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2.6.23

Atum enlatado: uma iguaria que pode ter um preço humano elevado, acusa relatório

Amanda Faria, in Público


Relatório denuncia casos de tráfico humano e trabalho forçado na indústria pesqueira na Ásia e América do Sul. A produção de atum enlatado sem transparência pode ter um custo social elevado.


consumo de pescado é uma prática comum e quotidiana na Europa, e Portugal é um dos maiores consumidores de peixe. O atum está entre um dos preferidos pelos Estados-membros da União Europeia, seja fresco, congelado ou enlatado. A escolha pode ser justificada pelo sabor, pelo valor nutricional, por ser prático ou, muitas vezes, pelo preço acessível. No entanto, com que custo social é que este produto chega à mesa de milhares de consumidores?

O relatório Canned Brutality: Human rights abuses in the tuna industry (Violência em lata: os abusos de direitos humanos na indústria do atum, numa tradução livre) publicado recentemente pela Bloom Association – uma organização não-governamental dedicada à protecção da biodiversidade marinha – em colaboração com a International Human Rights Clinic da Harvard Law School, denuncia graves infracções dos direitos humanos contra os trabalhadores na produção do atum enlatado. O documento tem como foco os países asiáticos em que a situação é mais alarmante, especialmente Taiwan, Filipinas e Tailândia.

[Artigo exclusivo para assinantes]


25.10.22

Portugal é o país da UE onde as pessoas se sentem menos informadas sobre a qualidade do ar

Carla Barata, in Público online

Inquérito Eurobarómetro revela atitudes dos europeus face à poluição atmosférica. A maior parte da população desconhece os padrões de avaliação do ar que respiramos.

Portugal é o país da União Europeia onde as pessoas dizem sentir-se menos informadas acerca dos problemas da qualidade do ar e poluição atmosférica (58% dos portugueses reconhecem não estar muito bem informados, e 21% nada informados, um total de 79%, e essa percentagem cresceu ligeiramente em relação a 2019). Na União Europeia (EU), a proporção é de 46% (pouco informados) e 14% (nada informados), revela o Eurobarómetro sobre as atitudes dos europeus face à qualidade do ar, divulgado nesta segunda-feira.

Cerca de metade dos europeus (47%), considera que a qualidade do ar piorou nos últimos anos. Em Portugal, 46% é da mesma opinião. No entanto, houve um recuo de 11 pontos percentuais em relação ao que os europeus diziam sentir em 2019, e de quatro pontos em Portugal.

A grande maioria dos cidadãos europeus, no entanto, diz que nunca ouviu falar dos padrões de qualidade do ar estabelecidos pela União Europeia (73%). Em Portugal, esse desconhecimento é menor: é partilhado por 62% da população. Mas, apesar de as desconhecerem, tanto portugueses como os outros cidadãos europeus consideram que essas regras devem ser reforçadas (68% em Portugal).

Essa opinião é mais representada nos países em que é mais forte a ideia de que a qualidade do ar diminuiu, como Malta, Chipre ou França. Portugal fica mais ou menos a meio da tabela. O país onde é maior a proporção dos cidadãos que consideram que a qualidade ar melhorou mais (39%) é a República Checa.

A esmagadora maioria dos europeus considera que as doenças relacionáveis com a poluição do ar são um problema grave no seu país. A nível europeu, 89% vê as doenças respiratórias, desta forma, quando em Portugal essa percentagem desde para 81%. Quanto à asma, 88% considera esta doença um problema sério, mas em Portugal apenas 79% a vêem assim. Portugal fica um pouco abaixo da opinião dos europeus em relação à gravidade das doenças cardiovasculares (79% para 83%).

A acidificação (conhecida como chuva ácida, que afecta as florestas, por exemplo) e eutrofização (aumento de matéria orgânica num ecossistema) são vistas como problemas graves por 83% dos europeus. Em Portugal, só 72% dos cidadãos são da opinião que estas são consequências graves da poluição.
A culpa da indústria

Quando aos responsáveis pela má qualidade do ar, a maioria da população aponta o dedo às grandes instalações industriais (73% na UE, 70% em Portugal) como os maiores culpados. Logo a seguir vêm os produtores de energias fósseis (66% na UE, 60% em Portugal). As autoridades públicas são responsabilizadas por 60% dos cidadãos por não garantirem a boa qualidade do ar. Os empregadores são igualmente mencionados – por não possibilitarem deslocações menos poluentes, como ir de bicicleta para o emprego, ou a pé – por 54% dos europeus e 57% dos portugueses.

Não há muito reconhecimento da responsabilidade individual: só 38% dos europeus e 45% dos portugueses considera que os agregados familiares não fazem o suficiente pela qualidade do ar.

O que fazem então os europeus, no seu dia-a-dia, para tentar reduzir as emissões de poluentes atmosféricos? O uso de transportes públicos ou bicicleta são as acções mais citadas (41% ao nível da UE, e 27% em Portugal). Quarenta por cento dos europeus dizem ter substituído electrodomésticos antigos com maior consumo energético por equipamentos mais novos, com uma melhor classe de eficiência energética, mas só 26% dos portugueses o fizeram. Isolar termicamente a casa foi algo que fizeram 22% dos europeus, mas apenas 8% dos portugueses.

2.12.20

2020 está entre os três anos mais quentes da década e o planeta “caminha para o suicídio”, adverte Guterres

Carla Tomás, in Expresso

Dois relatórios de organismos da ONU, divulgados esta quarta-feira, indicam que esta foi a década mais quente de sempre e 2020 está entre os três anos mais tórridos. Para inverter o caminho “suicida” e travar a subida média das temperaturas a não mais de 1,5ºC até final do século, como acordado há cinco anos em Paris, o secretário-geral da ONU, António Guterres, apelou ao mundo para que reduza as suas emissões de carbono em 6% por ano até 2030 e que todos os países atinjam globalmente a neutralidade carbónica em 2050. Até agora só os que representam 65% das emissões de gases de estufa globais fizeram essa promessa

Se está em primeiro, segundo ou terceiro lugar entre os anos mais quentes da última década só se saberá em março, mas, para já, a Organização Meteorológica Mundial aponta 2020 como um dos três anos mais quentes de sempre, no relatório esta quarta-feira tornado público. E de nada valeu a este malfadado ano o efeito refrescante do fenómeno La Niña, que costuma fazer diminuir a temperatura da superfície das águas do Pacífico. Aliás o calor absorvido pelos oceanos atingiu níveis sem precedente, e as ondas de calor afetaram mais de 80 por cento do mundo marinho.

No Ártico os termómetros registaram temperaturas três graus Celsius (ºC) acima da média para a região, reduzindo como nunca a camada de gelo no início do outono, e a Groenlândia mantém o degelo em aceleração contínua, o que permite que o solo permanentemente gelado (permafrost) deixe de estar congelado e liberte metano (um gás mais devastador para o efeito de estufa que o CO2) para a atmosfera. Só o metano, também associado às práticas agrícolas intensivas, disparou 260% em 2020. Já o teor de dióxido de carbono na atmosfera esteve, em 2019, 148% acima dos níveis pré-industriais. E os eventos extremos como tempestades deixaram a sua marca. Só este ano registaram-se 30 furacões e tempestades tropicais no Atlântico norte, mais do dobro da média comparada a longo prazo.

UM PLANETA ESTRAGADO

Estes são alguns dos dados que traçam o cenário de “um planeta estragado”, “caminhando para o suicídio”, sublinhado pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, num discurso sobre o “Estado do Planeta”, proferido esta quarta-feira, na Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

A 10 dias da Cimeira de Ambição para o Clima — que assinala o quinto aniversário da adoção do Acordo de Paris —, António Guterres não poupou nas palavras de alerta perante a “catástrofe climática”, se não se alterar o rumo e aumentar a ambição no cumprimento do Acordo. A vídeocimeira de 12 de dezembro é copresidida pela ONU, Reino Unido e França, em parceria com o Chile e Itália.

Na base das palavras de Guterres estão os novos dados do relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e os do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA). Este organismo da ONU alerta para factos que apontam para a entrada em colapso da biodiversidade, com um milhão de espécies em risco de extinção e ecossistemas a desaparecer, mas também para a machadada dada pela sobrepesca e pela poluição dos oceanos. Mas também para o facto de as emissões de gases de efeito de estufa continuarem a subir globalmente (ver mais abaixo).

E num ano em que o mundo está a ser flagelado por uma pandemia brutal, Guterres sublinhou que “a poluição do ar e da água matam anualmente nove milhões de pessoas, o que é seis vezes mais do que o atual número global de mortes devido à pandemia”. E lembrou que “75 por cento das doenças infecciosas humanas novas e emergentes são zoonóticas”, um valor em crescendo, o que se deve à invasão humana de habitats selvagens. Mas enquanto para a pandemia “existe esperança numa vacina, não existe vacina para o planeta”. E acrescentou mais à frente: “A recuperação da covid e do nosso planeta podem ser as duas faces da mesma moeda.”
É PRECISO REDUZIR AS EMISSÕES 6% AO ANO ATÉ 2030

Perante todos os cenários e projeções, o secretário-geral da ONU considera que “as políticas climáticas ainda não estão à altura do desafio. As emissões são 62% mais altas hoje do que quando as negociações internacionais sobre o clima começaram, em 1990. Hoje estamos com 1,2 graus de aquecimento e já testemunhamos extremos climáticos e volatilidade sem precedentes em todas as regiões e em todos os continentes. Caminhamos para um aumento de temperatura estrondoso de 3 a 5 graus Celsius neste século.” Os dados constam do “Productions Gap Report”, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA- em colaboração com várias instituições científicas), divulgado esta quarta-feira.

Guterres alerta para o risco de “o mundo estar a seguir na direção oposta [ao que diz a ciência], planeando um aumento anual de 2%”, quando “tem de reduzir a emissão de combustíveis fósseis em cerca de 6 % ao ano daqui até 2030”, como aponta o relatório do PNUA —sobre as falhas entre os objetivos do Acordo de Paris e o que os países têm planeado em termos de produção de carvão, petróleo e gás.

O “Prodution Gap Report” indica que os países analisados estão a caminho de produzir mais do dobro da quantidade de combustíveis fósseis em 2030 do que o que seria consistente com um limite de subida da temperatura média global a não mais de 1,5° C por comparação com a época pré-industrial. “A pandemia covid-19 — e as medidas de "bloqueio" para impedir a sua propagação — levaram a quedas de curto prazo na produção de carvão, petróleo e gás em 2020. Mas os planos pré-covid e as medidas de estímulo pós-covid apontam para uma continuação do crescimento dos combustíveis fósseis, ameaçando graves perturbações climáticas”, aponta o relatório. Entre os dados que o confirmam estão, por exemplo, o facto de os governos do G20 terem prometido mais de 230 mil milhões de dólares aos sectores da produção e consumo de combustíveis fósseis, para enfrentar a pandemia, quando para os da energia limpa vão apenas 150 mil milhões de dólares.

PAÍSES RESPONSÁVEIS POR 65% DAS EMISSÕES QUEREM NEUTRALIDADE CARBÓNICA EM 2050

No seu discurso desta quarta-feira, o secretário-geral da ONU criticou este caminho e lembrou que os mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas são os mais pobres e os que vivem em zonas de conflito. Assim, o que os líderes mundiais decidirem em 2021 “é um teste épico de política e, em última análise, um teste moral” sobre se querem ou não salvar o planeta.

Para que os objetivos do Acordo de Paris sejam alcançados é necessário que todos os países cortem 45% das emissões globais até 2030 e se comprometam a atingir a neutralidade carbónica até meados deste século. Além da União Europeia (que propõe reduzir as suas emissões em, pelo menos, 55 por cento até 2030 face a 1990) o Japão, a República da Coreia e mais 110 países já disseram querer atingir a neutralidade carbónica até 2050. O mesmo caminho anunciou o presidente eleito dos EUA, Joe Biden, cujo país só volta a integrar o Acordo de Paris em janeiro, quando tomar posse. E a China pretende chegar a esta meta em 2060.

Para Guterres estes compromissos “significam que, no início do próximo ano, os países que representam mais de 65% das emissões globais de dióxido de carbono e mais de 70% da economia mundial terão assumido compromissos ambiciosos com a neutralidade carbónica”. E acredita que “2021 pode ser o ano de um salto quântico em direção” a este objetivo.

CARREGAR NO BOTÃO VERDE

Resta saber se na cimeira de Glasgow (COP26), adiada para daqui a um ano, as promessas políticas estão traduzidas em planos e metas concretos e com prazos. E se o famigerado “Artigo 6º do Acordo de Paris”, que estabelece regras claras e justas para o mercado de carbono, será aprovado e o financiamento prometido para a adaptação e resiliência à emergência climática estará garantido. “Até agora, a adaptação representa apenas 20 por cento do financiamento climático, atingindo apenas 30 mil milhões de dólares em média em 2017 e 2018”, criticou Guterres no discurso. E lembrou que “por cada dólar investido em medidas de adaptação tiram-se quase quatro dólares em benefícios”.

Se o mundo parece começar a caminhar para a neutralidade carbónica, ainda está longe de lá chegar e na recuperação pós pandemia é preciso ter em conta o futuro da humanidade e do planeta. Por isso António Guterres frisou que “os triliões de dólares necessários para a recuperação da covid são dinheiro emprestado pelas gerações futuras, e não podemos usar esses recursos para estabelecer políticas que os sobrecarregam com uma montanha de dívidas e um planeta destruído”. Para o secretário-geral da ONU “está na hora de acionar o ‘botão verde’”.

10.7.18

“O que mais valor tem para as próximas gerações vale zero para a economia”

Margarida David Cardoso, in Público on-line

O jurista e ambientalista Paulo Magalhães, defensor de um condomínio para o sistema terrestre, diz que as políticas devem compensar os países que contribuem para o bem comum. Numa abordagem ao capitalismo ecológico, o investigador percebe que “ninguém quer ser o otário”. Por isso, há que mudar as regras do jogo.


Há anos que Paulo Magalhães, jurista e investigador na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, anda a desenvolver a única forma que acredita que pode fazer frente a um problema tão global como o das alterações climáticas: tal como o seu prédio não funcionaria sem condomínio, sem um governo comum a todo o sistema terrestre a economia e a natureza vão sempre andar desencontradas. Hoje a ideia faz caminho na Casa Comum da Humanidade, fundada em 2016 com o objectivo, a longo prazo, de criar condições para que haja um órgão de governo ambiental com sede nas Nações Unidas.

Paulo Magalhães preside a este organismo internacional com sede no Porto que reúne, em permanência, cerca de 20 investigadores das ciências da Terra. O também membro do conselho geral da Zero é um dos oradores do evento Cidade +, que decorre este fim-de-semana nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto.

Na origem da Casa Comum da Humanidade está a ideia de que o planeta tem que ter um condomínio, que cuide do comum. Como é que isto se aplica ao sistema terrestre?
Nos seus 4,5 mil milhões de anos, a Terra já teve estados do sistema terrestre muito diferentes – com composições da atmosfera, acumulações de energia e termodinâmicas diferentes –, mas só nos últimos 11,5 mil anos é que se criou esta estabilidade climática que permite a vida. Ora, este sistema terrestre é também fruto da própria evolução da vida, porque há determinados gases que só depois de serem transformados quimicamente por seres vivos é que se produzem. Se destruímos a vida – as florestas, os ecossistemas – vamos criar inevitavelmente atmosferas diferentes.
O que propomos é que se reconheça este estado favorável do sistema terrestre, este trabalho da natureza que é intangível e que nenhum conceito jurídico actualmente existente consegue representar.

A moldura jurídica actual não é suficiente?
As ciências jurídicas ficaram presas num conceito que parou no tempo, que é a soberania ao território. Eu posso dizer “tu não entras nas minhas águas” ou “até aqui não podes pescar”, mas não posso dizer que não adiro às alterações climáticas nem que a composição bioquímica da água do meu oceano é diferente da do teu.

A nossa casa não é o planeta em si, não são os 510 milhões de quilómetros quadrados, mas as condições favoráveis à vida que aconteceram no holoceno nos últimos 11,5 mil anos. A ciência já definiu os limites dessa estrutura bioquímica [investigadores do Stockholm Resilience Centre definiram nove limites para a concentração de CO2 e de aerossóis na atmosfera, fluxos de nitrogénio e fósforo na biosfera e oceanos, perdas de azoto estratosférico e de biodiversidade, poluição química, acidificação dos oceanos e ciclo hídrico]. Nada disto se mede em hectares.
E nesta questão o direito não precisa de fazer nada que já não tenha feito antes. Para o trabalho intelectual ser reconhecido teve que se criar um objecto jurídico novo, a ideia. Separar a posse do livro da ideia. Agora, tal como trabalho intangível intelectual, o trabalho da natureza tem que ser reconhecido.
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Há uma empresa suíça, por exemplo, que tem tecnologia para absorver CO2 através de turbinas. Cada hélice retira uma tonelada de CO2 por dia. E o custo de cada tonelada é 100 dólares. Com isto uma empresa pode anular as suas emissões e criar produtos neutros em carbono

Isso é também uma questão económica.
Sim. Toda a gente sabe que a floresta vale muito, mas na economia só vale o valor da madeira ou do papel. Um ecossistema tem o valor da infra-estrutura mais o valor dos serviços que presta. A economia actual só olha para o valor da infra-estrutura. O que mais valor tem para as próximas gerações vale zero para a economia.

Basta dar o exemplo da Noruega: eles têm a maior frota de carros eléctricos do mundo, mas são dos maiores exportadores de petróleo. A regra do jogo é esta, os países têm obrigações com o PIB e se não a seguirmos nós é que somos os otários.
Por isso ou fazemos este upgrade do sistema económico e jurídico tendo em conta a informação que temos da ciência ou não vamos a lado nenhum – como os últimos 30 anos de negociações para mitigação das emissões nos mostraram.
Há uma empresa suíça, por exemplo, que tem tecnologia para absorver CO2 através de turbinas. Cada hélice retira uma tonelada de CO2 por dia. E o custo de cada tonelada é 100 dólares. Com isto uma empresa pode anular as suas emissões e criar produtos neutros em carbono. Mas o sistema como hoje existe não compensa o investimento nestas turbinas. Este trabalho é fundamental porque suporta a vida, mas vale zero na economia.

A proposta é que o governo deste condomínio seja feito com sede na ONU. Como se faz uma governação global que não passe por cima dos Estados?
Há um desfasamento total entre o funcionamento do sistema terrestre e os fluxos da economia. Para isto ser harmonizado o direito tem que intervir no sentido organizador, não sancionatório. Precisamos de algo que permita esta sobreposição de soberania e de património comum que existe dentro e fora dos espaços soberanos. Isto é o condomínio.

Se reconhecermos que o sistema terrestre existe, tudo o que cada um faz – positivo ou negativo – tem que ser contabilizado para o manter dentro dos limites de segurança

Claro que também tenho conflitos no meu condomínio, mas imaginem que ele não existia. Estaria tudo a cair e tudo à pancada. É essa a situação na natureza. É preciso um conceito novo, que permita novas soluções.
Se reconhecermos que o sistema terrestre existe, tudo o que cada um faz – positivo ou negativo – tem que ser contabilizado para o manter dentro dos limites de segurança.
Seguindo um princípio de poluidor-pagador?
Poluidor-pagador e prestador-recebedor, à escala global.

Perdas de 415 milhões com isenções às energias fósseis? Não, 19 vezes mais do que isso
Na prática, tem que haver um administrador do condomínio que faz a avaliação e gestão permanente de cada um dos limites do sistema – o que já gastamos este ano, o que podemos gastar mais, onde é urgente compensar – e que define o seu valor.
Esta entidade vai ter em conta os resultados de cada país e estabelecer metas todos os anos. E se se quer alterar o comportamento de um grupo tem que haver compensações.

Isto pode fazer com que, por exemplo, o Brasil e o Peru não tenham que gerir praticamente sozinhos uma floresta que presta bens comuns?
Sim, a infra-estrutura da Amazónia é deles, mas os serviços que ela presta são comuns. Tem que existir um sistema de compensação – e não de mercado –, em que todos têm acesso ao bem, independentemente de conseguirem pagar, mas, porque o bem é escasso, tem que representar uma retribuição a quem o mantém.

Sem estas condições ninguém vai mudar a sua atitude. Se eu perceber que os outros têm as florestas e vão receber porque todos dependemos delas, vou olhar para os meus recursos e ver o que posso fazer para beneficiar o comum: onde posso ser mais eficiente, reabilitar as minhas reservas naturais, por exemplo.
A pegada [ecológica portuguesa] não é a melhor, mas também não é a pior. O país tem uma área relativamente pequena, teria que investir muito em eficiência energética e na redução das emissões de carbono.

Neste contexto, Portugal estaria a receber ou pagar?
A pegada [ecológica portuguesa] não é a melhor, mas também não é a pior. O país tem uma área relativamente pequena, teria que investir muito em eficiência energética e na redução das emissões de carbono. Mas tem uma área de oceanos bastante grande, que ia contar como um amortecedor da nossa pegada. Mas é preciso fazer cálculos. Isso é o que está por definir: o peso que, por exemplo, a área do oceano tem neste cálculo.
Então já estão definidos os limites, mas falta uma métrica e uma forma de valoração daquilo que a natureza nos dá.

Sim, aí há trabalho a fazer. A valoração há-de surgir de uma convenção internacional. A grande questão é que não pode valer zero, tem que valer o suficiente para mudar a economia. Pelo menos os verdadeiros custos de produção – os custos das externalidades negativas – têm que ser incorporado na economia.

Numa altura em que os Estados Unidos abandonaram o Acordo de Paris e, como noutros momentos, há uma retórica proteccionista, como se faz para vingar esta ideia?
É difícil. Mas o estado actual é também resultado do insucesso das políticas anteriores.
[O acordo de] Paris é muito importante e para se chegar a uma gestão global é preciso dar estes pequenos passos. Mas tem que se perceber que se tem que mudar a regra do jogo. Sem isso, ainda que algo mitigados, temos sempre os mesmos resultados.

A pressão dos factos é que vai ditar a possibilidade de mudar. Os processos humanos de mudança demoram sempre 50, 100 anos. Este processo tem 30 anos sem resultados dignos de serem mencionados como um sucesso.

Qual é o futuro da Casa Comum da Humanidade?
Há um caminho a fazer para ensinar as ciências do sistema terrestre, que juntam matemática, física, geologia, biologia, climatologia... O conceito começou a ser pensado no princípio deste século. É muito recente. São poucos os especialistas e são poucas as faculdades que o ensinam. Queremos fazer uma grande conferência, no Porto, no próximo ano, que junte os cientistas do sistema terrestre e os juristas do mundo. E discutir se isto serve ou não serve a economistas, se isto pode ou não pode ser uma solução. No fim da conferência queremos ter o primeiro documento que proponha e reúna o apoio de determinados Estados para introduzir isto nas Nações Unidas.

E a pergunta que se lhes coloca é: se fomos capazes de fazer Internet e toda a tecnologia que temos hoje, porque não somos capazes de reconstruir ecossistemas? É uma questão económica.

15.3.13

ONU: Ajude a escolher o que quer mudar no mundo

in Boas Notícias

Muitas são as ocasiões em que gostaríamos que a nossa opinião tivesse maior peso nos rumos do mundo e na sua transformação num lugar melhor. Agora, uma nova iniciativa da ONU permite a cada um de nós dizer o que é mais importante mudar. As prioridades mais votadas serão, depois, debatidas pelos líderes internacionais aquando da definição da agenda global.

A Organização das Nações Unidas acaba de lançar a "My World" (O Meu Mundo, em português), uma pesquisa a nível mundial que convida os indivíduos a escolher quais são, entre 16 hipóteses possíveis, as questões que podem fazer uma maior diferença nas suas vidas e que mais precisam de receber a atenção dos governos de todo o planeta.

Entre as opções a votos estão, por exemplo, a existência de maior honestidade na governação, o "acesso a alimentos de qualidade", a "igualdade entre homens e mulheres", a "eliminação do preconceito e da discriminação", a "proteção a florestas, rios e oceanos", o "combate às alterações climáticas", a "melhoria dos serviços de saúde" ou uma "educação de qualidade".

Além de poderem votar nas opções disponibilizadas, os participantes podem ainda sugerir uma prioridade que considerem particularmente importante, uma possibilidade que, segundo a ONU, tem como objetivo "capturar os temas recorrentes que podem ter sido perdidos" numa primeira análise.

A organização explica que "a pesquisa é anónima", sendo que os cidadãos devem apenas fornecer informações sobre género, idade, nível de educação e país "para permitir a desagregação dos dados" e a apresentação, aos grupos de decisão, de "um quadro global mais preciso dos pensamentos" dos participantes.

Até 2015, a ONU vai procurar "envolver o maior número de pessoas e países possíveis", "cidadãos de todas as idades, géneros e origens e, particularmente, pessoas com baixos rendimentos e comunidades marginalizadas do mundo".

Os resultados serão, depois, compartilhados com o secretário-geral da entidade e com os líderes globais durante a preparação da próxima agenda de desenvolvimento mundial. "Conte-nos sobre o mundo que quer. Levante a sua voz!", apela a ONU no site do projecto.

A votação pode ser efetuada online através do site http://www.myworld2015.org nos vários idiomas oficiais da ONU (entre os quais o português), através das redes sociais e também por telemóvel (nomeadamente por SMS e por meio de números de telefone gratuitos).

Em alternativa, os interessados poderão ainda escolher as suas prioridades
"offline", por via do preenchimento de uma versão impressa do questionário que tem sido distribuída por comunidades religiosas, grupos de jovens, entidades do setor privado e parceiros de organizações não-governamentais do mundo inteiro.