atenções e os cuidados com os outros que importa ter", refere, apontando que os projetos de voluntariado entre os mais novos são sobretudo desenvolvidos a partir das escolas, atualmente a funcionarem em regime não presencial.

O académico considera que a formação cívica e a consciência política dos jovens poderão ficar comprometidas pela interrupção do normal curso de uma formação que vai já no segundo ano de períodos de confinamento, decretados pelo Governo para travar os contágios de SARS- CoV2.

"Na evolução de uma criança ou um jovem, meio ano, um ano, são fundamentais, são muito importantes. Não voltam a repetir-se", atesta.

De acordo com Adalberto Dias de Carvalho cada vez mais os jovens têm de ser formados através das chamadas competências transversais, que são basicamente as competências relacionais consideradas fundamentais para "o seu exercício profissional futuro, para a sua convivência atual" e também para a formação "enquanto pessoas solidárias", especifica.

"Sabemos muito bem que numa criança ou num jovem de 13, 14, 15 anos, o desenvolvimento está em fases que são irrepetíveis, que são diferentes umas das outras e que têm uma sequência muito próprias. Se eles ficam impedidos de viver os seus 13 anos ou os 14 e 15 ou os nove e 10 normalmente, isto obviamente que vai criar hiatos na sua formação, lacunas, que vão ter consequências!", assume o académico, com várias obras publicadas na área da educação, entre as quais "Educação Social" (Porto Editora).

Por outro lado, os jovens estão neste momento retidos em casa, privados de uma convivência normal com os colegas e os amigos e das experiências de vida comuns nesta fase das suas vidas, o que os empurra ainda mais para o circulo das redes virtuais, que não substituem as relações pessoais, presenciais, frisa o professor.

"Não substitui em termos da sua relação afetiva, mas também não substitui em termos de enfrentar os riscos, os perigos que lhe são colocados ou que ele próprio gera, o que é próprio desta idade, mas que ele [jovem] vai aprendendo a gerir", constata.

A vida, diz, é feita desses afetos e também dos riscos com que os jovens se confrontam, venham do exterior ou sejam gerados pelos próprios: "Estão privados disto. Se não estão totalmente privados, pelo menos tem estado muito atenuada a possibilidade deste tipo de vivências".

A alternativa é "prevaricar", através de encontros interditos, para os quais se sentem impelidos, o que "também não é positivo em termos formativos", admite o investigador, que atualmente leciona no Instituto Superior de Ciências Empresariais e Turismo (ISCET), onde coordena o Observatório da Solidão.

AH // SB

Lusa/Fim

14.1.21

Casinhas da Saudade. "Aqui, os idosos têm visitas todos os dias"

Liliana Carona, in RR

O responsável da Pastoral Social da Diocese de Viseu, que dirige também três lares do concelho de Penalva do Castelo, mandou construir, em outubro, as ‘Casinhas da Saudade´ para combater o isolamento dos idosos em tempos de pandemia. Garante que todos os dias há visitas nos lares que gere. E alerta para a necessidade de se ser criativo, face ao que considera serem "normas distantes da realidade".

“São aldeias e aldeias com população idosa que, devido à muita emigração, vive sozinha… a alimentação é o cafezito e o leite”. O retrato é traçado por quem há mais de 20 anos decidiu apostar no apoio aos idosos.

O sacerdote Manuel Clemente, 60 anos, é responsável por três lares em Penalva do Castelo e tece críticas às normas relativas a estes espaços no contexto da pandemia de Covid-19.

“As normas não têm grande sentido, o afastamento num lar não é possível. Temos de ter outra criatividade. Eu investi mais na mentalização e responsabilização dos funcionários. Fazer perceber os idosos o que estamos a passar, nunca fechámos, apenas fechámos no início, cerca de 15 dias. Uma coisa é fazer leis e outra é a realidade de um lar. É preciso criar medidas para manter uma relação de afetividade”, atesta o também responsável da Pastoral da Diocese de Viseu.
E foi a pensar em manter a relação de afetividade entre os idosos e os seus familiares que o padre Manuel Clemente implementou as ‘Casinhas da Saudade’, num investimento total, a contar com o material de prevenção, de 150 mil euros.

“É um contentor marítimo (neste caso três) que é transformado em dois escritórios, com um vidro que separa os utentes dos familiares e que tem som, num espaço de seis metros por dois. Uma casinha, com isolamento total, com duas portas, onde os familiares podem estar”, explica à Renascença, realçando a motivação da empreitada.

“Se os idosos já tinham dificuldade em reconhecer os seus filhos… com máscaras é muito pior. Encontrei uma empresa que fazia este tipo de obra e está a ser um sucesso”, garante o padre Manuel Clemente.

Com as ‘Casinhas da Saudade’, as visitas não são mais interrompidas. Olhos nos olhos, sem máscara, mas separados por um vidro… “Eles têm visitas todos os dias na ‘Casinha da Saudade’, salienta o sacerdote.

Desde o começo da pandemia, nestes três lares do concelho de Penalva do Castelo (dois no Castelo e um nas Antas), com um total de 118 utentes, foram detetados ao todo, 3 funcionárias e 1 idoso infetados com Covid-19.

“Desde abril já testámos os funcionários catorze vezes”, destaca, sublinhando que os planos de contenção foram seguidos. Também por isso, “eliminámos o vírus”, diz com satisfação o responsável da Pastoral da Diocese de Viseu.

9.11.20

Há 42 mil idosos isolados em Portugal

in Expresso

A situação agravou-se em relação ao ano anterior. Há cada vez mais pessoas com mais de 65 anos a sofrer as consequências do isolamento

O isolamento é uma realidade que atinge mais de 42 mil idosos em Portugal, com o distrito de Vila Real a concentrar o maior número de casos, de acordo com o balanço da Operação Censos Sénior 2020, divulgado este sábado pela GNR.

Realizada durante o mês de outubro com o objetivo de “identificar a população idosa, que vive sozinha, isolada, ou sozinha e isolada”, a operação sinalizou 42.439 idosos a viver sozinhos ou em situação de vulnerabilidade nos 18 distritos do país.

Na edição de 2019 da operação “Censos Sénior”, a GNR sinalizou 41.868 idosos que vivem sozinhos e/ou isolados, ou em situação de vulnerabilidade, em razão da sua condição física, psicológica, ou outra que possa colocar a sua segurança em causa.

O distrito de Vila Real lidera a tabela, com 5.065 idosos a viver sozinhos ou isolados, seguido da Guarda (4.585), Viseu (3.402), Beja (3.403), Faro (3.313), Bragança (3.285) e Portalegre (3.104), refere hoje a GNR.

Lisboa, com 767 sinalizados, e Porto, com 857, são, por outro lado, os distritos do país em que os militares registaram menos idosos em situação de vulnerabilidade.

Nos restantes distritos apenas em Évora (2.654) e Santarém (2.035) foram sinalizadas mais de duas mil situações, seguindo-se Castelo Branco (1.842), Setúbal (1.734), Braga (1.543), Aveiro (1.383), Coimbra (1.334), Viana do Castelo (1.043) e Leiria, com 1.090.

Em comunicado, a GNR informa que, durante a operação, foram realizadas 34 ações em sala e 3.652 ações porta a porta, abrangendo um total de 20.747 idosos.

A par com o levantamento destas situações, a operação serviu para alertar os idosos “para a adoção de comportamentos de segurança que permitam reduzir o risco de se tornarem vítimas de crimes, nomeadamente em situações de violência, de burla ou furto”, bem como prevenir comportamentos de risco e sensibilizar para a adoção de medidas preventivas de propagação da pandemia de covid-19.

A Operação “Censos Sénior” é realizada desde 2011, sendo a base de dados geográfica periodicamente atualizada e a GNR sendo os idosos sinalizados acompanhados através de visitas regulares às suas residências, conclui o comunicado.

30.10.20

Pandemia e terceira idade: "Sentir-se solitário é o equivalente social a sentir dor física"

 Mónica Várzea, in MAGG

O Dia Internacional do Idoso teve este ano o foco voltado para a saúde mental e o bem-estar das pessoas mais velhas. Especialistas revelam como a pandemia trouxe à tona questões urgentes relacionadas com a terceira idade.

Numa altura que se tem provado desafiante para todos e, em particular, para as pessoas idosas, assinalar o trigésimo aniversário do Dia Internacional do Idoso - comemorado no passado dia 1 de Outubro - merece especial atenção. O envelhecimento, por norma, chega com uma série de vulnerabilidades a nível psicológico, social e ambiental, mas uma situação de pandemia agrava essas vulnerabilidades ainda mais e tem um impacto significativo nas vidas dos idosos.

Em conjunto com Ana Catarina Meireles (médica especialista em Medicina Geral e Familiar), Filipa Jardim da Silva (psicóloga especializada em Psicologia Clínica e da Saúde) e Mónica Pereira (enfermeira e diretora da residência sénior A80), a MAGG desvenda como a COVID-19 está a afetar a classe idosa do nosso país - a nível físico e mental, como familiares e amigos podem apoiá-los durante este tempo de pandemia e que mudanças deverão ser implementadas no futuro. 

Idosos & COVID-19

Em Portugal continua a verificar-se um crescimento do envelhecimento demográfico da população, com um aumento de 3,8% só no ano passado. Segundo dados do INE, em 2019 o número de idosos (65 anos ou mais) representava 22,1% do total da população residente no nosso país. Num estudo de 2012 da mesma fonte, "mais de um milhão e duzentos mil idosos viviam sós ou em companhia de outros idosos", o que representava já naquela altura 60% da população. Para muitos destes idosos, a pandemia resultou em desafios com os quais nunca tinham lidado antes.

Para Filipa Jardim da Silva, psicóloga especializada em Psicologia Clínica e da Saúde, "a proteção acrescida a esta faixa etária voltou, retirando muitas vezes autonomia e liberdade de decisão aos mais velhos, fazendo-os sentir impotentes. Voltou-se a colocar um grande holofote sobre os riscos inerentes a ser-se mais velho e à probabilidade acrescida de doença, depois de uma fase em que essa perceção de vulnerabilidade acrescida tinha sido diminuída", explica.

Para a psicóloga, "isso naturalmente que contribui para uma intensificação da ansiedade e angústia de morte". Ansiedade a nível de riscos de saúde, receio de contágio e até de morte (sua e a de outros), pânico, dificuldade de adaptação, depressão, solidão e stress são alguns dos efeitos secundários que os idosos podem experimentar durante tempos de incerteza como aquele que vivemos. Estes efeitos são ainda mais graves quando se acrescenta a tudo isto uma situação de isolamento social.

Isolamento e saúde mental

A questão da saúde mental tem vindo a ser discutida, de uma forma geral, nas mais variadas plataformas e, sendo que os cidadãos seniores estão a ser aqueles que mais gravemente sofrem com a COVID-19, é importante dar-lhes especial atenção nestes tempos sem precedentes. Segundo Ana Catarina Meireles, "esta pandemia trouxe à luz do dia realidades já conhecidas, altamente desafiadoras e complexas, mas que por exacerbação da carga de trabalho, risco de saúde, pressão social, stress emocional e constrangimentos institucionais se tornou imperioso abordar e discutir".

De um ponto de vista psicológico, Filipa Jardim da Silva explica que "sentir-se solitário é o equivalente social a sentir dor física. A solidão ativa os mesmos caminhos no cérebro que estão envolvidos no processamento de respostas emocionais à dor física. Assim tal como sentir dor física, sentir-se solitário e desconectado dos outros também é um sinal de que precisamos cuidar de nós mesmos, procurando a segurança e o conforto da companhia".

A saúde mental inclui o nosso bem-estar emocional, psicológico e social. Afeta como pensamos, sentimos e agimos e determina também como lidamos com o stress, nos relacionamos com os outros e fazemos as nossas escolhas. A saúde mental é importante em todas as fases da vida e não deve ser descurada à medida que envelhecemos.

"O isolamento social que os idosos estão a viver agora, em plena pandemia, aumenta de forma considerável os riscos para a diminuição de saúde mental. Algumas pesquisas têm evidenciado que a solidão prolongada está associada ao aumento do risco de morte prematura, semelhante ao tabagismo, consumo de álcool e obesidade. Outras consequências para a saúde que também estão associadas à solidão: risco elevado de doenças cardíacas, humor deprimido, níveis elevados de ansiedade, deterioração cognitiva, desenvolvimento de Alzheimer, e consequente aumento de consultas médicas e de emergência", explica a psicóloga.créditos: Pixabay

Mas quer vivam em lares quer estejam em casa, o isolamento de idosos é uma preocupação que tem vindo a aumentar e é considerado um problema de saúde pública. O distanciamento social, embora seja uma estratégia importante para combater o COVID-19, é também uma das principais causas de solidão e um fator de risco desta população.

"O isolamento tem impactos e efeitos globais e a saúde mental não se dissocia da saúde global, ou seja, é um todo biopsicossocial - tal como preconiza a Organização Mundial da Saúde. A dimensão social (atualmente particularmente comprometida) é também absolutamente relevante pois refere-se às interações sociais, cívicas e de participação na vida de comunidade que ficaram em grande constrangimento mediante os isolamentos em confinamentos.", diz Ana Catarina Meireles.

A pandemia mudou as rotinas dos idosos e limitou o contacto social com familiares e amigos, ao mesmo tempo, que os obrigou a deparam-se com os desafios de terem que passar mais tempo em casa, isolados, com a falta de contacto físico e de não poder realizar atividades que lhes são habituais. "O ser humano é um ser relacional e de convívio e a privação social durante meses verifica-se ter um efeito circular e de reforço negativo nas dimensões físicas, emocionais e comportamentais", esclarece a especialista em Gerontologia. Por isso é importante que sejam criadas condições que promovam um envelhecimento saudável durante este período e para evitar o risco de um aumento do sentimento de solidão.

Os cuidados a ter com os idosos

Mónica Pereira, diretora da residência A80, defende que "tal como nós continuamos a viver a nossa vida mas com alterações nos nossos comportamentos e com algumas restrições é importante explicar aos idosos o momento que se vive atualmente mas não me parece que instalar o medo seja a melhor opção. Ao invés disso, procuramos sensibilizá-los para a adoção de comportamentos de segurança e proteção e novas formas de estar com a família pois é preferível ter visitas, embora condicionadas, do que não as ter de todo".

Familiares, amigos e vizinhos são encorajados a tomar medidas de apoio às pessoas que estão em isolamento, uma vez que estarem conectados com o outro é uma peça chave para se manter um estado mental saudável. Filipa Jardim da Silva refere que "importa manter momentos de diálogo com os idosos, seja presencialmente ou via ecrã, auscultando a forma como se sentem e o que precisam".

Também há que ter em consideração o facto dos idosos terem uma maior dificuldade na utilização de tecnologia digital e de não se sentirem confortáveis com smartphones, o que pode resultar num corte ao nível da comunicação com a restante comunidade e numa sensação de desconexão. Como adaptação a este “novo normal” receber telefonemas regulares faz uma grande diferença e é uma componente importante de cuidado de saúde mental nos idosos. Para Filipa Jardim da Silva, "sempre que possível, vale a pena ajudá-los a focarem-se noutras temáticas e aspetos das suas vidas diárias de maneira a que percecionem prazer e para que o seu dia a dia não gire apenas em torno da ameaça do Covid".

Supervisionar e garantir que os idosos têm uma alimentação correta e que mantêm algum tipo de atividade física regular são outras medidas que quem os rodeia deve tomar para melhorar a sua saúde e bem-estar. "A saúde do corpo é fundamental como base de proteção", afirma a médica de geriatria Ana Catarina Meireles. "É essencial promover uma boa hidratação, boa nutrição, sem défices ou excessos minerais/vitamínicos, sono reparador e alguma atividade física. Tudo isto concorre para um cérebro bem alimentado, oxigenado e descansado e, sem essas premissas, dificilmente teremos uma boa condição mental".

Medidas para o futuro

Apesar de todos os desafios para a comunidade idosa, esta é também uma situação que pode levar a novas oportunidades no futuro. Ana Catarina Meireles aponta como "na verdade, é como se a pandemia estivesse a gerar resultados a dois tempos: no presente, procurando reagir à realidade que temos e que precisa de intervenção; e depois com o olhar no futuro, a conjeturar sobre a realidade que nos espera e, mais importante, que realidade queremos construir – individual e coletivamente".

Lares, comunidades e o país de uma maneira geral podem criar medidas que permitam que as pessoas mais velhas se sintam mais seguras e em que a sociedade mais facilmente os apoie e valorize. Para isso têm que ser criados sistemas que tenham em consideração os direitos humanos das pessoas mais velhas e dar-lhes a capacidade de viver a vida ao máximo, com a dignidade que merecem. Isso só será possível através de uma maior inclusão desta classe mais velha na sociedade.

Para Filipa Jardim da Silva, "quando a comunidade trata os idosos como os elementos mais sábios da sociedade, naturalmente que se mobiliza para criar condições dignas de uma velhice bem vivida. Isso implica dar do seu tempo para ajudar os mais velhos. É importante mantermos o respeito por quem é mais velho e isso implica tratá-lo como uma pessoa, que tem as suas crenças, valores e necessidades. Isso significa que mais do que impor seja o que for, é importante dialogar, informar, clarificar e negociar, de forma a que a informação seja integrada e compreendida, gerando comportamentos responsáveis e não medo ou pânico".

A esperança volta-se assim para o futuro uma vez que, segundo Ana Catarina Meireles, "passou a existir uma consciência crescente em relação aos mais velhos e começámos a estar mais atentos às suas necessidades, procurando refletir e encontrar soluções para os seus desafios diários. Nesse sentido, todos os dias se tornaram “Dia do Idoso”.

27.10.20

Está a surgir uma rede para cuidar de pessoas em “total abandono”

João Pedro Pincha, in Público on-line

Projecto-piloto nas Avenidas Novas deverá culminar, em 2021, com a criação de uma bolsa de voluntários para serem cuidadores. Coordenadora diz que “o confinamento veio piorar” a situação de muitos.

Na Lisboa que todos os dias se enche de gente, as paredes escondem a solidão. “Temos muitas pessoas adultas em situação de total abandono”, resume Paula Guimarães. Idosos ou pessoas com algum tipo de deficiência, multiplicam-se as histórias de quem depende do cuidado de outros para sobreviver – e há casos que permanecem ocultos.

O grupo de missão “Cuidadores das Avenidas”, que está a dar os primeiros passos, nasceu para apoiar cuidadores e cuidados. Centrado na freguesia das Avenidas Novas, o projecto surgiu por iniciativa dos vereadores do CDS na Câmara de Lisboa e pretende-se que dê origem a “um modelo disseminável a outros territórios”, explica Paula Guimarães, coordenadora do grupo.
O objectivo último é a “criação de uma rede de cuidadores informais e voluntários” capaz de acorrer a todas as situações de necessidade, afirma, mas para já a ideia é “apoiar aquilo que já existe”. Ou seja, identificar as pessoas que já prestam cuidados a familiares, tal como definido no estatuto do cuidador informal, e disponibilizar-lhes o auxílio de que precisem: jurídico, psicológico ou lúdico, por exemplo.

“Quando ajudamos os cuidadores estamos também a ajudar as pessoas cuidadas”, sublinha Paula Guimarães. Com uma carreira profissional ligada à acção social, a coordenadora refere que “as pessoas cuidadas são muito invisíveis, mas também os cuidadores se vão fechando na sua bolha” e que “o confinamento veio piorar a situação”.

Partindo do diagnóstico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que com o seu projecto Radar já identificou milhares de idosos sozinhos na cidade, o grupo quer sentar à mesma mesa as instituições que já andam no terreno e pô-las em contacto com a câmara, com a Junta das Avenidas Novas e, sobretudo, umas com as outras, para optimização dos recursos. As primeiras reuniões decorreram este mês. “Tivemos um óptimo acolhimento das entidades e vamos arrancar já na próxima semana com acções de capacitação dos profissionais destas instituições”, diz Paula Guimarães.

A esta primeira fase do projecto deverá seguir-se a da identificação de pessoas em situação de isolamento social que ainda não tenham apoio. E, por fim, a identificação de cidadãos disponíveis para serem cuidadores. Em ambos os casos pretende-se que haja “um movimento voluntário”, em que é a própria pessoa a disponibilizar-se. Até porque, sublinha Paula, as situações de isolamento são muitas vezes conotadas com pobreza, mas nem sempre é essa a realidade.

Daí que, para a responsável, seja “entusiasmante” trabalhar nas Avenidas Novas, que “é uma espécie de mini-cidade em que se encontram pessoas de todos os perfis”. Com mais de 20 mil moradores, a freguesia é uma das zonas de habitação mais nobres da capital, onde reside uma grande parte da classe alta e média-alta de Lisboa, mas onde também existem bairros sociais. “É bastante diversa na sua composição social e já tem uma rede de instituições e empresas de economia social, além de uma junta bastante activa do ponto de vista social”, resume Paula Guimarães.

A identificação de voluntários disponíveis para serem cuidadores, incluindo pessoas que não são contempladas no estatuto do cuidador informal aprovado pelo Parlamento no ano passado, deverá estar concluída até ao final do primeiro trimestre de 2021. O passo seguinte vai depender da evolução da pandemia, porque com a covid-19 não é desejável expor idosos ou outras pessoas vulneráveis à presença de estranhos. Ainda assim, algum trabalho pode e vai ser feito à distância.

No final de todas as etapas, os resultados do projecto-piloto vão ser apresentados à Câmara de Lisboa e determinarão se ele se estende, ou não, ao restante concelho.

1.10.20

Os idosos devem poder deserdar quem os maltrata? Relatório defende que sim

Natália Faria, in Público on-line

A revisão do direito sucessório, de modo a permitir que um idoso possa deserdar um familiar que o abandonou ou que lhe inflija maus-tratos, é uma de 30 recomendações dirigidas ao Governo no relatório “Portugal mais Velho”. Outra passa por garantir benefícios fiscais e formação a quem cuida de idosos.

Numa altura em que os maus-tratos aos idosos assumem contornos graves por que não acautelar a possibilidade de os mais velhos deserdarem quem, sendo filho, neto ou bisneto, os maltrata? A revisão do direito sucessório, no sentido de permitir aos idosos uma maior liberdade na disposição dos seus bens, e assim acautelar os maus-tratos em contexto doméstico ou familiar, é uma das 30 recomendações constantes do relatório “Portugal Mais Velho”, que resulta de uma parceria entre a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima e a Fundação Gulbenkian e que é apresentado esta quinta-feira em que se assinala o Dia Internacional da Pessoa Idosa.

“O direito sucessório está construído para proteger as pessoas do agregado familiar e prevê a existência de uma ‘quota indisponível’, à luz da qual parte do património da pessoa que falece tem sempre que ser deixada aos seus descendentes e, quando não os haja, aos ascendentes. Na prática, um idoso maltratado por um filho tem sempre de lhe deixar parte do seu património, mesmo que não seja essa a sua vontade e mesmo que tenha havido uma situação de violência ou de abandono total. Alterar isto poderia ser uma resposta eficaz às situações de abandono”, sustentou ao PÚBLICO Marta Carmo, jurista, técnica de projecto da APAV e coordenadora do relatório em cujas linhas se inscreve também a proposta de criação de benefícios fiscais que promovam a manutenção dos idosos em sua casa ou pelo menos no seu meio normal de vida.

“Estes incentivos respondem ao problema mais do que a criminalização do abandono. Muitas vezes, as famílias abandonam os seus idosos, nos hospitais, nomeadamente, porque não têm rendimentos que lhes permitam renunciar ao emprego para cuidar deles”, alerta aquela responsável, descartando assim como eficaz a possibilidade de criminalização do abandono de pessoas idosas em hospitais ou outros estabelecimentos dedicados à prestação de cuidados, que chegou a estar prevista na Estratégia de Protecção ao Idoso aprovada em 2015 e que motivou mesmo a apresentação de dois diferentes projectos-lei no Parlamento.

Noutra frente, mas também numa tentativa de travar os maus-tratos, o relatório sugere o desenvolvimento de uma estratégia nacional para a formação de quem cuida dos idosos, sejam instituições ou cuidadores informais e familiares. “Entrevistámos alguns cuidadores familiares e constatámos que se sentem muito abandonados pelo Estado e pela sociedade, nomeadamente porque não sentem ainda no seu quotidiano os efeitos da criação recente do estatuto do cuidador informal, mas também porque nunca tiveram a oportunidade de aceder a formação que os ajude a evitar a sobrecarga que sofrem e que muitas vezes degenera em situações de violência física e psicológica ou de negligência. Além de aprenderem a curar uma ferida ou a fazer um levantamento, estas pessoas deviam poder aceder a uma formação holística que as capacite para o apoio emocional e para o estímulo cognitivo dos idosos”, sustenta Marta Carmo.

Para a técnica da APAV, e apesar de os números mostrarem que em 65% dos casos em que a associação foi chamada a apoiar idosos que foram vítimas de violência o agressor era familiar, esta formação deveria abarcar também proprietários e trabalhadores das estruturas residenciais para idosos. “Há investigação que demonstra, muito antes de a pandemia ter vindo pôr isso a descoberto, que há violência institucional sobre os idosos. Não nos referimos à violência do colaborador sobre a pessoa institucionalizada, mas à violência que pode resultar do funcionamento e da organização da própria instituição e cujo impacto é violador da dignidade da pessoa que está institucionalizada, seja porque lhes é retirada toda a liberdade seja, por exemplo, porque é obrigada a jantar às 18h00 quando toda a vida jantou às 22h00”, exemplifica.

Idosos têm impacto positivo na economia

A ideia de elaborar este “Portugal mais Velho” surgiu da constatação de que a sociedade portuguesa continua a varrer o problema do envelhecimento para debaixo do tapete, mesmo considerando que, em poucos anos, Portugal se tornou no quinto país mais envelhecido do mundo. Soma actualmente 161,3 idosos por cada 100 jovens até aos 14 anos de idade (em 1961, esse índice de envelhecimento era de 27,5 idosos por cada 100 jovens). Mas, apesar de inelutável, o envelhecimento da população portuguesa não é razão para deitarmos as mãos à cabeça, conquanto, como sublinha Marta Carmo, a sociedade se mobilize rapidamente para integrar os que dobram a esquina dos 65 anos de idade. Como? “Desde logo, acabando com essa ideia de que os idosos representam encargos sociais e financeiros para o Estado e começando a valorizar o impacto positivo que a economia da terceira idade tem na economia e nas contas do Estado”, responde a jurista.

Numa altura em que a esperança média de vida dos portugueses vai já nos 80,93 anos (77,95 anos para os homens e 83,51 para as mulheres), no que Portugal até está mais avançado do que outros países europeus, sobram problemas que têm também tradução estatística: é que, sendo verdade que os portugueses vivem tendencialmente mais tempo que muitos outros europeus, não é verdade que vivam tão bem: no triénio terminado em 2018, segundo o INE, a expectativa de número de anos de vida saudável aos 65 anos ficava-se nos 7,3 anos para a população em geral.

Daí que seja para Marta Carmo incompreensível que a Estratégia Nacional para o Envelhecimento Activo e Saudável 2017-2025 tenha, apesar da costumeira pompa com que foi apresentada, ficado na gaveta. “O documento foi elaborado por um grupo interministerial, chegou a estar em consulta pública, mas, tanto quanto sabemos, não saiu do papel”, lamenta, para concluir que isto mostra que “os decisores políticos continuam a recusar olhar para o problema”.

11.8.20

Idosos do Baleizão têm um programa de rádio para quebrar o isolamento

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Iniciativa alia o Centro Social Nossa Senhora da Graça, a Voz da Planície e o Departamento de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo.

Chama-se “Avós com Voz” e vai para o ar às 17h30 de cada sexta-feira, mas pode ser ouvido a qualquer hora na página da rádio Voz da Planície. Começou no dia 8 de Maio e deverá prolongar-se até ao dia 18 de Setembro. Junta as vozes de idosos, familiares e funcionários do centro de dia de Baleizão, em Beja.

Vivem sozinhos muitos dos 30 idosos que frequentam aquele centro de dia. “Arranjámos uma estratégia de comunicação que permite quebrar o isolamento”, resume João Cascalheira, presidente do Centro Social Nossa Senhora da Graça e coordenador da Incubadora de Inovação Social do Baixo Alentejo. “É uma oportunidade de se ouvirem uns aos outros, de ouvirem familiares, funcionários, de falarem sobre o que lhes faz falta neste momento, no que irão fazer quando tudo isto terminar.

A iniciativa alia o Centro Social Nossa Senhora da Graça À Voz da Planície e ao Departamento de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo. Integra o projecto “Há D'Escampar – Tudo Há-de Ficar Bem”, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian e Instituto da Segurança Social, no âmbito do fundo de emergência destinado a reforçar a capacidade de resposta aos idosos durante a pandemia.

António Fonseca, professor da Universidade Católica e consultor da Gulbenkian na área do envelhecimento, fez parte da equipa que seleccionou 69 projectos em mais de mil. Ficou impressionado com a “malha de serviços de proximidade que hoje existem um pouco por todo o Portugal – da pequena aldeia à grande cidade”. Coloca este entre os doze mais inovadores, muitas das quais empenhadas na saúde mental. A ideia já está a fazer escola. Em plena pandemia, “outros estão a começar a fazer uso desta estratégia para manter a comunicação com os utentes”.

Um centro de dia não é um centro de convívio. Entrando por volta das 9h e saindo por volta das 17h, muitos ali satisfaziam algumas das suas necessidades básicas e faziam quase toda a sua vida social. Entenderam que não bastava domiciliar a prestação de cuidados básicos – relacionadas com a alimentação, a higiene, o acompanhamento a consultas ou a toma de medicamentos. “Queríamos que entendessem que não os abandonamos, que continuamos a acompanhá-los”, sublinha Cascalheira.

Ajudou ter alguma escala. Através de um projecto de envelhecimento activo, o COM-VIDA, podiam assegurar aulas online, kits de actividades para fazer em casa, contacto telefónico regular, com apoio psicossocial. Mesmo assim, Cascalheira fala em perda de força anímica e na necessidade de “impedir que isso tudo se agrave”. Desde o início de Junho, uma equipa técnica roda pelas casas, com exercícios para retardar a degradação cognitiva e motora. Não dá mais de meia hora a cada um, mas ajuda a desentorpecer.

Numa das edições do “Avós com voz”, ouve-se um familiar, Jorge David, descrever a experiência da mãe, Guilhermina, que sofreu uma queda, passou a usar uma prótese, enfrentou um difícil processo de reabilitação. No início do ano, começou a frequentar o centro de dia. “Ela tinha uma rotina até ao início da covid. E aquela rotina foi quebrada.” O seu processo de reabilitação retrocedeu. Agora, que vão lá a casa, tornou a avançar. A diferença, afiança, é “do dia para a noite”. E nem ela, nem os filhos podiam estar mais gratos.

10.8.20

Idosos sozinhos à espera de reabertura de centros de dia. “Se estou triste? Estou. Isto anda muito difícil”

Ana Cristina Pereira (texto), Paulo Pimenta (fotos), in Público on-line

Centros de dia preparam-se para começar a abrir a partir de dia 15. No Centro Social de São Martinho de Aldoar, no Porto, como em muitos outros, houve um esforço para domiciliar os serviços mais básicos, mas isso não apagou os efeitos do isolamento prolongado.

Rosário Abreu não vê a hora de voltar ao centro de dia. Pode estar dias inteirinhos sem trocar uma palavra a não ser com o funcionário que lhe traz a comida que leva à boca. É assim há quase cinco meses. “Sou muito pouco de ir à rua”, diz, numa voz vagarosa e profunda. “Sou muito caseira. Limpo a minha casinha. Trato da minha pessoa também. Faço um bocadinho de croché. Penso muito.”

Uma enorme imagem de Maria parece guardar a entrada no pequeno apartamento térreo, no bairro das Campinas, na zona Ocidental do Porto. À esquerda, o quarto limpo e arrumado. À direita, a sala. No armário, molduras com fotografias de filhos e netos sorridentes e bem vestidos. Na mesa, folhas espalhadas. Conforme vai pagando as contas que lhe vão chegando, vai estendendo os papéis ali, para se lembrar que aquelas estão despachadas.

O silêncio pode tornar-se ensurdecedor. Estão longe os filhos desta mulher de 71 anos, que viveu grande parte da vida na Venezuela. Mora um filho na ilha da Madeira, uma filha em Madrid e outro filho nos arredores dessa cidade espanhola. E cada um é capaz de estar sem lhe telefonar uma, duas, três semanas. Por vezes, ainda pergunta à filha: “Porque não chamas?” “Porque sei que estás bem”, responde-lhe.

“Tive uma depressão muito grande”, revela, convidando quem chega a sentar-se nas cadeiras que rodeiam a mesa. “Fiquei muito mal. Ainda estou lutando contra isso. Devo ao centro a minha saúde. Foi muito bom para mim entrar nessa casa. As senhoras falam. A gente vê as senhoras a falar. Falamos de tudo um bocadinho – do nosso passado, da nossa juventude. Cantamos. Brincamos umas com as outras. Às vezes, até nos arreliamos. Mas é muito bom.”

Há quem esteja sentado, para ali, a cabecear em frente ao televisor, mas há muito que fazer no Centro Social de São Martinho de Aldoar - ginástica, sessões de cinema, de discos pedidos ou de leitura, culinária, pintura, oficina motora, actividades de estimulação cognitiva, festas temáticas e muita conversa. Privada disso tudo, de volta aos dias vazios, sempre iguais, Rosário sente-se a murchar por dentro. “As profissionais que trabalham lá, passo a passo, vêm aqui a casa trazer a comida. Mas tenho muitas saudades delas...”
“Acomodação aprendida”

Será a última resposta social a abrir. Retomarão o funcionamento a partir de dia 15 deste mês, conforme consigam cumprir as medidas de prevenção e controlo definidas pela Direcção-Geral de Saúde. Não será um alívio apenas para Rosário. “Para muitos idosos, sobretudo os mais pobres, menos diferenciados culturalmente e com redes sociais mais débeis, é a única oportunidade de estarem com outro ser humano”, sublinha António Fonseca, professor da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa especializado em envelhecimento.

A sociedade portuguesa está cada vez mais envelhecida. As estimativas do Eurostat apontam para 512 mil idosos a viver sozinhos em Portugal em 2019. São mulheres, sobretudo (417 mil). Um número que “não surpreende” António Fonseca. “Nos censos de 2011, já havia 400 mil idosos a viver sozinhos e 804 mil exclusivamente com outros idosos.”

Cada um ao seu modo tem enfrentado dificuldades acrescidas no seu quotidiano. Os mais dependentes inspiram maior preocupação. Nem todos têm familiares ou amigos que assumam alguns cuidados. E nem todos os centros de dia domiciliaram os serviços essenciais desde que fecharam as portas, no dia 16 de Março (embora esteja prevista desde o dia 3 de Abril uma majoração da comparticipação da Segurança Social para esse efeito). Mesmo que o tenham feito, sublinha António Fonseca, não retiravam as pessoas da solidão. O serviço domiciliário é quase sempre limitado a tarefas instrumentais, como a limpeza, a higiene ou a alimentação. Desempenhada a tarefa, a pessoa fica para ali, sozinha.

Há um antes e um depois da chegada da pandemia. Antes, quem podia saía de casa, dava as suas voltinhas. Depois, o medo de contágio alastrou-se até aos mais autónomos – se não se fecharam em casa, não lhes terá faltado pressão para o fazer. “Correr alguns riscos é essencial”, avisa António Fonseca. Isso é evidente na infância. “A cerca altura, uma criança tem de atravessar a rua sozinha. Se não correr riscos, não se desenvolve.” Nas idades mais avançadas, também. “Se não correr alguns riscos, perde independência.” O psicólogo fala em “acomodação aprendida”. “A pessoa habitua-se a estar em casa. Tem menos vontade de sair, faz menos esforço para sair, arranja justificações para não sair. E a solidão, em idades mais avançadas, é um potenciador de sintomas depressivos, o que leva a um pior funcionamento cognitivo.”
Um ou dois banhos por semana

O Centro Social de São Martinho de Aldoar terá de ponderar a reabertura com a Segurança Social e a autoridade de saúde local. Como qualquer instituição que tem um centro de dia acoplado a um lar. Quanto mais tempo passa mais a directora técnica do centro de dia, Sofia Monteiro, nota os efeitos do encerramento daquela resposta. “Ou por não terem um acompanhamento tão grande, mesmo na toma de medicações, ou por estarem mais parados, têm menos mobilidade.” Vários sofreram quedas. Uns já tornaram a casa, “embora mais debilitados”, mas há quem tenha ficado no hospital, à espera de vaga num lar.

Sofia Monteiro dá dois exemplos: “Uma senhora caiu, partiu a bacia. Apesar de ter um sobrinho que lhe dava algum apoio, o hospital assumiu que ela não podia continuar a viver sozinha. O sobrinho encontrou uma vaga num lar. Um senhor diabético tinha sido operado para tirar um dedo de um pé, já era muito dependente, já ia ao centro de dia de cadeira de rodas, caiu em casa, abriu a cabeça, está no hospital a aguardar vaga num lar.”

Numa destas manhãs, Rosa da Conceição caiu e ficou no chão à espera que um dos funcionários do centro viesse trazer-lhe a alimentação, abrisse a porta, a visse ali e a ajudasse a levantar-se. A mulher de 85 anos tem duas filhas a morar perto, mas ambas trabalham. “Quando vêm de trabalhar, vêm aqui. Se for preciso fazer alguma coisa, fazem. A mais velha limpa-me a casa de 15 em 15 dias.”

Antes das 12h, um funcionário chega à sua casa com a marmita.

– Bom dia – diz Ângelo Torres, um funcionário ainda jovem que ela viu crescer.

Imagem seguinte Paulo Pimenta

– Entre, se faz favor.

– Então, dona Rosa, tudo bem?

– Tudo bem.

– Vou pôr aqui no microondas.

Não se põe na conversa. É só o tempo de passar para um recipiente o rancho à portuguesa, que naquele dia lhe servirá de almoço, e para outro a sopa, que ela guardará para o jantar. E de deixar o reforço, como faz a qualquer utente do centro de dia. Um leite e um pão ou umas bolachas para o pequeno-almoço e o lanche.

– Até amanhã, dona Rosa.

– Até amanhã.

Há muito que fazer. As duas equipas distribuem as refeições por 30 utentes do centro de dia e 23 do serviço de apoio domiciliário.

Do Centro Social de São Martinho de Aldoar também tem vindo uma equipa ajudar Rosa da Conceição a tomar banho duas vezes por semana. Foi o que ela pediu. “Não quero mais, porque não tenho esterco. Não faço nada. Sou uma senhora aqui.”

Mesmo no prédio em frente, mora Alfredo Soares, que recebe um banho semanal e comida diária. Não quer mais banhos e come tudo ao almoço. “Ele tem problemas de cabeça”, explica Esmeralda Mateus, presidente da Associação de Moradores do Bairro de Aldoar, que lhe oferece lanche e jantar. Já começou a estragar o apartamento, como fazia antes de frequentar o centro de dia. Arrancou as portas do armário, o cilindro, o fogão... “Tenho de o levar para a sede da associação, se não estraga tudo. Não pode estar fechado em casa.”

Rosa da Conceição costuma vê-lo. Esforça-se para sair. À tarde, devagar, devagarinho, caminha até à associação. Está “cheia” da pandemia. “Nunca mais acaba!”, exclama. “Vou fazendo o que eu sei para não parar. Mas já não adianta nada. Melhor era ir para aquele sítio. Já não me importo nada de ir. Se estou triste? Estou. Isto anda muito difícil. Para as pessoas doentes que estão sozinhas, ainda pior.”