Céu Neves, in Diário de Notícias
Estudos recentes demonstram as dificuldades dos portugueses mais novos no acesso ao emprego, à educação, à habitação, à segurança contratual e a melhores salários
Os jovens portugueses estão a sofrer uma instabilidade salarial, de emprego e dificuldades em conseguir uma habitação própria. Na faixa etária entre os 15 e os 24 anos é cada vez mais oferecido trabalho temporário e com vencimentos mais baixos do que os que existiam em 2007 - atualmente, 621,05 euros, valores cerca de 30% abaixo do que era pago naquele ano. Um panorama difícil para os trabalhadores mais novos e que está documentado em dois estudos recentes: "Desigualdades sociais, Portugal e a Europa (Observatório das Desigualdades)" e "Jovens na Europa precisam de um futuro"(Cáritas).
Os dados referentes a Portugal do Observatório da Igualdade (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE, 2016) mostram que no nosso país um em cada dez empregos ocupados por jovens foi destruído entre 2007 e 2015 e ainda não está recuperado.
"Entre 2007 e 2015, cerca de um em cada dez empregos ocupados por jovens foi destruído e a recente melhoria económica ainda não se traduziu numa recuperação sustentada das taxas de emprego jovem. Por outro lado, os níveis mais elevados de desemprego fizeram--se acompanhar de um aumento do trabalho precário, nomeadamente do temporário", pode ler-se no documento. Os investigadores responsáveis pelo estudo salientam que a situação se agravou com a crise financeira, mas arrasta-se há 20 anos: "Assistiu-se a uma tendência de diminuição do emprego nos indivíduos entre os 15 e os 24 anos (justificada em grande parte pelo aumento da escolaridade), e uma subida do desemprego e dos contratos temporários."
A taxa de desemprego para os indivíduos entre os 15 e 24 anos atingiu o valor mais alto em 2013 (38,1%), situando-se atualmente nos 23,9%, estimativa do Instituto Nacional de Estatística. E o emprego temporário é a realidade de 66,3% dos jovens portugueses empregados em 2016, quando a média da UE era de 43,8%. O número destes contratos baixou em 2015 e 2016, mas constatou-se "que aqueles que estão nessa situação profissional de forma involuntária subiram de forma transversal".
"A situação temporária está associada a uma maior instabilidade e insegurança contratual, baixos salários e, em termos gerais, menores oportunidades", salientam Ana Rita Matias e Renato Miguel do Carmo, autores do capítulo "Precariedade e desigualdade".
Conclusão que é corroborada pelo estudo da Cáritas Europa (CARES). "Os jovens na Europa precisam de um futuro!" compara a situação de 16 países no trabalho, na educação, na habitação e na pobreza, surgindo Portugal entre os que têm mais problemas. O documento refere uma população de 1,7 milhões, 14% dos quais abandonaram a escola precocemente e 29,4% estão em risco de pobreza. Pessoas que têm dificuldade em se tornarem independentes, desde logo uma habitação. "Adquirir casa própria é muito difícil para a maioria dos jovens [segundo os dados de um inquérito da corretora norte-americana TD Ameritrade a dois mil jovens nascidos entre 1980 e 2000 publicados no final de 2017, a idade de saída de casa dos pais varia entre os 26 e os 28 anos] devido aos empregos precários e a um mercado de habitação a preços muito elevados."
A Cáritas recomenda aos dirigentes portugueses que tomem medidas a nível do emprego, desemprego, educação e habitação.
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19.3.18
15.3.18
Emprego aumentou mas precariedade impede saída da pobreza
in RTP
A entrada no mercado de trabalho aumentou, mas os empregos precários impedem a população de sair da pobreza, revela um estudo do Barómetro do Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, hoje divulgado.
O terceiro Barómetro do Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, publicado no livro "Trânsito condicionado", mostra que a inserção no mercado de trabalho se "faz em condições tão precárias que nenhum [entrevistado] consegue sair da situação de pobreza".
O documento refere que "a desigualdade social e a precarização do trabalho têm estado em acelerada evolução e atingem grandes grupos populacionais a partir de baixos salários, trabalho sem contrato, penosas condições laborais, nomeadamente em termos de horários", o que condiciona a evolução social.
Em 2011 (data do início do estudo), a taxa de risco de pobreza em Portugal era de 17,9%, em 2016 estava ainda mais alta, nos 18,3%. Das 47 pessoas acompanhadas pelos investigadores, desde 2011, apenas duas conseguiram sair da "condição de pobreza".
O estudo alerta, também, para a falta de articulação entre os dispositivos de assistência e as políticas de emprego, o que prejudica a integração social de quem está em situação de pobreza.
"A ação dos dispositivos de assistência parece estar insuficientemente articulada com as políticas de emprego, e consequentemente para uma intervenção mais generativa, capaz de promover um processo de reintegração social e autonomização, que vá para além da emergência social", refere.
Em relação ao tipo de trabalho que os portugueses conseguem, Portugal tem a maior taxa, da União Europeia, de empregados a tempo parcial com o ensino básico, são 55,4%, mais do dobro da média da União Europeia (27,3%). São também os portugueses com o ensino básico que têm a taxa mais alta de "`desencorajados`, apesar de estarem disponíveis para trabalhar": 66,7%, contra os 45,2% de média da União Europeia.
Para quem está em situação de pobreza e vive nos bairros históricos de Lisboa, o aumento do turismo não ajuda. "Arrendar uma habitação no mercado privado tornou-se praticamente impossível, dada a crescente procura de habitações para o arrendamento turístico", aponta o estudo.
O recurso a cuidadores informais e a redes de apoio informal é, muitas vezes, o principal apoio para quem está nestas situações de pobreza, mas, alerta a investigação, trata-se de uma situação prejudicial para os envolvidos.
"O importante papel social que assumem [os cuidadores informais] no seio das famílias no cuidado a pessoas dependentes repercute-se no seu empobrecimento, no curto e longo prazo, e na redução dos custos para o Estado, nomeadamente relativos à sua institucionalização ou à prestação de cuidados formais no domicílio, mas também no valor futuro das pensões de velhice, dada a curta carreira contributiva".
O livro "Trânsito condicionado", que será apresentado na terça-feira, foi elaborado em parceria com o DINÂMIA`CET -- Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território (ISCTE-IUL), e faz, a partir de um trabalho de campo realizado desde 2011, um retrato qualitativo da pobreza na capital. O estudo terá final em 2020 e vai continuar a acompanhar o mesmo grupo de pessoas, nos próximos anos.
A entrada no mercado de trabalho aumentou, mas os empregos precários impedem a população de sair da pobreza, revela um estudo do Barómetro do Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, hoje divulgado.
O terceiro Barómetro do Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, publicado no livro "Trânsito condicionado", mostra que a inserção no mercado de trabalho se "faz em condições tão precárias que nenhum [entrevistado] consegue sair da situação de pobreza".
O documento refere que "a desigualdade social e a precarização do trabalho têm estado em acelerada evolução e atingem grandes grupos populacionais a partir de baixos salários, trabalho sem contrato, penosas condições laborais, nomeadamente em termos de horários", o que condiciona a evolução social.
Em 2011 (data do início do estudo), a taxa de risco de pobreza em Portugal era de 17,9%, em 2016 estava ainda mais alta, nos 18,3%. Das 47 pessoas acompanhadas pelos investigadores, desde 2011, apenas duas conseguiram sair da "condição de pobreza".
O estudo alerta, também, para a falta de articulação entre os dispositivos de assistência e as políticas de emprego, o que prejudica a integração social de quem está em situação de pobreza.
"A ação dos dispositivos de assistência parece estar insuficientemente articulada com as políticas de emprego, e consequentemente para uma intervenção mais generativa, capaz de promover um processo de reintegração social e autonomização, que vá para além da emergência social", refere.
Em relação ao tipo de trabalho que os portugueses conseguem, Portugal tem a maior taxa, da União Europeia, de empregados a tempo parcial com o ensino básico, são 55,4%, mais do dobro da média da União Europeia (27,3%). São também os portugueses com o ensino básico que têm a taxa mais alta de "`desencorajados`, apesar de estarem disponíveis para trabalhar": 66,7%, contra os 45,2% de média da União Europeia.
Para quem está em situação de pobreza e vive nos bairros históricos de Lisboa, o aumento do turismo não ajuda. "Arrendar uma habitação no mercado privado tornou-se praticamente impossível, dada a crescente procura de habitações para o arrendamento turístico", aponta o estudo.
O recurso a cuidadores informais e a redes de apoio informal é, muitas vezes, o principal apoio para quem está nestas situações de pobreza, mas, alerta a investigação, trata-se de uma situação prejudicial para os envolvidos.
"O importante papel social que assumem [os cuidadores informais] no seio das famílias no cuidado a pessoas dependentes repercute-se no seu empobrecimento, no curto e longo prazo, e na redução dos custos para o Estado, nomeadamente relativos à sua institucionalização ou à prestação de cuidados formais no domicílio, mas também no valor futuro das pensões de velhice, dada a curta carreira contributiva".
O livro "Trânsito condicionado", que será apresentado na terça-feira, foi elaborado em parceria com o DINÂMIA`CET -- Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território (ISCTE-IUL), e faz, a partir de um trabalho de campo realizado desde 2011, um retrato qualitativo da pobreza na capital. O estudo terá final em 2020 e vai continuar a acompanhar o mesmo grupo de pessoas, nos próximos anos.
10.2.16
Portugal é o quarto pior país para se trabalhar. Pior só Turquia, Espanha e Grécia
Erika Nunes, in "Diário de Notícias"
OCDE mediu emprego, desemprego de longa duração, segurança laboral, precariedade e remuneração. Melhor país é a Islândia
Grécia, Espanha, Turquia e Portugal são os piores países para se trabalhar, de acordo com um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE). Islândia, Suíça e Noruega são os melhores.
A OCDE mediu as taxas de emprego, o desemprego de longa duração e a segurança laboral em cada uma das 34 grandes economias, considerando ainda o "medo de perder o emprego" e a remuneração média entre aqueles que estão empregados para criar o índice da qualidade do emprego. A média obtida é de 6,6 pontos. A Grécia, o último país da tabela, não vai além de 1,5 pontos; a Espanha tem apenas 2,4 pontos; a Turquia 3,8 e Portugal 4,1 pontos.
Espanha é o país onde o "medo de perder o emprego" (17,8%) é mais do triplo da média (5,4%) dos 34 países e mais do dobro do que em Portugal (8,6%). Aquele valor tem vindo a aumentar ao longo do tempo no país vizinho - em 2012 era de 10,8%; em 2013 subiu ligeiramente para 10,9% e em 2014 disparou para 17,7%. Nesse mesmo ano, a média da OCDE desceu para o nível atual de 5,3%.
Em Portugal é o desemprego de longa duração que mais penaliza a pontuação - é o triplo (9,1%) da média da OCDE (2,8%). Mas o rendimento per capita também fica a larga distância. A média da OCDE é de 25 908 dólares (23 216 euros); em Portugal é cerca de 20% mais baixo, ficando-se por apenas 20 086 dólares (18 mil euros).
"E [em Portugal] há ainda uma diferença importante entre os mais ricos e os mais pobres - os 20% mais favorecidos da população ganham quase seis vezes mais do que os 20% menos favorecidos", refere a organização.
Espanha também fica abaixo da média dos países desenvolvidos, com um rendimento disponível das famílias líquido per capita de 22 477 dólares (20 590 euros), contra os 25 166 dólares (22 551 euros) da Itália, 28 799 dólares (25 806 euros) em França ou 31 252 (28 mil euros) na Alemanha. Mais longe ficam os EUA, com um rendimento médio per capita de 41 355 dólares (cerca de 37 mil euros).
Com certeza que não é este indicador que mais pesa no exame laboral da OCDE, visto que na Islândia o rendimento médio per capita é de apenas 23 965 dólares. Porém, no país que lidera a tabela, o medo de perder o emprego é de apenas 4,1%, o desemprego de longa duração afeta somente 1,2% e a taxa de emprego (população em idade de trabalhar com emprego remunerado) é de 82%.
A Suíça (2.º lugar) e a Alemanha (8.º lugar) são os países europeus onde o medo de perder o emprego é menor, registando apenas 3% e 3,1%, respetivamente. A Alemanha consegue empatar com os EUA neste índice de qualidade do trabalho - conseguiram ambos 8,1 pontos.
A taxa de desemprego de longa duração alemã (2,4%) é três vezes inferior à espanhola e quase quatro vezes menor do que a portuguesa, quando a taxa de emprego é de 73%, o que compara com os 61% de Portugal, 56% da Espanha ou os 49% da Grécia. Bem longe da taxa da Suíça (80%) ou da Noruega (75%), onde o desemprego de longa duração é de apenas 1,5% e de 0,3%, respetivamente.
OCDE mediu emprego, desemprego de longa duração, segurança laboral, precariedade e remuneração. Melhor país é a Islândia
Grécia, Espanha, Turquia e Portugal são os piores países para se trabalhar, de acordo com um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE). Islândia, Suíça e Noruega são os melhores.
A OCDE mediu as taxas de emprego, o desemprego de longa duração e a segurança laboral em cada uma das 34 grandes economias, considerando ainda o "medo de perder o emprego" e a remuneração média entre aqueles que estão empregados para criar o índice da qualidade do emprego. A média obtida é de 6,6 pontos. A Grécia, o último país da tabela, não vai além de 1,5 pontos; a Espanha tem apenas 2,4 pontos; a Turquia 3,8 e Portugal 4,1 pontos.
Espanha é o país onde o "medo de perder o emprego" (17,8%) é mais do triplo da média (5,4%) dos 34 países e mais do dobro do que em Portugal (8,6%). Aquele valor tem vindo a aumentar ao longo do tempo no país vizinho - em 2012 era de 10,8%; em 2013 subiu ligeiramente para 10,9% e em 2014 disparou para 17,7%. Nesse mesmo ano, a média da OCDE desceu para o nível atual de 5,3%.
Em Portugal é o desemprego de longa duração que mais penaliza a pontuação - é o triplo (9,1%) da média da OCDE (2,8%). Mas o rendimento per capita também fica a larga distância. A média da OCDE é de 25 908 dólares (23 216 euros); em Portugal é cerca de 20% mais baixo, ficando-se por apenas 20 086 dólares (18 mil euros).
"E [em Portugal] há ainda uma diferença importante entre os mais ricos e os mais pobres - os 20% mais favorecidos da população ganham quase seis vezes mais do que os 20% menos favorecidos", refere a organização.
Espanha também fica abaixo da média dos países desenvolvidos, com um rendimento disponível das famílias líquido per capita de 22 477 dólares (20 590 euros), contra os 25 166 dólares (22 551 euros) da Itália, 28 799 dólares (25 806 euros) em França ou 31 252 (28 mil euros) na Alemanha. Mais longe ficam os EUA, com um rendimento médio per capita de 41 355 dólares (cerca de 37 mil euros).
Com certeza que não é este indicador que mais pesa no exame laboral da OCDE, visto que na Islândia o rendimento médio per capita é de apenas 23 965 dólares. Porém, no país que lidera a tabela, o medo de perder o emprego é de apenas 4,1%, o desemprego de longa duração afeta somente 1,2% e a taxa de emprego (população em idade de trabalhar com emprego remunerado) é de 82%.
A Suíça (2.º lugar) e a Alemanha (8.º lugar) são os países europeus onde o medo de perder o emprego é menor, registando apenas 3% e 3,1%, respetivamente. A Alemanha consegue empatar com os EUA neste índice de qualidade do trabalho - conseguiram ambos 8,1 pontos.
A taxa de desemprego de longa duração alemã (2,4%) é três vezes inferior à espanhola e quase quatro vezes menor do que a portuguesa, quando a taxa de emprego é de 73%, o que compara com os 61% de Portugal, 56% da Espanha ou os 49% da Grécia. Bem longe da taxa da Suíça (80%) ou da Noruega (75%), onde o desemprego de longa duração é de apenas 1,5% e de 0,3%, respetivamente.
29.12.14
Um em cada 4 trabalhadores dos hipers é temporário
por Erika Nunes e Teresa Costa, in Dinheiro Vivo
Comércio perde empresas e trabalhadores, mas mantém volume de negócios.
O trabalho temporário abrange praticamente um quarto (26,4%) dos trabalhadores ao serviço das grandes unidades comerciais, que no total empregam quase 100 mil pessoas, segundo dados do INE.
O comércio perdeu quase quatro mil empresas e 20 mil trabalhadores, mas manteve o volume de negócios, num só ano, de 2012 para 2013.
Por outras palavras, tudo culminou no apuramento de um total de 232 mil empresas (22% da totalidade do setor empresarial), que empregavam 733 mil trabalhadores (21,3%), e geraram um volume de negócios de 119,6 mil milhões de euros (37,0%).
No caso concreto das chamadas "Unidades comerciais de dimensão relevante", o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que empregam 98,7 mil pessoas, das quais 26,4% estavam em trabalho temporário, ou seja, quase um em cada quatro trabalhadores está abrangido por este regime. Também se conclui que 70,7% do pessoal ao serviço eram mulheres.
"Perecariedade é exagerada"
Em relação ao regime laboral praticado nas grandes unidades comerciais, o sindicato encara os números "sem surpresa", para lamentar que, "nos super e nos hipermercados, a precariedade é exagerada", como comenta Jorge Pinto, coordenador da Direção Regional do Norte do CESP.
"Nem todas as empresas do setor têm a mesma taxa de precariedade, mas é um recurso persistente, sobretudo, por ocasião dos picos de venda, uma situação contra a qual temos vindo a lutar", sublinha Jorge Pinto.
Quanto à dinâmica do setor - de estar a perder empresas e trabalhadores, mas a manter o volume de negócios -, o sindicalista entende que "esse só pode ser o resultado das fortes campanhas que as empresas estão a desenvolver para fidelizar clientes, com cartões e descontos".
Margens a duplicar
Mas as grandes unidades destacam-se ainda por outra realidade. Segundo o INE, as empresas do comércio a retalho do "grupo 471", onde se incluem hipermercados, supermercados e outras grandes superfícies dedicadas à venda de bens variados, foram as que "obtiveram a mais elevada margem comercial": 170 mil euros por empresa, "valor que representa mais do dobro das margens por empresa observadas na maioria dos restantes grupos de comércio a retalho".
Marca própria
Em 2013, a venda de produtos de marca própria abrangeu 34,9% do volume de vendas global do segmento alimentar (em 2012 era 34,4%), enquanto no segmento não alimentar representou 48,0% do volume de vendas (48,4% em 2012).
Comércio perde empresas e trabalhadores, mas mantém volume de negócios.
O trabalho temporário abrange praticamente um quarto (26,4%) dos trabalhadores ao serviço das grandes unidades comerciais, que no total empregam quase 100 mil pessoas, segundo dados do INE.
O comércio perdeu quase quatro mil empresas e 20 mil trabalhadores, mas manteve o volume de negócios, num só ano, de 2012 para 2013.
Por outras palavras, tudo culminou no apuramento de um total de 232 mil empresas (22% da totalidade do setor empresarial), que empregavam 733 mil trabalhadores (21,3%), e geraram um volume de negócios de 119,6 mil milhões de euros (37,0%).
No caso concreto das chamadas "Unidades comerciais de dimensão relevante", o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou que empregam 98,7 mil pessoas, das quais 26,4% estavam em trabalho temporário, ou seja, quase um em cada quatro trabalhadores está abrangido por este regime. Também se conclui que 70,7% do pessoal ao serviço eram mulheres.
"Perecariedade é exagerada"
Em relação ao regime laboral praticado nas grandes unidades comerciais, o sindicato encara os números "sem surpresa", para lamentar que, "nos super e nos hipermercados, a precariedade é exagerada", como comenta Jorge Pinto, coordenador da Direção Regional do Norte do CESP.
"Nem todas as empresas do setor têm a mesma taxa de precariedade, mas é um recurso persistente, sobretudo, por ocasião dos picos de venda, uma situação contra a qual temos vindo a lutar", sublinha Jorge Pinto.
Quanto à dinâmica do setor - de estar a perder empresas e trabalhadores, mas a manter o volume de negócios -, o sindicalista entende que "esse só pode ser o resultado das fortes campanhas que as empresas estão a desenvolver para fidelizar clientes, com cartões e descontos".
Margens a duplicar
Mas as grandes unidades destacam-se ainda por outra realidade. Segundo o INE, as empresas do comércio a retalho do "grupo 471", onde se incluem hipermercados, supermercados e outras grandes superfícies dedicadas à venda de bens variados, foram as que "obtiveram a mais elevada margem comercial": 170 mil euros por empresa, "valor que representa mais do dobro das margens por empresa observadas na maioria dos restantes grupos de comércio a retalho".
Marca própria
Em 2013, a venda de produtos de marca própria abrangeu 34,9% do volume de vendas global do segmento alimentar (em 2012 era 34,4%), enquanto no segmento não alimentar representou 48,0% do volume de vendas (48,4% em 2012).
22.9.14
Três ideias para um mundo menos precário
Texto de João Camargo, in Público on-line (P3)
No dia em que o P3 comemora três anos pedimos a algumas pessoas que fossem o génio da lâmpada e apresentassem três ideias de futuro. O engenheiro do ambiente João Camargo propõe o fim das empresas de trabalho temporário
Precariedade
1) Acabar com as empresas de trabalho temporário
A ilegalidade é a norma das relações de precarização de quem trabalha em Portugal. Governo, câmaras municipais e empresas, todos utilizam a ilegalidade: centenas de milhares a falsos recibos verdes, a falsos estágios, a falsos Contratos de Emprego-Inserção, a falso trabalho temporário. O cumprimento da lei, vã miragem mas a que devemos aspirar, seria um importante golpe naqueles que assaltam e degradam quem trabalha. As empresas de trabalho temporário têm uma natureza duplamente perniciosa: além de utilizarem o falso trabalho temporário, contratando temporariamente para posições permanentes, utilizam o trabalho temporário, de forma legal, para capturar em muitos casos mais de metade dos salários de centenas de milhares de pessoas que trabalham assim. É a estes angariadores de mão-de-obra semi-escrava que o Governo quer entregar mais de um milhão de desempregados e precários. Estas empresas mafiosas não têm lugar numa sociedade que aspire à dignidade para a cidadania.
Economia
2) Cancelamento internacional de dívidas públicas e taxação acima de 90% das actividades especulativas e sobre lucros obtidos com juros
As principais pressões postas sobre as sociedades de hoje são fruto da financeirização das economias. O controlo do dinheiro pela finança foi determinante para impedir a distribuição da riqueza e forçar ao endividamento (privado e público). As armadilhas das dívidas públicas são neste momento a principal maneira de impedir políticas que beneficiem as populações e que melhorem o planeamento da economia para satisfazer necessidades básicas de Educação, Saúde, Habitação, Alimentação, Trabalho e Ambiente. Juntam-se os juros usurários e a especulação para percebemos porque é que o ciclo infernal das dívidas nunca pára: é que há muito mais dívida no Mundo do que dinheiro. Nunca será paga e alimenta-se a si mesma, destruindo no caminho os países. A taxação muito acentuada sobre a especulação e os juros serviria para impedir a continuação deste ciclo insano. Um processo de cancelamento internacional e mútuo de dívidas públicas libertaria recursos fundamentais para responder ao desemprego, à crise económica e à crise ambiental que põe em causa a viabilidade do mundo como o conhecemos.
Ambiente
3) Criar um programa de investimento público em adaptação às alterações climáticas
O relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas de Abril de 2014 explica como a acção humana mudou irreversivelmente os sistemas terrestres, oceânicos e climáticos. Este painel é um dos maiores consensos científicos da História, com mais de 1800 cientistas de 70 países. No cenário menos catastrófico os fenómenos extremos —tempestades, tufões, cheias, inundações, incêndios florestais — aumentam cada vez mais, a temperatura e o nível do mar aumenta, o litoral recua, a desertificação intensifica-se. Há um alerta para a urgente redução das emissões, mas já se foca a necessidade de nos prepararmos para as alterações em marcha. A adaptação ao novo clima é uma questão de sobrevivência. É preciso um programa público de emprego em adaptação às alterações climáticas, defesa do litoral, combate à desertificação, diversificação energética ou conservação da natureza (sem fraudes “verdes” como encher as praias de areia). Este investimento faria sentido mesmo se não houvesse alterações. É necessário criar milhões de postos de trabalho para nos prepararmos para aquilo que já está a acontecer. Em contra-relógio.
No dia em que o P3 comemora três anos pedimos a algumas pessoas que fossem o génio da lâmpada e apresentassem três ideias de futuro. O engenheiro do ambiente João Camargo propõe o fim das empresas de trabalho temporário
Precariedade
1) Acabar com as empresas de trabalho temporário
A ilegalidade é a norma das relações de precarização de quem trabalha em Portugal. Governo, câmaras municipais e empresas, todos utilizam a ilegalidade: centenas de milhares a falsos recibos verdes, a falsos estágios, a falsos Contratos de Emprego-Inserção, a falso trabalho temporário. O cumprimento da lei, vã miragem mas a que devemos aspirar, seria um importante golpe naqueles que assaltam e degradam quem trabalha. As empresas de trabalho temporário têm uma natureza duplamente perniciosa: além de utilizarem o falso trabalho temporário, contratando temporariamente para posições permanentes, utilizam o trabalho temporário, de forma legal, para capturar em muitos casos mais de metade dos salários de centenas de milhares de pessoas que trabalham assim. É a estes angariadores de mão-de-obra semi-escrava que o Governo quer entregar mais de um milhão de desempregados e precários. Estas empresas mafiosas não têm lugar numa sociedade que aspire à dignidade para a cidadania.
Economia
2) Cancelamento internacional de dívidas públicas e taxação acima de 90% das actividades especulativas e sobre lucros obtidos com juros
As principais pressões postas sobre as sociedades de hoje são fruto da financeirização das economias. O controlo do dinheiro pela finança foi determinante para impedir a distribuição da riqueza e forçar ao endividamento (privado e público). As armadilhas das dívidas públicas são neste momento a principal maneira de impedir políticas que beneficiem as populações e que melhorem o planeamento da economia para satisfazer necessidades básicas de Educação, Saúde, Habitação, Alimentação, Trabalho e Ambiente. Juntam-se os juros usurários e a especulação para percebemos porque é que o ciclo infernal das dívidas nunca pára: é que há muito mais dívida no Mundo do que dinheiro. Nunca será paga e alimenta-se a si mesma, destruindo no caminho os países. A taxação muito acentuada sobre a especulação e os juros serviria para impedir a continuação deste ciclo insano. Um processo de cancelamento internacional e mútuo de dívidas públicas libertaria recursos fundamentais para responder ao desemprego, à crise económica e à crise ambiental que põe em causa a viabilidade do mundo como o conhecemos.
Ambiente
3) Criar um programa de investimento público em adaptação às alterações climáticas
O relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas de Abril de 2014 explica como a acção humana mudou irreversivelmente os sistemas terrestres, oceânicos e climáticos. Este painel é um dos maiores consensos científicos da História, com mais de 1800 cientistas de 70 países. No cenário menos catastrófico os fenómenos extremos —tempestades, tufões, cheias, inundações, incêndios florestais — aumentam cada vez mais, a temperatura e o nível do mar aumenta, o litoral recua, a desertificação intensifica-se. Há um alerta para a urgente redução das emissões, mas já se foca a necessidade de nos prepararmos para as alterações em marcha. A adaptação ao novo clima é uma questão de sobrevivência. É preciso um programa público de emprego em adaptação às alterações climáticas, defesa do litoral, combate à desertificação, diversificação energética ou conservação da natureza (sem fraudes “verdes” como encher as praias de areia). Este investimento faria sentido mesmo se não houvesse alterações. É necessário criar milhões de postos de trabalho para nos prepararmos para aquilo que já está a acontecer. Em contra-relógio.
12.3.14
Onde pára a geração à rasca?
Texto de Alice Barcellos, in Público on-line (P3)
O P3 foi saber onde estão os jovens que, há três anos, organizaram a manifestação da Geração à Rasca. O evento criado no Facebook levou cerca de 500 mil pessoas às ruas
Uma ideia de um grupo de amigos resultou numa das maiores manifestações não vinculadas a partidos políticos desde o 25 de Abril em Portugal. Ainda te lembras onde estavas a 12 de Março de 2011? João Labrincha, Paula Gil, Alexandre Carvalho e António Frazão sabem exactamente onde passaram esse dia: nas ruas. Mas, antes disso, viveram meses intensos desde que decidiram organizar a manifestação da Geração à Rasca. Três anos volvidos, as vidas destes quatro jovens seguiram caminhos diferentes. Uns continuaram ligados ao Movimento 12 de Março (M12M) — grupo activista que surgiu depois da manifestação —, outros distanciaram-se, envolveram-se noutras causas ou emigraram.
Paula Gil, 29 anos
“Roubaram-nos os sonhos”
Combater a precariedade laboral foi um dos objectivos da manifestação da Geração à Rasca. Uma geração altamente qualificada, mas sujeita a baixos salários e a recibos verdes. Paula Gil deu a cara por esta causa e hoje é um exemplo da precariedade entre os jovens.
“Há três anos estava a fazer um estágio profissional numa organização não-governamental, ganhava 980 euros e a minha mãe estava a trabalhar”, recorda Paula. Actualmente, a jovem trabalha a recibos verdes numa instituição particular de solidariedade social em Lisboa, recebe 800 euros de salário, sem contar com os impostos que “aumentaram imenso este ano”, diz Paula. Entretanto, a mãe e o irmão, que vivem no Porto, ficaram desempregados. “A precariedade não afecta unicamente os jovens, afecta os pais e os avós”, lamenta Paula Gil. Os jovens são “uma geração que não tem futuro, sem perspectivas ou estabilidade”, caracteriza.
Paula fez mestrado e trabalhou como voluntária fora de Portugal. Voltou porque não queria emigrar. “Queria contribuir para o nosso país”, afirma. Conseguiu, com os outros amigos, organizar uma manifestação que mobilizou milhares de pessoas. Abandonou, entretanto, o M12M e integrou o movimento Que se Lixe a Troika, mas se agora tivesse uma oportunidade melhor fora do país, não recusava. “Roubaram-nos os sonhos”, lamenta.
João Labrincha, 30 anos
“Fazer de cada cidadão um político”
Há três anos, João Labrincha estava desempregado. A falta de oportunidades para os jovens e a precariedade no mercado laboral eram temas frequentes nas conversas com os amigos Alexandre, António e Paula — antigos estudantes de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, que organizaram a manifestação da Geração à Rasca. “Queríamos dar o exemplo às pessoas, mostrar que era possível agir”, recorda João, que vive em Lisboa.
“Só uma mensagem passou com a manifestação: colocámos nas bocas do mundo a palavra precariedade. Muita gente tomou consciência desta situação, de que os nossos direitos laborais não estavam a ser respeitados”, afirma João. A segunda mensagem, mais complexa, não chegou às pessoas. “Fazer de cada cidadão um político”, frase de José Saramago, é hoje uma das máximas de João Labrincha no seu trabalho na Academia Cidadã, associação sem fins lucrativos que vive de donativos e trabalho voluntário. É lá que João trabalha a tempo inteiro, em regime de estágio profissional.
João chegou à conclusão de que, mais do que organizar manifestações, é preciso “mudar mentalidades” e “dar poder às pessoas”. A Academia Cidadã quer ser uma escola de cidadania, quer formar activistas através de “workshops, oficinas” e do trabalho em “outras formas de intervenção na sociedade”, explica João. Para dar continuidade ao projecto e tentar empregar mais pessoas, a Academia Cidadã vai concorrer a fundos comunitários e organizar uma campanha de “crowdfunding”. Em Julho, acaba o estágio profissional de João e, se até lá não tiver conseguido financiamento para a associação, o jovem sabe que vai ter de começar a procurar outro emprego e dedicar-se ao projecto em “part-time”. “Mas tenho esperanças de que vou conseguir”, afirma João.
António Frazão, 28 anos
“É preciso voltar a acreditar”
Em 2011, António Frazão era trabalhador-estudante em Coimbra. Depois de concluir o mestrado, procurou emprego em Portugal e no estrangeiro, até que surgiu a oportunidade de ingressar no programa INOV Contacto. “Pensei que era a melhor forma de explorar o meu potencial e de dar uma melhor utilidade prática à minha preparação académica”, conta-nos António Frazão, a partir de Bruxelas.
O jovem está a trabalhar há dois meses na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia. Uma experiência nova, fora do país, que ainda agora começou. António considera, por isso, que é cedo para pensar no futuro e não sabe se regressa a Portugal quando terminar o estágio no INOV Contacto. Tem a certeza de que faz parte da “geração com maior nível de formação” do país e que “está bem preparada para ter sucesso, quer em Portugal, quer no estrangeiro”. “Sinto que falta a confiança, resultado da saturação com a situação do país. Algures no tempo perdemos a esperança num futuro melhor. É preciso voltar a acreditar”, afirma.
António não integrou o M12M, fundado depois da manifestação da Geração à Rasca, mas mantém o contacto com os amigos João, Paula e Alexandre. Apesar de não se ter vinculado a mais nenhum movimento cívico, o jovem defende que “todos temos o direito de intervir na sociedade” e que “em Portugal existe uma forte sociedade civil que o faz, mas que passa despercebida”.
Alexandre Carvalho, 28 anos
“Fui o único que ficou na mesma”
“De todos os meus amigos, fui o único que ficou na mesma”, começa por dizer Alexandre Carvalho. “Na altura da manifestação, tinha conseguido uma bolsa de investigação”, conta. Hoje em dia, o jovem está a cursar o doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), estando agora no período de renovação da bolsa. Está, por isso, a acompanhar com atenção os cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, que causaram polémica em Janeiro. “Só demonstra que a aposta deste governo não é na ciência e na educação, mas sim nos baixos salários”, refere Alexandre.
O jovem é também membro da Academia Cidadã, “a primeira ideia a surgir depois da manifestação, mas que precisou de algum tempo para amadurecer”, explica. Alexandre considera que “é normal haver ciclos de maior contestação nas ruas e períodos mais calmos”. “Com a aproximação de eleições, as pessoas ficam também na expectativa do que poderá acontecer”, explica.
Quando terminar a tese de doutoramento, Alexandre não põe de lado a opção de emigrar. “Os jovens não têm medo de sair para procurar trabalho, há é uma certa angustia de que o país não tenha espaço para nós”, realça. “De que emigrar seja uma imposição e não uma opção”, conclui.
O P3 foi saber onde estão os jovens que, há três anos, organizaram a manifestação da Geração à Rasca. O evento criado no Facebook levou cerca de 500 mil pessoas às ruas
Uma ideia de um grupo de amigos resultou numa das maiores manifestações não vinculadas a partidos políticos desde o 25 de Abril em Portugal. Ainda te lembras onde estavas a 12 de Março de 2011? João Labrincha, Paula Gil, Alexandre Carvalho e António Frazão sabem exactamente onde passaram esse dia: nas ruas. Mas, antes disso, viveram meses intensos desde que decidiram organizar a manifestação da Geração à Rasca. Três anos volvidos, as vidas destes quatro jovens seguiram caminhos diferentes. Uns continuaram ligados ao Movimento 12 de Março (M12M) — grupo activista que surgiu depois da manifestação —, outros distanciaram-se, envolveram-se noutras causas ou emigraram.
Paula Gil, 29 anos
“Roubaram-nos os sonhos”
Combater a precariedade laboral foi um dos objectivos da manifestação da Geração à Rasca. Uma geração altamente qualificada, mas sujeita a baixos salários e a recibos verdes. Paula Gil deu a cara por esta causa e hoje é um exemplo da precariedade entre os jovens.
“Há três anos estava a fazer um estágio profissional numa organização não-governamental, ganhava 980 euros e a minha mãe estava a trabalhar”, recorda Paula. Actualmente, a jovem trabalha a recibos verdes numa instituição particular de solidariedade social em Lisboa, recebe 800 euros de salário, sem contar com os impostos que “aumentaram imenso este ano”, diz Paula. Entretanto, a mãe e o irmão, que vivem no Porto, ficaram desempregados. “A precariedade não afecta unicamente os jovens, afecta os pais e os avós”, lamenta Paula Gil. Os jovens são “uma geração que não tem futuro, sem perspectivas ou estabilidade”, caracteriza.
Paula fez mestrado e trabalhou como voluntária fora de Portugal. Voltou porque não queria emigrar. “Queria contribuir para o nosso país”, afirma. Conseguiu, com os outros amigos, organizar uma manifestação que mobilizou milhares de pessoas. Abandonou, entretanto, o M12M e integrou o movimento Que se Lixe a Troika, mas se agora tivesse uma oportunidade melhor fora do país, não recusava. “Roubaram-nos os sonhos”, lamenta.
João Labrincha, 30 anos
“Fazer de cada cidadão um político”
Há três anos, João Labrincha estava desempregado. A falta de oportunidades para os jovens e a precariedade no mercado laboral eram temas frequentes nas conversas com os amigos Alexandre, António e Paula — antigos estudantes de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra, que organizaram a manifestação da Geração à Rasca. “Queríamos dar o exemplo às pessoas, mostrar que era possível agir”, recorda João, que vive em Lisboa.
“Só uma mensagem passou com a manifestação: colocámos nas bocas do mundo a palavra precariedade. Muita gente tomou consciência desta situação, de que os nossos direitos laborais não estavam a ser respeitados”, afirma João. A segunda mensagem, mais complexa, não chegou às pessoas. “Fazer de cada cidadão um político”, frase de José Saramago, é hoje uma das máximas de João Labrincha no seu trabalho na Academia Cidadã, associação sem fins lucrativos que vive de donativos e trabalho voluntário. É lá que João trabalha a tempo inteiro, em regime de estágio profissional.
João chegou à conclusão de que, mais do que organizar manifestações, é preciso “mudar mentalidades” e “dar poder às pessoas”. A Academia Cidadã quer ser uma escola de cidadania, quer formar activistas através de “workshops, oficinas” e do trabalho em “outras formas de intervenção na sociedade”, explica João. Para dar continuidade ao projecto e tentar empregar mais pessoas, a Academia Cidadã vai concorrer a fundos comunitários e organizar uma campanha de “crowdfunding”. Em Julho, acaba o estágio profissional de João e, se até lá não tiver conseguido financiamento para a associação, o jovem sabe que vai ter de começar a procurar outro emprego e dedicar-se ao projecto em “part-time”. “Mas tenho esperanças de que vou conseguir”, afirma João.
António Frazão, 28 anos
“É preciso voltar a acreditar”
Em 2011, António Frazão era trabalhador-estudante em Coimbra. Depois de concluir o mestrado, procurou emprego em Portugal e no estrangeiro, até que surgiu a oportunidade de ingressar no programa INOV Contacto. “Pensei que era a melhor forma de explorar o meu potencial e de dar uma melhor utilidade prática à minha preparação académica”, conta-nos António Frazão, a partir de Bruxelas.
O jovem está a trabalhar há dois meses na Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia. Uma experiência nova, fora do país, que ainda agora começou. António considera, por isso, que é cedo para pensar no futuro e não sabe se regressa a Portugal quando terminar o estágio no INOV Contacto. Tem a certeza de que faz parte da “geração com maior nível de formação” do país e que “está bem preparada para ter sucesso, quer em Portugal, quer no estrangeiro”. “Sinto que falta a confiança, resultado da saturação com a situação do país. Algures no tempo perdemos a esperança num futuro melhor. É preciso voltar a acreditar”, afirma.
António não integrou o M12M, fundado depois da manifestação da Geração à Rasca, mas mantém o contacto com os amigos João, Paula e Alexandre. Apesar de não se ter vinculado a mais nenhum movimento cívico, o jovem defende que “todos temos o direito de intervir na sociedade” e que “em Portugal existe uma forte sociedade civil que o faz, mas que passa despercebida”.
Alexandre Carvalho, 28 anos
“Fui o único que ficou na mesma”
“De todos os meus amigos, fui o único que ficou na mesma”, começa por dizer Alexandre Carvalho. “Na altura da manifestação, tinha conseguido uma bolsa de investigação”, conta. Hoje em dia, o jovem está a cursar o doutoramento em Ciência Política e Relações Internacionais no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), estando agora no período de renovação da bolsa. Está, por isso, a acompanhar com atenção os cortes nas bolsas de doutoramento e pós-doutoramento, que causaram polémica em Janeiro. “Só demonstra que a aposta deste governo não é na ciência e na educação, mas sim nos baixos salários”, refere Alexandre.
O jovem é também membro da Academia Cidadã, “a primeira ideia a surgir depois da manifestação, mas que precisou de algum tempo para amadurecer”, explica. Alexandre considera que “é normal haver ciclos de maior contestação nas ruas e períodos mais calmos”. “Com a aproximação de eleições, as pessoas ficam também na expectativa do que poderá acontecer”, explica.
Quando terminar a tese de doutoramento, Alexandre não põe de lado a opção de emigrar. “Os jovens não têm medo de sair para procurar trabalho, há é uma certa angustia de que o país não tenha espaço para nós”, realça. “De que emigrar seja uma imposição e não uma opção”, conclui.
26.4.12
Operários inseguros com precaridade no emprego
Texto Francisco Pedro, in Fátima Missionária
Comissão Nacional de Pastoral Operária (CNPO) reúne-se domingo, dia 29, para refletir sobre o aumento do desemprego no meio operário
A precaridade no mercado de trabalho operário está a causar preocupação aos responsáveis da CNPO, que decidiram reunir-se no próximo fim de semana, no Colégio Rainha Santa Isabel, em Coimbra, para refletirem sobre a conjuntura atual e qual o papel dos cristãos na procura de possíveis soluções.
«Assistimos diariamente a notícias de cortes, que geram mais desemprego, pobreza, desestruturação familiar, condições de vida que desrespeitam a dignidade humana, violência, e o aumento de sentimentos de xenofobia», afirmou o coordenador nacional da Pastoral Operária, Américo Monteiro, em comunicado enviado à agência Ecclesia.
De acordo com o responsável, «o problema do desemprego no meio operário é o principal desassossego dos dias de hoje e coloca em causa uma vida equilibrada», pois provoca «insegurança» aos que têm trabalho, levando-os a recear pelo futuro e formação dos filhos. Uma situação que pode provocar o aparecimento de mais «problemas sociais de extrema gravidade».
Comissão Nacional de Pastoral Operária (CNPO) reúne-se domingo, dia 29, para refletir sobre o aumento do desemprego no meio operário
A precaridade no mercado de trabalho operário está a causar preocupação aos responsáveis da CNPO, que decidiram reunir-se no próximo fim de semana, no Colégio Rainha Santa Isabel, em Coimbra, para refletirem sobre a conjuntura atual e qual o papel dos cristãos na procura de possíveis soluções.
«Assistimos diariamente a notícias de cortes, que geram mais desemprego, pobreza, desestruturação familiar, condições de vida que desrespeitam a dignidade humana, violência, e o aumento de sentimentos de xenofobia», afirmou o coordenador nacional da Pastoral Operária, Américo Monteiro, em comunicado enviado à agência Ecclesia.
De acordo com o responsável, «o problema do desemprego no meio operário é o principal desassossego dos dias de hoje e coloca em causa uma vida equilibrada», pois provoca «insegurança» aos que têm trabalho, levando-os a recear pelo futuro e formação dos filhos. Uma situação que pode provocar o aparecimento de mais «problemas sociais de extrema gravidade».
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