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31.7.23

Manuel Castells: “Os sistemas dos países não mudam por escolha, mudam por necessidade”

Erika Stael von Holstein e Luca de Biase/Re-Imagine Europa, Público online

O sociólogo espanhol Manuel Castells aborda a crise da democracia liberal e a forma como os meios digitais e as redes sociais mudaram a nossa relação com o poder e com as instituições que o dirigem.

Manuel Castells moldou o nosso entendimento de dinâmicas políticas numa sociedade em rede. Professor universitário e Wallis Annenberg Chair em Comunicação, Tecnologia e Sociedade na Universidade da Califórnia do Sul, a carreira académica de Castells envolve a maioria das principais universidades do mundo. É autor de 35 livros e é ex-ministro das Universidades do Governo espanhol. O seu trabalho alterou a forma como pensamos a organização da sociedade na complexa realidade em rede. Nesta conversa discorre sobre a forma como podemos re-imaginar o poder.

Talvez devêssemos começar com uma das questões fundamentais. O que se entende por “poder”? E é tão importante porquê?
Mesmo que não pensem sobre poder, as pessoas estão numa relação de poder. A maioria delas numa posição subordinada de poder. Como tal, é importante saber o que é, especialmente se não estamos satisfeitos com o facto de nos encontrarmos sob uma estrutura específica de poder e se gostaríamos de a mudar. É importante saber o que queremos mudar porque, sem saber o que queremos mudar, não conseguimos mudar nada. Portanto, se me perguntarem o que é poder... Bem, poder, tradicionalmente, não é uma inovação. Poder é a capacidade que alguns seres humanos têm de forçar ou influenciar o comportamento de outros para que eles se comportem de acordo com os interesses e os valores dos detentores do poder.

E por que razão é tão importante compreender o papel do poder na nossa sociedade hoje?
Não é só hoje. Ao longo da história da Humanidade, poder tem sido aquilo a que eu chamaria ADN das sociedades. Porque quem quer que seja que tenha poder, seja uma pessoa, sejam instituições nas quais uma pessoa ou várias pessoas são fundamentais, quem quer que seja que tenha poder tem a capacidade de estabelecer as regras, as normas e as instituições da sociedade, bem como a forma como vivemos. Portanto, é o ADN das sociedades e o nosso código de comportamento que é reforçado pelas instituições.

Nós somos livres. Sim, nós somos livres dentro das condições que aqueles no poder consideram aceitáveis ou inaceitáveis. Felizmente, este poder não é absoluto — poder absoluto com algumas excepções na história, mesmo em momentos de um regime absolutista —, existe sempre alguma resistência. Existe sempre alguém a dizer: “Nem pensar”. Por norma, eles são mortos, mas, em princípio, existe sempre e sempre existiu: onde há poder, há resistência a esse poder.

De facto, onde há dominação, em termos de poder, a relação pode ser aceite, rejeitada ou contrariada. E por isso eu digo que, de facto, as instituições da sociedade são construídas através das dinâmicas e da relação entre poder e contrapoder.

Contrapoder é a tentativa daqueles que não se sentem representados nas instituições da sociedade, e sob as condições de poder existentes no momento, de tentar alterar o panorama. Para alterar aquelas que são as regras da sociedade. E há diferentes formas de o fazer, desde esforços e mesmo, em alguns casos, desafios em termos evolutivos, para capacitar as nossas democracias através de mobilização para tentar vencer novas eleições.

Portanto, o resultado entre poder e contrapoder é um conjunto de normas e instituições sob as quais nós vivemos e pelas quais nós vivemos. E isso, em certa medida, significa que estão sempre a mudar, constantemente. Todos os dias. Todos os dias há tentativas de impor poder de acordo com normas estabelecidas e de desafio a esse mesmo poder.

No segundo episódio da ReImagine Talks é discutido o que significa ter poder nas sociedades contemporâneas.

Nós estamos, neste momento, a assistir a grandes agitações sociais. Existem dinâmicas de poder e contrapoder a trabalhar neste momento. Como vê esta mudança? Como é que isso está a mudar a relação entre estes dois diferentes tipos de poder, numa sociedade em rede, depois de tantos anos com a Internet a ser algo central no nosso mundo?
Para perceber isto, é preciso relembrar que existiram duas formas fundamentais de exercer poder ao longo da história e, de facto, todas as teorias de poder podem ser reduzidas a estas duas: poder por coerção e poder por persuasão.

Apesar de o poder por coerção ser mais decisivo — por exemplo, “tu fazes isto ou eu mato-te ou eu mando-te para a prisão”, o poder por persuasão é, na verdade, mais eficaz, porque influencia as nossas mentes. Agora, na era da Internet, o que tem acontecido é que a comunicação tem sido largamente descentralizada no mundo das redes sociais, que é muito mais autónoma em termos de mensagens, não em termos de domínio das grandes empresas, mas em termos de mensagens.

Existem muito mais pessoas a intervir neste diálogo e nesta oposição e nestas controvérsias do que num mundo em que os media tradicionais teriam, de facto, a capacidade de moldar grande parte da comunicação.

É o que eu chamo “nós não mudámos para a liberdade digital; passámos de comunicação em massa para comunicação pessoal em massa”. Porquê pessoal? Porque as pessoas constroem as suas próprias redes desde o princípio, elas produzem as suas próprias mensagens e, ao mesmo tempo, são remetentes de mensagens e receptores de mensagens.

Existe uma constante interacção e uma constante descentralização do sistema de comunicação. Mas e depois? Bem, as pessoas que têm poder mobilizam os seus recursos também nas redes sociais para prevalecerem na modelação de comportamento.

E esta é a razão fundamental pela qual as redes sociais, ao invés de serem uma ágora electrónica, são um campo de batalha entre projectos, ideias e manipulações que ocorrem em simultâneo.
Sem saber o que queremos mudar, não conseguimos mudar nadaManuel Castells

Num dos seus livros, O Poder da Comunicação, realçou a importância da comunicação para o poder, o facto de o poder ser transformado de alguma forma através de redes de comunicação. Tornou-se bastante popular nos últimos anos culpar as redes sociais e a Internet pela maioria dos problemas que vemos hoje em dia. Como é que vê a relação entre a chegada das novas tecnologias e, ao mesmo tempo, o tipo de fragmentação que vemos na sociedade e o descontentamento crescente nas sociedades democráticas por todo o mundo?
Bem, primeiro lembrem-se de que estamos a falar sobre o poder das ideias, mas ideias são, em termos de comunicação e em sistemas de comunicação alargados, tão poderosas a influenciar comportamentos como a desencadear emoções — lembrem-se que a neurociência tem demonstrado que nós somos animais emocionais. São as nossas emoções, os nossos sentimentos que determinam o nosso comportamento.

Um dos principais erros que têm tido enormes consequências práticas na democracia liberal é pensar que políticas racionais, melhores políticas em termos racionais, vão convencer as pessoas. De forma nenhuma. De forma nenhuma. É bom para os governos e as instituições terem políticas razoáveis. Definitivamente. Mas não é dessa forma que conseguem convencer as pessoas se elas tiverem emoções muito fortes. O simples facto de ter uma política económica sensível e boa, um controlo da dívida, uma boa gestão do trânsito nas cidades não vai mudar os preceitos fundamentais. Portanto, a verdadeira questão é saber como vamos desencadear emoções positivas, ao invés de emoções negativas. E isso não tem a ver com a criação de políticas; tem a ver com comunicação.

Agora, será que as tecnologias digitais e as redes sociais hoje são as culpadas pela perturbação que tem sido observada na sociedade? De maneira nenhuma. Porque a tecnologia não determina. A tecnologia modera. O que a Internet faz é favorecer uma comunicação sem impedimentos entre as pessoas. E essa capacidade expressa a variedade humana em qualquer sociedade, bem como a variedade de ideias e projectos. Hoje, a Internet é um espelho das nossas sociedades, um espelho de nós mesmos. Se nós não somos boas pessoas, isso será reflectido na Internet. Nós, na verdade, aceitamos uma ideia que muita gente aceitou: o advento da Internet como uma tecnologia de liberdade e uma tecnologia libertadora. É mesmo. Nós apenas nos esquecemos de que “livre” nem sempre significa “boa”.

Existe um paradoxo entre o facto de a Internet ter nascido como uma ferramenta de liberdade, que permite a qualquer indivíduo expressar-se, e, ao mesmo tempo, existir uma concentração de poder nas mãos de um pequeno número de grandes empresas. Como é que explica isto?
Nós temos de fazer uma diferenciação entre o controlo de posse, o controlo de conteúdo e o controlo de substância da comunicação, o que significa que é preciso que nos lembremos de que o modelo de negócio de base de todas essas empresas ou de todas as empresas ligadas à Internet é tráfego, densidade do tráfego, porque eles vivem dos nossos dados. E de vender os nossos dados ou de usar os nossos dados para publicidade. 91% das receitas da Google vem de publicidade indirecta — 91%, de acordo com a própria Google.

Por isso mesmo, as empresas não estão interessadas em criar qualquer barreira a uma comunicação sem obstáculos. Eu prefiro “sem obstáculos” a “livre”. “Livre” depende de um contexto mais alargado. Por isso, as empresas estão interessadas em mais e mais tráfego. É por isso que a polarização as ajuda. Porque polarização significa que você diz uma coisa, eu vou dizer o contrário e vou lutar consigo até ao fim. Lutar até ao fim significa comunicar até ao fim. E isso é tráfego. Portanto, nem em termos de modelos de negócio nem na possibilidade de monopolizar o conteúdo e o tráfego as empresas param a chamada comunicação sem obstáculos na Internet. Monopólio de propriedade? Sim. Monopólio de comunicação? Não.

Mencionou que as redes sociais não podem ser culpabilizadas, que não são a causa daquilo a que estamos a assistir, mas podem ser vistas mais como um catalisador. Ainda assim, vemos um aumento da falta de confiança por todo o mundo. Se olharmos para os barómetros, vemos que os níveis de confiança nos Governos e nas instituições tradicionais de poder têm descido por todo o mundo. Isto não é apenas um problema europeu, é um problema global. Como explica esta tendência sistémica?
A democracia liberal está a perder as suas bases sociais de representação política devido a causas profundas como as pessoas se sentirem totalmente excluídas de qualquer processo de decisão, à excepção de colocarem o seu voto numa caixa uma vez em cada quatro anos. À excepção disso, elas não têm qualquer outro meio de representação política ou qualquer controlo. Como tal, o que é que fazem? Quando podem, protestam. Quando conseguem, apoiam partidos que se colocam fora do sistema para, então, entrarem no sistema. Logo que entram no sistema, pouco tempo depois, estes são integrados nas regras do sistema, mesmo a extrema-direita e ainda mais as pessoas à esquerda, porque são mais democráticas. E, assim que entram no sistema, são considerados iguais aos outros.

A ligação de confiança tem sido quebrada na maioria das sociedades para a maioria das pessoas. E reparar essa ligação é algo muito sério porque lembrem-se: emoções. É ditado por emoções. Como tal, a não ser que sejamos capazes de desenvolver emoções positivas de maneira real e assim participar num processo de comunicação que seja efectivo, toda a tendência vai continuar a acelerar.

Nós, na verdade, aceitamos uma ideia que muita gente aceitou: o advento da Internet como uma tecnologia de liberdade e uma tecnologia libertadora. É mesmo. Nós apenas nos esquecemos de que 'livre' nem sempre significa 'boa'Manuel Castells

Mas neste novo mundo que é criado pela arquitectura em rede da sociedade, é essa uma nova ideia de poder a emergir, ou é possível um novo balanço de poder?
Em princípio, nós também estamos agora num mundo de poder em rede, porque existem estruturas de poder que, ao contrário de estarem historicamente separadas ou concentradas num só lugar, agora existem tanto a nível nacional como internacional.

Os nós principais nas redes de poder são finanças, empresas de tecnologia, partidos políticos tradicionais, burocracias estatais tradicionais, a indústria dos meios de comunicação e as grandes empresas. Todos estes, tudo isto, fazem parte da rede. Assim, cada nó de poder tem a sua própria dinâmica e o seu próprio objectivo. Mas tudo isto faz parte da rede.

Disse que as pessoas têm perdido a confiança nas actuais formas de poder, quer sejam políticas, quer financeiras. E com todo o direito, tendo em conta o que disse até agora. Consegue ver algumas novas formas de poder a emergir pelo mundo?
Eu vejo. A minha esperança que vem da observação que fiz ao longo da minha vida de muitos países tem sido sempre os movimentos sociais, o que não quer dizer movimentos políticos, apesar de terem sempre consequências políticas.

Mas eu considero movimentos sociais aqueles movimentos, movimentos autónomos, que não estejam ligados a qualquer opção ou partido político, que sejam movimentos culturais. Eles tentam mudar os valores da sociedade.

Agora, pensando amplamente na Europa. Eu penso que o principal problema é que os sistemas políticos têm tido pouca capacidade de traduzir a energia gerada pelos movimentos sociais em novas políticas e em possibilidades que voltem a legitimar as instituições.

O movimento ambientalista, Greta [Thunberg] na Suécia… Bem, não é só a Greta que está desapontada, mas grande parte dos seus seguidores está desapontada. Eles não consideram que a Europa esteja a encarar seriamente a crise climática, que é fundamental, é claro. Esse é o problema.

O problema não é tanto se eles são fontes de mudança. As fontes de mudança, no fim, necessitam de apoio ao nível das instituições políticas. E isso não está a acontecer. Portanto, eu ainda estou optimista porquê? Porque a história nunca acaba. E porque as lições de História nos mostram que mesmo quando não vemos o embrião de algo novo, quando não vemos os movimentos sociais ou tendências culturais diferentes, eles estão lá. Eles estão lá. E eles podem unir-se a dada altura e provocar um movimento social que vai desenvolver novas formas de democracia descentralizada. Penso que os sistemas dos países não mudam por escolha. Eles mudam por necessidade. Quando estamos à beira da catástrofe, aí existe alguma reacção. No meu livro Rupture, a conclusão é aquilo que eu prevejo, visto que não vejo forma de a democracia mudar nesses aspectos, a minha previsão é caos, é caos. Mas, acrescentei, o caos pode vir em diferentes formatos e a minha esperança é que seja um caos criativo, o que significa que, numa situação de caos, as coisas que aparentam ser impossíveis tornam-se possíveis. As pessoas encontram alguma abertura, alguma janela para o futuro e as coisas podem mudar nesse sentido.

A série de conversas ReImagine Talks é uma iniciativa do think tank Re-Imagine Europa, em colaboração com os jornais Der Standard, Il Sole 24 Ore, La Vanguardia, LeSoir, Rzeczpospolita e 

10.9.21

Artista Miguel Januário (±maismenos±) levou o mundo polarizado para a galeria Underdogs

in JN

O artista Miguel Januário (±maismenos±) inaugura hoje, na galeria Underdogs, em Lisboa, uma exposição em que o visitante é convidado a escolher um lado, acabando por fazer com que haja duas formas diferentes de ver a mostra.

"Yes or No Future" ("Sim ou Não há Futuro", tradução livre em português), que se insere no projeto ±maismenos±, que Miguel Januário desenvolve há vários anos e reflete sobre o modelo de organização política, social e económica que gere a vida nas sociedades atuais, tem duas leituras, ou três para quem quiser ficar confuso, e a escolha é feita logo à entrada.

"O título [da mostra] já traz em si um duplo significado, que é a ideia de um futuro binário, um futuro 'sim ou não', polarizado. Ou a ideia de dizer 'sim', com um sentido que é autoritário, que é 'sim, ou não há futuro'", explicou à agência Lusa, durante uma visita à exposição.

Quem entra na galeria é convidado a escolher entre os dois lados, que estão materializados em óculos, uns com lentes azuis e outros com lentes vermelhas, que permitirão que se faça leituras diferentes das mesmas obras.

Esta escolha faz com que haja "duas formas de ver a exposição". "Ou três, se não escolheres", disse, acrescentando que "quem está no meio das duas perspetivas fica confuso".

Segundo o artista, "quem escolher o sim acaba por ser mais submisso àquilo que é a realidade, ao sistema, a aceitar mais o sistema" e, "quem diz não, vê um pouco o lado de lá da realidade que é proposta hoje em dia, na sociedade".

Nos novos trabalhos que apresenta, o artista e designer gráfico toca "vários temas, do Mercado, da Comunicação, da Publicidade, da Economia e da Política".

"No fundo, isto acaba por ser uma crítica à sociedade polarizada que vivemos, a esta sociedade dos populismos, das divisões, que, do meu ponto de vista, se tem vindo a reforçar, desde o início deste século, até do final do século passado. Mais ou menos desde a queda do Muro de Berlim [em 1989] que isso se tem acentuado", referiu o artista.

Para Miguel Januário, "com a pandemia isso vai ser muito mais presente, muito mais visível".

Em "Yes or No Future", há vários tipo de peças, "com abordagens muito diferentes em termos de linguagens e de materiais", e na maioria estão frases e expressões sobrepostas que dão as tais leituras diferentes de uma mesma obra.

Há um conjunto de obras que refletem mais sobre Comunicação: "Sobre a forma como comunicamos, daí estarem com este aspeto de mupi de rua iluminado, e terem dois lados - um lado mais floreado da Publicidade e da Comunicação, em que todos podemos ser espetaculares se usarmos aquelas marcas; e outro da luta, da intervenção, do compromisso com a transformação social", descreveu.

Em cada uma das peças há "duas realidades que se sobrepõem: uma mais fantasiosa da beleza e da estética e outra mais de luta, de intervenção, também ela muitas vezes transformada em floreado".

Numa outra peça, em cimento, Miguel Januário escreveu a definição de "Entropia Social", que ficou por baixo de uma série de cartazes, que, tal como nas ruas, vão cobrindo muros com várias camadas de papel.

Nessas camadas, cortou as palavras Lei e Ordem, "os mecanismos que impedem a entropia social, através do uso da violência, do exército, das autoridades" e, para conseguir ler-se a definição daquela expressão, é necessário recorrer a um telemóvel.

Uma das paredes da galeria ficou parcialmente ocupada com uma série de palavras -- Liberdade, Esperança, Respeito, Justiça ou Tolerância -, através das quais é feita uma "alusão ao mercado de valores, mas dos valores humanos". "Tudo o que é valor humano transformou-se em valor económico", referiu o artista sobre a peça onde, atrás de cada palavra, estão números que vão mudando, subindo e descendo, tal como quadros nas bolsas de valores de Lisboa ou Nova Iorque.

A mostra inclui também, entre outras, uma peça de vídeo, onde dois vídeos são sobrepostos - um com imagens de publicidade, entretenimento, espetáculo, futebol, desporto e outro de guerra, manifestações, protestos - "com lógica, dando dois lados da realidade", que são distinguidos, mais uma vez, com recursos aos óculos escolhidos à entrada.

No meio da galeria foram colocadas duas peças que deverão fazer as delícias das crianças, um balancé e um pequeno carrossel, e que são "um resumo da exposição": "Os vermelhos e os azuis andam a girar, e enquanto um está em baixo o outro está em cima".

"Yes or No Future", de entrada livre, estará patente até 16 de outubro.

Em simultâneo, pode visitar-se, no espaço cápsula da galeria Underdogs, "Cazzo!", exposição do artista e designer italiano Fiumani, radicado há dez anos em Portugal.

Na Underdogs, Fiumani apresenta uma série de trabalhos novos, "entre eles bastante diferentes em termos de técnicas, mas com um fio condutor que é a temática".

O título da exposição é um palavrão, quando traduzido para português, mas é uma expressão que os italianos utilizam como os portugueses usam 'caraças', explicou o artista à Lusa.

A mostra surgiu numa fase "difícil da vida, tanto pessoal como do mundo". E, nesses tempos, Fiumani andou a perguntar-se "quando é a altura certa para dizer 'caraças, isto não pode andar mais para a frente assim'".

"Quando é que chega o ponto de dizer 'isto não dá mais'? A exposição tem um lado muito sentimental e social e os dois encontram-se nesta exclamação", disse.

Como é habitual no seu trabalho, as obras que Fiumani tem expostas na Underdogs foram criadas com recurso a desperdício.

"Tudo o que está aqui é desperdício: ferro, plástico, borrachas, madeira. Tudo menos os ecrãs", referiu, acrescentando que, nesta exposição, além do desperdício tentou juntar a tecnologia.

"E aqui levanta-se outra questão, que é muito fulcral nos tempos que vivemos: como é que a tecnologia está a transformar-nos enquanto humanos?", explicou.

Fiumani deixa uma reflexão, como está escrito numa das peças: Estará a tecnologia a transformar os humanos numa "cultura de clones robóticos", que "não conseguem passar um dia sem uma app aberta ou ir a lado nenhum sem recorrer ao google maps"?

11.3.20

A importância das novas teconologias na comunicação das ONG

in TSF

O Cidadãos Ativos desta semana alerta para a necessidade de as ONG começarem a usar a comunicação para chegar ao público-alvo.

s tecnologias imersivas e o storytelling podem ajudar as organizações a conseguirem mudanças sociais. Para que tal aconteça, a Fundação Fé e Cooperação (FEC) vai abrir um concurso para formar entidades que queiram influenciar políticas públicas.
Com a forma de comunicar com o público a mudar, Maria Marques, da FEC explica que "as ONG têm uma imensa dificuldade em acompanhar estas mudanças vertiginosas" e, por outro lado, está a assistir-se a uma "crescente digitalização" que pode ser utilizada de diversas formas.

"As ONG portuguesas ainda usam muito a questão da comunicação e reduzem a comunicação a uma questão de quase relações públicas, de identidade, de reputação e não utilizam as ferramentas de comunicação para mobilizar e influenciar os seus públicos para a transformação social, daí a importância de dominarem essas novas ferramentas e de conseguirem navegar neste ecossistema para conseguirem levar os seus públicos-alvo a se interessarem para o bem comum e o interesse público", explica a responsável.

Maria Marques refere ainda que é preciso que quem trabalha no setor das ONG tenha um olhar atento para as notícias falsas, frisando que "se queremos que os colaboradores estejam informados para conseguirem mobilizar os seus grupos-alvo para uma transformação pessoal, suportar propostas de alteração de políticas, têm de estar informados e identificar o que é verdadeiro e falso".

Assim, através de um laboratório de aprendizagem em comunicação, a FEC vai ajudar cerca de 20 organizações escolhidas através de concurso, que vai ser lançado no final de março, e onde se pretende que os formandos aprendam a comunicar, por exemplo, através de storytelling.

"Quando ouvimos uma história e nos conseguimos identificar e gerar ali alguma relação emocional, quando nos importamos conseguimos passar à ação e o storytelling tem esse potencial, não se trata apenas de uma narrativa, trata-se de utilizar técnicas específicas para conseguirmos transmitir uma mensagem de forma mais eficaz", justifica Maria Marques.

Neste sentido, a coordenadora do projeto explica que as tecnologias imersivas também fazem parte da formação: "Estamos a falar de questões como realidade virtual, vídeos de 360 graus, mixed reality, realidade aumentada."
Este projeto inclui também um bootcamp, uma viagem à Noruega para conhecer bons exemplos e noites 'pop up' de storytelling que vão juntar organizações, com humoristas e jornalistas.

17.11.17

Em dia mundial, UNESCO chama cidadãos a combater todas as formas de discriminação e ódio

in ONUBR

Em mensagem para o Dia Internacional para a Tolerância, lembrado nesta semana (16), a nova diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, alertou para a ascensão de políticas de exclusão que dividem sociedades e rejeitam a diversidade.

Dirigente fez um chamado para que a tolerância não seja praticada simplesmente como “a aceitação passiva do outro”. Ao contrário, ela deve se traduzir em uma oposição a “todas as formas de racismo, ódio e discriminação”, incluindo o antissemitismo.

Em mensagem para o Dia Internacional para a Tolerância, lembrado nesta semana (16), a nova diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, alertou para a ascensão de políticas de exclusão que dividem sociedades e rejeitam a diversidade. Dirigente fez um chamado para que a tolerância não seja praticada simplesmente como “a aceitação passiva do outro”. Ao contrário, ela deve se traduzir em uma oposição a “todas as formas de racismo, ódio e discriminação”, incluindo o antissemitismo.

“A discriminação contra um é a discriminação contra todos”, enfatizou a chefe do organismo das Nações Unidas. Audrey chamou atenção para os desafios trazidos pela globalização, que oferece oportunidades de diálogo e intercâmbio, mas também provocou novos problemas, agravados pela desigualdade e pela pobreza, pelos conflitos duradouros e pelos deslocamentos das populações.

“Nós vemos hoje a ascensão de políticas de exclusão e de discursos de divisão. Vemos a diversidade sendo rejeitada como uma fonte de fraqueza. Vemos mitos de culturas de sabedorias “puras” sendo glorificados, alimentados pela ignorância e às vezes pelo ódio. Vemos pessoas sendo reprimidas e transformadas em bodes expiatórios. Vemos ataques terroristas bárbaros planejados para enfraquecer o tecido da convivência pacífica.”
Existem 7 bilhões de formas de “ser humano”, mas nós estamos juntos como membros da mesma família, todos diferentes, mas igualmente buscando respeito aos direitos e à dignidade.

Nesse contexto, frisou a diretora da UNESCO, a tolerância não pode se resumir à “indiferença”. Antes, deve ser entendida como uma “luta pela paz”. “A tolerância deve ser vista como um ato de libertação, por meio do qual as diferenças dos outros são aceitas como se fossem nossas. Isso significa respeitar a grande diversidade da humanidade, com fundamento nos direitos humanos”, ressaltou Audrey.

A dirigente acrescentou que a riqueza de diferenças entre comunidades, culturas e indivíduos é “uma força para todas as sociedades, para a criatividade e a inovação”. “Existem 7 bilhões de formas de “ser humano”, mas nós estamos juntos como membros da mesma família, todos diferentes, mas igualmente buscando respeito aos direitos e à dignidade”, disse.

Audrey lembrou ainda o papel da UNESCO na comunidade internacional, que “consiste em aprofundar os vínculos de uma humanidade única, por meio da compreensão, do diálogo e do conhecimento”.

“É por isso que nós defendemos a diversidade cultural e o patrimônio da humanidade da pilhagem e de ataques. É por isso que procuramos prevenir o extremismo violento por meio da educação, da liberdade de expressão e da alfabetização midiática, para empoderar mulheres e homens jovens. É por isso que trabalhamos para fortalecer o diálogo entre culturas e religiões, liderando a Década Internacional de Aproximação das Culturas.”

Entre as inciativas da agência da ONU para promover a tolerância, estão o Prêmio UNESCO-Madanjeet Singh de Promoção da Tolerância e da Não Violência e a Coalizão Internacional de Cidades Inclusivas e Sustentáveis da UNESCO, que trabalha para combater o preconceito, a xenofobia e a exclusão.

“A tolerância é um ato de humanidade, que cada um de nós deve alimentar e realizar todos os dias em nossas próprias vidas, para nos alegrarmos com a diversidade que nos torna fortes e com os valores que nos unem”, concluiu a diretora-geral.