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28.1.22

Mais de um terço dos jovens portugueses com 13 anos já bebeu bebidas alcoólicas

Daniela Carmo, in Público on-line

Subdirector-geral do SICAD considera que todos os consumos entre os mais jovens são sempre “extremamente altos”. Apesar de descida geral dos consumos nas outras faixas etárias, os grupos mais vulneráveis e problemáticos aumentaram a prevalência.

O consumo de bebidas alcoólicas pelos jovens com mais de 13 anos de idade estabilizou nos últimos anos, mas a evolução ainda é “menos positiva do que as médias europeias”. Os dados constam do “Relatório anual 2020 - A Situação do País em Matéria de Álcool”, que dá conta de um aumento da prevalência no consumo pelas raparigas. Para o subdirector geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências (SICAD), Manuel Cardoso, os consumos nestas faixas etárias “são sempre extremamente altos”.

Manuel Cardoso recorda, em declarações ao PÚBLICO, que a legislação só permite vender álcool a maiores de 18 anos e que, apesar disso, “aquilo que se verificou foi que aos 13 anos 35% dos jovens já tinham bebido qualquer bebida alcoólica”.

O Relatório Anual 2020 foi publicado esta quarta-feira no site do SICAD e compila a informação de vários estudos nacionais, tendo como referencial o Plano Nacional para a Redução dos Comportamentos Adictivos e das Dependências 2013-2020. “Apesar da estabilidade das prevalências de consumo face a 2018, é de assinalar a tendência de aumento gradual e contínuo entre 2015 e 2018 do consumo recente e actual, e do consumo binge e da embriaguez”, assinala o inquérito anual Comportamentos Adictivos aos 18 anos, relativo a 2019.

De acordo com o relatório anual de 2020, “as diferenças entre os sexos tendem a esbater-se tanto no consumo recente, como na embriaguez e binge, sendo de notar em 2019, já a superioridade da embriaguez nas raparigas”. Entende-se por binge o consumo de cinco ou mais bebidas alcoólicas (se for do sexo feminino) ou seis ou mais bebidas alcoólicas (se for do sexo masculino) na mesma ocasião e por embriaguez “ficar a cambalear ou ter dificuldade em falar e/ou não recordar o que aconteceu depois”.

Ainda de acordo com dados relativos a 2019, a prevalência de consumo ao longo da vida de qualquer bebida alcoólica nos alunos dos 13 anos aos 18 anos (o inquérito foi feito na comunidade escolar) foi de 68%. Quanto ao consumo recente e actual, essa percentagem desce para os 59% e 38%, respectivamente. Importa notar que o consumo de bebidas com álcool aumenta com a idade, atingindo mesmo os 90% nos alunos com 18 anos no caso da experimentação.

Mudança cultural: antes as “raparigas bebiam menos"

Manuel Cardoso aponta a mudança de paradigma cultural em Portugal como uma das razões que justifica o consumo crescente de bebidas alcoólicas entre as mais jovens (a prevalência de consumo nas raparigas passou de 66% em 2015 para 69% em 2019, igualando assim a prevalência entre os rapazes). “Quando especificamos um pouco mais, verificamos que o consumo não aumentou tanto (ou diminuiu mesmo) entre os rapazes e aumentou nas raparigas. Há uma aproximação muito grande que não acontecia antes e que era uma questão também cultural porque as raparigas bebiam menos”, diz.

A permissividade por parte dos pais também contribui para este aumento, ou estabilização em termos gerais, defende Manuel Cardoso. “As mães têm uma postura de maior assertividade, são mais exigentes. Mas nota-se uma tolerância enorme da família com estes comportamentos”, sustenta.
231 sinalizações da CPCJ por consumo

A exposição dos mais novos ao consumo resulta em situações de risco entre os mais jovens. O relatório dá conta de que no que respeita às sinalizações de perigo comunicadas às Comissões de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), em 2020, 231 (o que perfaz 4% do total de 5517 sinalizações de crianças e jovens) estão relacionadas com o consumo de bebidas alcoólicas.

“Por outro lado, das 4450 sinalizações de exposição a comportamentos que possam comprometer o bem-estar e desenvolvimento da criança/ jovem, 765 (17%) tinham relação com o consumo de álcool”, lê-se ainda no documento. “Apesar dos decréscimos destas sinalizações e diagnósticos em 2020, é de notar que os valores de 2018 e 2019 foram os mais elevados dos últimos sete anos”, refere o relatório.

"Com a manutenção desta situação de confinamento verificámos que começou a haver alguns consumos mais frequentes em casa" Manuel Cardoso, subdirector-geral do SICAD

Para Manuel Cardoso, que olha para os dados da evolução do consumo de álcool em Portugal na óptica da saúde, “quase todos os indicadores deste relatório são negativos”. “Portugal está a ter uma tendência contrária a todos os outros países da União Europeia, aumentando o consumo per capita.”

O último ano em análise coincide com o início da pandemia de covid-19 em Portugal, durante o qual se verificou um confinamento geral (entre Março e Maio de 2020) e se verificou uma alteração dos hábitos de consumo, com 21% dos portugueses a declarar que beberam mais álcool.

De acordo com o responsável, o stress pandémico evidenciou as diferenças entre quem já tinha por hábito consumir bebidas alcoólicas e quem consumia esporadicamente ou socialmente, uma vez que 42% dos portugueses declarou ter reduzido o consumo. “Uma encruzilhada": é assim que o subdirector-geral do SICAD define os resultados nos hábitos de consumo durante a pandemia uma vez para quem já tinha um padrão problemático com o álcool, as populações mais vulneráveis, ficou menos protegido e passou a beber mais vezes ou em maior quantidade.

“Ficámos todos muito mais contidos, muito mais isolados e, portanto, quem só bebia quando ia ao bar ou só mesmo quando estava com amigos provavelmente consumiu menos ou deixou de consumir. Ainda assim com a manutenção desta situação de confinamento verificámos que começou a haver alguns consumos mais frequentes em casa”, reflecte também.

O alerta quanto ao consumo problemático é deixado no relatório: “a realidade é que no final de 2021 persiste a pandemia global” que terá “potenciais impactos a médio e longo prazo ainda desconhecidos, sendo certo que a actual recessão global se irá reflectir nos consumos e mercados de bebidas alcoólicas, embora ainda não saibamos como e quais as implicações para a saúde pública”.


20.9.17

Mulheres estão a consumir mais álcool, tabaco e cannabis

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Dados do Inquérito Nacional à População Geral apresentado terça-feira ainda são preliminares mas vão obrigar a afinar estratégia nacional. "Há que encontrar formas mais eficazes de fazer prevenção junto das mulheres”.

O comportamento das mulheres está a alterar-se. Respondem em boa parte, por vezes ainda mais do que os homens, pelo aumento do consumo de bebidas alcoólicas, tabaco e cannabis que se verificou nos últimos cinco anos em Portugal. É o que consta no Inquérito Nacional à População Geral apresentado nesta terça-feira em Lisboa, que vai obrigar o Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) a repensar estratégias.
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“Há que encontrar formas mais eficazes de fazer prevenção junto das mulheres”, admite João Goulão, director nacional do SICAD. A intervenção está muito limitada às grávidas e visa, sobretudo, prevenir o síndrome fetal alcoólico. “Há que alertar para outras consequências, como o cancro da mama.” Há estudos epistemológicos que confirmam que o álcool causa cancro da faringe, laringe, esófago, fígado, cólon, recto e mama.
Continua a subir consumo de bebidas alcoólicas e de cannabis
Continua a subir consumo de bebidas alcoólicas e de cannabis

Já lá vão 16 anos desde o primeiro inquérito que permite perceber o consumo de substâncias lícitas (álcool, tabaco, medicamentos, isto é, sedativos, tranquilizantes e/ou hipnóticos, e esteróides anabolizantes) e ilícitas (cannabis, ecstasy, anfetaminas, cocaína, heroína, LSD, cogumelos mágicos e novas substâncias psicoactivas). Fez-se em 2001 e repetiu-se em 2007, 2012 e 2016/17.

Esta terça-feira de manhã foi apresentado um resumo com os dados preliminares das respostas recolhidas entre Dezembro de 2016 e Julho de 2017, através de inquéritos aplicados a 12 mil pessoas entre os 15 e os 74 anos. Os investigadores estão ainda “a validar a consistência de alguns pontos de amostragem cujos efeitos poderão permitir ajustar alguns resultados”. Porém, o resumo deste relatório fornecido pelo SICAD não menciona números comparativos.
Subida nos últimos cinco anos

O estudo – coordenado pelo sociólogo Casimiro Marques Balsa, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Lisboa – mostra que houve um aumento de consumos entre 2001 e 2007 e uma estabilização ou até uma ligeira redução entre 2007 e 2012, embora com subidas nalguns indicadores, e que nos últimos cinco anos houve uma subida dos consumos de álcool, tabaco e cannabis.
Quase metade dos jovens nos centros educativos cometeu crimes por diversão
Quase metade dos jovens nos centros educativos cometeu crimes por diversão

Se olharmos para a prevalência ao longo da vida, o consumo de bebidas alcoólicas apresenta uma tendência de subida quer entre homens, quer entre mulheres. Os valores acima da média foram encontrados entre os consumidores mais velhos (35 e os 64 anos). No consumo de tabaco a subida é ligeira e deve-se, sobretudo, às mulheres. Nos medicamentos há uma descida, sem diferença de género.

Na cannabis, nota-se uma subida nos dois géneros atendendo à população total, uma descida entre os homens e uma subida entre as mulheres atendendo à população jovem, isto é, entre os 15 e os 34 anos. Na cocaína a tendência é de ligeira subida na população total e de descida entre jovens. Já no que diz respeito à heroína, a prevalência encontrada é igual à verificada em 2012, quer entre a população total, quer entre a população jovem. O estudo detecta um recuo entre os homens e uma subida entre as mulheres. Em todas as outras substâncias ilícitas há uma descida das prevalências de consumo ao longo da vida.
Aumentos de consumo sem explicação

João Goulão não encontra nos dados agora revelados quaisquer explicações para os aumentos nos consumos. “Temos de cruzar variáveis para obter mais informação e orientar a nossa acção”, comenta, numa conversa telefónica. Lança, ainda assim, algumas hipóteses para cima da mesa.
No Alentejo bebe-se e fuma-se mais, no Algarve os jovens preferem a cannabis
No Alentejo bebe-se e fuma-se mais, no Algarve os jovens preferem a cannabis

O aumento do consumo de cannabis, de que já tinha conhecimento por outras vias, não lhe parece alheio aos movimentos pró-legalização. “A regulamentação do uso terapêutico, que já existe em alguns Estados, é usado como cavalo de Tróia por quem defende a legalização do uso recreativo”, diz. “Passa-se a ideia de que é tão bom que até é usado no tratamento de doenças. E essa discussão vai fazendo um caminho que é difícil de desmentir”, apesar de a cannabis herbácea que se produz a nível doméstico, na Europa, nunca ter tido tanto teor de THC. E de não serem suaves os canabinóides sintéticos detectados pelo sistema de alerta rápido da União Europeia.

O aumento do consumo de bebidas alcoólicas afigurar-se-lhe mais difícil de interpretar. Julga que diversos factores podem concorrer para esse fim. Importa, por exemplo, perceber os efeitos da crise financeira, económica e social. Será evidente que a vida nocturna é hoje mais vibrante em muitas cidades portuguesas. “A retoma económica, que já se vai sentido de algum modo, reflecte-se no consumo recreativo?”, questiona. “As pessoas têm mais dinheiro no bolso para gastar nisso?”

Não lhe parece adequado usar estes dados para questionar a eficácia das campanhas que foram sendo feitas nos últimos anos. “O que teria acontecido se não tivéssemos feito campanhas?”, pergunta. “Se olharmos para outros países europeus vimos consumos muito superiores.”

A esmagadora maioria da população nunca experimentou substâncias psicoactivas ilícitas (90%). Quase toda a gente se absteve de consumir cogumelos alucinogénios e novas substâncias psicoactivas (99,8%). O mesmo não se poderá dizer das substâncias lícitas. Só metade da população se abstém de fumar cigarros. E só 13% dizem o mesmo sobre bebidas alcoólicas.
Bebidas alcoólicas são a droga de eleição

As bebidas alcoólicas são a droga de eleição de quase metade dos consumidores recorrentes de algum tipo de substância (48%). No caso especifico das drogas ilícitas, a cannabis é a que apresenta maior número de declarações que assumem um consumo com frequência mais regular.

De acordo com o resumo do estudo, “4,9% da população apresenta um consumo de bebidas alcoólicas sem risco, 37,1% um consumo de baixo risco e 12,6% um consumo de risco médio”. É de 3,6 “a percentagem de consumidores de risco elevado/dependentes alcoólicos”. E “é de 1% a prevalência da população residente em Portugal consumidora abusiva ou dependente de bebidas alcoólicas”. O valor é mais elevado entre os homens (1,7%) do que entre mulheres (0,4%).

No caso do consumo de cannabis, “0,6% da população apresenta um risco moderado ou elevado”. Há ainda 0,8% que apresenta um risco baixo e 3% que não apresenta quaisquer riscos associados ao consumo desta droga. Estes consumos de risco moderado e elevado são mais significativos entre homens.

A idade média do início dos consumos varia de acordo com a substância. O primeiro cigarro fuma-se, em média, aos 17 anos. A primeira bebida alcoólica também é ingerida, por norma, nessa idade. O consumo regular de tabaco e de cannabis, esse, tende a acontecer por volta dos 18 anos.

Quando se procura analisar a duração dos consumos, nenhuma substância bate o álcool. A duração média é de 25 a 26 anos. Segue-se o tabaco, acima dos 20 anos. Entre as substâncias ilícitas, a cannabis e na cocaína são as drogas associadas aos consumos mais longos (em torno dos 15 anos).

“Para já, este estudo levanta mais inquietações do que respostas”, conclui. Mesmo assim, irá usá-lo para “afinar a estratégia 2013-2020”. Chega a tempo do Plano de Acção para a Redução dos Comportamentos Aditivos e das Dependências 2017-2020, que deverá ser lançado até ao final do ano.

4.9.17

Álcool em excesso altera atividade cerebral a longo prazo

Nuno Alegria, in Diário de Notícias

As mudanças no funcionamento do cérebro são diferentes nos homens e nas mulheres
O consumo alcoólico excessivo e prolongado durante a adolescência e juventude não só afeta o desenvolvimento cerebral, causando alterações visíveis no EEG (eletroencefalograma), como se traduz de forma diferente nos cérebros de homens e mulheres, causando mais alterações funcionais nos primeiros.

Estas são duas conclusões centrais de um estudo realizado por cientistas finlandeses que serão apresentadas hoje no congresso anual do Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia, que está a decorrer até amanhã em Paris.

"Descobrimos que há mais alterações na atividade elétrica do cérebro nos homens do que nas mulheres, [devido ao consumo excessivo continuado de bebidas alcoólicas]", explica a investigadora Outi Kaarre, do Hospital da Universidade de Kuopio, que é uma das autoras do estudo.

Na prática, os resultados mostram que existem alterações elétricas e químicas no cérebro, nomeadamente em relação a um neurotransmissor chamado GABA e aos seus recetores neuronais, dos quais existem dois tipos diferentes: o A, e o B. Segundo os novos dados, o consumo excessivo e continuado de bebidas alcoólicas afeta os dois tipos de recetores nos homens, enquanto nas mulheres só os recetores de tipo A do neurotransmissor sofrem alterações. No entanto, o que isto significa e como pode ser interpretado do ponto de vista do funcionamento cerebral de homens e mulheres não é claro.

"O GABA", nota Outi Kaarre, "é um neurotransmissor fundamental, que está envolvido na inibição de muitos dos sistemas e funções cerebrais e que tem um papel importante, por exemplo, nas perturbações de ansiedade e de depressão". Em geral, sublinha a investigadora, "este neurotransmissor tem um efeito de diminuir, ou de acalmar, a atividade cerebral".

Estudos feitos em animais mostraram entretanto que o recetor GABA-A está associado a padrões de menor consumo de álcool, enquanto o GABA-B está mais presente no processo cerebral ligado ao desejo de beber. Por isso, a equipa finlandesa acredita os seus resultados "podem ser a porta para um possível mecanismo que explique as diferenças entre homens e mulheres" em relação ao consumo de álcool.

No estudo foram envolvidos 11 homens e 16 mulheres, com idades compreendidas entre os 23 e os 28 anos e com um historial de 10 anos ou mais de consumo excessivo de álcool. Todos tinham alterações nos EEG, depois de aplicada estimulação magnética transcaniana, que estimula a atividade neuronal, Sujeitos da mesma idade e sem esse historial não apresentaram essas alterações.

5.4.13

Bebedeiras dos jovens caem para metade em cinco anos

Dina Margato, in Jornal de Notícias

A queda significativa dos casos de embriaguez entre os jovens surpreendeu investigadores e João Goulão, o presidente do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências.

Jovens bebem menos

De tal forma que os resultados preliminares do estudo realizado em 2012, a partir de 6000 inquéritos, foram repetidos. É que em 2007, últimos dados, a prevalência de bebedeiras junto dos jovens, 15/19 anos, era de 34,6%. Em 2012 desceu para 17,9%.

4.4.13

Bebedeiras entre os jovens diminuem em Portugal

por Lusa, texto publicado por Sofia Fonseca, in Diário de Notícias

O número de bebedeiras diminuiu em Portugal entre os jovens e também entre a população geral, segundo dados preliminares hoje divulgados de um inquérito realizado em 2012 a mais de 6.000 pessoas.

Estes dados provisórios apontam para uma taxa de prevalência de embriaguez nos jovens entre os 15 e os 19 anos de 17,9%, quando em 2007, último ano em que se realizou o mesmo estudo, era de 34,6%.
Isto significa que menos de dois em cada 10 dos jovens entre os 15 e os 19 anos apanharam pelo menos uma bebedeira no último ano, apontando o estudo para uma redução de 16 pontos percentuais na taxa de embriaguez entre 2007 e 2012.
Também na população geral se verificou uma redução da prevalência da embriaguez, passando de uma taxa de 20,7% para 14,6%.
Estes números, que ainda são provisórios e precisam de algumas correções em função de novos dados estatísticos, ficam bastante abaixo das próprias metas traçadas no Plano Nacional dos Problemas Ligados ao Álcool.
Os objetivos do Plano era descer a taxa de prevalência de embriaguez para 18% na população geral e para 30% nos jovens entre os 15 e os 19 anos, segundo recordou Fátima Trigueiros, do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e Dependências (SICAD) numa sessão hoje realizada em Loures pelo Fórum Nacional Álcool e Saúde.
Apesar de ressalvar que os números são ainda "muito preliminares", o presidente do SICAD (ex-Instituto da Droga e Toxicodependência), João Goulão, confessou-se surpreendido com a redução da prevalência de bebedeiras demonstrada por estes dados.
"Eu confesso que estou surpreendido. Há uma estabilização ou diminuição seguramente. Não há, como parece voz pública, um disparo do consumo de álcool. Os números agora disponíveis são espetacularmente mais baixos do que os anteriores", afirmou João Goulão aos jornalistas à margem do encontro.
O presidente do SICAD acredita que esta redução está relacionada com as várias iniciativas de educação para a saúde e de redução de consumos desenvolvidas entre os jovens, mas reconhece que a crise pode também contribuir para isso, tendo em conta a diminuição do poder de compra.
Os dados provisórios deste inquérito nacional, que serão divulgados em detalhe no dia 19 de abril, apontam ainda para uma redução do número de vítimas mortais de acidentes de viação com taxa de alcoolemia igual ou superior a 0,5 gramas.
No ano passado registaram-se 193 vítimas mortais, quando em 2007 tinham sido contabilizadas 305.

31.1.13

DGS quer restrições à venda de álcool para ajudar a prevenir suicídios

Natália Faria, in Público on-line

Depois de sucessivos atrasos, o plano de prevenção do suicídio deverá ser apresentado em Março e, além do aumento dos preços do álcool, recomenda o reforço da protecção social aos desempregados.

Certificação electrónica de óbitos

Diagnosticado o problema da subnotificação dos suicídios em Portugal, todos concordaram que a implementação do sistema de informação dos certificados de óbito (Sico) permitiria perceber, finalmente, quantas pessoas se matam afinal em Portugal em cada ano. Porém, o projecto que deveria ter entrado em funcionamento em todo o país no início deste mês ainda não saiu da fase experimental. "A questão da compatibilização dos sistemas informáticos com as conservatórias atrasou um bocadinho a situação", explica Álvaro Carvalho, da DGS.

O director-geral da Saúde, Francisco George, recusa falar em atrasos. "O sistema vai entrar em funcionamento a nível nacional quando acabar o período experimental. Em Coimbra, está a funcionar com grande normalidade", afiançou George. A experimentação do sistema que visa a certificação electrónica de todos os óbitos ocorridos em território nacional arrancou nos Hospitais da Universidade de Coimbra, a 15 de Novembro. Um mês depois foi alargada ao Agrupamento dos Centros de Saúde do Baixo Mondego.

Ao permitir a desmaterialização dos certificados de óbito, o sistema ajudará a eliminar o estigma que leva a que muitos suicídios não sejam registados como tal, alegadamente por pressão das próprias famílias. Por essa razão, é expectável que as estatísticas resultantes da implementação do novo sistema apontem para um aumento significativo dos casos.


O aumento generalizado do preço das bebidas alcoólicas e a definição de preços mínimos, nomeadamente para evitar as "borlas" nos espaços de animação nocturna, são duas das recomendações contidas no plano de prevenção do suicídio, que está na fase final de redacção. "O álcool desencadeia uma forma de depressão e esta, como se sabe, aumenta a propensão para a intenção suicida. E está demonstrado que o aumento do preço do álcool é dissuasor do seu consumo", justifica o psiquiatra Álvaro Carvalho, director do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde (DGS).

Depois de vários atrasos, o plano de prevenção do suicídio deverá avançar em Março. Nele, os especialistas recomendam ainda o reforço dos programas de emprego e a atribuição pela Segurança Social de subsídios às famílias mais atingidas pelo desemprego, porque, como salienta ainda Álvaro Carvalho, "há uma correlação directa entre o aumento do desemprego e o suicídio".

Ultrapassados alguns reveses - nomeadamente a recomposição da equipa responsável pela redacção do plano, por força da saída em Outubro do psiquiatra Ricardo Gusmão em desacordo com a metodologia adoptada -, o plano assumiu finalmente um carácter urgente. "Portugal está a assistir a um aumento do número de desempregados - próximo de um milhão - e, ao mesmo tempo, a reduzir os apoios no campo da protecção social. É uma conjugação de factores que cria as condições para que haja um aumento do suicídio", diagnostica José Carlos Santos, da Sociedade Portuguesa de Suicidologia.

Este responsável alude a um estudo publicado em 2011, segundo o qual a cada aumento de 1% na taxa de desemprego nos países da União Europeia correspondeu uma subida de 0,8% na taxa de suicídio, entre 2007 e 2009. O mesmo estudo, da autoria do investigador David Stuckler, aponta a Suécia como o único país em que não houve uma relação directa entre o desemprego e o suicídio, "exactamente porque este país reforçou os apoios no campo da protecção social", segundo José Carlos Santos.

Alcandorado nestas "evidências científicas", Álvaro Carvalho mostra-se confiante na receptividade do Governo às recomendações, apesar de reconhecer que a proposta de reforço da protecção social contrasta com a orientação política assumida. "A importância disto mede-se no próprio programa global de saúde mental que a Organização Mundial de Saúde está a preparar para 2013-2020 e que já aponta para um aumento generalizado do suicídio em pessoas na idade activa", enfatiza o psiquiatra, segundo o qual os secretários de Estado da Saúde e do Emprego foram já inteirados destas propostas. "A atitude, nomeadamente na questão do álcool, tem sido de muita receptividade. Hoje é consensual que a permissão de venda a partir dos 16 anos colide com toda a evidência científica que mostra que a capacidade de metabolização do álcool é deficitária até à idade adulta. Por outro lado, sendo o álcool uma substância psicotrópica fácil, barata e legal, é fácil de perceber o quanto potencia o descontrolo mental das pessoas e facilita as respostas impulsivas, sobretudo em períodos de crise social e económica".

Porque "em 60% dos suicídios as pessoas consultaram o médico no mês anterior", o plano de prevenção do suicídio recomenda acções de sensibilização dos profissionais dos cuidados de saúde primários, nomeadamente dos médicos de família "para aumentar a capacidade de diagnóstico e de terapêutica". Álvaro de Carvalho sublinha a propósito que "Portugal é dos países da UE em que as pessoas em situação de sofrimento emocional mais frequentemente procuram os cuidados de saúde primários: 18% para uma média europeia de 11%".

A reorientação das atenções para o suicídio ocorre numa altura em que Portugal continua sem estatísticas fiáveis sobre o problema. O sistema de informação dos certificados de óbito deveria ter arrancado no início de Janeiro, mas continua atrasado (ver caixa). Enquanto isso, e contrariando a convicção generalizada de que os suicídios estão a aumentar em Portugal, o Instituto Nacional de Estatística apontou para uma diminuição do número de casos em 2011: 1012, contra os 1098 de 2010. O Instituto de Medicina Legal apresenta um número superior para 2011: 1208 casos. "É mais correcto dizer que ocorrem cerca de duas mil mortes por suicídio por ano em Portugal do que acreditar nestes números", contrapõe Ricardo Gusmão, para quem a subnotificação dos suicídios se deve mais à impreparação dos médicos no preenchimento dos certificados de óbito do que a qualquer pressão das famílias no sentido de ocultar o ocorrido. "Os médicos deviam receber formação nesta matéria", preconiza este professor na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa.

Em dissonância com os ex-parceiros do plano de prevenção do suicídio, Gusmão sustenta que "não há nenhum elemento que permita afirmar que o desemprego está a fazer aumentar o suicídio consumado". "Se assim fosse", diz, numa alusão às conclusões de Stuckler, "por cada 55 mil desempregados em Portugal morreriam mais 80 homens e mulheres em idade activa. Ora, isso não se verificou". Mais do que o desemprego ou o álcool ("a taxa de suicídio em Portugal está a crescer desde muito antes da crise"), Gusmão considera que os divórcios e a toma de antidepressivos "são os factores que melhor explicam a variação da taxa de suicídios, em Portugal e na Europa".