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4.9.20

A educação de muçulmanos, ciganos, imigrantes — essa gente

José Ribeiro e Castro (opinião), in Público on-line

Se o ministério, nos programas e na acção, se ativer às matérias de cidadania que são amplamente consensuais, não haverá certamente problema. Mas se se vestir de Grande Educador e se puser ao serviço de correntes que animam controvérsia contínua suscita naturalmente a rejeição de muitos pais.

No célebre filme de Gary Cooper, o comboio apitou três vezes. No último artigo de Rui Tavares, o comboio também apitou três vezes. Devia ter apitado quatro. Apitou para os muçulmanos da mesquita. Apitou para os ciganos. E apitou para os imigrantes. Devia ter apitado também para os outros, a gente que se manifestou.

A cada apito, Rui Tavares desculpou-se a muçulmanos, ciganos e imigrantes, por os mencionar ao engano. Três vezes se desculpou. Faltou desculpar-se também a Cavaco Silva, Passos Coelho e D. Manuel Clemente, bem como às dezenas de outros que omitiu, subscritores do abaixo-assinado pelas liberdades de educação. Eu também sou um desta gente.

O artigo de Rui Tavares, pessoa que respeito como espírito livre, mostra bem como é resvaladiça a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, quer na questão de fundo, quer pelo caso concreto que, após vários incidentes dispersos, projectou o escândalo a nível nacional. Tão resvaladiço e tão envolto em preconceito que apeteceu pisar a fronteira do “racismo e xenofobia”. Rui Tavares dirá certamente que não quis estigmatizar. Mas, sob pena de o argumento não funcionar, ele deslizou anonimamente para dentro da multidão unânime que rejeitaria as exigências quanto à educação dos filhos — e, em subtexto, lá estão os estereótipos que imporiam a recusa da “deriva comunitarista” (os muçulmanos), da “discriminação de género” (os ciganos) e da evasão a “integrar-se” (os imigrantes).

Aqui, ecoa o velho poema, dramático: primeiro, vieram pelos muçulmanos; depois, vieram pelos ciganos; a seguir, vieram pelos imigrantes; e, enfim, vieram pelos outros, esta gente. Ora, em direitos fundamentais, é igual para todos: não há muçulmano, nem imigrante, não há cigano, nem “outros” — todos somos “nós”.

Isto não tem a ver com subtextos a que podemos recorrer para impressionar frisas e camarotes. Isto tem a ver com cada questão concreta que se ponha. Se muçulmanos, ciganos e imigrantes — até negros, veja-se lá, e índios, mais indianos e os da loja do chinês — assinarem o abaixo-assinado das liberdades de educação têm todo o direito, porque, como pais, têm o mesmo direito fundamental às liberdades de educação em Portugal. Aí, eu também sou muçulmano, cigano, imigrante. E, na mesma linha, é batota apontar Cavaco Silva, Passos Coelho e D. Manuel Clemente para, em subtexto, atrair antipatias político-partidárias ou sugerir uma fractura religiosa. Não é questão religiosa. É questão de cidadania, ainda que os cidadãos, como cidadãos livres, tenham direito à liberdade religiosa e à liberdade de consciência. Não esquecer.

A primazia dos pais quanto à educação dos filhos — com a consequente posição subsidiária do Estado (presta um serviço, não ordena) – é matéria de direito natural, abundantemente consagrada em declarações internacionais de direitos, em textos constitucionais e nas leis. Em boa fé e com recta intenção, não sofre a mais pequena dúvida e não é possível opor-se-lhe qualquer reserva. Basta ler a Constituição. E também não oferece a menor dúvida o ensino obrigatório, no interesse de todas as crianças e jovens serem fluentes a ler, escrever e contar, consolidarem ciências e humanidades, ganharem saberes para a realização pessoal e profissional na vida adulta.

É falácia absoluta, quanto à Educação para a Cidadania, convocar, em paralelo, disciplinas como Literatura, Português, Matemática ou outras. Não são estas questões que estão colocadas e todas se afigurariam disparatadas. Ouvi perguntar: a cidadania não é obrigatória? Também não é isso, até porque a cidadania é livre. A questão é saber se, aproveitando-se da ambiguidade do âmbito de uma matéria, o Estado pode aproveitar para despejar os conteúdos que lhe apetecer, a fim de “doutrinar” os alunos. Não pode: a Constituição proíbe-o. Tudo depende do bom senso. Se o ministério, nos programas e na acção, se ativer às matérias de cidadania que são amplamente consensuais (e há tantas para cuidar…), não haverá certamente problema. Mas se o ministério se vestir de Grande Educador e se puser ao serviço de correntes que animam controvérsia contínua, incluindo temas que incendeiam acções de rua e confrontos eleitorais, suscita naturalmente a rejeição de muitos pais e pode, no limite, estragar a escola. Estes pais têm de ser respeitados. Não há volta a dar. Em nome dos filhos, é deles a liberdade, o direito e também o dever.

Rui Tavares evita o caso concreto das crianças de Famalicão. Não pode. Porque este caso, horrível, é a realidade a gritar, que temos de escutar e ver. Estes pais nem recusaram por inteiro a frequência da disciplina não essencial; exigiram ser informados previamente da matéria das aulas, a fim de decidirem em concreto. Nunca o foram; e o problema evoluiu como conhecido.

O radicalismo sectário do ministério atingiu o clímax na decisão do secretário de Estado de fazer chumbar as duas crianças (alunos de alto aproveitamento, exemplares no conceito dos professores) por dois anos: 2019/20 e, retroativamente, 2018/19. Não havia de certeza um só país no mundo em que alunos tenham sido reprovados por dois anos. Agora, já há: Portugal, graças ao secretário de Estado João Costa. Se houvesse no PISA uma tabela para graduar os países com reprovações por tempo a dobrar, Portugal, enfim, apareceria em primeiro lugar.

O processo destas duas crianças merece ser lido e divulgado: é um monumento de extremismo autocrático, o abuso do triturador burocrático para um exercício de crueldade administrativa repetida. Quem é capaz de chumbar duas crianças de 12 e 14 anos, fazendo-as recuar ao tempo escolar dos 10 e dos 12? Quem é capaz deste flagelo administrativo e desta tentativa de humilhação? Que ideia foi a de mandar estes pais à comissão de protecção de menores? Vá lá o secretário de Estado! Vá lá explicar à comissão que furtar dois anos à vida de duas crianças, por ordem do poder, é a decisão “no melhor interesse da criança”, como a lei determina.

O Ministério da Educação mostrou que não tem a menor competência para cuidar da Educação para a Cidadania. Não faz ideia do que é cidadania activa, nem a respeita. Persegue-a. O poder democrático não está na ponta da caneta do mandarim. Está na justiça e na liberdade da gente livre. É por isso que, no limite, a Constituição também prescreve o direito de resistência.

23.8.18

Estas mulheres dinamarquesas gritam que “não se pode libertar alguém que já é livre”

Maria João Monteiro, in Público on-line

Face à proibição do véu islâmico na Dinamarca, um grupo de mulheres criou o Kvinder i Dialog. Ayse e Ayesha fazem parte do grupo que dialoga com a comunidade através de exposições, palestras e bancas de rua onde qualquer pessoa pode experimentar o niqab.

Há 15 dias que Ayesha Ibrahim, nascida e criada na Dinamarca, não vai à escola nem ao trabalho. “Se sair de casa, sou considerada uma criminosa”, começa por contar ao P3 em entrevista telefónica. A 1 de Agosto, entrou em vigor a lei que proíbe o uso do véu integral islâmico em público e que penaliza com uma multa quem sair à rua com o niqab, o véu que deixa apenas os olhos a descoberto, ou a burqa, peça de vestuário que cobre o corpo todo da mulher e que tem uma abertura rendilhada nos olhos. “Aqui fala-se muito de liberdade e dos direitos das mulheres, mas agora nem sequer podemos escolher aquilo que vestimos”, atira.

A jovem de 19 anos, que tem raízes turcas, afirma que “sempre se sentiu mais dinamarquesa do que turca”, já que a Dinamarca é a única casa que conhece. Ayesha sublinha que crescer naquele país enquanto muçulmana “não foi uma experiência muito diferente da dos colegas não-muçulmanos”. “Nunca foi difícil fazer amigos na escola e os professores sempre foram amáveis, assim como os meus vizinhos”, diz.

Quando começou a praticar o islamismo, nada mudou na comunidade envolvente – até à data em que a lei foi aprovada pelo Parlamento dinamarquês, a 31 de Maio. “Fiquei em choque quando soube da notícia, porque este é um país livre”, recorda Ayesha. Também Ayse Ciftci, 21 anos, partilha da mesma opinião e faz questão de distinguir duas realidades que se opõem. “Existe a Dinamarca que eu conheço e na qual eu cresci, e a Dinamarca onde eu vivo neste momento.”

Ao contrário de Ayesha, Ayse não veste o niqab, mas o hijab, o lenço que cobre apenas o cabelo e que não é abrangido pela lei. A vida das duas jovens cruza-se nas actividades do grupo Kvinder i Dialog (Mulheres em Diálogo, em tradução livre), ponto de encontro entre mulheres muçulmanas que usam hijab, niqab ou burqa. “Muita gente falava sobre nós, mas nunca connosco”, refere Ayesha. “Criámos esta organização para sermos nós a contar a nossa história.”

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Desde o início do ano, o grupo sediado em Copenhaga organizou eventos como palestras em escolas, open houses (com exposições e doces caseiros) e bancas de rua onde, além de tomar chá ou café, os transeuntes podiam experimentar o niqab. O objectivo era promover a aproximação entre as mulheres muçulmanas e a sociedade. “Muita gente que se opunha ao niqab mudava de opinião e dizia ‘Achava que eras obrigada [a usar o niqab], mas agora percebo que é uma escolha’”, recorda Ayesha Ibrahim. Com a entrada da lei, estas acções de rua ficaram um pouco em suspenso, mas o colectivo continua a promover protestos e iniciativas de sensibilização, apostando também, como nunca, no activismo nas redes sociais.

A imposição do niqab às mulheres por parte da família é uma das dúvidas mais frequentes. “[Quando me perguntam], digo-lhes que usar o niqab faz parte da minha religião e ninguém me pode forçar a pô-lo e a tirá-lo”, reforça. “É algo que vem de mim.”

O véu islâmico enquanto símbolo de opressão da mulher é uma ideia cultivada por alguns membros do governo dinamarquês. “Nós queremos igualdade de género na Dinamarca, apenas isso. Se queres vestir a burqa e o niqab, encontra outro lugar onde fazê-lo”, argumenta Naser Khader, membro do Partido Popular Conservador (PPC), citado pela revista Time. Aquando da aprovação do projecto de lei, o ministro da Justiça, Soren Pape Pousel, havia dito que cobrir o rosto em público é “incompatível com os valores da sociedade dinamarquesa e com o respeito pela comunidade”.
Ayse Ciftci, aluna da licenciatura em Língua Inglesa na Universidade de Copenhaga, ironiza a lei “opressiva que quer acabar com a opressão”. “O governo diz-nos que nos quer libertar, mas isso não faz sentido nenhum”, elabora. “Não se pode libertar alguém que já é livre, nós somos todas livres.”

A jovem, filha de curdos que vieram da Turquia, considera-se trilingue — fala turco, curdo e dinamarquês — e, até há bem pouco tempo, nunca tinha encontrado discriminação. “Os dinamarqueses são geralmente muito educados e receptivos a outras culturas e religiões”, afirma. “Antes, os racistas escondiam-se, mas agora a lei fá-los pensar que podem chegar à beira de alguém e tirar-lhe o niqab da cabeça.”

O racismo também une

Foi o que aconteceu a uma mulher de 28 anos que estava no centro comercial quando foi confrontada por outra que lhe arrancou o véu islâmico. “A polícia multou-a, mas a outra mulher também foi punida”, conta Ayse. As coimas vão das mil coroas às dez mil coroas dinamarquesas (cerca de 130 e 1300 euros, respectivamente). Rachid Nekkaz, magnata e activista argelino-francês conhecido como o “zorro do niqab”, ofereceu-se para pagar as multas das mulheres dinamarquesas, à semelhança do que já fez em países com medidas semelhantes como França ou Bélgica. “Face a essa notícia, já se fala em levar a lei mais longe e prender as mulheres que usem niqab”, revela Ayse.
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Na Dinamarca marchou-se contra e a favor do uso do véu

Dinamarca proíbe uso de véu islâmico que tape a cara em público
O racismo veio à tona mas, segundo Ayse, “também uniu a população dinamarquesa, apesar das diferenças culturais e religiosas”. A 1 de Agosto, milhares de pessoas reuniram-se no centro de Copenhaga, entre muçulmanos e não-muçulmanos que cobriram o rosto com máscaras e lenços para uma marcha contra a proibição do véu islâmico integral.
A estudante opina que “as mulheres não vão tirar o niqab e deixar que o governo as discrimine”. “Não podemos esperar que um grupo de pessoas comprometa a sua identidade só para ser aceite”. Para estas mulheres, ainda há muito caminho a trilhar para “desconstruir a ideia de que os muçulmanos não contribuem para a sociedade”. “Só porque nos vestimos de forma diferente, não quer dizer que não pertencemos à população dinamarquesa”, termina. “Nós somos dinamarquesas.”