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25.3.19

“Eu sei onde estás e quero explicações” — para alguns jovens, a violência no namoro é vivida online

Nuno Rafael Gomes (texto) e Miguel Cabral (ilustração), in Público on-line

Os jovens denunciam mais, mas ainda lhes é difícil sair de relações abusivas. Quando os telemóveis e as redes sociais entram nas relações, descodificam-se as desconfianças através de partilhas de passwords. É preciso “falar destes assuntos na escola”, avisam especialistas.

Bárbara (nome fictício) chegou a Portugal há pouco mais de meio ano. Saiu do Brasil para estudar e trabalhar no Porto, onde o seu namorado de há quatro anos — também ele brasileiro — se tinha estabelecido “poucos meses antes” da sua chegada. Ela tem 23 anos; ele, 40. Descreve-o como “uma pessoa descontrolada”. Já Maria terminou uma relação depois de o então namorado lhe esconder o telemóvel “para ler as mensagens”. “Também queria controlar o que eu vestia e isolou-me dos meus amigos.” Para Carla (nome fictício), alguns dias do Verão de 2017 foram “bastante complicados”. Depois de “acabar” com o namorado, recebeu a mensagem: “Não te esqueças que sei onde trabalhas.” Deixou de colocar a localização nos seus posts.

Estes são apenas três casos que reflectem algumas conclusões apontadas por dois estudos apresentados em Fevereiro: o da associação Plano i, Violência no Namoro em Contexto Universitário: Crenças e Práticas, e o da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Violência no Namoro 2019. Há um aumento na taxa de violência psicológica entre os jovens, que cada vez mais adoptam “crenças conservadoras”. Também há uma maior sensibilização para o tema. A ameaça via telemóvel (com mensagens como “eu sei onde estás e quero explicações") ou nas redes sociais preocupa não só as duas organizações, como também a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).
“O essencial é pedir ajuda à APAV no sentido de podermos informar e apoiar as vítimas”
Daniel Cotrim

Mas vamos por partes. Para Bárbara, “a violência verbal sempre existiu”. “Já existiu violência física e ele já me prendeu num ‘mata-leão’ [golpe de estrangulamento das artes marciais japonesas] até eu desmaiar”, conta. Isso foi no Brasil. Numa viagem a Paris, agrediu-a na rua. “Chutou-me e eu estava jogada no chão. Ninguém fez nada.” Prefere o anonimato porque tem medo que se descubra. Ainda vivem juntos. “Não tenho para onde ir. Não tenho como pagar renda sozinha, tenho de pagar propinas também.” Para Bárbara, a solução seria “morar noutra cidade ou arranjar um emprego longe” para fugir ao companheiro “controlador” que não gosta que ela tenha “uma educação, uma profissão, amigos”. “A situação está mais tranquila porque estou poucas vezes em casa, por causa do trabalho e da faculdade”, acrescenta. Ainda assim, já foi ameaçada pelo companheiro por recusar ter relações sexuais.

Situações como a de Bárbara não são desconhecidas de organizações portuguesas que lidam com a violência doméstica — e não só. “Estes processos são difíceis e não são imediatos, mas têm solução”, garante Daniel Cotrim. O assessor técnico da direcção da APAV, responsável pelas áreas da violência doméstica e de género e da igualdade, ressalva que é importante dizer que não se consegue interromper “o ciclo da violência” rapidamente.

21.9.18

Quase metade dos jovens de Gaia considera legítimo controlar a pessoa com quem namora

in Diário de Notícias

Os rapazes legitimam mais a violência no namoro do que as raparigas, refere um estudo realizado em escolas de Gaia, segundo o qual 40% dos inquiridos considera que controlar o companheiro é um comportamento normal.

"É de salientar que, em todos os comportamentos avaliados, os rapazes legitimam mais a violência do que as raparigas. Em algumas situações, (...) a legitimação da violência é mais de três vezes superior nos rapazes", lê-se no estudo levado a cabo junto de rapazes e raparigas do concelho de Vila Nova de Gaia, distrito do Porto.

O controlo, que pode revelar-se em aspetos como proibir o namorado ou namorada de usar uma peça de roupa específica ou interferir nas amizades e companhias do parceiro, é o tipo de violência que os jovens inquiridos mais identificam nos namoros, com 40% a legitimar esse tipo de comportamentos.

Estes números, relativos a 2017, fazem parte um estudo hoje divulgado e que resulta do projeto "Art'themis +" levado a cabo pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e pela Câmara de Vila Nova de Gaia.

Em traços gerais, o aspeto perseguição ganha relevância ao reunir 28% das respostas, com 35% dos rapazes e 19% das raparigas a considerar que estes comportamentos não são atos de violência no namoro.

O acesso a redes sociais por parte do companheiro, sem autorização, é também considerado um comportamento normal para 44% dos rapazes e 33% das raparigas das escolas de Gaia alvos do estudo.

A violência sexual, com 26%, a violência através das redes sociais, com 25%, e a violência psicológica, com 15%, também são comportamentos legitimados pelos alunos de Gaia, e referidos no estudo, no qual apenas 6% dos inquiridos considera legítima a violência física no namoro.

Estes dados, bem como números relacionados com questionários semelhantes feitos já este ano, vão ser apresentados hoje no auditório da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia no seminário "Gaia, pela Prevenção do Assédio e Violência de Género".

Na mesma sessão está previsto ser apresentado um outro estudo que resulta de sessões e inquéritos levados a cabo em três escolas do distrito do Porto, não identificadas no documento.
Neste é descrito que os jovens têm "tendência para culpabilizar a vítima pelo assédio sexual".

No que respeita à intervenção, todos os grupos consideraram fundamental recorrer a um adulto para falar sobre a situação e pedir ajuda, ainda que os jovens do sexo masculino tenham respondido em maior percentagem que não se sentem à vontade neste aspeto.

"Foi ainda evidenciado que as barreiras para a intervenção são o medo de represálias, a falta de segurança e de coragem, não saberem identificar uma situação de assédio sexual e sentirem-se excluídos do grupo", lê-se nas conclusões.