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24.1.17

A caridade não é um programa

in Público on-line

Cantinas sociais: o número de refeições protocoladas tem vindo a descer e o seu custo não é a melhor opção que o Estado pode adoptar.

As cantinas sociais cresceram e multiplicaram-se durante os anos da troika como complemento à diminuição generalizada das prestações sociais. Paternalmente, o Governo de Passos Coelho e de Paulo Portas confiava mais no chamado terceiro sector do que na capacidade dos pobres em gerirem subsídios de desemprego, abonos de família, pensões ou rendimentos sociais de inserção. O Governo PSD/CDS acreditava mais na “inovação” das políticas de caridade do que na social-democracia do combate aos casos mais extremos de pobreza. A pobreza cresceu naturalmente nesses anos, mas o número de beneficiários de programas como o Rendimento Social de Inserção diminuiu. Afinal, tem sido sempre essa a finalidade das mudanças de regras desta prestação.

Cantinas sociais evitaram que "bomba social" rebentasse, diz presidente da Fundação AMI
O primeiro relatório dos serviços da Segurança Social sobre o impacto deste programa de emergência alimentar do anterior Governo não deixa muitas dúvidas. As instituições de solidariedade social fornecem menos refeições do que aquelas que foram alvo de protocolo com o Estado; não há qualquer tipo de controlo sobre a execução dos mesmos; e a distribuição de cantinas sociais está desajustada face às necessidades das populações. A sua distribuição não coincide com o mapa de necessidades, como se comprova pelo caso de Portalegre: o distrito menos populoso do país é o terceiro com o maior número de cantinas. Existem ainda outros motivos para ditar o fim da medida criada para vigorar de Abril de 2012 a Dezembro de 2014, que o actual Governo prolongou para não deixar ninguém sem resposta: o número de refeições protocoladas tem vindo a descer e a despesa das cantinas sociais pode não ser a melhor opção económica.

O relatório vai ao encontro das contas de Cláudia Joaquim, então investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e actual secretária de Estado da Segurança Social: o encargo com uma família de quatro membros numa cantina social é mais elevado que o pagamento do RSI a esse agregado. A fase de transição que a governante divulga nesta edição pretende reajustar a oferta em função das características da procura e não o contrário, racionalizando a sua distribuição geográfica, e acautelando os interesses das instituições e dos beneficiários sem outra alternativa. Veremos. É sempre mais sensato substituir a comiseração por políticas de luta contra a pobreza. 

24.2.14

A caridade não combate mas perpetua a pobreza

por Lusa, texto publicado por Isaltina Padrão, in Diário de Notícias

O criador do projeto The Big Issue, que inspirou, entre outras, a revista Cais, defendeu hoje que o modelo de caridade demonstrou ter falhado em conseguir a transformação social necessária para combater a pobreza.

John Bird, ex-sem abrigo, ex-recluso e autoproclamado "ladrão, rude e mau poeta", afirmou hoje em Barcelona que o melhor modelo é um que ajude os mais pobres, os sem-abrigo ou os mais excluídos a "ganhar o seu próprio dinheiro".

Em conjunto com Gordon Roddick, fundador do The Body Shop, Bird criou em 1991 a revista The Big Issue que desde aí ajudou já milhares de pessoas vulneráveis e, no ano passado, "colocou mais de 5 milhões de libras nos bolsos" dos cerca de 2.000 sem abrigo e pessoas vulneráveis que vendem a revista.

"Muitas das soluções, especialmente as de caridade, estão a perder tempo, e muitas vezes contribuem para perpetuar o problema da pobreza", disse Bird, num encontro organizado pela escola de negócios IESE.

"Conheci ao longo da minha vida muitos pobres e excluídos. E muitos, muitos mesmo têm ou conseguiram ter uma profunda e exuberante crença no seu próprio poder", disse.

Bird recordou que quando começou o projeto havia, só em Londres, mais de 500 organizações dedicadas à caridade, "que davam tudo aos sem-abrigo, desde um lugar onde dormir ou lavar-se", com "milhares de pessoas a recolher dinheiro, roupa e outras coisas".

"Dez anos depois havia mais de 2.000. E o problema só se multiplicou e institucionalizou", afirmou.

Para Bird, mudar o sistema passa por deixar de pensar que ser um empreendedor social implica "não poder ganhar dinheiro", recordando que ele próprio começou o The Big Issue "para pagar a hipoteca".

"As pessoas querem ser empresários sociais mas são lixados pelo grande peso que é pagar as contas. Anseio pelo dia em que se possa ganhar mais dinheiro como um empreendedor social do que a especular na Wall Street", disse.

Definindo-se como um "ex-católico e um ex-marxista", Bird considerou essencial abandonar "atitudes moralistas, de bem e mal" do debate sobre o combate à pobreza.

"Odeio moralismo. Todos moralizam. Toda a gente procura alguém a quem culpar. Vamos inovar. Temos que dar às pessoas oportunidades de ganhar o seu próprio dinheiro", disse.

"Não podemos perpetuar este sistema de caridade, este sistema de apoios sociais que é, para muitos pobres e para os seus filhos, uma sentença de morte à ambição", afirmou.

Bird insiste que a mudança passa por "pensar diferente 'inside the box' para não ter que pensar "out of the box" e que há que mudar a forma de olhar os negócios socialmente responsáveis.

"Quem trabalha em empreendedorismo social não tem que andar de bicicleta, ser vegetariano. Pode sê-lo mas temos que mudar o paradigma. Pensar que é possível tornar este tipo de negócios sexy e divertidos", afirmou.

"A caridade não combate mas perpetua a pobreza"

in Notícias ao Minuto

O criador do projeto The Big Issue, que inspirou, entre outras, a revista Cais, defendeu hoje que o modelo de caridade demonstrou ter falhado em conseguir a transformação social necessária para combater a pobreza.

John Bird, ex-sem abrigo, ex-recluso e autoproclamado "ladrão, rude e mau poeta", afirmou hoje em Barcelona que o melhor modelo é um que ajude os mais pobres, os sem-abrigo ou os mais excluídos a "ganhar o seu próprio dinheiro".

Em conjunto com Gordon Roddick, fundador do The Body Shop, Bird criou em 1991 a revista The Big Issue que desde aí ajudou já milhares de pessoas vulneráveis e, no ano passado, "colocou mais de 5 milhões de libras nos bolsos" dos cerca de 2.000 sem abrigo e pessoas vulneráveis que vendem a revista.

"Muitas das soluções, especialmente as de caridade, estão a perder tempo, e muitas vezes contribuem para perpetuar o problema da pobreza", disse Bird, num encontro organizado pela escola de negócios IESE.

"Conheci ao longo da minha vida muitos pobres e excluídos. E muitos, muitos mesmo têm ou conseguiram ter uma profunda e exuberante crença no seu próprio poder", disse.

Bird recordou que quando começou o projeto havia, só em Londres, mais de 500 organizações dedicadas à caridade, "que davam tudo aos sem-abrigo, desde um lugar onde dormir ou lavar-se", com "milhares de pessoas a recolher dinheiro, roupa e outras coisas".

"Dez anos depois havia mais de 2.000. E o problema só se multiplicou e institucionalizou", afirmou.

Para Bird, mudar o sistema passa por deixar de pensar que ser um empreendedor social implica "não poder ganhar dinheiro", recordando que ele próprio começou o The Big Issue "para pagar a hipoteca".

"As pessoas querem ser empresários sociais mas são lixados pelo grande peso que é pagar as contas. Anseio pelo dia em que se possa ganhar mais dinheiro como um empreendedor social do que a especular na Wall Street", disse.

Definindo-se como um "ex-católico e um ex-marxista", Bird considerou essencial abandonar "atitudes moralistas, de bem e mal" do debate sobre o combate à pobreza.

"Odeio moralismo. Todos moralizam. Toda a gente procura alguém a quem culpar. Vamos inovar. Temos que dar às pessoas oportunidades de ganhar o seu próprio dinheiro", disse.

"Não podemos perpetuar este sistema de caridade, este sistema de apoios sociais que é, para muitos pobres e para os seus filhos, uma sentença de morte à ambição", afirmou.

Bird insiste que a mudança passa por "pensar diferente 'inside the box' para não ter que pensar "out of the box" e que há que mudar a forma de olhar os negócios socialmente responsáveis.

"Quem trabalha em empreendedorismo social não tem que andar de bicicleta, ser vegetariano. Pode sê-lo mas temos que mudar o paradigma. Pensar que é possível tornar este tipo de negócios sexy e divertidos", afirmou.

20.12.12

Isabel Jonet, a caridade e a solidariedade

Daniel Oliveira, in Expresso

Quando muitas pessoas, eu incluído, criticaram as declarações de Isabel Jonet na SIC Notícias, a resposta de muitas outras variou entre os que defenderam que, não se tratando de uma política, espera-se que faça bem e não se pede que tenha as posições mais corretas e os que argumentaram que a presidente do Banco Alimentar contra a Fome apenas tinha dito verdades. Com os últimos não há, do meu lado, grande debate a fazer. Com os primeiros, vale apena insistir que os políticos não são os únicos a ter responsabilidades por o que dizem. Todos, sendo adultos e estando na posse de todas as nossas faculdades, temos.

Seguidamente, muita gente viu em cada dádiva ao Banco Alimentar uma demonstração de apoio a Isabel Jonet. Por mim, que nunca apelei a qualquer boicote e todos os anos contribuo para aquela instituição - e não é de hoje que sei por quem é dirigida -, é argumento que nem compreendo. As pessoas sabem distinguir entre as opiniões de cada um e a função das instituições que elas dirigem. O Banco Alimentar contra a Fome não disse nada. Quem disse foi Isabel Jonet. Também contribuo para a Cáritas (cujo responsável fez declarações bem mais ponderadas recentemente) e não deixo de ser ateu de todos os costados. Não me importa quem dirige instituições deste género desde que saiba que as coisas chegam onde devem chegar. Considero este tipo de trabalho meritório e útil. O que não me impede de achar que ele é um remendo, não é a solução. Socorrer a emergências não é atacar o problema. Mas as emergências existem e continuam a ter de ser resolvidas.

Mas, mostrando que não se tratou de uma mera infelicidade ou dificuldade de expressão, Isabel Jonet voltou à carga. E, desta vez, resolveu teorizar. Explicou que prefere a caridade à solidariedade. Ou seja, considera que uma e outra coisa são comparáveis. E é aqui que a discordância não podia ser maior. A solidariedade define a forma como uma sociedade ou um grupo de pessoas se organizam. A caridade é o que se faz quando isso falha. A caridade não combate a pobreza, apenas impede que ela seja fatal. A questão é se achamos que a pobreza é inevitável ou que é possível preveni-la.

Mas a diferença é maior do que isto. A caridade pressupõe uma relação de poder. O poder entre quem dá, se quer dar e a quem quer dar, e de quem recebe, se alguém lhe quiser oferecer alguma coisa. O assistencialismo - a institucionalização da caridade - corresponde a um favor, não a um direito. E quem depende de favores é menos exigente. Porque depende, para sobreviver, da boa vontade dos outros. A solidariedade, pelo contrário, corresponde a uma interajuda. Damos e sabemos que podemos receber daqueles a quem damos.

Dirão que a primeira é mais altruísta. É isso que acha Isabel Jonet, inspirando-se em São Paulo, afirmou numa jornal "I": "Caridade é amor, é espírito de serviço, é o outro precisar de nós sem que nós precisemos do outro" enquanto "a solidariedade é algo mais frio que incumbe ao Estado e que não tem a ver com amor, mas sim com direitos adquiridos".

Repare-se que em nenhum momento o que está em causa é o que sente quem recebe, mas o que sente quem dá. Isabel Jonet prefere, como afirma, a "caridade" à "solidariedade" por o que ela diz de quem dá, não por o que ela diz da situação em que fica quem recebe.

Desse ponto de vista, a caridade é, na realidade, muito menos altruísta. Ela dá uma satisfação a quem oferece que a frieza da solidariedade não garante. Eu sinto-me melhor comigo mesmo quando dou comida ao Banco Alimentar do que quando pago os impostos. Porque podia não dar ao Banco Alimentar mas não poderia deixar de pagar às Finanças. A questão é saber como se sente quem recebe os frutos de uma coisa e de outra. O primeiro sente-se dependente da generosidade alheia. O segundo sente-se apenas um cidadão.

Não, a solidariedade não é uma função do Estado. É uma função de todos que se faz através do Estado (quando pagamos impostos, por exemplo) ou da sociedade civil. Sim, é mais fria, porque é anónima e corresponde a direitos e a deveres irrecusáveis de todos e para todos em simultâneo. E ainda bem. Não é por acaso que ninguém se envergonha de ir buscar um subsídio a que tem direito e a generalidade das pessoas sente-se vexada ao receber alimentos de desconhecidos. Porque a solidariedade, na sua frieza, resguarda muito mais a dignidade pública de quem recebe. Exatamente por ser um "direito". Jonet diz que é "adquirido", como se tratasse de qualquer coisa que se adquiriu passivamente e que não se merece. Eu chamo-lhe "conquistado", porque ele resulta de acumular de lutas colectivas. Ninguém pediu a quem mais tinha para pagar impostos. Foram obrigados a isso. Ninguém é obrigado a ser caridoso. Talvez seja esta diferença de muitos dos que preferem a "caridade" à solidariedade. A primeira corresponde a um imperativo de justiça social. A segunda depende apenas da generosidade de cada um.

É exatamente por isso, por ser um direito e por ter sido conquistado, que ele, ao contrário de qualquer esmola dada ao sabor da vontade de quem dá, transporta em si a dignidade de quem recebe. Essa dignidade foi conquistada quando os cidadãos transformaram o mínimo para a sobrevivência num direito indiscutível em vez de um favor que depende do amor alheio. A pessoa mais detestável pode não merecer o nosso amor. Mas merece sempre o mínimo de dignidade. Um conceito que deve ser frio e abstrato para poder ser aplicado a todos. Não transforma nenhum de nós num herói aos olhos dos restantes. Nem nenhum de nós em alguém que depende do amor dos outros, sempre tão volúvel, para comer. Transforma todos em cidadãos. Se é uma questão de preferência, prefiro assim.

Nota: ISabel Jonet disse que não havia crianças portuguesas com fome, mas com carências alimentares. Sem entrar em polémicas, que o estômago não me permite, deixo aqui uma parte da reportagem da RTP sobre o assunto. Sem qualquer comentário.

11.12.12

Isabel Jonet. “Sou mais adepta da caridade do que da solidariedade social”

Por Carlos Diogo Santos, in iOnline

Presidente do Banco Alimentar diz que o êxito se deve aos portugueses e garante que nenhum produto se estraga


A participação num debate na televisão deixou-a debaixo dos holofotes. Isabel Jonet ponderou muito antes de dar esta entrevista. Depois de ter aceitado recebeu o i nas instalações do Banco Alimentar contra a Fome, em Alcântara, avessa a fotografias, mas disposta a falar do êxito da última campanha nos supermercados – que ocorreu no primeiro fim-de--semana de Dezembro – e sobre o estado do país. Explica que não está preocupada com os casos de idosos que aparecem mortos em casa, mas sim com as carências por que passam quando estão vivos. Nada preocupada com o que dela se escreve, criticou os jornalistas que deturpam as declarações dos entrevistados e garantiu que por isso há quem fuja da comunicação social.

No que respeita a carências alimentares qual é a situação de Portugal?

Não há nenhum estudo sobre as carências alimentares em Portugal actualmente. Aquilo que eu e os 20 bancos alimentares contra a fome – que todos os dias apoiam instituições de solidariedade social – temos é o conhecimento daquilo que as instituições nos solicitam. Não há um levantamento muito exaustivo, até porque há muitas pessoas, sobretudo com mais idade, que têm carências alimentares, mas que não as tornam públicas. É aquilo a que chamamos a pobreza envergonhada. Quando um idoso que tem rendimentos muito muito baixos porque vive apenas de uma pensão de viuvez tem que escolher entre comer e tomar medicamentos opta sempre pelos medicamentos.

Como se descobrem esses casos?

A essas pessoas só temos acesso se elas pedirem ajuda ou se alguém for a sua casa fazer a limpeza, ou dar apoio, e vir que passam por necessidades.

Mas há os que vivem a vida toda a esconder...

Claro, ainda no ano passado houve uma grande exaltação da sociedade portuguesa quando foram encontrados idosos mortos nas suas casas. No entanto, a minha grande preocupação é que esses idosos vivam sozinhos e não que morram sozinhos ou sejam encontrados depois de mortos. O problema para mim é se em vida tiveram fome ou tiveram necessidades a que ninguém acorreu. E_há aqui todo um trabalho a fazer nas instituições e no terreno, é precisa uma rede capilar que permita perceber quais os reais problemas no terreno.

Como se processa a ajuda dos bancos alimentares?

Os bancos alimentares não distribuem comida a ninguém, dão os produtos a instituições de solidariedade social e estas é que os levam até às pessoas. São as instituições que no terreno conhecem as pessoas.

Há desperdício no Banco Alimentar ou a hipótese de os alimentos não chegarem aos mais carenciados?

Acho muito difícil estragar-se a comida que é doada pelos portugueses, até porque os bancos alimentares distribuem a tantas instituições que não dão sequer a quantidade que elas precisam que não vejo que sobras é que possam ser mal aproveitadas.

Mas há quem tenha essa ideia. Porque acha que isso acontece?

Houve situações, e isso é incontestável, em que foram mal distribuídos os excedentes da União Europeia – produtos destinado a carenciados. Estes bens alimentares são entregues pela Segurança Social e aconteceu grandes quantidades de arroz e de outros produtos, como manteiga, terem sido mal aproveitados.

Porquê?

Por imposição das regras comunitárias esses produtos são distribuídos por uma só vez e em grandes quantidades e as famílias mais pobres não têm capacidade de armazenamento e por isso se estragaram muitos produtos. Mas a distribuição dos bancos alimentares é diferente e permite ter a certeza de que nada se perde, porque é distribuído em poucas quantidades.

O balanço da última recolha nos supermercados, 1 e 2 de Dezembro, mostra que os portugueses não desistiram de apoiar o Banco Alimentar...

As campanhas dos bancos alimentares têm três modalidades. A dos sacos com voluntários espalhados por vários supermercados e cujo resultado foi praticamente igual ao da campanha do ano anterior, ou seja, 2930 quilos de produtos alimentares, a campanha por internet, que mostra os resultados em tempo real, e por fim a campanha por vale, à venda nos supermercados.

O facto de os números serem iguais aos do ano passado, apesar do agravamento da situação financeira das famílias, é um sinal importante?

Eu acho que é incrível o resultado que se conseguiu obter, porque esta foi a primeira campanha depois dos cortes nas prestações sociais e até nos subsídios de Natal e poder-se-ia prever uma diminuição da solidariedade, mas não. Há uma manutenção, as quantidades recolhidas são praticamente as mesmas, e eu penso que isto é um sinal de grande esperança da sociedade portuguesa. Aliás, os portugueses quando bem mobilizados estão dispostos a participar para construir algo de novo.

É um voto de confiança no Banco Alimentar e no seu trabalho?

É isso, certamente, e mais que isso. As pessoas sentem que podem fazer a diferença na vida de outros e essa é que é para mim a grande mensagem. Uma mensagem de querer fazer parte deste projecto social, porque há pessoas que têm menos que eu. Recebemos cartas de pessoas a dizer que já contribuíram com alimentos e que querem contribuir com trabalho, mas que também precisam de receber do Banco Alimentar – claro que contribuíram com um pacote de esparguete de 40 cêntimos –, mas sentiram que apesar de também precisarem tinham de participar neste projecto, e esse gesto é inexplicável…

O seu trabalho no Banco Alimentar é amplamente conhecido. O que podia ter feito melhor?

Não sou capaz de lhe dizer. Tenho a sorte de poder colaborar num projecto em que diariamente trabalham outras 600 pessoas. Os 20 bancos alimentares que existem são autónomos juridicamente e independentes do ponto de vista financeiro. Cada banco alimentar tem uma direcção própria e estão congregados na Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares, e esta cadeia que se conseguiu instituir é uma rede de solidariedade que se articula com grande proximidade com as instituições beneficiárias, num clima de confiança. Podíamos ter feito mais? Podíamos…

Em quê?

Talvez pudéssemos ter aberto já um banco na região de Bragança, mas nós nunca suscitamos o aparecimento de bancos. Eles surgem quando há grupos de pessoas com boa vontade que querem seguir o nosso modelo, porque nós temos um modelo muito bem definido que é seguido por todos os bancos em Portugal e alguns na Europa.

O trabalho desta cadeia é fazer solidariedade ou caridade?

Hoje em dia as pessoas têm medo da palavra “caridade”, têm medo de palavras, atribuem conotações e pesos à palavra “caridade”. Na acepção de São Paulo, caridade é amor, é espírito de serviço, é o outro precisar de nós sem que nós precisemos do outro e portanto levamos o que ele precisa e não o que nós queremos levar. A solidariedade é algo mais frio que incumbe ao Estado e que não tem que ver com amor, mas sim com direito adquiridos. Infelizmente empobrecemos a nossa língua atribuindo algumas conotações a algumas palavras e portanto temos medo de as usar.

Resumindo, solidariedade ou caridade?

Sou mais adepta da caridade do que da solidariedade social… Embora defenda que ambas se completam e ambas fazem parte do bem fazer.

Há um limite a partir do qual uma pessoa passa a ser carenciada?

Há. Esse limite é o querer ser ajudado, não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Uma coisa é ajudar os sem-abrigo com fome, outra é ajudar uma família desestruturada numa situação de endividamento e em que às vezes até os filhos estão a sofrer com essa situação. As respostas que têm de ser dadas são diversas. E é por isso que a caridade é melhor que a solidariedade, porque nos permite ir um a um. Esse papel só pode ser desempenhado pelas instituições que conhecem caso a caso. Uma família habituada a um determinado nível de rendimento e que de repente se vê numa situação diferente não pode ter a mesma resposta que um idoso com uma pensão de reforma baixa. É por isso que esta resposta não deve caber ao Estado.

Como vê o corte de algumas garantias por parte do Estado?

Eu não sei que garantias vão acabar, porque uma coisa é o que é anunciado outra coisa é o que é adoptado. Mas tudo o que tenha que ver com reduções de rendimentos ou de prestações sociais a idosos pobres é muito preocupante. Porque esses idosos – e em Portugal há um milhão de pensionistas que vivem com menos de 280 euros por mês – suportam os aumentos do IVA como os outros e portanto eu não gosto e penso que seria muito complicado reduzir as suas prestações.

As alterações na saúde e na educação podem pôr em causa o equilíbrio de muitas famílias?

Temos de ver como é que isso é feito primeiro. A educação é um direito universal que tem de ser garantido, mas a sua gratuidade se calhar tem de ser vista em função dos rendimentos. Não é possível lutar contra a pobreza estrutural que existe em Portugal sem educação e formação. Tenho pena que em muitos casos se confunda educação com formação. Há um conjunto de educação e de valores que se foram perdendo ao longo dos anos indispensáveis a uma sociedade justa e a uma sociedade que se pretende desenvolvida. Em Portugal esta noção de que podemos fugir aos impostos ou de que podemos não votar é...

Acha então que somos hoje um país mais pobre desse ponto de vista do que há algumas décadas?

Acho… Há um desinteresse grande dos jovens na política ou até na responsabilização de quem nos governa. Quando não se vota não se podem apontar erros a quem governa. Se as pessoas se desinteressam não podem vir apontar responsabilidades e há muitos jovens que não votam. Se fizer um estudo nas universidades verá que a maior parte dos jovens não votam porque estão desinteressados e isso é pena. Põem na mão dos outros o seu futuro e depois não podem exigir nada.

Numa entrevista recente disse que as crianças chegam à escola com fome porque os pais se demitem do seu papel. Não põe a hipótese de ser por insuficiência económica?

O que leu foi o que a jornalista escreveu e não o que eu disse. O que eu disse foi que acho inqualificável que no século xxi haja crianças que cheguem com fome às escolas, porque nenhuma criança pode ter bom aproveitamento se estiver com a barriga vazia. Nesses casos é preciso apurar se esta criança chega à escola sem tomar o pequeno-almoço – ou até sem dinheiro para a senha do almoço – porque a família não tem rendimentos ou porque há uma desresponsabilização dos pais.

Então não disse o que vem naquela entrevista…

Não, mas em Portugal há muito daquilo a que eu chamo interpretadores, que são aqueles que dizem que nós dissemos coisas que não dissemos, mas que eles gostavam que tivéssemos dito. E é por isso que depois as pessoas com mais responsabilidades fogem dos meios de comunicação social, porque estes deturpam. E foi o que aconteceu com essa jornalista. O pior é que tudo é feito impunemente. Então no online há uma total impunidade, muitos comentários são feitos sob anonimato e assim não se pode querer construir uma sociedade democrática.

Se pudesse, que medida aconselharia a este governo para travar o aparecimento de novos pobres?

O que eu conheço melhor são as instituições de solidariedade social e sei das grandes exigências que lhes são feitas para o seu funcionamento. Há um conjunto de normas impostas que em meu entender são excessivas e não fazem qualquer sentido. Portanto considero que isso devia ser revisto. Não significa isto abrandar a qualidade, mas sim racionalizar recursos.

Ainda sobre a actual situação do país, acha que seria positiva a suspensão da democracia para pôr tudo na ordem, como aliás sugeriu Manuela Ferreira Leite?

Na Europa como a vivemos hoje em dia não seriam possíveis ditaduras como as que existiram. Deixar de viver em democracia é uma questão que não se põe, há direitos e conquistas que alteraram para melhor a sociedade portuguesa. Quando foi o 25 de Abril eu tinha 14 anos e assisti a um processo de democratização que conduziu a sociedade portuguesa para muito melhor, mas houve coisas que se foram perdendo, nomeadamente a educação do povo e os valores que fazem com que os mais novos venham a lidar com uma sociedade que pode vir a parecer menos democrática. No entanto, é preciso estarmos atentos às manifestações da direita na Áustria para com os imigrantes. E há um conjunto de situações, de manifestações, que quem governa deve ter em atenção porque podem até traduzir-se em fenómenos de rejeição.

Mas para si o caso mais preocupante na Europa continua a ser a Grécia...

Sim, o país piorou imenso nos últimos meses. Quem lá chega vê a falência de um estado. E como os gregos adoram discutir, dificilmente conseguem chegar a uma solução. Gostam tanto de debater e discutir que para eles a tomada de decisões é mais difícil que para outros povos, como os alemães, que são mais práticos e cumprem as decisões, mesmo que sejam incorrectas. Os gregos não, põem tudo em causa… E é muito difícil governar assim. Mas claro, há o problema dos imigrantes que entram todos os dias pelas ilhas da Grécia, sobretudo os curdos e os afegãos. Pessoas miseráveis que não têm ambição nenhuma de trabalhar, porque vêm a fugir da guerra nos seus países. Pessoas tristes, deprimidas e angustiadas, que vão demorar até se endireitarem.

E a resposta grega a essas situações é adequada?

Bom, não há a almofada de segurança das instituições ligadas à Igreja Católica, como nos outros países do Sul. A assistência social – que foi estruturada pela Igreja – será em 2013 a almofada de muitas famílias, não só em Portugal como em Espanha, Itália e na França. Isso na Grécia não existe, quem está a assumir esse papel são as municipalidades e grupos espontâneos que não estavam preparados para o fazer.

O que lhes falta?

Organização. Não têm a organização da dita caridade que nós temos aqui há centenas de anos.

Acha que os portugueses têm memória curta?

Não sei o que quer dizer com isso, mas depende das situações. As pessoas não se esquecem de coisas boas que fizemos, como por exemplo os feitos dos portugueses nos Descobrimentos. Toda a gente se lembra da maneira fantástica como foram acolhidos os retornados – de repente entrou aqui um milhão de pessoas que foi integrado na sociedade portuguesa – acho que todas as pessoas se lembram da selecção portuguesa no Euro 2004. Os portugueses são um povo reconhecido e que se lembra sempre que as coisas correm bem…

Mesmo quando se trata do seu trabalho e do do Banco Alimentar?

Lembram-se sempre, e a prova foram os resultados desta última campanha…

O que é que os portugueses podiam fazer mais por si próprios?

Ser mais rigorosos, mais exigentes. Há uma palavra que também se perdeu na sociedade portuguesa que é o “brio”, a capacidade de fazer as coisa sempre bem feitas. E muitas vezes, até por imposição do mundo em que vivemos – você está aqui sentado, tem o seu tablet e o seu telefone e está a pensar ao mesmo tempo nos emails que já recebeu –, perdeu--se o custo da oportunidade. O correcto seria: se está a falar comigo não está a pensar nos emails ou no Facebook, não está a pensar que não comentou ou que não pôs likes. E eu a mesma coisa: se estou a falar consigo não devia estar a pensar na minha filha que está ali fora à minha espera nem nos emails que já recebi e a que vou responder logo à noite… Ou estamos a fazer bem uma coisa ou mal duas. Tudo isto faz com que se tenha perdido o brio.

No que diz respeito ao brio, sente-se então uma estrangeira em Portugal? Que nacionalidade tem o seu brio?

[Silêncio.] Portuguesa, sou muito portuguesa em muitas coisas, até na capacidade de improvisar coisas que funcionam, mas sou de uma outra geração – até porque já tenho uma filha médica [risos] –, em que havia muita exigência no ensino primário, e isso faz com que seja hoje mais exigente também. É por isso que defendo o investimento na exigência do ensino primário. O brio ensina-se de pequeno.

Essa flexibilização do ensino é um fenómeno português ou europeu?

Há uma imperiosidade de haver pessoas com mais escolaridade completa. No entanto, a exigência ou a falta dela é nacional. Conheço sistemas de ensino básico de outros países, até porque vivi oito anos na Bélgica, e os meus dois filhos mais velhos fizeram parte do ensino primário lá. A exigência de cumprimento de rigor e de brio deve ser feito na escola primária, e eu penso que devemos voltar a ter esses valores. Muitas vezes vejo medidas e políticas para o ensino secundário e penso que nós tínhamos de voltar atrás e reformular a primária, o básico.

Reformular como?

Nós abrimos a Entrajuda, que leva gestão e organização às instituições. Temos 3500 instituições inscritas, que recebem bens e serviços, portanto, enquanto o Banco Alimentar dá alimentos, a Entrajuda presta serviços e quando necessário leva bens como computadores para determinadas instituições. Esta entidade tem feito estudos para perceber como se podem cortar ciclos de pobreza.

O que tem isso que ver com a reformulação da primária?

Um desses estudos foi o rastreamento a 3500 crianças – que frequentam instituições de solidariedade social – no que respeita à qualidade da visão, da audição e da saúde oral. As conclusões foram arrasadoras. Cinquenta e três por cento ouviam mal e 24% viam mal. Ora eles não podem ter bons resultados na escola, isto é um problema de saúde pública. É preciso pôr óculos nestas crianças e ver o que têm nos ouvidos para que tenham igualdade de oportunidades no primeiro ciclo. Tenho para mim que para cortar alguns ciclos de pobreza é preciso educar as crianças de quem não teve exigências dando-lhes brio, rigor e escolaridade.

Já apresentou esse estudo a alguma entidade?

Já tive oportunidade de o mostrar ao ministro da Saúde e espero que seja tida em conta a possibilidade de ajudar – implantando de foram sistemática a prevenção de deficiências auditivas e visuais –, porque se uma criança é boa na primeira e na segunda classe tem mais hipóteses de ser boa o resto da vida. Se for bom aluno no básico pode não ser pobre. Cortar ciclos de pobreza é ver os problemas que existem na primária e não os que existem aos 15 anos, altura em que muitas crianças não têm alternativa a vender droga nos bairros.