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19.12.22

Em casa e prolongados no tempo, assim são a maior parte dos casos de crimes sexuais em Portugal

Patrícia Carvalho, in Público

Mais de metade dos casos noticiados dizem respeito a abuso sexual e cerca de 42% são violações. Houve 22 femicídios até 15 de Novembro.

O primeiro Relatório Sobre a Violência Sexual em Portugal que a UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta apresentou esta segunda-feira indica que a maior parte das vítimas são do género feminino (87%), que estão em causa, sobretudo, agressões na forma continuada (52%), que se desenrolam em casa (62,7%) e são perpetradas por familiares (42%) ou conhecidos (42,6%) das vítimas. “São dados que desconstroem a ideia de que a violência sexual é rara e praticada por desconhecidos sobre mulheres que saíam à noite”, diz Luísa Barateiro, da UMAR.

Há anos que a associação apresenta dados sobre o assassinato de mulheres, com base nas notícias que saem na imprensa, mas esta é a primeira vez que a UMAR fez o mesmo exercício dirigido à violência sexual. Os dados recolhidos são referentes a 2021 e foram compilados a partir de 299 notícias publicadas online sobre esta matéria. Destas, apenas em 192 artigos foi possível perceber o tipo de crime que estava em causa, sendo o abuso sexual o tema de mais de metade dos casos (50,5%) e a violação o segundo crime mais referido (42,2%). A pornografia infantil e a importunação sexual foram referidos em, respectivamente, 5,7% e 1,6% das notícias.

Os crimes são perpetrados quase sempre apenas por um agressor (em 92% dos casos), do sexo masculino (95%). A média de idades dos agressores é 42 anos, mas o espectro é muito alargado, indo dos 14 aos 82 anos. Já as vítimas são sobretudo do sexo feminino (87%) e as idades vão de um aos 90 anos. Na esmagadora maioria dos crimes há uma única vítima (79%), havendo também relatos de casos em que estiveram em causa até quatro vítimas.

Salientando — tal como costuma fazer com os casos de assassinatos de mulheres —, que poderão existir casos que não são relatados nos jornais, o grupo de trabalho da UMAR que se debruçou sobre a violência sexual, refere ainda que 69 casos ocorreram em casa, sendo Lisboa, Porto e Braga os distritos com mais casos identificados - 69, 32 e 27, respectivamente. Quanto às consequências para crimes deste género, os dados recolhidos apontam para condenações em 31 casos, com o tempo médio de encarceramento a chegar aos nove anos.

Os agressores são, geralmente pessoas próximas da vítima e o crime ocorre de forma prolongada no tempo, sendo a média superior a três anos. “É claro que não estamos a falar de eventos esporádicos, praticados por desconhecidos. É dentro de casa que muitos destes casos acontecem, o que mostra que a casa continua a não ser um lugar seguro para muitas mulheres e raparigas”, diz Luísa Barateiro. Dados que vão ao encontro do retrato que tem sido traçado pelo Observatório das Mulheres Assassinadas, da UMAR, nos últimos anos.

22 femicídios até 15 de Novembro

Neste campo, as informações mais recentes - referentes aos números recolhidos entre 1 de Janeiro e 15 de Novembro deste ano, indicam que 28 mulheres foram assassinadas nesse período, 22 das quais vítimas de femicídio. E, nestes casos, todos os crimes foram cometidos em contexto de intimidade, sendo o agressor do sexo masculino. Em 13 destes casos existia uma relação actual, envolvendo os restantes relações passadas. Havia ainda, em 12 dos casos de femicídio recolhidos na imprensa, violência anterior, conhecida por terceiras pessoas (vizinhos, familiares e amigos) e em sete destes casos havia mesmo uma denúncia prévia às autoridades.

“O que vemos com a violência sexual vai ao encontro dos casos de femicídio que temos analisado”, diz Luísa Barateiro. Ou seja, agressores próximos, crimes que se prolongam no tempo e que ocorrem na habitação. Mas, por enquanto, no caso da violência sexual, a UMAR ainda não consegue ter dados para apontar para uma qualquer evolução, positiva ou negativa, nesta matéria. A instituição espera conseguir financiamento para tratar, de forma continuada, dados similares aos que agora foram apresentados, mas ainda não tem garantias de que tal venha a acontecer. “Estamos a recolher os dados de 2022. Eles são alarmantes e é necessário, de facto, acompanhar melhor este tema”, diz a responsável da UMAR.

Para já, as informações recolhidas apontam para situações em que está sempre subjacente uma qualquer espécie de abuso de poder, e que, no caso da violência continuada, é geralmente praticada por alguém próximo da vítima, e em quem esta confia, que recorre, muitas vezes, “ao aliciamento, à chantagem e à ameaça” para concretizar o crime. Já nos casos de violência sexual pontual, praticada por desconhecidos, está muitas vezes presente “a agressão, o uso da força e a ameaça”, caracteriza a UMAR.

A associação apela para que haja mais prevenção primária e um melhor enquadramento dos crimes de violência sexual, associados a uma maior rede de apoio.

Para a comunicação social também são feitos pedidos expressos, nomeadamente na linguagem utilizada na descrição deste tipo de crimes, e que a análise da UMAR, às notícias de um jornal nacional de grande tiragem, apontam para alguma culpabilização das vítimas e desvalorização do comportamento dos agressores, justificando-o com termos como “instintos libidinosos” ou “ciúmes excessivos”.

“Pedimos que haja mais acompanhamento e formação dos jornalistas nesta área. Quanto mais detalhada e livre de preconceitos for a informação, melhor será também o nosso trabalho. Gostávamos que a comunicação social fosse também um meio de apoio, nomeadamente, com a colocação das linhas de apoio disponível, nos artigos sobre estes temas.”

18.9.17

António Guterres pede aos líderes mundiais que lutem contra crimes sexuais

in Diário de Notícias

O secretário-geral da ONU vai anunciar na segunda-feira uma proposta sobre prevenção e de combate aos crimes sexuais, cometidos por elementos das missões de manutenção de paz da organização.

António Guterres disse, na sexta-feira, aos jornalistas esperar que proposta seja assinada pelos 193 Estados-membros das Nações Unidas. O documento sublinha "os princípios partilhados" pela organizações e Estados-membros na realização de missões de paz, incluindo compromissos para impedir a exploração sexual, que mancharam as missões da ONU.

O português disse também estar a criar um "círculo de liderança" que vai incluir todos os chefes de Estado e de Governo empenhados a pôr fim à impunidade de alegados criminosos sexuais e no fortalecimento de medidas para impedir a exploração e abusos em destacamentos internacionais.

Os líderes que integram esse círculo vão ser conhecidos na segunda-feira. Um responsável da ONU, citado pela agência noticiosa Associated Press (AP), referiu serem meia centena de dirigentes mundiais.

Em março, António Guterres anunciou novas medidas para lutar contra os crescentes crimes sexuais perpetrados por membros das missões de paz da ONU, incluindo um reforço no acompanhamento e proteção das vítimas e proibição de álcool e confraternizações entre as "tropas".

Na altura, o secretário-geral da organização alertou que "não existe nenhuma varinha mágica que ponha fim ao problema", mas sublinhou: "Acredito que podemos melhorar muito a forma como as Nações Unidas lutam contra este flagelo".

A coordenadora especial para melhorar a resposta da ONU em casos de exploração sexual e abusos, Jane Holl Lute, disse que o secretário-geral acredita ser impossível que as Nações Unidas consigam cumprir missões de prevenção de conflitos e combate à pobreza se estiverem envolvidas em acusações de abusos sexuais.

De acordo com Lote, Guterres tem um programa quadripartido para colocar as vítimas "no centro", pôr fim à impunidade dos alegados criminosos, trabalhar com a sociedade civil e aumentar a educação e transparência, definido pela compreensão de que "este é um perigo constante para as mulheres em qualquer parte do mundo".

"De facto, não existe um lugar onde as mulheres estejam seguras", afirmou Lute. "Não há nenhum país, nenhuma força militar que seja imune a estes comportamentos. Este não é um problema exclusivo do pessoal uniformizado, nem das missões de manutenção de paz".

O encontro de segunda-feira vai estar focado na resposta aos abusos sexuais da ONU e da comunidade internacional, estando prevista a apresentação do primeiro defensor da ONU para as vítimas, nomeado por António Guterres, a advogada e defensora dos direitos humanos australiana Jane Connors, acrescentou Lute.

A responsável indicou que as denúncias de casos de abusos sexuais por elementos das missões da ONU podem aumentar este ano, porque cada vez mais pessoas sentem que "podem confiar e apresentar uma denúncia".