Texto de Sara Moreira, in Público on-line (P3)
Especialistas acreditam que o número de jovens que emigraram dos países do Sul de Europa seja o dobro do registado, porque muitos não alteram a residência. O projecto de investigação Generation E recolheu histórias de mais destes 1200 jovens emigrados desde que a crise financeira se instalou
Nos últimos anos, a emigração portuguesa atingiu números que ultrapassam o máximo histórico registado no final dos anos 60, em plena guerra colonial. Desde 2010, mais de 200 mil portugueses entre os 20 e os 40 anos deixaram oficialmente o país (como emigrantes permanentes, por um período superior a um ano, ou temporários). E há razões para crer que as estimativas oficiais pecam por defeito.
A liberdade de circulação permitida pelo acordo de Schengen e a falta de registos oficiais de saídas dificultam a monitorização do fenómeno. “Estimar e caracterizar a emigração de um país requer que se compilem os dados sobre a entrada e permanência dos emigrantes desse país nos países de destino”, destaca o Relatório Estatístico da Emigração Portuguesa de 2014 sobre o facto de apenas serem feitos os registos da imigração.
Só o número de entradas registadas nos três países com mais imigração portuguesa em 2013 - Reino Unido, Suíça, Alemanha, num total de 55.910 indivíduos - é mais elevado do que aquele que é apontado pelo INE para as saídas permanentes no mesmo ano para todos os destinos (53.786).
Ficam números por contar. No livro "Expulsions: Brutality and Complexity in the Global Economy", lançado em Maio de 2014, a socióloga e especialista em questões de migração e globalização Saskia Sassen refere-se aos casos daqueles que não entram para as estatísticas como “eventos invisíveis”.
É o caso da emigração dos jovens emigrantes italianos. Segundo estimativas do website "Fuga dei Talenti" e a pesquisa da jornalista italiana Claudia Cucchiarato, autora do livro Vivo Altrove, as saídas de jovens italianos do seu país serão cerca do dobro das registadas pelo AIRE, o organismo responsável pela monitorização destes fluxos. "Um aspecto fundamental para quem deixa Itália é que, com o registo no AIRE perde, entre outras coisas, o direito à assistência médica", indica o site do Observatório dos Italianos em Berlim.
O mesmo alerta é feito pela socióloga espanhola Amparo González, que liga a falta de dados fiáveis à ausência de estímulos positivos para que os emigrantes espanhóis se registem. Por enquanto, aqueles que mudam oficialmente de residência para outro país “perdem o acesso ao seu médico de família, depois de três meses a viver no exterior."
A tendência para a invisibilidade estatística foi confirmada pelo projecto Generation E: 532 dos 1221 jovens emigrantes que participaram num inquérito lançado no início de Setembro não registaram oficialmente a sua mudança de residência. O projecto de investigação em causa foi desenvolvido por uma equipa internacional de jornalistas que pretende descortinar os fluxos invisíveis da emigração jovem dos países europeus mais afectados pela crise económica.
“Quando a crise se generalizou no Sul da Europa, decidimos procurar algo mais para o Norte, algo que nos desse mais estabilidade”. Por essa altura, 2012, Joana Moreno estava a viver em Barcelona com o namorado. Tinha então 29 anos, uma experiência Erasmus em Milão, um bom emprego na capital catalã e o plano de regressar a Portugal “assim que a situação melhorasse”. Mas o plano teve de ser adiado. Ao verem os pais perder o emprego em Portugal, Joana e o seu companheiro não quiseram arriscar o mesmo futuro. Mudaram-se para a Suécia, onde já estão há dois anos, e dizem que valeu a pena, que “a vida melhorou bastante, profissionalmente e monetariamente”. Compraram apartamento no início de Setembro, e, de momento, é por ali que querem ficar.
Joana faz parte de uma geração activa, produtiva e fértil que tem deixado aos milhares os países do Sul da Europa nos últimos anos. Como ela, mais de 1200 pessoas entre os 20 e os 40 anos, de Portugal, Espanha, Itália e Grécia contaram a sua história ao projecto Generation E.
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração - Jovens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração - Jovens. Mostrar todas as mensagens
25.11.14
11.4.14
Jovens emigrantes lançam manifesto "Esse país também é nosso"
in RR
Exigem que a questão da emigração "forçada" seja tema na campanha das eleições europeias.
"Esse país também é nosso" é o nome de um manifesto lançado por jovens emigrantes portugueses qualificados, que pretendem que "a realidade avassaladora da emigração" seja tema de debate nas eleições europeias.
A ideia de lançar o manifesto surgiu da vontade de jovens emigrados "à força" de "fazerem alguma coisa" pelo seu país, numa altura em que se aproximam as eleições europeias de 25 de Maio, disse à agência Lusa Rodrigo Rivera.
"Achamos que se está a falar muito pouco da nossa situação enquanto portugueses emigrados à força" e, por isso, considerámos "importante pautar as eleições europeias" com esta temática, adiantou o jovem, que emigrou com a mulher para o Brasil em Setembro.
Para Rodrigo Rivera, é preciso discutir as razões que levam "centenas de milhares de pessoas" a saírem por ano de Portugal.
"O último número oficial foi 120 mil. Acho que é uma situação bastante gravosa", lamentou o jovem com formação em Relações Internacionais.
Do Brasil ao Camboja
O manifesto é assinado por uma jovem escritora, por arquitectos, economistas, investigadores, designers, entre outros, emigrados em vários países europeus, no Brasil e no Camboja.
"Somos todos jovens qualificados, nalguns casos ainda estudantes, e não encontramos nenhuma saída profissional em Portugal que seja digna", disse Rodrigo Rivera.
Há muitos jovens com mestrados, doutoramentos e que "não conseguem encontrar um trabalho que pague mais de 500 ou 600 euros e, provavelmente, não é na área deles", lamentou.
No manifesto, os jovens afirmam que encontraram fora de Portugal "a oportunidade" que o país lhes negou.
"Muitos de nós pertencem à geração mais qualificada de sempre, uma formação conseguida com muitos sacrifícios, pessoais e familiares, mas também com o investimento de todos nos serviços públicos de educação. Um percurso que chocou contra a parede do desemprego e da precariedade", acrescentam.
Rodrigo Rivera adiantou que o manifesto tem "alguns dias" e já reuniu cerca de duas dezenas de assinaturas.
O objectivo é "chegar a muito mais gente", porque "a realidade da emigração em Portugal é avassaladora neste momento" e "tem que haver uma reposta política séria a esta situação".
Para estes jovens, o PSD e PS estão a "apresentar propostas que não são dignas de momento". "Simplesmente ignoram a nossa situação de portugueses emigrados contra a sua própria vontade e ignoram também que queremos voltar para Portugal", justificam.
Rodrigo Rivera frisou que estes jovens querem "mesmo voltar" para Portugal: "Temos saudades do nosso país, queremos contribuir para o seu desenvolvimento e vemo-nos obrigados a viver fora do país."
Exigem que a questão da emigração "forçada" seja tema na campanha das eleições europeias.
"Esse país também é nosso" é o nome de um manifesto lançado por jovens emigrantes portugueses qualificados, que pretendem que "a realidade avassaladora da emigração" seja tema de debate nas eleições europeias.
A ideia de lançar o manifesto surgiu da vontade de jovens emigrados "à força" de "fazerem alguma coisa" pelo seu país, numa altura em que se aproximam as eleições europeias de 25 de Maio, disse à agência Lusa Rodrigo Rivera.
"Achamos que se está a falar muito pouco da nossa situação enquanto portugueses emigrados à força" e, por isso, considerámos "importante pautar as eleições europeias" com esta temática, adiantou o jovem, que emigrou com a mulher para o Brasil em Setembro.
Para Rodrigo Rivera, é preciso discutir as razões que levam "centenas de milhares de pessoas" a saírem por ano de Portugal.
"O último número oficial foi 120 mil. Acho que é uma situação bastante gravosa", lamentou o jovem com formação em Relações Internacionais.
Do Brasil ao Camboja
O manifesto é assinado por uma jovem escritora, por arquitectos, economistas, investigadores, designers, entre outros, emigrados em vários países europeus, no Brasil e no Camboja.
"Somos todos jovens qualificados, nalguns casos ainda estudantes, e não encontramos nenhuma saída profissional em Portugal que seja digna", disse Rodrigo Rivera.
Há muitos jovens com mestrados, doutoramentos e que "não conseguem encontrar um trabalho que pague mais de 500 ou 600 euros e, provavelmente, não é na área deles", lamentou.
No manifesto, os jovens afirmam que encontraram fora de Portugal "a oportunidade" que o país lhes negou.
"Muitos de nós pertencem à geração mais qualificada de sempre, uma formação conseguida com muitos sacrifícios, pessoais e familiares, mas também com o investimento de todos nos serviços públicos de educação. Um percurso que chocou contra a parede do desemprego e da precariedade", acrescentam.
Rodrigo Rivera adiantou que o manifesto tem "alguns dias" e já reuniu cerca de duas dezenas de assinaturas.
O objectivo é "chegar a muito mais gente", porque "a realidade da emigração em Portugal é avassaladora neste momento" e "tem que haver uma reposta política séria a esta situação".
Para estes jovens, o PSD e PS estão a "apresentar propostas que não são dignas de momento". "Simplesmente ignoram a nossa situação de portugueses emigrados contra a sua própria vontade e ignoram também que queremos voltar para Portugal", justificam.
Rodrigo Rivera frisou que estes jovens querem "mesmo voltar" para Portugal: "Temos saudades do nosso país, queremos contribuir para o seu desenvolvimento e vemo-nos obrigados a viver fora do país."
7.3.14
Cavaco diz a jovens para tentarem agricultura em vez de emigração
in RR
Jovens agricultores queixaram-se dos elevados custos de produção, as dificuldades no escoamento dos produtos, em competir com outros países e ainda a demora no retorno financeiro.
O Presidente da República desafiou os jovens a tentarem uma “experiência na agricultura” como alternativa ao desemprego e à emigração, salientando que a agricultura pode mesmo ajudar Portugal a ter uma recuperação económica mais rápida.
“Precisamos de convencer mais jovens que esta pode ser uma actividade rentável e que em lugar de irem para o estrangeiro para tentarem encontrar um emprego, podem, eventualmente, beneficiando dos apoios que agora serão reforçados, fazer uma experiência na agricultura”, afirmou, esta sexta-feira, numa visita ao Algarve.
Aníbal Cavaco Silva falava durante um encontro com jovens agricultores de todo o Algarve, numa exploração agrícola em Tavira, encontro em que esteve também presente a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, durante a qual os agricultores falaram das dificuldades da actividade.
Durante o debate de ideias, que reuniu 60 jovens agricultores da região, o chefe do Estado português manifestou-se ainda confiante de que o sector da agricultura pode ajudar a "reduzir o endividamento" do país, contribuindo para "manter o superavit" das contas externas.
"A agricultura é hoje um dos sectores que contam para que Portugal tenha uma recuperação económica mais rápida", declarou, acrescentando que está a contar com a "colaboração forte" da agricultura.
Durante o encontro, os jovens agricultores tiveram a oportunidade de expor alguns dos problemas com que se deparam na sua actividade, nomeadamente os elevados custos de produção, as dificuldades no escoamento dos produtos, em competir com outros países e ainda a demora no retorno financeiro.
Após a deslocação a Tavira, Cavaco Silva seguirá para o concelho de Loulé, onde visitará uma exploração pecuária e queijaria e pomares de citrinos.
A visita ao Algarve termina no concelho de Silves, com uma visita a estufas de frutos vermelhos.
Jovens agricultores queixaram-se dos elevados custos de produção, as dificuldades no escoamento dos produtos, em competir com outros países e ainda a demora no retorno financeiro.
O Presidente da República desafiou os jovens a tentarem uma “experiência na agricultura” como alternativa ao desemprego e à emigração, salientando que a agricultura pode mesmo ajudar Portugal a ter uma recuperação económica mais rápida.
“Precisamos de convencer mais jovens que esta pode ser uma actividade rentável e que em lugar de irem para o estrangeiro para tentarem encontrar um emprego, podem, eventualmente, beneficiando dos apoios que agora serão reforçados, fazer uma experiência na agricultura”, afirmou, esta sexta-feira, numa visita ao Algarve.
Aníbal Cavaco Silva falava durante um encontro com jovens agricultores de todo o Algarve, numa exploração agrícola em Tavira, encontro em que esteve também presente a ministra da Agricultura, Assunção Cristas, durante a qual os agricultores falaram das dificuldades da actividade.
Durante o debate de ideias, que reuniu 60 jovens agricultores da região, o chefe do Estado português manifestou-se ainda confiante de que o sector da agricultura pode ajudar a "reduzir o endividamento" do país, contribuindo para "manter o superavit" das contas externas.
"A agricultura é hoje um dos sectores que contam para que Portugal tenha uma recuperação económica mais rápida", declarou, acrescentando que está a contar com a "colaboração forte" da agricultura.
Durante o encontro, os jovens agricultores tiveram a oportunidade de expor alguns dos problemas com que se deparam na sua actividade, nomeadamente os elevados custos de produção, as dificuldades no escoamento dos produtos, em competir com outros países e ainda a demora no retorno financeiro.
Após a deslocação a Tavira, Cavaco Silva seguirá para o concelho de Loulé, onde visitará uma exploração pecuária e queijaria e pomares de citrinos.
A visita ao Algarve termina no concelho de Silves, com uma visita a estufas de frutos vermelhos.
16.12.13
Presidente da CIP defende políticas europeias para evitar emigração de jovens
in Jornal de Notícias
O presidente da Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, defendeu esta sexta-feira, em Leiria, políticas de investimento europeias como uma estratégia de evitar a emigração de jovens qualificados.
Falando à margem do III Encontro Empresarial da Diáspora, organizado pela Nerlei - Associação Empresarial da Região de Leiria, António Saraiva considerou que é preciso "saber desenvolver o mercado interno" e "promover políticas de investimento público e privado, gerar fatores de crescimento e dar um ambiente mais favorável a essa promoção de investimento e de crescimento".
Para o empresário, a saída dos jovens qualificados do país "não é uma questão meramente portuguesa", mas da "União Europeia".
"Se a União Europeia der uma resposta, os Estados-membros vão ser arrastados para esse objetivo", disse António Saraiva, alertando, no entanto, que Portugal "não pode ficar sentado à espera que outros façam o seu trabalho".
O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) reforçou a importância de Portugal "remover os obstáculos da estrada do desenvolvimento económico", que "são muitos".
"A burocracia, a justiça, o licenciamento e a reforma da administração pública" são alguns dos fatores que António Saraiva enumerou como "impedimentos para que o desenvolvimento económico se faça de uma forma mais fácil".
O empresário questionou ainda que, se apesar destes problemas, Portugal aumentou a exportação para novos mercados, "o que não seria se esses obstáculos não existissem?"
"Seguramente estaríamos muito melhor. Estando melhor, o país criava mais emprego, desenvolvia mais empresas, apareciam novos negócios, ganhávamos mais encomendas? Enfim, desenvolvimento e crescimento numa só palavra", acrescentou.
Para António Saraiva, este é o caminho para "tamponar esta sangria de jovens que abandonam (o país), porque não sentem futuro em Portugal" e para "reduzir o desemprego estrutural, que dificilmente será resolvido se não forem tomadas medidas concretas com esse objetivo".
O presidente da CIP considerou que este é o "desafio" para Governo, empresários, dirigentes sindicais, dirigentes patronais. "É um desafio coletivo, que a todos nos deve animar. Este drama social do elevado desemprego, esta falta de esperança aos nossos jovens não se pode manter. Temos de persistir nas políticas de desenvolvimento económico, sob pena de não resolvermos o nosso problema", rematou.
O presidente da Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, defendeu esta sexta-feira, em Leiria, políticas de investimento europeias como uma estratégia de evitar a emigração de jovens qualificados.
Falando à margem do III Encontro Empresarial da Diáspora, organizado pela Nerlei - Associação Empresarial da Região de Leiria, António Saraiva considerou que é preciso "saber desenvolver o mercado interno" e "promover políticas de investimento público e privado, gerar fatores de crescimento e dar um ambiente mais favorável a essa promoção de investimento e de crescimento".
Para o empresário, a saída dos jovens qualificados do país "não é uma questão meramente portuguesa", mas da "União Europeia".
"Se a União Europeia der uma resposta, os Estados-membros vão ser arrastados para esse objetivo", disse António Saraiva, alertando, no entanto, que Portugal "não pode ficar sentado à espera que outros façam o seu trabalho".
O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) reforçou a importância de Portugal "remover os obstáculos da estrada do desenvolvimento económico", que "são muitos".
"A burocracia, a justiça, o licenciamento e a reforma da administração pública" são alguns dos fatores que António Saraiva enumerou como "impedimentos para que o desenvolvimento económico se faça de uma forma mais fácil".
O empresário questionou ainda que, se apesar destes problemas, Portugal aumentou a exportação para novos mercados, "o que não seria se esses obstáculos não existissem?"
"Seguramente estaríamos muito melhor. Estando melhor, o país criava mais emprego, desenvolvia mais empresas, apareciam novos negócios, ganhávamos mais encomendas? Enfim, desenvolvimento e crescimento numa só palavra", acrescentou.
Para António Saraiva, este é o caminho para "tamponar esta sangria de jovens que abandonam (o país), porque não sentem futuro em Portugal" e para "reduzir o desemprego estrutural, que dificilmente será resolvido se não forem tomadas medidas concretas com esse objetivo".
O presidente da CIP considerou que este é o "desafio" para Governo, empresários, dirigentes sindicais, dirigentes patronais. "É um desafio coletivo, que a todos nos deve animar. Este drama social do elevado desemprego, esta falta de esperança aos nossos jovens não se pode manter. Temos de persistir nas políticas de desenvolvimento económico, sob pena de não resolvermos o nosso problema", rematou.
29.11.12
Souto Moura: 'Jovens podem ir para fora sossegados'
por Fernanda Pedro, in Sol
Aconselha os jovens arquitectos lusos a emigrarem, porque não há trabalho no mercado nacional. Vencedor de um Pritkzer, Eduardo Souto Moura revela que só tem projectos no estrangeiro, mas prefere a cultura portuguesa do 'desenrasca'.
Como é que os arquitectos portugueses conseguem sobreviver?
Eu acho que não conseguem. Não é agradável dizer isto, principalmente à gente nova. O Estado não investe porque não pode, os privados porque não lhes emprestam dinheiro e, portanto, não há encomendas. E se não há encomendas, não há arquitectura. O que tenho aconselhado à minha filha e aos meus amigos é que passem uns tempos fora. Antigamente, as pessoas emigravam e, como há 20 mil arquitectos cá, quando regressavam perdiam trabalho. Agora podem ir para fora sossegados, para onde quiserem, porque aqui não se vai fazer nada. Também não acho mal que se passe uma experiência fora, porque a legislação e os métodos de trabalho são diferentes. Em Portugal ainda existe muito individualismo, eu próprio sou assim e é um defeito. Foi assim com os arquitectos com quem trabalhei e sou uma espécie de continuidade desse individualismo, ou egoísmo. Mas a tendência é, cada vez mais, trabalhar-se em equipa. O arquitecto não pode ser especialista, tem de conjugar circunstâncias, organizar equipas e quando faz um hospital, por exemplo, tem de arranjar técnicos de hospitais.
A arquitectura portuguesa está bem representada a nível internacional? Ter ganho um Pritzker pode ser um estímulo para os jovens?
Está muito bem representada lá fora. Já nem quero falar na geração antes da minha, como o Siza, que foi o arquitecto que mais prémios ganhou. Não digo isto por ser amigo dele, mas rebentou todas as escalas possíveis. Depois, existe a minha geração, dos 50 e 60 anos, que veio das escolas de Lisboa ou do Porto, que já está instalada e também ganhou prémios. Mas fico satisfeito, porque muitos de uma nova geração saíram das escolas, emigraram, fizeram estágio, voltaram e começaram logo a fazer obras. Não é normal para um país com 10 milhões de pessoas existir um nível médio tão alto como nos arquitectos portugueses. Daí que sinta uma certa angústia por esta gente, que tem tudo para chegar longe, viver num momento em que o país está com problemas de produção.
Tem mais trabalho no estrangeiro ou em Portugal?
Só tenho trabalho lá fora. Não tenho nada em Portugal. Só um projecto possível, a barragem de Foz Tua, que neste momento está suspensa pela UNESCO sem se saber se a obra avança ou não.
Sente pena disso?
Gosto muito mais de trabalhar em Portugal, não só porque é cansativo viajar, mas também porque estou mais adaptado à maneira de trabalhar do nosso país. Aqui temos a cultura do desenrasca. Numa emergência, há sempre um carpinteiro que dá a mão ao serralheiro, pega no carro e vai comprar parafusos. E se está aflito porque alguma coisa não corre bem, há o primo do tio que é amigo do vereador. É um meio pequeno, em que todos se conhecem, e ao longo da história fomos obrigados a não ser especialistas ricos. Lá fora as coisas são mais programadas, mais especializadas, mas eu habituei-me a trabalhar com um certo imprevisto, um caos organizado. Depois penso que o resultado não é mau e é muito mais agradável trabalhar assim.
Tem esperança de fazer um grande projecto português em breve?
A esperança é a última coisa a morrer. Tenho, mas nos próximos tempos acho que não. Fomos os últimos a parar quando chegou a crise, porque em qualquer projecto o que está por detrás implica muita coisa, não é fácil. Um empreendimento tem os bancos atrás, comprou terrenos, demorou a ser aprovado, envolveu muita gente e, de repente, parou tudo, mas arrastou-se até ao limite possível. Tenho obras a acabar em situação limite, de improviso, porque o crédito acabou e tem de se fazer qualquer coisa.
A reabilitação pode ser a grande saída para os arquitectos?
Poder pode. A reabilitação é mais cara do que a construção nova, mas naturalmente tem de ser feita. Porque se as pessoas não tratam o seu património perdem a memória e a sua identidade própria e desaparece o país. Mas não quer dizer que isso vá acontecer. Se alguém quer arranjar um prédio antigo e vai ao banco, também não é fácil conseguir empréstimo.
Então é de opinião que a reabilitação não vai salvar o sector…
Quer dizer, a construção precisa de dinheiro, seja para reabilitar, fazer campus universitários, fábricas, habitação social ou de luxo, para mover a economia. Os países desenvolvidos têm indústrias. Na Alemanha vendem as Leicas, os Volkswagen, os BMW, e nos países menos desenvolvidos, o barómetro são os sacos de cimento. Pelo número de sacos de cimento mede-se o estado da economia. Por exemplo, na Itália é o número de camiões nas auto-estradas. O que é preciso ganhar é optimismo e ele ganha-se com investimento.
O que espera do futuro?
Tenho a sorte de trabalhar fora enquanto puder, e dar umas aulas também fora, e assim aguentar o meu escritório. Mas não sei se aguento, é muito cansativo e é uma actividade que não se resolve por telefone ou por carta, é muito presencial. Mas sou um optimista por natureza.
Aconselha os jovens arquitectos lusos a emigrarem, porque não há trabalho no mercado nacional. Vencedor de um Pritkzer, Eduardo Souto Moura revela que só tem projectos no estrangeiro, mas prefere a cultura portuguesa do 'desenrasca'.
Como é que os arquitectos portugueses conseguem sobreviver?
Eu acho que não conseguem. Não é agradável dizer isto, principalmente à gente nova. O Estado não investe porque não pode, os privados porque não lhes emprestam dinheiro e, portanto, não há encomendas. E se não há encomendas, não há arquitectura. O que tenho aconselhado à minha filha e aos meus amigos é que passem uns tempos fora. Antigamente, as pessoas emigravam e, como há 20 mil arquitectos cá, quando regressavam perdiam trabalho. Agora podem ir para fora sossegados, para onde quiserem, porque aqui não se vai fazer nada. Também não acho mal que se passe uma experiência fora, porque a legislação e os métodos de trabalho são diferentes. Em Portugal ainda existe muito individualismo, eu próprio sou assim e é um defeito. Foi assim com os arquitectos com quem trabalhei e sou uma espécie de continuidade desse individualismo, ou egoísmo. Mas a tendência é, cada vez mais, trabalhar-se em equipa. O arquitecto não pode ser especialista, tem de conjugar circunstâncias, organizar equipas e quando faz um hospital, por exemplo, tem de arranjar técnicos de hospitais.
A arquitectura portuguesa está bem representada a nível internacional? Ter ganho um Pritzker pode ser um estímulo para os jovens?
Está muito bem representada lá fora. Já nem quero falar na geração antes da minha, como o Siza, que foi o arquitecto que mais prémios ganhou. Não digo isto por ser amigo dele, mas rebentou todas as escalas possíveis. Depois, existe a minha geração, dos 50 e 60 anos, que veio das escolas de Lisboa ou do Porto, que já está instalada e também ganhou prémios. Mas fico satisfeito, porque muitos de uma nova geração saíram das escolas, emigraram, fizeram estágio, voltaram e começaram logo a fazer obras. Não é normal para um país com 10 milhões de pessoas existir um nível médio tão alto como nos arquitectos portugueses. Daí que sinta uma certa angústia por esta gente, que tem tudo para chegar longe, viver num momento em que o país está com problemas de produção.
Tem mais trabalho no estrangeiro ou em Portugal?
Só tenho trabalho lá fora. Não tenho nada em Portugal. Só um projecto possível, a barragem de Foz Tua, que neste momento está suspensa pela UNESCO sem se saber se a obra avança ou não.
Sente pena disso?
Gosto muito mais de trabalhar em Portugal, não só porque é cansativo viajar, mas também porque estou mais adaptado à maneira de trabalhar do nosso país. Aqui temos a cultura do desenrasca. Numa emergência, há sempre um carpinteiro que dá a mão ao serralheiro, pega no carro e vai comprar parafusos. E se está aflito porque alguma coisa não corre bem, há o primo do tio que é amigo do vereador. É um meio pequeno, em que todos se conhecem, e ao longo da história fomos obrigados a não ser especialistas ricos. Lá fora as coisas são mais programadas, mais especializadas, mas eu habituei-me a trabalhar com um certo imprevisto, um caos organizado. Depois penso que o resultado não é mau e é muito mais agradável trabalhar assim.
Tem esperança de fazer um grande projecto português em breve?
A esperança é a última coisa a morrer. Tenho, mas nos próximos tempos acho que não. Fomos os últimos a parar quando chegou a crise, porque em qualquer projecto o que está por detrás implica muita coisa, não é fácil. Um empreendimento tem os bancos atrás, comprou terrenos, demorou a ser aprovado, envolveu muita gente e, de repente, parou tudo, mas arrastou-se até ao limite possível. Tenho obras a acabar em situação limite, de improviso, porque o crédito acabou e tem de se fazer qualquer coisa.
A reabilitação pode ser a grande saída para os arquitectos?
Poder pode. A reabilitação é mais cara do que a construção nova, mas naturalmente tem de ser feita. Porque se as pessoas não tratam o seu património perdem a memória e a sua identidade própria e desaparece o país. Mas não quer dizer que isso vá acontecer. Se alguém quer arranjar um prédio antigo e vai ao banco, também não é fácil conseguir empréstimo.
Então é de opinião que a reabilitação não vai salvar o sector…
Quer dizer, a construção precisa de dinheiro, seja para reabilitar, fazer campus universitários, fábricas, habitação social ou de luxo, para mover a economia. Os países desenvolvidos têm indústrias. Na Alemanha vendem as Leicas, os Volkswagen, os BMW, e nos países menos desenvolvidos, o barómetro são os sacos de cimento. Pelo número de sacos de cimento mede-se o estado da economia. Por exemplo, na Itália é o número de camiões nas auto-estradas. O que é preciso ganhar é optimismo e ele ganha-se com investimento.
O que espera do futuro?
Tenho a sorte de trabalhar fora enquanto puder, e dar umas aulas também fora, e assim aguentar o meu escritório. Mas não sei se aguento, é muito cansativo e é uma actividade que não se resolve por telefone ou por carta, é muito presencial. Mas sou um optimista por natureza.
13.9.12
Um milhão de jovens vai deixar Portugal nos próximos anos
por Rosário Silva, in RR
A dificuldade em encontrar emprego vai levar muitos jovens, a curto prazo, a emigrar em busca de uma vida melhor. Preocupações registadas no final do IV Congresso Português de Demografia, que juntou 200 especialistas na área.
A presidente da Associação Portuguesa de Demografia alerta para o facto de que muitos jovens portugueses vão sair do país nos próximos anos, por falta de emprego.
Maria Filomena Mendes, também investigadora da Universidade de Évora, antevê a perda de um milhão de pessoas, em Portugal, nas próximas duas décadas, cenário que classifica de preocupante.
“Muito provavelmente, no curto prazo, nós vamos aumentar a emigração de jovens, porque os jovens não tem emprego e porque o emprego é cada vez mais precário. As pessoas para constituírem família, para saírem de casa dos pais ou para decidirem ter filhos, a estabilidade financeira é fundamental. Isso vai obviamente ter as suas implicações,” afirma.
Sai a população jovem activa, diminui o número de nascimentos em Portugal e o país também não consegue renovar-se, retendo os imigrantes. “Estamos a falar fundamentalmente de população jovem em idade activa e de nascimentos. Quem sai, em vez de ter os filhos em Portugal, vai tê-los noutros países, aumentando o número de nascimentos nesses países e diminuindo no nosso. Portanto, há uma redução por via da emigração (da saída), temos muito mais dificuldade em captar imigrantes e retê-los aqui e, por outro lado, isto tem influência na fecundidade e no número de nascimentos que vamos ter,” explica Maria Filomena Mendes.
As preocupações ficaram registadas no final do IV Congresso Português de Demografia que durante dois dias juntou duas centenas de especialistas na Universidade de Évora e onde os efeitos da crise na população portuguesa foi tema incontornável.
A dificuldade em encontrar emprego vai levar muitos jovens, a curto prazo, a emigrar em busca de uma vida melhor. Preocupações registadas no final do IV Congresso Português de Demografia, que juntou 200 especialistas na área.
A presidente da Associação Portuguesa de Demografia alerta para o facto de que muitos jovens portugueses vão sair do país nos próximos anos, por falta de emprego.
Maria Filomena Mendes, também investigadora da Universidade de Évora, antevê a perda de um milhão de pessoas, em Portugal, nas próximas duas décadas, cenário que classifica de preocupante.
“Muito provavelmente, no curto prazo, nós vamos aumentar a emigração de jovens, porque os jovens não tem emprego e porque o emprego é cada vez mais precário. As pessoas para constituírem família, para saírem de casa dos pais ou para decidirem ter filhos, a estabilidade financeira é fundamental. Isso vai obviamente ter as suas implicações,” afirma.
Sai a população jovem activa, diminui o número de nascimentos em Portugal e o país também não consegue renovar-se, retendo os imigrantes. “Estamos a falar fundamentalmente de população jovem em idade activa e de nascimentos. Quem sai, em vez de ter os filhos em Portugal, vai tê-los noutros países, aumentando o número de nascimentos nesses países e diminuindo no nosso. Portanto, há uma redução por via da emigração (da saída), temos muito mais dificuldade em captar imigrantes e retê-los aqui e, por outro lado, isto tem influência na fecundidade e no número de nascimentos que vamos ter,” explica Maria Filomena Mendes.
As preocupações ficaram registadas no final do IV Congresso Português de Demografia que durante dois dias juntou duas centenas de especialistas na Universidade de Évora e onde os efeitos da crise na população portuguesa foi tema incontornável.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

