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16.3.22

"Transmissão intergeracional é uma das características determinantes da pobreza em Portugal"

Leonídio Paulo Ferreira, in DN

Desigualdade e pobreza no século XXI é a oitava e última conferência do ciclo Sociedade no Século XXI: Desafios Sociais, Geracionais, Políticos e Económicos, organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa. Palestra de Carlos Farinha Rodrigues, professor de Economia no ISEG , pode ser vista hoje às 18 horas por Zoom.

A pobreza em Portugal passa de pais para filhos, significando que o elevador social não funciona?
A transmissão intergeracional da pobreza é uma das características determinantes da pobreza em Portugal. Um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos em que participei (Faces da pobreza em Portugal) demonstrou que grande parte dos indivíduos em situação de pobreza cresceu num contexto mais ou menos continuado de privação, o que condicionou, à partida, as suas oportunidades de vida, nomeadamente contribuindo para antecipar a sua saída da escola e a entrada precoce no mercado de trabalho, assim ingressando em empregos pouco qualificados. Muitas destas famílias convivem com a pobreza desde há várias ​​​gerações. Um outro estudo recente da OCDE demonstrava que a baixa mobilidade social existente no nosso país implicava que uma família portuguesa com baixos rendimentos precisava de 125 anos (cinco gerações) até que os seus descendentes atinjam um nível de salário médio. Termos portanto um elevador social que funciona no sentido ascendente com grandes limitações. Limitações que se agravaram recentemente com os efeitos socioeconómicos da pandemia. O afastamento das crianças e dos jovens do sistema de ensino por largos períodos de tempo em 2020 e 2021 vai ter efeitos muito significativos na igualdade de oportunidades que mais tarde ou mais cedo se traduzirão num agravamento das desigualdades económicas e num potenciar acrescido de fatores de pobreza e de exclusão social

É possível ter trabalho, salário fixo e mesmo assim ser pobre?
Os baixos salários, a desigualdade salarial, a generalização do trabalho precário desempenham um papel fundamental na manutenção das condições de pobreza. De acordo com os dados publicados pelo INE, em 2019, 444 milhares de trabalhadores encontrava-se em situação de pobreza. A taxa de working poor era de 9,6%. Os trabalhadores pobres representavam 33.6% do total da população pobre com 18 ou mais anos. Em 2020 a proporção de working poors subiu para 11,2%. Os jovens, no processo de transição do sistema educativo para o mercado de trabalho são particularmente afetados por formas desreguladas de funcionamento do mercado de trabalho. A relação entre a participação no mercado de trabalho e a situação de pobreza não depende exclusivamente dos níveis salariais auferidos. Depende também em muito da dimensão e da composição da família em que o trabalhador está inserido. Por exemplo, e tomando como referência o ano de 2020 um trabalhador que vivesse sozinho e que ganhasse o salário mínimo estava acima do limiar de pobreza. Mas se considerarmos um casal com dois filhos em que somente um dos elementos do casal aufere o salário mínimo, então os seus rendimentos do trabalho estão cerca de 30% abaixo do limiar de pobreza pelo que essa família, e esse trabalhador, são pobres.

Somos um país mais desigual do que os do resto da Europa?
Os últimos dados de que dispomos para comparar a desigualdade entre os vários países europeus remontam a 2019 não refletindo assim o agravamento das desigualdades provocados pelos efeitos socioeconómicos da pandemia. Em 2019, Portugal era o oitavo país mais desigual da União Europeia com um coeficiente de Gini de 31,2%, 0,2 pontos percentuais acima da média dos 27 países da atual União Europeia. A acentuada descida da desigualdade ocorrida no nosso país entre 2014 e 2019 justifica a aproximação dos níveis de desigualdade medida pelo índice de Gini em Portugal com o valor médio da União Europeia. Por exemplo, em 2014, o nível de desigualdade em Portugal era 3,2 pontos percentuais superior à média da UE. Os efeitos da crise suscitada pela pandemia foram profundamente desiguais e agravaram os níveis de desigualdade. Em 2020, o índice de Gini assumiu o valor de 33%, agravando-se 1.8 pontos percentuais.

Alguma razão para Madeira e Açores terem maior percentagem de pobres do que o continente?
As razoes que explicam que as regiões autónomas dos Açores e da Madeira sejam as regiões do país com maior incidência da pobreza são múltiplas e complexas. Os custos da insularidade, as taxas de participação no mercado de trabalho, os baixos níveis médios de rendimento quando comparados com o continente desempenham certamente um papel importante nessa incidência acrescida da pobreza nas regiões insulares. Mas existe um outro aspeto que gostaria de realçar. É igualmente nestas duas regiões que se verificam os maiores níveis de desigualdade. Que a desigualdade e a pobreza podem ser vistas como as duas faces da mesma moeda é facilmente verificado quando olhamos para a situação da Madeira e dos Açores. O que reforça a minha convicção de que não é possível combater a pobreza sem simultaneamente reduzir as desigualdades.

Redução da pobreza passa por aposta na educação ou tem de haver mais soluções?
Todos os estudos que conheço sobre a pobreza em Portugal reafirmam a ideia que o aumento dos níveis de ensino e das qualificações constitui o instrumento mais eficiente para, de forma estrutural, reduzir a pobreza no nosso país. A relação entre níveis de qualificação e maiores níveis de rendimento e menor incidência da pobreza é facilmente demonstrável. Em 2019, a incidência da pobreza entre os indivíduos com 18 e mais anos que possuíam o 1º ciclo do Ensino Básico ou menos era de 44%. Essa incidência reduzia-se para 12% para quem tinha o ensino secundário e para 5% para quem tinha alcançado um curso superior. Apesar destes números tem-se vindo a assistir nos anos mais recentes a alguma desvalorização da eficácia relativa da educação na redução da pobreza. Essa desvalorização é particularmente sentida nos jovens, que no seu processo de transição do sistema de ensino para o mercado de trabalho enfrentam dificuldades acrescidas (precariedade de trabalho, salários não correspondentes às suas qualificações, etc.) que é extremamente preocupante. Respondendo diretamente à questão a aposta na educação (quer dos jovens quer a requalificação dos adultos) continua a ser condição necessária para a redução da pobreza. Mas não é de todo condição suficiente. Se não for assegurado o verdadeiro potencial que uma formação acrescida representa, permitindo que ela se transforme em valor acrescentado para a economia e em valorização do fator trabalho os seus efeitos na redução da pobreza serão necessariamente mitigados.

Os partidos políticos quando assumem responsabilidades governativos têm dado passos efetivos para combater a pobreza em Portugal?
Nas últimas décadas temos assistido a flutuações acentuadas na forma como os vários governos priorizam a questão do combate à pobreza na sua agenda política. Se em dados momentos foi possível identificar o aparecimento de novas gerações de políticas de combate à pobreza (o rendimento social de inserção, o complemento solidário para idosos, etc.) em outros momentos assistiu-se a um retorno a políticas mais assistencialistas de eficácia reduzida no combate à pobreza. Mas de uma forma geral pode-se afirmar que a redução da desigualdade, da pobreza e da exclusão social foi sempre considerado como algo subalterno no quadro das políticas públicas e da política económica. Recentemente foi aprovada a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Esta estratégia pode vir a constituir um elemento de coerência das diferentes políticas públicas para priorizar e implementar uma efetiva politica de redução da pobreza. Mas a estratégia de combate à pobreza deve ser vista como um ponto de partida e nunca como um ponto de chegada. O combate pela redução e erradicação da pobreza somente ganha o seu sentido pleno se for, simultaneamente, um combate por uma economia ao serviço das pessoas, que preserve a casa comum que todos hoje habitamos e onde novas gerações irão habitar no futuro e que assegure um desenvolvimento socioeconómico sustentado e inclusivo.

Algum país europeu tem sido bem-sucedido no combate à pobreza e na redução das desigualdades?
Também a nível europeu os avanços e os retrocessos no combate à pobreza tem estado muito associados à prioridade que as políticas comunitárias atribuem a esse objetivo. Se em determinados momentos foram implementados mecanismos e recursos para uma efetiva redução da pobreza e para a construção de uma Europa mais social (Os Planos Nacionais para o Combate à Pobreza, os Planos Nacionais para a Inclusão, etc.) nos anos mais recentes foi predominante a existência de políticas que claramente desvalorizavam este tipo de preocupações. O plano de ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, recentemente aprovado durante a presidência portuguesa da UE, poderá vir a ser um elemento estruturante para recolocar as questões sociais na agenda europeia. Mas a existência de um quadro mais favorável a nível europeu não é suficiente para o sucesso da redução da pobreza nos países da Europa. Ser-se bem-sucedido no combate à pobreza implica que cada país faça da redução da pobreza um desígnio nacional, um instrumento de redução das injustiças sociais, do fortalecimento da coesão social e do fortalecimento da sua economia. Se não for assegurado o verdadeiro potencial que uma formação acrescida representa, permitindo que ela se transforme em valor acrescentado para a economia e em valorização do fator trabalho os seus efeitos na redução da pobreza serão necessariamente mitigados.

SIGA A CONFERÊNCIA AQUI:

10.1.22

Mais de 60 mil menores recebem RSI

Rita Neves Costa, in JN

Cerca de 1% das pessoas com 18 anos que recebem o rendimento social de inserção
Pobreza intergeracional pode ser mais abrangente em Portugal do que mostram números oficiais. Mais de 190 mil pessoas precisam de prestação social destinada a situações de carência económica.

Cerca de 1% das pessoas com 18 anos que recebem o rendimento social de inserção (RSI) usufruem do apoio social desde o dia em que nasceram. No total, e de acordo com os números disponibilizados pelo Instituto da Segurança Social (ISS), são 42 pessoas. Apesar dos dados oficiais mostrarem uma realidade diminuta naquela faixa etária, o número de portugueses que nasceram pobres e permanecem numa situação de vulnerabilidade económica e social durante a infância, a adolescência e a idade adulta deverá ser mais vasto, segundo os especialistas ouvidos pelo JN.

"Há um histórico [em Portugal] de reprodução de condições que geram pobreza. A presença de pessoas que já nasceram pobres é muito grande. Será talvez mais de metade do total de pobres no país", avança o sociólogo Luís Capucha. Também o padre Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza em Portugal (EAPN), reconhece a realidade e critica as "políticas públicas que tem perpetuado a pobreza".

A Segurança Social contabilizava 61 520 beneficiários de RSI com idade inferior a 18 anos em outubro de 2021. Os titulares do apoio social são um dos pais ou os responsáveis pelo menor, salvo exceções (ver ficha). O valor é definido consoante a composição e os rendimentos do agregado. No mesmo período e na totalidade, eram 190 352 os portugueses a beneficiar da prestação social.

Mesmo com 42 pessoas de 18 anos (num total de 3285) a receber o RSI desde o nascimento, o ISS não precisou se, em idades superiores, haverá situações semelhantes. Por exemplo, jovens de 20 anos ou mais velhos a receber o apoio desde bebés.

Ficar prisioneiro

"À medida que mais pessoas saem da pobreza, mais tendem a ficar prisioneiros aqueles que nascem em condições muito desfavorecidas", diz Luís Capucha, que detalha que os baixos rendimentos do trabalho e das prestações sociais são algumas das causas. Além disso, "os défices fortíssimos de qualificação" são, na maior parte das vezes, transmitidos de geração em geração, por "mecanismos de exclusão social e escolar", afirma o também investigador.

Para o dirigente da EAPN, a pobreza tem "causas estruturais e pluridimensionais", seja na habitação ou na educação dos mais novos. "Se uma criança desde que nasce não é alimentada suficientemente, quando chegar o tempo da escola, por mais que ela lá esteja, não vai dar o rendimento total. Não terá o desenvolvimento intelectual para assimilar", explica.

Durante a pandemia, a crise evidenciou os problemas dos mais novos no trabalho, seja a precariedade ou a falta de regularização, o "trabalho informal" (ler reportagem). "A precariedade é geral para todos os jovens. Mas aqueles que têm percursos complicados de exclusão, condições familiares muito precárias, nem sempre valorizados emocionalmente, esses são ainda mais penalizados", defende Capucha.

Tanto o sociólogo como o padre Jardim Moreira defendem que o RSI é importante, contudo, está cada vez mais "reduzido a uma prestação". É necessário um "processo de desenvolvimento integral" de cada beneficiário e valorizar a "componente da inserção" afirmam.

A vontade de querer mais do que um trabalho mal pago e precário

"Maria" (nome fictício), 23 anos, residente no Porto, tem dois filhos. Tânia, 24 anos, também a viver no Porto, tem dois filhos. Ambas nunca tiveram um contrato laboral no setor da restauração: uma trabalhava a recibos verdes, outra de modo informal. Atualmente são beneficiárias do RSI e, apesar de reconhecerem a importância do apoio, querem deixar de recebê-lo e alcançar a estabilidade financeira e, sobretudo, a realização pessoal.

"Eu trabalhei num restaurante, prometeram-me um contrato e não o fizeram. Decidi vir embora. Num outro trabalho, estive a recibos verdes", conta "Maria" ao JN. A jovem de 23 anos não teve direito ao subsídio de desemprego, foi logo remetida para o rendimento social de inserção.

"Claro que não foi fácil ter de receber o RSI, mas depois vi que era a minha única hipótese". Está há cerca de um ano a receber o apoio. No total, por mês, são 512 euros para quatro pessoas (ela, o companheiro e os dois filhos, um com dois anos e outro com nove meses).

Tânia Andrade também trabalhou na restauração, após ter deixado de estudar aos 16 anos. Nunca descontou. Tinha um horário de 12 horas por dia e não ganhava o ordenado mínimo. O patrão não quis regularizar a situação. "Deixei-me andar", diz hoje, aos 24 anos, e com dois filhos, um de quatro anos e outro de sete meses. Em 2020, uma porta abriu-se.

Oportunidade de Ficar

A jovem está inserida no programa MAREESS do IEFP, que consiste na realização de trabalho socialmente necessário em instituições públicas e do setor solidário durante a pandemia. Começou por limpar e desinfetar os espaços da associação Asas de Ramalde, no Porto. Depois de ter o segundo filho, foi encaminhada para a cozinha. "Gosto muito, a ideia é ficar e deixar de receber o RSI". Neste momento, acumula-o com uma bolsa mensal.

O IEFP confirmou ao JN que a vigência do MAREESS vai até ao final de março deste ano.

Estigma do RSI

Para "Maria", o RSI tem sido uma ajuda "fundamental" para sustentar a família. "Quando saí do meu último emprego, fiquei sem nada. Tendo uma casa, têm de se pagar as despesas", explica. Para ela, que é jovem, diz, "seria muito melhor ter um trabalho".

A ex-empregada de mesa não paga renda, vive numa casa de família. Mas tem outra preocupação: um dos filhos está em lista de espera em quatro infantários. Sem retaguarda familiar, este é um dos fatores que a prejudicam na procura de emprego. Nos últimos anos, a jovem tem sido orientada pelo Centro Paroquial e Social São Nicolau, no Porto, que tem registado várias situações de desemprego em áreas como a hotelaria e a restauração, durante o período pandémico. A instituição disponibiliza serviços, como consultas de Psicologia e programas de dinamização económica.

Tânia e "Maria" têm a perceção de que o RSI é um apoio que não reúne consenso na praça pública e, inclusive, no Parlamento. Talvez por isso há quem não queira assumir ou identificar-se como beneficiário. "Como têm muito [quem critica], acham que o valor não é nada. Mas, o pouco que é, para nós [quem recebe] já é muito", conclui a ex empregada de mesa.

Condições do RSI

Quem tem direito

Pessoas que estejam em situação de pobreza extrema e precisem de melhorar a integração social e profissional. Se viver sozinho, a soma do rendimento mensal não pode ser superior a 189,66 euros.

Quais os valores

O valor máximo do RSI é de 189,66 euros para o titular do apoio, 132,76 para um adulto e 94,83 euros para um menor, que façam parte do agregado familiar.

Condições

O acesso ao RSI depende do valor do património mobiliário, como depósitos bancários e certificados de aforro, que não pode ser superior a 26 328,60 euros.

Menores

Os menores de 18 anos podem aceder por si próprios ao RSI em casos de gravidez, casamento ou união de facto há mais de dois anos ou se tiverem menores ou pessoas com deficiência a seu cargo.

Inserção

Além da prestação, o RSI é composto por um contrato de inserção, constituído por um conjunto de ações que visam garantir a integração social e profissional. O documento é um compromisso sobre a disponibilidade para trabalhar, receber formação ou enveredar por outras formas de inserção.

INE

18,4 % em risco de pobreza

A taxa de risco de pobreza correspondia, em 2020, à proporção de habitantes com rendimentos monetários líquidos (por adulto ) inferiores a 6653 euros, ou seja, 554 euros por mês.

6653 euros rendimento anual

Os dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento, realizado em 2021, mostram que em 2020 mais de 18% das pessoas estavam em risco de pobreza em Portugal (um aumento de 2,2 pontos percentuais face a 2019).

19.4.21

Ferreira Leite defende que apoios sociais “perpetuam” a pobreza e “arrastam as gerações seguintes” (com áudio)

Joana Almeida e Nuno Braga (versão áudio), in Economico 

No seu espaço habitual de comentário na TVI24, Manuela Ferreira Leite considerou “muito fácil e popular” tentar resolver a pobreza através de mais apoios sociais, mas que isso só serve para “distrair” e “arrastar” o problema às gerações seguintes.

A social-democrata e ex-ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite defendeu esta quinta-feira que os apoios sociais “perpetuam” a pobreza. No seu espaço habitual de comentário na TVI24, Manuela Ferreira Leite considerou “muito fácil e popular” tentar resolver a pobreza através de mais apoios sociais, mas que isso só serve para “distrair” e “arrastar” o problema às gerações seguintes.

“É muito fácil e muito popular tentarmos resolver os problemas através do pedido de apoios sociais, porque ninguém é indiferente à ideia de que há pobreza e de que deve haver apoios sociais. Isto é fácil de dizer, é fácil de pedir, é fácil de fazer política na base dos apoios sociais, só que é algo que não resolve o problema, pelo contrário, perpetua-o, porque arrasta as gerações seguintes na mesma base”, afirmou.

Para a social-democrata, é preciso fazer uma distinção “entre o que é pobreza conjuntural e pobreza estrutural”. No caso da pobreza conjuntural, que “sucede por ter havido uma pandemia, um incêndio, situações em que, extemporaneamente, acontece algo nas famílias”, Manuel Ferreira Leite considera que “é evidente que se recorre e deve recorrer, tanto quanto possível, a apoios sociais a essas pessoas”.

Mas “não deve esta preocupação da pobreza conjuntural fazer esquecer uma realidade diversa, que é a pobreza estrutural, que conduz a que a pobreza se transfira por gerações”, defendeu. “É uma realidade que retira perspetivas de vida, elimina o chamado elevador social e leva a que as pessoas emigrem e vão procurar outros locais onde seja possível alterar esse seu estatuto de origem”, sustentou a ex-líder do PSD.

E acrescentou: “Não nos podemos distrair à conta dos apoios sociais de que estamos a ajudar a resolver o problema da pobreza, porque a pobreza estrutural pode ser agravada pelo facto de ser, de alguma forma, paralisada com apoios sociais e depois esquece-se que isso não tem futuro”.

Manuela Ferreira Leite considera que “a educação é o grande impulsionador do elevador social” e do combate à pobreza. “Temos de ter um sistema educativo forte que consiga ultrapassar as debilidades de algumas classes sociais”, disse, acrescentando que é preciso também “uma estrutura económica e empresarial que seja capaz de suportar salários mínimos, que sejam compatíveis com uma situação que não seja a de pobreza”.

Poucas horas antes das declarações da ex-ministra das Finanças, o pedido de fiscalização do Governo aos apoios sociais deu entrada no Tribunal Constitucional. Em causa está a contestação do Executivo socialista a três diplomas aprovados no Parlamento e promulgados pelo Presidente da República que, segundo o Governo, violam a lei-travão, que impede que os deputados aumentem a despesa ou diminuam a receita fora do Orçamento do Estado.

22.10.20

Descendentes de famílias pobres em Portugal necessitam de "cinco gerações" para alcançarem rendimentos médios?

Juliana Nogueira Santos, in Polígrafo

"Vocês sabiam que, em Portugal, descendentes de uma família pobre precisam de cinco gerações até conseguirem rendimentos médios? E que 47% dos gerentes nacionais tiveram um pai que também foi gerente? Não sou eu que digo, é a OCDE", destaca-se no tweet em causa, datado de 14 de outubro de 2020.

Estas alegações têm sustentação factual?

Em meados de 2018, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) publicou um estudo sobre a mobilidade social em Portugal, isto é, a progressão na escala de rendimentos, medida no período de uma vida ou de geração para geração. Este é o estudo referido no tweet, acessível através de uma hiperligação.

No documento conclui-se que, em Portugal, "a mobilidade social é baixa na parte inferior - ‘pisos pegajosos’ impedem que as pessoas subam - e ainda mais baixa no topo – os tectos são ‘pegajosos’. Além disso, existe um risco substancial para os agregados familiares de rendimento médio deslizarem para rendimentos baixos e pobreza ao longo do seu ciclo de vida".

A OCDE vai mais longe e estima o número de gerações necessárias para a obtenção de mobilidade social em famílias de baixos rendimentos. "Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a próxima, bem como o nível de desigualdade de rendimentos, em Portugal pode levar aproximadamente cinco gerações para que crianças nascidas em famílias na parte baixa da distribuição de rendimento alcancem o rendimento médio", destaca-se.

Portugal está assim ligeiramente abaixo da média da OCDE que se cifra em 4,5 gerações. É na Dinamarca que a mobilidade social é mais eficaz, com apenas duas gerações a separarem rendimentos baixos de rendimentos médios. No fundo da tabela destaca-se a Colômbia, com 11 gerações de distância.

E o que acontece com os rendimentos, também acontece com as formações e, consequentemente, com as profissões. Se os pais forem trabalhadores manuais, há 55% de probabilidade de os filhos crescerem e tornarem-se igualmente trabalhadores manuais. "Ao mesmo tempo, filhos de gerentes têm cinco vezes mais possibilidades de se tornarem gerentes do que filhos de trabalhadores manuais, uma proporção muito maior do que a média da OCDE", indica-se no estudo.

Em suma, as alegações do tweet baseiam-se nas conclusões de um estudo da OCDE, publicado em 2018, sem qualquer tipo de extrapolação ou deturpação. Importa apenas salientar que o número de cinco gerações consiste numa estimativa a partir de dados estatísticos.


12.3.20

O destino cruel de quem nasce pobre

Ana Sofia Carvalho, in RR

Uma em cada cinco crianças em Portugal estão, à partida, condenadas a um destino, no mínimo cruel: continuarem a serem pobres. 125 anos para conter este surto é, de facto, muito tempo.
Em Portugal, sonhar, infelizmente, não é para todos. “Mais de um quinto (21,9%) dos menores de 18 anos em Portugal encontravam-se, em 2018, em risco de pobreza ou exclusão social, um valor ligeiramente abaixo da média da União Europeia (23,4%), segundo dados da Eurostat divulgados pela Renascença.

Apesar dos valores estarem a melhorar, o que estes dados nos indicam é que estamos a perpetuar o ciclo de pobreza e a transmiti-la de uma geração para outra; uma em cada cinco crianças em Portugal estão, à partida, condenadas a um destino, no mínimo cruel: continuarem a serem pobres. 125 anos para conter este surto é, de facto, muito tempo…

De facto, hoje sabemos que os efeitos da pobreza começam antes do nascimento, acumulam-se ao longo da vida e, normalmente perpetuam-se pelo menos por cinco gerações.

A pobreza infantil tem impactos negativos na saúde das crianças, no seu desenvolvimento cognitivo, no desenvolvimento social, emocional e comportamental e nos resultados educativos.

Estudos internacionais, que na essência não devem diferir do que acontece em Portugal, indicam que estas crianças nascem com menos peso (cerca de 200 g menos), têm mais probabilidade de morte súbita durante a infância, de sofrerem de obesidade entre os quatro e os cinco anos, de terem doenças crónicas, de morrerem de acidente e/ou de sofrerem de problemas mentais.

Além disso, uma criança que nasça numa família pobre e com baixa escolaridade materna, revela atividade cerebral mais fraca, o que poderá significar dificuldades de aprendizagem mais significativas.

Uma infância pobre tem, de facto, repercussões de longo alcance e duradouras que se estendem ao longo de todo o ciclo vital - maior risco de morrer de cancro, doença cardíaca ou doenças causadas por consumos aditivos. Além disso, a esperança de vida das pessoas que nascem e crescem em zonas mais carenciadas é cerca de 9,2 anos menor do que a restante população.

Os determinantes socioeconómicos de saúde no Reino Unido indicam uma situação gravíssima, talvez por incompetência minha não tenha encontrado dados para Portugal, mas, infelizmente, estou a crer que não seriam significativamente melhores.

Saber que uma em cada cinco crianças vive uma situação de pobreza em Portugal é assustador, saber que em média serão necessários 125 anos para quebrar este ciclo é desanimador.

Apesar disso, talvez este diagnóstico possa ser útil na tentativa de mudar esta realidade. Assim, embora o impacto de nascer pobre pareça aprisionar as crianças num ciclo inter-geracional de miséria, a verdade é que o nosso país conseguiu transformar, de forma absolutamente surpreendente, os indicadores da mortalidade infantil. Talvez agora, devamos fazer desta “morbilidade social” a nossa bandeira. Este é o futuro de todos nós.


6.3.18

"Sou pobre, vou ser pobre". Políticas não quebram pobreza geracional

in https://www.dn.pt/portugal/interior/politicas-para-combater-pobreza-nao-conseguiram-quebrar-pobreza-geracional---caritas-9147173.html

Políticas adotadas nos últimos 10 anos em Portugal para combater a pobreza não quebraram ciclos de transmissão da pobreza, diz relatório europeu da Cáritas

As políticas adotadas na última década em Portugal para combater a pobreza não conseguiram quebrar os ciclos de transmissão da pobreza, segundo um relatório europeu da Cáritas, que é apresentado hoje em Lisboa.
"Há em Portugal muitas políticas públicas" para combater a pobreza, mas "nenhuma parece ser capaz de a erradicar, particularmente porque não se integram numa estratégia eficiente de interromper os ciclos de transmissão da pobreza, salienta o relatório "Os jovens precisam de um futuro".

Em Portugal, os mais carenciados provêm de famílias que foram confrontadas com situações de pobreza durante toda a vida, sendo que para a maioria "continua a ser muito difícil sair desta situação e quebrar o ciclo de pobreza", refere o relatório que descreve os principais desafios relacionados com a pobreza e a exclusão social entre os jovens em Portugal.

Segundo o estudo, os efeitos da transmissão da pobreza observam-se na educação (abandono escolar precoce), no mercado de trabalho (dificuldades de acesso ao emprego) e na habitação (viver em bairros desfavorecidos). "É provável que uma criança que nasça num agregado familiar carenciado venha a enfrentar mais dificuldades no futuro. Isto tem reflexos evidentes nos seus estudos, a nível familiar e institucional", sublinha.

A perpetuação do pensamento "eu sou pobre, por isso vou ser pobre o resto da minha vida" também torna "muito difícil" a saída do jovem desta situação, aceitando-a como uma condição para o seu futuro.

Relativamente aos direitos que os jovens têm mais dificuldades em aceder, o relatório destaca a educação, o trabalho, habitação, igualdade e não discriminação e proteção social.

"Em Portugal, os jovens têm mais dificuldades em aceder a uma série de direitos", uma situação para a qual contribui principalmente as dificuldades no acesso ao trabalho.

Por outro lado, os benefícios sociais são maioritariamente canalizados para a população com muitos baixos rendimentos, "obedecendo a sistemas de condições de recursos muto rígidos", refere o relatório a que a agência Lusa teve acesso.

"Os jovens são confrontados com situações de desemprego, empregos precários, contratos irregulares e baixos salários", o que torna "muito difícil" um jovem conseguir suportar os custos de habitação.

Perante a realidade observada, o relatório recomenda aos decisores políticos que promovam "níveis salariais dignos", previnam a precariedade laboral, as irregularidades e a evasão fiscal nos contratos laborais, concedam "oportunidades iguais no acesso à educação" e facilitem "a habitação a preços acessíveis para os jovens de acordo com os seus rendimentos".

Ao nível europeu, o estudo revela que esta é a primeira geração de jovens a enfrentar o risco de empobrecimento relativamente à geração dos seus pais.

A Cáritas Europa prevê um novo tipo de pobreza juvenil: jovens casais trabalhadores que dificilmente conseguem suportar as suas despesas e que não podem construir uma família, a que apelidou de "SINKIES" (em afundamento).

"Os SINKIES são um sinal extremamente grave que os decisores políticos devem levar muito a sério. Se a tendência se tornar normal, isso provocará sérias consequências para a coesão social da Europa, modelos sociais e sistemas de proteção social. Corremos o risco de ser uma sociedade que se afunda se nenhuma medida for tomada agora", adverte o secretário-geral da Cáritas Europa, Jorge Nuño Mayer.

O relatório é apresentado hoje num encontro em Lisboa, que conta com a presença de Jorge Nuño Mayer e do presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, que assinala o inicio da Semana Nacional Cáritas que decorre até domingo.