in iOnline
Em Portugal, as necessidades brutas de financiamento ascendiam a 28.650 milhões de euros em 2013 e a 34.211 milhões de euros em 2014, o equivalente a 15,8% e 18,7% do PIB, respectivamente
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) estimou hoje que o rácio da dívida sobre o PIB dos países da instituição deverá ultrapassar o pico atingido na II Guerra Mundial em 2014, superando os 116%.
No 'Sovereign Borrowing Outlook 2014', hoje publicado, a OCDE antecipa que o rácio da dívida pública sobre o Produto Interno Bruto (PIB) "vai aumentar mais e permanecer em níveis elevados num futuro próximo", estimando que "ultrapasse o máximo [registado no período] da II Guerra Mundial, de 1941 a 1945, em que a dívida atingiu os 116% do PIB, em média.
A OCDE refere que as contas orçamentais se deterioraram muito com a crise financeira global de 2007, calculando que esta crise explique cerca de dois terços do aumento do rácio da dívida sobre o PIB nas economias desenvolvidas.
"A crise financeira global de 2007/2009 (a crise financeira mais séria de que há registo) colocou tanta pressão no aumento dos rácios da dívida pública na área da OCDE que se estima que, com um rácio de 115,6% do PIB em 2013, o pico registado na II Guerra Mundial está quase a ser alcançado. De facto, estima-se que a dívida pública em percentagem do PIB ultrapasse o máximo da II Guerra Mundial em 2014", lê-se no relatório hoje divulgado.
Quanto aos défices dos países e tendo em conta o contexto de incerteza quanto às perspetivas económicas, a OCDE estima que o défice orçamental dos países da Organização tenha ficado nos 5,9% em 2012, estimando-se que caia para os 4,8% em 2013 e para os 4% em 2012.
Relativamente às necessidades de financiamento, a OCDE destaca persistem "desafios significativos", tendo em conta os elevados níveis de reembolsos em vários países.
A OCDE estima que as necessidades brutas de financiamento dos países que integram a instituição tenham caído ligeiramente dos 11 biliões de dólares em 2012 para os 10,8 biliões de dólares em 2013, esperando-se que recuem novamente para os 10,6 biliões de dólares em 2014.
No caso dos países da OCDE que pertencem à zona euro, em média, as necessidades brutas de financiamento em percentagem do PIB atingiram um pico em 2009, para os 18,4%, tendo caído significativamente desde aí e estimando-se que caiam para cerca de 15,7% em 2013 e para os 14,4% em 2014.
Em Portugal, as necessidades brutas de financiamento ascendiam a 28.650 milhões de euros em 2013 e a 34.211 milhões de euros em 2014, o equivalente a 15,8% e 18,7% do PIB, respetivamente.
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28.3.14
16.1.14
Dívida. Famílias investiram 648 milhões nos novos títulos em apenas dois meses
in iOnline
Quase ao mesmo tempo que vendia dívida de curto prazo a taxas de 2009, o IGCP (Agência para a Gestão da Tesouraria e Dívida Pública) anunciou ontem o programa de financiamento de Portugal para 2014. O plano é revelador da crescente confiança no regresso aos mercados, animada pelo sucesso das emissões realizadas este ano.
Em relação à estratégia apresentada em Outubro, no quadro da proposta de Orçamento do Estado para 2014, o plano agora conhecido aumenta a aposta na emissão de dívida de longo prazo em mercado. A meta passa de 10,5 mil milhões de euros de Obrigações do Tesouro para um montante no intervalo entre 11 e 13 mil milhões de euros. Em sentido contrário, o montante de financiamento a obter no retalho é revisto em baixa, de 2500 milhões para 2000 milhões de euros.
A principal razão para esta mudança reside na forte adesão que os novos certificados do Tesouro conquistaram logo nos dois primeiros meses de subscrição. Segundo dados obtidos pelo i junto do IGCP, o investimento das famílias nos certificados do Tesouro Poupança Mais atingiu, até Dezembro, os 648 milhões de euros, o que permitiu antecipar em 2013 parte da meta prevista para este ano. O maior boom de subscrições aconteceu, como era de esperar, entre os dois últimos dias de Outubro e Novembro, quando foram captados 461 milhões de euros. O ritmo abrandou em Dezembro, mas ainda assim foram canalizados mais 187 milhões de euros. O novo produto de aforro assegura uma remuneração crescente, de 2,75% no primeiro ano a 5% no quinto ano, e tem feito forte concorrência aos depósitos bancários.
Diluir pagamentos O aumento do valor a captar com emissões de dívida de longo prazo visa já preparar o financiamento de 2015, em linha com o objectivo já assumido pelo presidente do IGCP, João Moreira Rato. Portugal pode ainda reforçar a folga para realizar operações de recompra de dívida. A possibilidade, prevista no plano, insere-se na gestão do risco de refinanciamento do país que passa por evitar a criação de excessivas concentrações temporais de amortizações de dívida.
Com o mesmo objectivo, poderão avançar novas operações de troca de dívida, adiando reembolsos, à semelhança da transacção realizada em Dezembro do ano passado.
Filipe Garcia, analista da consultora financeira IMF, recorda que a ausência de financiamento regular em mercado durante o período de assistência financeira resultou em concentrações de pagamentos de dívida que é importante corrigir.
Com base no intervalo para a emissão de obrigações do Tesouro - entre 11 e 13 mil milhões -, Filipe Garcia admite que Portugal possa realizar este ano mais três ou quatro emissões, além da venda de dívida a cinco anos no valor de 3,250 mil milhões de euros concretizada na semana passada. Para alisar o calendário de reembolsos seria útil uma emissão a dez anos, uma entre um e três anos e outra entre cinco e dez anos, adianta este analista.
No menu financeiro para 2014 está prevista a possibilidade de regressar ainda no primeiro semestre aos leilões de dívida de longo prazo, uma prática que foi abandonada durante o período de assistência financeira. As emissões de obrigações do Tesouro realizadas desde 2012 foram concretizadas com o apoio de sindicatos bancários. Uma cautela que ajuda a assegurar o êxito da oferta e que foi também adoptada pela Irlanda na primeira emissão que fez depois de sair do ajustamento.
As necessidades de financiamento líquidas do Estado para 2014 situam-se em 11,8 mil milhões de euros, valor que cobre o défice previsto e aquisições de activos financeiros, em que estão o refinanciamento de empresas públicas e outros compromissos. Além do financiamento em mercado, Portugal conta com uma almofada de liquidez em depósitos de 7900 milhões de euros e as últimas tranches da ajuda de 7,8 mil milhões de euros.
Quase ao mesmo tempo que vendia dívida de curto prazo a taxas de 2009, o IGCP (Agência para a Gestão da Tesouraria e Dívida Pública) anunciou ontem o programa de financiamento de Portugal para 2014. O plano é revelador da crescente confiança no regresso aos mercados, animada pelo sucesso das emissões realizadas este ano.
Em relação à estratégia apresentada em Outubro, no quadro da proposta de Orçamento do Estado para 2014, o plano agora conhecido aumenta a aposta na emissão de dívida de longo prazo em mercado. A meta passa de 10,5 mil milhões de euros de Obrigações do Tesouro para um montante no intervalo entre 11 e 13 mil milhões de euros. Em sentido contrário, o montante de financiamento a obter no retalho é revisto em baixa, de 2500 milhões para 2000 milhões de euros.
A principal razão para esta mudança reside na forte adesão que os novos certificados do Tesouro conquistaram logo nos dois primeiros meses de subscrição. Segundo dados obtidos pelo i junto do IGCP, o investimento das famílias nos certificados do Tesouro Poupança Mais atingiu, até Dezembro, os 648 milhões de euros, o que permitiu antecipar em 2013 parte da meta prevista para este ano. O maior boom de subscrições aconteceu, como era de esperar, entre os dois últimos dias de Outubro e Novembro, quando foram captados 461 milhões de euros. O ritmo abrandou em Dezembro, mas ainda assim foram canalizados mais 187 milhões de euros. O novo produto de aforro assegura uma remuneração crescente, de 2,75% no primeiro ano a 5% no quinto ano, e tem feito forte concorrência aos depósitos bancários.
Diluir pagamentos O aumento do valor a captar com emissões de dívida de longo prazo visa já preparar o financiamento de 2015, em linha com o objectivo já assumido pelo presidente do IGCP, João Moreira Rato. Portugal pode ainda reforçar a folga para realizar operações de recompra de dívida. A possibilidade, prevista no plano, insere-se na gestão do risco de refinanciamento do país que passa por evitar a criação de excessivas concentrações temporais de amortizações de dívida.
Com o mesmo objectivo, poderão avançar novas operações de troca de dívida, adiando reembolsos, à semelhança da transacção realizada em Dezembro do ano passado.
Filipe Garcia, analista da consultora financeira IMF, recorda que a ausência de financiamento regular em mercado durante o período de assistência financeira resultou em concentrações de pagamentos de dívida que é importante corrigir.
Com base no intervalo para a emissão de obrigações do Tesouro - entre 11 e 13 mil milhões -, Filipe Garcia admite que Portugal possa realizar este ano mais três ou quatro emissões, além da venda de dívida a cinco anos no valor de 3,250 mil milhões de euros concretizada na semana passada. Para alisar o calendário de reembolsos seria útil uma emissão a dez anos, uma entre um e três anos e outra entre cinco e dez anos, adianta este analista.
No menu financeiro para 2014 está prevista a possibilidade de regressar ainda no primeiro semestre aos leilões de dívida de longo prazo, uma prática que foi abandonada durante o período de assistência financeira. As emissões de obrigações do Tesouro realizadas desde 2012 foram concretizadas com o apoio de sindicatos bancários. Uma cautela que ajuda a assegurar o êxito da oferta e que foi também adoptada pela Irlanda na primeira emissão que fez depois de sair do ajustamento.
As necessidades de financiamento líquidas do Estado para 2014 situam-se em 11,8 mil milhões de euros, valor que cobre o défice previsto e aquisições de activos financeiros, em que estão o refinanciamento de empresas públicas e outros compromissos. Além do financiamento em mercado, Portugal conta com uma almofada de liquidez em depósitos de 7900 milhões de euros e as últimas tranches da ajuda de 7,8 mil milhões de euros.
13.1.14
A Europa no sério perigo de uma armadilha 3-D: deflação, dívida e desemprego
Por Marco Antonio Moreno, tradução de Carlos Santos, in Esquerda.net
Agora que a inflação na zona euro continua o seu processo de baixa, começa a aumentar o risco real de uma séria queda na armadilha deflacionista. A deflação é altamente perigosa porque potencia o desemprego e põe em sério risco o crescimento económico ao afundar o consumo e o investimento. .
Gráfico 1 - taxa de inflação na zona euro
Quando em meados dos anos 90 começou no Japão uma onda deflacionista, os líderes da Europa e dos Estados Unidos atribuíram o facto a mais uma mais de tantas peculiaridades nipónicas. A deflação nos últimos 70 anos foi vista como um pesadelo longínquo já extinto e mal ocupa uma linha nos livros de estudo da economia convencional. A corrente monetarista encarregou-se de erradicar o termo assinalando que a política monetária tinha as ferramentas necessárias para evitar as crises e evitar esse estranho fenómeno da deflação.
No entanto, agora que a inflação na zona euro continua o seu processo de baixa, começa a aumentar o risco real de uma séria queda na armadilha deflacionista. A nível de toda a zona euro os preços terminaram 2013 com uma inflação de 0,8 por cento, muito abaixo da meta de 2 por cento estabelecida pelo Banco Central Europeu (BCE), como ilustra o gráfico 1. Os preços em Espanha terminaram com uma subida anual de 0,2 por cento (gráfico 2), enquanto na Grécia se registou uma queda de -2,9 por cento (gráfico 3). Isto indica que a deflação, ou a queda sistémica dos preços, começa a estender-se pela Europa no momento em que o BCE esgotou toda a sua bateria de recursos.
Gráfico2 - Taxa de inflação em Espanha
Se bem que a deflação, quando é por um período de tempo curto, tem efeitos positivos no consumo dado que gera um efeito riqueza, quando se prolonga no tempo tem efeitos perversos, mais ainda quando se trata de economias altamente endividadas e com elevado desemprego. Uma das principais causas da Grande Depressão dos ano 30 foi justamente a deflação que se seguiu ao início da crise em outubro de 1929. A deflação do Japão, depois de rebentar a bolha imobiliária em princípios dos anos 90, é outro exemplo do pernicioso que pode ser a deflação: o Japão ainda não recuperou da crise e acumulou duas décadas perdidas.
Agora que o fantasma da deflação percorre a Europa, a situação dos países europeus pode ser ainda mais grave. O Japão tem moeda soberana e pode aplicar políticas monetárias em seu próprio benefício, enquanto os países da zona euro estão ancorados à moeda única e a uma política que se pode ser muito boa para um país pode ser nefasta para outro. A crise encarregou-se de acentuar as diferenças que o período cor de rosa da união monetária ocultou.
Os efeitos negativos da deflação
Gráfico 3 - Taxa de inflação na Grécia
Nesta altura torna-se difícil negar que a Europa caiu na armadilha da deflação, e que o medo do fantasma deflacionista levou o BCE à sua histórica baixa nas taxas de juro para 0,25%. Pode o BCE continuar a baixar as taxas para 0,2% ou 0,1 por cento para evitar a deflação? Ou inundará de dinheiro o sistema para criar inflação e liquefazer a dívida, contendo o perigo de dois dos três “D” desta crise(dívida e deflação)?
Há duas razões fundamentais para compreender os problemas que recaem em cima do BCE com a deflação. Se fosse em circunstâncias normais, uma deflação poderia ser bem-vinda: a queda nos preços gera um efeito riqueza (aumento do salário real) que tende a aumentar o consumo das famílias. Pensa-se que a maior consumo, maior bem-estar. No entanto, quando a deflação se torna persistente e de longo prazo, começa a gerar problemas que, como um vírus troiano, corrói todo o sistema. Isto torna-se mais grave quando a deflação é acompanhada de um elevado nível de dívida e de históricos níveis no desemprego.
A deflação induz a diferir a despesa, dado que se espera que os preços caiam ainda mais, se adiem as decisões de consumo e investimento. Se comprar amanhã sai mais barato do que comprar hoje, inicia-se uma espiral destrutiva no consumo que obriga a reduzir ainda mais os preços para atrair cada vez menos compradores.
A redução dos preços no mercado retalhista transmite-se ao mercado grossista e golpeia os fabricantes, que se veem com um excesso de oferta e obrigados a reduzir a empresa, a produção e o emprego. Se o valor atual dos ativos é menor que o seu custo de reposição, não se justifica investir para repor o ativo e o investimento cai. O economista James Tobin foi quem encontrou esta relação e descreveu-a no seu “q de Tobin”: O investimento só se justifica quando o custo de reposição é menor que o valor do ativo, isto é quando “q” é maior que 1 (o valor do ativo está no numerador e o custo de reposição do ativo no denominador). Tobin encontrou esta importante relação ao analisar o papel do dinheiro na economia e desmentir as teses ortodoxas que indicam que o dinheiro é neutro.
Se os fabricantes reduzem a fábrica e deixam de investir (um fenómeno que também se pode ver no capital de risco) produz-se um excesso de oferta de trabalho, o que induz a quedas nos salários, mais desemprego e contração económica. Os efeitos da deflação sobre a economia real podem ser tão ou mais devastadores que os efeitos da inflação, o autêntico cancro da economia para a corrente convencional.
Encarecimento da dívida
Se a deflação impacta negativamente na economia real pelo lado do emprego e da produção, também o faz no lado monetário com o encarecimento da dívida. Se você comprou um ativo a crédito por 100.000 euros com uma taxa de juro anual de 10 por cento, em 12 meses tem uma dívida de 110.000 euros, e se o valor do ativo caiu em 10 por cento só vale 90.000 euros. Ao quarto ano, quanto você ainda continua a pagar o empréstimo, o ativo pode ter um valor de 70.000 ou 80.000 euros. É o que tem ocorrido com a crise imobiliária onde muitas propriedades sofreram desvalorizações de 30% ou 40%, e estes preços podem continuar em declive.
Como sempre, numa situação de angústia da dívida os únicos que ganham são aqueles que tem capacidade de poupar. Porque se um aforrador guardou 10.000 euros no começo do ano, ao fim de 12 meses esses 10 mil euros terão uma capacidade de compra muito maior. Mas sabemos que quem mais pode poupar em tempos de crise são justamente os mais ricos. Por isso não é estranho que os mais ricos dupliquem a sua riqueza com a crise.
O aumento dos encargos com a dívida que são enfrentados por 99 por cento da população, não só ameaça prolongar e aprofundar a atual estagnação económica, como pode provocar uma nova recessão em todo mundo. O Japão é um claro exemplo disto dado que depois de vinte anos de crise deflacionista, foi incapaz de superá-la apesar de ter aplicado um amplo instrumental de políticas fiscais e monetárias.
Pensa-se que a deflação é parte de uma tendência cíclica, pendular, habitual do ciclo económico. Os economistas ortodoxos imaginam o ciclo económico como um balancé que, ordenadamente, vive os seus auges e as suas quedas. Esta conceção do ciclo económico é muito diferente para Keynes, que assinalou que os ciclos correspondiam antes a um elevador: com subidas ou baixas violentas e longos períodos de estagnação.
Como vemos, a deflação é altamente perigosa porque potencia o desemprego e põe em sério risco o crescimento económico ao afundar o consumo e o investimento. Um período prolongado de deflação pode ter um efeito muito daninho na economia e esta foi, de facto, uma das principais causas da Grande Depressão dos anos 30 e do dano causado na economia do Japão nas últimas duas décadas.
Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
Agora que a inflação na zona euro continua o seu processo de baixa, começa a aumentar o risco real de uma séria queda na armadilha deflacionista. A deflação é altamente perigosa porque potencia o desemprego e põe em sério risco o crescimento económico ao afundar o consumo e o investimento. .
Gráfico 1 - taxa de inflação na zona euro
Quando em meados dos anos 90 começou no Japão uma onda deflacionista, os líderes da Europa e dos Estados Unidos atribuíram o facto a mais uma mais de tantas peculiaridades nipónicas. A deflação nos últimos 70 anos foi vista como um pesadelo longínquo já extinto e mal ocupa uma linha nos livros de estudo da economia convencional. A corrente monetarista encarregou-se de erradicar o termo assinalando que a política monetária tinha as ferramentas necessárias para evitar as crises e evitar esse estranho fenómeno da deflação.
No entanto, agora que a inflação na zona euro continua o seu processo de baixa, começa a aumentar o risco real de uma séria queda na armadilha deflacionista. A nível de toda a zona euro os preços terminaram 2013 com uma inflação de 0,8 por cento, muito abaixo da meta de 2 por cento estabelecida pelo Banco Central Europeu (BCE), como ilustra o gráfico 1. Os preços em Espanha terminaram com uma subida anual de 0,2 por cento (gráfico 2), enquanto na Grécia se registou uma queda de -2,9 por cento (gráfico 3). Isto indica que a deflação, ou a queda sistémica dos preços, começa a estender-se pela Europa no momento em que o BCE esgotou toda a sua bateria de recursos.
Gráfico2 - Taxa de inflação em Espanha
Se bem que a deflação, quando é por um período de tempo curto, tem efeitos positivos no consumo dado que gera um efeito riqueza, quando se prolonga no tempo tem efeitos perversos, mais ainda quando se trata de economias altamente endividadas e com elevado desemprego. Uma das principais causas da Grande Depressão dos ano 30 foi justamente a deflação que se seguiu ao início da crise em outubro de 1929. A deflação do Japão, depois de rebentar a bolha imobiliária em princípios dos anos 90, é outro exemplo do pernicioso que pode ser a deflação: o Japão ainda não recuperou da crise e acumulou duas décadas perdidas.
Agora que o fantasma da deflação percorre a Europa, a situação dos países europeus pode ser ainda mais grave. O Japão tem moeda soberana e pode aplicar políticas monetárias em seu próprio benefício, enquanto os países da zona euro estão ancorados à moeda única e a uma política que se pode ser muito boa para um país pode ser nefasta para outro. A crise encarregou-se de acentuar as diferenças que o período cor de rosa da união monetária ocultou.
Os efeitos negativos da deflação
Gráfico 3 - Taxa de inflação na Grécia
Nesta altura torna-se difícil negar que a Europa caiu na armadilha da deflação, e que o medo do fantasma deflacionista levou o BCE à sua histórica baixa nas taxas de juro para 0,25%. Pode o BCE continuar a baixar as taxas para 0,2% ou 0,1 por cento para evitar a deflação? Ou inundará de dinheiro o sistema para criar inflação e liquefazer a dívida, contendo o perigo de dois dos três “D” desta crise(dívida e deflação)?
Há duas razões fundamentais para compreender os problemas que recaem em cima do BCE com a deflação. Se fosse em circunstâncias normais, uma deflação poderia ser bem-vinda: a queda nos preços gera um efeito riqueza (aumento do salário real) que tende a aumentar o consumo das famílias. Pensa-se que a maior consumo, maior bem-estar. No entanto, quando a deflação se torna persistente e de longo prazo, começa a gerar problemas que, como um vírus troiano, corrói todo o sistema. Isto torna-se mais grave quando a deflação é acompanhada de um elevado nível de dívida e de históricos níveis no desemprego.
A deflação induz a diferir a despesa, dado que se espera que os preços caiam ainda mais, se adiem as decisões de consumo e investimento. Se comprar amanhã sai mais barato do que comprar hoje, inicia-se uma espiral destrutiva no consumo que obriga a reduzir ainda mais os preços para atrair cada vez menos compradores.
A redução dos preços no mercado retalhista transmite-se ao mercado grossista e golpeia os fabricantes, que se veem com um excesso de oferta e obrigados a reduzir a empresa, a produção e o emprego. Se o valor atual dos ativos é menor que o seu custo de reposição, não se justifica investir para repor o ativo e o investimento cai. O economista James Tobin foi quem encontrou esta relação e descreveu-a no seu “q de Tobin”: O investimento só se justifica quando o custo de reposição é menor que o valor do ativo, isto é quando “q” é maior que 1 (o valor do ativo está no numerador e o custo de reposição do ativo no denominador). Tobin encontrou esta importante relação ao analisar o papel do dinheiro na economia e desmentir as teses ortodoxas que indicam que o dinheiro é neutro.
Se os fabricantes reduzem a fábrica e deixam de investir (um fenómeno que também se pode ver no capital de risco) produz-se um excesso de oferta de trabalho, o que induz a quedas nos salários, mais desemprego e contração económica. Os efeitos da deflação sobre a economia real podem ser tão ou mais devastadores que os efeitos da inflação, o autêntico cancro da economia para a corrente convencional.
Encarecimento da dívida
Se a deflação impacta negativamente na economia real pelo lado do emprego e da produção, também o faz no lado monetário com o encarecimento da dívida. Se você comprou um ativo a crédito por 100.000 euros com uma taxa de juro anual de 10 por cento, em 12 meses tem uma dívida de 110.000 euros, e se o valor do ativo caiu em 10 por cento só vale 90.000 euros. Ao quarto ano, quanto você ainda continua a pagar o empréstimo, o ativo pode ter um valor de 70.000 ou 80.000 euros. É o que tem ocorrido com a crise imobiliária onde muitas propriedades sofreram desvalorizações de 30% ou 40%, e estes preços podem continuar em declive.
Como sempre, numa situação de angústia da dívida os únicos que ganham são aqueles que tem capacidade de poupar. Porque se um aforrador guardou 10.000 euros no começo do ano, ao fim de 12 meses esses 10 mil euros terão uma capacidade de compra muito maior. Mas sabemos que quem mais pode poupar em tempos de crise são justamente os mais ricos. Por isso não é estranho que os mais ricos dupliquem a sua riqueza com a crise.
O aumento dos encargos com a dívida que são enfrentados por 99 por cento da população, não só ameaça prolongar e aprofundar a atual estagnação económica, como pode provocar uma nova recessão em todo mundo. O Japão é um claro exemplo disto dado que depois de vinte anos de crise deflacionista, foi incapaz de superá-la apesar de ter aplicado um amplo instrumental de políticas fiscais e monetárias.
Pensa-se que a deflação é parte de uma tendência cíclica, pendular, habitual do ciclo económico. Os economistas ortodoxos imaginam o ciclo económico como um balancé que, ordenadamente, vive os seus auges e as suas quedas. Esta conceção do ciclo económico é muito diferente para Keynes, que assinalou que os ciclos correspondiam antes a um elevador: com subidas ou baixas violentas e longos períodos de estagnação.
Como vemos, a deflação é altamente perigosa porque potencia o desemprego e põe em sério risco o crescimento económico ao afundar o consumo e o investimento. Um período prolongado de deflação pode ter um efeito muito daninho na economia e esta foi, de facto, uma das principais causas da Grande Depressão dos anos 30 e do dano causado na economia do Japão nas últimas duas décadas.
Artigo de Marco Antonio Moreno, publicado em El Blog Salmón. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net
10.10.13
Portugal é o segundo país europeu com maiores necessidades de financiamento até 2015
Sérgio Aníbal, in Público on-line
Portugal é, entre os países classificados pelo FMI como avançados do Globo, o quarto com maiores necessidades de financiamento, sendo apenas superado na Europa pela Itália.
De acordo com o relatório Fiscal Monitor, publicado nesta quarta-feira pelo Fundo Monetário Internacional, o Estado português terá de obter, entre 2013 e 2015, financiamento bruto equivalente a 65,9% do PIB (qualquer coisa como 110 mil milhões de euros). Em 2013, ano para o qual o Governo disse já haver financiamento assegurado, é preciso um montante correspondente a 23,3% do PIB. Em 2014 serão 22,1% e em 2015 20,5%. Estes valores servem para o Estado substituir a dívida pública que atinge a maturidade e para fazer face aos novos défices.
No primeiro lugar da lista mundial está, a grande distância, o Japão, que tem necessidades de financiamento equivalentes a 170,7% do PIB. A seguir surgem a Itália e os Estados Unidos. Portugal ocupa o quarto lugar, imediatamente acima da Grécia, que segundo as contas do FMI terá necessidades de financiamento de 64,8% até 2015.
Estes números mostram o desafio que constitui para Portugal abandonar o financiamento da troika e passar a depender apenas dos mercados para obter os empréstimos de que necessita.
Aliás, no relatório hoje publicado, o FMI identifica as maiores fragilidades que cada país enfrenta a nível orçamental. No caso de Portugal, as principais preocupações estão precisamente na dimensão das necessidades brutas de financiamento do país. Com alerta vermelho surge também o nível da dívida, o potencial de crescimento e o nível das taxas de juro.
Num nível intermédio de preocupação surgem factores como o diferencial entre a taxa de crescimento e os juros, as previsões de aumento das despesas com saúde e pensões e as dívidas implícitas. O único factor onde o FMI não detecta fragilidades em Portugal é a evolução do défice primário ajustado do ciclo.
Portugal é, entre os países classificados pelo FMI como avançados do Globo, o quarto com maiores necessidades de financiamento, sendo apenas superado na Europa pela Itália.
De acordo com o relatório Fiscal Monitor, publicado nesta quarta-feira pelo Fundo Monetário Internacional, o Estado português terá de obter, entre 2013 e 2015, financiamento bruto equivalente a 65,9% do PIB (qualquer coisa como 110 mil milhões de euros). Em 2013, ano para o qual o Governo disse já haver financiamento assegurado, é preciso um montante correspondente a 23,3% do PIB. Em 2014 serão 22,1% e em 2015 20,5%. Estes valores servem para o Estado substituir a dívida pública que atinge a maturidade e para fazer face aos novos défices.
No primeiro lugar da lista mundial está, a grande distância, o Japão, que tem necessidades de financiamento equivalentes a 170,7% do PIB. A seguir surgem a Itália e os Estados Unidos. Portugal ocupa o quarto lugar, imediatamente acima da Grécia, que segundo as contas do FMI terá necessidades de financiamento de 64,8% até 2015.
Estes números mostram o desafio que constitui para Portugal abandonar o financiamento da troika e passar a depender apenas dos mercados para obter os empréstimos de que necessita.
Aliás, no relatório hoje publicado, o FMI identifica as maiores fragilidades que cada país enfrenta a nível orçamental. No caso de Portugal, as principais preocupações estão precisamente na dimensão das necessidades brutas de financiamento do país. Com alerta vermelho surge também o nível da dívida, o potencial de crescimento e o nível das taxas de juro.
Num nível intermédio de preocupação surgem factores como o diferencial entre a taxa de crescimento e os juros, as previsões de aumento das despesas com saúde e pensões e as dívidas implícitas. O único factor onde o FMI não detecta fragilidades em Portugal é a evolução do défice primário ajustado do ciclo.
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