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30.8.23

Dúvida: como é que o desperdício alimentar contribui para a crise climática?

Aline Flor, in Público online

O antigo vice-presidente da Comissão Europeia já disse que, “se o desperdício alimentar fosse um Estado-membro, seria o quinto emissor de gases da UE”.

Dúvida: como é que o desperdício alimentar contribui para a crise climática?
Calcula-se que cerca de 17% da produção total de alimentos no mundo esteja a ser desperdiçada – o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) estima o desperdício alimentar em 2019 em cerca de 931 milhões de toneladas.

[...]

Mas quanto, ao certo?

Num relatório publicado em 2021, a Organização para a Alimentação e a Agricultura das Nações Unidas (FAO na sigla em inglês) estima que 8% a 10% das emissões globais de GEE possam estar associadas a comida que não é consumida. De acordo com o Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia, “se o desperdício alimentar fosse um país, seria o terceiro maior emissor de GEE, atrás da China e dos Estados Unidos”.

Na Europa, também há números para o enorme impacto ambiental: os 59 milhões de toneladas de resíduos alimentares representam, tendo em conta o impacto da sua produção, 252 milhões de toneladas de CO2 equivalente, ou seja, cerca de 16% do total das emissões de gases com efeito de estufa provenientes do sistema alimentar da UE, de acordo com dados da Comissão Europeia.
Se o desperdício alimentar fosse um Estado-membro, seria o quinto emissor de gases da UEFrans Timmermans, ex-vice-presidente da Comissão dedicado ao Pacto Ecológico Europeu

“Se o desperdício alimentar fosse um Estado-membro, seria o quinto emissor de gases da UE”, dizia no início de Julho Frans Timmermans, então vice-presidente da Comissão Europeia dedicado ao Pacto Ecológico Europeu, ao anunciar novas propostas legislativas no sector alimentar e dos resíduos (sim, a fonte desses dados também é o Centro Comum de Investigação, que parece gostar de comparar desperdício com países).

O Eurostat estima que 53% do desperdício venha dos agregados familiares, 9% dos serviços e restauração e 7% do retalho. Mas outros sectores também contribuem para o desperdício alimentar, como a produção primária (11%) e a indústria (20%).

Algumas dicas para reduzir o desperdício alimentar:
Analisar as datas de validade dos produtos que tem em casa e daqueles que vai comprar;
Comprar alimentos na quantidade certa e não em doses exageradas;
Comer as “sobras” das refeições (em restaurantes pode pedir para levar o que não comeu);
Congelar alimentos para usar mais tarde;
Ter os alimentos com mais validade na parte de trás do frigorífico ou dos armários, para usar primeiro aqueles que estão perto do fim da validade;
Armazenar os alimentos de acordo com as instruções na embalagem.

O problema é de tal forma complexo a nível de políticas públicas que a Comissão Europeia incluiu o desperdício alimentar na sua primeira ronda de painéis de cidadãos temáticos, organizados no início deste ano. Os cidadãos recomendam, por exemplo, uma aposta na educação e sensibilização, a definição de padrões harmonizados para que os alimentos tenham rótulos com informação fiável sobre a pegada ambiental ou a promoção de outras formas de embalamento, de modo que as pessoas possam comprar alimentos na medida em que, de facto, pretendem consumir.



Como pode ser resolvido?

Actualmente, a principal ameaça ambiental decorrente dos biorresíduos (e outros resíduos biodegradáveis) é a produção de metano proveniente da sua decomposição em aterros, que representava cerca de 3% do total das emissões de gases com efeito de estufa na UE-15 em 1995, como é referido no site da Comissão Europeia.

Na comunicação da Comissão Europeia de Outubro de 2020 sobre a “Estratégia da UE para redução das emissões de metano”, lê-se que as emissões provenientes da deposição de resíduos em aterros diminuíram 47% entre 1990 e 2017, “um decréscimo alcançado principalmente graças ao desvio de resíduos biodegradáveis para outras opções de tratamento de resíduos, como a compostagem e a digestão anaeróbia, bem como à estabilização dos resíduos biodegradáveis antes da eliminação dos mesmos”.

Contudo, refere o documento, “são necessárias práticas de cumprimento mais rigorosas para reduzir ainda mais as emissões de metano provenientes dos resíduos”.

Mas tratar os biorresíduos é só a ponta do iceberg: a maior parte do impacto ambiental destes alimentos desperdiçados é causada por questões anteriores ao consumo. É preciso uma abordagem mais abrangente que ajude a reduzir o desperdício em toda a cadeia de produção.

Um estudo do JRC que recolheu dados de toda a UE descreve que, em termos absolutos, as frutas, vegetais e cereais são os grupos de alimentos mais desperdiçados. Mas há um pormenor importante: "A carne e lacticínios constituem menos de 20% da comida deitada ao lixo, mas são responsáveis por mais de 50% do impacto ambiental do desperdício alimentar", descrevem os investigadores.

Aliás, se dermos um passo atrás e olharmos para a pegada ambiental do consumo alimentar na UE, os produtos de origem animal representam 65% do impacto ambiental. Reduzir o consumo destes alimentos – como, aliás, já tem sido recomendado por cientistas de todo o mundo, também por questões de saúde – pode também reduzir a quantidade de desperdício destes alimentos, que custam tantas emissões a produzir.


[artigo disponível na íntegra apenas para assinantes]

16.5.23

ONU quer “fechar a torneira” da poluição por plástico em 80% até 2040. Será possível?

Clara Barata, in Público


Reutilizar, reciclar, reorientar e diversificar. Estas são as mudanças necessárias para criar uma economia verdadeiramente circular, diz o Programa das Nações Unidas para o Ambiente.


Produzem-se 430 milhões de toneladas de plásticos todos os anos e dois terços são produtos com uma vida útil curta, que rapidamente se transformam em lixo, uma grande parte dele não-tratado, que se deposita na natureza e até nos nossos corpos, com consequências para a nossa saúde e a do ambiente. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP, na sigla em inglês) apresentado nesta terça-feira oferece uma “bússola” para conseguirmos reduzir em 80% até 2040 a poluição por plástico.


[artigo disponível na integra só para assinantes]

22.2.21

Tarifa mensal não cobre os gastos com o tratamento do lixo na maioria dos municípios

Abel Coentrão, in Público on-line

Subsidiação do serviço por parte das autarquias aumentou ligeiramente e já ia em cerca de 75 milhões de euros, em 2019. Despesa municipal com o serviço vai aumentar substancialmente já em 2021.
 
Em 163 municípios portugueses aquilo que os cidadãos pagam de tarifa de resíduos urbanos (RU) cobre menos de 90% dos custos que a respectiva autarquia tem com o tratamento do lixo. Segundo o último relatório da entidade reguladora do sector da água e resíduos (ERSAR), até há várias autarquias que cobram acima do que gastam com estas tarefas, mas o défice de cobertura do serviço rondava em 2019 os 75 milhões de euros. Quer o Governo, quer os ambientalistas da Zero consideram a situação preocupante por não respeitar o princípio do poluidor-pagador e por não induzir qualquer mudança de comportamento, em favor de um aumento da reciclagem.

O último relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal, que usa dados de 2019, mostra, como noutros sectores de actividade, um país a várias velocidades, no domínio da gestão em baixa dos resíduos sólidos urbanos, que é feita, maioritariamente, à escala municipal. Enquanto na designada alta, os sistemas multimunicipais que tratam os RU têm, em média, contas equilibradas – ainda que com algumas discrepâncias – os municípios que recorrem a estes serviços, entregando esses resíduos para tratamento, não fazem reflectir, da mesma forma, essa e outras despesas na factura que cobram mensalmente aos seus munícipes.


Receitas cobrem 83% da despesa total

Na alta, a taxa de cobertura média andava nos 101%, apesar de uma das empresas, a AMCAL (Associação dos Municípios do Alentejo Central), ter uma cobertura de apenas 39%, segundo o relatório. Já na baixa, mesmo com vários municípios a cobrar bem acima dos 100% dos gastos que têm com o serviço (Aveiro, por exemplo, cobrava 157%), a média de cobertura nacional fixou-se nos 83% e há até um município, Figueira de Castelo Rodrigo, com uma taxa de cobertura de zero. Como em anos anteriores, estes resultados não representam, contudo, todo o país, tendo em conta que não responderam 29 das 253 entidades gestoras em baixa (que são municípios, empresas municipais ou, nalguns casos, empresas intermunicipais).

Este indicador tem ainda assim o condão de nos mostrar quão diferente é esta realidade no território. Nas contas feitas aos dados fornecidos por 89% das entidades que gerem RU em baixa, a despesa em 2019 rondou os 444 milhões de euros. Já as receitas obtidas por via da tarifa cobrada aos munícipes são de apenas 344 milhões de euros, cobrindo 77,5% daqueles custos. Outras receitas atiram, no entanto, os proveitos totais para 369 milhões, o que leva à taxa de cobertura de 83% calculada pela ERSAR.

Em todas as regiões (Norte, Centro e Lisboa, Alentejo e Algarve), a ERSAR detecta um padrão: os municípios com áreas predominantemente urbanas têm em média uma taxa de cobertura superior aos municípios de áreas predominantemente rurais, havendo 57 câmaras que não chegam sequer a cobrir metade da despesa. A isto não é alheio o facto de os custos relativos das recolhas ser superior em áreas de baixa densidade e povoamento disperso, de o rendimento das famílias ser, nestas zonas, em média, inferior, e de muitos destes municípios subsidiarem quer o preço da água quer, por inerência, a tarifa de resíduos sólidos, cujos valores estão indexados.

Regulador considera situação “insatisfatória"

Esta subsidiação acontece também em municípios mais urbanos, e decorre das opções que cada executivo autárquico toma. Mas a entidade reguladora considera “insatisfatória” esta situação que coloca o encargo médio de cada utilizador nos 61,5 euros anuais, tendo em conta que, no campo da gestão dos resíduos urbanos, o país está a falhar as metas europeias inscritas nos seus próprios documentos estratégicos, e, para conseguir cumprir, vai ser preciso aumentar a despesa com recolha selectiva de resíduos. Que tem tido piores resultados precisamente em territórios menos povoados e mais envelhecidos.

Além disso, a Taxa de Gestão de Resíduos (TGR) duplicou e passa, desde Janeiro deste ano, a penalizar com 22 euros cada tonelada de RU depositada em aterro, e esse valor aumentará até chegar aos 40 euros em 2025. Num país em que quase 60% dos resíduos ainda acaba num aterro, e que está por isso longe da meta de 10% prevista para 2035, esta evolução da TGR vai ter um impacto enorme nas contas das autarquias com os RU e, enquanto nada mudar, portanto, o défice na cobertura das receitas sobre as despesas aumentará substancialmente.

A Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) entende, contudo, “que não é desta forma que se incentiva a redução da produção de resíduos”. Em Novembro passado, num parecer sobre o novo Regime Geral de Gestão de Resíduos, a associação considerava que “este aumento do valor da TGR a assumir pelos municípios terá efeitos muito negativos, uma vez que tais custos se repercutirão, necessariamente, nos tarifários que os municípios e as respectivas entidades gestoras vão aplicar e, em última linha, nas famílias e nas empresas, sobrecarregando ainda mais os orçamentos respectivos, podendo inclusive colocar em causa a sustentabilidade do sector dos resíduos.

Ambientalistas preocupados

Para os ambientalistas da Zero, que já analisaram, também, o último relatório da ERSAR, há vários dados preocupantes a ter em conta. Um deles, explica Paulo Lucas ao PÚBLICO, é que o indicador de cobertura piorou, de 86% para 83%, entre 2017 e 2019. A associação lamenta que haja municípios que cobram valores excessivamente altos (acima dos 120%), o que também merece correcção, acreditam, mas a sua maior preocupação é o facto de só 53 entidades, entre as 224 que responderam, terem taxas de cobertura entre os 90 e os 110%. Entre as restantes autarquias que partilharam informação com o regulador, o panorama é de subsidiação da tarifa, o que os preocupa.

Os ambientalistas consideram que isso vai contra o princípio do poluidor-pagador previsto na Lei de Bases do Ambiente, e desresponsabiliza os cidadãos do dever de contribuírem para as metas nacionais de prevenção e reciclagem de resíduos. Por outro lado, se não separarem mais – o que passa, também, por aderirem à recolha selectiva dos chamados biorresíduos, a nova grande preocupação do país – os portugueses vão provocar um aumento da despesa do respectivo município com a TGR. E como se viu na reacção da ANMP, ou este acomoda o rombo nas contas, ou o distribui pelos residentes, ainda que acautelando tarifas sociais para os agregados familiares mais pobres (como acontece na água).

Mas a questão da indexação do lixo à água é, em si, outro problema. Portugal continua a marcar passo na criação de tarifários próprios para os resíduos, que penalizem apenas o lixo indiferenciado que se produz (Pay as you Throw, em inglês) e que, onde existem, são um grande estímulo à separação para reciclagem. Mas, nota a própria ERSAR “verifica-se, contudo, resistência por parte das entidades gestoras à implementação de sistemas PAYT, pese embora as recomendações e orientações apresentadas nos últimos dez anos em diversos instrumentos, a nível nacional, comunitário e da OCDE e o sucesso alcançado em muitos países. Com efeito, regista-se um número reduzido de exemplos de projectos deste tipo, em que se incluem projectos-piloto”, lê-se no relatório.

País tem um “caminho das pedras” pela frente

A secretária de Estado do Ambiente lamenta que o PAYT demore a generalizar-se em Portugal, e considera que a subsidiação da tarifa não contribui, de facto, para que muitos portugueses tenham noção dos custos relacionados com a gestão do lixo que produzem e o seu comportamento pessoal não se reflicta na conta mensal. Face ao fracasso no cumprimento de boa parte das metas, o país, assume Inês Costa, tem pela frente “um caminho das pedras”, que vai ser obrigado a percorrer num tempo bastante curto, e ainda que nem todos os municípios estejam obrigados a níveis de investimento semelhantes, será necessário também que aqueles que trabalham melhor vejam isso reflectido no que pagam aos sistemas responsáveis pela gestão em alta, afirmou ao PÚBLICO.

Para atingirmos a meta de reciclagem de 65% de resíduos, em 2035, nos próximos anos, os municípios e outras entidades que gerem a recolha de lixo em baixa vão ter um acréscimo de despesa com o serviço, fruto, desde logo, da obrigatoriedade de se implementar, até 2025, um sistema de recolha do lixo orgânico. Vão poder contar, para isso, com fundos comunitários e apoios do Fundo Ambiental (que se alimenta, também, da TGR), que poderão mitigar o investimento à partida, mas não deixam de ter, no dia-a-dia, custos com novos circuitos de recolha, sejam eles executados pelos próprios ou entregues a concessionários privados.

O aumento da separação e recolha de biorresíduos tem um impacto muito importante na qualidade do composto que se produz com ele, e na diminuição da contaminação das embalagens de vidro, plástico e cartão, melhorando a sua taxa de reciclagem efectiva. E tudo isto acabará por diminuir o lixo indiferenciado que produzimos e que acaba num aterro (pagando a totalidade da TGR) ou segue para incineração (pagando 25% do valor da TGR).

Mas, a recolha selectiva do lixo orgânico​ é dispendiosa e o modelo mais eficaz, o porta-a-porta, deverá ficar reservado para áreas eminentemente urbanas, onde começa a disseminar-se. No resto do país, a opção passará por diminuir as entregas destes resíduos aos sistemas de tratamento, fomentando, em larga escala, a compostagem doméstica ou a compostagem comunitária. O uso do composto no próprio local onde é produzido é, na verdade, um exemplo acabado de economia circular, e a forma de gerir resíduos com menor pegada ecológica. Mas será fácil pôr os portugueses a fazê-lo se não sentirem, nisso, qualquer vantagem financeira?