9.5.22
Covid-19: Governo admite repor testes gratuitos se situação se agravar
Lacerda Sales sublinhou que, neste momento, os indicadores epidemiológicos não justificam a gratuitidade dos testes.
O secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, admitiu este sábado que os testes de despiste da covid-19 realizados nas farmácias e nos laboratórios poderão voltar a ser gratuitos, se se registar um aumento dos indicadores epidemiológicos.
“Se se vier a verificar que há um aumento dos indicadores epidemiológicos, com certeza que reverteremos essa medida [do fim da gratuitidade dos testes]. Neste momento, com os indicadores que temos, e com a estabilidade da situação do ponto de vista epidemiológico, não será necessária a gratuitidade dos testes”, afirmou.
Os testes de despiste da covid-19 realizados nas farmácias e nos laboratórios deixaram de ser gratuitos a partir de 1 de Maio, tendo em conta a “evolução positiva” da pandemia no país. Segundo Lacerda Sales, houve “algum aumento” de casos após o fim da obrigatoriedade do uso de máscara, mas “a tendência mantém-se estável”.
O governante disse que não há “grande pressão” sobre os serviços de saúde, que a mortalidade tem diminuído e que os internamentos estão “mais ou menos estabilizados, “com ligeiro acréscimo nos últimos dias”, mas “em grande impacto e repercussão”.
No entanto, sublinhou que é necessário continuar a vigilância, porque “o vírus ainda não desapareceu”. A mesma vigilância que aconselhou para os casos suspeitos de hepatite aguda infantil.
“Não é uma situação de alarme, mas é uma situação que a todos nos deve preocupar”, referiu. Em Portugal foram registados seis casos suspeitos, que estão a ser monitorizados e acompanhados.
Já na sessão de encerramento do VI Congresso dos Enfermeiros, Lacerda Sales vincou a aposta do Governo no reforço do Serviço Nacional de Saúde e na valorização dos seus profissionais. No caso concreto dos enfermeiros, disse que a prioridade será a reposição dos pontos perdidos na carreira e garantiu que o assunto estará resolvido até ao final do ano.
3.2.21
Comissão Europeia "pronta" para dar ajuda logo que Portugal a solicite
in DN
A Comissão Europeia disse hoje estar "pronta para ajudar" Portugal na crise sanitária criada pela pandemia de covid-19 e espera pedido do país.
A Comissão Europeia disse hoje estar "pronta para ajudar" Portugal na crise sanitária criada pela pandemia de covid-19, podendo nomeadamente suportar os custos do destacamento de equipas médicas ou da transferência de pacientes, caso o país solicite tal assistência.
"O nosso Centro de Coordenação de Resposta a Emergências acompanha de perto a situação crítica relacionada com a pandemia de covid-19 em Portugal e está pronto a ajudar caso [o país] necessite de assistência", escreveu hoje comissário europeu para Gestão de Crises, Janez Lenarcic, numa publicação na rede social Twitter.
Fonte do executivo comunitário assegurou à Lusa que, até ao momento, Portugal não fez qualquer pedido formal à Comissão Europeia, sendo esse um requisito para a instituição avançar com a assistência ao país.
Existem, ao nível da União Europeia (UE), vários mecanismos para prestar assistência aos países que atingem a saturação dos seus sistemas de saúde devido à pandemia de covid-19 e que já foi usado por Estados-membros como a Bélgica ou Itália, nomeadamente o Instrumento de Apoio de Emergência, que financia o transporte de equipas médicas e de doentes, cobrindo 'a posteriori' até 100% dos custos.
Outro dos instrumentos são as reservas médicas da UE, que permitem a entrega rápida de equipamento médico como ventiladores e equipamento de proteção pessoal, com custo também coberto na totalidade pela Comissão Europeia.
Acresce, ainda, o Mecanismo de Proteção Civil da UE, através do qual o executivo comunitário coordena as ofertas de assistência e de solidariedade feitas por outros Estados-membros - de materiais como máscaras, equipamentos de proteção, entre outros -, podendo também cobrir até 75% dos custos de transporte.
Através deste Mecanismo de Proteção Civil da UE, <>g>a Comissão Europeia já coordenou e cofinanciou a entrega de mais de 15 milhões de suprimentos médicos a quase 30 países.
Certo é que a Alemanha e a Áustria já se ofereceram, de forma bilateral, a ajudar Portugal devido ao elevado número de novas infeções e à saturação do sistema de saúde, nomeadamente nos cuidados intensivos.
No caso da Alemanha, uma equipa de assistência médica com 26 membros das Forças Armadas alemãs chegará a Portugal na quarta-feira, como anunciou o Governo alemão em comunicado enviado a agência Lusa, fornecendo também camas hospitalares e equipamentos médicos.
Por seu lado, a Áustria já se disponibilizou para tratar pacientes graves nos seus hospitais.
28.2.19
O que inquieta os portugueses? Os serviços de saúde e a Segurança Social
Segundo o último Eurobarómetro, o desemprego e a situação económica do país deixaram de figurar na lista de receios e preocupações
É o último Eurobarómetro que o diz. Os portugueses estão mais otimistas e menos preocupados em relação à situação económica e à ameaça do desemprego. Em contrapartida, crescem os receios ligados ao custo de vida e à eficácia dos serviços de saúde e Segurança Social.
O Eurobarómetro é o documento da Comissão Europeia que retrata periodicamente os 28 países da União Europeia (UE) a partir de uma série de pesquisas de opinião com uma grande variedade de questões. O último, o 90º da série resulta de trabalhos de campo realizados em novembro de 2018.
E que conclusões partir retirar face ao anterior? Os portugueses manifestam-se preocupados com os setores da saúde e segurança social (33%), seguindo-se o desconforto ligado à subida de preços e ao custo de vida.
O desemprego, que no outono de 2016 era apontado como principal preocupação por 58% dos portugueses, surge agora na terceira posição, com 27% de respostas. Ou seja, caiu para metade no universo dos inquiridos.
O Eurobarómetro nota que esta é uma realidade que distingue Portugal dos restantes países do sul da Europa. Em Espanha, Itália e Grécia, metade dos inquiridos coloca o desemprego no centro das suas preocupações imediatas, surgindo no primeiro lugar do ranking.
Situação económica do país não tira o sono
Quanto à situação económica do país, citada por um terço dos portugueses há dois anos, ela deixou de figurar na lista de inquietações. Só 15% dos inquiridos vivem atormentados com esse tema. É uma valor em linha com a média europeia.
Na União Euroeia, o terrorismo aflige 8% dos inquiridos. Em Portugal, é residual, não superando 1%. Temas como imigração, crime, ambiente ou clima também passam também ao lado dos portugueses.
Metade dos portugueses considera que a situação económica não sofrerá alterações relevantes nos próximos 12 meses. Mas, apenas 29% acreditam que a evolução da economia será positiva. Em relação ao anterior Eurobarómetro, a a comunidade de otimistas reduziu-se em 7 pontos.
Rendimento familiar preocupa 40%
Quanto à situação financeira do agregado familiar, três em cada cinco portugueses expressam uma avaliação positiva. É um resultado em linha com o anterior Eurobarómetro. Ou seja, há 40% que receiam pelas finanças domésticas.
A relação é 11% inferior à média europeia (72%) e permite definir os portugueses como o sexto povo menos otimista em relação ao tema do rendimento familiar. Grécia e Bulgária são os únicos países entre os 28 da UE em que a avaliação é inferior a 50% - ficam nos dois casos nos 39%.
A maioria dos portugueses manifesta otimismo para o futuro: 63% acredita que a evolução da situação financeira do agregado familiar não vai piorar nos próximos 12 meses. O resultado supera a média da UE (60%). E, neste tópico, apenas 8% dos portugueses revelam pessimismo.
A democracia funciona, a Europa satisfaz
Na frente política, a satisfação impera. Quase dois terços afirmam-se agradados com o funcionamento da democracia.
Neste indicador, Portugal está bem acima da média europeia (57%). Mas, o nível de satisfação está em queda: há um ano a aprovação era de 75%. (média de 71% na UE), altura em que atingiu um pico, recuperando de valores baixos no rescaldo da troika.
A quebra de confiança afeta por igual partidos políticos, governo e o parlamento. O registo atual compara com o recorde de aprovação na Dinamarca (91%) e o mínimo da Grécia (26%).
E, qual a visão face a Europa, a poucos meses das eleições para o Parlamento Europeu? O Eurobarómetro concluiu que o sentimento de cidadania europeia continua a prevalecer em Portugal.
A maioria dos portugueses confia na UE (55%), tem uma imagem é positiva da UE (53%) e rejeita a ideia de que o país poderia enfrentar melhor o futuro a pedalar isoladamente(69%). Portugal é o sexto país com a maior taxa de confiança na UE. Lituânia (65%), Dinamarca (60%) e Suécia (59%) lideram.
Televisão é mais confiável do que a imprensa escrita
O media preferido dos portugueses? A televisão. É o meio de eleição e a fonte a que mais recorrem para se informarem sobre política nacional e internacional. A rádio também é apreciada e bate ligeiramente a TV na confiança noticiosa.
Os dois meios superam a imprensa escrita (68% contra 61%). Os padrões identificados pelo Eurobarómetro colocam Portugal acima da média europeia para os três grandes meios tradicionais, que os portugueses consideram plurais e isentos. A diferença para a UE é mais acentuada (18%) no caso da televisão.
Um em cada quatro portugueses confia nas redes sociais. É um valor muito acima da média da UE (19%).
30.1.17
Serviços de saúde estão a dificultar acesso a grávidas imigrantes
Sharmin Akter teve que marcar nova consulta num hospital pois a médica não queria falar com ela por não falar português
Chegou a Portugal em Fevereiro, grávida de quatro meses, com a expectativa de o marido conseguir trabalho e ela também. Indiana, Zarat (nome fictício) é uma mulher pequena e fala pausadamente. A determinada altura da conversa com o PÚBLICO começa a chorar, entre o relato do que foi o périplo para conseguir tratamento médico e a falta de informação sobre o que aconteceu ao bebé que acabaria por perder, depois de dar à luz.
Tudo começou com as primeiras idas ao centro de saúde num dos bairros periféricos de Lisboa. Tentou pelo menos três vezes registar-se e ter consulta, mostrando exames a comprovar que estava grávida. Mas sem visto ou autorização de residência, não foi atendida. Mostraram-lhe um papel onde estava escrito que precisava de visto de residência, cartão de segurança social, entre outros requisitos impossíveis de obter naquela situação. E pediu ajuda a uma organização que apoia pessoas como ela. Conseguiu, finalmente, ser atendida no centro de saúde. Onde ninguém a informou, contudo, que precisava de uma declaração do médico a isentá-la das taxas cobradas em consultas e exames. "Era muita coisa ao mesmo tempo", lembra. "Não tínhamos trabalho, não podíamos pagar", acrescenta.
Entrada da troika dificultou isenções a imigrantes
Em Portugal, o tratamento médico não pode ser recusado a ninguém, estando ou não em situação irregular. Além disso, diz o despacho n.º 25 360/2001, do Ministro da Saúde, que os imigrantes de países terceiros sem autorização de residência ficam isentos de taxas em situações que ponham em perigo a saúde pública. Uma circular da Direcção-Geral de Saúde (DGS), de 7 de Maio de 2009, clarifica ainda que essa isenção é dada aos imigrantes que apresentem ou não um atestado de residência da Junta de Freguesia a demonstrar que vivem em Portugal há mais de 90 dias, caso se enquadram nas excepções. Aí está incluído a saúde materno-infantil e a saúde reprodutiva, consultas de planeamento familiar, interrupção voluntária da gravidez, acompanhamento e vigilância da mulher grávida, parto e puerpério ou cuidados de saúde prestados aos recém-nascidos, entre outras. Prevê-se ainda isenção para quem está em situação de exclusão social ou carência económica.
Porém, a dificuldade de acesso à saúde por imigrantes, sobretudo de países terceiros, e sem a situação regularizada, não é de todo incomum. Várias mulheres entrevistadas pelo PÚBLICO queixaram-se: foi recusado o atendimento no centro de saúde, pura e simples, mesmo estando grávidas; ou foi-lhes cobrado pagamento, indevidamente; ou não foram vistas por um médico por não falarem português; ou foi-lhes recusado o acesso a um número de Serviço Nacional de Saúde quando, na verdade, até descontam para a Segurança Social e pagam impostos. A DGS diz que desconhece casos como estes e indica que "qualquer situação que lhe seja comunicada será analisada". Acrescentou mesmo que, se "necessário, serão tomadas iniciativas que corrijam as suas causas". Também o Ministério da Saúde informou que não tem registo de queixas.
Lei protege e cria dificuldades
Embora sem especificar as razões, os dados da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial entre 2005 e 2015 mostram 31 reclamações relativas à Saúde. No último Migrant Integration Policy Index (Mipex), de 2014, onde se mede as políticas de integração em 38 países, incluindo a União Europeia, a Saúde era o indicador em que Portugal estava pior (com 43 pontos, o que significa menos do que favorável, quando, por exemplo, na mobilidade do mercado do trabalho atinge 91).
Restrições a legalização geram barreiras na saúde, diz Solim
Beatriz Padilla, socióloga argentina que tem vários projectos sobre saúde e imigrantes em Portugal, também autora da secção de saúde do Mipex para Portugal, explica que no contexto europeu, o país "não é dos piores" nesta matéria. Mas "já foi melhor". No Mipex avalia a parte legal e as barreiras no acesso à saúde pela parte de requerentes de asilo, imigrantes regularizados e imigrantes sem autorização de residência. A sua percepção geral sobre o país é que, se por um lado, a "lei protege a grávida", por outro, "depois criam-se dificuldades no acesso".
Jéssica Lopes, coordenadora do grupo de mulheres na Solidariedade Imigrante (Solim), não consegue dar números de queixas de acesso à saúde que atendeu nesta associação com mais de 26 mil sócios. Mas trabalha na Solim há dois anos e só há poucos meses é que viu aparecerem estas situações. Desde Abril, atendeu 550 mulheres: "Diria que dessas, mais ou menos 30% vieram com problemas de saúde desse género. É o único número que consigo dar." As queixas são barreiras que se colocam sobretudo a quem não fala português, nota. "As mulheres asiáticas vêm à Solim quase sempre por causa disto."
O grande problema, sublinha, é as mulheres não serem informadas pelos centros de saúde dos seus direitos. Ninguém lhes diz que passos dar para não lhes serem cobradas as taxas. E os médicos nem sempre passam a declaração de isenção na primeira consulta, acrescenta. "Normalmente [as mulheres recebem-na] quando vão à consulta com a declaração que a Solim passa a lembrar a instituição dos seus direitos. Isso é um direito que deveriam logo ter. Nem todas as grávidas passam pela associação", critica. Os casos mais frequentes são de mulheres que não conseguem pagar as consultas ou exames.
"Chorei o dia todo"
Associações acusam SEF de "fechar a porta" aos imigrantes
Chegou a Portugal como turista, mas acabou por ir ficando. Natural do Bangladesh, tinha acabado o mestrado em contabilidade em Londres. Sharmin Akter, 30 anos, estava grávida de dois meses quando se deslocou pela primeira vez ao centro de saúde da Buraca, com número de contribuinte e passaporte. Fê-lo em vão. Não disse, no centro de saúde, que estava grávida. "Voltei para casa e fiquei deprimida, a pensar no que ia fazer", conta ao PÚBLICO em sua casa, sentada a uma mesa onde estão chamussas e doce de aletria com canela para os convidados. "Fui lá no dia seguinte e, desesperada, disse que estava grávida, implorei para me atenderem. Estava lá uma mulher simpática, e tive sorte. Conheço muitas grávidas que enfrentam problemas e pagam muito pelas consultas e exames."
Porém, a saga começou numa das consultas no hospital para ver se estava tudo bem com o seu bebé. A médica recusou-se a atendê-la porque não falava português. "Mandou-me voltar noutra altura e trazer alguém que falasse português. Fiquei muito chocada. A gravidez não é uma altura normal, fisicamente e mentalmente tudo está a mudar. Por isso estava nervosa. Tinha ido ver o que se passava com o meu bebé e ela não falava comigo!"
"Chorei o dia todo", recorda. Seria a pior experiência que teve em Portugal. À beira de dar à luz quando a entrevistámos, Sharmin estava com medo do que lhe pudesse acontecer durante o parto. Mandaram-na ir ao hospital todas as semanas para verificar se está tudo bem. Deram-lhe imensos papéis para ela ler - mas todos em português.
As queixas mais frequentes que Rana Uddin, presidente do Centro islâmico do Bangladesh e da Associação Amizade Bangladesh-Portugal, recebe é de que muitas pessoas que não têm documento, nem segurança social, "não são atendidas". "Podem ser atendidas [desde que paguem], mas quem é que os vai atender com as filas de espera que existem? Mandam para urgência do hospital, que por sua vez manda de novo para o centro de saúde. Isto acontece sobretudo com homens", afirma.
Famílias de classe média e idosos recorrem a Médicos do Mundo para ter acesso a cuidados de saúde
A comunidade que começou a crescer na década de 1990 - e que Rana Uddin estima em 15 mil, mais outros 15 mil que já têm nacionalidade portuguesa - enfrenta também outra questão, o que não é o caso de Sharmin: "Vindas de um país conservador, sendo muçulmanas, muitas mulheres não se sentem à vontade de serem atendidas por homens nos centros de saúde e hospitais. Há queixas, todas verbais, a pedir que sejam mulheres a atender. Não era bem recebido, diziam que têm falta de médicos" - mas neste momento começa a sentir abertura dos serviços para essa possibilidade.
Uma das medidas que Rana Uddin sugere é ter disponíveis nos serviços nacionais de saúde folhetos em bangla, pois muitos imigrantes não percebem nem inglês nem português.
E quem não conhece ninguém?
A paquistanesa Sabba Jalal, 30 anos, não estava grávida mas a razão para recorrer aos serviços de saúde enquadrava-se nos casos previstos na lei: saúde reprodutiva. Depois de estar a trabalhar durante seis anos no Dubai, chegou a Portugal em Setembro de 2015. Viajou por vários países até escolher Lisboa, e hoje trabalha numa retrosaria. Está inscrita na Segurança Social, paga impostos, "tudo legal", mas desde Março aguarda a entrevista com o SEF para receber a autorização de residência. (Dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social mostram que o saldo financeiro da segurança social com os estrangeiros tem sido sempre positivo, mesmo nos anos de crise; em 2014 era de mais de 309 milhões de euros).
Comunidade indo-asiática foi a mais presente em manifestação de imigrantes
Há três meses Sabba encontrou alguns caroços no peito, e percebeu que tinha que ir ao médico. Quando foi ao centro de saúde mandaram-lhe fazer uma mamografia e outros exames, indicaram-lhe uma clínica privada que tem acordo com o Serviço Nacional de Saúde (SNS) - mas sem número de utente recusaram dar-lhe os resultados antes de pagar uma conta que era mais de metade do seu ordenado. Sabba deu várias voltas para tentar obter o número de utente, mas passaram-se semanas e não conseguiu. Finalmente, com ajuda, conseguiu que lhe dessem uma guia a lembrar da isenção e fez exame noutra clínica.
O resultado não apontou para nada de grave, mas disseram-lhe que deveria voltar ao médico regularmente. Só que até agora não tem cartão de utente. "Viver assim é um sacrifício. Não consigo planear nada, nem sei como serei tratada. Senti-me humilhada. Só pensava: sou letrada, agora imagino aquela quantidade de pessoas que não fala inglês.! As pessoas estão a trabalhar, a pagar Segurança Social, a fazer trabalho duro por menos dinheiro, apenas para sobreviver, e são tratadas como lixo porque não falam português. Não vim para Portugal, como muita gente, por uma questão de sobrevivência, não vivo em pressão, mas aquela situação colocou-me em pressão", lembra.
Voltando a Zarat, as coisas melhoraram com o papel "verde" de isenção passado pelo médico. Entretanto, ela e o marido estão a trabalhar. Mas a história está longe de ter terminado bem. Quando mudou para a outra zona da cidade, o centro de saúde preparou-se novamente para recusar o atendimento, mesmo com a declaração de isenção. Teve, outra vez, que andar para a frente e para trás, umas quatro vezes, diz, até encontrar uma recepcionista simpática. "Aqui em Portugal cada pessoa tem as suas regras."
O médico encaminhou-a para um hospital da zona. Antes da data estimada para o parto, sentiu-se mal. Chamou a ambulância. Foi examinada no hospital, mas mandaram-na para casa, com a justificação de que estava tudo normal. Uns dias depois, acordou cheia de sangue na cama e no chão. Voltou a chamar uma ambulância. Zarat chora agora, interrompe o relato. Continua: deu à luz, mas o médico avisou-a de que havia um problema. O bebé morreria, conta em lágrimas. Ninguém lhe explicou nada do que aconteceu, nenhum médico deu qualquer justificação. Acusa o hospital de ter sido negligente quando a mandou para casa na primeira vez em que chamou a ambulância, diz que não foi bem acompanhada. "A ambulância chegou tarde de mais, eu fui atendida tarde demais." Acredita que se tudo tivesse sido normal desde o princípio, o seu bebé não teria morrido. "Agora tenho medo de estar neste país. Eu e o meu marido decidimos que não vamos ter o nosso próximo filho aqui".
O casal acabou por fazer queixa à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde, e o processo está em investigação. Entretanto, Zarat voltou ao centro de saúde para consulta de pós-parto: quiseram de novo cobrar-lhe.
10.3.14
Clínica Frater. Um posto médico na retaguarda do SNS no Barreiro
Associação tem 40 médicos voluntários e assinala dez anos dia 29 com debate sobre o papel da sociedade civil na protecção dos mais carenciados
Nos últimos anos da carreira de quatro décadas em exclusividade no Hospital do Barreiro, José Augusto Gonçalves fazia 75 horas de trabalho semanal que deixavam pouco espaço para voluntariado. Mas fazia--o quando podia, respondendo à chamada da Clínica Frater, associação sem fins lucrativos que desta forma todas as semanas tem médicos a dar consultas gratuitas no n.o 203 da rua Miguel Bombarda no Barreiro. Em dez anos, são quase dois mil dias de consultas gratuitas de 23 especialidades, mais oferta do que muitos hospitais. Sempre que precisam de um especialista, telefonam a um dos 40 nomes incluídos na lista, que conta também com cerca de uma dúzia de chefes de serviço. "Acho que somos a única associação médica com esta representação e actividade", explica o cirurgião, há um ano reformado e entretanto eleito vice-presidente da Frater.
A associação, que dizem ser única, faz dez anos no próximo dia 29. A razão para existir mantém-se, conta o médico: "Nascemos por haver a percepção de que somos um concelho com muitas carências e continuamos a ser, com mais desemprego e pobreza. O SNS apesar de ser dos melhores sistemas do mundo, não chega sobretudo fora da área curativa, no que diz respeito à prevenção e apoio a doentes crónicos." Sobretudo em tempos de crise e perante as diferenças de rendimento entre pessoas, avisa José Augusto Gonçalves: "Há gente com necessidades desprotegidas e isso tem vindo a piorar."
Apesar de localizada em Setúbal, a clínica recebe moradores de qualquer parte do país. Sobrevive das quotas de 50 cêntimos/mês de 330 sócios activos e funciona num apartamento emprestado. Na lista de valências, há também outros apoios de saúde como um banco de medicamentos criado com doações de particulares antes de, em 2012, o governo avançar com a iniciativa a nível nacional, apoiada pela indústria farmacêutica, de que hoje são parceiros. Fazem rastreios de hipertensão, mudança de pensos com ajuda de enfermagem, distribui-se roupa, canadianas e cadeiras de rodas usadas a quem precisa.
Se a multidisciplinaridade é o termo técnico que os médicos usam para explicar o sucesso, há uma componente de proximidade e desburocratização que diz mais a quem lá vai, mesmo que a associação seja apenas intermediária entre a população e os cuidados de saúde oficiais. Romeu Cordeiro e Joaquim Dias, de 64 e 66 anos, desfiam as maleitas, da saúde e da carteira, que os levam ali todas as segundas-feiras. Fazem os testes da tensão, da diabetes e "quando dá" levam medicamentos para aliviar a conta da farmácia.
Um tem médico de família, outro não, mas ali o atendimento é "sempre na hora". "O problema do SNS não é dos médicos, é da organização", defende Romeu: "A minha mulher é obesa e tem de ser operada aos joelhos. Mas para isso tem de perder 20 quilos e agora mandaram-na para uma consulta de nutrição. Quando é que vai ser? Daqui a anos, não faz sentido." Ali, encontram uma palavra e muitas vezes a certeza de que não faz mal esperar ou pode haver alternativa, as dúvidas que não conseguem tirar tão facilmente no guiché do centro de saúde ou num consultório privado.
sociedade civil Para assinalar o aniversário, a Frater está a organizar um seminário com o tema "sociedade civil e a crise." José Augusto Gonçalves resume que, uma década depois e com poucos projectos semelhantes, o desafio é juntar parceiros e contribuir para dar uma resposta à população, usando a experiência de quem como ele esteve 44 anos ao serviço do SNS e tem por isso um grau de diferenciação que pode ser aproveitado. Numa década de história e debates, não faltam ideias, mas a maioria continua no papel.
Desde que o governo tomou posse que tentaram audições para mostrar a lista de projectos, que incluiria, por exemplo, uma residência para doentes que vão fazer tratamento oncológico no Centro Hospitalar do Barreiro. Até hoje não conseguiram. Em 2010, começaram a preparar-se para concorrer ao então anunciado financiamento a projectos nacionais na área da saúde pela Islândia, Liechtenstein e Noruega no âmbito do mecanismo EEA Grants (ver texto ao lado) mas, agora que as candidaturas abriram, as ideias não são elegíveis.
O plano mais avançado, já com projecto arquitectónico e terreno cedido pela câmara, era uma unidade de rastreios oncológicos junto ao hospital. Como esta área não será objecto de financiamento, vão tentar encontrar mecenas para avançar com a obra: "Talvez se começarmos em vez de continuar a adiar haja interesse em sermos parceiros", desabafa o cirurgião. Um projecto na área do rastreio da obesidade e uma unidade de apoio a doentes com Alzheimer, para o qual em tempos houve a promessa do lado da autarquia de uma escola primária abandonada no concelho, são ideias com as quais estão a pensar concorrer ao financiamento estrangeiro.
Jorge Espírito Santo, oncologista no Hospital do Barreiro e voluntário da Frater, acredita que um dos pontos diferenciadores da associação é essa preocupação com a saúde tanto no lado de assistência como no de apoio social, que a fez posicionar-se como retaguarda do SNS. "No plano da cobertura de médico de família, o Barreiro está melhor mas as carências na população aumentaram e as dificuldades no acesso muitas vezes têm razões sociais como a falta de conhecimento."
Para o médico, ter uma associação como parceira nos rastreios seria uma mais- -valia para a região. Mas acima de tudo acredita que manterem-se ao fim de dez anos tantos médicos empenhados num projecto de solidariedade é uma mensagem que tem de passar: "Uma das falácias mais vergonhosas posta a circular na opinião pública é que os médicos são um bando de seres que se movem apenas por interesses pessoais e dinheiro. Esta associação é uma prova de que isso é falso. Haverá médicos incompetentes e corruptos, mas muitos são capazes de se mobilizar."
8.10.13
Serviços de saúde dominam preocupações de cidadãos europeus, incluindo os portugueses
Estudo sobre 83 cidades europeias inclui Braga, Lisboa e arredores da capital.
Os serviços de saúde, o desemprego e a educação são as principais preocupações que os europeus querem ver resolvidas nas áreas onde vivem, segundo um estudo divulgado, em Bruxelas, nesta terça-feira e que inclui 83 cidades, três das quais portuguesas.
O estudo concluiu que em 64 cidades os serviços de saúde estão entre as três principais preocupações dos habitantes e em primeiro lugar em 34 cidades, incluindo as três portuguesas contempladas no inquérito: Braga (para 52% dos habitantes), Lisboa (50% dos habitantes) e arredores da capital (53%).
Os habitantes nos arredores de Lisboa e os de Braga são, entre os portugueses inquiridos, os que se mostram mais satisfeitos com os serviços de saúde, com 58% de respostas positivas, sendo que em Lisboa são ainda mais de metade: 55%.
Estes números colocam as cidades portuguesas no último terço da tabela geral, no índice de satisfação neste indicador.
Já o desemprego é o primeiro dos problemas a resolver em 58 cidades, estando no “top 3” noutras 18, incluindo Braga (44%), Lisboa (42%) e arredores da capital (45%).
A educação e formação são identificadas como uma das três principais questões em 50 cidades e encabeça a tabela em 14, como em Braga (37%) e Lisboa (36%).
Já nos arredores de Lisboa – e para 34% de inquiridos – a terceira principal preocupação é a segurança.
Noventa e cinco por cento dos bracarenses estão satisfeitos com a cidade onde vivem, bem como 92% dos lisboetas e 91% das pessoas que vivem nos arredores da capital, segundo o inquérito.
O estudo sobre a qualidade de vida nas cidades abrangeu 83 cidades europeias, 79 das quais em estados-membros da União Europeia.
Em Portugal, foram inquiridos 504 bracarenses, 500 lisboetas e 503 habitantes nos arredores de Lisboa, entre 15 de Novembro e 7 de Dezembro de 2012.

