Catia Mateus, in Expresso
Mobilidade, flexibilidade, envelhecimento progressivo da população ativa, escassez de talento, precarização do trabalho, automação e estagnação salarial vão marcar o mercado de trabalho na próxima década. O Expresso reuniu um conjunto de especialistas — recrutadores, sociólogos e economistas — para antecipar os próximos anos em matéria de emprego
“O envelhecimento da população ativa vai acentuar-se” e esse será um dos principais motores da mudança que se antecipa para o mercado de trabalho nos próximos dez anos. É João Cerejeira, economista e professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, quem o afirma. Cerejeira realça que “mesmo estando a aumentar o emprego nos grupos de trabalhadores mais seniores, quando analisamos a tendência dos últimos anos, o grupo dos 35 anos continua a perder pessoas”. Um fenómeno que deverá acentuar-se na próxima década e que colocará desafios acrescidos às empresas do ponto de vista da atração e da retenção de talento.
O sociólogo, professor e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Elísio Estanque, diz que “a tendência de maior flexibilidade e desregulação laboral vai acentuar-se”. Elísio Estanque antecipa que a rápida evolução da tecnologia e da inteligência artificial (IA) “tornará irreversível a regressão do modelo de trabalho — com estabilidade, segurança, condições negociadas, contratação coletiva, garantias de progressão — que está já hoje ameaçado”. O sociólogo acredita que a digitalização “roubará milhões de postos de trabalho na próxima década” e diz ser “incerta” a capacidade de reconversão dos profissionais. O diretor-geral da Randstad Portugal, José Miguel Leonardo, também alerta para os riscos ao reconhecer que a flexibilização não está a ser acompanhada pela evolução jurídica: “A lei tem de acelerar e acompanhar as tendências tecnológicas, económicas e sociais, sob pena de se criar um mercado não regulado e sem fronteiras que vive sem lei.”
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14.1.20
2.8.19
Estará o trabalho em transformação?
Juan Carvalho, in DnNotícias
As mudanças em curso vão alterar a forma como trabalhamos e como se estabelecem as relações laborais
A alteração da legislação laboral aprovada recentemente na assembleia da república está longe de equilibrar a disputada equação nas relações laborais, de responder aos problemas atualmente identificados e enquadrar os desafios decorrentes das transformações no mundo do trabalho.
As mudanças realizadas incidiram principalmente nas temáticas relacionadas com o alargamento do período experimental passando de 90 para 180 dias para os contratos sem termo dos jovens à procura do primeiro emprego, a eliminação dos contestados bancos de horas individuais, embora de forma indireta continue a ser possível a sua implementação.
A presente alteração deixou de fora temáticas tão importante para os trabalhadores como as mudanças aos critérios sobre o tratamento mais favorável, o reforço dos mecanismos da negociação e contratação coletiva, a caducidade dos contratos coletivos de trabalho, entre outras.
A justificação utilizada pelos sucessivos governos para alterar a legislação laboral assentou fundamentalmente na necessidade de tornar o mercado do trabalho mais concorrencial em comparação com outras realidades, aumentar a competitividade das empresas e melhorar o ainda débil crescimento económico. Ao longo das duas últimas décadas a alteração da legislação laboral processou-se sempre em desfavor do trabalhador, como se fosse esse efetivamente o maior problema ao desenvolvimento do País.
Até a segunda metade da década de noventa assistimos a um período de crescimento económico, com emprego estável e com direitos, proteção social com garantias a par de um progressivo aumento das remunerações o que permitiu diminuir as desigualdades e muitas situações de pobreza nos diferentes estratos sociais.
Entidades como a Organização Internacional do Trabalho e especialistas na área laboral têm afirmado sistematicamente o que a experiência empírica tem demonstrado, ou seja, não é com a desregulamentação laboral, baixos salários, precariedade e desagregação na conciliação da atividade profissional com a vida familiar e individual que se aumenta a motivação dos trabalhadores, a produtividade e se promove a competitividade e o crescimento económico.
Ao longo da história o trabalho adotou múltiplas formas, mas é sempre o resultado do esforço individual e coletivo, tendo por base a capacidade de reflexão, a criação e a coordenação da relação entre os homens e destes com a natureza.
As atuais transformações no mundo do trabalho não se limitam ao que produzimos e à forma como produzimos. As mudanças em curso vão alterar a forma como trabalhamos, e como se estabelecem as relações laborais, surgirão diversas configurações na organização do tempo de trabalho, novas profissões assim como alterações nas circunstâncias de acesso ao mercado de trabalho, interferindo com a retribuição, as condições da prestação e a segurança no local de trabalho.
A centralidade do trabalho continuará a ser uma realidade concretizada pela intervenção humana com impactos a vários níveis difíceis de prognosticar particularmente no modelo de trabalho e nos mecanismos de proteção social que sustentam o atual modelo social.
As mudanças em curso vão alterar a forma como trabalhamos e como se estabelecem as relações laborais
A alteração da legislação laboral aprovada recentemente na assembleia da república está longe de equilibrar a disputada equação nas relações laborais, de responder aos problemas atualmente identificados e enquadrar os desafios decorrentes das transformações no mundo do trabalho.
As mudanças realizadas incidiram principalmente nas temáticas relacionadas com o alargamento do período experimental passando de 90 para 180 dias para os contratos sem termo dos jovens à procura do primeiro emprego, a eliminação dos contestados bancos de horas individuais, embora de forma indireta continue a ser possível a sua implementação.
A presente alteração deixou de fora temáticas tão importante para os trabalhadores como as mudanças aos critérios sobre o tratamento mais favorável, o reforço dos mecanismos da negociação e contratação coletiva, a caducidade dos contratos coletivos de trabalho, entre outras.
A justificação utilizada pelos sucessivos governos para alterar a legislação laboral assentou fundamentalmente na necessidade de tornar o mercado do trabalho mais concorrencial em comparação com outras realidades, aumentar a competitividade das empresas e melhorar o ainda débil crescimento económico. Ao longo das duas últimas décadas a alteração da legislação laboral processou-se sempre em desfavor do trabalhador, como se fosse esse efetivamente o maior problema ao desenvolvimento do País.
Até a segunda metade da década de noventa assistimos a um período de crescimento económico, com emprego estável e com direitos, proteção social com garantias a par de um progressivo aumento das remunerações o que permitiu diminuir as desigualdades e muitas situações de pobreza nos diferentes estratos sociais.
Entidades como a Organização Internacional do Trabalho e especialistas na área laboral têm afirmado sistematicamente o que a experiência empírica tem demonstrado, ou seja, não é com a desregulamentação laboral, baixos salários, precariedade e desagregação na conciliação da atividade profissional com a vida familiar e individual que se aumenta a motivação dos trabalhadores, a produtividade e se promove a competitividade e o crescimento económico.
Ao longo da história o trabalho adotou múltiplas formas, mas é sempre o resultado do esforço individual e coletivo, tendo por base a capacidade de reflexão, a criação e a coordenação da relação entre os homens e destes com a natureza.
As atuais transformações no mundo do trabalho não se limitam ao que produzimos e à forma como produzimos. As mudanças em curso vão alterar a forma como trabalhamos, e como se estabelecem as relações laborais, surgirão diversas configurações na organização do tempo de trabalho, novas profissões assim como alterações nas circunstâncias de acesso ao mercado de trabalho, interferindo com a retribuição, as condições da prestação e a segurança no local de trabalho.
A centralidade do trabalho continuará a ser uma realidade concretizada pela intervenção humana com impactos a vários níveis difíceis de prognosticar particularmente no modelo de trabalho e nos mecanismos de proteção social que sustentam o atual modelo social.
4.7.19
A Inteligência Artificial irá criar 58 milhões de postos de trabalho
Nuria Oliver, in Expresso
Nuria Oliver vê na evolução das máquinas uma oportunidade que não devemos deixar passar: "É muito importante que vejamos a Inteligência Artificial como uma oportunidade para melhorar a sociedade, para sobrevivermos enquanto espécie. No entanto, temos de nos preparar e de nos formar, para que isso possa ser uma realidade”.
Entre a desconfiança, a piada fácil e o medo absoluto, a extensão da inteligência artificial a todas as vertentes da nossa vida não deixa ninguém indiferente. Antes de morrer, o físico britânico Stephen Hawking afirmou que “o desenvolvimento de uma inteligência artificial completa pode significar o fim da espécie humana”. Outras figuras de relevo da área da tecnologia, como Elon Musk ou o cofundador da Apple, Steve Wozniak, comungam dessa preocupação. E, se as opiniões dos que estão destinados a abrir caminho neste terreno são tão pouco tranquilizadoras, ninguém pode censurar aqueles que, de posições mais desfavorecidas, olham com receio para umas máquinas que, a curto prazo, podem vir a pôr em causa o seu posto de trabalho.
Também não ajudaram os filmes em que os robôs se lançavam à conquista do mundo, aniquilando ou escravizando a humanidade. A propósito deste ódio — menos irracional — o professor da universidade de Loyola, em Chicago, Steve Jones, afirmava num artigo para a revista Forbes que a população tem “a sensação de que há uma força não humana, chamada tecnologia, que é uma ameaça”. Jones assegurava existir o risco real de aparecer um movimento neoludita que, à imagem e semelhança dos Britânicos do século XVIII, encete uma luta contra as máquinas por porem em perigo o seu emprego. Um movimento que — realça Jones — não acredita que a política e a economia sejam as vias para lidar com o inevitável avanço das novas tecnologias.
Nuria Oliver, prémio nacional de Informática 2016 e diretora de pesquisa de ciência de dados na Vodafone, crê que a inteligência artificial "terá um enorme impacto positivo na sociedade". E dá como exemplo o campo da saúde, onde as possibilidades que as novas tecnologias oferecem em áreas como a sequenciação do genoma humano ou a análise radiológica comparativa eram impensáveis há poucos anos. A inteligência artificial e os robôs serão, garantidamente, protagonistas daquilo a que já se chama quarta revolução industrial.
Não obstante, Oliver está consciente do receio que esta difusão rápida das máquinas em tão pouco tempo desperta, particularmente no que diz respeito ao emprego: "todos os estudos antecipam uma transformação radical que vai implicar a extinção de milhões de postos de trabalho; no entanto, serão criados muitos mais. Segundo o Foro Económico Mundial, criar-se-ão 58 milhões de postos de trabalho”. Este otimismo que abre um leque de possibilidades deve ser acompanhado de uma adequada política educativa, visto que ser utilizador de tecnologia não é o mesmo que entender como funciona, e atualmente as crianças não são preparadas para virem a ocupar esses novos postos de trabalho que serão exigidos nos próximos anos. Oliver vê na evolução das máquinas uma grande oportunidade que não devemos deixar passar: "É muito importante que vejamos a inteligência artificial como uma oportunidade para melhorar a sociedade, para sobrevivermos enquanto espécie. No entanto, temos de nos preparar e de nos formar, para que isso posso ser uma realidade”.
Entrevista e edição: Azahara Mígel, Maruxa Ruiz del Árbol, David Giraldo
Texto: José L. Álvarez Cedena
Nuria Oliver vê na evolução das máquinas uma oportunidade que não devemos deixar passar: "É muito importante que vejamos a Inteligência Artificial como uma oportunidade para melhorar a sociedade, para sobrevivermos enquanto espécie. No entanto, temos de nos preparar e de nos formar, para que isso possa ser uma realidade”.
Entre a desconfiança, a piada fácil e o medo absoluto, a extensão da inteligência artificial a todas as vertentes da nossa vida não deixa ninguém indiferente. Antes de morrer, o físico britânico Stephen Hawking afirmou que “o desenvolvimento de uma inteligência artificial completa pode significar o fim da espécie humana”. Outras figuras de relevo da área da tecnologia, como Elon Musk ou o cofundador da Apple, Steve Wozniak, comungam dessa preocupação. E, se as opiniões dos que estão destinados a abrir caminho neste terreno são tão pouco tranquilizadoras, ninguém pode censurar aqueles que, de posições mais desfavorecidas, olham com receio para umas máquinas que, a curto prazo, podem vir a pôr em causa o seu posto de trabalho.
Também não ajudaram os filmes em que os robôs se lançavam à conquista do mundo, aniquilando ou escravizando a humanidade. A propósito deste ódio — menos irracional — o professor da universidade de Loyola, em Chicago, Steve Jones, afirmava num artigo para a revista Forbes que a população tem “a sensação de que há uma força não humana, chamada tecnologia, que é uma ameaça”. Jones assegurava existir o risco real de aparecer um movimento neoludita que, à imagem e semelhança dos Britânicos do século XVIII, encete uma luta contra as máquinas por porem em perigo o seu emprego. Um movimento que — realça Jones — não acredita que a política e a economia sejam as vias para lidar com o inevitável avanço das novas tecnologias.
Nuria Oliver, prémio nacional de Informática 2016 e diretora de pesquisa de ciência de dados na Vodafone, crê que a inteligência artificial "terá um enorme impacto positivo na sociedade". E dá como exemplo o campo da saúde, onde as possibilidades que as novas tecnologias oferecem em áreas como a sequenciação do genoma humano ou a análise radiológica comparativa eram impensáveis há poucos anos. A inteligência artificial e os robôs serão, garantidamente, protagonistas daquilo a que já se chama quarta revolução industrial.
Não obstante, Oliver está consciente do receio que esta difusão rápida das máquinas em tão pouco tempo desperta, particularmente no que diz respeito ao emprego: "todos os estudos antecipam uma transformação radical que vai implicar a extinção de milhões de postos de trabalho; no entanto, serão criados muitos mais. Segundo o Foro Económico Mundial, criar-se-ão 58 milhões de postos de trabalho”. Este otimismo que abre um leque de possibilidades deve ser acompanhado de uma adequada política educativa, visto que ser utilizador de tecnologia não é o mesmo que entender como funciona, e atualmente as crianças não são preparadas para virem a ocupar esses novos postos de trabalho que serão exigidos nos próximos anos. Oliver vê na evolução das máquinas uma grande oportunidade que não devemos deixar passar: "É muito importante que vejamos a inteligência artificial como uma oportunidade para melhorar a sociedade, para sobrevivermos enquanto espécie. No entanto, temos de nos preparar e de nos formar, para que isso posso ser uma realidade”.
Entrevista e edição: Azahara Mígel, Maruxa Ruiz del Árbol, David Giraldo
Texto: José L. Álvarez Cedena
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