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28.10.16

Mais um naufrágio no Mediterrâneo. Há mais de 90 desaparecidos

in RR

Pelo menos 29 pessoas foram resgatas com vida


Mais de 90 migrantes estão dados como desaparecidos depois da embarcação em que seguiam se ter afundado, ao largo da Líbia.

A informação é avançada pela guarda costeira local que confirma que 29 pessoas foram resgatadas com vida. Vários sobreviventes revelam que 126 migrantes estavam no barco de borracha, quando este se rasgou.

Já antes deste acidente, os Médicos Sem Fronteiras tinha encontrado um barco com 25 migrantes mortos a bordo.

Mais de 300.000 migrantes atravessaram o Mediterrâneo para chegar à Europa em 2016, contra 520.000 nos primeiros nove meses de 2015, informou em Setembro o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

Em contrapartida, 2016 será o ano em que mais pessoas morreram naquela travessia se o número de mortes se mantiver ao ritmo actual.

Desde o início de 2016, 3.211 migrantes morreram ou desapareceram no Mediterrâneo, apenas menos 15% que o número total de mortes registado em todo o ano de 2015 (3.771), segundo um comunicado daquela agência.

Há, neste momento, 21 milhões de refugiados no mundo. Entre todos os países, apenas 10, entre os quais Portugal, acolhem mais de metade destas pessoas que fogem à guerra. É umas das principais conclusões do último relatório da Amnistia Internacional.

27.4.15

Portugal de branco pelas vítimas da imigração forçada

in Jornal de Notícias

Várias organizações católicas apelaram aos portugueses para que este domingo se vistam de branco para chamar à atenção para a situação das vítimas da imigração forçada, muitas das quais morrem a tentar chegar à Europa.

As organizações apelam "a todos os portugueses" para que coloquem nas suas janelas um pano branco ou usem uma peça de roupa branca e se unam, em oração ou num minuto de silêncio, em solidariedade "com todos os que buscam uma vida melhor e partem diariamente das suas terras na procura legítima de melhores condições de vida".

A campanha "somostodospessoas" junta a Agência Ecclesia, Cáritas Portuguesa, Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP), Comissão Nacional Justiça e Paz, Comissão Nacional Justiça, Paz e Ecologia dos Religiosos, Departamento Nacional da Pastoral Juvenil, Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, Obra Católica Portuguesa de Migrações, Rádio Renascença, Serviço Jesuíta aos Refugiados e Sociedade de São Vicente de Paulo.

Trata-se, segundo a organização, de "um gesto simples" que pretende ser "uma manifestação de indignação" e de "inconformismo com uma cultura do descartável".

As organizações lembram que este ano mais de 1.500 pessoas morreram no Mar Mediterrâneo, um número 50 vezes superior ao de 2014 e que os acontecimentos dos últimos dias, nomeadamente a morte de mais de 700 pessoas trancadas no porão de um navio, "obrigam a não ficar calados, sob pena de sermos cúmplices de um verdadeiro massacre que deveria envergonhar o mundo, particularmente os que têm responsabilidades políticas".

Para estas organizações, trata-se de "pessoas como nós que se vêm obrigadas a fugir do seu país porque vivem situações que ferem gravemente a sua dignidade e colocam em risco a sua sobrevivência e das suas famílias".

Considerando que a União Europeia "pode e deve fazer mais por cada uma destas pessoas", as organizações da Igreja Católica pedem medidas que "ultrapassem a excessiva preocupação securitária e de controlo de fronteiras" e "que se pensem alternativas de maior humanização".

Segundo as Nações Unidas, mais de 170.000 migrantes atravessaram o Mediterrâneo em 2014, 3.000 dos quais morreram no mar.

Só este ano já terão morrido na travessia do Mediterrâneo 1.700 pessoas.

16.4.15

Com o mar calmo e o cheiro a morte, milhares vão tentar chegar à Europa

Maria João Guimarães, in Público on-line

Espera-se que 2015 seja pior ainda que 2014 para os migrantes que tentam chegar à Europa por mar. Desde Janeiro terão já morrido 900 pessoas, quando no mesmo período do ano passado se registaram 17 mortes.

Era um dia calmo quando o barco se lançou à água de um porto na Líbia para fazer mais ou menos 300 quilómetros até ao Sul de Itália. A rota é uma das mais procuradas e uma das mais mortíferas. Não foi a única embarcação a ir; mas em menos de 24 horas, ficou em apuros. Os detalhes são escassos, mas pensa-se que a causa do naufrágio possa ter sido que ao ver um navio comercial perto, a maioria dos passageiros foi para um dos lados, levando o barco a virar-se. Quando a guarda costeira italiana chegou, resgatou 145 pessoas, levou nove cadáveres, e desde então não foram encontrados mais corpos ou sobreviventes. Podem ter morrido entre 350 e 400 pessoas.

Será um dos piores desastres no Mediterrâneo dos últimos anos, para além de dois naufrágios ao largo da ilha de Lampedusa com mais de 300 mortos cada. Mas mesmo no dia em que foi conhecida a notícia, na terça-feira à noite, saiam mais três barcos da Líbia, cada um com cerca de 380 migrantes, a maioria mulheres e crianças.

O início da época do tempo quente e mar mais calmo trouxe já pistas para o que poderá vir a ser o ano de 2015 – um ano de recordes de pessoas a tentar passar o Mediterrâneo e muitas a morrer ao fazê-lo. O ano passado já tinha ultrapassado o anterior pico de 2011, ano das chamadas Primaveras árabes: estima-se que em 2014 tenham chegado à Europa 220 mil migrantes por mar, enquanto mais de 3 mil terão morrido no Mediterrâneo.

Este ano haverá já 900 mortos, cerca de 50 vezes mais do que o ano passado no mesmo período, em que se registaram 17 mortes, notam agências de protecção de direitos humanos como a Amnistia Internacional, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), e o Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).

“As partidas não diminuem. O medo de morrer não é dissuasor”, comentava no Twitter a porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para os refugiados na Europa do Sul, Carlotta Sami.

Tiros no mar
Uma indicação de que há cada vez mais procura de viagens foi visto pelas autoridades italianas em dois incidentes em que os traficantes de pessoas dispararam para intimidar os elementos da guarda costeira italiana após uma operação de salvamento com o objectivo de recuperar os barcos onde antes iam os imigrantes resgatados (aproximaram-se em lanchas rápidas, dispararam, e levaram os barcos consigo). “É um sinal de que estão a ficar com poucos barcos e não os querem perder”, explicou o director-executivo da agência encarregada das fronteiras da União Europeia, Frontex, Fabrice Leggeri. O facto de haver uma disposição para recurso à violência causa ainda mais preocupações quanto à segurança quer das pessoas que vão nos barcos, quer das que as resgatam.

A maioria dos imigrantes que tenta chegar à Europa de barco sabe que pode morrer. Mas quais são as alternativas? Nos países onde embarcam (a Líbia conta com muitas partidas, seguida pelo Egipto) não têm quaisquer perspectivas de trabalho, e se forem apanhados, podem ficar nas prisões locais. A BBC encontrou uma adolescente da Eritreia num centro em Misrata, Líbia, parte de um grupo que diz estar detido há sete meses. Os migrantes estão confusos. “Isto é uma prisão? Somos refugiados?” perguntam ao jornalista.

Pior do que acabar numa uma prisão local pode ser ficar nas mãos dos traficantes, que os espancam para conseguir mais dinheiro (mesmo que já tenham pago), agridem com facas ou bastões, intimidam. Muitas mulheres são violadas. Mas a outra opção pode ser ainda pior: podem ser repatriados, e muitas vezes o que os espera no seu país é morte ou tortura.

“Mesmo se houvesse uma decisão dos Governos afundar os barcos com migrantes, ainda haveria pessoas a ir de barco, porque muitos consideram-se já mortos”, disseao diário britânico The Guardian um sírio, Abu Jana (nome alterado para sua protecção), que se prepara para dentro de pouco tempo sair do Egipto para a Europa.

“Acho que mesmo que se decidissem bombardear os barcos, isso não demoveria as pessoas de ir”, comenta. No seu caso, diz, se voltasse para a Síria seria morto. Não pode viajar por meios legais porque não pode pedir um passaporte à embaixada síria no Cairo. Sem documentos, não tem qualquer hipótese de se manter no Egipto, porque não consegue trabalhar ou alugar uma casa.

Empresários e ONG lançam operações de resgate
O primeiro grande naufrágio de Lampedusa, em 2013 (pelo menos 360 mortos) marcou um debate intenso sobre a imigração e ditou o lançamento da operação italiana Mare Nostrum, que salvou 170 mil pessoas ao largo de Itália. As autoridades italianas, que gastaram durante um ano 9 milhões de euros mensais com esta operação, deram-na como terminada no Outono do ano passado, quando entrou em vigor a operação europeia Tritão, menos ambiciosa em custos, área de patrulha, e meios. Organizações de direitos humanos dizem que a diferença está já a ser vista com as mortes deste ano.

A necessidade de mais meios levou ONG e particulares a organizarem-se e irem para o mar. Os Médicos Sem Fronteiras anunciaram que vão operar um navio de Maio a Outubro para ajudar nos resgates, e dois empresários alemães, Harald Höppner e Matthias Kuhnt, decidiram comprar um barco e irem eles próprios patrulhar durante três meses as águas entre a Líbia e Lampedusa e dar o alarme caso encontrem embarcações em dificuldades.

A Comissão Europeia tem marcado para Maio um anúncio sobre a estratégia europeia para a imigração. Algumas possibilidades mencionadas têm sido a criação de centros para pedidos de asilo fora da Europa, para que os migrantes possam pedir estatuto de refugiados sem ter de passar pela viagem de mar, melhor redistribuição de responsabilidades entre os vários países europeus, e compensações para os navios comerciais que ajudem em resgates de migrantes.

6.1.15

Pagar até seis mil euros para acabar à deriva no Mar Mediterrâneo

por Abel Coelho de Morais, in Diário de Notícias

A ânsia de fugir a uma guerra ou a ilusão de ganhar dinheiro rápido está a levar à expansão do transporte clandestino de migrantes.

São quase mil por navio, em geral cargueiros em fim de vida, pagam o equivalente a três mil euros, mas há relatos referindo seis mil euros ou mais, viajam sem condições, encerrados nos porões ou, por vezes, no convés, para acabarem abandonados e à deriva no Mediterrâneo pelos traficantes. Ou para serem mais uns quantos a somar aos quatro mil ilegais que morreram nos últimos cinco anos nas águas entre a África e a Europa.

"É cada vez mais frequente apanharmos cadáveres ou restos de pessoas nas redes em lugares onde estamos pescar. Por isso, agora, quando chegamos a esses pontos e vemos corpos, vamos embora", dizia em julho de 2014 um pescador italiano, comentando o cenário que se vive no Mediterrâneo.

Leia mais na edição impressa ou no e-paper do DN

28.11.14

Navio "Viana do Castelo" resgata 182 imigrantes ao largo da Líbia

in Jornal de Notícias

O navio de patrulha oceânico "Viana do Castelo" resgatou, quarta-feira, um total de 182 imigrantes ao largo da Líbia, que foram entregues às autoridades italianas.

Depois de na madrugada de quarta-feira ter anunciado a recolha de 89 imigrantes à deriva num bote de borracha a noroeste da cidade líbia de Misratah, o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) adiantou que o navio português realizou entretanto mais duas missões de busca e salvamento marítimo que permitiram resgatar "outros 93 imigrantes de diversas nacionalidades centro-africanas".

"Concluídas as buscas (...) localizou-se uma embarcação de borracha à deriva, com cerca de 7 metros de comprimento, tendo sido recolhidos, pelas 15.30 horas (locais), outros 93 imigrantes de diversas nacionalidades centro-africanas. Foram prestados aos imigrantes todos os cuidados médicos e sanitários durante o trajeto de 210 milhas até à chegada ao porto de desembarque", pode ler-se no comunicado do EMGFA.

O navio português atracou, esta quinta-feira de manhã, em Porto Empedocle, na Sicília, com os 182 imigrantes a bordo, que "foram encaminhados para as autoridades Italianas competentes".

No quadro da Operação Tríton 2014, da Agência Europeia de Gestão da Cooperação Operacional nas Fronteiras Externas dos Estados-Membros da União Europeia, o navio de patrulha oceânico português "salvou até ao momento, 585 imigrantes em dificuldades que tentavam atravessar o Mediterrâneo".

O navio da Marinha portuguesa termina em 30 de novembro a sua participação nesta missão da União Europeia de controlo dos fluxos migratórios a sul da Sicília.

18.11.14

Marinha portuguesa salva mais 120 imigrantes no Mediterrâneo

in RR

É a segunda operação de grande envergadura, em poucos dias, do navio “NRP Viana do Castelo”.

O navio-patrulha “NRP Viana do Castelo” realizou, esta segunda-feira, uma nova operação de salvamento de uma embarcação com 122 imigrantes ilegais, no Mar Mediterrâneo.

O resgate aconteceu pelas 15h00, a 65 milhas a norte de Trípoli, capital da Líbia, avança a Marinha portuguesa, em comunicado.

A tripulação do “NRP Viana do Castelo” recebeu os imigrantes, todos do sexo masculino, prestou cuidados médicos primários e distribuiu alimentos, água e cobertores.

Após a triagem efectuada a bordo, o navio-patrulha da Marinha portuguesa encaminhará os imigrantes até às autoridades italianas competentes.

O navio da Marinha portuguesa “NRP Viana do Castelo” está no Mediterrâneo a participar na missão “Triton”, da Agência para o Controlo das Fronteiras Externas da União Europeia (Frontex).

Na sexta-feira, o “NRP Viana do Castelo” resgatou 201 imigrantes ilegais, também ao largo de Trípoli.


28.10.14

Itália quer abandonar missão de resgate a barcos de imigrantes

in Jornal de Notícias

As autoridades italianas estão a ponderar suspender a sua missão de resgate de embarcações com imigrantes, deixando o salvamento dos tripulantes unicamente a cargo da missão europeia, a ser lançada no próximo sábado.

Missão da União Europeia surge por receio que o número de vítimas mortais aumente, com a saída das equipas italianas.

Por seu lado, o Reino Unido anunciou, esta terça-feira, que não planeia apoiar a União Europeia no desenvolvimento destas operações de resgate, argumentando que vai criar um "efeito de atração" aos migrantes, incentivando-os a aventurarem-se nas perigosas travessias marítimas.

Os esforços da marinha e da guarda costeira italianas já salvaram este ano cerca de 150 mil homens, mulheres e crianças que tentavam chegar ao país vindos do norte de África.

A entrada em funcionamento da missão europeia "Triton" acontece numa altura em que tudo indica que a missão italiana "Mare Nostrum", criada há um ano, depois de dois naufrágios mortais, vá ser muito reduzida ou mesmo cancelada.

"A Mare Nostrum está a ser encerrada. Vai haver uma decisão formal durante uma das próximas reuniões do gabinete", disse recentemente o vice-primeiro ministro e ministro do Interior, Angelino Alfano.

No entanto, Alfano destacou que as duas operações são "totalmente distintas", já que a "Triton" vai permanecer em águas territoriais europeias e a "Mare Nostrum" resgata pessoas do Estreito da Sicília até à costa da Líbia.




Empurrado para a Europa

in RR

A noite vai alta e uma enorme massa preta funde o céu e o mar. À volta, o rugir de uma imensidão de água. O movimento constante do barco não permite focar os olhares que se cruzam no escuro, mas o medo é palpável como a borracha do barco que os separa do Mediterrâneo.

Nas primeiras horas daquela segunda-feira, algures no Outono de 2013, Samu tem mais de 90 pessoas à volta mas está sozinho. Durante os dois dias e duas noites que se seguem, ouve aquele som difuso de água e de gente a chorar, mas a sua cabeça não está ali. Tinha ficado presa às margens líbias.


Samu mede quase dois metros e tem uma estatura atlética. Joga futebol e é um espectador atento das equipas portuguesas - pergunta imediatamente pelo “FC Porto”. Os olhos e a voz denunciam um homem com uma história mais pesada que os seus 29 anos.

Quando saiu do Gana, em 2008, não imaginava que a viagem o levaria ao sul de Itália, algures no coração da ilha da Sicília. Fugiu do seu país “por causa de um problema pessoal” que diz que não pode contar e fez mais de 2.800 quilómetros até à Líbia. Passou lá cinco anos a trabalhar nas obras e foi assistindo a um agravamento da situação no país e a um consequente crescimento do perigo para quem tivesse a sua cor de pele.


Agora, "a Líbia é o sítio mais perigoso” que alguma vez conheceu. Os negros são o alvo preferencial para apontar a imensidão de armas envergadas por “pequenos rapazes e pessoas que não deveriam ter estas coisas nas mãos”.

Antes da revolução que virou o país do avesso em 2011 e que culminou na queda de Muammar Khadafi, Samu “dificilmente via um líbio pegar numa arma, porque eles tinham medo”. Depois do caos instalado, “muita coisa mudou”. “Podem disparar contra nós. Podemos estar a caminhar, sem fazer nada, e sermos espancados e vítimas de todo o tipo de tratamento. Se eu tirasse as minhas roupas, veria uma marca aqui nas minhas costas, feita com uma faca. Compreende?"

Samu repete a pergunta no fim de cada frase. “Compreende?” Como quem sabe que o que está a contar é de difícil apreensão para a bagagem de vida comum de um europeu.

Em meados de 2013, “não havia comida, não se podia sair à rua… E, no entanto, também não podia voltar à minha terra, porque tinha problemas lá”.

Samu foi-se deixando ficar enquanto tinha emprego. Quando se deu “o segundo momento mais triste” da sua vida, o episódio que o fez fugir de novo, ainda trabalhava nas obras, numa casa em El Agheila, uma pequena cidade na costa líbia, virada para o Mediterrâneo, a 650 quilómetros de Trípoli.

Nunca chegaram ao supermercado. Samu conseguiu fugir e pedir ajuda ao “mudir”, o patrão da obra na qual estava a trabalhar. O amigo estava morto por causa de uns trocos.

Passaram uns dias. “Já tínhamos quase terminado o trabalho naquela casa em El Agheila e aqueles rapazes foram lá à minha procura”. Samu estava aterrorizado. Nessa mesma noite, o “mudir” meteu-o num carro e levou-o para “um lugar onde havia muitas pessoas”. Trocou umas palavras que Samu não compreendeu “com umas pessoas que estavam armadas” e que o mandaram sentar junto dos outros.

“Pensei que me iam matar e estava com medo. O ‘mudir’ disse-me para ficar ali, que ele regressaria. Não sabia de nada. Duas ou três horas depois disseram que tínhamos todos de ir. Era perto do mar. Estava lá um barco e pediram a toda a gente para entrar. Não podia recusar, porque estava com muito, muito medo."

Samu não sabe se o patrão pagou para que ele tivesse um lugar naquele “barco de borracha”. Passou dois dias no mar sem saber bem para onde ia e acabou por ser salvo “por um barco muito grande”.

“Deram-nos o pequeno-almoço, água e um sítio para nos lavarmos. Como estávamos muito cansados, puseram-nos num sítio para dormir. Eu não consegui, porque ainda estava a pensar no que tinha acontecido antes de aqui chegar. Estava a pensar na minha vida e no meu amigo, que foi atingido e morto por aqueles rapazes”.

Um dia depois estava a desembarcar na Sicília. Foi directamente para o Centro de Acolhimento para Requerentes de Asilo (CARA) de Mineo, onde está há quase um ano. Nunca tinha planeado vir para a Europa.

Samu aponta para a professora de italiano, parada à porta da sala onde conversamos, a fitá-lo com olhos de pressa. A entrevista já lhe roubou mais de meia hora de aula e cada minuto a aprender essa língua “difícil” é mais um passo em direcção a uma nova vida.

A prioridade, agora, é ser aceite como refugiado. “Depois de ter os documentos, posso continuar a estudar, posso fazer muitas coisas”. Pode até retomar os planos que tinha quando acabou o ensino secundário, no Gana, para se tornar “um economista muito bom”.


Seis anos depois de a vida lhe ter trocado as voltas, Samu voltou a sonhar.

1.9.14

Quando os homens-lixo se fizeram ao mar

Paulo Moura (Em Tânger e Tarifa), in Público on-line

Para os marroquinos, “les noirs” são os demónios que vieram do Sul do deserto para lhes causar problemas e agora se concentram no bairro de Boukhalef, em Tânger, e vivem do lixo que deitam fora os que os odeiam. Podem morrer no meio da travessia do Estreito de Gibraltar, mas a hipótese é deixarem-se ficar a morrer em Tânger.

A Costa da Luz está um inferno. Do Golfo de Cádis ao Estreito de Gibraltar, há filas a passo de caracol em todas as estradas, e multidões nas praias acotovelando-se por um metro de areia barrenta e dura. Se numas estâncias predominam os jovens de calções de ganga e sapatos de lona, outras são a paragem de famílias multigeração. Grupos de idosos tremelicam todas as manhãs pela areia de Puerto de Santa Maria, uma das praias nos arredores de Cádis, famosa pela licenciosa vida nocturna, enquanto em Barbate, a aldeia piscatória que o tráfico de droga pôs no mapa, as crianças ajudam os avós a transportar as cadeiras, guarda-sóis, pára-ventos e todas as traquitanas com que montam junto à água o cenário das suas tardes sem história.

Os menores jogam futebol e os “mayores” lêem, de costas para os barcos em ruínas que, ancorados no rio Barbate, rangem morbidamente ao vento que sopra do Levante, entre o mar e as montanhas. Tudo isto sem turistas estrangeiros, sem resorts de luxo que se vejam. Não estamos propriamente na região mais nobre do turismo espanhol, mas na zona balnear dos remediados da Andaluzia interior e da Estremadura.

Um pandemónio de filas para o banho, filas para o pequeno-almoço, filas para o elevador do hotel, um arraial contínuo com muito poucas excepções. Uma delas é esta, Tarifa. Tudo é diferente aqui, por causa da intensidade do vento.
A situação meteorológica sui generis da vila fortificada, que é o ponto mais meridional da Europa, transformou Tarifa num dos centros mundiais do windsurf e do kitesurf.

Há dezenas de lojas dedicadas aos desportos do vento, cafés e bares ao gosto dos viajantes especiais que vêm de todo o planeta passar umas semanas à capital da ventania. Veículos todo-o-terreno carregados de pranchas e velas, motos big trail touring pejadas de caríssimos acessórios de aventura enchem as vielas estreitas e brancas da cidade mourisca.

Visto de longe, da estrada marginal que serpeja entre as centrais eólicas, ou do morro de vivendas de luxo de Sahara de los Atunes, o mar está pontilhado de velas coloridas, às centenas, revoluteando na espuma. Um enorme veleiro branco paira ao largo da baía, e os bares da praia são uma festa de música, cocktails e moleza. Principalmente o Bien Star, com dois decks de madeira sobre as dunas e jovens de copo na mão enterrados nos pufes. Um belo antro para passar a tarde, ou a vida, de frente para a água transparente e verde e de costas para o grande e velho Pavilhão Polidesportivo Municipal, a escassos metros, do outro lado da rua.

"Não conseguimos atender a todos"

É no pavilhão polidesportivo que estão os “sin-papeles”. Cerca de 800 imigrantes subsarianos, dos quase 1300 que chegaram às praias de Tarifa nos primeiros dias da semana passada, em cerca de uma centena de barcos insufláveis. O fluxo de imigrantes ilegais vindos da África subsariana através de Marrocos é constante desde há duas décadas, mas nunca se tinha registado um desembarque desta dimensão, em tão pouco tempo. As “pateras” (nome que lhes é dado em Espanha baseado no das antigas embarcações de madeira, a remos, usadas pelos pescadores), ou os “zodiac” (como chamam os marroquinos aos semi-rígidos insufláveis, a motor ou a remos) chegaram a diferentes praias da zona de Tarifa e de Algeciras a um ritmo que a Polícia espanhola e a Cruz Vermelha nunca tinham visto. Os meios de salvamento geralmente disponibilizados pelas autoridades, e a coordenação entre a Cruz Vermelha, ONG e organizações da Igreja Católica que recebem os imigrantes, designadamente mulheres e crianças, entrou em completo descontrolo.

“Estamos ligados ao sistema de vigilância da Polícia, para acorrermos rapidamente aos locais onde desembarcam os imigrantes, que quase sempre chegam em hipotermia e com outros problemas de saúde que necessitam de resposta rápida”, diz à Revista 2 Juan Alonso, da Cruz Vermelha espanhola. “Mas desta vez não conseguimos atender a todos. Chegava um ‘zodiac’ num local, e ao mesmo tempo havia quatro ‘toys’ na praia seguinte. Não era possível chegar lá.”
“Toys” são os barcos pequenos, insufláveis, que podem ser comprados em qualquer supermercado de Tânger ou outra cidade marroquina. São frágeis barcos de recreio, concebidos para as crianças se divertirem junto à praia e não têm condições para a travessia do tumultuoso Estreito de Gibraltar. Não obstante, a maioria dos ilegais que chegaram agora usaram estes “brinquedos”, onde a probabilidade de sobrevivência é muito baixa.

Estamos ligados ao sistema de vigilância da Polícia, para acorrermos rapidamente aos locais onde desembarcam os imigrantes, que quase sempre chegam em hipotermia e com outros problemas de saúde que necessitam de resposta rápida”

Juan Alonso, Cruz Vermelha espanhola

Outros vieram de moto aquática, cujo condutor regressa a Marrocos depois de ter deixado o passageiro na água, a umas centenas de metros da praia, apesar de ter pago pelo menos 4 mil euros pela viagem. Também muitos dos que chegam nos “toys” (dez ou 15 em cada embarcação) ou nos “zodiacs” (70 ou 80) terminam a nado a aventura.

Durante os dias de terça e quarta-feira da semana passada, mais de mil “sin-papeles” da África negra misturaram-se com os banhistas e os praticantes de windsurf e kitesurf, como se fossem as suas sombras. Alguns conseguiram confundir-se entre os turistas, outros apanharam boleia de carros de compatriotas imigrantes já instalados, ou de elementos das mafias que os esperavam. A maioria, porém, deixou-se apanhar. Não vêem a polícia espanhola como hostil, ao contrário da marroquina.

Acreditam que o processo que irão atravessar os levará à liberdade e à cidadania europeia. Deixaram-se levar para o pavilhão polidesportivo, submetem-se, com visível espírito de cooperação, a todos os procedimentos burocráticos, que incluem um exame médico e um interrogatório pela polícia. A seguir, serão levados para algum dos centros de internamento de estrangeiros que o Governo espanhol tem instalados aqui em Tarifa ou em Algeciras, Madrid, Barcelona, Valência, Múrcia, Tenerife, Las Palmas, etc. De acordo com a lei, 45 dias depois, ou terão sido deportados, ou ficarão em liberdade. Ser-lhes-á entregue um documento que diz “Estatuto: liberdade, sob proposta de expulsão”. Se são provenientes de um país com o qual Madrid tem acordo de extradição, são recambiados para lá. Para isso é preciso que se determine e prove a proveniência e nacionalidade do “sin-papeles”. Mas é precisamente por isso que eles são “sem-papéis”. Mal saem do seu país, para a travessia de África até à costa marroquina, desfazem-se dos passaportes e outros documentos de identificação.

É verdade que as autoridades espanholas destacaram para os centros de internamento especialistas em línguas africanas capazes de identificar os idiomas e os sotaques. Mas também é verdade que nas florestas marroquinas dos arredores de Tânger ou Ceuta os imigrantes têm os seus próprios especialistas. Em Ben Yunes (perto de Ceuta), Missnana ou Boukhalef (nos arredores de Tânger), há verdadeiras aulas onde se ensina a disfarçar o sotaque ou os rudimentos de línguas de países com os quais Espanha não tem acordos de extradição. Se se determinar que provém de um destes países, ou se não se determinar de todo a sua proveniência, o imigrante é deixado em liberdade, com um documento provisório que em breve o colocará na situação de ilegal, sujeito a toda a espécie de exploração, em Espanha ou noutro país europeu. No caso das mulheres, terão oportunidade de obter um documento de residência, se tiverem filhos menores a cargo. Por esse motivo, muitas atravessam o Estreito nos últimos meses da gravidez, ou com bebés ou crianças pequenas. As próprias mafias as encorajam a proceder assim, de forma a permanecerem na Europa o tempo suficiente para serem exploradas através da prostituição.


Membro da Cruz Vermelha espanhola no pavilhão polidesportivo. Na semana passada, num dos botes vinha uma criança de 11 meses Jon Nazca/REUTERS

"A maioria não evitará a deportação"

Dos quase 1300 imigrantes que chegaram agora a Tarifa, 30 eram crianças. Uma delas chegou mesmo sozinha, sem os pais, que, segundo os relatos de imigrantes que vieram no mesmo barco, não conseguiram embarcar, no meio dos confrontos com a Polícia marroquina. É uma menina, tem 11 meses, chama-se Fátima e rapidamente se tornou na estrela dos media espanhóis, com o consequente alastramento pelo Facebook. Mas não é certo se a “Princesa”, como a baptizaram os socorristas, é realmente querida da família, ou deve a existência a um estratagema sugerido pelas mafias, e será de facto abandonada, depois de entregue aos pais.

Quando chegam, as crianças ficam geralmente à guarda de instituições católicas espanholas, que lhes encontram famílias de adopção. Algumas crianças desaparecem com as mães e nunca mais se sabe delas, admite o padre franciscano Isidoro Macías, conhecido como “Padre Pateras”, porque há décadas se dedica, em Algeciras, a tomar conta dos imigrantes ilegais que chegam de África, principalmente as mulheres grávidas e crianças.

Na Comunidade de S. Pedro, na Paróquia dos Pescadores, de Algeciras, o padre Andres Abelino recolhe também os imigrantes quando são libertados pelas autoridades policiais. Algumas dezenas, desta última vaga, vieram parar ao seu centro de acolhimento, mas ele não está certo de os poder ajudar. “Estes homens e mulheres vão ter muitos problemas. Desta vez, a maioria não evitará a deportação”, diz o padre.

Quando vimos que os barcos que se dirigiam a nós pertenciam à Polícia Marítima espanhola, e não marroquina, ficámos aliviados. Já não fugimos. Remámos, com as forças que nos restavam, em direcção a eles”

J., senegalês

Enquanto estão à sua guarda, os imigrantes não estão submetidos a qualquer vigilância. São livres de partir a qualquer momento — mas não o fazem. Depois de anos a perseguir um objectivo, que é chegar à Europa, experimentam uma estranha e perigosa sensação de confiança. Não querem continuar a fugir. Chegaram ao seu destino, acreditam que as coisas se vão resolver. Na Europa, tudo é diferente, tudo é razoável e justo, pensam eles. E tornam-se dóceis, vulneráveis.
“Quando vimos que os barcos que se dirigiam a nós pertenciam à Polícia Marítima espanhola, e não marroquina, ficámos aliviados. Já não fugimos. Remámos, com as forças que nos restavam, em direcção a eles”, relatou J., um senegalês de 28 anos que está retido no Pavilhão Polidesportivo de Tarifa. “Até agora, foram muito afectuosos comigo. Vou colaborar em todos os procedimentos que eles julgarem necessários até ter os meus papéis e poder começar a trabalhar como mecânico de automóveis, que é a minha especialidade.”

Numa das alas do pavilhão, os imigrantes jogam futebol, em notória euforia. Noutra, grupos conversam, lêem ou dormem, nas mantas vermelhas que lhes foram distribuídas. Nos corredores, entre agentes da Guarda Civil, agentes femininos da Polícia Aduaneira, com máscaras protegendo o nariz e a boca, procedem à primeira fase dos interrogatórios. A segunda decorre já nas esquadras de Algeciras e outras cidades, para onde os imigrantes são transportados em carrinhas celulares.“Éramos muitos na praia, em Tânger. Nós tivemos muita sorte, mas nem todos conseguiram”, contou J., o mecânico senegalês. Toda a gente queria vir. O risco foi enorme. Nós tivemos muita sorte, que apenas devemos a Deus.”

Nunca tantos imigrantes se tinham feito assim ao mar ao mesmo tempo. Sabe-se quantos foram bem-sucedidos, mas não quantos falharam. O tempo esteve ameno naqueles dois dias. Logo a seguir, o vento voltou a fustigar o Estreito. Essa é uma explicação para que uma multidão se tivesse metido em barcos naquela altura. Outra é que a Polícia marroquina foi mais permissiva do que o costume. O próprio Rei Mohamed IV o admitiu, ao quase pedir desculpa pela inexplicável falha nos sistemas de segurança. Poder-se-á pensar que não foi assim tão inexplicável e que Rabat, mostrando os problemas que pode causar com dois dias de “falha na segurança”, quis pressionar a União Europeia na prometida ajuda a gerir a crise dos subsarianos em território marroquino.

Outro motivo para a chegada de tantos imigrantes por mar será o facto de ter sido recentemente reforçada a segurança em Ceuta e Melilla, onde todos os dias muitos africanos tentam galgar a cerca de muros e arame farpado que protege a fronteira.

Mas estas explicações não chegam. As dificuldades em Ceuta não são de agora e dificilmente os imigrantes teriam sido informados das manigâncias diplomáticas do Rei de Marrocos. A pergunta permanece sem uma resposta satisfatória — por que razão chegaram em dois dias mais de mil africanos a Tarifa?

Imigrantes recolhidos pelas autoridades espanholas na semana passada Jon Nazca/REUTERS

Casa e comida na grande lixeira de Boukhalef

Em Tânger, quando eles entram no autocarro, as mulheres tapam o nariz. As crianças choram, fogem e escondem-se com medo. Para os marroquinos, “les noirs” são os demónios que vieram do Sul do deserto para lhes causar problemas. É isto que corre de boca em boca, de pais para filhos, com o encorajamento das autoridades.

O ódio é tão grande, que já não é possível sequer pedir esmola. Só mulheres se atrevem a fazê-lo na medina de Tânger, de preferência se têm bebés. Se se perguntar a uma delas onde estão os negros, responde imediatamente: Boukhalef. É nesse bairro residencial dos arredores, perto do aeroporto de Ibn Batuta, entre uma floresta e a praia, que vivem milhares de subsarianos à espera de uma oportunidade para atravessar o Estreito.

Nos últimos cinco anos, foram-se mudando da floresta de Missnana, junto à aldeia com o mesmo nome, para Boukhalef, onde se julgaram menos vulneráveis aos ataques da Polícia e dos grupos de marroquinos que pretendem fazer “justiça” pelas próprias mãos. Há dez anos, havia cerca de 5 mil subsarianos em Missnana. Hoje, alguns ficaram, mas a maioria transferiu-se para as ruas de Boukhalef, onde vão também parar os que chegam de novo.

É um bairro enorme, de prédios brancos de cinco ou seis andares, relativamente pobre. Mal se chega, percebe-se que a maioria da população não é marroquina, mas negra, embora quase nenhum dos subsarianos habite os apartamentos.
“Eles estão ali, porque têm muito dinheiro”, diz Abdul, um marroquino de 45 anos. “As rendas custam o dobro das do centro da cidade. Os negros têm muito dinheiro.”

Segundo Jonathan, um camaronês que vive em Boukhalef, os subsarianos que ocupam apartamentos partilham-no com outros dez ou 20. “E estão sempre a ser assaltados por grupos de marroquinos armados, que os querem expulsar. Na semana passada, houve um ataque naquele edifício. Eles tinham armas brancas, feriram alguns dos homens e violaram as mulheres. Foi preciso fugir para a floresta. Não voltaram mais ao apartamento. Lá é mais perigoso.”

Não temos mais acesso à água, vamos morrer de sede. Neste momento, as condições aqui são de miséria e desespero.”

Sangare, da Costa do Marfim

Jonathan e um amigo estão numa esquina de Boukhalef, conversando e olhando em redor, disfarçadamente. Na realidade foram para ali para vigiar a entrada da rua que leva ao local onde dormem, juntamente com alguns milhares de imigrantes provenientes dos Camarões, Senegal, Nigéria, Congo, Mali, Burkina Faso, Gana, Gâmbia, Guiné Conacri, Costa do Marfim.

“Temos de estar atentos 24 horas por dia. Dantes, os ataques ocorriam apenas à noite, mas agora é a qualquer momento. Vêm em plena luz do dia, com machetes. Nós costumávamos chamar a Polícia, mas não adianta. A Polícia não vem. Quando vem, fica a observar, sem fazer nada, enquanto eles esfaqueiam, violam, destroem as nossas coisas. Hoje em dia, a única coisa que podemos fazer é fugir.”

Esse é um dos motivos por que este bairro foi escolhido: fica perto de uma floresta, onde se pode encontrar refúgio. “Nos arbustos”, diz Jonathan. “Não há semana em que não tenhamos de nos esconder nos arbustos.”

Jonathan e o amigo caminham por uma rua estreita, sob os olhares claramente hostis dos marroquinos, atravessam um descampado, um gradeamento por trás do qual há uma bomba de água, até chegarem à grande lixeira do bairro.
O monte de detritos estende-se a perder de vista, brilha de gordura e podridão ao inclemente sol da tarde, tresanda e repugna de morte. Para o imenso grupo de imigrantes, é fonte de vida. É ali, junto à lixeira, que dormem e montaram as suas “casas”.

Aproveitam o que os marroquinos rejeitaram, restos de comida, vasilhas, roupa, plásticos, mantas. Alimentam-se e sobrevivem do lixo dos que os odeiam. “Para eles, nós somos lixo”, comenta Jonathan. “Por isso acham normal que vivamos aqui.”

Vivem aqui alguns milhares de imigrantes, entre os quais mulheres, crianças com poucos anos. A mais nova tem três meses. Todos atravessaram a África, por vários meios, durante meses, e estão aqui dois ou três anos, em média. Os mais antigos chegaram a Tânger em 2006, fizeram muitas tentativas no Estreito, outras nas grades de Ceuta, sofreram outras tantas deportações, tentaram de novo, e ainda aqui estão.

As suas “casas” consistem em cobertores rotos e imundos, pequenos montes de roupa esfarrapada, garrafões de plástico vazios. “Veja, já não temos água”, diz Sangare, que é líder da comunidade da Costa do Marfim. A zona está organizada por grupos nacionais, cada um com um chefe, que geralmente é o mais velho. Sangare, que tem 34 anos e vive aqui desde 2011, explica que, até há duas semanas, tinham acesso à bomba de água dos prédios, por compaixão de alguns dos marroquinos do bairro. “Agora fecharam aqueles portões à chave. Não temos mais acesso à água, vamos morrer de sede. Neste momento, as condições aqui são de miséria e desespero.”


Antes de partirem para os centros de acolhimento, os imigrantes concentram-se no pavilhão polidesportivo em Tarifa Jon Nazca/Reuters

"Já não aguentamos mais"

Nenhum dos imigrantes que aqui chegaram alguma vez trabalhou em Marrocos. “Não há empregos para nós. Dantes, pedíamos esmola, agora ninguém dá nada. Insultam-nos e agridem-nos”, diz outro imigrante, no grupo que entretanto se juntou para apresentar as suas queixas ao repórter.

“Eles atacam-nos quase todos os dias, com facas e machetes”, conta outro. “Nunca podemos estar sossegados num sítio, andamos sempre a fugir”, diz outro. “Um dia, vamos reunir um grupo, conseguir armas e atacar uma rua de marroquinos, destruir tudo, matar todos”, é o projecto de outro. “A Polícia também vem cá com regularidade”, diz um guineense. “Agridem-nos, enchem as carrinhas e levam centenas de pessoas para Oujda, na fronteira com a Argélia.”

Segundo os depoimentos recolhidos, nunca aqui veio nenhuma organização humanitária, nenhum médico, nenhum representante da ONU ou de qualquer ONG. Apenas a Polícia e os grupos de “justiceiros”, que cada vez têm mais rédea solta.

A pressão sempre existiu, mas agora tornou-se insuportável. “Não temos água, nem comida, nem segurança. Somos obrigados a tentar a travessia, mesmo com todos os riscos”, explica Sangare. “Eu já tentei sete vezes, nunca consegui. Mas tenho esperança, com a ajuda de Deus.”

Tentarei sempre chegar à Europa. Sei que lá as coisas também não estão fáceis, mas pelo menos terei uma oportunidade.”

Sangare, da Costa do Marfim

No meio da lixeira, os imigrantes construíram uma pequena clareira com lajes no chão: “É a nossa mesquita.” Sangare conta que os imigrantes professam diferentes religiões, mas rezam em conjunto antes de tentarem a travessia. “Fazemo-lo muitas vezes. Já não contamos com os marroquinos donos dos ‘zodiacs’. Quando conseguimos juntar 100 ou 200 euros, compramos um barco insuflável no supermercado. Reunimos um grupo, variado, que inclua alguém que saiba nadar, alguém com força para remar, mulheres e crianças quando possível, e fazemo-nos ao mar. Quase sempre é um fracasso.”
Mesmo na semana passada, foi um fracasso para muitos. Uma quantidade inusitada de imigrantes resolveu tentar ao mesmo tempo. Estava bom tempo, talvez alguém tenha recebido a informação de que a Polícia seria mais permissiva do que o costume. Não se sabe. O certo é que uma multidão se fez ao mar. “Muitos morreram. Pelo menos 40 corpos deram à costa aqui”, diz um imigrante. Outro aproxima-se, rosto magro, amassado de sofrimento, para perguntar: “Gostaria de saber se tem a informação dos nomes dos que morreram antes de chegar.” Afasta-se sem a resposta e sem uma palavra.
“Foi uma confusão enorme, muitos barcos, muita gente, confrontos com a Polícia, no mar e em terra”, conta Jonathan. “Agora há vento outra vez, mas, mal acalme, muitos tentarão de novo.”

Sangare, o líder da comunidade da Costa do Marfim em Boukhalef, explica a razão para isto: “Já não aguentamos mais. A situação aqui chegou ao limite. Podemos morrer ao tentar, mas aqui vamos morrer também.” Muitos estão a regressar aos seus países, mas mesmo esses acabam por voltar aqui. “Nos Camarões eu nunca terei uma oportunidade. Não é por o país ser pobre. É porque só os filhos das famílias privilegiadas têm acesso aos empregos. Eu não pertenço a esse grupo. Por isso tentarei sempre chegar à Europa. Sei que lá as coisas também não estão fáceis, mas pelo menos terei uma oportunidade.”

Cada um dos imigrantes tem, na Europa, “um país de sonho”. Para um é a Alemanha, outro a França, outro a Holanda. Um diz que para ele é Portugal, não se sabe se num sonho antigo ou muito recente. Um jovem magro, de óculos Ray-Ban, que diz ter 14 anos e ser oriundo do Senegal, declara: “O meu sonho é o Mónaco.”

Na costa de Algeciras o vento não amaina, o que é óptimo para o kitesurf. Ao fim da tarde o bar Bien Star está cheio e animado, exactamente como o pavilhão polidesportivo mesmo em frente. Havia euforia de ambos os lados da praia, mas nem com uma tão grande afinidade de estados de espírito a beautiful people de Tarifa perdeu tempo a visitar o pavilhão. Ninguém foi sequer dar uma espreitadela. Era tão imperturbável o seu êxtase face àquele mar verde e selvagem e as montanhas magníficas, como o dos “sin-papeles” finalmente chegados ao cenário perfeito da sua grande aventura.