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3.7.15

Na batalha do "oxi" e do "nai" joga-se o futuro da Grécia

Maria João Guimarães (em Atenas), in Público on-line

Em discursos feitos de sinfonias, trapézios e pragmatismo, todos os dias Tsipras diz que a pergunta é sobre a proposta das instituições, e todos os dias a oposição repete que caso vença o "não" a Grécia sai do euro.

Quem ouvir a rádio grega ou os discursos dos seus líderes sem perceber a língua vai notar algumas palavras repetidas: sinfonia e trapezi, por exemplo. Symphonia é acordo, trapezi é mesa (em cima da qual está a oferta das instituições, ou já não está, conforme o ponto de vista).

A pergunta do referendo ("dimopsifisma") é se a oferta feita pelas instituições deve ou não ser aceite. Mas há outra palavra omnipresente: pragmatika. Não é nenhum apelo ao pragmatismo; quer dizer "realmente". E é também aqui que os dois campos lutam: o que realmente está em jogo?

Uma vitória do "não" quer dizer que a Grécia sai do euro ou até da União Europeia, ou que os eleitores recusam a proposta das instituições? Uma vitória do "sim" significa a queda do Governo e um provável regresso do executivo anterior, ou que os eleitores aceitam um plano da troika para a Grécia?

Para o Syriza, o partido do primeiro-ministro Alexis Tsipras e maior voz da campanha do "não" ("oxi", diz-se "ochi"), joga-se a hipótese de obter mais força negocial para um acordo melhor. Em Atenas, foi o "não" quem começou mais visível, com cartazes nos postes de electricidade ("'não' pela democracia e dignidade", as palavras-chave) e flyers nos pára-brisas de automóveis e um quiosque na Praça Syntagma.

No entanto, o "sim" ("nai", pronuncia-se mais ou menos como "né") está a ganhar terreno nos media e nas redes sociais. Reúne o consenso dos partidos pró-europeus, ou seja, da Nova Democracia (conservador), do antigo primeiro-ministro Antonis Samaras; do To Potami (O Rio); e do Pasok (partido socialista). Na televisão, os presidentes de câmara das duas maiores cidades gregas, Atenas e Salónica, dão a cara pelo "sim". Em causa está, consideram (apoiados por declarações de responsáveis europeus), a permanência da Grécia na União Europeia.

Mas os políticos da Nova Democracia e do Pasok são cada vez menos populares, e o Potami é um partido pequeno. Tentando desvincular-se dos políticos, especialmente dos partidos que ocuparam os últimos governos, um movimento de cidadãos começou a campanha "Sim pela Europa". "Esta é a questão que vai definir o caminho e o futuro de gerações inteiras, assim como a substância da Grécia como um país moderno", disseram num comunicado, depois de se apresentarem na rádio Atenas. Para sublinhar este ponto, num anúncio do "sim".

O "sim" tem ainda o apoio de organizações de empresários e de turismo – é lá que se desenrola, aliás, um esforço de campanha para ajudar gregos afectados pelo controlo de capitais: uma das iniciativas é um site para comprar bilhetes de avião para gregos que, estando no estrangeiro com contas nacionais, não conseguem regressar.

A campanha a favor do acordo apresenta o cenário de pesadelo: um "não" teria consequências imediatas para além do prolongamento do encerramento dos bancos e controlo de capitais, como falta de bens essenciais, medicamentos, até comida.

Preferia cortar um braço
Por outro lado, o "não" está a jogar com o facto de a maioria dos gregos não querer o regresso dos partidos que antes ocuparam o Governo. O facto de Tsipras já ter dado a entender que se demitiria se vencesse o "sim", e de o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, ter assegurado que faria o mesmo de um modo directo ("preferia cortar um braço do que aceitar um mau acordo", disse), fazem com que esta pergunta tenha outra consequência: quem vota "sim" sabe que deverá estar a eleger novamente Antonis Samaras para primeiro-ministro em eleições que seriam marcadas dentro de 30 dias.

O primeiro-ministro grego repete quase todos os dias que não está em causa sair do euro ou da União Europeia, e ainda esta quinta-feira voltou a dizer o mesmo numa entrevista. E todos os dias, alguém repete o contrário: o antigo primeiro-ministro Costas Karamanlis pediu aos eleitores para "afirmarem com determinação" que o país é "parte inseparável da Europa" votando "sim" (analistas já especulam que o antigo chefe de Governo que antecedeu a Papandreou, que acumulou grande dívida e que se tem mantido afastado do debate público, poderá estar a posicionar-se como um possível chefe de Governo caso vença o "sim").

O líder do To Potami, Stavros Theodorakis, desafiou Tsipras para um debate televisivo sobre "euro ou dracma". Não vai haver um debate antes do referendo.

Um outro protagonista está a surgir neste referendo: as televisões gregas. As emissoras privadas são detidas por grupos com interesses (empresários do sector da navegação ou futebol) e foram um dos primeiros alvos da legislação do Governo de Tsipras, que começou a cobrar licenças de emissão.

Análises do tempo dado à cobertura das últimas duas manifestações mostram um favorecimento inequívoco de um dos campos: a manifestação do "não" foi mencionada num total de oito minutos e 33 segundos em seis canais (um público e cinco privados) e a do "sim" do dia seguinte em 47 minutos e 13 segundos nos mesmos canais.

O "sim" é ainda defendido pelas associações de empresários, o "não" pelos sindicatos. Esta divisão é espelhada no que se vê nas concentrações do "sim", em que há laca em cabelos e pólos Lacoste, e nas manifestações do "não", em que os cabelos estão mais desalinhados e há algumas "barbas revolucionárias". (Num pormenor que só poderia acontecer na Grécia, o Partido Comunista, que sempre recusou os memorandos, não consegue fazer campanha do mesmo lado dos seus rivais de esquerda do Syriza, e assim apela ao voto nulo. Esta quinta-feira fez a sua própria manifestação).

Os dois campos vão fazer os seus comícios finais na sexta-feira, com duas concentrações muito perto. Uma será em Syntagma, em que vai falar Alexis Tsipras, e outra não muito longe, no estádio antigo.

Tudo na zona em que esta quinta-feira de manhã um pequeno grupo retirou a bandeira do gabinete do Parlamento Europeu em Atenas, regou-a com gasolina e queimou-a no meio da rua – para satisfação dos jornalistas e turistas presentes. Em substituição do pano azul com estrelas, ficou um poster do "não".

Com a sociedade extremamente dividida e polarizada, há quem resuma a escolha perante os gregos de outro modo. No seu blogue, chamado Irate Greek, uma eleitora que já se arrependeu de ter votado no Syriza diz: "A escolha que está a ser posta aos gregos tornou-se, muito simplesmente, se querem uma morte rápida e violenta, ou uma morte lenta e dolorosa."

Quanto ao resto, resume: "Um referendo anunciado para dali a nove dias com uma oferta que já não existe é uma farsa, pior quando é anunciado como uma ferramenta de negociação", diz, criticando o Governo. Por outro lado, o melhor exemplo de desrespeito pela democracia "é dos media detidos pelos oligarcas, que lançaram uma campanha de medo sem precedentes".

Assim, para ela, a primeira vítima do referendo foi, "ironicamente, a democracia".

2.7.15

“Nunca pensámos viver este pesadelo – e o que vem aí pode ser pior”

Maria João Guimarães (em Atenas), in Público on-line

Filas nos multibancos, falta de medicamentos nas farmácias, uma incerteza do tamanho do mundo. Muitos gregos sentem o chão escapar-lhes debaixo dos pés e dizem que nem os políticos “sabem o que estão a fazer”.

Katerina é a imagem do chique: elegante na sua roupa preta solta mas não demasiado, alta e esguia, cabelo apanhado e rosto com maquilhagem leve, um fio discreto com uma pedra preciosa. Está a fumar um cigarro à porta de uma loja de joalharia num bairro de classe alta, Kolonaki.

Desde que a crise começou, e já lá vão mais de cinco anos, que os gregos estão habituados a antecipar tempos difíceis. “Tínhamos ouvido cenários de pesadelo, mas nunca pensámos que viesse mesmo a acontecer”, diz. “Agora, não fazemos a menor ideia do aí vem. Nunca pensámos viver este pesadelo do controlo de capitais, e estamos a vivê-lo agora. Portanto, não há limites para o que poderá vir aí”, argumenta. “Temos medo de perder tudo. Não só o trabalho, tudo.”

Katerina continua a ter o dinheiro no banco, e agora não consegue nem levantar os 60 euros diários das caixas multibanco porque não tem cartão, diz a rir. “Nunca pensei que fosse preciso! E indo ao banco cada vez que precisava era mais poupada.”

Ainda que haja procedimentos especiais para os reformados que não têm cartão – várias dependências dos bancos vão estar abertas para poderem levantar as suas pensões – Katerina está fora deste mecanismo, porque não é reformada. “Devo ser a única pessoa com menos de 50 anos sem cartão.”

No referendo, vai votar, e claro que vai votar “sim”. “Quero ficar na União Europeia, quero ficar no euro. Já imaginaram o que é ficarmos isolados aqui? É que não é o mesmo que Portugal sair. Olhem para os nossos vizinhos… Somos a porta de entrada do mundo árabe. Quão desamparados ficaríamos?”

A seu lado, Philip, que trabalha na mesma loja onde estão alinhados colares finos e pedras preciosas, diamantes e esmeraldas sempre minimalistas seguindo uma técnica grega antiga, vai concordando com tudo o que ela diz. O colega – óculos de massa em degradé de castanhos, cabelo de corte impecável parecendo que acabou de sair do cabeleireiro – sublinha apenas: “O que quer que seja será mau, mas poderá ser muito pior.”

Para Katerina, a culpa é dos partidos políticos gregos – “todos”. “São todos responsáveis por não serem claros quanto à situação”. Em relação ao Governo de Alexis Tsipras, tem uma queixa extra: “Não acho que se possa pedir emprestado e não pagar, e ainda vir dizer mal de quem nos emprestou.”

A decisão errada
Numa farmácia perto, Vaso, 34 anos, Effi, 36, e Georgia, 48, franzem o sobrolho ao pedido para responderem a perguntas de jornalistas, mas sem clientes, lá acabam por começar a falar.

“Está tudo óptimo!”, exclama Effi. E vendo que quase era levada a sério: “Não, claro que não está.” O problema com as farmácias não é só de agora, explicam as três farmacêuticas, que vão juntando frases em grego e em inglês numa miscelânea das ideias de todas. “Já antes tínhamos dificuldade no acesso a alguns medicamentos.” Mas com as restrições dos pagamentos, especialmente ao estrangeiro, e com as pessoas a querer armazenar os remédios de que precisam, em especial doentes crónicos, estão a ter dificuldades em manter os seus stocks.

Quanto a estas farmacêuticas, não há dúvidas do que querem: “ficar na Europa e ter o euro”. Sabem que o que quer que aconteça vai ser difícil, mas temem o pior. “O ‘não’ está primeiro no boletim. É difícil as pessoas perceberem tudo o que envolveria voltar ao dracma. Tenho medo que tomem a decisão errada.”

Na mesma rua, experimentamos o meio mais rápido de sair de uma loja da Prada. É dizer que se é jornalista e fazer uma pergunta sobre como a crise afecta o negócio, e em três tempos a cara do interlocutor que estava sorridente desfaz-se numa expressão de horror e já se está na rua.

Noutra loja perto – de uma marca de luxo internacional, chamemos-lhe assim, a pedido do interlocutor, que não quer dar o seu nome nem que seja publicado o da loja – o que tem alimentado o negócio são os turistas. “Os gregos já há algum tempo que não querem comprar. Não é uma questão de limites de dinheiro, vem antes disso. É uma questão de disposição, de sentimentos”, explica. “Se não sabemos o que vai acontecer amanhã – não sabemos sequer se vamos estar no euro ou fora na segunda-feira – como vamos comprar?”

Fora do controlo
Para este gestor de cabelo grisalho com ar a condizer com a loja que representa, uma linha de turistas asiáticos a ir e vir, “as duas escolhas são más”. Ele não se compromete a afirmar qual na sua opinião será a do mal menor. Mas uma coisa quer dizer: “Não queremos sair, mas sentimos que os europeus não estiveram do nosso lado. Aquilo que nos propuseram quer dizer que daqui a seis meses estaríamos na mesma, daqui a um ano na mesma. Não é solução.”

O que está a acontecer, acha, é algo “completamente fora do controlo” – e ele sente-se no meio. “Eles jogam, e ninguém sabe. Ninguém sabe nada, nem sequer se eles próprios sabem o que estão a fazer.”

Com este sentimento de perigo e urgência, os defensores do “sim” foram manifestar-se em frente ao Parlamento, enchendo a praça Syntagma – na véspera tinham sido os apoiantes do “não”, que também tinham enchido a praça. Ambas as manifestações mostraram quantidades impressionantes de pessoas com bandeiras e slogans.

A atmosfera era semelhante em ambas, talvez mais animada na primeira. Os apoiantes do “não” sentem alguma alegria. “É a primeira vez em cinco anos que podemos dizer que estamos contra, uma oportunidade que pedimos vezes sem conta.” Já os apoiantes do “sim” sentem que estão a ser postos numa situação que ameaça o seu modo de vida de um modo que lhes escapa.

“Que competência tem Alexis Tsipras para jogar assim o nosso futuro ao desbarato?”, diz Nestor, 29 anos, o único de quatro amigos com bandeiras da União Europeia na mão que aceita falar. “Se não fosse a União Europeia não tinha estudado fora, não tinha tido oportunidades. O que será de nós sem esta ligação? Vamos voltar atrás décadas.”

Enquanto há gregos que não têm dinheiro suficiente para se preocupar com os controlos de capital, havia relatos de muitos gregos a comprarem bens para não terem dinheiro no banco: ouro, por exemplo, que não se desvalorizava. Desde o início da crise houve muitas pessoas a comprar ouro, em barras ou em moedas de libras.

Ouro roubado em casa
Mas no escritório da Kappa Change, uma das empresas que trabalha com compra a venda de ouro, o que se nota não é compra. “Nos últimos dias esteve tudo completamente parado”, comenta Maria Kourbouzou, 33 anos, uma das duas pessoas no escritório, pequeno mas com porta de segurança, e com revistas de moda para quem espera. “Antes, houve mais movimento, mas no mercado da venda do dólar.”

O que notaram foi “muitas pessoas a telefonarem e pedir conselhos”. “Se deviam vender o ouro para o caso de faltar dinheiro, ou pelo contrário, se deviam tirar o dinheiro do banco e comprar ouro”, conta a irmã mais velha, Athina, 36 anos (esta é uma empresa familiar).

“Nós dizemos que o pânico não ajuda”, diz Maria. “E ao ter o dinheiro ou o ouro em casa arriscam-se: ainda esta semana um prédio de 16 apartamentos de uma amiga no centro de Atenas foi todo assaltado – roubaram todos os 16 apartamentos, não escapou nem um!”

Por isso, o conselho que dão: “Temos de ter calma.” Apesar de a situação ser muito confusa. “Nós votámos no Tsipras”, admitem. “Pareceu-nos bem. Agora não sabemos – foi certo? Foi errado?”

A verdade “é que foi o único a ir contra, a tentar um acordo melhor”. Isso não quer dizer que votem “sim” no domingo. Maria parece mais inclinada para o “não”. “A situação pode ficar pior, pode haver desemprego, mas desemprego já havia com o Governo anterior…”. Athina contrapõe: “Como esta empresa é do nosso pai, é muito difícil, porque pode ser ainda pior…”

“Nunca fomos muito políticos”, concluem. “E o que se passa hoje é demasiado confuso.”