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26.6.18

IDA ainda é um tabu. “Negaram-me um aperto de mão em pleno séc. XXI”

in RR

Com o objetivo de cumprir as metas internacionais para a deteção precoce do vírus VIH, entrou em vigor, em Maio, o despacho que autoriza a realização de testes rápidos de rastreio de infeções por VIH nas farmácias comunitárias. Mas será que profissionais e sociedade estão preparados para acolher esta iniciativa com a naturalidade que se exige? Visitámos uma instituição que há mais de 20 anos foi uma das pioneiras no acompanhamento aos doentes com VIH: o Centro viHda+, da Cáritas Diocesana de Coimbra.

Ouça a reportagem de Liliana Carona
Na Europa, estima-se que 15 % das pessoas que vivem com VIH não se encontrem diagnosticadas, ou seja, uma em cada sete não sabe que está infetada, prevendo-se que em Portugal esse valor possa ser inferior a 10 %. Mas a taxa de diagnóstico tardio da doença mantém-se das mais elevadas registadas na União Europeia.
O Centro viHda+, em Coimbra, foi pioneiro no acompanhamento psicológico e social, dos doentes com SIDA. Uma doença com mais de 30 anos de conhecimento que ainda é tabu, porque é associada a grupos marginais. Em Portugal, estima-se que mais de 20 mil pessoas tenham SIDA, que continua a ser uma doença mortal.
A SIDA é a consequência tardia de uma infecção pelo VIH (vírus da imunodeficiência humana) e é por isso que se fala de síndrome de imunodeficiência humana adquirida. Uma deficiência avançada no sistema imunitário que pode conduzir ao desenvolvimento de doenças graves ou mesmo à morte.

“Ouvir música, contar anedotas, rimo-nos um dos outros”. São assim passados os serões na sala de convívio do Centro viHda+, da Cáritas diocesana de Coimbra. Uma espécie de centro de dia, das 9h00 às 21h00, aberto todos os dias do ano. “Tem alturas que parece uma casa de segredos”, deixa-se rir Luís Simões, de 53 anos, que se apressa a dizer que, no seu caso, não há segredos. Não se importa de ser fotografado. Dá o nome verdadeiro, porque diz não ter nada a esconder.

“Não tenho que esconder, porque ninguém me obrigou a nada. Se estou nesta situação, fui eu próprio que procurei. Quem faz asneiras sofre as consequências”, começa por contar à Renascença, sobre a sua história de vida. Luís lembra-se de ter sido militar e de outros trabalhos que teve em empresas de Coimbra. Mas o que não esquece mesmo foi o ano de 2002. “Foi por minha estupidez, com uma seringa de um colega que já não é vivo. Eu sabia que ele tinha VIH, ele avisou-me várias vezes, mas eu não liguei, estava a ressacar. Tive as consequências disso tempos mais tarde, em 2002. Quando soube, andei ano e meio em que queria esquecer tudo e todos. Era um excesso tão grande de cocaína heroína, haxixe, ácidos...”, recorda.

Há dez anos, decidiu mudar de vida. Bateu à porta do Centro viHda+, da Cáritas Diocesana de Coimbra, e, desde então, nunca mais voltou a consumir drogas. “Vim aqui ter através da equipa de rua do centro, ainda consumia. Tive a ajuda que precisava, principalmente a nível psicológico. Ajudaram-me a passar uma fase muito má, fui sobrevivendo. No dia-a-dia, basta efaltar umas horas aqui, se eu não aparecer para o pequeno-almoço, estão me a ligar para saber onde ando”, diz em tom de agradecimento.

Centro viHda+ Foto: Liliana Carona/RR
Estigma começa em casa
Mas nem todos os infetados com o vírus VIH contraíram a doença em contexto de drogas. A Marta, nome fictício, 45 anos, aconteceu-lhe, há 12 anos, o que nunca imaginou que pudesse acontecer. “Eu sabia dos riscos, mas nunca pensei que pudesse contrair por relação sexual desprotegida. Ele não me avisou. E só foi descoberto o vírus por análises, porque eu não tinha sintomas”, partilha.

O mais difícil para Marta tem sido apresentar a doença em casa. “A minha mãe não me quis em casa, tinha que lavar a loiça à parte, o meu filho não podia beber do mesmo copo que eu. A minha mãe não tinha formação sobre a doença. Sem esta casa da Cáritas, não ia ter ajuda”, conta.

Também Luís se queixa do mesmo. “Viver em casa da minha irmã é complicado, sempre com paranóias, tenho que desinfetar tudo. Às vezes, digo-lhe, 'tens tanta informação, eu vou-vos infetar como?'”.

Luís e Marta são dois dos utentes do Centro viHda+. Carole de Oliveira é a directora técnica e psicóloga que acompanha os 36 utentes diagnosticados com VIH. “Este projeto começou a surgir na sequência de outros que já existiam em 2000. Prestamos um apoio muito diversificado: social, jurídico, psicológico, passando por outras questões como a higiene. Temos serviço de balneário, porque alguns utentes não têm quarto de banho, e serviço de refeições, lavandaria...”, enumera a responsável, salientando que, “a Cáritas há muitos anos que olha para este próximo, que é quem mais precisa de ajuda”.

A principal preocupação de quem acompanha os doentes com VIH é o estigma social. Para Carole de Oliveira, a SIDA ainda é vista como um tabu. “A pessoa com VIH tem uma vida perfeitamente normal. Ficamos muito espantados, existe muita discriminação e muito estigma e, às vezes, até nas categorias em que menos se espera como na área de saúde. Partilhar talheres não é um comportamento de risco, dar um aperto de mão não é um comportamento de risco, cumprimentar não é comportamento de risco e é nestas questões que o doente continua a sentir-se discriminado”, denuncia.

Para quebrar as fronteiras do tabu, o assistente social Rui Sousa trabalha como mediador. “Tento parecer invisível, como se fosse um amigo, para que aquela pessoa seja tratada de forma igual. Notamos, quando acompanhamos os utentes a alguns serviços, que existe preconceito. Não os maltratam, mas não lhes dão atenção devida. Basta uma pessoa com cabelo pintado, ou com piercings, basta isso para a pessoa ser tratada de maneira diferente”, conta.

A principal luta é conseguir arranjar trabalho. São raros os casos de sucesso. Sem querer dizer o nome, há uma funcionária da Cáritas, de 58 anos, que há 19 conseguiu, a juntar ao apoio recebido, trabalho ali mesmo. “Faço o que for necessário: ajudar os utentes em tudo, desde refeições a lavar loiça, limpar a casa... Sou VIH positiva desde os 35 anos e precisava sair do lodo. Queria sobreviver, já sou avó e nunca mais voltei a estar mal. Queria viver e vivi e hei-de viver o tempo que Deus quer. Tenho aqui pessoas que são família, a família não está no sangue”, desabafa.

Vítor Silva anda aprender carpintaria. Aos 49 anos, sonha ter um trabalho. “Eu gosto de criar na carpintaria. O formador ensina-nos. E também faço cadeirões em paletes. Desde que aqui estou, está tudo bem. São impecáveis”, garante o aprendiz de carpintaria.

Testes VIH disponíveis nas farmácias
A luta pela qualidade de vida dos doentes com VIH é uma constante e, quanto mais rápido for feito o diagnóstico, melhor é para o doente, sublinha Fátima Lima, médica de família há mais de 30 anos. “Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais capacidade temos de iniciar tratamento e de lhes dar qualidade de vida. Relativamente ao facto de agora poderem ser feitos os testes de diagnósticos nas farmácias e nos centros de laboratório, são mais organismos que podem intervir no diagnóstico precoce”, defende a médica.

Recentemente, o governo publicou o despacho que que autoriza a realização de testes rápidos (testes “point of care”) de rastreio de infeções por VIH nas farmácias comunitárias e laboratórios de análises clínicas. A iniciativa tem por objetivo, atingir metas internacionais, no âmbito do programa das Nações Unidas sobre o VIH e Sida (ONUSIDA), explica Ema Paulino, da Ordem dos Farmacêuticos: “São as metas 90-90-90 em que se pretende que 90% da população que vive com o vírus esteja diagnosticada, que, entre aqueles que estão diagnosticados, 90% esteja em tratamento, e, dos que 100% que estão em tratamento, 90% estejam controlados e não apresentem manifestações da doença."

"Estamos convictos que esta possibilidade dada às farmácias e aos laboratórios de análises clínicas e da realização destes testes, possa contribuir para os diagnósticos. Em Espanha, onde já se faz estes testes, 10% das pessoas diagnosticadas em 2016 foram-no nas farmácias. Uma percentagem significativa”, garante Ema Paulino.

Mas quem passou pelo medo de ir fazer o teste desconfia do sigilo de ir a uma farmácia. Marta e Joana [nomes fictícios] estão nestas circunstâncias: "Poucos irão fazer isso. Um toxicodependente jamais se dirigirá a uma farmácia para fazer o teste, vai pensar que vai passar dali. Num hospital, há mais conforto e sigilo. Quase tenho a certeza de que poucos se vão dirigir a um farmácia. É mais provável fazer numa equipa de rua. É difícil entrar numa farmácia, pedir um teste do VIH”, afirma Joana, cuja opinião é partilhada por Marta: “Eu nunca iria a uma farmácia. Não era capaz.”

Ema Paulino, da Ordem dos Farmacêuticos, insiste, contudo, que todos os cuidados estão a ser tomados e a formação dos profissionais começa em Setembro. “É uma formação certificada pela Ordem dos Farmacêuticos e contém cuidados, quer ao nível da realização do próprio teste como ao nível comunicacional, porque estas doenças ainda são encaradas por parte da população como algo estigmatizante e é importante que o farmacêutico esteja preparado para comunicar o resultado”, explica.

“Primeiro vai decorrer a formação dos profissionais e, depois, a implementação, que vai ter em conta questões como manutenção da privacidade, confidencialidade e prevê que o teste possa ser feito de forma anónima”, reforça Ema Paulino.

"Uma pessoa dirige-se à farmácia, pode ou não identificar-se. O teste é feito logo e em poucos minutos sabe-se o resultado. Ainda não sabemos é quanto vai custar, é um serviço que não é suportado pelo Serviço Nacional de Saúde, mas será pago pelo cidadão. Poderá não ter preços semelhantes em todas as farmácias”, conta.

Ema Paulino não tem dúvidas de que a iniciativa será bem aceite por todos, até porque relembra, a representante da Ordem dos Farmacêuticos, está a decorrer com sucesso, um projecto-piloto para a dispensa de medicamentos anti-retrovirais nas farmácias. “O estudo piloto que está a decorrer, nas farmácias da zona de Lisboa que foram convidadas a participar, e neste momento já temos 200 farmácias com farmacêuticos formados para poder fazer essa dispensa, houve logo uma grande adesão”, assegura.

Ainda um tabu
O psicólogo Marco Pereira, que estuda e investiga a doença, não tem dúvidas em afirmar que a SIDA ainda é um tabu. “Ainda é, apesar de ser uma doença com mais de 30 anos de conhecimento", afirma, convicto.
Sobre as causas para esta realidade, o psicólogo aponta "falta de conhecimento ou não-procura ativa de formação", uma vez que a doença "continua associada a grupos marginais, embora segundo os dados nacionais, a maioria dos casos, quase 60%, são diagnosticados em pessoas que referem transmissão heterossexual e não são propriamente outros grupos".

“Cada vez mais, surgem diagnósticos tardios e em idades avançadas, a partir dos 50 anos de idade, idosos”, indica Marco Pereira.

O tabu e o estigma social associados ao VIH já foram sentidos na pele de Luís Simões. “Essa do aperto de mão passou-se comigo. Estive internado e perguntaram-me onde tinha estado e, quando ia para apertar a mão, já não quiseram. 'Deixa lá isso', em pleno séc. XXI. Fiquei de boca aberta, não tive reação nenhuma, cada um tem a sua ignorância”, diz sem, no entanto, desanimar. Aos 53 anos, mantém a atitude positiva perante a vida: ”Não me posso queixar muito, ganhei mais vitórias do que perdi, o que me dá mais ânimo, pelo tempo que tenho pela frente.”

Luís Simões tem um sonho por concretizar. Comprou uma guitarra e gostava que alguém que o ensinasse a tocar tão bem com Joe Satriani. “Em último caso tenho que tentar aprender sozinho, mas é um sonho grande, tocar uma noite com o Joe Satriani”…

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que divulgou, no final do ano passado, o relatório anual sobre a situação da infeção VIH e SIDA em Portugal, encontram-se registados cumulativamente 56.001 casos de infeção por VIH, dos quais 21.614 de SIDA, em que o diagnóstico aconteceu entre 1983 e final de 2016 e 11.020 óbitos em casos de infeção por VIH, ocorridos no mesmo período.

23.1.18

Apanha-se sida por um talher? 27% dos jovens acham que sim

Ana Maia, in Público on-line

Também há quem pense que pode ficar infectado por um espirro. Dados fazem parte do estudo Vida Sem Sida, uma parceria da Universidade de Lisboa e do projecto Aventura Social, que mostra também que menos de 40% dos jovens usam sempre preservativo.

Mais de um quarto dos jovens (27%) ainda acha que pode ser infectado com VIH se comer ou beber de pratos, talheres e copos que já tenham sido usados por uma pessoa infectada e 12% acreditam que podem contrair a doença se alguém com VIH tossir ou espirrar perto deles. São resultados do estudo Vida Sem Sida, uma parceria da Universidade de Lisboa e do projecto Aventura Social, que mostra também que menos de 40% dos jovens usam sempre preservativo.

Do público-alvo fazem parte jovens entre os 18 e os 24 anos, de três grupos: universitários; do programa Escolhas (que abrange uma população mais desfavorecida) e da rede Instituto Português do Desporto e da Juventude. No total, participaram no inquérito 1166 pessoas, de todas as regiões e ilhas. O questionário esteve online entre 25 de Abril e 10 de Junho do ano passado. O projecto foi financiado com um prémio que o grupo de investigadores recebeu do laboratório Gilead.

“Queríamos estudar os comportamentos sexuais e como as coisas tinham evoluído”, diz Margarida Gaspar de Matos, uma das investigadoras, autora de vários estudos sobre os jovens portugueses. Quiseram avaliar dois grupos muito diferentes: por um lado, jovens universitários com mais regalias e acesso a informação e, por outro, jovens em situação de subemprego ou desemprego provenientes de uma população mais vulnerável. Embora a amostra não seja representativa do todo nacional, Gaspar de Matos esclarece que é representativa dos dois universos que responderam.

O estudo — que é apresentado neste sábado na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa — mostrou que ainda há mitos a quebrar. Como o de que usar talheres, pratos ou copos que já tenham sido usados por uma pessoa infectada pode levar à transmissão da doença — 27% dos 1166 participantes acreditam nisso —, ou que o VIH pode ser transmitido através de um espirro (12%). Mas há mais: cerca de 5% acreditam que uma pessoa pode ficar infectada ao abraçar alguém doente e outros tantos dizem que quem parece muito saudável não está doente.

Margarida Gaspar de Matos considera “incrível” que depois de tantos anos a falar sobre o VIH ainda existam mitos como estes. “Quando não sabem as formas de transmissão, desenvolvem conhecimentos errados, estereótipos e crenças falsas como ‘vejo pelo aspecto do rapaz que não tem sida’. Outro lado negativo, do ponto de vista social, é acharem que a pessoa infectada não pode ir onde as outras vão.”

Preservativo em queda

INSA lança estudo sobre infecções sexualmente transmissíveis nos jovens
O estudo relembra que em Portugal, "os últimos dados referem que 33,3% dos infectados situam-se na faixa etária dos 15 aos 29 anos e 15,6% têm idades entre os 15 e 24 anos". Não é por isso de estranhar que a investigadora destaque como igualmente preocupante o facto de apenas 37,7% dos jovens inquiridos afirmarem que usam sempre preservativo.

Muitos, sobretudos os homens e os não universitários, têm a percepção de que estão em risco de contrair a doença. “Podem ter essa percepção, mas não a transformam em comportamentos de protecção. Nos anos 1980, o risco de transmissão era sobretudo associação ao uso de seringas, hoje o risco é sexual. E as pessoas não se protegem”, alerta.

11.5.15

Este cartaz é HIV positivo

Ana Sofia Rodrigues, RTP

A campanha é de uma ONG brasileira contra a discriminação de seropositivos, que gravou um vídeo com a reação de quem parou a ver um cartaz com gotas de sangue contaminado.

"Eu sou um cartaz HIV positivo". A frase, simples, surge ao lado de uma pequena gota de sangue. Uma gota de sangue de uma pessoa com HIV.

O vídeo com a reação das pessoas ao cartaz foi partilhado nas redes sociais no final de Abril.

A campanha é da Organização Não-Governamental brasileira Grupo de Incentivo à Vida, que conta com mais de 25 anos de trabalho no combate à discriminação de pessoas com HIV/SIDA. É ela que assina o primeiro cartaz no mundo com uma gota de sangue seropositivo.

"Sou exatamente como qualquer outro cartaz, com um detalhe: eu sou HIV positivo. É isso mesmo que você leu. Sou portador de vírus. Nesse momento você pode estar dando um passo para trás e se perguntando se eu ofereço perigo", pode ler-se no cartaz.

Não oferece qualquer perigo. O vírus não sobrevive mais de uma hora fora do corpo humano. O "medo" de chegar perto do cartaz seria o equivalente ao medo que qualquer pessoa teria de uma pessoa seropositiva. A ideia é essa. Mostrar que "qualquer pessoa pode conviver normalmente com alguém que é seropositivo", lê-se no site da organização.

O "cartaz humanizado" faz o paralelo com uma pessoa portadora do vírus. Nove voluntários forneceram amostras de sangue para a criação de 300 cartazes, colocados nas ruas de São Paulo, mas também em faculdades e bares.

5.3.15

Médicos alarmados com número de jovens que não têm medo de vir a ter sida

Marta Reis, in iOnline

Médicos estão preocupados com a “banalização” da doença, ao ponto de se pensar que ser infectado permite mais liberdade

Noites em discotecas que terminam com as pessoas todas sem roupa, embriagadas e sem se lembrarem sequer se usaram ou não preservativo nas relações com desconhecidos. Encontros e festas combinados através de aplicações como o Grindr ou o Scruff, mais utilizadas por homossexuais, onde por vezes é assumido que vão estar seropositivos e a protecção não é regra. Estes são alguns relatos que começam a preocupar os médicos que acompanham casos de VIH no país. Se as situações extremas surpreendem, a grande preocupação contudo é que os jovens, homossexuais e heterossexuais, parecem estar cada vez mais descuidados no sexo e a desvalorizar o impacto da doença.

“Os relatos mais desviantes de que ouvimos falar acabam por ser reflexo de uma banalização transversal da doença entre os jovens”, diz Paulo Rodrigues, director do serviço de infecciologia do Hospital de Loures. Sendo fenómenos que ocorrem em Portugal como no estrangeiro, o médico insiste contudo que orgias e festas sexuais não são as situações mais comuns. “Sempre houve promiscuidade, a questão de fundo é que as pessoas e em particular os jovens parecem estar a proteger-se menos. As festas estarão por trás de 1% dos casos, quando a grande maioria resulta não de comportamentos desviantes mas de descuidos.”

Da experiência deste médico, a maioria dos novos casos em jovens resulta de relações fortuitas em saídas em bares, festas com colegas da faculdade ou do trabalho em que existe menor preocupação com o uso do preservativo. Um infecciologista de um grande hospital do Norte, que prefere não se identificar, concorda. “Um caso genérico habitual é de um jovem que vai sair, bebe, tem relação desprotegida com alguém que conhece e nunca mais vê. Até fica preocupado, faz o teste passadas duas semanas mas dá negativo porque é demasiado cedo. E só mais tarde, ou porque em alguns casos há sintomas, é que percebe que se infectou”, diz o médico, testemunhando haver uma crescente desvalorização da doença mensurável em pequenas coisas, por agora subjectivas. “Nunca tive nenhum doente que me dissesse que ter VIH ou não lhe fosse indiferente, mas quando dizemos que vamos testar para o VIH e é como se disséssemos que vamos testar diabetes ou a pessoa chega com o diagnóstico e diz que é só tomar um comprimido nota-se uma mudança”, explica. “Nos novos diagnósticos em idades jovens as pessoas não parecem ficar surpreendidas, aceitam-nos melhor e é quase como estivessem à espera.”

Outra infecciologista do Centro Hospitalar Lisboa Central diz que por vezes a desvalorização da doença chega a ser assustadora, sobretudo quando já não se trata de falta de informação. Se entre os jovens heterossexuais, o receio da gravidez ainda obriga muitas vezes a utilização do preservativo, entre os rapazes homossexuais a médica admite que a situação é preocupante e que têm surgido nas consultas jovens com 18 e 19 anos. “A maioria não usa preservativo. Como são jovens a relacionar-se com jovens da mesma idade pensam que o risco é baixo e às vezes até parece que existe a ideia de que, como já é tão incidente, é possível ter uma vida normal, trabalhar, tomar a medicação sem os efeitos secundários do passado, e ser infectado permite mais liberdade.” A médica admite que existem relatos de festas sexuais mas acha pouco provável que em Portugal haja situações em que é partilhada medicação anti-retroviral entre parceiros ocasionais em festas, como sucede na prática do bareback descrita nos EUA e no Brasil. “Em Portugal a dispensa de anti--retrovirais é muito controlada nos hospitais”, diz.

Para Paulo Rodrigues, mais que estigmatizar grupos, importa reflectir sobre como se chegou a esta encruzilhada. E essa será uma história agridoce. Por um lado, resultará da melhoria nos tratamentos, da sobrevivência e da diminuição das doenças oportunistas desde os anos 90. Por outro, do esforço que houve para a não discriminação dos seropositivos. Mas com isto suavizou-se a doença. “Apesar de grandes melhorias, o normal é não estar infectado”, diz o médico, defendendo ser necessária menos “cerimónia” na informação aos jovens. “O preservativo diminui a sensação de prazer, mas não a elimina.

E se uma pessoa for infectada terá de usar preservativo para sempre mesmo em relações duradouras.” Também o infecciologista do Norte defende que as campanhas deixem de passar a informação “a metade”, pois as sequelas do VIH existem. E apesar de a maioria das pessoas, com a nova medicação, lidarem bem com a infecção, por ano há mais de 200 mortes, também entre jovens.

Neste esforço, Paulo Rodrigues defende ser importante não voltar a cometer o “erro” de centralizar a análise da despreocupação em grupos como os homossexuais ou populações migrantes e interiorizar que por detrás das infecções estão comportamentos e não grupos. E mais de 60%dos casos no país surgem em contexto heterossexual.

A preocupação é que no futuro os casos de infecção VIH/sida tornem a subir, receio que vem de por exemplo a nível europeu estarem a aumentar outras infecções sexuais, como sífilis ou gonorreia. Os últimos dados nacionais apontam apenas um ligeiro aumento do peso das infecções em homossexuais jovens. Mas como muitos diagnósticos ainda são tardios, o comportamento que hoje preocupa os médicos poderá só se reflectir mais tarde nas estatísticas. Em relação à protecção houve um alerta recente. O último estudo Marktest sobre a atitude da população face à infecção, de 2013, revelou um retrocesso no uso de preservativo.

29.1.15

Mais de um terço dos juvens nunca ouviu falar da Sida

in TVI24

Estudo com 113 jovens de Lisboa revela ainda que a maioria tem comportamentos de saúde adequados

Um estudo que envolveu 113 jovens de Lisboa, com idades entre os 9 e os 13 anos, revela que a maioria tem comportamentos de saúde adequados, no entanto, mais de um terço nunca tinha ouvido falar da Sida.

Estas são alguns dos primeiros resultados do Young Health Programme (YHP) - Like ME , programa de intervenção e promoção da saúde mental juvenil, realizado pelo Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa, em articulação com a Médicos do Mundo (MdM), apresentado esta quarta-feira.

As conclusões revelam que os jovens têm comportamentos de saúde adequados, baixa percentagem de comportamentos de risco e bullying enquanto agressores e uma perceção positiva da autoestima e autoconceito .

Em matéria de saúde, a maioria destes jovens afirma já ter ouvido falar sobre a Sida ou sobre o VIH, mas 37 deles, mais de um terço, revelaram nunca ter ouvido falar desta doença.

Segundo o estudo, apenas cinco dos inquiridos já tinham iniciado a vida sexual, quatro dos quais revelaram que aconteceu entre os 10 e os 11 anos, com um, três ou quatro parceiros .

No último mês dois jovens indicaram ter tido relações sexuais com uma pessoa.

Na última vez que tiveram relações sexuais, quatro destes cinco jovens não usaram preservativo ou qualquer método anticoncecional.

O estudo salienta ainda que pouco menos de metade dos jovens foi a uma consulta de dentista, exame de rotina ou tratamento dentário nos últimos 12 meses, sendo que 11% nunca recorreu a estes profissionais de saúde.

No que respeita a experiências com tabaco, ingestão de bebidas alcoólicas e consumo de drogas, foram negadas pela maioria dos jovens.

Quatro deles, no entanto, fumaram um cigarro inteiro entre os 5 e os 11 anos, 17% consumiram bebidas alcoólicas entre os 6 e os 13, e a maioria nunca experimentou marijuana, LSD, ácido, ecstasy ou cogumelos.

Quanto à condução sob efeito do álcool, um dos jovens referiu ter conduzido 21 vezes sob esse efeito no último mês, indica o estudo, salientando que, ao nível dos comportamentos de segurança, 73,5% nunca usaram capacete ao andar de bicicleta nos últimos 12 meses, mas 61,1% utilizam cinto de segurança sempre que andam de carro.

Este trabalho de investigação concluiu ainda que, no último ano, a maioria dos jovens não se sentiu triste ou sem esperança, nem pensou em magoar-se a si próprio intencionalmente.

No entanto, é de registar que 5,4% dos jovens fez planos ou tentou magoar-se a si próprio intencionalmente.

Os comportamentos de agressão para com terceiros também são raros, sendo mais frequentes contra colegas do que contra professores.
Os jovens revelam principalmente comportamentos de observação de agressão , seguidos de comportamentos de vitimização e, só por último, comportamentos de agressão.

A maioria nunca transportou uma arma branca ou de fogo e não faltou à escola por se sentir inseguro, mas envolveu-se em lutas físicas duas vezes no último ano, metade das quais no recinto escolar.

O estudo conclui que os jovens revelam diferentes perceções, embora de forma geral positivas: razoável competência e desempenho escolares, boas competências sociais, boa perceção da sua aparência, razoável competência atlética e comportamento.
O objetivo deste estudo, lançado em fevereiro de 2013, foi o de caracterizar, em matéria de saúde, de 'bullying', de autoestima e de autoconceito, as populações juvenis inseridas nos diversos projetos de intervenção comunitária integradas no "YHP - Like ME" na Região de Lisboa.

Este programa de responsabilidade social pretende, até 2015, aumentar em 30% a autoestima e, em 10%, o número de jovens capacitados na área da saúde mental, sendo direcionado a menores entre os 10 e 12 anos, integrados em projetos Escolhas, com pouco acesso a cuidados de saúde e em situação de vulnerabilidade, alterações no desenvolvimento ou problemas comportamentais relacionados com a imagem e a autoestima.

3.12.12

Por ano nascem mais de 250 bebés de mães com VIH/Sida

Romana Borja-Santos, in Público on-line

Cármen chegou a casa. A mãe estava sentada a chorar no sofá com um envelope mal escondido atrás das costas. “Disse-me que eu tinha sida. Tinha acabado de ler a minha sentença de morte e todos pensavam que eu ia morrer. Caiu o mundo”, descreve aos 39 anos.

O diagnóstico foi feito há 16 anos. Hoje, ainda lhe dói pensar na loiça separada e desinfectada que passou a ter só para si em casa dos pais.

“Tinha medo de falar com as pessoas porque para mim, na minha cabeça, o VIH estava escrito na testa”, conta. Agora muitos dos problemas foram ultrapassados. E o motivo chama-se Patrícia, o nome fictício que escolheu para esconder a identidade da filha. Cármen conseguiu concretizar o principal sonho que chegou a pensar ter-lhe sido roubado pela doença: ser mãe.

Patrícia tem agora três anos e, apesar de a mãe ter o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), precursor da sida, nasceu saudável e tem umas bochechas e uns caracóis que são o orgulho de Cármen. Como ela, entre 1999 e 2010 nasceram 2656 crianças em risco de infecção, sendo que em 70 casos houve transmissão da mãe para o bebé, segundo dados avançados ao PÚBLICO pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA). Em 2010 já nasceram 264 crianças de mães com VIH, com a taxa de transmissão nos 1,9%, o que significa que houve cinco positivos para o vírus. Os números de 2011 ainda não estão disponíveis visto que as crianças são acompanhadas durante um ano.

“Nunca tive medo de morrer. Tenho esta doença mas sinto-me uma mulher realizada e nunca baixei a cabeça. Em qualquer sítio tomo sempre muito cuidado porque há gente que posso pôr em risco, mas se tiver atenções redobradas não há problema”
Paula

Ainda assim, estes são números muito diferentes dos de 1999, quando nasceram 97 crianças, seis delas infectadas, o que corresponde a uma taxa de 6,2% – a mais elevada até hoje. Desde 2001 que o número de crianças tem-se mantido acima das 200 por ano, com a percentagem de transmissão com algumas flutuações mas com tendência para baixar para números na casa dos 2%. Porém, diz o INSA, “nos últimos cinco anos observou-se uma estabilização das taxas de transmissão”, o que se deve sobretudo a casos em que as mães não fazem a medicação.

Lidar com a morte
A redução das taxas anuais de transmissão mãe-filho do VIH para níveis próximos do 1% até 2016 é precisamente um dos principais objectivos do Programa Nacional para a Infecção VIH/Sida, refere o coordenador António Diniz. Quanto a objectivos específicos para mulheres, o mesmo especialista esclarece que tal distinção só é feita “em casos de insuficiência socio-económica ou de violência de género”, pelo que estão incluídas nas metas gerais do programa que coordena.

A adolescência de Cármen foi atribulada, com um confronto com a heroína que levou os seus pais a internarem-na aos 21 anos numa clínica de reabilitação, onde teve um namorado. “Quando saí da clínica vinha toda gordinha e bonitinha mas a minha mãe quis que eu fizesse um check-up”. As análises traziam o veredicto aos 23 anos: VIH1 positivo. “Tínhamos relações sexuais sem nada e ele sabia que era seropositivo mas nunca me disse. Ainda hoje tenho vontade de matá-lo e pedia a Deus muitas vezes – e às vezes ainda peço – que mo ponha à frente. Ele no fundo matou-me. Às vezes não me lembro de coisas da semana passada e lembro-me da cara dele.”

Com 30 anos, a mulher escolhe o nome fictício Paula para contar a sua história. Sempre com um sorriso contagiante assegura: “Nunca tive medo de morrer. Tenho esta doença mas sinto-me uma mulher realizada e nunca baixei a cabeça. Em qualquer sítio tomo sempre muito cuidado porque há gente que posso pôr em risco, mas se tiver atenções redobradas não há problema”. Paula vivia na Guiné-Bissau e o marido, com quem namora desde os 14 anos, veio para Portugal em 2004. Num internamento por tuberculose o marido soube que tinha VIH2 e admitiu que tinha tido uma relação extra-conjugal com uma mulher infectada.

Paula veio entretanto para Portugal. Em 2006 fez análises e também estava infectada mas… com VIH1. Diz que sempre foi fiel e que tem a certeza que “apanhou o vírus” antes de ser mãe, numa cirurgia à mama onde levou várias transfusões, ainda na Guiné, onde o controlo de saúde por vezes falha. Felizmente nenhum dos filhos do casal, uma menina de 13 anos e um menino de 10, teve problemas. Mas como os vírus são diferentes, o preservativo é um elemento sempre presente.

Dez mil mulheres com VIH
Biologicamente, as mulheres são mais vulneráveis à infecção e em Portugal já caminham para quase 30% do total de infectados. No mundo todo são 50%. Os dados da ONUSIDA estimam que no país vivam mais de dez mil mulheres com VIH e que os homens já sejam cerca de 30 mil, o que também significa que a esperança média de vida está a aumentar. O problema é que muitos dos portadores desconhecem que estão infectados (estima-se que cerca de cinco mil) e a taxa de diagnósticos tardios é de 65%, o dobro da registada na Europa. Nos últimos anos tem também caído a taxa de incidência da doença, isto é, o número de novos casos diagnosticados.

"Não devemos desvalorizar a doença mas a vida destas mulheres já pode ser quase tão normal como a das outras e vão poder cuidar de uma família, se cuidarem primeiro de si e se forem acompanhadas pelos médicos e cumprirem a medicação”
Teresa Branco

Eugénio Teófilo, médico internista especialista em sida do Hospital dos Capuchos, reforça a importância de as mulheres pedirem aos seus médicos para incluírem um teste ao VIH nas análises de rotina, pois o prognóstico da doença tem vindo a melhorar mas apenas se for detectada precocemente para os doentes poderem começar a terapêutica certa. “O problema é que muitas mulheres, sobretudo com relações antigas, não percepcionam que podem estar em risco”, alerta.

Paula fala sem tabus mas afirma que apesar de conviver bem com o diagnóstico aconselha “quem não tem que não a procure” e que “faça análises e leve o parceiro também”. “Procurem o médico e façam análises. Se estiver tudo bem não procurem a doença. É uma doença que não está na cara. Está dentro do sangue e às vezes só se descobre quando se fica muito doente”, insiste.

Há também muitos falsos conceitos. No ano passado, por exemplo, foi divulgado um estudo que indicava que 28% das mulheres portuguesas ainda acreditam que o contacto com fluidos corporais que não sangue (saliva, suor e espirros) e o contacto corporal não sexual podem ser formas de transmissão do VIH.

O “Estudo quantitativo da percepção das mulheres portuguesas sobre VIH/sida”, feito a pedido da farmacêutica Bristol Myers Squibb, contou com uma amostra de 151 mulheres entre os 18 e os 65 anos e as conclusões revelam, também, que 87% das mulheres acreditam que numa relação sexual não protegida o risco de uma mulher ser infectada é igual ao do homem, com apenas 10% das mulheres a saberem indicar que o risco é superior.

Também Teresa Branco, médica especialista em sida do Serviço de Infecciologia do Hospital Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra), diz que recebe cada vez mais mulheres e alerta que “o risco de transmissão não se reduz com a idade”. Ainda assim, assegura que receber hoje um diagnóstico de VIH é muito diferente de há uns anos. “Ainda se pensa muito que é uma sentença que pode levar à morte e que a mulher não vai conseguir ter filhos. Não devemos desvalorizar a doença mas a vida destas mulheres já pode ser quase tão normal como a das outras e vão poder cuidar de uma família, se cuidarem primeiro de si e se forem acompanhadas pelos médicos e cumprirem a medicação”. A gravidez deve ser planeada e pode implicar tratamentos como a inseminação artificial.


Enjoos, náuseas, vómitos e comprimidos
Depois do diagnóstico, Cármen recaiu e virou-se para drogas injectáveis. “As pessoas pensam que nos drogamos e que andamos felizes, mas drogamo-nos para tirar as dores. É muito triste acordar e pensar naquilo, onde vamos arranjar dinheiro para a droga. Mesmo que alivie a dor, muitas vezes a cabeça continua a pensar”, descreve. Seguiram-se várias tentativas de reabilitação e desde 2000 que está limpa – altura em que o pai lhe disse que ou se matava ou se decidia a viver a vida normal que a esperava.

“O meu primeiro pensamento foi que o bebé ia nascer seropositivo. Pensei se devia tirar ou deixá-lo vir ao mundo. Foi muito confuso. Queremos ser mães, mas é se for um filho saudável e se pudermos dar-lhes tudo. E eu só pensava que ia trazer uma criança para sofrer.”
Cármen

“Sentia vergonha de mim, olhava-me ao espelho e achava que estava geminada pelo vírus e que não servia para nada. No início tive muita dificuldade em aceitar e em começar a tomar a medicação. Tinha enjoos, náuseas, vómitos e tomava muitos comprimidos, mas hoje são menos e já não fico mal disposta. É uma doença que as pessoas discriminam muito, ainda hoje. Parece que se pega só de olharem”, lamenta. Foi na equipa médica que lhe dá apoio que encontrou conforto e que os seus pais puderam aprender a lidar com a doença, para deixar, por exemplo, de desinfectar a loiça.

Os namorados nunca faltaram a Cármen e sempre foi honesta com eles, deixando bem claro que o preservativo ia sempre fazer parte da relação e que filhos era uma ideia a descartar apesar de sempre se ter imaginado com uma grande família. “Nunca me quis vingar de outras pessoas. O meu medo era sempre eles não aceitarem.” Só que em 2007 conheceu um novo namorado que frequentemente insistia para não usarem preservativo. Cármen nunca cedeu. “Tu sabes o que o outro me fez? Tirou-me muitos anos da minha vida e tu queres que eu te faça o que ele me fez?”, lembrava-lhe.

Só que um dia reparou que o parceiro estava sem preservativo. Foi em 2009. Um teste de gravidez veio confirmar que a falha tinha resultado num bebé. “O meu primeiro pensamento foi que o bebé ia nascer seropositivo. Pensei se devia tirar ou deixá-lo vir ao mundo. Foi muito confuso. Queremos ser mães, mas é se for um filho saudável e se pudermos dar-lhes tudo. E eu só pensava que ia trazer uma criança para sofrer.” Mais uma vez foram os médicos a sossegá-la. Se na década de 1980 e 1990 a taxa de transmissão da doença de mãe para filho chegou a ser de 25% a verdade é que se Cármen cumprisse a medicação à risca para continuar a ter cargas virais baixas poderia ter um filho quase sem risco. “A maternidade está perfeitamente ao alcance de quem está infectado”, reforça Eugénio Teófilo, ressalvando que todo o processo deve ser cuidadosamente acompanhado.

Por precaução, Patrícia nasceu através de uma cesariana, mas já há situações em que os médicos não descartam o parto vaginal. Durante um ano Cármen viveu “num aperto até saber que ela estava limpa” nos vários testes necessários. “A minha filha é a coisa mais preciosa do mundo e a minha razão de viver. Mudou tudo… tenho mais responsabilidade e cresci, sinto-me mais mulher. Tinha saído da droga mas não tinha objectivos na vida, sentia um grande vazio. Faltava-me mesmo qualquer coisa. A responsabilidade agora é outra, tenho um ser humano que tenho de educar, proteger e ensinar e alguma coisa me dizia que ia valer a pena viver.”

Cármen não descura a medicação que é cedida gratuitamente no hospital. “Se tivesse de pagar eram mil euros por mês e para mim é importante saber que o Estado me dá uma coisa tão cara e que eu preciso para viver.”

Patrícia sabe que a mãe tem remédios de que não se pode esquecer, mas ainda não sabe qual é a doença. Cármen tenciona contar-lhe, até para ela se proteger no futuro. Para o futuro apenas ambiciona deixar de fazer parte do grupo de desempregados e conseguir “um cantinho” para si e para a filha, já que continua a viver com os pais.


"Numa doença como o VIH é preciso reagir para não correr o risco de morrer antes do tempo, pois as características de uma pessoa contam muito. Tenho fé em Deus e acredito que vou cuidar dos meus filhos por um bom tempo. Sou uma mãe coruja.”
Paula

Com a discriminação já aprendeu a lidar e sabe que na hora de procurar um trabalho é melhor omitir a doença. “Acredita que uma senhora que me dava sempre coisas para a menina, depois de saber que tenho VIH deixou de me cumprimentar e nunca mais deu nada?” Cármen continua a ter “medo” de se “apagar com uma gripe” mas prefere apostar na pedagogia: “Gostava de ser um exemplo, e aos meus amigos estou sempre a dizer para usarem preservativo. Mas as pessoas acham que só acontece aos outros”.

Quanto ao lado social, têm surgido algumas novidades dirigidas às mulheres, como a Plataforma Tal Como Tu, que desde há um ano une pela Internet médicos, associações e doentes do sexo feminino que podem partilhar as suas experiências. A especialista Teresa Branco reconhece que ainda há muita discriminação. Por isso, decidiu encabeçar um desafio e liderar em Portugal o programa SHE - Strong, HIV Positive, Empowered Women. Este é o primeiro programa europeu de apoio entre pares dirigido a mulheres com VIH. “Quem já passou por lá é que sabe o que é e há coisas que o médico não pode fazer”, resume. O programa dá formação e mulheres infectadas que devem servir de exemplo para outras e abordar questões mais sensíveis como os estigmas e violações de direitos humanos.

Um projecto com que Paula se identifica. Já no dia-a-dia na cantina social onde trabalha gosta de ajudar os outros e divulgar informação. “A auto-estima não me falta e passo isso para as outras mulheres. A primeira coisa a fazer é aceitar que se está doente e isso é fundamental em qualquer doença. Quando se aceita fica mais fácil. Eu saio, danço, sou alegre, feliz e bem-amada. Numa doença como o VIH é preciso reagir para não correr o risco de morrer antes do tempo, pois as características de uma pessoa contam muito. Tenho fé em Deus e acredito que vou cuidar dos meus filhos por um bom tempo. Sou uma mãe coruja.”

20.11.12

Mais 2,5 milhões vivem com o vírus da sida

in Jornal de Notícias

Pelo menos 2,5 milhões de pessoas contraíram o vírus da sida em 2011, números que confirmam a tendência decrescente das novas infeções que, numa década, caíram 20%, revelam dados divulgados pelas Nações Unidas.

No ano passado viviam, em todo o mundo, 34 milhões de pessoas infetadas com o VIH, 23,5 milhões na África Subsaariana, cinco milhões na Ásia, 1,4 milhões na América Latina, 1,4 milhões na América do Norte, 900 mil na Europa, 300 mil no Médio Oriente e África setentrional, 230 mil no Caribe e 53 mil na Oceânia, revela a edição de 2012 do relatório global da agência das Nações Unidas para a SIDA (ONUSIDA).

O relatório, que foi divulgado, esta terça-feira, em Genebra, em antecipação ao Dia Mundial da Sida, que se assinala a 1 de dezembro, adianta que a África Subsaariana se mantém como a região mais afetada em todo o mundo com um em cada 20 adultos infetados com o VIH, o que representa 69% da população mundial que vive com o vírus.

As mulheres representam mais de metade (58%) das pessoas infetadas nesta zona do mundo.

A África Subsaariana (25%) e o Caribe (42%) foram as regiões que registaram maior decréscimo no número de infeções entre 2001 e 2011.

No relatório, as Nações Unidas mostram preocupação com a tendência verificada no Médio Oriente e Norte de África, onde o número de novas infeções aumentou mais de 35%, passando de 27 mil em 2001 para 37 mil em 2011.

Nesta região, registavam-se no ano passado 300 mil pessoas que viviam com o vírus da sida, tendo ocorrido 23 mil mortes relacionadas com a doença.

As Nações Unidas encontraram ainda sinais de que as infeções por VIH na Europa de Leste e na Ásia Central começaram a aumentar desde meados da década de 2000. Com 1,4 milhões de pessoas infetadas com o VIH, a região registou no ano passado 140 mil novas infeções e 92 mil mortes.

O estudo revela ainda que na última década várias epidemias nacionais sofreram "alterações dramáticas", tendo-se registado uma quebra na ordem dos 25% da incidência das infeções por VIH em 39 países, 33 dos quais localizados na África Subsaariana.

Moçambique, África do Sul, Jamaica, Quénia, México, Serra Leoa, Níger ou Tailândia são alguns dos países com comportamentos positivos.

Em sentido oposto, pelo menos nove países - Bangladesh, Geórgia, Guiné-Bissau, Indonésia, Cazaquistão, Quirguistão, Filipinas, Moldávia e Sri Lanka - aumentaram em pelo menos 25% o número de novas infeções.

Menos 32% de mortes

O número de mortes relacionadas com a Sida atingiu os 1.7 milhões, 1,2 milhões das quais ocorreram na África Subsaariana, valores que representam uma quebra de 24% relativamente a 2005, quando ocorreram 2,3 milhões de mortes.

O número de mortes caiu 32% entre 2005 e 2011, apesar de a região representar 70% de todas as pessoas que morreram em 2011 de causas relacionadas com a sida.

Também o Caribe (48%) e a Oceânia (41%) registaram reduções significativas no número de mortes, tendo a América Latina (10%), a Ásia (4%) e a Europa Central e América do Norte (1%) revelado quebras mais modestas.

As regiões da Europa de Leste e Ásia Central (21%) e do Médio Oriente e Norte de África (17%) registaram, por seu lado, o aumento da mortalidade associada à doença.

Grupos com maiores taxas

Profissionais do sexo (23% mais que o resto da população), consumidores de droga (22%) e homossexuais (13%) mantêm-se como os grupos populacionais com maiores taxas de incidência de infeções por VIH.

O relatório revela ainda que o aumento do uso de antirretrovirais em países de baixo e médio rendimento permitiu salvar 14 milhões de vidas por ano desde 1995, 9 milhões das quais na África Subsaariana.

Em 2011, foram disponibilizados 16.800 milhões de dólares para a prevenção e tratamento da sida em todo o mundo, 30% menos que o necessário para uma resposta completa em 2015.