Alexandra Campos (texto) e Rui Gaudêncio (fotografia), in Público on-line
A directora da Escola Nacional de Saúde Pública, Carla Nunes, acha que ainda estamos “no meio da pandemia”, não no princípio do fim, mas defende que “não há espaço” para um novo confinamento total da população.
Apesar de os números de novos casos de covid-19 estarem agora perto do nível dos registados em Abril, a directora da Escola Nacional de Saúde Pública, uma das especialistas ouvidas pelo Governo, acredita que a situação “não está descontrolada” em Portugal, ainda que seja “preocupante”. Carla Nunes sustenta que esta é já a terceira onda da epidemia de covid-19 no país, depois da primeira, em Abril, e da segunda “ondinha” observada após o desconfinamento. Sem querer avançar com previsões nem projecções, até porque “numa crise de saúde pública é preciso ter bastante cuidado com a gestão de expectativas”, a especialista em estatística e saúde pública defende que é preciso proteger com especial ênfase os mais desfavorecidos. “Os mais vulneráveis infectam-se mais porque não andam de carro, vivem em casas mais sobrelotadas. Depois, vem a crise económica e volta a bater neles”, justifica.
Estamos no meio da pandemia de covid-19 ou já no princípio do fim?
Acho que não estamos no princípio do fim, estamos no meio da pandemia. Estamos numa nova fase, com uma nova forma de actuar e temos que ver até que ponto as medidas que adoptamos agora se aguentam ou não com este novo normal instável. Estamos a aprender.
Já estamos na segunda vaga de covid-19?
Do ponto de vista técnico, tivemos aquela primeira onda no princípio e depois tivemos, no meio, entre Maio e Junho, uma segunda ondinha mais distendida no tempo, mais achatada. Agora há uma onda que se está a elevar ao nível da primeira. Mas não queremos fazer o corte que aconteceu na primeira, em que os números [de infecções] caíram por que nos fechamos todos.
Então esta é uma terceira onda, na sua perspectiva?
Certo. Em termos de comunicação, onda ou vaga são duas coisas diferentes. Uma vaga é uma onda muito grande. E este é o terceiro padrão distinto, é a terceira subida. A onda do meio foi perfeitamente suportável e, se este alto [888 novos casos na sexta-feira] se mantiver a este nível, está tudo bem. Se esta amplitude reflectir o impacto da reabertura das escolas e do regresso ao trabalho, enquanto andarmos nestas ondas aceitáveis para os serviços de saúde, ok. É uma situação de alerta, mas até ao momento não está descontrolada de todo e não há nada que leve a pensar, mesmo nas nossas simulações, que se vai descontrolar se as características se mantiverem. O efeito das máscaras vai atenuar um pouco o grande medo que é a mistura com as outras infecções [respiratórias] e a curva de internamentos não tem nada a ver com a curva inicial.
Na comparação com outros países, Portugal está relativamente bem, portanto?
Está como a maior parte dos países, numa fase crescente, de abertura. Portugal está numa situação esperada para a abertura que está a ocorrer, mas não é uma situação crítica, gritante. É preocupante, temos que ver se medidas adoptadas são ou não suficientes.
Pode vir a ser necessário um confinamento total da população, de novo?
Acho que não. Sinceramente, acho que não há espaço para isso. Neste momento não queremos fechar a porta, estamos a aprender a equilibrar a balança. Temos é que proteger as populações mais vulneráveis.
E confinamentos apenas em determinadas regiões ou locais?
Isso pode acontecer, sim.
Quantos novos casos por 100 mil habitantes serão suportáveis para que o Serviço Nacional de Saúde não colapse?
O nosso maior foco não está tanto no número de novos casos, mas sim no número de casos graves. Se os novos casos forem todos pessoas idosas, [sabe-se que] haverá um problema dentro de duas ou três semanas. O que temos [que contabilizar] é o número de camas nos hospitais, nomeadamente nas unidades de cuidados intensivos. Mas o número de ventiladores já foi aumentado e o número de camas não é fixo, há hospitais de campanha. Estamos confortáveis até ao momento. Continuamos muito abaixo em termos de taxas de ocupação. Esta é a questão central e inclui os profissionais de saúde, não são só camas. Agora, a situação é diferente da de Fevereiro ou Março. Na altura, quando havia um caso, [implicava identificar] três ou quatro pessoas, hoje, com um caso positivo, há 20 ou 30 pessoas que têm que ser contactadas rapidamente. Um caso são 30 casos.
Tem sido fácil aceder aos dados da DGS?
Não é fácil, mas a recolha de dados é complexa e os serviços de saúde não estão propriamente focados nisso. O médico de saúde pública tem outras tarefas para além de reportar dados para o sistema, é ele que faz os inquéritos epidemiológicos.
Na semana passada, na Comissão Parlamentar de Saúde, a directora-geral da Saúde ficou agastada com os deputados que puseram em causa o rigor dos dados oficiais e até disse que esta atitude nem é patriótica. Concorda?
Acho que estamos todos a fazer o nosso melhor e o tempo que perdemos a comentar não é útil, é ruído. Eu não sou política, sou da academia.
Os académicos têm sido ouvidos pelos políticos nas reuniões do Infarmed...
Sim, mas nas componentes técnicas. Temos contribuído com o nosso conhecimento que muitas vezes é limitado, porque esta é uma situação nova, não tem anos de investigação. Eles [os responsáveis políticos] têm que levar este conhecimento em conta e mais outras 500 componentes e decidir.
O projecto do barómetro que a escola lançou em Abril e que visa acompanhar a evolução da epidemia em Portugal prossegue?
Continua activo e foi reestruturado durante o mês de Agosto. O barómetro permitiu ver já qual era a percepção das pessoas sobre a pandemia, o problema do acesso aos serviços de saúde. Foi muito útil, por exemplo na questão das desigualdades, ao permitir perceber que cerca de 40% das pessoas [mais desfavorecidas do ponto de vista económico] já tinham perdido [em Abril] total ou parcialmente os seus rendimentos.
Foi dos primeiros a sinalizar que as coisas estavam a ficar muito complicadas. Foi um primeiro alerta: cuidado, isto está a bater forte e está a bater mais nas pessoas mais frágeis. A pandemia bate duas vezes nas populações mais desfavorecidas e vulneráveis, as que têm mais problemas económicos. Qualquer crise económica bate nas populações mais desfavorecidas primeiro, porque não têm espaço para perder rendimentos, [afecta] logo os bens básicos, a sopa. A própria forma de transmissão começa logo por ser desigual. Os mais vulneráveis infectam-se mais porque não andam de carro, vivem em casas mais sobrelotadas. Depois, vem a crise económica e volta a bater neles. Portanto, levam duas vezes.
O indicador que tem sido sistematicamente usado para se perceber como está a evoluir a epidemia é o Rt, que define o grau de transmissibilidade da infecção. Mas vários estudos sugerem que apenas 10 a 20% dos infectados podem ter sido responsáveis por um número elevado de contágios, os chamados supertransmissores ou supercontagiadores, e falam de um indicador mais complexo, o factor de dispersão K.
Tudo isto tem a ver com as características de quem emite, as do próprio vírus e as características do receptor. É sempre um jogo entre as três coisas. [Os supertransmissores] são pessoas que têm comportamentos de risco e que circulam muito. Um dos primeiros foi, em Itália, um homem que esteve em estâncias de esqui e que, à noite, cantava em vários bares. Cantar é das coisas piores porque projectamos a voz. Ao falar alto, projectamos a emissão de ar pela boca com mais força. O vírus transmite-se bem e depois ainda há a sorte ou o azar de quem está no outro lado ter ou não defesas [imunitárias], usar máscaras, estar distanciado, etc. O Rt é uma média. Se for igual a dois, cada caso dá origem a dois, mas há uns que dão origem a dez e há outros que não dão origem a nenhum. Este factor [k] pode ajudar a explicar a forma de transmissão, mas complica, esse é o problema. Modelar e quantificar os nossos comportamentos é complicado e arriscado. A matemática é uma ciência exacta, a estatística é uma ciência probabilística. Na estatística vivemos muito bem com o conceito de incerteza, porque trabalhamos sempre com probabilidades, na nossa conversa é um conceito normal. Mas o conceito de incerteza é o mais difícil de passar para fora.
Acha que vamos ter uma vacina em breve? E imunidade de grupo?
Estamos no caminho. Segundo os primeiros resultados do estudo serológico nacional, o valor da imunidade era baixo, de cerca de 3%. Este é um caminho longo a percorrer. A incerteza é brutal, sou um pouco conservadora neste aspecto. Numa crise de saúde pública é preciso ter bastante cuidado com a gestão de expectativas. Não há cenários dantescos mas também não acho que serão simples. A incerteza tem que ser assumida, só vamos perceber [o resultado] no final do jogo.
“A literacia em saúde pública é o maior desafio que temos pela frente”
A Escola Nacional de Saúde Pública acaba de lançar o projecto The Gate – Public Health Knowledge Centre. Em que consiste?
É um centro de conhecimento em saúde pública. É uma ideia que surgiu antes da covid-19 e que visa criar um museu vivo baseado em ciência. Em inglês diz-se life research museum… É uma ideia que já apresentamos a cerca de 20 parceiros, um dos quais é a Organização Mundial de Saúde. O objectivo é que as pessoas percebam o que é a saúde pública, que cada um de nós tem um papel na promoção da saúde das populações. A saúde pública é muito abrangente e é necessária uma consciência de saúde pública como foi criada uma consciência ambiental ao longo de anos. A literacia em saúde pública é o maior desafio que temos pela frente. Não podemos falhar esta oportunidade.
Este centro de conhecimento será apenas virtual?
Na primeira fase será totalmente virtual e mais tarde haverá um edifício em Lisboa ao pé da escola, mas o conceito é de itinerância digital, com carrinhas a percorrer o país e a levar o centro a todo o país.
Quando é que o The Gate começa a funcionar?
Em seis meses contamos ter montada a parte digital. Vai ser um website, mas não um site simples. Vai ser um site como têm alguns museus, que se podem visitar virtualmente. Há um centro de conhecimento em saúde pública em Atlanta, nos Estados Unidos, que tem campos de férias para miúdos. É o mais parecido com este projecto.
A Escola Nacional de Saúde Pública completou 52 anos, 25 dos quais dentro da Universidade Nova de Lisboa.
É uma capicua… a escola nasceu nos serviços de saúde e para responder às necessidades e desafios, dar formação aos profissionais de saúde. Depois tornamo-nos académicos [foi integrada na Universidade Nova de Lisboa]. Temos metade da nossa existência dentro do Ministério da Saúde e a outra metade dentro do Ministério da Ciência e Tecnologia. Esta é a grande marca da escola. No evento do lançamento do The Gate [na semana passada] tivemos cinco ex-ministros da Saúde, Maria de Belém, Correia de Campos, Fernando Leal da Costa, Adalberto Campos Fernandes e Paulo Macedo. E quatro destes foram ou são ainda professores na escola. Mas nós não contratamos ex-ministros. Correia de Campos e Adalberto Campos Fernandes já eram nossos professores antes de serem ministros e Maria de Belém foi nossa aluna antes de ser ministra. Nós formamos as elites, não contratamos as elites. Esta é a grande marca da escola.
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6.10.20
14.1.16
Zygmunt Bauman: “As redes sociais são uma armadilha”
Ricardo de Querol, in El País
Ele é a voz dos menos favorecidos. O sociólogo denuncia a desigualdade e a queda da classe média. E avisa aos indignados que seu experimento pode ter vida curta
Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.
O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.
Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.
Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.
Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?
Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.
"Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao precariat. O conflito já não é entre classes, mas de cada um com a sociedade”
P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?
R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.
P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?
R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.
ampliar foto
O sociólogo Zygmunt Bauman. / SAMUEL SÁNCHEZ
P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.
R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.
P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.
R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.
P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.
"O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são potentes e breves"
R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.
P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?
R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.
P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?
R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.
Estado de crise. Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni. Editora Zahar.
Ele é a voz dos menos favorecidos. O sociólogo denuncia a desigualdade e a queda da classe média. E avisa aos indignados que seu experimento pode ter vida curta
Zygmunt Bauman acaba de completar 90 anos de idade e de tomar dois voos para ir da Inglaterra ao debate do qual participa em Burgos (Espanha). Está cansado, e admite logo ao começar a entrevista, mas se expressa com tanta calma quanto clareza. Sempre se estende, em cada explicação, porque detesta dar respostas simples a questões complexas. Desde que colocou, em 1999, sua ideia da “modernidade líquida” – uma etapa na qual tudo que era sólido se liquidificou, e em que “nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso” –, Bauman se tornou uma figura de referência da sociologia. Suas denúncias sobre a crescente desigualdade, sua análise do descrédito da política e sua visão nada idealista do que trouxe a revolução digital o transformaram também em um farol para o movimento global dos indignados, apesar de que não hesita em pontuar suas debilidades.
O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense. Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.
Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida. Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar. O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.
Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.
Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?
Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes. A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.
"Foi uma catástrofe arrastar a classe media ao precariat. O conflito já não é entre classes, mas de cada um com a sociedade”
P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?
R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro... pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou. A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence... O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.
P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?
R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas. A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.
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O sociólogo Zygmunt Bauman. / SAMUEL SÁNCHEZ
P. Você sustenta que o movimento dos indignados “sabe como preparar o terreno, mas não como construir algo sólido”.
R. O povo esqueceu suas diferenças por um tempo, reunido na praça por um propósito comum. Se a razão é negativa, como se indispor com alguém, as possibilidades de êxito são mais altas. De certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são muito potentes e muito breves.
P. E você também lamenta que, por sua natureza “arco íris”, o movimento não possa estabelecer uma liderança sólida.
R. Os líderes são tipos duros, que têm ideias e ideologias, o que faria desaparecer a visibilidade e a esperança de unidade. Precisamente porque não tem líderes o movimento pode sobreviver. Mas precisamente porque não tem líderes não podem transformar sua unidade em uma ação prática.
P. Na Espanha, as consequências do 15-M chegaram à política. Novos partidos emergiram com força.
"O 15-M, de certa forma, foi uma explosão de solidariedade, mas as explosões são potentes e breves"
R. A mudança de um partido por outro não vai a resolver o problema. O problema hoje não é que os partidos estejam equivocados, e sim o fato de que não controlam os instrumentos. Os problemas dos espanhóis não estão restritos ao território nacional, são globais. A presunção de que se pode resolver a situação partindo de dentro é errônea.
P. Você analisa a crise do Estado-nação. Qual é a sua opinião sobre as aspirações independentistas da Catalunha?
R. Penso que continuamos com os princípios de Versalhes, quando se estabeleceu o direito de cada nação baseado na autodeterminação. Mas isso, hoje, é uma ficção porque não existem territórios homogêneos. Atualmente, todas as sociedades são uma coleção de diásporas. As pessoas se unem a uma sociedade à qual são leais, e pagam impostos, mas, ao mesmo tempo, não querem abrir mão de suas identidades. A conexão entre o local e a identidade se rompeu. A situação na Catalunha, como na Escócia ou na Lombardia, é uma contradição entre a identidade tribal e a cidadania de um país. Eles são europeus, mas não querem ir a Bruxelas por Madri, mas via Barcelona. A mesma lógica está emergindo em quase todos os países. Mantemos os princípios estabelecidos no final da Primeira Guerra Mundial, mas o mundo mudou muito.
P. As redes sociais mudaram a forma como as pessoas protestam e a exigência de transparência. Você é um cético sobre esse “ativismo de sofá” e ressalta que a Internet também nos entorpece com entretenimento barato. Em vez de um instrumento revolucionário, como alguns pensam, as redes sociais são o novo ópio do povo?
R. A questão da identidade foi transformada de algo preestabelecido em uma tarefa: você tem que criar a sua própria comunidade. Mas não se cria uma comunidade, você tem uma ou não; o que as redes sociais podem gerar é um substituto. A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos, e controlar as pessoas com quem você se relaciona. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias. Elas são desenvolvidas na rua, ou no trabalho, ao encontrar gente com quem se precisa ter uma interação razoável. Aí você tem que enfrentar as dificuldades, se envolver em um diálogo. O papa Francisco, que é um grande homem, ao ser eleito, deu sua primeira entrevista a Eugenio Scalfari, um jornalista italiano que é um ateu autoproclamado. Foi um sinal: o diálogo real não é falar com gente que pensa igual a você. As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.
Estado de crise. Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni. Editora Zahar.
14.4.14
Façam a Páscoa olhando pelos mais desfavorecidos"
por Lusa, publicado por Luís Manuel Cabral, in Diário de Notícias
Na primeira mensagem de Páscoa enquanto Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente apelou hoje aos portugueses para que façam a Páscoa "olhando em redor", acompanhando os mais desfavorecidos e carenciados.
"Façamos esta Páscoa olhando em redor, vendo aquelas situações e circunstâncias onde a Páscoa ainda não se deu, porque as pessoas estão sós, estão desacompanhadas, nao têm trabalho, não têm saúde, nao têm companhia. Façamos a Páscoa aí", afirmou o bispo.
CLIQUE AQUI PARA VER A MENSAGEM DE MANUEL CLEMENTE
Recordando que Páscoa significa "passagem", Manuel Clemente apelou aos católicos para que pratiquem "uma dedicação que se assemelhe à de Jesus".
A mensagem de Páscoa foi divulgada hoje apenas em formato vídeo na página oficial do Patriarcado de Lisboa em http://www.patriarcado-lisboa.pt/site/.
Esta é a primeira mensagem pascal de Manuel Clemente, 64 anos, enquanto Patriarca de Lisboa, cargo que asssumiu no verão de 2013, sucedendo ao cardeal José Policarpo.
Na primeira mensagem de Páscoa enquanto Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente apelou hoje aos portugueses para que façam a Páscoa "olhando em redor", acompanhando os mais desfavorecidos e carenciados.
"Façamos esta Páscoa olhando em redor, vendo aquelas situações e circunstâncias onde a Páscoa ainda não se deu, porque as pessoas estão sós, estão desacompanhadas, nao têm trabalho, não têm saúde, nao têm companhia. Façamos a Páscoa aí", afirmou o bispo.
CLIQUE AQUI PARA VER A MENSAGEM DE MANUEL CLEMENTE
Recordando que Páscoa significa "passagem", Manuel Clemente apelou aos católicos para que pratiquem "uma dedicação que se assemelhe à de Jesus".
A mensagem de Páscoa foi divulgada hoje apenas em formato vídeo na página oficial do Patriarcado de Lisboa em http://www.patriarcado-lisboa.pt/site/.
Esta é a primeira mensagem pascal de Manuel Clemente, 64 anos, enquanto Patriarca de Lisboa, cargo que asssumiu no verão de 2013, sucedendo ao cardeal José Policarpo.
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