in sicnoticias
"A Luz de Judá" é um filme que junta as comunidades judaica e católica no apoio ao combate à pobreza criada pela pandemia do novo coronavírus.
As receitas do filme de Luís Ismael vão reverter para várias instituições, uma delas é o centro social de Nossa Senhora da Conceição, no Porto, que distribui refeições por pessoas carenciadas e sem-abrigo.
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28.1.15
Para os sobreviventes as memórias de Auschwitz não se apagam
Clara Barata, in Público on-line
Muitos dos que saíram vivos dos campos de concentração nazis continuam a ter comportamentos motivados pela experiência traumatizante que marcou as suas vidas.
Aos 91 anos, o rosto da polaca Zofia Posmysz ainda se crispa de emoção e de terror ao recordar o que passou em Auschwitz. “Ninguém pode imaginar o grito de uma pessoa que está a morrer electrocutada”, conta. “À noite, as raparigas desesperadas atiravam-se contra as cercas electrificadas para pôr fim à vida. Era horrível. Era mesmo horrível.”
Os últimos sobreviventes de Auschwitz são anciãos – têm 80, 90 anos e até mais. São frágeis, e carregam memórias muito pesadas Os mortos que não suportavam mais o sofrimento do campo são o maior peso que Zofia Posmys carrega. “Vi cadáveres de pessoas que se enforcaram no arame farpado. E à noite éramos acordadas por gritos medonhos”, contou à AFP a antiga prisioneira número 7566.
Cerca de metade dos 114 mil sobreviventes do Holocausto que vivem hoje nos Estados Unidos habitam na área metropolitana de Nova Iorque, e têm uma idade média de 79 anos. Metade deles morreram na última década e pelo menos metade dos que restam devem morrer nos próximos sete anos, disse à Reuters said Hillary Kessler-Godin, porta-voz da Conferência de Pedidos de Indemnização Judaicos contra a Alemanha.
A maioria é pobre, e precisa de um apoio especial, por causa do stress, que os afectou para toda a vida, bem como a má-nutrição. Em Auschwitz, como noutros campos de concentração, os que não eram mortos de imediato eram forçados a trabalhar quase sem alimentos. Eram mortos de fome e de trabalho, e deixados ao frio.
Muitos continuam a ter comportamentos motivados pela experiência traumatizante que marcou as suas vidas: acumulam e escondem comida, e não conseguem confiar em ninguém. E recusam-se a tomar duches, pois esse era o engodo usado para levar os prisioneiros a entrar nas câmaras de gás onde eram mortos.
As memórias são coisas difíceis de largar. Hy Abrams, 90 anos, tem uma agenda pequenina, de capa azul, onde escreveu os nomes que o assombram ainda, passados 70 anos: Auschwitz, Plaszow, Mauthausen, Melk and Ebensee.
Foram os campos de concentração por onde passou este checo que hoje vive em Brooklyn, Nova Iorque, desde que soldados da Alemanha nazi o levaram e o separaram da sua mãe, pai, irmão e três irmãs. “À noite via as chaminés, o fogo e o fumo”, que cheirava a carne, recordou à Reuters. “Aquele fogo é para onde ia o nosso pai e a nossa família”.
Abrams nunca mais viu os pais, mas ainda vislumbrou as três irmãs, quando foi de Auschwitz para o campo de Plaszow, também na Polónia, onde o puseram a fabricar botas para os militares alemães. Com o cabelo rapado, reduzidas a ossos por causa da fome, não tinham nada a ver com as bonitas raparigas que eram. Uma chamou-o e perguntou pela mãe, mas ele não respondeu. “Estava tão deprimido que nem consegui olhar para o sítio de onde vinha a voz”, contou Abrams, quase a sufocar de emoção. “Isto pesa-me na consciência.”
Golda Pollac, de 89 anos, também vive hoje em Brooklyn, mas a sua história começou na Roménia. Nunca mais viu os pais desde que chegou a Auschwitz. Ela tinha 19 anos, e acabou por ser enviada para um campo de trabalho, para Buchenwald, onde trabalhou numa fábrica de aviões. Raparam-lhe o cabelo e tatuaram-lhe um número no braço – que passou a ser a sua única identificação, como acontecia a todos os que entravam nos campos de concentração nazis.
Durante as marchas forçadas de campo para campo, ela arrancava erva do chão, para tentar não morrer de fome. “Eu dizia: ‘Há o Céu e aqui é o Inferno. Agora estamos no Inferno. Aqui as pessoas fazem tudo.”
Muitos dos que saíram vivos dos campos de concentração nazis continuam a ter comportamentos motivados pela experiência traumatizante que marcou as suas vidas.
Aos 91 anos, o rosto da polaca Zofia Posmysz ainda se crispa de emoção e de terror ao recordar o que passou em Auschwitz. “Ninguém pode imaginar o grito de uma pessoa que está a morrer electrocutada”, conta. “À noite, as raparigas desesperadas atiravam-se contra as cercas electrificadas para pôr fim à vida. Era horrível. Era mesmo horrível.”
Os últimos sobreviventes de Auschwitz são anciãos – têm 80, 90 anos e até mais. São frágeis, e carregam memórias muito pesadas Os mortos que não suportavam mais o sofrimento do campo são o maior peso que Zofia Posmys carrega. “Vi cadáveres de pessoas que se enforcaram no arame farpado. E à noite éramos acordadas por gritos medonhos”, contou à AFP a antiga prisioneira número 7566.
Cerca de metade dos 114 mil sobreviventes do Holocausto que vivem hoje nos Estados Unidos habitam na área metropolitana de Nova Iorque, e têm uma idade média de 79 anos. Metade deles morreram na última década e pelo menos metade dos que restam devem morrer nos próximos sete anos, disse à Reuters said Hillary Kessler-Godin, porta-voz da Conferência de Pedidos de Indemnização Judaicos contra a Alemanha.
A maioria é pobre, e precisa de um apoio especial, por causa do stress, que os afectou para toda a vida, bem como a má-nutrição. Em Auschwitz, como noutros campos de concentração, os que não eram mortos de imediato eram forçados a trabalhar quase sem alimentos. Eram mortos de fome e de trabalho, e deixados ao frio.
Muitos continuam a ter comportamentos motivados pela experiência traumatizante que marcou as suas vidas: acumulam e escondem comida, e não conseguem confiar em ninguém. E recusam-se a tomar duches, pois esse era o engodo usado para levar os prisioneiros a entrar nas câmaras de gás onde eram mortos.
As memórias são coisas difíceis de largar. Hy Abrams, 90 anos, tem uma agenda pequenina, de capa azul, onde escreveu os nomes que o assombram ainda, passados 70 anos: Auschwitz, Plaszow, Mauthausen, Melk and Ebensee.
Foram os campos de concentração por onde passou este checo que hoje vive em Brooklyn, Nova Iorque, desde que soldados da Alemanha nazi o levaram e o separaram da sua mãe, pai, irmão e três irmãs. “À noite via as chaminés, o fogo e o fumo”, que cheirava a carne, recordou à Reuters. “Aquele fogo é para onde ia o nosso pai e a nossa família”.
Abrams nunca mais viu os pais, mas ainda vislumbrou as três irmãs, quando foi de Auschwitz para o campo de Plaszow, também na Polónia, onde o puseram a fabricar botas para os militares alemães. Com o cabelo rapado, reduzidas a ossos por causa da fome, não tinham nada a ver com as bonitas raparigas que eram. Uma chamou-o e perguntou pela mãe, mas ele não respondeu. “Estava tão deprimido que nem consegui olhar para o sítio de onde vinha a voz”, contou Abrams, quase a sufocar de emoção. “Isto pesa-me na consciência.”
Golda Pollac, de 89 anos, também vive hoje em Brooklyn, mas a sua história começou na Roménia. Nunca mais viu os pais desde que chegou a Auschwitz. Ela tinha 19 anos, e acabou por ser enviada para um campo de trabalho, para Buchenwald, onde trabalhou numa fábrica de aviões. Raparam-lhe o cabelo e tatuaram-lhe um número no braço – que passou a ser a sua única identificação, como acontecia a todos os que entravam nos campos de concentração nazis.
Durante as marchas forçadas de campo para campo, ela arrancava erva do chão, para tentar não morrer de fome. “Eu dizia: ‘Há o Céu e aqui é o Inferno. Agora estamos no Inferno. Aqui as pessoas fazem tudo.”
"Como é que isto está a acontecer outra vez", perguntam sobreviventes do Holocausto
Rita Siza, in Públio on-line
Cerimónia assinala o 70.º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. “Pensávamos que o ódio aos judeus tinha sido erradicado mas em vez de 2015 mais parece 1933", lamenta presidente do Congresso Mundial Judaico.
Com idades entre os 80 e os 90 anos, os últimos sobreviventes de Auschwitz viajaram até ao Sul da Polónia para assinalar o 70º aniversário da libertação do que foi o maior campo de concentração e extermínio nazi, conscientes de que, provavelmente, seria a sua derradeira homenagem às mais de 5,5 milhões de judeus vítimas do Holocausto.
“Fizemos um esforço especial para os termos aqui hoje”, admitiu o presidente do Congresso Mundial Judaico, Ronald Lauder. “Sabemos que esta deve ser a última vez que teremos uma presença tão proeminente de sobreviventes. Muitos já não vão estar connosco quando marcarmos o 75º aniversário”, observou ao diário britânico The Guardian.
Mas mais do que recordar o passado, o que estes octogenários pretendem é reflectir sobre as lições da História, num momento em que ressurgem ataques anti-semitas e se verifica expansão territorial assente em conflitos étnicos e sectários na Europa. Como é possível que, ali ao lado, os judeus sejam abatidos em ataques terroristas em França, ou que as fronteiras de um país sejam ultrapassadas e regiões sejam sumariamente anexadas, como na Ucrânia, questionam-se – será que não se aprendeu nada?
“Nós, sobreviventes, jamais esqueceremos o que se passou aqui”, declarou Roman Kent, um dos antigos prisioneiros e membro do Conselho Internacional de Auschwitz. “Mas lembrar não é o suficiente. Palavras são importantes mas acções são cruciais”, declarou, defendendo como “obrigação dos sobreviventes mas também dos líderes políticos” educar as gerações para o respeito e a tolerância, “ensinar que o ódio nunca está certo e o amor nunca está errado”.
Numa longa intervenção, a voz de Roman Kent, de 86 anos, só tremeu uma vez, quando disse que “não queremos que o nosso passado seja o futuro dos nossos filhos”. “Não queremos que o nosso passado seja o futuro dos nossos filhos”, repetiu, em lágrimas, pelo que a promoção do “pluralismo, da tolerância e dos direitos humanos tem de incluir a oposição ao anti-semitismo e ao racismo. Essa devia ser a norma e não a excepção”.
Na mesma linha, Ronald Lauder, um descendente de judeus húngaros nascido em Nova Iorque em 1944, evocou a indiferença, que leva o ódio a insinuar-se nas sociedades até ser tarde demais. “Queria fazer outro discurso aqui , mas depois do que aconteceu recentemente em Paris, não posso deixar de falar. Os judeus estão novamente a ser atacados na Europa”, lamentou. “Pensávamos que o ódio aos judeus tinha sido erradicado mas agora acordamos e em vez de 2015 mais parece 1933. Como é que isto está a acontecer outra vez? E porquê?”
Uma realidade insuportável
As mesmas dúvidas e inquietações que afligem os judeus e os sobreviventes do Holocausto foram mencionadas ao longo do dia por alguns dos chefes de Estado europeus presentes na cerimónia em Auschwitz. Antes de viajar para a Polónia, o Presidente de França, François Hollande, homenageou os cerca de 75 mil judeus franceses deportados pelo regime colaboracionista de Vichy, numa cerimónia no Memorial do Holocausto de Paris. O anti-semitismo e o racismo serão, a partir de agora, “agravantes” a ter em conta na aplicação do código penal gaulês, anunciou.
Hollande descreveu o aumento dos actos contra judeus, que duplicaram em França em 2014, como uma “realidade insuportável”, e reconheceu que o “flagelo” do anti-semitismo está a levar muitos membros da comunidade a “interrogar-se sobre a sua presença em França”. Mas num apelo vigoroso, três semanas depois dos atentados terroristas que atingiram o jornal satírico Charlie Hebdo e um supermercado kosher, o Presidente garantiu a todos os franceses de confissão judaica que não têm de fugir: “A França é a vossa pátria. O vosso lugar é aqui. O nosso país não seria o mesmo se tivesse de viver sem vós”.
Também a chanceler alemã Angela Merkel lamentou que, 70 anos depois da libertação de Auschwitz, continue a haver quem seja “ameaçado, atacado e agredido, na Alemanha, por dizer que é judeu ou por tomar partido por Israel". "É vergonhoso”, considerou. “Temos de nos opor ao anti-semitismo e todas as formas de racismo, não podemos admitir palavras racistas contra os judeus ou contra as pessoas que encontraram na Alemanha um local de abrigo da guerra e da perseguição”.
Reconhecendo que o seu país tem uma “responsabilidade eterna” pelas atrocidades cometidas pelo regime nazi em Auschwitz e muitos outros lugares, Merkel sublinhou que a ameaça do mal continua a pairar hoje em dia, sob a forma do terrorismo islamista e do anti-semitismo. Mas “cada um deve poder viver em segurança e liberdade, independentemente da sua religião ou da sua origem”, contrapôs. “Muçulmanos, judeus ou cristãos, crentes ou ateus, não nos vamos deixar dividir”, declarou.
Onda de ódio
Tal como Merkel, Ronald Lauder fez questão de frisar durante o seu discurso em nome dos “Pilares da Memória”, que a “onda de ódio que está a varrer o mundo” não atinge só os judeus. “Os cristãos estão a ser massacrados em África. As mulheres e crianças são atacadas por ir à escola no Afeganistão e Paquistão. Os jornalistas são decapitados no Médio Oriente”, enumerou. “Todos os países deviam criminalizar o ódio. E qualquer país que defende a aniquilação de outros países devia ser expulso da comunidade das nações. Se não agirmos depressa, a tragédia deste lugar terrível voltará a ensombrar o mundo. Não deixem que isso volte a acontecer”, pediu.
O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que se tornou uma presença incómoda por causa das acções beligerantes de Moscovo na vizinha Ucrânia, não foi oficialmente convidado para a cerimónia em Auschwitz, mas nem por isso deixou de prestar tributo às vítimas do Holocausto e de elogiar os esforços do Exército soviético na Segunda Guerra Mundial.
Numa sessão no museu do Judaísmo de Moscovo, Vladimir Putin condenou as tentativas de “silenciar, distorcer ou falsificar os acontecimentos para reescrever a História” como “inaceitáveis” e “imorais”, e ofereceu a sua própria interpretação para esse comportamento: “É o desejo de esconder a vergonha da cobardia, hipocrisia, traição, e da cumplicidade tácita, passiva ou activa, com os nazis”.
O Presidente russo nem precisou de referir explicitamente os alegados culpados dessas tentativas, uma vez que há vários anos vem acusando as autoridades ucranianas de reclamarem um falso protagonismo na libertação de Auschwitz. A discórdia aprofundou-se depois de declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros polaco que atribuiu a soldados ucranianos a responsabilidade pela libertação de Auschwitz: perante essas palavras, o embaixador russo nas Nações Unidas clarificou que a 322ª divisão de artilharia do Exército soviético, que entrou no campo em 21945, era designada como a primeira frente ucraniana por ter “libertado a Ucrânia dos nazis antes de chegar à Polónia”.
Cerimónia assinala o 70.º aniversário da libertação do campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. “Pensávamos que o ódio aos judeus tinha sido erradicado mas em vez de 2015 mais parece 1933", lamenta presidente do Congresso Mundial Judaico.
Com idades entre os 80 e os 90 anos, os últimos sobreviventes de Auschwitz viajaram até ao Sul da Polónia para assinalar o 70º aniversário da libertação do que foi o maior campo de concentração e extermínio nazi, conscientes de que, provavelmente, seria a sua derradeira homenagem às mais de 5,5 milhões de judeus vítimas do Holocausto.
“Fizemos um esforço especial para os termos aqui hoje”, admitiu o presidente do Congresso Mundial Judaico, Ronald Lauder. “Sabemos que esta deve ser a última vez que teremos uma presença tão proeminente de sobreviventes. Muitos já não vão estar connosco quando marcarmos o 75º aniversário”, observou ao diário britânico The Guardian.
Mas mais do que recordar o passado, o que estes octogenários pretendem é reflectir sobre as lições da História, num momento em que ressurgem ataques anti-semitas e se verifica expansão territorial assente em conflitos étnicos e sectários na Europa. Como é possível que, ali ao lado, os judeus sejam abatidos em ataques terroristas em França, ou que as fronteiras de um país sejam ultrapassadas e regiões sejam sumariamente anexadas, como na Ucrânia, questionam-se – será que não se aprendeu nada?
“Nós, sobreviventes, jamais esqueceremos o que se passou aqui”, declarou Roman Kent, um dos antigos prisioneiros e membro do Conselho Internacional de Auschwitz. “Mas lembrar não é o suficiente. Palavras são importantes mas acções são cruciais”, declarou, defendendo como “obrigação dos sobreviventes mas também dos líderes políticos” educar as gerações para o respeito e a tolerância, “ensinar que o ódio nunca está certo e o amor nunca está errado”.
Numa longa intervenção, a voz de Roman Kent, de 86 anos, só tremeu uma vez, quando disse que “não queremos que o nosso passado seja o futuro dos nossos filhos”. “Não queremos que o nosso passado seja o futuro dos nossos filhos”, repetiu, em lágrimas, pelo que a promoção do “pluralismo, da tolerância e dos direitos humanos tem de incluir a oposição ao anti-semitismo e ao racismo. Essa devia ser a norma e não a excepção”.
Na mesma linha, Ronald Lauder, um descendente de judeus húngaros nascido em Nova Iorque em 1944, evocou a indiferença, que leva o ódio a insinuar-se nas sociedades até ser tarde demais. “Queria fazer outro discurso aqui , mas depois do que aconteceu recentemente em Paris, não posso deixar de falar. Os judeus estão novamente a ser atacados na Europa”, lamentou. “Pensávamos que o ódio aos judeus tinha sido erradicado mas agora acordamos e em vez de 2015 mais parece 1933. Como é que isto está a acontecer outra vez? E porquê?”
Uma realidade insuportável
As mesmas dúvidas e inquietações que afligem os judeus e os sobreviventes do Holocausto foram mencionadas ao longo do dia por alguns dos chefes de Estado europeus presentes na cerimónia em Auschwitz. Antes de viajar para a Polónia, o Presidente de França, François Hollande, homenageou os cerca de 75 mil judeus franceses deportados pelo regime colaboracionista de Vichy, numa cerimónia no Memorial do Holocausto de Paris. O anti-semitismo e o racismo serão, a partir de agora, “agravantes” a ter em conta na aplicação do código penal gaulês, anunciou.
Hollande descreveu o aumento dos actos contra judeus, que duplicaram em França em 2014, como uma “realidade insuportável”, e reconheceu que o “flagelo” do anti-semitismo está a levar muitos membros da comunidade a “interrogar-se sobre a sua presença em França”. Mas num apelo vigoroso, três semanas depois dos atentados terroristas que atingiram o jornal satírico Charlie Hebdo e um supermercado kosher, o Presidente garantiu a todos os franceses de confissão judaica que não têm de fugir: “A França é a vossa pátria. O vosso lugar é aqui. O nosso país não seria o mesmo se tivesse de viver sem vós”.
Também a chanceler alemã Angela Merkel lamentou que, 70 anos depois da libertação de Auschwitz, continue a haver quem seja “ameaçado, atacado e agredido, na Alemanha, por dizer que é judeu ou por tomar partido por Israel". "É vergonhoso”, considerou. “Temos de nos opor ao anti-semitismo e todas as formas de racismo, não podemos admitir palavras racistas contra os judeus ou contra as pessoas que encontraram na Alemanha um local de abrigo da guerra e da perseguição”.
Reconhecendo que o seu país tem uma “responsabilidade eterna” pelas atrocidades cometidas pelo regime nazi em Auschwitz e muitos outros lugares, Merkel sublinhou que a ameaça do mal continua a pairar hoje em dia, sob a forma do terrorismo islamista e do anti-semitismo. Mas “cada um deve poder viver em segurança e liberdade, independentemente da sua religião ou da sua origem”, contrapôs. “Muçulmanos, judeus ou cristãos, crentes ou ateus, não nos vamos deixar dividir”, declarou.
Onda de ódio
Tal como Merkel, Ronald Lauder fez questão de frisar durante o seu discurso em nome dos “Pilares da Memória”, que a “onda de ódio que está a varrer o mundo” não atinge só os judeus. “Os cristãos estão a ser massacrados em África. As mulheres e crianças são atacadas por ir à escola no Afeganistão e Paquistão. Os jornalistas são decapitados no Médio Oriente”, enumerou. “Todos os países deviam criminalizar o ódio. E qualquer país que defende a aniquilação de outros países devia ser expulso da comunidade das nações. Se não agirmos depressa, a tragédia deste lugar terrível voltará a ensombrar o mundo. Não deixem que isso volte a acontecer”, pediu.
O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, que se tornou uma presença incómoda por causa das acções beligerantes de Moscovo na vizinha Ucrânia, não foi oficialmente convidado para a cerimónia em Auschwitz, mas nem por isso deixou de prestar tributo às vítimas do Holocausto e de elogiar os esforços do Exército soviético na Segunda Guerra Mundial.
Numa sessão no museu do Judaísmo de Moscovo, Vladimir Putin condenou as tentativas de “silenciar, distorcer ou falsificar os acontecimentos para reescrever a História” como “inaceitáveis” e “imorais”, e ofereceu a sua própria interpretação para esse comportamento: “É o desejo de esconder a vergonha da cobardia, hipocrisia, traição, e da cumplicidade tácita, passiva ou activa, com os nazis”.
O Presidente russo nem precisou de referir explicitamente os alegados culpados dessas tentativas, uma vez que há vários anos vem acusando as autoridades ucranianas de reclamarem um falso protagonismo na libertação de Auschwitz. A discórdia aprofundou-se depois de declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros polaco que atribuiu a soldados ucranianos a responsabilidade pela libertação de Auschwitz: perante essas palavras, o embaixador russo nas Nações Unidas clarificou que a 322ª divisão de artilharia do Exército soviético, que entrou no campo em 21945, era designada como a primeira frente ucraniana por ter “libertado a Ucrânia dos nazis antes de chegar à Polónia”.
Sem "vergonha", Europa volta a permitir "novo êxodo" de judeus
Por Diogo Vaz Pinto, in iOnline
Merkel recorda a "responsabilidade eterna" que recai sobre os ombros da Alemanha de recordar o Holocausto e proteger os judeus no mundo
A data, o septuagésimo aniversário da libertação de Auschwitz, faz o futuro baixar a cabeça para ser arrastada de volta ao passado, com inúmeras cerimónias a assinalar um dos mais sangrentos episódios na saga da perseguição aos judeus na Europa e um pouco por todo o mundo. Mas se é certo que a história se repete, uma cultura de ódio que nunca foi reeducada tem por estes dias uma série de manifestações que permitem temer um novo êxodo da comunidade judaica da Europa. O aviso vem do chefe do Congresso Judaico Europeu, Moshe Kantor. Também a chanceler alemã, Angela Merkel, disse ontem que o facto de nos dias de hoje os judeus ainda terem de suportar na Alemanha insultos, ameaças ou violência é "vergonhoso".
Ao lado de alguns dos sobreviventes de Auschwitz, a líder alemã foi para lá da solenidade sempre tão barata nestas cerimónias e trouxe convicção a um evento na capital alemã, que, sendo comovente, não separou a assombração do passado de uma ameaça que no máximo dorme do outro lado da porta, deixando um olho aberto.
Auschwitz, sublinhou Merkel, é um "aviso" daquilo que as pessoas são capazes de fazer umas às outras. Falou no orgulho de um país que apesar do fardo histórico que carrega é ainda a casa de mais de 100 mil judeus. Por outro lado, disse que, "infelizmente, não sem razão", muitos hoje voltam a recear ser alvo de insultos ou de ataques. "É uma vergonha que as pessoas na Alemanha sejam vitimadas, ameaçadas ou atacadas quando de algum modo dão sinais de ser judias ou quando assumem posições favoráveis ao estado de Israel", acentuou. E foi ainda mais clara ao notar que as sinagogas e as instituições judaicas terem de ser vigiadas pela polícia é "uma mancha no nosso país".
E aqui, para que não venham os eternos "mas" e as comuns ressalvas, Merkel pôs acima de tudo a "eterna responsabilidade" que pesa sobre os alemães no sentido de não deixar que sejam esquecidos os horrores desencadeados pelos nazis, e que a memória do Holocausto molda a própria imagem que a Alemanha tem de si mesma. "Entre nós, todos terão de se sentir capazes de viver em liberdade e em segurança, independentemente da sua religião ou origem."
Num fórum sobre o Holocausto na capital da República Checa, Praga, o líder da comunidade judaica europeia Moshe Kantor afirmou que "o jihadismo está muito próximo do nazismo". "Pode-se até dizer que são as duas faces de um mesmo mal." Sem especificar números, repetiu o que vários líderes da comunidade têm dito ao longo das últimas semanas: que a tensão e o anti-semitismo na Europa "estão prestes" a provocar um novo êxodo do Velho Mundo.
Na semana passada, o primeiro vice- -presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, protagonizou um eloquente discurso defendendo que a Europa enfrenta um "enorme desafio" que passa por tranquilizar os judeus quanto à segurança do seu futuro no continente que, ao longo da história, procurou expulsar ou extinguir esta comunidade.
Em França - país que abriga a maior comunidade judaica da Europa, estimada em cerca de 600 mil -, no rescaldo dos ataques do início do mês ao "Charlie Hebdo" e a um supermercado kosher, muitos estão com medo de não atender aos primeiros sinais de hostilidade, como os milhões de judeus que acabaram por ser exterminados pelos nazis.
De acordo com dados revelados pela polícia de Londres, os crimes com motivação anti-semita mais que duplicaram na capital no período de 12 meses até Novembro do ano passado. As sondagens indicam que quase metade dos judeus britânicos receiam não ter, a longo prazo, um futuro, seja ali, seja em algum outro país europeu.
Falando em Bruxelas sobre estes receios da comunidade judaica europeia, Frans Timmermans disse que o desafio de segurar a população judaica é um teste à firmeza dos pilares sobre os quais assenta o projecto de integração europeia. "Podemos ficar a discutir até o céu fazer desabar os problemas do euro, dos mercados internos, sobre a próxima iniciativa que pretendemos adoptar, qualquer que ela seja, mas se falhar este valor fundamental na sociedade europeia - que nos garante que há espaço para todos, independentemente dos seus credos, origens, raça ou opções que façam na vida em sociedade -, se isto for posto em causa, então temos de responder a este desafio com uma política que ofereça esperança e um futuro para todos na sociedade europeia."
Merkel recorda a "responsabilidade eterna" que recai sobre os ombros da Alemanha de recordar o Holocausto e proteger os judeus no mundo
A data, o septuagésimo aniversário da libertação de Auschwitz, faz o futuro baixar a cabeça para ser arrastada de volta ao passado, com inúmeras cerimónias a assinalar um dos mais sangrentos episódios na saga da perseguição aos judeus na Europa e um pouco por todo o mundo. Mas se é certo que a história se repete, uma cultura de ódio que nunca foi reeducada tem por estes dias uma série de manifestações que permitem temer um novo êxodo da comunidade judaica da Europa. O aviso vem do chefe do Congresso Judaico Europeu, Moshe Kantor. Também a chanceler alemã, Angela Merkel, disse ontem que o facto de nos dias de hoje os judeus ainda terem de suportar na Alemanha insultos, ameaças ou violência é "vergonhoso".
Ao lado de alguns dos sobreviventes de Auschwitz, a líder alemã foi para lá da solenidade sempre tão barata nestas cerimónias e trouxe convicção a um evento na capital alemã, que, sendo comovente, não separou a assombração do passado de uma ameaça que no máximo dorme do outro lado da porta, deixando um olho aberto.
Auschwitz, sublinhou Merkel, é um "aviso" daquilo que as pessoas são capazes de fazer umas às outras. Falou no orgulho de um país que apesar do fardo histórico que carrega é ainda a casa de mais de 100 mil judeus. Por outro lado, disse que, "infelizmente, não sem razão", muitos hoje voltam a recear ser alvo de insultos ou de ataques. "É uma vergonha que as pessoas na Alemanha sejam vitimadas, ameaçadas ou atacadas quando de algum modo dão sinais de ser judias ou quando assumem posições favoráveis ao estado de Israel", acentuou. E foi ainda mais clara ao notar que as sinagogas e as instituições judaicas terem de ser vigiadas pela polícia é "uma mancha no nosso país".
E aqui, para que não venham os eternos "mas" e as comuns ressalvas, Merkel pôs acima de tudo a "eterna responsabilidade" que pesa sobre os alemães no sentido de não deixar que sejam esquecidos os horrores desencadeados pelos nazis, e que a memória do Holocausto molda a própria imagem que a Alemanha tem de si mesma. "Entre nós, todos terão de se sentir capazes de viver em liberdade e em segurança, independentemente da sua religião ou origem."
Num fórum sobre o Holocausto na capital da República Checa, Praga, o líder da comunidade judaica europeia Moshe Kantor afirmou que "o jihadismo está muito próximo do nazismo". "Pode-se até dizer que são as duas faces de um mesmo mal." Sem especificar números, repetiu o que vários líderes da comunidade têm dito ao longo das últimas semanas: que a tensão e o anti-semitismo na Europa "estão prestes" a provocar um novo êxodo do Velho Mundo.
Na semana passada, o primeiro vice- -presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, protagonizou um eloquente discurso defendendo que a Europa enfrenta um "enorme desafio" que passa por tranquilizar os judeus quanto à segurança do seu futuro no continente que, ao longo da história, procurou expulsar ou extinguir esta comunidade.
Em França - país que abriga a maior comunidade judaica da Europa, estimada em cerca de 600 mil -, no rescaldo dos ataques do início do mês ao "Charlie Hebdo" e a um supermercado kosher, muitos estão com medo de não atender aos primeiros sinais de hostilidade, como os milhões de judeus que acabaram por ser exterminados pelos nazis.
De acordo com dados revelados pela polícia de Londres, os crimes com motivação anti-semita mais que duplicaram na capital no período de 12 meses até Novembro do ano passado. As sondagens indicam que quase metade dos judeus britânicos receiam não ter, a longo prazo, um futuro, seja ali, seja em algum outro país europeu.
Falando em Bruxelas sobre estes receios da comunidade judaica europeia, Frans Timmermans disse que o desafio de segurar a população judaica é um teste à firmeza dos pilares sobre os quais assenta o projecto de integração europeia. "Podemos ficar a discutir até o céu fazer desabar os problemas do euro, dos mercados internos, sobre a próxima iniciativa que pretendemos adoptar, qualquer que ela seja, mas se falhar este valor fundamental na sociedade europeia - que nos garante que há espaço para todos, independentemente dos seus credos, origens, raça ou opções que façam na vida em sociedade -, se isto for posto em causa, então temos de responder a este desafio com uma política que ofereça esperança e um futuro para todos na sociedade europeia."
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