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12.4.23

Susana Gouveia: “Estamos a sentir necessidade de ajuste à nova vaga de refugiados”

Ana Cristina Pereira, in Público


Susana Gouveia, da Cruz Vermelha Portuguesa, considera que o país deve repensar o programa de acolhimento de refugiados, passar do modelo “tamanho único” para os “fatos à medida”.


Licenciada em Psicologia, Susana Gouveia trabalha na Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) desde Janeiro de 2002. Integra o grupo de investigadores do Observatório do Trauma da Universidade de Coimbra. Já foi responsável pela coordenação da resposta de apoio psicossocial na CVP. Já coordenou uma unidade de acolhimento de emergência de refugiados. Agora, é responsável em Portugal por um projecto promovido pela Federação Internacional da Cruz Vermelha e desenvolvido por 25 sociedades nacionais, com financiamento da União Europeia, que visa preparar profissionais para serviços de saúde mental em primeiros socorros psicológicos, triagem, apoio a traumas e aconselhamento a refugiados na língua de origem.


Vários estudos indicam que a prevalência de doença mental é maior em requerentes de asilo e refugiados. Quais os grandes factores de vulnerabilidade?

Convém fazer uma diferenciação básica entre migrantes económicos, que saíram pelo seu pé, pela sua vontade de reconstruir a vida noutro lado, e refugiados, que vêm de um contexto de fuga de um conflito armado, por exemplo. Neste caso, estamos a falar de um grupo com muitos factores de vulnerabilidade. Deixam o país sem saber se podem voltar, deixam os seus pertences e eventualmente a sua família.


São muitas perdas…
Sim. Há um processo de luto até de coisas não muito visíveis, como os sabores tradicionais, a música, a cultura. Vemos uma satisfação enorme quando a comida é algo do país de origem. O sabor fá-los transportar. Começam a contar histórias sobre quando se comia aquele prato. Nalguns casos, as perdas e os lutos são feitas sem ajuda. As pessoas não reconhecem que precisam de ajuda, acham que estão bem. Estar mal era estar morto ou com ferimentos complicados.


Há uma relativização do estado mental?
Há uma relativização enorme da necessidade de apoio a nível de saúde mental. É um processo longo de fazer, mas é uma mais-valia na integração e na construção de uma nova vida. Nos países de onde vêm as pessoas refugiadas que temos acolhido, a saúde mental não é acessível a toda a gente e nalgumas circunstâncias é inexistente. Às vezes, uma coisa tão simples como a reacção do corpo a uma febre pode espoletar toda uma somatização. A idade, os percursos de vida, a forma como chegaram a Portugal, o facto de alguns não trazerem família, tudo isto são factores de vulnerabilidade. É muito fácil ver quedas neste trilho. É toda uma vida que se deixa para trás.

E muita incerteza face ao futuro…
Sim. Isso gera ansiedade. Há expectativas desajustadas do que a realidade portuguesa pode oferecer. A complexidade das situações por norma é muito grande, o que faz com que não possamos simplificar nem perfis, nem sintomas, nem diagnósticos, que é uma coisa que me assusta tremendamente nalguns comentadores que nem da área são. É o rotular por rotular. Isto não contribui para nada.

O título “afegão mata duas portuguesas”, além de impreciso, estigmatiza uma comunidade que está numa situação de vulnerabilidade e não se reconhece neste tipo de actos. Se fosse o senhor José da Silva, seria notícia um dia


Fala-se muito de eventuais traumas que os requerentes de asilo ou refugiados trazem do país de origem. O contexto social do país de acolhimento também pode desencadear problemas de saúde mental? A dificuldade de aprender a língua, arranjar emprego, arrendar casa….
Isso são factores adicionais de vulnerabilidade. Podemos ter óptimas políticas de acolhimento e integração, mas o que cada vez mais estamos a sentir no terreno é uma necessidade de ajuste à nova vaga de refugiados. As pessoas refugiadas que vieram em 2015/2016 [reinstaladas da Grécia e de Itália] têm um perfil diferente dos que vieram em 2021/2022 em grupos organizados por uma questão de segurança e prevenção.

Está a falar de ucranianos [a quem foi atribuído um estatuto de protecção temporária]?
E de afegãos. Foi tudo muito rápido. Qual a nossa capacidade de absorção destas pessoas, tanto a nível do mercado de trabalho como de uma habitação condigna por um preço razoável que lhes permita ter alguma qualidade de vida? Se para os portugueses é difícil ter uma habitação condigna, pagar renda, luz, água e continuar a viver, ou seja, pagar alimentação, vestuário e deslocações, e pouco resta no final do mês, quanto mais para pessoas refugiadas numa situação no limiar da pobreza.

Muitas vezes abaixo…
Exactamente. Isto pode ser um factor dificultador de aceitação da própria pessoa refugiada do país de acolhimento. Por isso os abandonos que existem dos programas que vamos tendo. Vão para outros países da Europa tentar uma vida melhor. Não significa que a encontrem. E, às vezes, quando voltam para Portugal dizem que afinal é muito bom.

Quais são os factores protectores?
O facto de Portugal ser um país que se manteve de braços abertos para o acolhimento. O facto de sermos hospitaleiros ou pelo menos querermos ser, apesar de depois esbarrarmos nalguns aspectos culturais — as pessoas gostam de acolher bem, mas para isso não podem estigmatizar, olhar para as pessoas como uma ameaça. Factores protectores são também o acesso à saúde gratuita ou quase gratuita e à educação como direito adquirido. A grande dificuldade é a habitação. Mas isso é uma dificuldade que também os portugueses enfrentam.

O acesso à saúde mental também é uma dificuldade que os portugueses enfrentam…
Exactamente. Há pouquíssimos psicólogos nos centros de saúde. E fica-se meses à espera de atendimento. Por isso as entidades de acolhimento de refugiados foram criando bolsas de psicólogos que trabalham para colmatar esta falha do sistema. Não deveria ser necessário, mas também é para isso que cá estamos. É nossa missão assegurar o que o Estado não providencia e o acesso à saúde mental é vital.

A CVP tem uma bolsa de psicólogos disponível para portugueses e estrangeiros?
Temos perto de 160 delegações ou estruturas locais espalhadas pelo país e muitas têm psicólogos contratados ou voluntários. Estamos a trabalhar na capacitação dos técnicos para que estejam mais protegidos e possam proporcionar um atendimento de maior qualidade. Temos essa capacidade instalada neste momento por via de um projecto aprovado pela União Europeia. Temos de olhar pelos psicólogos e pelos próprios intérpretes que estão na primeira linha a ser impactados pelas narrativas mais potencialmente traumáticas. Não são só as pessoas refugiadas que podem estar no limiar da saúde mental ou do bem-estar que se deseja para qualquer pessoa.

Em que fase está esse projecto?
Este projecto já começou, mas ainda está na fase de avaliação e diagnóstico. Esta fase de avaliação e diagnóstico tem de ser homogénea nos 25 países da União Europeia que fazem parte do projecto. Em Abril, o centro de referência começa a formar-nos enquanto coordenadores das equipas nacionais. Depois disseminamos para os colegas da Cruz Vermelha de cada país.


Quantas pessoas abrangerá?
O projecto, que tem a duração de 36 meses, deverá abranger 120 a 150 técnicos da rede da Cruz Vermelha Portuguesa. Introduzi os tradutores porque nunca falamos neles e são pessoas que estão em grande vulnerabilidade. A federação considerou pertinente esta observação. Tem de ser uma formação diferente. Não pode ser a mesma que os técnicos vão receber.

Há necessidade de cuidar destas pessoas e uma forma de fazê-lo é proporcionar uma formação ajustada à função. É uma falha que sinto no terreno. Ninguém olha para eles. Às vezes, trabalham de forma gratuita. Estamos a usar um recurso deles para nosso benefício — quando digo nosso, digo dos técnicos. Temos de reflectir sobre essas coisas todas, de tentar proteger estas pessoas que já passaram por situações complexas. Os intérpretes que temos tido, cada vez que passam por alguma exposição mais violenta, têm um atendimento psicológico para limpar a carga emocional negativa associada, mas isto só não chega.

O que se deve aprender com o que aconteceu na terça-feira, 28 de Março, no Centro Ismaili, em Lisboa?
O título “afegão mata duas portuguesas”, além de impreciso, estigmatiza uma comunidade que está numa situação de vulnerabilidade e não se reconhece neste tipo de actos. Se fosse o senhor José da Silva, seria notícia um dia, não se alimentaria esta história. O que devemos aprender? Os órgãos de comunicação social, que palavras utilizam? Canso-me de ouvir falar em trauma. Ninguém pode ter este selo na testa antes de alguém da saúde mental fazer um diagnóstico. Não pode, isto é incorrecto.

Temos muitos colegas em situação próxima de burnout porque lidam diariamente com situações limite e trabalhar com vulnerabilidade humana é um risco brutal

Há uma série de incorrecções na comunicação social. Falta muita psicoeducação para desconstruir tudo isto. Estamos muito atrás na forma como se comunica. Isto ao nível da comunicação social. Ao nível das organizações que trabalham com pessoas refugiadas, aquilo que considero é que devemos perceber que tipo de processo de acolhimento e integração estamos a fazer agora. O que estamos a fazer agora está desajustado da realidade que temos.


O que quer dizer com desajustado?

As necessidades que estes novos grupos trazem são diferentes das dos que atravessaram o Mediterrâneo em barcos sobrelotados. O nosso mecanismo de actuação era um e agora deve ser repensado. Isto não é one size fits all — a mesma metodologia de intervenção serve para todos. Temos de fazer um fato à medida. Temos de perceber quem temos à frente para fazermos uma triagem como deve ser, um acompanhamento como deve ser, uma orientação para psiquiatria como deve ser. Enquanto país estamos a falhar neste ajuste que deveria ser feito com alguma urgência.


Em que medida as necessidades dos novos grupos são diferentes das dos anteriores?

Devido às causas que provocaram o fluxo migratório. Numa primeira instância eram grupos que fugiram por motivos mais de vida ou morte. Atravessaram o Mediterrâneo, arriscando a vida. Podem vir com traumas diferentes daqueles que foram extraídos de zonas de conflito armado devido, por exemplo, à profissão que têm, às funções que desempenham. Também haveremos de ter, até já podemos ter, pessoas que vêm à procura de um emprego porque o seu meio de subsistência deixou de existir, por exemplo, devido a alterações climáticas.


O programa de acolhimento de refugiados dura 18 meses. Isso também deve ser repensado?
O tempo parece-me importante. Devemos considerá-lo uma variante importante para qualquer intervenção. Temos de ter mais pessoas no terreno. Temos muitos colegas em situação próxima de burnout porque lidam diariamente com situações limite e trabalhar com vulnerabilidade humana é um risco brutal. Por isso dizia há pouco que é preciso cuidar dos nossos também. Temos de olhar para nós mesmos, estar atentos aos sinais de cansaço, irritabilidade, essas coisas todas.

O que podemos mudar? Deveríamos poder ter mais pessoas a trabalhar na primeira linha. Isso seria uma das minhas prioridades. Há filas de espera para uma pessoa ser atendida nos vários serviços. Penso que esse é o calcanhar de Aquiles de Portugal enquanto país de acolhimento. Falta gente. Precisamos de mais braços e de um sistema mais ágil.

9.3.22

Secretária de Estado diz que não há número limite de refugiados a acolher por Portugal

in JN

A secretária de Estado para a Integração e as Migrações, Cláudia Pereira, disse, em Leiria, que não há limite para receber migrantes e que Portugal tem todas as capacidades para dar resposta aos refugiados da Ucrânia.

"A pandemia mostrou que todos nos adaptámos. Portanto, estou muito confiante que também nos iremos adaptar [migração]. Basta ver que em pouco mais de uma semana chegaram mais de três mil pessoas ucranianas ao país de forma integrada. É muito significativo. A larga maioria está em casa de amigos e familiares. Estou confiante que vai decorrer da melhor forma e harmonia", disse Cláudia Pereira durante uma visita ao Estádio Municipal de Leiria, onde foi criado um Centro de Acolhimento Temporário.

A governante sublinhou que "não há quotas" e que "todos são bem-vindos". "Na verdade, temos imensas necessidades de mão de obra e os ucranianos têm contribuído imenso para a riqueza económica, mas também cultural e social do país", disse.

Segundo números avançados à Lusa pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Portugal concedeu até às 13:00 de hoje 3.179 pedidos de proteção temporária a pessoas vindas da Ucrânia em consequência da situação de guerra.

Durante a visita ao Centro de Acolhimento Temporário, Cláudia Pereira teve oportunidade de falar com os dois primeiros refugiados que ali chegaram, na segunda-feira e deu-lhes as boas-vindas a Portugal. "Queremos que sejam muito felizes e que se sintam bem aqui", disse a secretária de Estado a Hanna e Vyacheslav, mãe e filho.

Um dia depois de falarem com a Lusa, estes refugiados já sabem dizer: "obrigado" e "bom dia" e a gratidão "imensa" mantém-se a mesma. "Dormi finalmente, depois de várias noites sem dormir. Estar num estádio é simbólico, é como estar a fazer uma grande corrida para chegar à meta", afirmou Hanna à secretária de Estado, pela tradução de Natalia, mulher de origem russa a viver em Leiria, que tem estado envolvida na ajuda aos ucranianos e que serve de intérprete.

Cláudia Pereira disse depois aos jornalistas que "é muito importante toda a generosidade e solidariedade que tem sido demonstrada, aqui na Câmara de Leiria em conjunto com as associações da região", elogiando os quartos improvisados, num total de 54 camas.

"É um espaço muito acolhedor, com muita dignidade para os primeiros dias. Depois as pessoas vão para outras respostas, encontrando emprego e tornando-se autónomas. É muito interessante a tradutora ser russa e estar com pessoas ucranianas. A guerra que se está a passar não traduz, muitas vezes, os laços que existem entre ucranianos e russos. É sempre bom ver este exemplo de pacificidade e de paz", frisou.

Cláudia Pereira referiu ainda que existe uma bolsa de alojamento do Alto Comissariado para as Migrações, com mais de 1.800 disponibilidades, e deixou o endereço de 'e-mail' sosucrania@acm.gov.pt "para quem tiver alojamento e o queira disponibilizar".

O presidente do Município de Leiria, Gonçalo Lopes (PS), apontou o Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa como uma "infraestrutura desportiva, com capacidade e polivalência".

"Já foi durante dois anos o quartel-general de Leiria no combate à pandemia, foi-o na realização de testes e na vacinação", disse Gonçalo Lopes, adiantando que "o município não hesitou em oferecer o seu melhor equipamento para transformá-lo num centro de alojamento temporário".

Para tal, o autarca reconheceu o contributo de empresas, e comunidade local, que ofereceram mobiliário, peças de roupa e produtos de higiene.

Segundo Gonçalo Lopes, o centro acolhe, neste momento, "cinco pessoas e um cão". "E temos a chegar amanhã mais 21 pessoas. Algumas irão para casas de familiares e outras 13 virão para aqui, com mais um cão e mais um gato", disse.

O presidente da Câmara acrescentou que é possível adaptar mais camarotes, se houver necessidade, e existe ainda uma "rede de oferta de quartos, quer de instituições quer de empresas quer de particulares, que ainda não foi acionada".

"Temos uma grande comunidade de ucranianos no concelho de Leiria: são 1.000 registados em 2020, e na região de Leiria perto de 3.000. Nos últimos 20 anos deram um contributo muito importante para o desenvolvimento económico da região e, por isso, queremos retribuir aquilo que foi a capacidade de trabalho e a maneira como se integraram", afirmou ainda.

4.7.19

Crise Migratória na Europa - Ministra da Presidência admite que há melhorias a fazer na integração de refugiados

in SicNotícias</i>

Mariana Vieira da Silva diz que "é sempre possível melhorar" a integração dos refugiados que vêm para Portugal.
A ministra da Presidência e da Modernização Administrativa fez um balanço positivo dos vários programas de acolhimento de refugiados em Portugal, admitindo que há melhorias a fazer nas áreas da habitação e aprendizagem do português.

Em entrevista à agência Lusa, Mariana Vieira da Silva afirmou que "é sempre possível melhorar" para que exista uma melhor integração dos refugiados que vêm para Portugal, nomeadamente na aprendizagem do português e na formação profissional, com vista ao acesso ao mercado de trabalho.

A ministra avançou que cerca de 90% dos refugiados que estão no país frequentam aulas de português, ressalvando que, quando chegam, "nem sempre estão em condições de iniciar imediatamente" a aprendizagem da língua.

Sobre a integração no mercado de trabalho, referiu que 43% dos refugiados em idade ativa a viver em Portugal estão a trabalhar ou a fazer formação profissional.

Por outro lado, a ministra apontou também a habitação como uma área que precisa de ser trabalhada.
"O tema da habitação é, como sabem, um problema que o país tem que afeta não só os refugiados, é um problema que nós temos, principalmente nas áreas metropolitanas e, portanto, também é um tema onde há caminho a fazer", defendeu.

A governante sublinhou que o acesso à habitação é importante para que as pessoas refugiadas se tornem autónomas.

Mariana Vieira da Silva considerou que é objetivo do Governo trabalhar na articulação entre os vários serviços que apoiam estas pessoas, admitindo a existência de "dificuldades e obstáculos", uma vez que cada programa de acolhimento tem respostas diferentes.

"O nosso objetivo é trabalhar nessa integração de respostas porque não há razão para que elas não possam ser mais integradas do que efetivamente são. Falo das respostas que são diferentes para cada um dos programas", disse.

Fazendo um balanço desde 2015, quando se agudizou a crise migratória na Europa e Portugal integrou o programa de apoio da União Europeia, a ministra disse que o país "olha para este tema dos refugiados de uma forma diferente e de uma forma mais do lado das soluções que é preciso encontrar do que do lado de levantar problemas".

"O balanço que fazemos é o balanço de termos cumprido o propósito que tínhamos, que era mostrar, no momento em que muitos países falam só de muros e levantam problemas, de procurar ser aqui um elemento junto da União Europeia de construção de soluções políticas", precisou.

Mariana Vieira da Silva destacou também que "Portugal é hoje reconhecido como um país que esteve do lado certo desta história", sublinhando que foi o sexto Estado-membro da União Europeia que mais pessoas acolheu ao abrigo do programa de recolocação.

"Isso para um país com a dimensão de Portugal não é um número que seja pouco significativo", defendeu, acrescentando que o compromisso que o país assume quando há um problema com refugiados na Europa é "fazer parte da solução", "o que não é regra" noutros Estados membros.

Questionada se os refugiados em Portugal deveriam ter um apoio diferenciado da restante população, a ministra disse que tal já acontece, explicando que as organizações da sociedade civil continuam a acompanhar os refugiados depois de terminados os programas de acolhimento e que são o elo de ligação com os serviços públicos.

"Todos os dias chegam ao Alto Comissariado para as Migrações pedidos de ajuda. As organizações que trabalham nesta área (...) continuam muitas vezes em contacto de proximidade com os refugiados que já saíram dos programas e que estão, por exemplo, em habitações já próprias. Até já podem ter rendimento, mas não é suficiente. Todo o seu trabalho continua com grande acompanhamento", garantiu.

Acrescentou desconhecer qualquer situação de pessoas ou famílias que tenham ficado desacompanhadas e sem qualquer tipo de apoio, precisando que "essa ajuda é feita" e que "as instituições não deixam de estar presentes".

No âmbito do programa de recolocação da UE, lançado em setembro de 2015 e concluído em abril de 2018, Portugal acolheu 1.552 pessoas, 1.192 dos quais estavam em campos de refugiados na Grécia e 360 em Itália. A esta iniciativa, juntou-se o Programa de Reinstalação da ONU e, desde dezembro de 2018, já chegaram ao país 134 refugiados que estavam no Egito e 62 na Turquia.

Portugal tem também acolhido estrangeiros resgatados por barcos humanitários no mediterrâneo, tendo recebido, em 2018 e 2019, um total de 127 pessoas. Em março assinou ainda um acordo com o governo grego para receber mais 100 cidadãos que se encontram deslocados neste país.
Lusa

22.10.18

Portugal disponível para receber mais refugiados da Grécia

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Eduardo Cabrita visita o campo de refugiados de Eleonas, em Atenas, na terça-feira, e reúne-se com vários ministros gregos. Em Setembro, cerca de 3500 pessoas desembarcaram nas ilhas gregas.

A Grécia, o país europeu com mais pedidos de asilo per capita, quer fazer um acordo bilateral com Portugal. O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, diz que há abertura para acolher refugiados que se encontram naquele país.

28.6.18

Portugal vai acolher "alguns" dos migrantes resgatados pelo navio Lifeline

in RR

Ministério da Administração Interna ainda não sabe precisar quantos requerentes de asilo virão, assim que o navio humanitário atracar em Malta esta terça-feira.

Portugal vai receber algumas das pessoas resgatadas no Mediterrâneo pelo navio humanitário Lifeline.
O navio, gerido por uma organização não-governamental alemã com o mesmo nome, passou os últimos seis dias em águas internacionais a aguardar autorização para atracar num porto europeu. Essa autorização chegou da parte de Malta ao início da tarde desta terça-feira, antecipando-se que acoste no país até ao final do dia.
No seguimento do acordo entre alguns Estados-membros disponíveis para acolher os 234 migrantes que seguem a bordo do Lifeline, o ministro da Administração Interna avançou no Parlamento que Portugal já manifestou disponibilidade para aceitar algumas dessas pessoas.

Na comissão de Assuntos Constitucionais, Eduardo Cabrita revelou que o Lifeline vai atracar esta noite em Malta e que os 234 migrantes serão distribuídos por vários países europeus, entre os quais se inclui Portugal.

"O Governo de Malta pediu-nos ajuda para poder acolher o navio Lifeline que está há algumas semanas a navegar no Mediterrâneo com centenas de pessoas a bordo. O Governo português entendeu, em acordo com alguns países europeus, que o navio aportaria esta noite em Malta e que os refugiados que estão a bordo serão redistribuídos por vários países, entre os quais Portugal."

Sobre quantas pessoas serão acolhidas, o ministro explicou que ainda não tem essa informação mas que o Governo português vai continuar em contacto com o Executivo maltês para se proceder a essa redistribuição.

"Ainda hoje de manhã falei várias vezes com o ministro do Interior de Malta. Neste momento estamos já a tratar dos procedimentos necessários para que um número [de pessoas] que ainda não posso determinar, para que alguns possam, dentro da solidariedade europeia, ser acolhidos em Portugal."

20.6.17

Guimarães e Barcelos distinguidos pelo acolhimento a refugiados

in Correio do Minho

Os Municípios de Guimarães e de Barcelos contam-se entre as câmaras municipais que vão ser distinguidas, amanhã, pelo trabalho desenvolvido no acolhimento a refugiados.

O Conselho Português para os Refugiados (CPR) anunciou que vai «prestar uma homenagem» às autarquias que acolherem migrantes em Portugal, no âmbito do Dia Mundial dos Refugiados, que se assinala amanhã.

«Pela primeira vez, o CPR irá prestar uma homenagem às autarquias do país e às equipas que colaboram com a nossa organização na procura de soluções dignas de acolhimento e integração dos refugiados em Portugal», lê-se numa nota enviada à imprensa.
«No Dia Mundial do Refugiado, 20 de junho, celebra-se a resiliência e a coragem de mais de 65 milhões de pessoas que foram forçadas a fugir da guerra, da perseguição e da violência, mas também se reconhece o papel da sociedade porconjunto entregarão um prémio aos municípios parceiros do CPR no acolhimento de refugiados.

Ao atribuir uma distinção aos municípios que, em parceria com o CPR, têm acolhido refugiados, nomeadamente a Guimarães, Barcelos, Amadora, Águeda, Alenquer, Caldas da Rainha, Carregal do Sal, Castelo Branco, Idanha-a-Nova, Lisboa, Loulé, Loures, Moimenta da Beira, Oeiras, OuConselho Português para os Refugiados vai distinguir autarquias tuguesa que, solidariamente, acolhe refugiados, oferecendo-lhes um lugar seguro nas suas comunidades, recebendo-os nas suas escolas e nos seus locais de trabalho», explica o documento.

O CPR anunciou também a realização de uma gala que contará com a presença do ministro adjunto, Eduardo Cabrita, para além da presidente desta entidade, Teresa Tito de Morais, que em rém, Salvaterra de Magos, Santa Maria da Feira, Santarém, Sintra, Torres Novas, Torres Vedras e a Fundação INATEL, «o CPR pretende na Gala “Solidários #ComOsRefugiados” realçar o papel desenvolvido pelos técnicos e seus dirigentes em prol da causa dos Refugiados e dos Direitos Humanos», acrescenta-se no comunicado de imprensa.

Redação/Lusa DR

7.3.17

Guimarães - Refugiados reaprendem a desfrutar da vida, "um dia de cada vez"

Rui Frias, in Diário de Notícias

Dos 43 imigrantes que já passaram pelo programa de acolhimento, desde há um ano, mantêm-se 20

Aesha e Bashar conseguiram voltar a sorrir. Fazem-no ao falar da "simpatia" dos vizinhos, da "fantástica" professora de Português e dos "amigos" que os três filhos já fizeram na escola. Aos poucos, a felicidade volta ao quotidiano deste casal de advogados sírios, depois da tormenta dos últimos anos, que os fez abandonar Rakka, a capital do autoproclamado Estado islâmico, e arriscar a própria vida e a dos filhos ao longo de uma já tristemente célebre rota de refugiados que inclui a entrada clandestina na Turquia e uma travessia de barco até à Grécia, onde ficaram sete meses até serem encaminhados para Portugal.

Recebida pelo programa Guimarães Acolhe - um consórcio que liga a câmara municipal, o Conselho Português para os Refugiados e um conjunto de instituições sociais do concelho -, esta família síria está entre os refugiados que atualmente tentam refazer a vida na cidade que viu Portugal nascer. Até à chegada, ontem, dos primeiros 24 elementos da etnia yazidi (ver texto principal), tinham passado já por este programa vimaranense 43 refugiados, dos quais se mantêm 20 (os outros deixaram o país, ao abrigo do abandono voluntário, a maioria para reencontrarem familiares noutros pontos da Europa).

A família de Aesha e Bashar é uma exceção no perfil-tipo dos imigrantes recebidos em Guimarães, como frisa Sandra Rodrigues, uma das técnicas que acompanham a integração destes refugiados na comunidade local. "Na maioria, são casos de jovens isolados, do género masculino, com escolaridade básica e média", refere ao DN.

Casos como o de Mohammed Keneby, de 22 anos, aspirante a futebolista e "fã de Cristiano Ronaldo" que escapou às perseguições étnicas e religiosas na República Centro-Africana, mas perdeu o pai e um irmão, enquanto a mãe teve de voltar para o Senegal. Ou como o de Michael, enfermeiro eritreu de 29 anos que fugiu à repressão militar.

Em Guimarães há um ano, Mohammed e Michael estão já a trabalhar como empregados de restauração. Aesha e Bashar, que chegaram apenas em novembro passado, ainda esperam que se abra uma porta profissional, mas nem isso os impede de voltar a sorrir em segurança.

Em quase todos os casos, Portugal (e Guimarães) surgiu como um destino inesperado: Michael pensava na Holanda, onde moram alguns irmãos; Aesha e Bashar apontavam à Suécia, país já com uma considerável comunidade síria. Mas, agora, garantem estar gratos pela forma como têm sido acolhidos num país onde voltaram a aprender a "viver" e não apenas sobreviver. Mesmo que os planos ainda se limitem a "um dia de cada vez".

6.3.17

Portugal acolhe 1150 refugiados e vai receber mais 91 yazidis em breve

Manuel Carlos Freire, in Diário de Notícias

Ministro Eduardo Cabrita diz que taxas de saída de refugiados em Portugal "são semelhantes" às de países como Luxemburgo e Suíça.

O ministro Adjunto, Eduardo Cabrita, disse esta segunda-feira que a chegada a Lisboa de 24 cidadãos yazidis eleva para 1150 o número de refugiados acolhidos por Portugal no âmbito dos programas de recolocação da UE.

O governante falava aos jornalistas no aeroporto de Lisboa, momentos após reunir com o grupo de refugiados yazidis vindos da Grécia - depois de terem fugido da perseguição do Estado Islâmico no Iraque - e que ainda esta tarde vão ser instalados em Guimarães.
"Thanks Portugal". 24 yazidis já chegaram a Portugal

Eduardo Cabrita, acompanhado pela vereadora de Ação Social da autarquia de Guimarães, frisou que os refugiados são cidadãos livres e que Portugal "não terá nenhuma estratégia que leve a qualquer limitação da sua liberdade de circulação".

"Temos um processo [de recolocação de refugiados] que é considerado uma referência no quadro europeu e da ONU", sublinhou Eduardo Cabrita, deixando ainda uma garantia: "Não temos em Portugal campos de refugiados, nunca os iremos ter."
"Temos um profundo envolvimento das comunidades locais, das estruturas da sociedade civil", de organismos ligados às igrejas e ainda nove dezenas de municípios que "decidiram participar neste esforço nacional" de acolhimento, realçou o ministro Adjunto.