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9.4.15

Cerca de 25 mil pessoas com VIH estarão por diagnosticar em Portugal

Catarina Gomes, in Público on-line

Programa de troca de seringas foi retomado em 1039 farmácias depois de dois anos de interrupção.

Haverá cerca de 25 mil pessoas em Portugal que estão infectadas com o VIH sem saberem, estima o director do programa nacional para a Infecção VIH/sida, António Diniz, em declarações ao PÚBLICO. O responsável diz que o programa nacional de troca de seringas foi retomado em 1039 farmácias.

De acordo com a taxa prevalência de VIH/sida estimada pela ONUSIDA (programa das Nações Unidas para o VIH/sida) para Portugal, o país terá entre 0,6% a 0,7% da sua população infectada, o que significa que haverá cerca de 65 a 70 mil pessoas que vivem com a doença, refere o responsável. O que acontece é que, pela primeira vez, existem dados quase finais sobre o número de pessoas com VIH a serem seguidas nos hospitais portugueses, com o sistema informático específico chamada SI.VIDA, onde os médicos vão introduzindo os dados sobre os seus doentes.

Estão no sistema dados de doentes de 23 hospitais com esta valência, faltam apenas introduzir os dados de nove unidades. Em Março deste ano estavam a ser seguidos cerca de 31 mil doentes com VIH, o que significa que o número total pode andar pelos cerca de 35 mil, estima o responsável, o que representará entre a 80% a 90% das pessoas diagnosticadas que vivem com a infecção, algumas abandonam o tratamento, admite o responsável.

António Diniz estima então que existam em Portugal cerca de 25 mil pessoas por diagnosticar. Estarão então diagnosticadas cerca de 60% do total de pessoas infectadas, o objectivo da ONUSIDA para Portugal é ter até ao ano de 2020 90% das pessoas infectadas com diagnóstico.

Além do problema da subnotificação, que é comum a muitos outros países da Europa, sublinha, António Diniz diz que Portugal se destaca pela negativa por continuar a ter diagnósticos muito tardios. Das várias metas traçadas no Programa Nacional VIH/sida 2012/2016 esta é a mais atrasada: 58% dos diagnósticos continuam a ser tardios, sendo o ponto de partida de 65%. O objectivo é que Portugal chegue a 2016 com a sua taxa de diagnósticos tardios limitada a 35%.

Foi essa uma das razões porque, no início de 2014, decidiram estender os testes rápidos de detecção de VIH também aos centros de saúde. O objectivo é que qualquer cidadão dos 18 aos 65 anos faça o teste. Antes de estarem disponíveis nos centros de saúde existiam apenas nos Centros de Aconselhamento e Deteção Precoce do VIH (CAD), e eram feitos pelas equipas de rua que trabalham no terreno com populações vulneráveis, como consumidores de droga.

Em 2014 os centros de saúde fizeram 3547 testes, tendo havido uma taxa de positivos na ordem dos 0,65%, o que, na prática, significou a detecção de 21 pessoas com teste positivos ao VIH (que depois precisa de confirmação laboratorial), nota. António Diniz está convencido que estas são pessoas que não iriam aos CAD, porque significa terem de se deslocar (por norma há um CAD por capital de distrito) e porque nos centros de saúde os testes são sugeridos por profissionais de saúde que as pessoas conhecem, o médico de família ou o enfermeiro. Não se sabe ainda em que fase da doença foram detectados.

Cerca de 16% dos testes são feitos nos centros de saúde mas o grosso continua a ser aplicado pelos CAD, que fazem 71% e onde a taxa de positivos anda pelos 0,95% do total. A ideia é ir aumentado a disponibilização destes testes nos centros de saúde, afirma.

Troca de seringas em mais mil de farmácias
Depois de dois anos de interrupção (2012 e 2013), o programa de troca de seringas nas farmácias foi retomado no mês passado e está actualmente a funcionar em 1039 estabelecimentos, afirmou o director do programa nacional para a Infecção VIH/sida. Quando foi interrompido funcionaria em cerca de 1200 farmácias, nota.

O programa, destinado sobretudo a evitar o contágio do VIH entre consumidores de droga por via injectável, que estava no terreno há cerca de 20 anos, foi interrompido porque a Associação Nacional de Farmácias (ANF) “se retirou do processo e não aceitou renová-lo”, afirma António Diniz.

João Cordeiro, presidente da ANF, disse, na altura, que o programa teria de ser feito “noutros moldes”, e vieram a público queixas da ANF por atrasos de pagamentos das despesas com fornecedores por parte do Ministério da Saúde. A associação alegou também a degradação do sector das farmácias.

O novo acordo prevê um período de um ano em que a ANF não recebe contrapartidas financeiras, ao fim do qual haverá uma avaliação feita pela Faculdade de Economia do Porto, refere António Diniz.

2.12.14

Portugal tem uma das maiores taxas de casos VIH/Sida na Europa

in Diário de Notícias

O ministro da Saúde justificou maior aposta no diagnóstico precoce, através das análises de rotina pedidas pelo médico.

O ministro da Saúde afirmou hoje que o número de novos casos de VIH/Sida em Portugal continua acima da média europeia, pelo que haverá maior aposta no diagnóstico precoce, através das análises de rotina pedidas pelo médico.

Na sessão de abertura do Congresso Nacional "VIH, Doenças Infeciosas e Microbiologia Clínica", o ministro da Saúde, Paulo Macedo, manifestou um "misto de expectativas" em relação aos dados mais recentes sobre o VIH/Sida.

"Houve uma evolução melhor nos últimos anos do que seria expectável. Tendo em conta o cenário adverso vivido, seria de supor uma diminuição não tão significativa", realçou o ministro.

No entanto, "o número de novos casos continua acima da média da União Europeia", uma realidade que "vai demorar décadas a resolver", afirmou.

Ou seja, "o sistema foi capaz de reduzir novos casos, mas ainda não tanto quanto deveria ser capaz", disse Paulo Macedo, sublinhando que "o número de novos casos é significativo, apesar de a doença ter sido objeto de um investimento muito significativo nos últimos 20 anos".

Os "novos desafios" passam assim por "melhorar comportamentos em relação às práticas de risco", designadamente promovendo o diagnóstico precoce -- para diminuir as probabilidades de contágio -- e melhor informação.

Paulo Macedo considera que ainda há muita falta de informação, o que está patente nas mutações de concentração de novos casos: os dados mais recentes indicam que a maioria dos novos casos de VIH se deu no grupo de heterossexuais e uma grande percentagem em jovens de 17/18 anos.

"Precisamos de nos dirigir a estes novos grupos e alertar que a Sida é uma doença com números acima da média da União Europeia", disse.

Quanto a medidas concretas, o ministro anunciou uma norma de orientação clínica, que se prevê seja publicada durante este mês, para que os médicos, quando estejam a ver um paciente com idade entre os 18 e os 64 anos, o alertem para a importância de fazer o teste ao VIH.

O objetivo é poder ter um diagnóstico precoce mais eficaz e tentar evitar a distância entre contrair a infeção e o diagnóstico.

Como positivo, o ministro salientou o facto de as pessoas já olharem para a Sida como uma doença crónica, embora esta seja também uma postura de menor consideração de risco face à doença e às causas de transmissão.

"Há 20 anos era uma doença mortal. Hoje é tratável, de forma a torná-la uma doença crónica", sublinhou.