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18.5.16

Juventude portuguesa sente a crise: “Este é o próximo combate da Europa”

Manuel Perez, in "JPN"

O presidente do Conselho Nacional de Juventude comenta, ao JPN, o estudo do Eurobarómetro que mostra que os jovens portugueses são dos que mais se sentem excluídos pela crise.

Por causa da crise, 86% dos jovens portugueses sentem-se marginalizados da vida económica e social. Os números, que constam da sondagem de opinião “Juventude Europeia em 2016” do Eurobarómetro, mostram que Portugal é o segundo país, da União Europeia, onde as pessoas entre os 16 e os 30 anos mais sentem exclusão por motivos financeiros.

Apenas a Grécia supera os números portugueses. Chegam aos 93% os jovens gregos que se sentem excluídos, uma percentagem muito acima da média europeia (57%). A seguir aos helénicos e lusitanos, a juventude cipriota, espanhola, italiana e croata é, por esta ordem, quem se sente mais afetada pelos efeitos da crise económica. No total, a amostra envolveu 10.294 cidadãos europeus dos 28 Estados-Membros e mostrou que, do outro lado do espectro, os jovens alemães, malteses e dinamarqueses se mostram menos lesados pela conjuntura.

“Este é o próximo combate da Europa”

Contactado pelo JPN, o presidente do Conselho Nacional de Juventude (CNJ) começa por constatar que “de facto, os nossos jovens estão descontentes”. Hugo Carvalho realça que “são muitos” aqueles que “não estão com uma perspetiva de um emprego de qualidade no futuro” e que “quem não está a caminhar para a emancipação, está a caminhar para a exclusão social”. “Tipicamente são jovens que receberam formação, em que o Estado investiu, e que estarão frustrados porque não conseguem atingir os seus objetivos”, acrescenta o líder do CNJ.

Por outro lado, os jovens “de contextos sociais mais desfavorecidos caminham para a marginalização absoluta”, refere Hugo Carvalho, acrescentando que esta situação pode originar “a adesão a movimentos extremistas e radicais”. Segundo o responsável, “esta é a confirmação (…) do próximo combate que a Europa tem de fazer” e que, para Carvalho, passa por se preocupar com todas as medidas “para o emprego, educação, inclusão e igualdade” tendo a marginalização dos jovens “em mente”. “Isso não se faz com combates armados nem com guerras, faz-se com prevenção e medidas de incentivo”, exemplifica.

Nos próximos dias 20 e 21 de maio, em Estrasburgo (França), 7 mil participantes no European Youth Event 2016 (EYE2016) vão refletir sobre os resultados do inquérito, debater e propor novas ideias sobre o estado atual do mundo, o futuro da Europa e da democracia, o emprego jovem, a revolução digital, o desenvolvimento sustentável e os valores europeus.

23.11.15

Milhares de jovens encontram na agricultura alternativa ao desemprego

in Notícias ao Minuto

Milhares de jovens encontraram na agricultura uma alternativa ao desemprego em Manica e Zambézia, centro de Moçambique, através de iniciativas agrárias desenvolvidas pela Aro-Moçambique para os retirar do mercado de trabalho informal.

A Aro-Moçambique, através do seu braço económico, a Agência de Desenvolvimento e Empreendedorismo (ADE), começou a apoiar os jovens na educação agrária e na criação de cooperativas nos distritos de Manica (província como o mesmo nome) e Gurué (Zambézia) para reduzir a "pressão social" e o desemprego e melhorar os seus rendimentos, disse à Lusa fonte da organização.

"A agricultura é uma alternativa para combater o desemprego na camada jovem", segundo Policarpo Tamele, presidente da Aro-Moçambique e também diretor-executivo da ADE.

Através do programa Juventude e Empreendedorismo, os jovens são chamados a desenvolver ações no agronegócio, baseado numa agricultura sustentável, e assim reduzir a exposição da população à fome e diminuir a importação de alimentos.

No âmbito do projeto, seis cooperativas estão a produzir cebola em quatro hectares de Penhalonga, localidade de Maridza, distrito e província de Manica, e os agricultores já foram ligados a uma rede de mercados e supermercados da região para colocarem a produção para venda.

O projeto, com apoio financeiro do Fundo do Desenvolvimento Agrícola (FDA), promove uma agricultura competitiva, desafiando os grupos de jovens a superarem-se uns aos outros e aumentarem a produção.

"Quando trabalhávamos isoladamente, a colheita era relativamente baixa. Agora, com educação agrária, apoios técnicos e sementes melhoradas, a produção cresceu e esperamos um bom rendimento financeiro", disse à Lusa Jonice Mahojo, uma jovem de 27 anos, mãe solteira, mantendo uma cebola de 300 gramas na mão.

Os insumos, incluindo as sementes, foram distribuídos às cooperativas de Maridza pela Aro-Moçambique e a assistência técnica é garantida pelo SDAE.

"Numa fase inicial, optámos pela cebola, depois vamos olhar para feijões e outras culturas, como batata-reno, que podem dar-nos altos valores económicos", espera Pioce Mazumba, outro membro da cooperativa de Maridza, que beneficiou também de um celeiro modelo para conservação da produção.

Esta zona tem no garimpo a principal atividade e os jovens agricultores tiveram que combater largamente a ação mineira ilegal, uma vez que a água dos rios para irrigação dos campos chegava poluída pelas ações de extração.

Os jovens agricultores usam um sistema de irrigação por gravidade, desviando água dos cursos ou nascentes dos rios, e que, após contornar os campos com a rega natural, volta à proveniência.

As autoridades já tinham manifestado preocupação com o garimpo e sua ocupação de terras agrícolas e poluição dos rios, mas o problema tem sido ultrapassado com novas políticas sobre práticas mineiras.

"Ficam conciliadas as duas atividades, embora exija-se, igualmente, a constituição de associações, no garimpo de modo a que a exploração seja sustentável e não volte a causar danos na produção alimentar", referiu Lucas Cerveja, do SDAE de Manica.

Simão Tazua, chefe da localidade de Maridza, elogiou por sua vez a iniciativa pelo seu efeito de troca de comportamentos destrutivos, como consumo de drogas e álcool, sob pretexto de falta de emprego, por uma atividade saudável e geradora de receitas.

"Quero encorajar a juventude a aplicar-se na produção alimentar, tirando proveito das faculdades criadas, sobretudo, das parcerias estabelecidas entre a Aro-Moçambique e a FDA" vincou Tazua.

Para Policarpo Tamele, o projeto ´é "uma almofada" para o arranque das iniciativas juvenis, prevendo um futuro com empresários a criar riqueza, a reduzir o desemprego e até "a pagar impostos".

Avisa contudo que o país precisa de fundos de arranque como alternativa à banca comercial, que, disse, mantém juros proibitivos para o setor, além de estratégias mais arejadas para apoiar jovens recém-graduados na agricultura.

6.2.14

Cem mil jovens desapareceram das estatísticas de emprego

por Cristina Nascimento, in RR

Dados comparam 2012 com 2013. Silva Peneda, antigo ministro do Emprego, mostra-se preocupado com o facto da causa provável ser a emigração: "Podemos estar perante um fenómeno de desertificação".

Há menos 105,4 mil pessoas entre a população activa em Portugal, quando se compara 2012 com 2013. De acordo com dados divulgados esta quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a esmagadora maioria das pessoas que deixaram de ser contabilizadas na população activa refere-se a jovens entre os 15 e os 34 anos - mais precisamente 107,6 mil.

Na comparação de 2013 com o ano anterior, a população activa na faixa entre os 15 e os 24 anos perdeu 36 mil pessoas. Na faixa etária dos 25-34, recuou 71,6 mil.

Questionado pela Renascença, o INE não atribui justificação para esta perda de população activa, mas admite três "hipóteses plausíveis": morte, passagem para a população inactiva ou emigração.

Quando alguém deixa de trabalhar (reforma, por exemplo) ou deixa de procurar emprego, passa a fazer parte da população inactiva. Entre 2012 e 2013, esta população aumentou ligeiramente - há mais 4.800 pessoas. Destas, 3.700 passaram à reforma. Sendo assim, restam 1.100 que, por alguma razão, passaram a fazer parte dos inactivos. Ou seja, estas 1.100 pessoas justificam apenas uma parte muito pequena das mais de 100 mil que deixaram de fazer parte da população activa.

Tendo em conta as outras duas "hipóteses plausíveis" referidas pelo INE - morte ou emigração -, a segunda afigura-se como mais provável para justificar o porquê de 107,6 mil pessoas com menos de 34 anos terem desaparecido das estatísticas. O presidente da Conselho Económico e Social (CES) e antigo ministro do Emprego, Silva Peneda, olha com preocupação para este fenómeno da emigração.

"Tem implicações e podem ser tanto mais negativas quanto mais demorar o país a crescer economicamente", afirma Silva Peneda em declarações à Renascença. "Se houver retoma económica, provavelmente muitas destas pessoas regressam. Se não houver retoma económica, se calhar mais pessoas vão emigrar. Nós podemos estar perante um fenómeno de desertificação", alerta.

A taxa de desemprego anual de 2012 foi de 15,7%, que subiu para 16,3% em 2013. O método de cálculo do INE para encontrar a taxa de desemprego é uma relação entre a população desempregada e a população activa.

29.10.12

Não estudam nem trabalham. O que fazem (e no que pensam) estes jovens?

Por Natália Faria, in Público on-line

Um estudo publicado esta semana por uma agência da União Europeia estima em 14 milhões o número de jovens europeus com idades entre os 15 e os 29 anos que estão fora do sistema de ensino e sem lugar no mercado laboral.

Em Portugal serão 260 mil, um máximo histórico que a crise económica e a erosão do emprego só tendem a agravar. Geração perdida? Há quem se recuse a deixar de acreditar.

Mário não consegue aceder à formação por ser licenciado

Durante seis anos, a minha rotina era levantar-me às sete da manhã, trabalhar até às oito da noite, ir a casa jantar e tomar banho e depois ir para as aulas. Licenciei-me em Design Gráfico, numa universidade privada, no último ano cheguei a pedir um empréstimo bancário para conseguir pagar as propinas que eram de 3500 euros por ano. Mas trabalhava, ganhava 650 euros, e consegui pagar o empréstimo todo.´

O meu posto de trabalho foi extinto no início de Janeiro. Era responsável de departamento numa fábrica de brindes publicitários, mas fui despedido com vários colegas. Nos primeiros dois meses, foi a depressão total: deitava-me às três ou quatro da manhã, ficava a ver televisão, e depois levantava-me às duas da tarde e não fazia nada. Depois, inscrevi-me na natação às dez da manhã para me obrigar a sair de casa. Entretanto, pus-me a pensar na vida, na idade, no futuro e percebi que tinha que começar a procurar uma solução no fundo do buraco.

Pagam-me 440 euros de subsídio de desemprego, porque o meu patrão só declarava o ordenado mínimo. É deprimente ir ao centro de emprego. São filas enormes de pessoas a lamentarem-se. Dantes, quando já tinha acabado o curso e estava à procura de trabalho na minha área, viam-se as paredes cheias de propostas de emprego. Agora, se se vir um papel é para o estrangeiro e a ganhar 1500 euros. O que é que se faz com 1500 euros nos Estados Unidos?

Sei que tenho valor e capacidade, mas se for para limpar casas de banho prefiro fazê-lo em Portugal. Ainda não perdi a esperança de criar um negócio próprio, na área da restauração. Como tenho o dinheiro que ganhei quando vendi o meu carro, às vezes vou espreitando as imobiliárias para ter a noção de como anda o aluguer de espaços.

Não faço nada porque não consigo aceder à formação dos centros de emprego. Se me aparecesse um trabalho como serralheiro, não me importava nada de receber formação e de trabalhar nessa área, mas dizem-me sempre que, como sou licenciado, não tenho direito à formação. Será que eu, por ter andado tantos anos a esforçar-me para tirar o curso, não tenho os mesmos direitos de alguém com o 9.º ano?

A minha mãe também ficou desempregada e fica em casa enterrada na depressão. Procuro fugir, tomar café com amigos, trocar umas ideias. Desisti de ver notícias, para não me deprimir. Já sei que tenho que pagar, seja como for...

Patrícia ainda vota, mas já não acredita “que o país possa melhorar”

Dormir ajuda. Nos dias piores, vou levar as minhas fi lhas à escola e volto para a cama e durmo o mais que posso. Ajuda-me a não pensar. Às vezes, ponho música alta pela casa toda para ver se consigo ficar mais alegre, quando elas chegam a casa. Fujo de chorar à frente delas. Acho que a frase que lhes tenho dito mais vezes nos últimos tempos é: “Não pode ser, a mãe não tem dinheiro...”.

Quando trabalhava, ainda conseguia dar-lhes um consolo. Ia ao supermercado e trazia sempre daqueles ovinhos de chocolate. Sempre igual para as duas. É uma paranóia que tenho. Tem que ser sempre tudo igual para as duas. Uma tem cinco e a outra oito anos de idade. Já dei por mim a perguntar-me a quem é que eu podia pedir um pão ou uma maçã para elas levarem para a escola.

Quero continuar cá, porque quero vê-las crescer. São a minha única sorte. No resto... o que me aparecer de trabalho eu aceito, mas parece que nasci com as portas todas fechadas. O último trabalho que tive, já passou quase um ano, foi nas limpezas do mercado de Matosinhos. Ganhava 20 euros por dia, das sete da manhã às sete da tarde. Quando não tinha senhas para o autocarro, ia a pé ou apanhava boleia de uma vizinha. Mas nem tempo tinha para estar com as minhas filhas. E era pouco dinheiro, não dava. Recebo 150 euros do Rendimento Social de Inserção, mais cem euros de pensão por uma das minhas filhas. Da outra não pedi pensão porque o pai nem sempre é certo e aí iam-me tirar o RSI. Ainda recebo 84 euros de abono de família, mas não chega para tudo.

Olho à volta e vejo mais desempregados do que empregados. Já desisti de ir às entrevistas. Pedem habilitações e eu só tenho o 6.º ano. Pedem experiência, não tenho. Pedem bom aspecto, eu até de sorrir tenho vergonha por causa dos meus dentes. Sei que pensam que tenho os dentes estragados por causa da droga, mas garanto que nunca me meti nisso. Foi derivado à minha segunda gravidez, a minha filha “comeu-me” o cálcio. Já pedi ajuda à Segurança Social para os arranjar mas dizem que fica muito caro. Pareço muito mais velha. Sinto-me muito mais velha.

Fujo de pensar porque, se me puser a pensar, só me apetece fazer asneiras. Por isso, vou-me agarrando às promessas de trabalho. Já falei com uma amiga que trabalha numa firma de limpezas para ver se terão lá lugar, também me falaram de um senhor que queria alguém para a agricultura numas quintas.

Voto, ainda voto, mas já não acredito que o país possa melhorar.

João sugere que o Governo financie excursões para o estrangeiro

No espaço de um ano, perdi o carro e o computador. Mas isso não é o pior. O pior é querer fazer alguma coisa e perceber que o melhor emprego que me vai aparecer, e isto se tiver sorte, é a trabalhar dez horas por dia, a ganhar 550 euros por mês e com uma folga por semana.

Não percebo. Não há empregos mas, nos empregos que há, querem obrigar as pessoas a trabalhar mais e a receber menos, em vez de aligeiraram a carga e deixarem que mais gente trabalhe e tenha tempo para viver a sua vida ao mesmo tempo. Parece que o mundo ficou dividido entre os escravos do trabalho e os que, como eu, não conseguem trabalhar e depois também não conseguem fazer mais nada, porque não têm dinheiro e andam com a cabeça negra e cinzenta.

Ainda não me mataram a esperança. Tirei o curso de Gestão Hoteleira, depois fui tirar Marketing, mas acabei por desistir ao fim de dois anos e o último emprego que tive foi como gerente de um posto de abastecimento. Ganhava 842 euros, mas, ao fim de quase dois anos, mandaram-me embora para não terem de me meter nos quadros. Estou sem fazer nada há mais de um ano, mas vou procurando emprego. Gostava de trabalhar na área da cozinha e tenho mandado currículos, vou aos restaurantes da minha zona, às esplanadas. Às vezes, sinto um bocado de vergonha. Sei o que valho, mas sinto-me a mendigar.

Vivo com a minha mãe, o meu padrasto, a minha sobrinha e dois cães. Tento ajudar em casa, faço jantar, trato da loiça, mas se pudesse ajudar nas despesas sentir-me-ia muito mais feliz com eles. Não gosto de, às vezes, chegar ao dia 20 e pedir à minha mãe 20 euros e ter que a ouvir dizer: “Já gastaste tudo!?”. Mas a alternativa seria ficar todo o dia fechado em casa e não sair sequer para beber um copo. Não creio que me ajudasse muito.

Agora que já nem o subsídio de desemprego recebo, aproveito que o meu irmão, emigrante em Inglaterra, está cá e gasto um bocadinho à pala dele: tomar café, comprar cigarros, é tudo por conta dele.

Estou desempregado, podia ser emigrante se a experiência de duas semanas em Inglaterra não tivesse corrido tão mal. Fui e voltei pior do que fui, porque gastei dinheiro em viagens e no alojamento e não consegui nada. Muitas vezes penso que, se não há aqui lugar para toda a gente, mais valia que o Governo arranjasse umas camionetas, promovesse umas excursões e ajudasse o pessoal a ir-se embora. Ao menos, poupávamos na viagem.Ana sabe que voltará à rua ao fim de cada ano e meio de trabalho

É um bocado triste dizer isto, mas o McDonald’s foi o sítio onde mais gostei de trabalhar. Às vezes, dizem-me “Ah, que horror, no McDonald’s” e eu até ganhava uma miséria, mas tinha trabalho. Na altura, ainda estava a fazer o 12.º ano, fui eu que me despedi porque tinha o projecto de abrir uma loja de acessórios de moda. O negócio não correu muito bem. Esteve aberto meio ano. Depois, fui trabalhar para um posto de combustíveis, em Matosinhos. O ordenado-base era 520 euros, outra miséria, mas tinha trabalho. Quando comecei a trabalhar, o mercado já pouco oferecia aos trabalhadores. Mas, para mim, habituada a ganhar pouco, era bom. Agora, pessoas como a minha mãe têm encargos que não lhes permitem aceitar salários destes.

A minha mãe era gestora na Mattel Portugal, a empresa das Barbies, mas foi despedida na véspera de Natal. Ligaram-lhe de Espanha a dizer que queriam falar com ela no aeroporto, despediram-na e voltaram a levantar voo. Se não vivesse com ela, não teria dinheiro para comer.

Despediram-me do posto de combustíveis em Outubro de 2011 e nunca mais arranjei emprego. Uma vez, estive quatro dias numa loja. Fui à entrevista, seleccionaram-me e, ao fim de quatro dias de trabalho, chamaram-me para assinar contrato. Meia hora depois, chamaram-me para assinar a carta de rescisão, porque tinham recebido um e-mail dos recursos humanos a dizer que, afinal, as lojas não estavam a facturar. Pouco tempo depois, aconteceu-me uma coisa parecida: chamaram-me, pediram as medidas para a farda e, 43 minutos depois, disseram-me que a administração não deixava contratar.

Não tenho qualquer problema em fazer o horário da manhã, tarde ou noite, o problema é que não há trabalho. Acredito nisso, porque a alternativa seria achar que o problema é meu e acho que não é. A única certeza que tenho é que, mesmo que consiga ser contratada, passado um ano e meio sou mandada embora. É estúpido, mas estaria muito mais frustrada se tivesse feito a universidade. Teria andado a queimar as pestaninhas e agora o mais certo era estar na mesma situação.

Cansei-me dos noticiários. Só falam da crise ou dos assaltos ou de pessoas que perdem a casa — tudo coisas que nos põem para baixo e, para isso, já basta eu sentir que... não tenho lugar. Lembro-me da notícia daquele rapaz desempregado que se pôs em greve de fome, em Santa Catarina, no Porto, e que a seguir recebeu uma chuva de ofertas de emprego. Às vezes... não sei. É triste.