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16.3.22

"Transmissão intergeracional é uma das características determinantes da pobreza em Portugal"

Leonídio Paulo Ferreira, in DN

Desigualdade e pobreza no século XXI é a oitava e última conferência do ciclo Sociedade no Século XXI: Desafios Sociais, Geracionais, Políticos e Económicos, organizado pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa. Palestra de Carlos Farinha Rodrigues, professor de Economia no ISEG , pode ser vista hoje às 18 horas por Zoom.

A pobreza em Portugal passa de pais para filhos, significando que o elevador social não funciona?
A transmissão intergeracional da pobreza é uma das características determinantes da pobreza em Portugal. Um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos em que participei (Faces da pobreza em Portugal) demonstrou que grande parte dos indivíduos em situação de pobreza cresceu num contexto mais ou menos continuado de privação, o que condicionou, à partida, as suas oportunidades de vida, nomeadamente contribuindo para antecipar a sua saída da escola e a entrada precoce no mercado de trabalho, assim ingressando em empregos pouco qualificados. Muitas destas famílias convivem com a pobreza desde há várias ​​​gerações. Um outro estudo recente da OCDE demonstrava que a baixa mobilidade social existente no nosso país implicava que uma família portuguesa com baixos rendimentos precisava de 125 anos (cinco gerações) até que os seus descendentes atinjam um nível de salário médio. Termos portanto um elevador social que funciona no sentido ascendente com grandes limitações. Limitações que se agravaram recentemente com os efeitos socioeconómicos da pandemia. O afastamento das crianças e dos jovens do sistema de ensino por largos períodos de tempo em 2020 e 2021 vai ter efeitos muito significativos na igualdade de oportunidades que mais tarde ou mais cedo se traduzirão num agravamento das desigualdades económicas e num potenciar acrescido de fatores de pobreza e de exclusão social

É possível ter trabalho, salário fixo e mesmo assim ser pobre?
Os baixos salários, a desigualdade salarial, a generalização do trabalho precário desempenham um papel fundamental na manutenção das condições de pobreza. De acordo com os dados publicados pelo INE, em 2019, 444 milhares de trabalhadores encontrava-se em situação de pobreza. A taxa de working poor era de 9,6%. Os trabalhadores pobres representavam 33.6% do total da população pobre com 18 ou mais anos. Em 2020 a proporção de working poors subiu para 11,2%. Os jovens, no processo de transição do sistema educativo para o mercado de trabalho são particularmente afetados por formas desreguladas de funcionamento do mercado de trabalho. A relação entre a participação no mercado de trabalho e a situação de pobreza não depende exclusivamente dos níveis salariais auferidos. Depende também em muito da dimensão e da composição da família em que o trabalhador está inserido. Por exemplo, e tomando como referência o ano de 2020 um trabalhador que vivesse sozinho e que ganhasse o salário mínimo estava acima do limiar de pobreza. Mas se considerarmos um casal com dois filhos em que somente um dos elementos do casal aufere o salário mínimo, então os seus rendimentos do trabalho estão cerca de 30% abaixo do limiar de pobreza pelo que essa família, e esse trabalhador, são pobres.

Somos um país mais desigual do que os do resto da Europa?
Os últimos dados de que dispomos para comparar a desigualdade entre os vários países europeus remontam a 2019 não refletindo assim o agravamento das desigualdades provocados pelos efeitos socioeconómicos da pandemia. Em 2019, Portugal era o oitavo país mais desigual da União Europeia com um coeficiente de Gini de 31,2%, 0,2 pontos percentuais acima da média dos 27 países da atual União Europeia. A acentuada descida da desigualdade ocorrida no nosso país entre 2014 e 2019 justifica a aproximação dos níveis de desigualdade medida pelo índice de Gini em Portugal com o valor médio da União Europeia. Por exemplo, em 2014, o nível de desigualdade em Portugal era 3,2 pontos percentuais superior à média da UE. Os efeitos da crise suscitada pela pandemia foram profundamente desiguais e agravaram os níveis de desigualdade. Em 2020, o índice de Gini assumiu o valor de 33%, agravando-se 1.8 pontos percentuais.

Alguma razão para Madeira e Açores terem maior percentagem de pobres do que o continente?
As razoes que explicam que as regiões autónomas dos Açores e da Madeira sejam as regiões do país com maior incidência da pobreza são múltiplas e complexas. Os custos da insularidade, as taxas de participação no mercado de trabalho, os baixos níveis médios de rendimento quando comparados com o continente desempenham certamente um papel importante nessa incidência acrescida da pobreza nas regiões insulares. Mas existe um outro aspeto que gostaria de realçar. É igualmente nestas duas regiões que se verificam os maiores níveis de desigualdade. Que a desigualdade e a pobreza podem ser vistas como as duas faces da mesma moeda é facilmente verificado quando olhamos para a situação da Madeira e dos Açores. O que reforça a minha convicção de que não é possível combater a pobreza sem simultaneamente reduzir as desigualdades.

Redução da pobreza passa por aposta na educação ou tem de haver mais soluções?
Todos os estudos que conheço sobre a pobreza em Portugal reafirmam a ideia que o aumento dos níveis de ensino e das qualificações constitui o instrumento mais eficiente para, de forma estrutural, reduzir a pobreza no nosso país. A relação entre níveis de qualificação e maiores níveis de rendimento e menor incidência da pobreza é facilmente demonstrável. Em 2019, a incidência da pobreza entre os indivíduos com 18 e mais anos que possuíam o 1º ciclo do Ensino Básico ou menos era de 44%. Essa incidência reduzia-se para 12% para quem tinha o ensino secundário e para 5% para quem tinha alcançado um curso superior. Apesar destes números tem-se vindo a assistir nos anos mais recentes a alguma desvalorização da eficácia relativa da educação na redução da pobreza. Essa desvalorização é particularmente sentida nos jovens, que no seu processo de transição do sistema de ensino para o mercado de trabalho enfrentam dificuldades acrescidas (precariedade de trabalho, salários não correspondentes às suas qualificações, etc.) que é extremamente preocupante. Respondendo diretamente à questão a aposta na educação (quer dos jovens quer a requalificação dos adultos) continua a ser condição necessária para a redução da pobreza. Mas não é de todo condição suficiente. Se não for assegurado o verdadeiro potencial que uma formação acrescida representa, permitindo que ela se transforme em valor acrescentado para a economia e em valorização do fator trabalho os seus efeitos na redução da pobreza serão necessariamente mitigados.

Os partidos políticos quando assumem responsabilidades governativos têm dado passos efetivos para combater a pobreza em Portugal?
Nas últimas décadas temos assistido a flutuações acentuadas na forma como os vários governos priorizam a questão do combate à pobreza na sua agenda política. Se em dados momentos foi possível identificar o aparecimento de novas gerações de políticas de combate à pobreza (o rendimento social de inserção, o complemento solidário para idosos, etc.) em outros momentos assistiu-se a um retorno a políticas mais assistencialistas de eficácia reduzida no combate à pobreza. Mas de uma forma geral pode-se afirmar que a redução da desigualdade, da pobreza e da exclusão social foi sempre considerado como algo subalterno no quadro das políticas públicas e da política económica. Recentemente foi aprovada a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Esta estratégia pode vir a constituir um elemento de coerência das diferentes políticas públicas para priorizar e implementar uma efetiva politica de redução da pobreza. Mas a estratégia de combate à pobreza deve ser vista como um ponto de partida e nunca como um ponto de chegada. O combate pela redução e erradicação da pobreza somente ganha o seu sentido pleno se for, simultaneamente, um combate por uma economia ao serviço das pessoas, que preserve a casa comum que todos hoje habitamos e onde novas gerações irão habitar no futuro e que assegure um desenvolvimento socioeconómico sustentado e inclusivo.

Algum país europeu tem sido bem-sucedido no combate à pobreza e na redução das desigualdades?
Também a nível europeu os avanços e os retrocessos no combate à pobreza tem estado muito associados à prioridade que as políticas comunitárias atribuem a esse objetivo. Se em determinados momentos foram implementados mecanismos e recursos para uma efetiva redução da pobreza e para a construção de uma Europa mais social (Os Planos Nacionais para o Combate à Pobreza, os Planos Nacionais para a Inclusão, etc.) nos anos mais recentes foi predominante a existência de políticas que claramente desvalorizavam este tipo de preocupações. O plano de ação sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais, recentemente aprovado durante a presidência portuguesa da UE, poderá vir a ser um elemento estruturante para recolocar as questões sociais na agenda europeia. Mas a existência de um quadro mais favorável a nível europeu não é suficiente para o sucesso da redução da pobreza nos países da Europa. Ser-se bem-sucedido no combate à pobreza implica que cada país faça da redução da pobreza um desígnio nacional, um instrumento de redução das injustiças sociais, do fortalecimento da coesão social e do fortalecimento da sua economia. Se não for assegurado o verdadeiro potencial que uma formação acrescida representa, permitindo que ela se transforme em valor acrescentado para a economia e em valorização do fator trabalho os seus efeitos na redução da pobreza serão necessariamente mitigados.

SIGA A CONFERÊNCIA AQUI:

24.1.22

Escutai pobreza e comunicação

 Rita Valadas, opinião,  in TSF

A pobreza tem sido tema recorrente nos últimos tempos nas tertúlias, na comunicação social, na academia, nas instituições, na política. Escrevem-se artigos, publicam-se entrevistas, estudos e publicações. Definem-se objetivos e estratégias.

Apesar de, nacional e mundialmente, a pobreza estar na agenda e serem muitos o que se desmultiplicam em iniciativas, estratégias, ações, proteções, políticas e respostas sociais, temos de confirmar que não temos sabido encontrar os caminhos para a erradicação de uma pobreza resistente que se perpetua geracionalmente. Esta incapacidade não é uma fatalidade mas antes uma convocatória. Uma convocatória que coloca este problema multidimensional no centro da decisão política e que deve envolver transversalmente todos os setores e áreas governamentais.

Infelizmente, o que sinto, é que se fala muito da pobreza, mas muito pouco das pessoas. Fala-se de números, taxas, variação, percentagens, euros. A pobreza de que se fala é uma estatística. Os números variam mais do que a situação das pessoas que estão em risco ou em situação de pobreza. Na proximidade a realidade varia sobretudo devido a fatores externos pontuais de várias origens e pouco na pobreza estrutural que mantém um circulo vicioso.

Tudo o que se tem feito é manifestamente pouco e mantém os fatores mais perversos do fenómeno:
- A reprodução geracional

- A pobreza de quem trabalha

- As vulnerabilidades das famílias numerosas

- A fragilidade que decorre da insuficiência de recursos adequados para as pessoas com deficiência, doença e dependência.

- A vulnerabilidade do baixo rendimento em situações de instabilidade económica e social ou de acréscimo (ainda que pontual) de despesas.

Os números da pobreza, e a sua variação, também resultam de crises conjunturais de várias origens: económicas, sociais, sanitárias, humanitárias ou outras na sequência de guerras, fenómenos naturais/ambientais que colocam em risco os territórios e as populações. Neste caso, o que é necessário, é fazer confluir os recursos que possibilitem que a conjuntura não transforme em definitiva a situação de risco em que se encontram. O momento e oportunidade da intervenção é verdadeiramente determinante para o resultado e o afastamento do risco. E da vulnerabilidade...

A estratégia nacional para o combate à pobreza foi aprovada e todos somos convocados para este desiderato. Há que ouvir a voz da proximidade e juntar os trunfos e recursos que temos e a comunicação social terá um papel de grande responsabilidade.


Neste tempo de pandemia a Caritas pôde bem sentir a importância de contar com a atenção da comunicação social num serviço de comunicar com propósito.

Dar voz é uma enorme responsabilidade e creio que, no nosso caso, um serviço empenhado e competente, que acompanhou a N. ação, fez a diferença entre a carência e a solidariedade. Bem hajam

Amanhã, em Almada, será feita a presentação da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que tem por tema o imperativo "escutai".

Pedir à comunicação social que escute parece uma redundância, mas é um sinal. Depois de no ano passado ter pedido aos jornalistas que gastassem as solas dos sapatos, desta vez o chefe da Igreja pede que se escute a realidade. Ora não havendo comunicação sem escuta este não deixa de ser um desafio dos nossos tempos.

Ter tempo; ter capacidade de parar; ter condições para remar contra a maré das agendas mais fortes. Redescobrir a escuta, parece mesmo ser a palavra de ordem para todos nós.


Nunca é demais reforçar que os órgãos de comunicação social são uma das entidades que mais responsabilidade têm na vida da sociedade atual, seja em que plataforma for.

Anunciar com verdade e justiça é a mais bela das missões e isso mesmo foi particularmente reconhecido este ano com a atribuição do prémio nobel da paz a dois jornalistas que se debateram pela liberdade de expressão.

Está em causa reaprender a ouvir. A pandemia trouxe-nos o confinamento, e com isso, uma proximidade obrigatória que nos desafiou para uma escuta ativa. Era bom manter essa prática para podermos agir de forma informada e consistente, cumprindo o último desafio da estratégia nacional: "Fazer da erradicação da pobreza um desígnio nacional"

20.1.22

Seis em cada dez pobres não conseguem melhorar de vida em Portugal

Maria Caetano, in JN

Dados do relatório "Balanço Social", divulgado esta terça-feira, mostram ainda assim uma pequena melhoria nos indicadores de pobreza persistente em 2019, ano anterior à pandemia.

A pobreza persistente atingia em 2019 um em cada dez cidadãos do país, ou 9,8%.

A pobreza em Portugal mantém-se, maioritariamente, um fenómeno persistente, com seis em cada dez indivíduos pobres a não conseguirem melhorar rendimentos ao longo de pelo menos três anos no período que vai de 2016 a 2019.

A indicação é dada pelo relatório "Portugal, Balanço Social 2021", apresentado nesta terça-feira pelo centro de conhecimento Economics for Policy da Nova SBE, em parceria com a Fundação La Caixa e BPI. O documento, de caráter anual, analisa, entre outros dados, informação detalhada do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento produzido pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), permitindo acompanhar a evolução dos rendimentos das famílias ao longo de vários anos.

Desta vez, a análise incide sobre os dados relativos ao rendimento dos portugueses em 2019, ano em que se observaram melhorias nos indicadores de pobreza entretanto revertidas por impacto da pandemia. A percentagem da população que vive com valores de rendimento abaixo dos quais um indivíduo é considerado pobre no país (540 euros mensais nesse ano) desceu então aos 16,2% (foi já de 18,4% em 2020, em dados provisórios avançados em dezembro pelo INE e que no próximo verão já poderão ser analisados na sua forma completa por investigadores).

O estudo Nova SBE, de Bruno Carvalho, Mariana Esteves e Susana Peralta, analisa vários indicadores de caracterização da pobreza nacional, incluindo a sua persistência. Conclui que 60% daqueles que eram pobres em 2019 o tinham sido também em pelo menos dois de entre os três anos anteriores. Trata-se de uma melhoria ligeira face aos dados do relatório relativo ao ano anterior, quando 62.5% dos pobres do país não conseguiam mudar de vida.

Quando considerado o conjunto da população, a pobreza persistente atingia em 2019 um em cada dez cidadãos do país, ou 9,8%, que comparam com 12,5% da população que se manteve pobre na maioria dos anos de 2015 a 2018.

No que diz respeito aos dados de 2016 a 2019, "o número mais preocupante é a percentagem substancial de pessoas (6%) que, durante os quatro anos em análise, nunca saiu da situação de pobreza". Esta percentagem foi de 8,6% no período de 2015 a 2018.

À semelhança do que referiam já na edição deste estudo divulgada no ano passado, os investigadores alertam para "bolsas de pobreza persistente em Portugal que devem ser objeto de especial atenção no desenho de políticas públicas".

O documento nota também que este "quadro de pobreza persistente é especialmente agravado nos desempregados, com uma prevalência de mais do dobro da da população em geral". Quase um quarto dos desempregados, 23,7%, mantinha-se na pobreza em 2019 e na maioria dos anos anteriores.

Mas a pobreza persistente também atinge 5% dos trabalhadores do país, segundo o relatório.

Crianças e idosos continuam a empobrecer

É também elevada a pobreza persistente entre crianças, entre as quais - à semelhança dos indivíduos com 65 ou mais anos - se agravou a pobreza em 2019, apesar de uma melhoria de indicadores globais. Nesse ano, 19,1% dos menores do país encontravam-se na pobreza (18,5% em 2018), e eram 11,4% aqueles que viviam em situação prolongada de pobreza de 2016 a 2019.

O estudo destaca, aliás, que uma em cada três crianças se manteve na pobreza em pelo menos um ano ao longo de todo esse período.

É, de resto, entre as famílias com filhos que mais prevalece a pobreza em Portugal, sendo sobretudo elevada entre famílias monoparentais (em 2019, atingia 25,5% das famílias nas quais há apenas um adulto) e naquelas que têm três ou mais filhos (39,8%).

Já para a população idosa, não há indicadores quanto à persistência da pobreza, mas este mantém-se como o segundo grupo mais vulnerável, a seguir ao das crianças, com uma taxa de pobreza de 17,5% em 2019, agravada em duas décimas face aos dados do ano anterior.

É também entre os mais velhos que é maior a privação material, com 59,9% a não conseguirem fazer face a uma despesa inesperada (33,3% na população em geral) e 43% incapazes de manter a casa adequadamente aquecida com os rendimentos que têm (24,1% na população em geral), nos dados relativos a 2019.

Entre a população que trabalha, mantêm-se também níveis elevados de pobreza: um em cada dez trabalhadores é pobre em Portugal. E os dados do estudo hoje apresentado mostram que a pobreza não é indiferente ao vínculo laboral que se tem, já que são os trabalhadores precários aqueles que enfrentam maiores dificuldades. A percentagem de trabalhadores pobres entre contratados a prazo atinge os 19,8%, mais do dobro da taxa de pobreza entre quem tem vínculos permanentes (9,3%).

Os dados agora publicados refletem ainda o fim de uma trajetória de melhoria nos indicadores de pobreza que acabou por ser interrompida pela pandemia, com os indicadores preliminares já conhecidos sobre os rendimentos das famílias em 2020 a mostrarem um agravamento acentuado. A taxa de pobreza avançou 2,2 pontos percentuais, passando aos 18,4%, naquela que foi a maior subida registada em toda a série do INE.

Em Portugal e no resto dos países europeus, é considerado pobre quem vive com menos de 60% do rendimento mediano nacional. Esse valor foi de 540 euros mensais em 2019 e de 554 euros em 2020. O rendimento disponível é considerado por indivíduo, sendo distribuído de acordo com o número e situação dos membros dos agregados familiares.

19.6.18

Filho de pobre não chega a rico em Portugal

in RR

São precisas cinco gerações, mais precisamente 125 anos, até descendentes de famílias pobres terem salários médios, revela um relatório da OCDE.

Uma família portuguesa de fracos recursos socioeconómicos pode demorar 125 anos até que os seus descendentes consigam alcançar um salário médio, revela um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre mobilidade social.

O relatório, divulgado esta sexta-feira, aponta que em Portugal a condição económica transmite-se "fortemente" de geração em geração.

"Tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio", lê-se na avaliação sobre Portugal.

Os dados da OCDE mostram que em Portugal, 33% das pessoas concordam que a educação dos pais é importante para ser bem-sucedido na vida, uma percentagem ligeiramente inferior à média da OCDE, com 37%, ao mesmo tempo que muitos se revelaram pessimistas sobre as suas hipóteses de melhorarem a sua situação financeira.

A instituição acrescenta que já em 2018 realizou um inquérito, "Riscos que contam", em que 58% dos pais portugueses colocaram no top três das suas preocupações o risco dos filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

Na comparação com os restantes países analisados (Austrália, Brasil, Chile, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia, México, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos), Portugal surge como aquele onde a "mobilidade medida em termos de educação é menor".

"Apesar das várias reformas para combater o absentismo escolar e reduzir o abandono escolar precoce, as hipóteses dos mais jovens terem uma carreira de sucesso depende fortemente da sua origem socioeconómica ou do nível de capital humano dos pais", lê-se no relatório.

A mobilidade social não é distribuída uniformemente ao longo das gerações e em Portugal 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam também por ter baixos rendimentos. No lado oposto, 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados crescem para também elas terem rendimentos elevados.

Há margem para políticas que aumentem a mobilidade
Por outro lado, relativamente ao tipo de ocupação, 55% das crianças filhas de pais trabalhadores manuais acabam com a mesma ocupação dos pais, contra 37% da média da OCDE. Ao mesmo tempo, os filhos de gestores têm cinco vezes mais probabilidades de serem também gestores.

Olhando para a mobilidade ao longo da vida, o fenómeno em Portugal é igualmente limitado, particularmente na base e no topo, sendo que entre os que estão nos 20% com rendimentos mais baixos há poucas hipóteses de subirem durante quatro anos e 67% acabam por nunca sair.

"No topo, a persistência é ainda maior e 69% dos 20% com rendimentos mais altos ficam lá durante um período de quatro anos", diz a OCDE.

Para a organização, a falta de mobilidade na base pode estar relacionada com os níveis elevados de desemprego de longa duração e a segmentação do mercado laboral.

A OCDE refere que a falta de mobilidade social não é uma inevitabilidade e que há margem para políticas que aumentem a mobilidade entre gerações e ao longo da vida, deixando três objetivos: apoiar as crianças de meios desfavorecidos, assegurando uma boa educação pré-escolar, combater o desemprego de longa duração e aumentar o nível de qualificações através da educação para adultos.

O relatório pretende mostrar os prejuízos da fraca mobilidade social, em que as pessoas mais pobres, na base da escada remuneratória, têm poucas hipóteses de subir, da mesma maneira que os que estão no topo permanecem lá.
De acordo com a OCDE, isto tem consequências negativas tanto em termos sociais, como económicos e políticos, já que a falta de mobilidade social implica que muitos talentos não estejam a ser aproveitados, o que diminui o potencial crescimento económico, além de reduzir o bem-estar e a coesão social.

15.6.18

Filho de pobre tem dificuldade em chegar a rico em Portugal

in Jornal de Notícias

Portugal surge como aquele onde a “mobilidade medida em termos de educação é menor” e 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam por ter baixos rendimentos enquanto 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados crescem para ter o mesmo futuro, segundo indica o relatório da (OCDE) sobre mobilidade social

A condição económica transmite-se “fortemente” de geração em geração, de tal modo que o filho de um pobre tem dificuldade em chegar a rico em Portugal. As conclusões constam de um estudo da OCDE, onde se mostra que uma família portuguesa de fracos recursos socioeconómicos pode demorar 125 anos até que os seus descendentes consigam alcançar um salário médio.

Segundo o trabalho da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), “tendo em conta a mobilidade de rendimentos de uma geração para a seguinte, bem como o nível de desigualdade salarial em Portugal, pode demorar cinco gerações para que as crianças de uma família na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio", lê-se na avaliação sobre Portugal.

Os dados da OCDE mostram que em Portugal, 33% das pessoas concordam que a educação dos pais é importante para ser bem-sucedido na vida, uma percentagem ligeiramente inferior à média da OCDE, com 37%, ao mesmo tempo que muitos se revelaram pessimistas sobre as suas hipóteses de melhorarem a sua situação financeira.

"Apenas uma minoria (17%) esperava em 2015 que a sua situação económica melhorasse no ano seguinte e há uma preocupação em relação ao futuro dos descendentes", diz a OCDE.

A instituição acrescenta que já em 2018 realizou um inquérito, "Riscos que contam", em que 58% dos pais portugueses colocaram no top três das suas preocupações o risco dos filhos não alcançarem o nível económico e de conforto que eles já têm.

Na comparação com os restantes países analisados (Austrália, Brasil, Chile, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia, México, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos), Portugal surge como aquele onde a "mobilidade medida em termos de educação é menor".

"Apesar das várias reformas para combater o absentismo escolar e reduzir o abandono escolar precoce, as hipóteses dos mais jovens terem uma carreira de sucesso depende fortemente da sua origem socioeconómica ou do nível de capital humano dos pais", lê-se no relatório.

A mobilidade social não é distribuída uniformemente ao longo das gerações e em Portugal 24% dos filhos de pais com baixos rendimentos acabam também por ter baixos rendimentos. No lado oposto, 39% das crianças cujos pais têm rendimentos elevados crescem para também elas terem rendimentos elevados.

Por outro lado, relativamente ao tipo de ocupação, 55% das crianças filhas de pais trabalhadores manuais acabam com a mesma ocupação dos pais, contra 37% da média da OCDE. Ao mesmo tempo, os filhos de gestores têm cinco vezes mais probabilidades de serem também gestores.

Olhando para a mobilidade ao longo da vida, o fenómeno em Portugal é igualmente limitado, particularmente na base e no topo, sendo que entre os que estão nos 20% com rendimentos mais baixos há poucas hipóteses de subirem durante quatro anos e 67% acabam por nunca sair.

"No topo, a persistência é ainda maior e 69% dos 20% com rendimentos mais altos ficam lá durante um período de quatro anos", diz a OCDE.

15.2.16

Como crescer pobre tem um efeito que dura a vida toda

in Visão

Uma equipa de investigadores norte-americanos acredita ter descoberto provas de um efeito persistente e limitador da pobreza vivida nos primeiros anos de vida

Uma investigação, liderada pela professora de psicologia do Texas Sarah Hill, concluiu que as pessoas que crescem na pobreza parecem ter sérias dificuldades em regular o seu consumo de alimentos mesmo quando não têm fome. "Descobrimos que comem quantidades significativamente mais elevadas independentemente da sua necessidade", confirma a investigadora.

A ideia do estudo era perceber por que razão a obesidade têm maior prevalência nas populações mais pobres. Para isso, levaram a cabo três experiências em separado, para avaliar como pessoas de diferentes origens socioeconómicas se comportavam perante a comida.

Na primeira, chamaram ao seu laboratório 31 mulheres, a quem foi perguntado há quanto tempo tinham comido e se sentiam com fome. À sua disposição havia snacks, como bolachas e aperitivos salgados, que podiam comer ou não, conforme a sua vontade. No final, a equipa de Hill analisava o número de calorias consumidas - a discrepância entre o que as participantes comeram foi "alarmante": As que tinham crescido em ambiente socioeconómicos mais elevados mostram um comportamento de consumo dito "normal" (comiam quando tinham fome, paravam quando deixavam de ter); As que tinham crescido em ambientes mais pobres, comiam independentemente da fome.

Com estes resultados, os investigadores passaram à experiência seguinte e convidaram outras 60 mulheres, a quem tinham pedido para não comer nem beber durante cinco horas. A metade do grupo foi dado um refigerante calórico com gás e à outra metade água com gás, sem calorias. Em seguida, ambos os grupos tiveram à disposição snaks, que podiam ingerir ou não. Mais uma vez, os resultados foram significativos: as participantes que vinham de situações socioeconómicas mais elevadas comeram muito menos depois de ter bebido o refrigerante, enquanto as outras comeram independentemente do que tinham bebido. "É incrível, é como se o refrigerante não contasse para aqueles que tiveram um estatuto socioeconómico baixo enquanto crianças. É como se estivessem a beber água", comenta Sarah Hill.

Na terceira e última experiência, os investigadores replicaram a sua segunda, mas com duas alterações. Desta vez, convidaram 82 participantes, incluindo homens, e mediram os níveis de açúcar no sangue. Mais uma vez, a mesma conclusão: só os que não tinham passado por uma situação de pobreza na infância pareciam regular bem o seu consumo de alimentos.

E Hill sublinha a pobreza na infância porque os padrões alterados de consumo de alimentos só se verificaram nos participantes que tinham tido dificuldades enconómicas enquanto crianças, sem que se verificassem nos que atualmente, enquanto adultos, declaravam uma situação socioeconómica desfavorável.

E foi isto que surpreendeu a equipa de cientistas: "Pensámos que haveria uma associação com ambos."

Sem que tenham conseguido chegar a uma explicação definitiva, os investigadores acreditam que uma explicação possível prende-se com a educação, ou menor educação, neste caso, para as necessidades do corpo. Outra possibilidade a ter em conta é a existência de uma espécie de condicionamento: para os que nunca tiveram de se preocupar com uma refeição, não aproveitar um snack oferecido não parece nada de especial, mas, para os outros, pode ser a diferença entre uma boa noite de sono ou horas acordados com fome.

"Quando se cresce neste tipo de ambientes, é-se efetivamente treinado para comer quando se pode em vez de quando se tem fome", explica Hill, sublinando, no entanto, que os resultados obtidos pela sua equipa são preliminares.