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17.3.16

Jovens estão ainda "mais à rasca" cinco anos após megaprotesto

In "Renascença

Organizadora da manifestação "Geração à rasca" diz que a precariedade, o desemprego e a emigração continuam a ser um problema em Portugal, mas valeu à pena sair à rua.

Cinco anos depois da manifestação "Geração à rasca", os organizadores do protesto afirmam que os jovens ainda estão "mais à rasca" devido ao agravamento da precariedade laboral, mas estão confiantes que o actual Governo consiga alterar a situação.
A 12 de Março de 2011, realizou-se pela primeira vez um protesto convocado nas redes sociais e não vinculado a partidos políticos ou sindicatos, conseguindo reunir o maior número de manifestantes nas ruas desde o 25 de Abril de 1974.

Cerca de 500 mil pessoas participaram nas manifestações da "Geração à rasca" em todo o país para reivindicar melhores condições de trabalho e o fim da precariedade e, apesar de hoje a situação se ter agravado, os organizadores consideram que "valeu a pena" o protesto.

Questionada pela agência Lusa, se passados cinco anos da manifestação ainda existe uma geração à rasca, Paula Gil, um dos quatro jovens que organizou o protesto, respondeu: "Claro que sim e cada vez mais".

"Os últimos quatros anos de governo demonstraram que a única forma de contratação no país era a precariedade, se não fosse essa precariedade estávamos limitados ao desemprego ou então à emigração", disse Paula Gil, que continua a ter um trabalho precário.

A activista adiantou que "a precariedade laboral intensificou-se" devido "a uma estratégia de desvalorização do trabalho".

"Hoje em dia as pessoas trabalham por muito menos dinheiro, com muito menos condições, com muitos menos direitos, exactamente porque o desemprego é tão grande", sustentou.

Apesar de a situação se ter agravado, Paula Gil afirmou que a manifestação "valeu a pena", uma vez que demonstrou que "era possível organizar pessoas em conjunto, independente do valor que os sindicatos e partidos têm para a nossa democracia".

"Mesmo assim acho que valeu a pena organizar aquela manifestação pela organização popular, pela noção de que é possível fazer democracia fora de estruturas organizadas e pelo enquadramento que as pessoas sentiram quando saíram à rua ao defenderem o seu trabalho e os seus direitos, mas sobretudo porque colocou, na altura, a precariedade na agenda política, que era uma coisa que não acontecia", disse.

A activista salientou que a questão da precariedade laboral está actualmente na agenda política e existe "uma preocupação constante em mencioná-la".

Nesse sentido, manifestou expectativa no actual Governo e espera que o acordo parlamentar com os partidos de esquerda "traga algumas alterações" aos direitos dos trabalhadores.

"Acha que há bastante expectativa criada em volta deste Governo. É um Governo que conta com o apoio do BE e do PCP", afirmou, avançando que o combate à precariedade laboral é "uma questão de vontade política".

"São várias situações ilegais que até agora foram formalizadas e autorizadas por todos os governos que tivemos no parlamento. Para se manter a ideia de que temos um Governo de esquerda, terá que se tomar uma atitude em relação à situação da precariedade laboral da maioria dos jovens", disse.

Para a activista, uma "boa forma de demonstrar vontade política" passa por "alterar o regime de impostos dos recibos verdes".

Paula Gil considerou ainda que actualmente é "possível existir uma manifestação como aquela que aconteceu há cinco anos". No entanto, sustentou que é necessário aguardar para ver quais as iniciativas que o Governo vai tomar na área de trabalho.

"Mas é sempre possível haver uma manifestação em torno da questão da precariedade, até porque cada vez mais há falsos recibos verdes. É o novo método de contratação nacional", concluiu.

12.3.14

Onde pára a geração à rasca?

Texto de Alice Barcellos, in Público on-line (P3)

O P3 foi saber onde estão os jovens que, há três anos, organizaram a manifestação da Geração à Rasca. O evento criado no Facebook levou cerca de 500 mil pessoas às ruas


Uma ideia de um grupo de amigos resultou numa das maiores manifestações não vinculadas a partidos políticos desde o 25 de Abril em Portugal. Ainda te lembras onde estavas a 12 de Março de 2011? João Labrincha, Paula Gil, Alexandre Carvalho e António Frazão sabem exactamente onde passaram esse dia: nas ruas. Mas, antes disso, viveram meses intensos desde que decidiram organizar a manifestação da Geração à Rasca. Três anos volvidos, as vidas destes quatro jovens seguiram caminhos diferentes. Uns continuaram ligados ao Movimento 12 de Março (M12M) — grupo activista que surgiu depois da manifestação —, outros distanciaram-se, envolveram-se noutras causas ou emigraram.

Paula Gil, 29 anos

“Roubaram-nos os sonhos”

Combater a precariedade laboral foi um dos objectivos da manifestação da Geração à Rasca. Uma geração altamente qualificada, mas sujeita a baixos salários e a recibos verdes. Paula Gil deu a cara por esta causa e hoje é um exemplo da precariedade entre os jovens.

“Há três anos estava a fazer um estágio profissional numa organização não-governamental, ganhava 980 euros e a minha mãe estava a trabalhar”, recorda Paula. Actualmente, a jovem trabalha a recibos verdes numa instituição particular de solidariedade social em Lisboa, recebe 800 euros de salário, sem contar com os impostos que “aumentaram imenso este ano”, diz Paula. Entretanto, a mãe e o irmão, que vivem no Porto, ficaram desempregados. “A precariedade não afecta unicamente os jovens, afecta os pais e os avós”, lamenta Paula Gil. Os jovens são “uma geração que não tem futuro, sem perspectivas ou estabilidade”, caracteriza.

Paula fez mestrado e trabalhou como voluntária fora de Portugal. Voltou porque não queria emigrar. “Queria contribuir para o nosso país”, afirma. Conseguiu, com os outros amigos, organizar uma manifestação que mobilizou milhares de pessoas. Abandonou, entretanto, o M12M e integrou o movimento Que se Lixe a Troika, mas se agora tivesse uma oportunidade melhor fora do país, não recusava. “Roubaram-nos os sonhos”, lamenta.

João Labrincha, 30 anos

“Fazer de cada cidadão um político”

Há três anos, João Labrincha estava desempregado. A falta de oportunidades para os jovens e a precariedade no mercado laboral eram temas frequentes nas conversas com os amigos Alexandre, António e Paula — antigos estudantes de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, que organizaram a manifestação da Geração à Rasca. “Queríamos dar o exemplo às pessoas, mostrar que era possível agir”, recorda João, que vive em Lisboa.

“Só uma mensagem passou com a manifestação: colocámos nas bocas do mundo a palavra precariedade. Muita gente tomou consciência desta situação, de que os nossos direitos laborais não estavam a ser respeitados”, afirma João. A segunda mensagem, mais complexa, não chegou às pessoas. “Fazer de cada cidadão um político”, frase de José Saramago, é hoje uma das máximas de João Labrincha no seu trabalho na Academia Cidadã, associação sem fins lucrativos que vive de donativos e trabalho voluntário. É lá que João trabalha a tempo inteiro, em regime de estágio profissional.

João chegou à conclusão de que, mais do que organizar manifestações, é preciso “mudar mentalidades” e “dar poder às pessoas”. A Academia Cidadã quer ser uma escola de cidadania, quer formar activistas através de “workshops, oficinas” e do trabalho em “outras formas de intervenção na sociedade”, explica João. Para dar continuidade ao projecto e tentar empregar mais pessoas, a Academia Cidadã vai concorrer a fundos comunitários e organizar uma campanha de “crowdfunding”. Em Julho, acaba o estágio profissional de João e, se até lá não tiver conseguido financiamento para a associação, o jovem sabe que vai ter de começar a procurar outro emprego e dedicar-se ao projecto em “part-time”. “Mas tenho esperanças de que vou conseguir”, afirma João.

António Frazão, 28 anos

“É preciso voltar a acreditar”

Em 2011, António Frazão era trabalhador-estudante em Coimbra. Depois de concluir o mestrado, procurou emprego em Portugal e no estrangeiro, até que surgiu a oportunidade de ingressar no programa INOV Contacto. “Pensei que era a melhor forma de explorar o meu potencial e de dar uma melhor utilidade prática à minha preparação académica”, conta-nos António Frazão, a partir de Bruxelas.

O jovem está a trabalhar há dois meses na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia. Uma experiência nova, fora do país, que ainda agora começou. António considera, por isso, que é cedo para pensar no futuro e não sabe se regressa a Portugal quando terminar o estágio no INOV Contacto. Tem a certeza de que faz parte da “geração com maior nível de formação” do país e que “está bem preparada para ter sucesso, quer em Portugal, quer no estrangeiro”. “Sinto que falta a confiança, resultado da saturação com a situação do país. Algures no tempo perdemos a esperança num futuro melhor. É preciso voltar a acreditar”, afirma.

António não integrou o M12M, fundado depois da manifestação da Geração à Rasca, mas mantém o contacto com os amigos João, Paula e Alexandre. Apesar de não se ter vinculado a mais nenhum movimento cívico, o jovem defende que “todos temos o direito de intervir na sociedade” e que “em Portugal existe uma forte sociedade civil que o faz, mas que passa despercebida”.

Alexandre Carvalho, 28 anos

“Fui o único que ficou na mesma”

“De todos os meus amigos, fui o único que ficou na mesma”, começa por dizer Alexandre Carvalho. “Na altura da manifestação, tinha conseguido uma bolsa de investigação”, conta. Hoje em dia, o jovem está a cursar o doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), estando agora no período de renovação da bolsa. Está, por isso, a acompanhar com atenção os cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, que causaram polémica em Janeiro. “Só demonstra que a aposta deste governo não é na ciência e na educação, mas sim nos baixos salários”, refere Alexandre.

O jovem é também membro da Academia Cidadã, “a primeira ideia a surgir depois da manifestação, mas que precisou de algum tempo para amadurecer”, explica. Alexandre considera que “é normal haver ciclos de maior contestação nas ruas e períodos mais calmos”. “Com a aproximação de eleições, as pessoas ficam também na expectativa do que poderá acontecer”, explica.

Quando terminar a tese de doutoramento, Alexandre não põe de lado a opção de emigrar. “Os jovens não têm medo de sair para procurar trabalho, há é uma certa angustia de que o país não tenha espaço para nós”, realça. “De que emigrar seja uma imposição e não uma opção”, conclui.

12.3.12

Geração à rasca: um ano depois para onde foi a indignação?

Por Natália Faria, in Público on-line

Nesta segunda-feira faz um ano que milhares de portugueses saíram à rua. E depois? Para onde foi a indignação? Uma historiadora, um sociólogo, um psicanalista e um activista arriscam respostas

Há um ano, o país levou uma bofetada. Milhares de pessoas (cerca de 300 mil, segundo a polícia; mais de 500 mil, diz a organização) saíram à rua para protestar contra a precariedade que lhes foi imposta. O apelo à mobilização correu célere no Facebook, com alguns jovens até então anónimos a conseguirem aquilo que nenhum sindicato e nenhum partido haviam conseguido. Um ano depois, para onde foi tanta indignação? "Está paralisada pelo medo e pela estupefacção", responde Joaquin Estefanía, ex-director do diário espanhol El País, para quem o medo foi transformado numa arma de controlo social (ver entrevista na página ao lado).

Dizendo-se "atónita com tanta passividade" portuguesa, a historiadora Irene Flunsel Pimentel concorda que as pessoas estão "amedrontadas, aterrorizadas e desorientadas, sobretudo porque não vêem nenhuma luz ao fundo do túnel". "As que ainda têm emprego têm medo de o perder mas também não sabem muito bem o que fazer", explica, para, no jogo das diferenças com as reacções à crise nos outros países, atirar culpas à herança deixada por Salazar. "A Espanha e a Grécia tiveram tremendas guerras civis, com milhares de mortos, e isso acaba por se inscrever no código genético das populações. Nós tivemos um ditador que viveu sempre com o apoio de uma parte da população, não se pode dizer que subsistiu apenas através da repressão. Não havia liberdade, mas havia aquela pessoa que zelava pela nossa segurança, que não nos deixava cair na miséria total e que nos habituou a pensar que os outros é que mandam em nós".

O psicanalista Coimbra de Matos também alude à sensação de que nada se pode contra o que está a acontecer para explicar o que tem mantido a indignação portuguesa no reduto doméstico. "Somos um povo passivo, sem aquilo a que os ingleses chamam empowerment, de pessoas habituadas a não ter poder nas suas mãos, e suponho que isso deva algo à ditadura. Esta, sendo relativamente suave - não era como em Espanha, que matava muito mais -, apelava à capacidade de conformação dos portugueses e usava métodos que não suscitavam uma reacção tão maciça e tão discordante". Temos assim todo um país mergulhado numa "depressão patológica, que ?? uma reacção à perda e a um sentimento de injustiça, mas que, no caso português, não comporta a revolta e até acredita que a culpa é um bocado nossa, porque vivemos acima das nossas posses".

Numa leitura diferente, o sociólogo e político Augusto Santos Silva sustenta que a indignação se domesticou porque perdeu o alvo directo. "A actuação política em Portugal tornou-se exógena. Com a celebração do pacote de ajuda financeira, a capacidade de actuação autónoma do Governo diminuiu radicalmente aos olhos da opinião pública; logo, as acções reivindicativas deixaram de ter tantas condições de atingir os seus objectivos".

Inquestionável é que se a revolta que há um ano saiu à rua não assumiu entretanto contornos de violência, não é porque as perspectivas tenham melhorado. Ao contrário. O desemprego galgou entretanto até aos 14%: 770 mil pessoas sem trabalho. Se olharmos só para os sub-25, são 30,7% os desempregados. É a terceira maior taxa da UE. O resto é o que se sabe. A perpetuação dos contratos a prazo a assumir letra de lei, os estágios sem remuneração, a instabilidade dos recibos verdes a adiar o futuro. Mas os jovens não estão mais à rasca que os outros. A manifestação de há um ano, porque mobilizadora de todas as idades, mostrou-o. Havia pensionistas de pensões congeladas, logo sem dinheiro para a conta dos medicamentos. Havia famílias sobretaxadas, nomeadamente pelo medo de deixarem de conseguir pagar a casa. Sublinhem-se, a propósito, as 670.637 famílias que chegaram ao fim de 2011 a não conseguir pagar os empréstimos aos bancos.

Para Irene Pimentel, a heterogeneidade dos manifestantes foi a força mas também a fraqueza daquela manifestação e uma das razões para que, a seguir, nada de extraordinário tenha acontecido. "Aquilo englobou desde a extrema-esquerda, à extrema-direita. Até neonazis. E criou-se em torno dessa manifestação um unanimismo que englobava todas as opções políticas contra um fenómeno muito complicado que era a precariedade. Mas aquilo vivia de uma falsa solidariedade e de um falso corporativismo, porque muitas pessoas estavam lá para derrubar o Governo". O sociólogo e ex-ministro do anterior executivo Augusto Santos Silva também sustenta que foi o contexto político que ditou que o protesto tivesse há um ano uma expressão que não viria a repetir-se. "Naquela manifestação confluíram os interesses do BE, do PCP e do PSD, que criaram uma lógica de tenaz para derrubar o Governo socialista, liderado por um ministro muito enérgico, José Sócrates, que concentrava em si todo o amor e todo ódio político possível. Hoje, Portugal vive uma situação de tutela e isso levou a uma mudança do horizonte de expectativas, isto é, as pessoas assimilaram a ideia de que as perdas que sentem decorrem de uma imposição externa mais do que de uma posição autónoma do Governo de Passos Coelho, e, portanto, sentem que as condições de obtenção dos objectivos diminuíram radicalmente a partir do momento em que a troika passou a regular o funcionamento do país".

A tensão existe. Rebenta? "A explosão da revolta social pode acontecer, mas tem vindo a ser contrariada pela actuação muito prudente do PCP e da CGTP, que entretanto recuperaram a liderança do protesto", contextualiza Santos Silva, para recordar que, "ao longo da História, os movimentos mais propícios às revoluções nunca foram os momentos de máxima privação mas aqueles em que a exequibilidade de mudança se tornou mais real". Ora, João Labrincha, um dos desempregados que apareciam a assinar o manifesto que apelou à manif de 12 de Março, acredita que a mudança já começou. "As dinâmicas sociais criadas neste momento em Portugal mostram que as pessoas estão a fazer acontecer como nunca antes na nossa democracia. Há movimentos a aparecer um pouco por todo o lado, estão é a fazer um trabalho de formiguinha que não é visível porque tem muita dificuldade em disputar o espaço mediático com os partidos políticos", defende, para reforçar: "Quando aconteceram o Maio de 1968 e a contestação à guerra do Vietname, era muito difícil na altura perceber o que é que aquilo ia mudar. Só muito mais tarde se teve noção das enormes mudanças que aqueles movimentos geraram". Para Labrincha, "o sistema baseado no petróleo e na ganância vai ruir, como já está a ruir, e, ao mesmo tempo, vai aparecer um novo paradigma, como já está a aparecer, sem que seja preciso um crash". De resto, "é visível que as pessoas se estão a desidentificar com as estruturas tradicionais do Estado e a procurar caminhos alternativos". E essa foi, diz, "a grande conquista da manifestação de há um ano".