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24.7.23

Os portugueses estão melhor» e «o País está a melhorar»

in Portugal.Gov

«Os portugueses estão melhor» e «o País está a melhorar», sublinhou o Primeiro-Ministro António Costa no discurso de abertura do debate sobre o estado da Nação, na Assembleia da República.


Os portugueses estão melhor porque «pagam hoje menos 2 000 milhões de euros de IRS», «60 000 crianças já tiveram este ano acesso a creche gratuita»; «a diferença salarial entre homens e mulheres diminuiu um quarto»; 660 000 pessoas libertaram-se da situação de pobreza ou exclusão social; «nunca houve tantos portugueses empregados»; «os aumentos salariais vão além do negociado em Concertação Social»; «as prestações sociais e pensões subiram acima da inflação»; «a inflação já está a baixar, sobretudo nos preços da energia e em muitos bens alimentares».


Desígnios até 2026

«Cumprido um quarto da legislatura», o Primeiro-Ministro António Costa apontou «os principais os desígnios que mobilizarão a nossa ação nas próximas três sessões legislativas»,


António Costa destacou os seguintes desígnios nacionais:modernização do tecido produtivo através das Agendas Mobilizadoras do PRR.

melhoria do sistema de ensino através da rede de Centros Tecnológicos Especializados no ensino secundário vocacionados para a transição digital, a indústria 4.0 e a transição energética.
combate às alterações climáticas através de investimento na floresta e proteção dos oceanos, na ferrovia, nos metros e nas energias renováveis.
qualificar as respostas sociais, construindo ou modernizar 471 unidades de cuidados de saúde primários e 31 156 novos lugares em creches.
garantir o direito à habitação, disponibilizando 26 000 fogos até 2026 e 6 800 fogos a custos acessíveis.
combate à pobreza e exclusão social, retirando da situação de pobreza mais 660 mil pessoas, das quais 170 mil crianças e 230 mil trabalhadores.
uma década de convergência com os países mais desenvolvidos da UE e reduzindo a dívida pública para menos de 100% do PIB.

No caminho certo

O Primeiro-Ministro afirmou que o Governo tem «bem consciência das dificuldades que os portugueses enfrentam no seu dia-a-dia» e está ciente «que muitos jovens se interrogam sobre o seu futuro em Portugal», mas também tema certeza que os resultados já alcançados provam que estamos no caminho certo.

Para prosseguir este caminho o País dispõe de um elevado volume de fundos europeus para investir nos próximos anos permitindo «acelerar este processo de transformação estrutural da economia portuguesa».

27.6.16

Crianças presas em espaços fechados não aprendem nem crescem

in o Observador

Quanto mais protegemos as crianças mais as aprisionamos. De tal maneira que muitas acabam por passar menos tempo ao ar livre do que os detidos em estabelecimentos prisionais. A mudança é urgente.

E se lhe dissessem que 70% das crianças portuguesas passam menos tempo ao ar livre por dia do que os 60 minutos recomendados para os detidos em prisões? Provavelmente não acreditaria, mas é verdade. A conclusão é de um estudo levado a cabo pela marca Skip no nosso país e vem reforçar as convicções de vários especialistas, segundo os quais é necessário fazer algo para mudar a situação com urgência. Preocupada com o desenvolvimento infantil a marca publicou nas últimas semanas um vídeo online que alerta justamente para esta questão.

Uma das vozes que mais se tem feito ouvir nesta matéria é a de Carlos Neto, professor catedrático e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH). Nas suas palavras, esta tendência de manter as crianças em espaços fechados “retira-lhes a possibilidade de poderem viver uma infância feliz, por não experienciarem situações corporais que são próprias da idade e fundamentais na formação da sua personalidade e identidade”.

O Professor revela que “são crianças muito protegidas e aprisionadas corporalmente quanto a possibilidades de confronto com o espaço físico exterior”, lembrando ainda que esta não é uma situação exclusiva de Portugal: “Verifica-se de forma generalizada por todo o mundo e tem vindo a assumir dimensões muito preocupantes na perspetiva dos direitos e da saúde das crianças.”
Pandemia do controlo

Mas como é que se chegou a este ponto? Carlos Neto não hesita em apontar o dedo àquilo que designa por “pandemia do controlo adulto das experiências de movimento na infância” ou “terrorismo do não”. As consequências são as que se adivinham e o professor, a trabalhar com crianças há mais de quatro décadas, enumera-as: “Promove uma pobreza de cultura motora, criando condições para que se instale uma iliteracia física, prejudicial ao desenvolvimento de estilos de vida saudável nestas idades e ao longo da vida.”
Alterações nos últimos 20 anos em todo o mundo

– As crianças perderam 8 horas de brincadeira por semana.

– 30 mil escolas acabaram com o recreio.

– Menos 50% do tempo é passado na rua.

– As atividades desportivas e artísticas organizadas aumentaram até 180 minutos.

Embora admita a importância do estabelecimento de regras na educação dos mais novos, realça que “os pais atuais têm uma preocupação excessiva, e por vezes obsessiva, em não permitir que os filhos corram riscos em situações de movimento ou de atividade física”. O problema é que, ao impedirem o confronto com o risco físico, estão a “contribuir para um aumento do sedentarismo e analfabetismo motor na infância”. Sublinha ainda que “aprender a mover o corpo em liberdade e sem constrangimentos é uma necessidade crucial para o desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social da criança”.
Desaparecimento da rua

Questionado sobre o contexto que levou pais e educadores a aprisionarem as suas próprias crianças, o professor elenca diversos motivos. Entre eles, o “desaparecimento da rua enquanto local de jogo”, muito por via da crescente urbanização das cidades, aumento do tráfego automóvel e ausência de políticas públicas dirigidas ao bem-estar na infância. Ao mesmo tempo, assiste-se ao “excessivo alarmismo dos órgãos de comunicação social sobre os perigos a que as crianças estão sujeitas”, levando à redução da permissão dada pelos pais para que se desloquem sozinhas.

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O que os pais não sabem – ou facilmente esquecem – é que esta via da proteção excessiva está longe de ser benéfica para os filhos: “Brincar é ganhar confiança em si próprio e é também o melhor caminho para evitar o acidente, ou seja, quanto mais risco mais segurança.”

Ainda assim, o fundador e antigo presidente da Sociedade Internacional para Estudos da Criança não tem dúvidas em afirmar que “hoje temos melhores pais, melhores famílias, melhores crianças e melhor sociedade do que há anos atrás. O que está em causa é o aparecimento de novos problemas associados à educação das crianças do nosso tempo que podem estar a colocar em perigo a sua identidade, autonomia e necessidades básicas de desenvolvimento biológico e cultural”, alerta.
Mudanças precisam-se

Para inverter a situação são necessárias mudanças urgentes. Entre elas, Carlos Neto destaca “mais políticas públicas dirigidas à infância” e também “mais coragem política” na adoção de modelos que permitam conciliar melhor o trabalho dos pais com a escola e a família.

Na sua perspetiva, “a angústia da gestão do tempo dos filhos instalou-se na vida quotidiana dos pais, tornando-se um dos fenómenos mais intrigantes do nosso século”. Como resultado, os mais novos estão a ser vítimas daquilo que designa como um “inconsistente modelo de organização da vida social”. Pais cansados e em stress por excesso de horas de trabalho, por um lado, e crianças com agendas excessivas de tempo escolar e extraescolar, por outro, não permitem pensar na existência de tempo disponível para uma relação equilibrada e saudável do tempo para brincar entre pais e filhos”, afirma. E acrescenta mesmo que “de forma paradoxal, no nosso tempo passeiam-se mais os cães do que as crianças”.

Defende que “as cidades devem ser amigas das crianças e desenvolver projetos adequados às suas necessidades de desenvolvimento”. Para tal, considera que é necessária uma “nova cultura governamental das cidades e do seu planeamento”, contribuindo para a qualidade de vida das populações. Algo que já está “em grande desenvolvimento em muitas cidades do mundo”, nomeadamente nos países escandinavos, sublinha.
5 motivos para brincar mais e melhor

Algumas razões por que brincar é importante desde os primeiros tempos de vida, segundo Carlos Neto:

– Os jogos e brincadeiras mais comuns na infância contribuem para a aquisição de conceitos de respeito mútuo, fair-play, cidadania e cooperação;

– Brincar é estimular o sentido de humor e a positividade do cérebro e do pensamento;

– A brincar desenvolve-se a capacidade de resolver problemas e a lidar com o incerto;

– Através do jogo e da brincadeira partilha-se o sentido da vida e promove-se a empatia com os outros;

– Crianças que brincam mais são mais ativas, felizes e empreendedoras.
Mais presos, menos atentos

Comparar o tempo de recreio dos detidos em estabelecimentos prisionais com o tempo de recreio escolar é, para Carlos Neto, uma “forma inteligente de demonstrar o que está a acontecer na infância atual”. Apoiado em diversos estudos sobre o assunto, lembra que está demonstrado que “crianças ativas no recreio são aquelas que aprendem melhor dentro da sala de aula”, revelando mais capacidade de atenção e concentração. Por esse motivo, entende que “necessitamos de valorizar o tempo de intervalo escolar no projeto educativo das escolas públicas e privadas” e os “recreios devem ser estruturados de forma a ser aliciantes para as crianças”.

Lamenta que o tempo de recreio escolar seja uma espécie de “terra de ninguém”, acabando por ser “pouco valorizado pelos adultos”. “É caso para dizer que as crianças aprendem muito no recreio e deveriam brincar mais dentro da sala de aula”, sintetiza, explicando que “cerca de 90% dos reclusos presos por homicídio foram privados de brincadeira na sua infância”.