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30.5.23

Reciclagem não é solução para o plástico: é preciso mudar do descartável para o reutilizável

Por Lusa, in Público


As embalagens são responsáveis por 40% de todo o plástico na União Europeia e os resíduos vão aumentar. Peritos dizem que é preciso reutilizar mais e mais.

A redução da poluição por plástico só será possível com a adopção em massa de sistemas de reutilização, indica um estudo divulgado esta terça-feira, que rejeita a reciclagem como solução.

O estudo foi publicado pelo Centro de Política Global de Plásticos, da Universidade de Portsmouth, Reino Unido, numa colaboração com o movimento "Break Free From Plastic", e surge numa altura em que o tema do plástico está em debate na ONU.


Esta semana, desde segunda e até sexta-feira, realiza-se na UNESCO a segunda sessão do Comité Intergovernamental de Negociação sobre Poluição Plástica, liderada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e por França.

[Artigo exclusivo para assinantes]

16.5.23

ONU quer “fechar a torneira” da poluição por plástico em 80% até 2040. Será possível?

Clara Barata, in Público


Reutilizar, reciclar, reorientar e diversificar. Estas são as mudanças necessárias para criar uma economia verdadeiramente circular, diz o Programa das Nações Unidas para o Ambiente.


Produzem-se 430 milhões de toneladas de plásticos todos os anos e dois terços são produtos com uma vida útil curta, que rapidamente se transformam em lixo, uma grande parte dele não-tratado, que se deposita na natureza e até nos nossos corpos, com consequências para a nossa saúde e a do ambiente. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP, na sigla em inglês) apresentado nesta terça-feira oferece uma “bússola” para conseguirmos reduzir em 80% até 2040 a poluição por plástico.


[artigo disponível na integra só para assinantes]

25.10.22

Portugal é o país da UE onde as pessoas se sentem menos informadas sobre a qualidade do ar

Carla Barata, in Público online

Inquérito Eurobarómetro revela atitudes dos europeus face à poluição atmosférica. A maior parte da população desconhece os padrões de avaliação do ar que respiramos.

Portugal é o país da União Europeia onde as pessoas dizem sentir-se menos informadas acerca dos problemas da qualidade do ar e poluição atmosférica (58% dos portugueses reconhecem não estar muito bem informados, e 21% nada informados, um total de 79%, e essa percentagem cresceu ligeiramente em relação a 2019). Na União Europeia (EU), a proporção é de 46% (pouco informados) e 14% (nada informados), revela o Eurobarómetro sobre as atitudes dos europeus face à qualidade do ar, divulgado nesta segunda-feira.

Cerca de metade dos europeus (47%), considera que a qualidade do ar piorou nos últimos anos. Em Portugal, 46% é da mesma opinião. No entanto, houve um recuo de 11 pontos percentuais em relação ao que os europeus diziam sentir em 2019, e de quatro pontos em Portugal.

A grande maioria dos cidadãos europeus, no entanto, diz que nunca ouviu falar dos padrões de qualidade do ar estabelecidos pela União Europeia (73%). Em Portugal, esse desconhecimento é menor: é partilhado por 62% da população. Mas, apesar de as desconhecerem, tanto portugueses como os outros cidadãos europeus consideram que essas regras devem ser reforçadas (68% em Portugal).

Essa opinião é mais representada nos países em que é mais forte a ideia de que a qualidade do ar diminuiu, como Malta, Chipre ou França. Portugal fica mais ou menos a meio da tabela. O país onde é maior a proporção dos cidadãos que consideram que a qualidade ar melhorou mais (39%) é a República Checa.

A esmagadora maioria dos europeus considera que as doenças relacionáveis com a poluição do ar são um problema grave no seu país. A nível europeu, 89% vê as doenças respiratórias, desta forma, quando em Portugal essa percentagem desde para 81%. Quanto à asma, 88% considera esta doença um problema sério, mas em Portugal apenas 79% a vêem assim. Portugal fica um pouco abaixo da opinião dos europeus em relação à gravidade das doenças cardiovasculares (79% para 83%).

A acidificação (conhecida como chuva ácida, que afecta as florestas, por exemplo) e eutrofização (aumento de matéria orgânica num ecossistema) são vistas como problemas graves por 83% dos europeus. Em Portugal, só 72% dos cidadãos são da opinião que estas são consequências graves da poluição.
A culpa da indústria

Quando aos responsáveis pela má qualidade do ar, a maioria da população aponta o dedo às grandes instalações industriais (73% na UE, 70% em Portugal) como os maiores culpados. Logo a seguir vêm os produtores de energias fósseis (66% na UE, 60% em Portugal). As autoridades públicas são responsabilizadas por 60% dos cidadãos por não garantirem a boa qualidade do ar. Os empregadores são igualmente mencionados – por não possibilitarem deslocações menos poluentes, como ir de bicicleta para o emprego, ou a pé – por 54% dos europeus e 57% dos portugueses.

Não há muito reconhecimento da responsabilidade individual: só 38% dos europeus e 45% dos portugueses considera que os agregados familiares não fazem o suficiente pela qualidade do ar.

O que fazem então os europeus, no seu dia-a-dia, para tentar reduzir as emissões de poluentes atmosféricos? O uso de transportes públicos ou bicicleta são as acções mais citadas (41% ao nível da UE, e 27% em Portugal). Quarenta por cento dos europeus dizem ter substituído electrodomésticos antigos com maior consumo energético por equipamentos mais novos, com uma melhor classe de eficiência energética, mas só 26% dos portugueses o fizeram. Isolar termicamente a casa foi algo que fizeram 22% dos europeus, mas apenas 8% dos portugueses.

6.1.22

Aquecimento improvisado de casas provoca 17 mortos num mês na Grécia

Maria João Guimarães, in Público on-line

Nas últimas semanas do ano repetiram-se acidentes causados por queima de madeira ou outros materiais para aquecer as casas, quando as famílias não têm dinheiro para o aquecimento a óleo, gás ou electricidade. O número de vítimas é o mais alto dos últimos dez anos.

Fumos tóxicos por pequenas fogueiras em casa, fogões eléctricos usados para aquecer o ambiente, incêndios provocados por meios improvisados para aquecer as casas: no último mês morreram pelo menos 17 pessoas a tentar aquecer-se na Grécia.

2021 foi o ano com mais mortes por incêndios em casa desde 2010, segundo o responsável dos bombeiros Andrianos Gourbatsis, citado pelo jornal Ethnos. A maioria das mortes foi causada por uma fonte de calor como um fogão, lareira, ou semelhante, aponta. A subida dos preços de óleo para o aquecimento, gás e electricidade deixou muitas pessoas a tentar outras formas de aquecimento, diz o jornal.

Já em 2022, morreram mais pelo menos duas pessoas noutros dois incidentes com aquecimento improvisado das casas, noticiados por media locais.

A maioria das vítimas são idosas, mas entre os mortos há também dois irmãos, de 12 e 13 anos, que morreram num incêndio causado por um radiador. Num dos incêndios, em Metaxourgeio, Atenas, duas crianças, de 5 e 11 anos, foram transferidos para um hospital com danos nos pulmões por causa do fumo inalado, segundo o site Keep Talking Greece.

Noutros casos, como no dia de Natal numa aldeia em Creta, um casal de idosos morreu por inalar fumo tóxico de uma lareira improvisada, e pouco antes, em Atenas, um homem morreu quando um cobertor eléctrico se incendiou.

No ano anterior, tinham morrido oito pessoas por causas semelhantes, com um estudo a apontar que 26% dos lares não tinham capacidade para ter aquecimento adequado em casa durante os meses mais frios.

Além do grande número de mortes, a queima de materiais que não são adequados leva a um grande aumento da poluição nas cidades. O número de partículas finas no ar excede muito os limites considerados seguros pela Organização Mundial de Saúde, com a maioria das cidades gregas a registar mais de 100 microgramas/m3 de partículas finas quando o limite considerado seguro é abaixo de 5 microgramas/m3. Na noite de 31 de Dezembro, quase atingiu 400 microgramas/m3.

Um estudo recente da Agência Europeia do Ambiente citado no diário Kathimerini indicava que a exposição prolongada a poluição provocou mais de 13.300 pessoas na Grécia durante o ano de 2019. Se o país conseguisse cumprir o limite de partículas finas no ar, dizia ainda a agência europeia, o número de mortes diminuiria 67% no país.

9.12.19

Navios que param nos portos europeus são o 8.º maior poluidor da União Europeia

Patrícia Carvalho em Madrid, in Público on-line

Estudo revelado esta segunda-feira indica que o peso das emissões provenientes dos navios que pararam nos portos portugueses é maior do que a frota total de veículos ligeiros de passageiros existentes nas oito maiores cidades nacionais em 2013.

Os navios que param nos portos da União Europeia emitiram, em 2018, mais de 139 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2). Os dados constam de um estudo revelado esta segunda-feira pela Federação Europeia para os Transportes e Ambiente (T&E), de onde se retira ainda que, se as emissões destes transportes entrassem nas contas nacionais de cada país europeu, eles integrariam a lista dos dez maiores poluidores, ocupando a 8.ª posição, logo a seguir à Holanda.

A nível individual, a frota da Mediterranean Shipping Company (MSC), com a emissão de 11 milhões de toneladas de CO2, também ocuparia a 8.ª posição dos dez maiores poluidores, imiscuindo-se entre várias fábricas de carvão e a a Ryanair, que seria o 10.º maior emissor de CO2 na União Europeia, se as emissões provenientes da aviação também entrassem nas contas dos países.

Ainda na recente resolução da Comissão do Ambiente, da Saúde Pública e da Segurança Alimentar sobre a COP25, aprovada pelo Parlamento Europeu no final de Novembro, se alertava para o facto de o sector dos transportes ser “o único que registou um aumento das emissões desde 1990”, exigindo-se que houvesse uma redução das emissões provenientes da aviação e da navegação que, segundo as previsões ali apresentadas, devem continuar a aumentar, até 2050, entre 300% a 700% no primeiro caso e entre 50% a 250% no segundo.

No estudo agora revelado da T&E, de que a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável faz parte, relembra-se que a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já fez saber que pretende agir no sentido de incluir as contas da navegação no total de emissões da União Europeia, e essa posição, defendem os autores do relatório, tem de ser a única a seguir, caso contrário, “os compromissos da Europa com o Acordo de Paris continuarão incompletos e por cumprir”.

Segundo o documento a que o PÚBLICO teve acesso, a contribuição para a poluição atmosfera dos navios que operam nos portos europeus “pode ser maior do que a de todos os veículos de passageiros da Europa”, tendo crescido 19% desde 1990. A informação obtida a partir da recolha de dados de várias fontes oficiais leva a T&E a afirmar que o CO2 emitido pelos navios que se abasteceram na Holanda, Bélgica, Noruega, Letónia e Estónia, em 2018, “foi maior ou comparável ao CO2 emitido pela frota total de veículos ligeiros de passageiros nesses países”.
Em Portugal, e comparando as emissões de navios de 2018 com a frota de veículos registada em 2013, conclui-se que os primeiros lançaram mais CO2 para a atmosfera do que a totalidade dos automóveis existentes nas oito maiores cidades do país (Lisboa, Sintra, Vila Nova de Gaia, Porto, Cascais, Loures, Braga, Matosinhos), sendo a navegação responsável pela emissão de 2,9 milhões de toneladas de CO2 e os automóveis por 2,8 milhões de toneladas. No universo dos países da União Europeia, Portugal aparece como o 13% com mais emissões provenientes da navegação (a Holanda, por causa do grande porto de Roterdão, é o país que aparece em 1.º lugar, com 19,9 milhões de toneladas) e no 5.º lugar quando se analisa quanta dessa navegação serve para transportar combustíveis fósseis. Os dados mostram que 25% de todas as emissões alocadas a Portugal pela T&E corresponde a esse tipo de transporte.

Em linha com a T&E, a Zero defende, em comunicado, que as emissões provenientes da navegação (e também da aviação) deve entrar nas contas das emissões da União Europeia, “para que o transporte marítimo possa contribuir de forma justa para o esforço de descarbonização da economia”. O fim da subsidiação a este sector e um maior controlo na construção dos navios (uma vez que eficiência prevista no design não é compatível com as emissões reais, segundo o mesmo estudo), com a transição gradual para as energias renováveis, são alguma das medidas propostas pela T&E, que propõe ainda a criação de um fundo, que coloque um preço sobre o carbono emitido, e que seria utilizado na reconversão do sector para se tornar menos poluidor.

Combate às alterações climáticas é a nova estratégia para o crescimento da UE, diz Von der Leyen
Quando a COP25 entra na sua última semana, em Madrid, um outro estudo revelado esta manhã, pela organização não-governamental Carbon Disclosure Project (CDP), com base em inquéritos realizados aos fornecedores de grandes cadeias de comércio, indica que mais de mil milhões de toneladas de emissões de gases com efeito de estufa seriam poupadas se os principais fornecedores de apenas 125 multinacionais aumentassem em 20% o recurso a energias renováveis.

4.9.19

Portugueses encaram os problemas ambientais de forma genérica. E isso é “perigoso”

Rita Marques Costa, in Público on-line

É preciso trabalhar a educação para a sustentabilidade ambiental. Especialmente em matéria de incêndios e escassez de água, conclui o 2.º Grande Inquérito sobre Sustentabilidade.

Poluição, degradação do ambiente e alterações climáticas. São estas as principais preocupações dos portugueses no que diz respeito à sustentabilidade ambiental do país. Razão para concluir que estas inquietações ambientais são mais “marcadas pela cultura mediática, do que pela experiência directa dos problemas” em Portugal, dizem os investigadores do Observa – Observatório do Território, Ambiente e Sociedade, do Instituto de Ciências Sociais (ICS), responsáveis pelo 2.º Grande Inquérito sobre Sustentabilidade, apresentado nesta quarta-feira, em Lisboa. Por isso, lançam o alerta: a cultura ambiental está “num nível de generalidade perigoso”.

Duas irmãs, duas casas e uma história familiar
“A ideia de ambiente, quando pensada no contexto nacional, apresenta um perfil vago e até algo distorcido”, lê-se no documento em que são apresentados os resultados do inquérito. “Dir-se-ia que os portugueses dispõem de menos informação ambiental sobre o seu país do que sobre o mundo global, ou então que a têm mais desorganizada e distante de si.” Mas, mesmo assim, a “distância não significa negação”. Os problemas são reconhecidos e a necessidade de intervenção também.

Para fazer face ao potencial desconhecimento em relação à realidade portuguesa será preciso investir na educação para a sustentabilidade ambiental, sugere o relatório. Luísa Schmidt, uma das coordenadoras do inquérito, explica que “pode tornar-se perigosa esta incapacidade de ver dois problemas absolutamente centrais no país, um deles os incêndios e o outro a questão da seca, que também nos vai continuar a afectar”. São temas que “têm de ser muito mais trabalhados para que as pessoas se prepararem para eles”.

Mesmo assim, nem todos os inquiridos se preocupam de igual forma com o ambiente. A valorização deste tipo de questões está “correlacionada positivamente com níveis de educação mais elevados, rendimento mais altos e com a presença de menores no agregado familiar”, concluem os investigadores. A idade também importa: “As dimensões ambiental e económica da sustentabilidade são menos valorizadas pelos mais velhos (55-64 e mais de 65 anos) e são mais referidas pelos indivíduos mais jovens, em particular no grupo 35-44 anos”, lê-se no estudo.

Além do ambiente, os investigadores procuraram saber mais sobre outras dimensões associadas ao conceito de sustentabilidade. As questões sociais surgem em segundo lugar nas preocupações dos portugueses que identificam problemas como o aumento da pobreza e as desigualdades sociais.

Em seguida, surge o excesso de consumo, “tema que protagoniza destacadamente a dimensão económica da sustentabilidade”. A dimensão menos assinalada tem a ver com política e governação. Neste campo, “a sustentabilidade pode também ser um tema-chave para reaproximar a cidadania da vida política com particular enfase a nível dos poderes locais”.
No 2.º Grande Inquérito sobre Sustentabilidade (a primeira edição é de 2016) foram inquiridas 1700 pessoas, entre Novembro e Dezembro de 2018. A amostra, estratificada por região, género e idade, é representativa da população. O projecto é promovido pela Missão Continente, um programa da Sonae que é proprietária do PÚBLICO.

Mudar hábitos alimentares? Há vontade
Apesar de reconhecerem os diversos problemas ambientais e a necessidade de alterar alguns hábitos para fazer face a esses desafios, há uma coisa que ainda não mudou: a alimentação. Os investigadores identificaram uma “persistência ou muita lenta transformação nos hábitos de consumo e aquisição de alimentos”. Que se traduz, entre outras coisas, no peso “muito elevado” da proteína animal (carne, peixe, ovos e lacticínios) em relação a produtos hortícolas, frutas e leguminosas.

Quando os filhos não podem convidar os amigos para lanchar
Apesar da lenta transformação, há alguma vontade para transitar para uma alimentação de base vegetal, sobretudo entre as mulheres, os mais jovens, quem vive em contextos urbanos e quem tem o ensino superior.
Mónica Truninger, também coordenadora do estudo, explica que “uma coisa são as disposições para a mudança, outra coisa são todos os factores ao nível do contexto”, que podem estar a retardar essa mudança. Porquê? “As refeições vegetarianas muitas vezes até têm um preço mais elevado do que outro tipo de refeições”. Além disso, ainda há questões associadas à maior dificuldade na preparação e também a “ideia de que a carne é reconfortante, tem melhor sabor”. “Tudo isso tem de ser mudado”, diz a investigadora.

Ainda assim, entre os inquiridos, 5% já diz ter uma alimentação maioritariamente de base vegetal — sete ou mais refeições vegetarianas ao almoço ou jantar durante uma semana. Entre quem faz essas opções estão em maioria as mulheres, pessoas com o ensino superior e quem vive em contextos urbanos. Mas também quem tem rendimentos mensais baixos (600 euros ou menos) e mais elevados (2039 euros ou mais). “As pessoas com rendimentos mais altos por uma questão de saúde, mas também as que têm rendimentos mais baixos porque não conseguem aceder [a outros alimentos]”, lança Mónica Truninger.

“Quanto à escolha de produtos alimentares mantém-se o padrão de critérios de preferência e de lugares de aquisição. A relação qualidade-preço agregando frescura, aspecto, sabor e custo, prevalece associando-se a critérios sobre a origem do produto tanto nacional como local”, aponta o estudo.

Os locais onde os produtos são comprados também estão a mudar. Os supermercados de proximidade estão a sobrepor-se aos grandes hipermercados, “o que indicia uma progressiva valorização dos valores de proximidade e de confiança interpessoal”. Também tende a crescer “o recurso ao pequeno comércio e aos mercados locais”.

Plásticos são uma preocupação
O impacto dos plásticos na saúde e ambiente também fazem parte das preocupações dos portugueses — e até mais do que os outros europeus, mostram dados de um Eurobarómetro de 2017 sobre o tema. É “este elevado nível de preocupação que dá lugar à atribuição de grande importância ao desenvolvimento de um conjunto de medidas com o intuito de reduzir a presença de plástico no quotidiano, sendo que todas as medidas relacionadas com as responsabilidades de produtores/retalhistas, autoridades locais e sensibilização recebem apoio acima de 90%”.

Mesmo assim, quando se pergunta sobre o que já se faz para reduzir a utilização de plástico, só a reutilização de sacos ou embalagens trazidos de casa para comprar frutas ou legumes já foi adoptada pela maioria.

De novo, o nível de escolaridade surge como elemento diferenciador da disponibilidade para adoptar práticas de reutilização ou redução do uso de plástico, bem como coloca-las em prática. Entre 64% e 73% dos inquiridos com o ensino superior afirmou-se disponível para fazer essas mudanças.
No que diz respeito à presença de microplásticos nos peixes, “metade dos portugueses (54,6%) reconhece a existência do problema, mas apenas uma minoria integra esta informação nas suas escolhas quotidianas sobre o consumo de peixe (22%)”.

“Na sua vida quotidiana, sente que a crise económica já passou?” Mais de metade dos inquiridos (53,5%) no âmbito do 2.º Grande Inquérito sobre Sustentabilidade dizem que não. Para 29,8% a resposta é sim, já passou. E 16,8% afirmam que não sabem.

Além das questões focadas no ambiente, alimentação e saúde, os investigadores do Observa – Observatório do Território, Ambiente e Sociedade, do Instituto de Ciências Sociais (ICS) também fizeram questões sobre sustentabilidade económica.

Nem roupas, nem cosméticos, nem alimentos de origem animal
Para Luísa Schmidt os resultados mostram que permanece “uma desconfiança, uma sensação de insegurança” de uma parte significativa da população. Essas pessoas que se mostram “mais inseguras em assumir o fim da crise” são quem “aufere menores rendimentos, vive em meio rural, os mais velhos, e os que têm menor escolaridade, lê-se no relatório em que são apresentados os resultados do inquérito.
Consequentemente, essa sensação de que a crise ainda não passou reflecte-se numa “prudência” em relação a determinados hábitos de consumo.

Outro “aspecto onde esse trauma se manifesta, é a reorientação das prioridades de consumo”, aponta o relatório. “Comparando com o inquérito anterior [de 2016], as prioridades passaram a ser, entre os mais velhos, a saúde enquanto expressão de segurança ontológica e, entre os mais novos, o sustento pessoal sobretudo expresso em acesso ao emprego.

Os perfis dos consumidores traçados pelos investigadores do Observa mostram que a crise “está a instalar consequências profundas” nos hábitos de consumo. “Em 2016, o perfil com o qual os portugueses se identificavam mais era o constrangido”, nota Mónica Truninger.

“Este ano, aparece algo que nós já tínhamos detectado, mas que agora se afirmou muito claramente. Por um lado, aqueles que têm menos rendimentos, mais dificuldades económicas, acabam por se identificar mais com o consumidor constrangido — ou seja, que faz as suas compras a pensar no dinheiro que tem na carteira. Depois, há um conjunto de perfis que está a surgir que são quem está a tentar utilizar menos recursos materiais — são os mais jovens, os mais escolarizados e as mulheres.” Em comum, têm o impacto que essa redução do consumo tem no ambiente.

E se os “valores ecológicos estão completamente instalados na sociedade portuguesa” também é verdade que alguns comportamentos associados a alguns hábitos de consumo mais sustentáveis são reflexo da crise. “Transformou-se a necessidade em virtude e acabou por se criar alguns hábitos que vieram para ficar”, aponta Luísa Schmidt.

30.10.18

Se o mundo imitasse a pegada ecológica de Portugal precisávamos de 2,2 planetas

Margarida David Cardoso, in Público on-line

Um novo alerta sobre a débil saúde do planeta. E uma chamada de atenção para a necessidade de travar a sua degradação. Relatório da WWF mostra como continuamos a empurrar os ecossistemas para um limite.

Mesmo em anos de crise, com o recuo do consumo e da actividade económica portuguesa, seriam precisos 2,19 planetas para repôr os recursos naturais se todas as pessoas do mundo consumissem como os portugueses. Este é o preocupante saldo anunciado para Portugal no Relatório Planeta Vivo, divulgado esta terça-feira e que é publicado bianualmente pela organização não-governamental ambientalista WWF. Dado que desde 2014 (ano de referência destes dados), se deu um boom do turismo e a recuperação do poder de compra, o próximo balanço sobre a pegada ecológica pode não reflectir a mesma tendência de diminuição.

O relatório que mede o pulso ao estado do planeta volta a fazer um retrato alarmante: a actividade humana continua a empurrar os ecossistemas que sustentam a vida na Terra para um limite. Feitas as contas, para responder à pegada mundial era necessário termos 1,69 planetas.

Em relação a Portugal, o documento nota que a crise levou a um recuo da pegada ecológica do país. Esta é medida em hectares globais (gha) por pessoa, ou seja, a área que cada um precisa para produzir o que consome e absorver o lixo que produz. O país passou de uma pegada de 3,9 gha por pessoa em 2012, que o colocava na 59ª posição a nível mundial para 3,69 em 2018, baixando para o 66º lugar. No entanto, o consumo continua a estar bem longe de acompanhar a capacidade de regeneração dos ecossistemas. A chamada biocapacidade é, em Portugal, 1,27 gha por pessoa e tem-se mantido mais ou menos constante desde 1961, alheia à pressão que os padrões de consumo impõem ao planeta desde os anos 90.

Em primeiro lugar no ranking da pegada ecológica, enquanto país com pior desempenho ambiental, surge o Qatar e antes de Portugal aparecem países como os EUA, Austrália, Canadá, França, Itália, Reino Unido, Países Baixos, Bélgica, Espanha, Suíça e Alemanha. Portugal está, aliás, abaixo da média europeia, que era de 4,69 gha por pessoa em 2018 e acima da mundial que é de 2,84 gha por pessoa. O físico e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, Filipe Duarte Santos, aponta aqui o facto de a população portuguesa exercer uma pressão muito menor nos ecossistemas quando comparado com países como a Holanda, onde a densidade populacional é muito superior.

A WWF também identifica boas notícias: o carbono, ainda que constitua 57% da pegada ecológica dos portugueses, foi a componente que mais decresceu. Em 2004, pesava 63% neste cálculo. “A isto está naturalmente associado o consumo, mas também a alteração das fontes de produção de energia nacional, fruto da aposta nas energias renováveis”, diz a WWF Portugal em comunicado.

“A emissão de gases com efeito de estufa diminuiu desde 2005, mas tem vindo a subir no período pós-crise. Também porque as secas se tornaram mais frequentes e nesses períodos temos que recorrer às centrais de carvão que emitem muito CO2 [dióxido de carbono] para a atmosfera”, afirma Filipe Duarte Santos.

Tal como no primeiro relatório, há 20 anos, a WWF continua a calcular o Índice do Planeta Vivo, um indicador que traça as tendências da abundância global de vida selvagem, calculado a partir de dados recolhidos em intervalos regulares de tempo em várias fontes (relatórios de governos, jornais, bases de dados). Para 2014, foram tidas em conta mais de 16 mil populações de 4005 espécies. E chegou-se à conclusão de que as populações mundiais de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis diminuíram 60% entre 1970 – ano a partir do qual há informação robusta para determinar o início de vários indicadores – e 2014.

Um planeta em exaustão
Uma análise mais fina permite perceber é que nos trópicos que extinção é especialmente pronunciada, sendo que a região da América do Sul e Central sofreu o declínio mais acentuado, de 89%. As populações de espécies de água doce também diminuíram drasticamente, com o índice que as mede a demonstrar uma diminuição de 83% desde 1970 até 2014. E isto é particularmente preocupante, nota a WWF, porque estes habitats (lagos, rios e zonas húmidas), ricos em biodiversidade, estão fortemente expostos a múltiplas ameaças: das espécies invasoras à pesca excessiva, da poluição às mudanças nos ecossistemas devido, por exemplo, ao aumento da temperatura da água.
E para a organização não-governamental não há dúvidas de que as principais ameaças a estas espécies são as actividades humanas (que, em última análise, dependem sempre de serviços prestados pela natureza). “Uma avaliação recente descobriu que apenas um quarto do solo está substancialmente livre dos impactos das actividades humanas. Prevê-se que diminua para apenas um décimo até 2050”, nota o relatório. A perda de floresta é preocupante: embora tenha abrandado globalmente, acelerou nas florestas tropicais, redutos com altos níveis de biodiversidade no planeta.

“A degradação em curso tem muitos impactos nas espécies, na qualidade dos habitats e no funcionamento dos ecossistemas. Dois estudos recentes mostraram reduções drásticas no número de abelhas e outros polinizadores e nos riscos para a biodiversidade do solo, fundamentais para sustentar a produção de alimentos e outros serviços dos ecossistemas”, detalha a WWF. E Filipe Duarte Santos não prevê melhorias nesta matéria com a eleição de um presidente brasileiro que "promete continuar explorar o valor económico" da Amazónia.

Mediterrâneo é um “ponto quente” das alterações climáticas
O que os cidadãos têm que perceber, diz o físico, é que o crescimento económico já está a ser prejudicado pelo consumo excessivo de recursos, a degradação dos ecossistemas e as alterações climáticas. As matérias-primas, quando escasseiam, tornam-se mais caras. As secas e ondas de calor cada vez mais frequentes têm elevados custos para os Estados. Assim como as acções de mitigação, como as operações de sustentação de arribas e as manobras de combate à erosão, a descontaminação de aquíferos, a limpeza de plásticos do fundo dos mares. “Imagina-se o custo que não terá a protecção da orla costeira no final do século quando o nível médio da água do mar tiver subido um metro”, aponta Filipe Duarte Santos.

Fica então clara a necessidade de uma mudança dramática que coloque consumidores e empresas a olhar para a natureza como algo mais que fonte de rendimento, diz a WWF. E, já havendo compromissos internacionais com metas como a descarbonização da economia, “existe actualmente uma janela de oportunidade única para reverter a tendência”. Por isso, a WWF repete um apelo já este ano feito pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas: que se faça “o mais ambicioso acordo global até agora”, para que “escolhas políticas, financeiras e de consumo” reflictam a ideia de que a humanidade e a natureza podem “prosperar em harmonia num único planeta”.

2.9.14

Estudo diz que actuais práticas agrícolas podem causar falta de alimentos em 2050

Cláudia Bancaleiro, in Público on-line

Investigadores recomendam “dietas mais saudáveis e equilibradas” para impedir desflorestação e perda da biodiversidade.

Os gases de efeito de estufa provenientes da produção de alimentos podem vir a aumentar mais de 80% se o consumo de carne e lacticínios continuar a subir como até agora. O alerta é feito por um estudo das universidades britânicas de Cambridge e de Aberdeen, publicado na revista Nature Climate Change, segundo o qual a produção de alimentos por si só pode atingir ou levar mesmo ao aumento dos níveis previstos para o total de emissões de gases de efeito de estufa dentro de 35 anos. A garantia de alimentos para toda a população mundial em 2050 pode também estar em causa.

O risco de alterações climáticas dramáticas e que se torne impossível alimentar a população mundial devido ao consumo crescente de determinados alimentos são os principais alertas do estudo. No trabalho, uma equipa de investigadores analisou dados sobre o uso do solo, aptidão agrícola das terras e de biomassa agrícola para criar um modelo que compara diferentes cenários para 2050, incluindo manter as actuais tendências de práticas agrícolas.

Com o aumento da população e a tendência crescente de optar por uma dieta mais ocidentalizada centrada no consumo de carne, torna-se impossível que os rendimentos da agricultura respondam às necessidades de alimentos dos 9600 milhões de pessoas que se prevê virem a ser a população mundial dentro de três décadas. Para responder a este problema, a solução é aumentar as áreas de cultivo.

Mas o estudo sublinha que esse caminho vai levar a que o ambiente pague um “preço elevado”. “A desflorestação vai aumentar as emissões de carbono, bem como a perda de biodiversidade, e a subida da produção de gado levar a maiores níveis de metano”, aponta o documento, segundo uma nota publicada nesta segunda-feira pelas universidades de Cambridge e de Aberdeen.

Os investigadores das duas universidades recomendam que se adoptem “dietas mais saudáveis e equilibradas”. Por exemplo, que se consumam apenas duas porções de carne vermelha e cinco ovos por semana, bem como uma pequena quantidade de lacticínios por dia.

“Este não é um argumento vegetariano radical, é um argumento sobre consumir carne em quantidades sensíveis como parte de uma dieta saudável, equilibrada”, defende o professor Keith Richards da Universidade de Cambridge, que colaborou no trabalho.

O também professor Pete Smith, um dos investigadores da Universidade de Aberdeen que elaboraram o estudo, adverte que, a “menos que façamos algumas mudanças sérias nas tendências de consumo de alimentos, teremos que descarbonizar por completo os sectores da energia e da indústria para respeitar as metas de emissões que evitam alterações climáticas perigosas”. Para Pete Smith, “isso é praticamente impossível”. “Temos que repensar o que comemos”, propõe.

Bojana Bajzelj, da equipa de investigação do Departamento de Engenharia de Cambridge, sustenta uma solução semelhante. "Reduzir o desperdício de alimentos e moderar o consumo de carne em dietas mais equilibradas, são as opções ‘sem arrependimento’ essenciais”.

Bajzelj afirma que “existem leis básicas da biofísica que não podemos evitar”. "A eficiência média de gado para converter ração vegetal em carne é inferior a 3%, e enquanto comemos mais carne, mais área de cultivo é criada para a produção de alimentos para os animais que fornecem carne aos seres humanos”. A investigadora conclui que com o crescente consumo de carne a “conversão de plantas em alimento torna-se cada vez menos eficiente, conduzindo à expansão agrícola e libertando mais gases de efeito de estufa”. “As práticas agrícolas não estão necessariamente em falha aqui - mas a nossa escolha de alimentos está”, frisa.

Com base nos dados recolhidos pelo estudo, dentro de 35 anos a área cultivada terá aumentado em 42% e o uso de fertilizantes crescido 45% em relação aos níveis de 2009. Mais de um décimo das florestas tropicais do mundo vai desaparecer nas próximas décadas. A crescente desflorestação, uso de fertilizantes e as emissões de gases metano proveniente das fezes e libertação de gases intestinais do gado são “susceptíveis de levar ao aumento dos gases de efeito de estufa resultantes da produção de alimentos em quase 80%”.

13.5.14

Poluição. 13 em 15 cidades portuguesas respiram ar envenenado

Por Kátia Catulo, in iOnline







O maior levantamento feito pela OMS mostra que 13 das 15 cidades portuguesas monitorizadas ultrapassam os limites seguros para a saúde




Quase nove em cada dez habitantes das cidades do mundo estão expostos a níveis de poluição acima dos limites considerados seguros para a saúde pública. A qualidade do ar na maioria das zonas urbanas do planeta piorou, aumentando o perigo de doenças respiratórias e coronárias e outras complicações associadas à poluição atmosférica. As conclusões são da Organização Mundial de Saúde (OMS), que fez o maior levantamento de sempre ao avaliar as partículas em suspensão de 1600 cidades em 91 países: PM 10 e PM 2,5 (dois dos poluentes mais preocupantes para a saúde pública, a par do ozono).

O barómetro de 2014 actualiza um banco de dados que agora conta com mais 500 novos centros urbanos do que no ano anterior e mostra que nem as principais cidades portugueses escapam à contaminação do ar. Treze das 15 cidades monitorizadas pela OMS ultrapassam os limites de poluição internacionalmente considerados aceitáveis. A OMS recomenda que a concentração de pequenas partículas até 10 milésimos de milímetro de diâmetro (PM 10) não ultrapasse 20 microgramas por metro cúbico de ar, numa média anual - limites que entre as 15 cidades portuguesas incluídas no estudo são apenas respeitados em Braga e Vila Franca de Xira (ver caixa ao lado). Todas as outras zonas urbanas apresentam níveis de poluição acima dos valores recomendados, mas é na cidade do Seixal onde pior se respira, com quase o dobro (39 microgramas) das concentrações de partículas acima dos valores-limite. Seguem-se Paredes, Valongo, Porto e Matosinhos, na região Norte, e só depois é que surgem as cidades do Funchal, na Madeira, de Lisboa e de Almada.

Para partículas muito finas, de 2,5 milésimos de milímetro de diâmetro (PM 2,5), há dez cidades portuguesas a ultrapassar o limite médio anual de 10 microgramas por metro cúbico. Seixal volta a liderar a tabela, seguido de Lisboa, Paredes e Valongo. Outras cinco cidades estão dentro dos valores considerados seguros: Faro, Amadora, Braga, Vila Franca de Xira e Porto.

Recordes Os maiores recordes, no entanto, estão nos países asiáticos. Das 20 cidades com a pior qualidade do ar, metade está na Índia, com Nova Deli a ultrapassar de longe os limites de partículas PM 10: 286. Peshawar e Rawalpindi, as duas no Paquistão, são, contudo, as cidades mais contaminadas do planeta, com registos que multiplicam até 27 vezes os máximos recomendados: 540 e 448. São valores que estão bem afastados dos registos europeus, a rondar os 60 microgramas em cidades da Bulgária ou da Polónia e a cair até aos 11 de Reiquiavique, na Islândia, ou os 12 de Copenhaga, na Dinamarca.

Segundo a OMS, a qualidade do ar piorou principalmente nas economias emergentes mas, nos países mais desenvolvidos, os resultados também não melhoraram como tinha vindo a acontecer nas últimas duas décadas. A monitorização da Organização Mundial de Saúde demonstrou que só 12% destes centros urbanos respiram ar limpo.

Metade da população a viver nas cidades está exposta a níveis de poluição pelo menos duas vezes e meia superiores aos valores recomendados pela OMS. As causas são uma espécie de cocktail que mistura vários factores: a dependência dos combustíveis fósseis, como das plantas que produzem energia com carvão, os transportes privados ou a deficiente eficiência energética nos prédios (isolamento e climatização).

Os investigadores apontam os automóveis a diesel como os grandes responsáveis pela má qualidade do ar de muitas cidades. Emitem mais partículas microscópicas e óxidos de nitrogénio que os de gasolina, e essa é a principal razão para soarem os alarmes. Recorde-se, aliás, que em 2012 a OMS certificou que o fumo libertado pelos motores a diesel provoca cancro de pulmão.

Esse foi um dos motivos para a organização ter recomendado reduzir os valores-limite de partículas PM 2,5, também conhecidas por partículas finas, que resultam da queima de combustíveis fósseis, especialmente os veículos a diesel. Trata-se de partículas compostas por elementos tóxicos, como metais pesados, e são consideradas muito perigosas pois, por serem microscópicas, infiltram-se com grande facilidade nas vias respiratórias, potenciando doenças cardiovasculares e respiratórias. A OMS estabeleceu 10 microgramas em média anual como o limite de protecção à saúde.

O banco de dados da OMS recolhe também as medições de PM 2,5 e mostra que Nova Deli, com uma média anual de 153 microgramas por metro cúbico, é a cidade mais poluída do mundo quando se avalia a concentração desta partícula. Das 20 cidades com piores registos, 13 estão na Índia. Na Europa, os piores estão na Polónia, com cidades acima de 40, e na República Checa, com vários centros urbanos a ultrapassarem os 30 microgramas.

O barómetro das cidades mais poluídas do planeta surge um mês depois de a OMS ter divulgado um outro estudo em que estreita ainda mais a relação entre contaminação do ar e as doenças respiratórias, os acidentes cardio e cerebrovasculares ou cancro. A Organização Mundial de Saúde quantificou em cerca de 7 milhões as mortes que em 2012 podiam ser atribuídas à poluição, o que representa 12,5% dos óbitos nesse ano. Os resultados do estudo, incidente sobre 2012, mostraram que "os riscos devidos à poluição do ar são mais importantes do que se pensava, em particular no que respeita às cardiopatias e aos acidentes vasculares cerebrais. Poucos riscos têm um impacto superior sobre a saúde, na hora actual, como a poluição atmosférica (...) e é preciso uma acção concertada para tornar mais limpo o ar que respiramos", alertou a organização no relatório divulgado em Abril.