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30.10.20

Pandemia e terceira idade: "Sentir-se solitário é o equivalente social a sentir dor física"

 Mónica Várzea, in MAGG

O Dia Internacional do Idoso teve este ano o foco voltado para a saúde mental e o bem-estar das pessoas mais velhas. Especialistas revelam como a pandemia trouxe à tona questões urgentes relacionadas com a terceira idade.

Numa altura que se tem provado desafiante para todos e, em particular, para as pessoas idosas, assinalar o trigésimo aniversário do Dia Internacional do Idoso - comemorado no passado dia 1 de Outubro - merece especial atenção. O envelhecimento, por norma, chega com uma série de vulnerabilidades a nível psicológico, social e ambiental, mas uma situação de pandemia agrava essas vulnerabilidades ainda mais e tem um impacto significativo nas vidas dos idosos.

Em conjunto com Ana Catarina Meireles (médica especialista em Medicina Geral e Familiar), Filipa Jardim da Silva (psicóloga especializada em Psicologia Clínica e da Saúde) e Mónica Pereira (enfermeira e diretora da residência sénior A80), a MAGG desvenda como a COVID-19 está a afetar a classe idosa do nosso país - a nível físico e mental, como familiares e amigos podem apoiá-los durante este tempo de pandemia e que mudanças deverão ser implementadas no futuro. 

Idosos & COVID-19

Em Portugal continua a verificar-se um crescimento do envelhecimento demográfico da população, com um aumento de 3,8% só no ano passado. Segundo dados do INE, em 2019 o número de idosos (65 anos ou mais) representava 22,1% do total da população residente no nosso país. Num estudo de 2012 da mesma fonte, "mais de um milhão e duzentos mil idosos viviam sós ou em companhia de outros idosos", o que representava já naquela altura 60% da população. Para muitos destes idosos, a pandemia resultou em desafios com os quais nunca tinham lidado antes.

Para Filipa Jardim da Silva, psicóloga especializada em Psicologia Clínica e da Saúde, "a proteção acrescida a esta faixa etária voltou, retirando muitas vezes autonomia e liberdade de decisão aos mais velhos, fazendo-os sentir impotentes. Voltou-se a colocar um grande holofote sobre os riscos inerentes a ser-se mais velho e à probabilidade acrescida de doença, depois de uma fase em que essa perceção de vulnerabilidade acrescida tinha sido diminuída", explica.

Para a psicóloga, "isso naturalmente que contribui para uma intensificação da ansiedade e angústia de morte". Ansiedade a nível de riscos de saúde, receio de contágio e até de morte (sua e a de outros), pânico, dificuldade de adaptação, depressão, solidão e stress são alguns dos efeitos secundários que os idosos podem experimentar durante tempos de incerteza como aquele que vivemos. Estes efeitos são ainda mais graves quando se acrescenta a tudo isto uma situação de isolamento social.

Isolamento e saúde mental

A questão da saúde mental tem vindo a ser discutida, de uma forma geral, nas mais variadas plataformas e, sendo que os cidadãos seniores estão a ser aqueles que mais gravemente sofrem com a COVID-19, é importante dar-lhes especial atenção nestes tempos sem precedentes. Segundo Ana Catarina Meireles, "esta pandemia trouxe à luz do dia realidades já conhecidas, altamente desafiadoras e complexas, mas que por exacerbação da carga de trabalho, risco de saúde, pressão social, stress emocional e constrangimentos institucionais se tornou imperioso abordar e discutir".

De um ponto de vista psicológico, Filipa Jardim da Silva explica que "sentir-se solitário é o equivalente social a sentir dor física. A solidão ativa os mesmos caminhos no cérebro que estão envolvidos no processamento de respostas emocionais à dor física. Assim tal como sentir dor física, sentir-se solitário e desconectado dos outros também é um sinal de que precisamos cuidar de nós mesmos, procurando a segurança e o conforto da companhia".

A saúde mental inclui o nosso bem-estar emocional, psicológico e social. Afeta como pensamos, sentimos e agimos e determina também como lidamos com o stress, nos relacionamos com os outros e fazemos as nossas escolhas. A saúde mental é importante em todas as fases da vida e não deve ser descurada à medida que envelhecemos.

"O isolamento social que os idosos estão a viver agora, em plena pandemia, aumenta de forma considerável os riscos para a diminuição de saúde mental. Algumas pesquisas têm evidenciado que a solidão prolongada está associada ao aumento do risco de morte prematura, semelhante ao tabagismo, consumo de álcool e obesidade. Outras consequências para a saúde que também estão associadas à solidão: risco elevado de doenças cardíacas, humor deprimido, níveis elevados de ansiedade, deterioração cognitiva, desenvolvimento de Alzheimer, e consequente aumento de consultas médicas e de emergência", explica a psicóloga.créditos: Pixabay

Mas quer vivam em lares quer estejam em casa, o isolamento de idosos é uma preocupação que tem vindo a aumentar e é considerado um problema de saúde pública. O distanciamento social, embora seja uma estratégia importante para combater o COVID-19, é também uma das principais causas de solidão e um fator de risco desta população.

"O isolamento tem impactos e efeitos globais e a saúde mental não se dissocia da saúde global, ou seja, é um todo biopsicossocial - tal como preconiza a Organização Mundial da Saúde. A dimensão social (atualmente particularmente comprometida) é também absolutamente relevante pois refere-se às interações sociais, cívicas e de participação na vida de comunidade que ficaram em grande constrangimento mediante os isolamentos em confinamentos.", diz Ana Catarina Meireles.

A pandemia mudou as rotinas dos idosos e limitou o contacto social com familiares e amigos, ao mesmo tempo, que os obrigou a deparam-se com os desafios de terem que passar mais tempo em casa, isolados, com a falta de contacto físico e de não poder realizar atividades que lhes são habituais. "O ser humano é um ser relacional e de convívio e a privação social durante meses verifica-se ter um efeito circular e de reforço negativo nas dimensões físicas, emocionais e comportamentais", esclarece a especialista em Gerontologia. Por isso é importante que sejam criadas condições que promovam um envelhecimento saudável durante este período e para evitar o risco de um aumento do sentimento de solidão.

Os cuidados a ter com os idosos

Mónica Pereira, diretora da residência A80, defende que "tal como nós continuamos a viver a nossa vida mas com alterações nos nossos comportamentos e com algumas restrições é importante explicar aos idosos o momento que se vive atualmente mas não me parece que instalar o medo seja a melhor opção. Ao invés disso, procuramos sensibilizá-los para a adoção de comportamentos de segurança e proteção e novas formas de estar com a família pois é preferível ter visitas, embora condicionadas, do que não as ter de todo".

Familiares, amigos e vizinhos são encorajados a tomar medidas de apoio às pessoas que estão em isolamento, uma vez que estarem conectados com o outro é uma peça chave para se manter um estado mental saudável. Filipa Jardim da Silva refere que "importa manter momentos de diálogo com os idosos, seja presencialmente ou via ecrã, auscultando a forma como se sentem e o que precisam".

Também há que ter em consideração o facto dos idosos terem uma maior dificuldade na utilização de tecnologia digital e de não se sentirem confortáveis com smartphones, o que pode resultar num corte ao nível da comunicação com a restante comunidade e numa sensação de desconexão. Como adaptação a este “novo normal” receber telefonemas regulares faz uma grande diferença e é uma componente importante de cuidado de saúde mental nos idosos. Para Filipa Jardim da Silva, "sempre que possível, vale a pena ajudá-los a focarem-se noutras temáticas e aspetos das suas vidas diárias de maneira a que percecionem prazer e para que o seu dia a dia não gire apenas em torno da ameaça do Covid".

Supervisionar e garantir que os idosos têm uma alimentação correta e que mantêm algum tipo de atividade física regular são outras medidas que quem os rodeia deve tomar para melhorar a sua saúde e bem-estar. "A saúde do corpo é fundamental como base de proteção", afirma a médica de geriatria Ana Catarina Meireles. "É essencial promover uma boa hidratação, boa nutrição, sem défices ou excessos minerais/vitamínicos, sono reparador e alguma atividade física. Tudo isto concorre para um cérebro bem alimentado, oxigenado e descansado e, sem essas premissas, dificilmente teremos uma boa condição mental".

Medidas para o futuro

Apesar de todos os desafios para a comunidade idosa, esta é também uma situação que pode levar a novas oportunidades no futuro. Ana Catarina Meireles aponta como "na verdade, é como se a pandemia estivesse a gerar resultados a dois tempos: no presente, procurando reagir à realidade que temos e que precisa de intervenção; e depois com o olhar no futuro, a conjeturar sobre a realidade que nos espera e, mais importante, que realidade queremos construir – individual e coletivamente".

Lares, comunidades e o país de uma maneira geral podem criar medidas que permitam que as pessoas mais velhas se sintam mais seguras e em que a sociedade mais facilmente os apoie e valorize. Para isso têm que ser criados sistemas que tenham em consideração os direitos humanos das pessoas mais velhas e dar-lhes a capacidade de viver a vida ao máximo, com a dignidade que merecem. Isso só será possível através de uma maior inclusão desta classe mais velha na sociedade.

Para Filipa Jardim da Silva, "quando a comunidade trata os idosos como os elementos mais sábios da sociedade, naturalmente que se mobiliza para criar condições dignas de uma velhice bem vivida. Isso implica dar do seu tempo para ajudar os mais velhos. É importante mantermos o respeito por quem é mais velho e isso implica tratá-lo como uma pessoa, que tem as suas crenças, valores e necessidades. Isso significa que mais do que impor seja o que for, é importante dialogar, informar, clarificar e negociar, de forma a que a informação seja integrada e compreendida, gerando comportamentos responsáveis e não medo ou pânico".

A esperança volta-se assim para o futuro uma vez que, segundo Ana Catarina Meireles, "passou a existir uma consciência crescente em relação aos mais velhos e começámos a estar mais atentos às suas necessidades, procurando refletir e encontrar soluções para os seus desafios diários. Nesse sentido, todos os dias se tornaram “Dia do Idoso”.

30.9.14

Dia do idoso: Associações assinalam data com iniciativas em todo o país

in iOnline

Na sua opinião, os idosos “estão mais reivindicativos e mais despertos” para a necessidade de terem voz na sociedade

As associações representativas dos reformados e pensionistas vão assinalar o Dia Internacional do Idoso, na quarta-feira, com iniciativas de caráter cultural e político em todo o país para destacar o papel dos mais velhos na sociedade.

Esta data é “uma oportunidade para homenagear as pessoas idosas, prestando-lhe o justo reconhecimento pelo património de valores e realizações criadas ao longo das suas vidas”, disse à agência Lusa o presidente da MURPI - Confederação Nacional de Reformados, Pensionistas e Idosos.

A MURPI foi pioneira no movimento associativo de reformados e conta atualmente com 170 associações filiadas que vão realizar iniciativas para sinalizar a efeméride, adiantou Casimiro Menezes.

“É um dia para firmar o dever de respeitar os seus direitos, todos os dias, pelo poder político e pela sociedade. Esta é a mensagem que queremos transmitir neste dia a todas as associações que lidam com os idosos e também aos idosos”, sublinhou.

A APRe! - Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados também vai assinalar a data com várias iniciativas, entre as quais a entrega de um Manifesto em 32 autarquias do país.

“A nossa atividade vai ser junto das autarquias, onde vamos entregar nesse dia um manifesto”, que alerta para a necessidade dos municípios dedicarem mais atenção ao idosos, uma população que está a aumentar, e manifesta a disponibilidade da associação em colaborar, disse Lusa a presidente da APRe!, Maria do Rosário Gama.

A intenção da associação “é fazer reivindicações de caráter político, comemorar o dia e chamar outras pessoas” para a luta em defesa da população mais velha.

Para as associações, é preciso contrariar a ideia de que o envelhecimento “é o causador de todos os males no país”.

“Reconhecemos que há um envelhecimento demográfico para o qual é preciso termos soluções para que as pessoas que estão a envelhecer mantenham os seus direitos e a sua intervenção cívica e política muito ativa”, defendeu Casimiro Menezes.

Por outro lado, sublinhou, “constamos que há um desprezo da sociedade por aqueles que não adquirem conhecimentos mais atualizados” e “uma atitude de exclusão dessas pessoas porque deixaram de estar na cadeia de produção”.

Os próprios idosos devido às dificuldades que lhes são criadas, muitas delas devido às medidas de austeridade, sentem-se “autoexcluídos de uma sociedade em que deviam participar”.

Para combater esta situação, Casimiro Menezes defendeu a criação de medidas que garantam “a autonomia social e financeira dos idosos” e proporcionem cuidados de saúde e sociais de acordo com as suas necessidades e não do “tipo caritativo”.

Maria do Rosário Gama disse, por seu turno, que os idosos ”não podem baixar os braços” e devem lutar pelos seus direitos.

Na sua opinião, os idosos “estão mais reivindicativos e mais despertos” para a necessidade de terem voz na sociedade.

“O facto de a associação ter aparecido, faz dois anos em outubro, fez com que os reformados estivessem na ordem do dia e temos conseguido trazer para a comunicação todas estas situações que vivemos e que levam que o poder tenha em conta o que se passa com este grupo social que é enorme”, sustentou.

Instituído em 1991 pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia Internacional do Idoso visa sensibilizar a sociedade para as questões do envelhecimento e a necessidade de proteger e cuidar desta população.

*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico aplicado pela Agência Lusa