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6.2.23

Famílias gastam poupanças para aguentar crise neste e no próximo ano

Luís Reis Ribeiro, in DN

Poupança esvai-se até mínimos em 2023, o valor mais baixo desde que Portugal aderiu à zona euro. Para muitos, só assim dá para responder, e mal, ao aumento da inflação, dos juros, do custo de vida.

A maioria das famílias portuguesas só vai conseguir resistir à grave crise inflacionista e energética e ter dinheiro para fazer compras, boa parte delas de bens essenciais, porque irá recorrer como nunca às poupanças, diz o Banco de Portugal, no novo boletim económico.

Depois de ter atingiu um máximo histórico superior a 19% do rendimento disponível no início da pandemia, as famílias já estão a esvaziar o dinheiro que amealharam nesses tempos de maior clausura.

E vão continuar a rapar o fundo do cofre. Em 2023, esse rácio de aforro dos particulares colapsa para apenas 3,9%, diz o banco central governado por Mário Centeno.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) define como taxa de poupança famílias "a parte do rendimento disponível que não é utilizado em consumo final, sendo calculada através do rácio entre a poupança bruta e o rendimento disponível (incluindo um ajustamento pela variação da participação líquida das famílias nos fundos de pensões)".

Confinamentos ajudaram a poupar

Durante a pandemia, as famílias, principalmente as que conseguiram manter o emprego e o salário conseguiram reforçar os níveis de poupança de forma significativa num quadro de confinamento e de fortes limitações ao consumo (viagens, turismo, idas a restaurantes, a eventos culturais, etc.) o que, naturalmente, permitiu reduzir a fundo a despesa em consumo.

Como referido, foi nessa altura, em plena pandemia, que a taxa de poupança dos portugueses atingiu o valor mais alto da História recente no segundo trimestre de 2020, 19,3% do rendimento disponível real (já descontando o efeito da inflação), o correspondente a 6,6 mil milhões de euros no pé-de-meia dos lares nacionais.

O valor apurado diz respeito apenas à parte da poupança financeira, como depósitos e títulos de aforro, registada nesse trimestre, diz o BdP. Outras formas de reserva, como investimento em imobiliário, não são consideradas.

No confinamento do início de 2021, o segundo mais austero da pandemia, estava o país a enfrentar uma vaga enorme de internamentos e de mortes por covid, a taxa de poupança atingiria o segundo valor mais alto das séries oficiais que remontam a 1999, quando Portugal aderiu à zona euro.

Nesse primeiro trimestre do ano passado, o peso da poupança no rendimento disponível real fixou-se nuns impressionantes 14%, quase cinco mil milhões de euros nesses trees meses..

Findos esses tempos totalmente atípicos, os confinamentos acabaram e as pessoas retomaram muitos dos hábitos de consumo e mobilidade, o que contribuiu para a normalização do rácio.

Problema: no final de 2021, começou-se a desenhar no horizonte uma nova e grave crise. Foi o regresso da inflação que, poucos meses depois, com o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, se transformou numa violenta crise inflacionista, energética, afetando seriamente áreas vitais da economia, como a alimentação, cujo custo disparou, colocando muitas famílias, sobretudo as mais pobres, no fio da navalha (como escreveu o Dinheiro Vivo, este último sábado).


Os números oficiais do INE dizem que o peso da poupança familiar já está nos 3,9% (segundo trimestre de 2023) e pelas contas do Banco de Portugal deverá cair ainda mais no terceiro e no último trimestre deste ano. Em 2023, a média anual do rácio de poupança deverá ficar colada a esse mínimo de 3,9%.

Recorde-se que em cima da inflação, os portugueses já estão a enfrentar o embate violento da subida das taxas de juro, sobretudo os mais endividados.

No novo estudo, o BdP explica o consumo das famílias já está a corroer as poupanças e que esse efeito vai causar impacto algures em 2023, quando muitos lares se depararem com o mealheiro quase vazio. Isso empurrará a economia portuguesa, altamente dependente do consumo interno, para um crescimento novamente frágil.

Diz que "em 2023, o aumento muito reduzido do consumo privado está associado à menor almofada financeira das famílias, ao aumento do serviço da dívida [juros] e à baixa confiança dos consumidores".

Ainda assim, Centeno espera que os portugueses ainda possam recorrer ao que resta no fundo do cofre: "a redução adicional da taxa de poupança contribui para conter a desaceleração do consumo privado" no ano que vem.

O BdP refere que "o rendimento disponível nominal desacelera em 2023 - refletindo a estabilização do emprego e o desaparecimento das medidas temporárias de apoio, a par do aumento do serviço da dívida - e o seu poder de compra volta a estagnar dada a inflação ainda elevada".

E que "o impacto do aumento das taxas de juro e da inflação sobre a situação financeira das famílias deverá ser mais marcado para os agregados endividados de menor rendimento", acrescenta.

No que se refere aos juros, Mário Centeno disse na conferência de imprensa de apresentação do boletim económico que os portugueses vão ter de pagar bem aos bancos a subida fortíssima das taxas de juro do crédito, que poderão fazer com que muitas prestações bancárias mensais aumentem várias centenas de euros nos próximos meses.

Já os juros a receber dos depósitos vão continuar baixos e vagarosos nas subidas, alertou o governador.


"Em 2023, os efeitos do aumento das taxas de juro sobre o serviço da dívida são maiores, refletindo as subidas observadas ao longo de 2022 e esperadas em 2023, mas a subida das taxas dos depósitos é muito inferior à dos empréstimos, pelo que o seu impacto nos juros recebidos é modesto e inferior, em média, ao do serviço de dívida em todos os quintis de rendimento das famílias", constatou.

luis.ribeiro@dinheirovivo.pt

2.11.22

A poupança no presente e no futuro das gerações


Nelson Machado, opinião, Expresso

Os portugueses e os seus hábitos de poupança, ou a falta deles, geram alguma preocupação, principalmente, em tempos de incerteza económica. Com uma população tendencialmente mais idosa e jovens menos preocupados com o seu futuro, é hora de investir tempo precioso na preparação do que será a nossa vida daqui para a frente. A promoção de uma economia de longevidade, ao mesmo tempo que se aposta numa maior literacia financeira dos nossos jovens, são caminhos essenciais para cultivar uma sociedade portuguesa mais poupada

O tempo é o melhor ativo de que dispomos quando falamos em poupar. No entanto, sabemos que este não é um hábito dos portugueses. Poupar revela-se difícil em tempos de crise e incerteza económica, com o preço de tudo a subir, dos combustíveis às rendas, dos produtos alimentares às mensalidades dos empréstimos bancários. E os baixos salários não ajudam.

Todavia, como podem os mais velhos e os mais novos criar mecanismos de poupança nos dias de hoje? Os tempos não estão de feição.

A par da conjuntura, que limita os níveis de poupança e a capacidade de poupar das famílias portuguesas, os mais jovens debatem-se com uma crónica iliteracia financeira, que os inibe e não os incita a preparar o seu futuro. Os mais velhos, com esperança de vida cada vez maior, debatem-se com rendimentos cada vez mais limitados pelo crescente aumento do custo de vida.

Neste contexto, à urgência da poupança imediata adicionaria, ainda, duas outras necessidades de curto prazo: a aposta numa Economia de Longevidade e o investimento em Literacia Financeira.

Para o Forum Económico Mundial, a Economia de Longevidade é o maior mercado do século XXI. Este conceito nasce da nova realidade demográfica, caracterizada pelo envelhecimento da população, e visa responder aos novos desafios de desenvolvimento social e económico das sociedades modernas.

A Economia de Longevidade assenta na soma de toda a atividade económica promovida e gerada pelas necessidades das pessoas com 60 ou mais anos, incluindo produtos e serviços adquiridos diretamente por este segmento.

O tempo é o melhor ativo de que dispomos quando falamos em poupar. No entanto, sabemos que este não é um hábito dos portugueses. Poupar revela-se difícil em tempos de crise e incerteza económica, com o preço de tudo a subir, dos combustíveis às rendas, dos produtos alimentares às mensalidades dos empréstimos bancários. E os baixos salários não ajudam.

Todavia, como podem os mais velhos e os mais novos criar mecanismos de poupança nos dias de hoje? Os tempos não estão de feição.

A par da conjuntura, que limita os níveis de poupança e a capacidade de poupar das famílias portuguesas, os mais jovens debatem-se com uma crónica iliteracia financeira, que os inibe e não os incita a preparar o seu futuro. Os mais velhos, com esperança de vida cada vez maior, debatem-se com rendimentos cada vez mais limitados pelo crescente aumento do custo de vida.

Neste contexto, à urgência da poupança imediata adicionaria, ainda, duas outras necessidades de curto prazo: a aposta numa Economia de Longevidade e o investimento em Literacia Financeira.

Para o Forum Económico Mundial, a Economia de Longevidade é o maior mercado do século XXI. Este conceito nasce da nova realidade demográfica, caracterizada pelo envelhecimento da população, e visa responder aos novos desafios de desenvolvimento social e económico das sociedades modernas.

A Economia de Longevidade assenta na soma de toda a atividade económica promovida e gerada pelas necessidades das pessoas com 60 ou mais anos, incluindo produtos e serviços adquiridos diretamente por este segmento.

Face ao contexto de envelhecimento populacional, todos os setores económicos devem repensar, não somente a sua atuação, mas também a sua oferta. O setor segurador deve ser capaz desta reflexão estratégica, e de adaptar-se ao presente.

Devemos ter em consideração as especificidades deste grupo etário, nomeadamente, potenciais limitações físicas e psicológicas que decorrem, naturalmente, desta fase da vida. Encarar este quadro como uma oportunidade é a melhor forma de o integrar, desenvolvendo soluções que estimulem a atividade económica de uma população mais envelhecida, mas que está a mudar – privilegiando-se a preservação da autonomia, o envelhecimento ativo e o desenvolvimento de estrutura sem rede.

Pensando nas gerações mais novas, a Literacia Financeira é a ferramenta essencial para conseguir obter uma economia mais saudável e uma sociedade mais informada sobre o impacto das suas decisões, a curto, médio e longo prazo.

O equilíbrio e a articulação entre a gestão do orçamento familiar, a poupança, o crédito ou o consumo são temas complexos na vida quotidiana de muitos portugueses. É aqui que a literacia financeira – que mais não é do que o desenvolvimento de compreensão de conceitos financeiros –, se torna tão importante para o nosso futuro.

O conhecimento financeiro é crucial para a resiliência das sociedades mais desenvolvidas e é, sem sombra de dúvida, uma necessidade em qualquer idade. E quanto mais cedo a desenvolvermos, melhor será para a preparação dos nossos anos futuros.



1.4.14

Famílias pouparam mais em 2013

in RR

A queda do rendimento disponível das famílias foi determinada pelo “expressivo aumento dos impostos sobre o rendimento e sobre o património”.

A taxa de poupança das famílias aumentou para os 12,6% em 2013, de acordo com os números do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados esta segunda-feira.

Segundo as Contas Nacionais Trimestrais por Sector Institucional, divulgadas pelo INE, a taxa de poupança das famílias aumentou 0,6 pontos percentuais, passando dos 12% em 2012 para os 12,6% do rendimento disponível em 2013.

Também a capacidade de financiamento das famílias aumentou para os 6,8% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013 (em 2012, foi de 6,4%), sendo que a redução da despesa do consumo final (-1,4%) foi “mais expressiva” do que a diminuição do rendimento disponível (-0,7%).

A queda do rendimento disponível das famílias (-0,7%) foi determinada pelo “expressivo aumento dos impostos sobre o rendimento e sobre o património” (+33%), que “mais do que compensou os aumentos das remunerações recebidas”, que subiram 0,7% face ao ano anterior, o equivalente a 65,4% do rendimento disponível em 2013.