in TSF
A fome pode ameaçar até março de 2015 mais de um milhão de pessoas nos três países da África Ocidental mais afetados pela epidemia do vírus Ébola, alertaram hoje as agências alimentares das Nações Unidas.
A epidemia da febre hemorrágica já fez 6.900 mortos na Libéria, Serra Leoa e Guiné-Conacri mas a «insegurança alimentar» também está a atingir a região de forma crónica, referem em comunicado conjunto o Programa Alimentar Mundial (PAM) e o Fundo das Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).
As medidas de quarentena, os internamentos prolongados, os entraves à circulação, colheitas perdidas nas zonas mais atingidas pelo vírus do Ébola e o encerramento dos grandes mercados penalizam gravemente o acesso das populações a bens alimentares nos três países africanos, afirmam também os organismos da ONU após inquéritos e investigações na região.
«No presente mês de dezembro, de acordo com as nossas estimativas, meio milhão de pessoas encontram-se em situação de grave insegurança alimentar nos três países da costa ocidental africana mais afetados», registam a FAO e o PAM, que prevêem que o número pode «ultrapassar um milhão até ao mês de março de 2015 a não ser que o acesso à alimentação venha a ser melhorado».
«A quebra da produtividade e a perda de poder de compra em virtude da doença, assim como as medidas de quarentena têm vindo a agravar paulatinamente a economia nos três países», sublinha-se no documento. As agências da ONU referem ainda que «devido ao receio de contágio, muitas pessoas não se apresentam nos postos de trabalho».
Neste momento, os três países são obrigados a aumentar a importação de bens alimentares e precisam de mais receitas provenientes dos produtos que tradicionalmente são exportados como o café e o cacau.
O PAM e a FAO apelam a uma ação urgente no sentido do restabelecimento dos sistemas agrícolas fornecendo às populações mais sementes e nova tecnologia que permita substituir a falta de mão-de-obra.
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17.12.14
19.11.14
Depois do ébola, a fome
Lenny Bernstein (na Libéria), in Público on-line
Na Libéria, o país mais afectado pela epidemia da febre hemorrágica, o estado de emergência foi levantado e a vida quotidiana vai sendo lenta e penosamente retomada. Nos campos de arroz tudo ficou por fazer nestes últimos meses. O que agora se está a colher não vai chegar para alimentar populações inteiras durante o próximo ano.
O vírus do ébola, que já matou mais de 2830 liberianos e provocou o colapso do sistema de saúde do país, também está a atacar as reservas alimentares, provocando episódios intermitentes de fome em vastas regiões da Libéria, numa altura que os 4,1 milhões de habitantes tentam sobreviver à epidemia.
O típico rendimento familiar liberiano, que já figura entre um dos mais baixos do mundo, entrou em queda nos últimos meses porque a epidemia provocou o encerramento de empresas e matou trabalhadores que todas as semanas levavam dinheiro para casa. As fronteiras encerradas com a Serra Leoa, a Guiné-Conacri e a Costa do Marfim reduziram drasticamente o comércio. E os mercados nas aldeias e vilas foram obrigados a fechar para evitar grandes ajuntamentos de pessoas, numa medida de prevenção para travar a transmissão do vírus.
As épocas de plantação e de colheita nos campos agrícolas também ficaram comprometidas quando, em Junho, o ébola chegou às regiões férteis do país.
“Precisamos de assistência. Precisamos de comida aqui em Foya”, disse Joseph Gbellie, responsável deste distrito rural, quase exclusivamente dependente da agricultura, no noroeste da Libéria. “Se ninguém nos ajudar, isto vai-se transformar num problema sério”.
Num país que já carrega o fardo da pobreza generalizada e do desemprego, 90% das famílias reduziram a quantidade de alimentos consumidos a cada refeição e 85% estão a fazer menos refeições por dia, refere um estudo do Mercy Corps, uma ONG norte-americana que está no terreno.
Também o Programa Alimentar Mundial (PAM) revelou esta semana que a “insegurança alimentar” já afecta todas as regiões do país. E a Agência norte-americana para o Desenvolvimento Internacional diz que as comunidades afectadas pelo ébola estão no nível 3 de uma escala de 5, em que 5 significa fome e 1 indica problemas mínimos para obter alimentos.
Mary Wargbo, uma das muitas pessoas que pratica agricultura de subsistência nesta região de Lofa, prepara-se para viver o problema na pele. No início do mês, ela e os seus dois filhos colheram a pequena produção de arroz da família enfrentando o calor opressivo do meio-dia, muitas semanas depois da altura em que o costumam fazer em anos normais. O arroz foi apanhado à mão, os talos cortados com pequenas facas curvas e os pequenos fardos foram atados e armazenados “Não chega, não é suficiente, mas eu cá me arranjo”, disse. “Vou comprar mais arroz, não tenho dinheiro mas vou conseguir comprar algum”.
Onze irmãos para alimentar
A 200 quilómetros dali, em Dolo, uma comunidade pobre de 15 mil pessoas a leste da capital, Monróvia, Bobby Dumbar está na outra ponta da cadeia de abastecimento alimentar, mas as suas circunstâncias são semelhantes. Depois dos seus pais terem morrido com ébola, tornou-se, aos 28 anos, responsável pelo sustento dos seus 11 irmãos e irmãs, incluindo a bebé de sete meses que tem ao colo.
A família estava a levantar mantimentos para um mês, incluindo arroz e óleo, doados pela Orphan Aid Liberia, uma ONG norte-americana. Dumbar pensa que os produtos dão para alimentar a sua família durante duas semanas. Depois disso, diz, vai “para as ruas” fazer venda ambulante, o que lhe deverá render menos de um dólar por dia.
Não há sinais de fome extrema na Libéria, não se vêem barrigas inchadas ou crianças emaciadas, como aqueles que caracterizaram as grandes crises de fome em África no passado. As organizações humanitárias liberianas e internacionais estão empenhadas para que isso não aconteça.
O Programa Alimentar Mundial já distribuiu 6500 toneladas de comida no país desde Agosto, ajudando as populações nas zonas mais afectadas pelo vírus do ébola, alimentando tanto as pessoas que estavam nos centros médicos, como os sobreviventes em recuperação e as comunidades mais atingidas pela epidemia.
Mas esta ajuda de pouco serve para Jennneh Korhene que tem dez crianças para alimentar. Estava no centro do PAM em Kolba a levantar 100 quilos de trigo bulgur, óleo e outros alimentos. “Às vezes só dependemos de Deus para ter comida”, disse a mulher. “Às vezes não há comida para o dia seguinte.”
Com um clima e uma paisagem favorável à agricultura, a Libéria podia ter um sector agrícola bem desenvolvido, diz Alghassim Wurie, vice-director do PAM responsável por aquele país. Mas há pouco equipamento mecânico nas pequenas quintas liberianas e a maioria do trabalho é manual. Poucas quintas são grandes o suficiente para gerar excedentes que possam ser vendidos regularmente e, assim, gerar lucro. Os liberianos também se dedicam pouco à criação de gado. Resultado: a Libéria importa metade da comida que consome.
Na Libéria, o país mais afectado pela epidemia da febre hemorrágica, o estado de emergência foi levantado e a vida quotidiana vai sendo lenta e penosamente retomada. Nos campos de arroz tudo ficou por fazer nestes últimos meses. O que agora se está a colher não vai chegar para alimentar populações inteiras durante o próximo ano.
O vírus do ébola, que já matou mais de 2830 liberianos e provocou o colapso do sistema de saúde do país, também está a atacar as reservas alimentares, provocando episódios intermitentes de fome em vastas regiões da Libéria, numa altura que os 4,1 milhões de habitantes tentam sobreviver à epidemia.
O típico rendimento familiar liberiano, que já figura entre um dos mais baixos do mundo, entrou em queda nos últimos meses porque a epidemia provocou o encerramento de empresas e matou trabalhadores que todas as semanas levavam dinheiro para casa. As fronteiras encerradas com a Serra Leoa, a Guiné-Conacri e a Costa do Marfim reduziram drasticamente o comércio. E os mercados nas aldeias e vilas foram obrigados a fechar para evitar grandes ajuntamentos de pessoas, numa medida de prevenção para travar a transmissão do vírus.
As épocas de plantação e de colheita nos campos agrícolas também ficaram comprometidas quando, em Junho, o ébola chegou às regiões férteis do país.
“Precisamos de assistência. Precisamos de comida aqui em Foya”, disse Joseph Gbellie, responsável deste distrito rural, quase exclusivamente dependente da agricultura, no noroeste da Libéria. “Se ninguém nos ajudar, isto vai-se transformar num problema sério”.
Num país que já carrega o fardo da pobreza generalizada e do desemprego, 90% das famílias reduziram a quantidade de alimentos consumidos a cada refeição e 85% estão a fazer menos refeições por dia, refere um estudo do Mercy Corps, uma ONG norte-americana que está no terreno.
Também o Programa Alimentar Mundial (PAM) revelou esta semana que a “insegurança alimentar” já afecta todas as regiões do país. E a Agência norte-americana para o Desenvolvimento Internacional diz que as comunidades afectadas pelo ébola estão no nível 3 de uma escala de 5, em que 5 significa fome e 1 indica problemas mínimos para obter alimentos.
Mary Wargbo, uma das muitas pessoas que pratica agricultura de subsistência nesta região de Lofa, prepara-se para viver o problema na pele. No início do mês, ela e os seus dois filhos colheram a pequena produção de arroz da família enfrentando o calor opressivo do meio-dia, muitas semanas depois da altura em que o costumam fazer em anos normais. O arroz foi apanhado à mão, os talos cortados com pequenas facas curvas e os pequenos fardos foram atados e armazenados “Não chega, não é suficiente, mas eu cá me arranjo”, disse. “Vou comprar mais arroz, não tenho dinheiro mas vou conseguir comprar algum”.
Onze irmãos para alimentar
A 200 quilómetros dali, em Dolo, uma comunidade pobre de 15 mil pessoas a leste da capital, Monróvia, Bobby Dumbar está na outra ponta da cadeia de abastecimento alimentar, mas as suas circunstâncias são semelhantes. Depois dos seus pais terem morrido com ébola, tornou-se, aos 28 anos, responsável pelo sustento dos seus 11 irmãos e irmãs, incluindo a bebé de sete meses que tem ao colo.
A família estava a levantar mantimentos para um mês, incluindo arroz e óleo, doados pela Orphan Aid Liberia, uma ONG norte-americana. Dumbar pensa que os produtos dão para alimentar a sua família durante duas semanas. Depois disso, diz, vai “para as ruas” fazer venda ambulante, o que lhe deverá render menos de um dólar por dia.
Não há sinais de fome extrema na Libéria, não se vêem barrigas inchadas ou crianças emaciadas, como aqueles que caracterizaram as grandes crises de fome em África no passado. As organizações humanitárias liberianas e internacionais estão empenhadas para que isso não aconteça.
O Programa Alimentar Mundial já distribuiu 6500 toneladas de comida no país desde Agosto, ajudando as populações nas zonas mais afectadas pelo vírus do ébola, alimentando tanto as pessoas que estavam nos centros médicos, como os sobreviventes em recuperação e as comunidades mais atingidas pela epidemia.
Mas esta ajuda de pouco serve para Jennneh Korhene que tem dez crianças para alimentar. Estava no centro do PAM em Kolba a levantar 100 quilos de trigo bulgur, óleo e outros alimentos. “Às vezes só dependemos de Deus para ter comida”, disse a mulher. “Às vezes não há comida para o dia seguinte.”
Com um clima e uma paisagem favorável à agricultura, a Libéria podia ter um sector agrícola bem desenvolvido, diz Alghassim Wurie, vice-director do PAM responsável por aquele país. Mas há pouco equipamento mecânico nas pequenas quintas liberianas e a maioria do trabalho é manual. Poucas quintas são grandes o suficiente para gerar excedentes que possam ser vendidos regularmente e, assim, gerar lucro. Os liberianos também se dedicam pouco à criação de gado. Resultado: a Libéria importa metade da comida que consome.
2.10.14
Médicos Sem Fronteiras rejeitam dinheiro e pedem pessoal
in Diário de Notícias
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) recusou o dinheiro doado pelo Governo australiano e instou as autoridades a enviarem antes pessoal de saúde para a África Ocidental para combater o Ébola.
"A MSF simplesmente não tem capacidade para fazer o trabalho sozinha. Estamos a recusar gente nas nossas clínicas que tem estado [a operar], há semanas, acima daquilo que é a sua capacidade", indicou a organização em comunicado divulgado hoje pelos "media" locais.
O Governo de Camberra ofereceu aos Médicos Sem Fronteiras uma verba de 2,2 milhões de dólares (1,75 milhões de euros), mas a organização não-governamental reclamou antes o apoio de pessoal por considerar que poderia ter "um impacto muito significativo" no quadro dos esforços de combate à doença.
"Até uma dúzia de pessoas capacitadas que possa supervisionar as equipas locais na gestão do centro de isolamento, ajuda na detenção de casos e medidas de controlo do surto poderia salvar milhares de vidas", realçou a MSF.
A MSF diz que as limitações logísticas impedem a organização de aumentar a sua ajuda em países como a Libéria, Serra Leoa ou Guiné-Conacri, três dos países mais afetados.
"A Austrália deve parar de dar desculpas para se unir na luta contra o Ébola (...). Países como a Austrália, com capacidade para fazer a diferença no terreno, estão a olhar para o lado para evitar ter responsabilidade e recusam-se a enviar o seu próprio pessoal para ajudar", sublinha a MSF no mesmo comunicado citado pela agência noticiosa espanhola Efe.
Em seis meses, o número de vítimas mortais da epidemia de Ébola, sobretudo na África Ocidental, já ultrapassou os três mil, ou seja, cerca de metade dos 6.500 casos recenseados, segundo a Organização Mundial de Saúde.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) recusou o dinheiro doado pelo Governo australiano e instou as autoridades a enviarem antes pessoal de saúde para a África Ocidental para combater o Ébola.
"A MSF simplesmente não tem capacidade para fazer o trabalho sozinha. Estamos a recusar gente nas nossas clínicas que tem estado [a operar], há semanas, acima daquilo que é a sua capacidade", indicou a organização em comunicado divulgado hoje pelos "media" locais.
O Governo de Camberra ofereceu aos Médicos Sem Fronteiras uma verba de 2,2 milhões de dólares (1,75 milhões de euros), mas a organização não-governamental reclamou antes o apoio de pessoal por considerar que poderia ter "um impacto muito significativo" no quadro dos esforços de combate à doença.
"Até uma dúzia de pessoas capacitadas que possa supervisionar as equipas locais na gestão do centro de isolamento, ajuda na detenção de casos e medidas de controlo do surto poderia salvar milhares de vidas", realçou a MSF.
A MSF diz que as limitações logísticas impedem a organização de aumentar a sua ajuda em países como a Libéria, Serra Leoa ou Guiné-Conacri, três dos países mais afetados.
"A Austrália deve parar de dar desculpas para se unir na luta contra o Ébola (...). Países como a Austrália, com capacidade para fazer a diferença no terreno, estão a olhar para o lado para evitar ter responsabilidade e recusam-se a enviar o seu próprio pessoal para ajudar", sublinha a MSF no mesmo comunicado citado pela agência noticiosa espanhola Efe.
Em seis meses, o número de vítimas mortais da epidemia de Ébola, sobretudo na África Ocidental, já ultrapassou os três mil, ou seja, cerca de metade dos 6.500 casos recenseados, segundo a Organização Mundial de Saúde.
5.8.14
Ébola, um vírus que se alimenta da miséria
Nicolau Ferreira, in Público on-line
Não tem cura, mas é possível ser combatido e controlado, como foram os surtos no passado. Na Guiné-Conacri, na Libéria e na Serra Leoa o vírus do ébola está fora do controlo, mas a reunião de dia 1 de Agosto com a Organização Mundial de Saúde e os governos poderá ajudar a inverter a situação.
Ao contrário do rio Ébola, a aldeia Yambuku não aparece no Google Maps. Mas poderia estar lá, no norte da República Democrática do Congo. Aliás, poderia ser este nome a aterrorizar organizações de saúde, governos e, principalmente, as populações da Guiné-Conacri, da Serra Leoa e da Libéria, onde o pior surto de sempre do vírus do Ébola deflagrou, com 485 mortes confirmadas. A doença surgiu pela primeira vez em Yambuku, em 1976, quando o território se chamava Zaire. O seu nome não se tornou famoso por sensibilidade e bom senso.
Peter Piot, o cientista belga que primeiro descobriu o vírus numa amostra vinda daquela aldeia, enviada para o Instituto de Medicina Tropical de Antuérpia, na Bélgica, e que de seguida voou para o Zaire para lutar e exterminar o surto original, que matou 300 pessoas, explicou à BBC News esta questão: “Não quisemos dar à doença o nome da aldeia, Yambuku, por ser tão estigmatizante.” Na altura com 27 anos, o virologista e a equipa olharam para uma alternativa, procuraram o rio mais perto da região, e lá estava o Ébola.
Desde aí, os mais de 20 surtos que aconteceram nas décadas seguintes e mataram 1323 pessoas manifestaram-se quase sempre na África Central, nunca ganharam a dimensão do que se passa agora na África Ocidental, onde o atraso, a falta de organização estatal e o estigma estão a falar mais alto. “Não nos devemos esquecer que esta é uma doença de pobreza, de sistemas de saúde disfuncionais e da desconfiança”, defendeu Peter Piot, que hoje é director da London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido.
O vírus do ébola causa febres hemorrágicas. Sem haver nenhum medicamento ou vacina, o viros infecta as células endoteliais dos vasos sanguíneos e linfáticos, além de infectar outros órgãos. Entre o segundo e o vigésimo primeiro dia de contágio, aparece a febre, a fraqueza e dores. As hemorragias, que vêm depois, são fruto do colapso dos órgãos e dos vasos.
Nesta fase a doença é especialmente infecciosa, quando os vírus inundam o sangue e as secreções e outra pessoa pode entrar em contacto com estes fluídos. O ébola é muito mais controlável do que os vírus da gripe que são transmissíveis pelo ar. No entanto, quem contrai a doença, tem um alto risco de morrer. Os médicos tentam controlar a progressão da infecção baixando a febre, mantendo o doente hidratado e tratando infecções secundárias.
O surto actual terá começado no final de 2013 na Guiné Conacri, junto da região fronteiriça com a Libéria e com a Serra Leoa. Mas só este ano, em Março, os casos começaram a disparar. A doença acabou por alastrar para a Libéria e para a Serra Leoa. Um viajante norte-americano que estava na Libéria, onde contraiu a doença, acabou por morrer na Nigéria. Um médico norte-americano que contraiu a doença chegou ontem aos Estados Unidos onde vai ser tratado num hospital em Atlanta.
Até agora, há 485 mortes confirmadas e 909 infectados, mas segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 31 de Julho, estima-se que haja 729 mortes causadas pelo ébola e 1323 pessoas infectadas com o vírus. Continua a haver novas transmissões, o surto não está controlado.
“O vírus do ébola apareceu em países em que nunca tinha aparecido, não havia nenhuma capacidade de resposta”, diz ao PÚBLICO Jaime Nina, médico e clínico do Hospital Egas Moniz, especialista em infecções tropicais, e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical. “São países que além de serem paupérrimo têm partes que são controladas por guerrilheiros.”
Os relatos dão conta de instalações de saúde com poucos meios que trabalham num contexto dificílimo. As comunidades apanhadas pelo vírus estão isoladas, desconfiam da medicina ocidental, optam por recorrer à medicina local e a práticas ritualísticas. Muitas vezes, acham que a doença foi uma invenção dos brancos e associam a entrada nos centros de saúde à morte certa.
Jaime Nina aponta que no mais pobre dos três países, a Guiné Conacri, a incapacidade de combater o ébola é ainda maior e isso reflecte-se na fatalidade desta doença. A mortalidade é de 73,7% na Guiné Conacri, enquanto na Libéria é de 47,4% e na Serra Leoa é de 43,7% (casos estimados e confirmados).
Na sexta-feira, da reunião entre Margaret Chan, directora-geral da OMS, com os presidentes dos três países, saiu um sinal positivo. “Os presidentes reconhecem a natureza séria do surto de Ébola nos seus países”, disse Margaret Chan após a reunião, citada pela agência Reuters. “Os presidentes estão determinados a fazerem medidas extraordinárias para trava o ébola nos seus países.”
Os líderes garantiram que vão colocar forças de segurança para isolar a região da fronteira, onde o surto teve início, e onde está 70% dos casos. A OMS já tinha garantido na quarta-feira um financiamento adicional de 74,47 milhões de euros para um plano de combate ao ébola.
Ao mesmo tempo há sinais de receio por parte da comunidade internacional. Ontem a Emirates, do Dubai, suspendeu os voos comerciais para a Guiné Conacri. É a primeira grande companhia aérea a suspender voos para um país com o surto, mas várias pequenas companhias já o fizeram, principalmente de outros países africanos. A organização voluntária americana, Peace Corps, retirou 340 voluntários da região.
Os especialistas defendem que o combate contra o ébola ainda vai demorar meses. Desde 2000 que tem havido quase todos os anos novos surtos. Tudo indica que o reservatório natural do vírus são morcegos frugívoros das florestas. “Há uma explosão demográfica, as zonas florestais sem ninguém agora têm alguma população”, diz Jaime Nina, acrescentando que há mais caça selvagem nas florestas, onde se mata os animais diurnos e animais nocturnos como os morcegos proliferam. “Com eles estão as doenças que trazem.”
Não tem cura, mas é possível ser combatido e controlado, como foram os surtos no passado. Na Guiné-Conacri, na Libéria e na Serra Leoa o vírus do ébola está fora do controlo, mas a reunião de dia 1 de Agosto com a Organização Mundial de Saúde e os governos poderá ajudar a inverter a situação.
Ao contrário do rio Ébola, a aldeia Yambuku não aparece no Google Maps. Mas poderia estar lá, no norte da República Democrática do Congo. Aliás, poderia ser este nome a aterrorizar organizações de saúde, governos e, principalmente, as populações da Guiné-Conacri, da Serra Leoa e da Libéria, onde o pior surto de sempre do vírus do Ébola deflagrou, com 485 mortes confirmadas. A doença surgiu pela primeira vez em Yambuku, em 1976, quando o território se chamava Zaire. O seu nome não se tornou famoso por sensibilidade e bom senso.
Peter Piot, o cientista belga que primeiro descobriu o vírus numa amostra vinda daquela aldeia, enviada para o Instituto de Medicina Tropical de Antuérpia, na Bélgica, e que de seguida voou para o Zaire para lutar e exterminar o surto original, que matou 300 pessoas, explicou à BBC News esta questão: “Não quisemos dar à doença o nome da aldeia, Yambuku, por ser tão estigmatizante.” Na altura com 27 anos, o virologista e a equipa olharam para uma alternativa, procuraram o rio mais perto da região, e lá estava o Ébola.
Desde aí, os mais de 20 surtos que aconteceram nas décadas seguintes e mataram 1323 pessoas manifestaram-se quase sempre na África Central, nunca ganharam a dimensão do que se passa agora na África Ocidental, onde o atraso, a falta de organização estatal e o estigma estão a falar mais alto. “Não nos devemos esquecer que esta é uma doença de pobreza, de sistemas de saúde disfuncionais e da desconfiança”, defendeu Peter Piot, que hoje é director da London School of Hygiene and Tropical Medicine, no Reino Unido.
O vírus do ébola causa febres hemorrágicas. Sem haver nenhum medicamento ou vacina, o viros infecta as células endoteliais dos vasos sanguíneos e linfáticos, além de infectar outros órgãos. Entre o segundo e o vigésimo primeiro dia de contágio, aparece a febre, a fraqueza e dores. As hemorragias, que vêm depois, são fruto do colapso dos órgãos e dos vasos.
Nesta fase a doença é especialmente infecciosa, quando os vírus inundam o sangue e as secreções e outra pessoa pode entrar em contacto com estes fluídos. O ébola é muito mais controlável do que os vírus da gripe que são transmissíveis pelo ar. No entanto, quem contrai a doença, tem um alto risco de morrer. Os médicos tentam controlar a progressão da infecção baixando a febre, mantendo o doente hidratado e tratando infecções secundárias.
O surto actual terá começado no final de 2013 na Guiné Conacri, junto da região fronteiriça com a Libéria e com a Serra Leoa. Mas só este ano, em Março, os casos começaram a disparar. A doença acabou por alastrar para a Libéria e para a Serra Leoa. Um viajante norte-americano que estava na Libéria, onde contraiu a doença, acabou por morrer na Nigéria. Um médico norte-americano que contraiu a doença chegou ontem aos Estados Unidos onde vai ser tratado num hospital em Atlanta.
Até agora, há 485 mortes confirmadas e 909 infectados, mas segundo o relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 31 de Julho, estima-se que haja 729 mortes causadas pelo ébola e 1323 pessoas infectadas com o vírus. Continua a haver novas transmissões, o surto não está controlado.
“O vírus do ébola apareceu em países em que nunca tinha aparecido, não havia nenhuma capacidade de resposta”, diz ao PÚBLICO Jaime Nina, médico e clínico do Hospital Egas Moniz, especialista em infecções tropicais, e professor no Instituto de Higiene e Medicina Tropical. “São países que além de serem paupérrimo têm partes que são controladas por guerrilheiros.”
Os relatos dão conta de instalações de saúde com poucos meios que trabalham num contexto dificílimo. As comunidades apanhadas pelo vírus estão isoladas, desconfiam da medicina ocidental, optam por recorrer à medicina local e a práticas ritualísticas. Muitas vezes, acham que a doença foi uma invenção dos brancos e associam a entrada nos centros de saúde à morte certa.
Jaime Nina aponta que no mais pobre dos três países, a Guiné Conacri, a incapacidade de combater o ébola é ainda maior e isso reflecte-se na fatalidade desta doença. A mortalidade é de 73,7% na Guiné Conacri, enquanto na Libéria é de 47,4% e na Serra Leoa é de 43,7% (casos estimados e confirmados).
Na sexta-feira, da reunião entre Margaret Chan, directora-geral da OMS, com os presidentes dos três países, saiu um sinal positivo. “Os presidentes reconhecem a natureza séria do surto de Ébola nos seus países”, disse Margaret Chan após a reunião, citada pela agência Reuters. “Os presidentes estão determinados a fazerem medidas extraordinárias para trava o ébola nos seus países.”
Os líderes garantiram que vão colocar forças de segurança para isolar a região da fronteira, onde o surto teve início, e onde está 70% dos casos. A OMS já tinha garantido na quarta-feira um financiamento adicional de 74,47 milhões de euros para um plano de combate ao ébola.
Ao mesmo tempo há sinais de receio por parte da comunidade internacional. Ontem a Emirates, do Dubai, suspendeu os voos comerciais para a Guiné Conacri. É a primeira grande companhia aérea a suspender voos para um país com o surto, mas várias pequenas companhias já o fizeram, principalmente de outros países africanos. A organização voluntária americana, Peace Corps, retirou 340 voluntários da região.
Os especialistas defendem que o combate contra o ébola ainda vai demorar meses. Desde 2000 que tem havido quase todos os anos novos surtos. Tudo indica que o reservatório natural do vírus são morcegos frugívoros das florestas. “Há uma explosão demográfica, as zonas florestais sem ninguém agora têm alguma população”, diz Jaime Nina, acrescentando que há mais caça selvagem nas florestas, onde se mata os animais diurnos e animais nocturnos como os morcegos proliferam. “Com eles estão as doenças que trazem.”
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