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2.6.23

Assédio sexual: Parlamento recomenda criação de códigos de conduta no ensino superior

Ana Bacelar Begonha, in Público


Foi aprovado um projecto do Bloco que recomenda a criação de uma estrutura independente de apoio à vítima e denúncia de casos de assédio nas instituições privadas e públicas.

O Parlamento aprovou esta sexta-feira duas iniciativas da Iniciativa Liberal (IL) e do Bloco de Esquerda (BE) que recomendam a criação de códigos de conduta nas instituições de ensino superior para combater o assédio sexual e moral. A proposta do BE prevê ainda que se crie uma estrutura independente de apoio à vítima e de denúncia de casos de assédio nessas instituições.


[Artigo exclusivo para assinantes]

2.5.23

Um quarto das instituições de ensino superior sem canais de denúncia de assédio

Samuel Silva, in Público



Maioria das universidades e politécnicos só criou estes mecanismos no último ano. Instituições públicas receberam 90 denúncias, a maioria por assédio moral.


Um quarto das instituições de ensino superior não tem canais de denúncia destinados a receber queixas de assédio moral ou sexual por parte dos membros das suas comunidades. A maioria só o fez depois de, há um ano, a ministra Elvira Fortunato ter feito essa recomendação, na sequência dos casos vindos a público na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDUL). A preocupação com o tema é muito recente no sector.

Durante a última semana, o PÚBLICO questionou todas as universidades e politécnicos públicos sobre os mecanismos existentes para lidar com casos de assédio moral ou sexual no interior das academias. Apenas duas (Instituto Politécnico de Santarém e Universidade dos Açores) não responderam. Os dados apresentados incluem, por isso, 26 instituições de ensino superior.


Em sete delas, não existem canais onde os estudantes, docentes e outros funcionários possam fazer denúncias. Estas representam 25% do total da rede pública de ensino superior. É o caso do Instituto Politécnico de Beja. “Não possuímos mecanismos específicos de denúncia/queixas de situação de assédio, contudo o Sistema Integrado da Qualidade, que permite procedimentos de queixas e reclamações em geral, poderia ter sido utilizado para esse tipo de queixa”, justifica fonte da presidência. Outras instituições como o Politécnico de Lisboa ou as universidades de Évora e do Minho também não têm estes mecanismos específicos.


Nas respostas ao PÚBLICO, as instituições sublinham que os casos de assédio já podiam ser reportados, antes da existência de canais próprios, a figuras como o provedor do estudante, que a maioria já tem há cerca de uma década, ou directamente junto das direcções das faculdades.

Em três das instituições que não possuem um canal específico para denúncia de casos de assédio, a situação estará prestes a ser ultrapassada, segundo a informação disponibilizada pelas próprias. O Instituto Politécnico da Guarda contratou recentemente uma jurista para tratar “as denúncias que possam surgir” e promete uma plataforma digital para apresentação de queixas “ainda este ano”. Na Universidade da Beira Interior, está “em fase de conclusão” a criação desse mecanismo. Antes disso – “nos próximos dias”, garante a presidência da instituição –, haverá resposta no Politécnico de Castelo Branco.

O caso destas três instituições é exemplar de quão recente é esta preocupação no sector. A maior parte (nove no total) das universidades e politécnicos públicos criaram estes canais durante os meses do Verão passado, em resposta a uma recomendação da ministra Elvira Fortunato.

Na sequência das dezenas de denúncias de assédio na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, a governante enviou um despacho às instituições no qual recomendava a adopção de códigos de conduta e a criação de canais para a apresentação de denúncias.

No início deste ano, também criaram estes mecanismos os politécnicos de Viana do Castelo e Bragança (em Janeiro), bem como a Universidade do Algarve e o Instituto Politécnico de Leiria (em Fevereiro). Quando existem mecanismos de denúncia, estes funcionam maioritariamente online, através de páginas específicas dos sites das instituições ou endereços de email.

Nos últimos meses, também têm sido publicados em Diário da República os códigos de conduta pedidos pela ministra. Quando não existem, estão a ser terminados, garantem as instituições. Na Universidade de Évora, esse documento está em consulta pública nas próximas semanas.

No entanto, várias instituições acabaram por criar mecanismos de denúncia que não são exclusivos para situações de assédio moral ou sexual. As universidades e politécnicos estavam obrigados por lei (93/2021) a criar um regime de protecção de denunciantes de infracções, na sequência da transposição para o ordenamento jurídico nacional de uma directiva europeia. Por isso, os portais de denúncia com garantia de confidencialidade também se destinam a casos de abuso de poder, conflitos de interesses ou corrupção, fraude ou furto.

Quase 90 denúncias

O pedido de informação feito pelo PÚBLICO junto das instituições de ensino superior também as inquiria quanto à existência de casos de abuso moral e sexual reportados por estudantes, professores e trabalhadores não docentes. A informação recolhida permite elencar 86 queixas de assédio, a maioria das quais diz respeito aos últimos dois anos.

A maior parte das situações reportadas pelas instituições de ensino corresponde a situações de assédio moral (53). Há também 25 queixas por assédio sexual. Em oito casos, a informação fornecida pela instituição não permite categorizar o tipo de denúncia.

Houve sanções para as pessoas denunciadas em 15 casos, embora as instituições de ensino superior não especifiquem o tipo de pena aplicada. São também reportados 22 casos arquivados, estando os restantes ainda em curso.

A Universidade de Lisboa é a que apresenta números mais elevados, com 32 queixas de assédio moral e 12 de assédio sexual, nos últimos cinco anos. Nenhuma outra instituição chega à dezena de casos.

Nesta contabilidade estão vários casos que têm sido noticiados, como as acusações de assédio sexual que valeram a suspensão preventiva de três professores do Instituto Politécnico do Porto, há duas semanas, ou a professora da Universidade do Porto que, depois de ter sido acusada de atacar dois colegas com um frasco de ácido, foi alvo de novas queixas por assédio moral e sexual por parte de vários outros trabalhadores da instituição, como o PÚBLICO tinha noticiado há um ano.


O pedido de informação foi dirigido às reitorias e presidências dos institutos politécnicos. Além das duas que não responderam, 12 instituições não reportam nenhum caso. Foram pedidos dados dos últimos cinco anos, mas só três instituições (Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa e Instituto Politécnico de Leiria) o fizeram. A maioria apenas reporta informações recolhidas a partir do ano passado, na sequência da recomendação da ministra, após as notícias acerca da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.

O MCTES voltou a agir depois de virem a público as alegações de assédio moral e sexual no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Ao final do dia 21 de Abril, enviou um pedido de informação às instituições de ensino superior e de ciência para conhecer os números de queixas dos últimos cinco anos, dando até dia 26 às instituições para responderem – ou seja, dois dias úteis. A ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior foi a uma audição parlamentar no dia seguinte.

Foi perante os deputados que Elvira Fortunato informou que esse inquérito revelou a existência de 38 queixas de assédio sexual, quatro das quais resultaram em sanções, nos últimos cinco anos. Foram ainda recebidas 78 denúncias por assédio moral, das quais resultaram cinco sanções disciplinares, segundo a tutela. O ministério questionou as várias faculdades e centros de investigação, pelo que o universo consultado é diferente do que foi considerado pelo PÚBLICO.

6.5.22

Alunos do Técnico também se queixam de assédio moral e sexual

in RR

Quase uma centena de alunos do Instituto Superior Técnico queixam-se de assédio sexual. Mais de 300 dizem ter sido alvo de assédio moral.Um inquérito feito pela instituição no ano passado, que agora vem a público, revela também que muitos alunos precisam de acompanhamento psicológico.

Contactado pela revista Sábado sobre os casos de assédio, o presidente do Instituto Superior Técnico respondeu que, sendo esta uma instituição de grandes dimensões, é também um espelho da sociedade em que se insere.

Estas queixas surgem após denúncias de vários estudantes da Faculdade de Direito em Lisboa sobre alegado assédio por parte de professores.

22.2.22

Quase duas em cada dez pessoas foram vítimas de assédio sexual no trabalho

in Público on-line

Os olhares insinuantes foram a forma de assédio mais destacada, seguido de “perguntas intrusivas e ofensivas acerca da minha vida” e “convites para encontros indesejados”. Quase 36% dos inquiridos disse conhecer alguém que foi vítima de assédio sexual no local de trabalho.

Quase duas em cada dez das 824 pessoas entrevistadas para um barómetro da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) admitiram ter sido vítimas de assédio sexual no local de trabalho, mas a maioria não denunciou, havendo quem tenha sido despedido depois de se queixar.

Estas e outras conclusões constam do Barómetro APAV/Intercampus sobre “Percepção da População sobre assédio sexual no local de trabalho”, para o qual foram feitas 824 entrevistas online, realizadas em Dezembro do ano passado, e que é apresentado esta terça-feira.

Os resultados evidenciam “uma elevada consciência relativamente às situações consideradas como assédio sexual”, já que “mais de 80% dos inquiridos identifica a quase totalidade das situações expostas” como tal.

Entre as 824 pessoas que responderam ao inquérito elaborado pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) e posteriormente validado pela Intercampus, 18% admitiram ter sido vítima de pelo menos uma situação de assédio sexual no local de trabalho, sendo que a maioria são mulheres (88%), sobretudo com idades entre os 18 e os 54 anos (80%).

Por outro lado, 35,9% dos inquiridos disseram conhecer alguém que foi vítima de assédio sexual no local de trabalho.

Entre as 148 pessoas que afirmaram terem sido vítimas, 54,7% afirmaram que a agressão partiu de um superior hierárquico, enquanto 45,3% referiram terem sido assediadas por um colega.

Os olhares insinuantes foram a forma de assédio mais destacada (63,5%), seguido de “perguntas intrusivas e ofensivas acerca da minha vida” (57,4%), “convites para encontros indesejados” (56,8%), “contactos físicos não desejados” (56,1%), piadas ou comentários ofensivos de carácter sexual” (46,6%), piadas ou comentários sobre o aspecto da vítima (43,2%), piadas ou comentários sobre o corpo (43,2%) ou “propostas explícitas e indesejadas de carácter sexual” (39,9%). Em 6,8% dos casos houve lugar a agressão ou tentativa de agressão sexual.

No que diz respeito à denúncia, 73% disseram não ter feito queixa e apresentaram como principal justificação (46,3%) o facto de não terem provas, havendo quem afirmasse ter tido vergonha (36,1%), receio de que a situação fosse desvalorizada (34,3%), receio de represálias (33,3%) ou simplesmente não acreditasse que a situação se resolvesse por essa via (31,5%). Houve também 11,1% dos casos em que a vítima se sentiu culpada pela situação e outros 5,6% em que afirmou ter sido desencorajada de apresentar queixa.
Mais de 30% das vítimas diz ter sentido represálias

Relativamente aos 27% de pessoas que apresentaram queixa, 55% fizeram-no junto da entidade patronal, mas houve também quem o fizesse junto da Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), da APAV, do Ministério Público ou dos órgãos de polícia criminal.

E se 62,5% afirmaram ter ficado satisfeitos com a consequência da denúncia, em 32,5% dos casos a vítima disse ter sofrido represálias, nomeadamente despedimento, com 22,5% das vítimas a referirem terem-se arrependido de ter feito queixa.

Entre as 40 pessoas que fizeram queixa, a maioria (80%) admitiu ter tido o apoio de colegas de trabalho ou das próprias chefias, enquanto 50% precisaram de apoio médico.

O estudo da APAV demonstra também que o assédio sexual é visto por uma larga maioria dos entrevistados como uso abusivo de poder, ao mesmo tempo que “é largamente reconhecido que não é apenas praticado pelos superiores hierárquicos”.

“Cerca de 80% consideram mais provável que uma mulher seja vítima de assédio sexual no local de trabalho e mais de metade consideram mais provável que as vítimas sejam de grupos etários mais jovens. Do total de inquiridos, 20% acham provável poder sofrer uma situação de assédio sexual no local de trabalho”, refere a APAV.

Por outro lado, “mais de 60% dos inquiridos consideram que o assédio sexual é difícil de ser provado, difícil de ser punido, e, talvez por consequência, pouco denunciado”.

Relativamente à informação disponível sobre o tema e recursos para denúncia e apoios, mais de metade da amostra do barómetro considera que está bem informada sobre os seus direitos, sabe o que fazer e como denunciar uma situação de assédio sexual no local de trabalho, apesar de assumir não ter conhecimento do enquadramento jurídico sobre estas questões.

5.8.19

Crimes de importunação sexual subiram em 2018, mas pouco se sabe sobre o piropo

in TSF

Passaram quatro anos desde a criminalização do piropo, mas efeitos da medida são praticamente desconhecidos.

Os crimes de importunação sexual aumentaram em 2018, com a abertura de 903 inquéritos e dedução de 122 acusações, mas desconhece-se qual a contribuição estatística do piropo, que passou a ser crime na lei portuguesa em agosto de 2015.

Volvidos quatro anos sobre a criminalização do piropo de cariz sexual como crime pouco se sabe sobre os efeitos da medida, uma vez que a importunação sexual engloba outros ilícitos, como o assédio e os atos exibicionistas.

O próprio Ministério Público (MP), através da Procuradoria-Geral da República (PGR), reconhece que, quanto ao caráter da tipificação, o sistema informático "não permite fornecer dados com a especificidade pretendida", ou seja, sobre o número de queixas e inquéritos instaurados em resultado do piropo de cariz sexual.
O que o MP dispõe são dados disponíveis relativos aos inquéritos instaurados pelo crime de importunação sexual (artigo 170.º do Código Penal), que abrange ainda o assédio e os atos exibicionistas.

Assim, os dados do MP revelam que, em 2018, foram instaurados 903 inquéritos pela eventual prática de crime de importunação sexual e que, no mesmo período, foram deduzidas 122 acusações pelo mesmo tipo de crime.
Estas cifras evidenciam uma subida, uma vez que, em 2017, foram instaurados 870 inquéritos e deduzidas 93 acusações, enquanto em 2016 foram instaurados 733 inquéritos e deduzidas 75 acusações.

Pelos dados percebe-se que os crimes de importunação sexual têm vindo a subir desde 2015, altura em que foram instaurados 659 inquéritos e deduzidas 64 acusações.

O que não se sabe é o peso que o piropo de teor sexual teve eventualmente no crescimento dos crimes de importunação sexual porque não existe um tratamento diferenciado dos dados estatísticos.

Também a PSP não consegue dizer se algumas das queixas recebidas por piropo de cariz sexual chegou ou não a julgamento, conforme admitiu o Comissário André Oliveira Serra, que explicou que, uma vez recebida a participação, a mesma segue para o Ministério Público abrir e dirigir o inquérito/investigação.

O mesmo comissário diz ter conhecimento da apresentação de algumas queixas apresentadas à PSP por pessoas que se sentem ofendidas com piropos impróprios, mas a PSP, à semelhança do MP, não tem dados individualizados desta tipologia de crime a não ser no âmbito do conjunto de crimes de importunação sexual.

André Serra salientou, no entanto, que a PSP realizou já uma campanha de sensibilização junto dos seus agentes no sentido de darem atenção às queixas relacionadas com o piropo, evitando assim qualquer desvalorização da prática daquele crime.

Contactada pela agência Lusa a propósito deste tema, Elisabete Brasil, que pertenceu à associação UMAR/União de Mulheres Alternativa e Resposta, afirmou que "tem havido muito pouca informação" sobre as queixas relativas a piropos de cariz sexual, criticando a falta de interesse do poder político em saber mais sobre este e outros fenómenos criminais previstos na Convenção de Istambul.

Elisabete Brasil notou que se pretendeu cumprir um calendário por causa da Convenção de Istambul, mas que depois não seu o devido valor aos temas aprovados e tudo está um pouco "esquecido".

Ao contrário de muitos outros países europeus, Portugal continua a não dispor de dados precisos sobre cada um dos crimes da Convenção de Istambul, nomeadamente o número de queixas e processos por cada um dos crimes sexuais e o tipo de relação entre agressor e vítima. Este défice estatístico, em sua opinião, estende-se aos crimes de assédio, violação, violência doméstica e casamentos forçados.

Elisabete Brasil alertou ainda para o facto de existirem entidades públicas a fazerem não propriamente um tratamento de dados estatísticos, mas de dados administrativos, os quais são elaborados sem cruzamento de informações e sem o rigor que se exige"Temos dados muito dispersos", comentou ainda.

Quanto ao piropo, Elisabete Brasil diz ter conhecimento pessoal de duas situações: uma delas resultou na apresentação de queixa e noutra, ocorrida o ano passado, a queixa foi arquivada.

No entender daquela responsável, a falta de organizações a atuar no terreno para dar resposta aos crimes sexuais e à violência doméstica, bem como de linhas telefónicas que forneçam informações sobre esses crimes, enfraquece a posição da vítima, embora reconheça que se "avançou" na criação de estruturas para dar resposta ao crime de violação.

"De resto, não há resposta para o assédio e a perseguição", observou.

2.8.19

Maria Elisa Domingues: "Continuo a não conseguir ver televisão como uma pessoa normal"

Por Rita Silva Avelar, in Máxima

Estudou para ser atriz e frequentou o curso de Medicina, mas foi o facto de prestar atenção aos últimos minutos de um telejornal da RTP que lhe mudou a vida. Maria Elisa Domingues nasceu em Lisboa, em 1950. Foi a primeira mulher a fazer as primeiras eleições e as primeiras grandes entrevistas a políticos, na televisão portuguesa.

Dotada de uma telegenia e de uma capacidade de comunicação incomuns, Maria Elisa Domingues alcançaria o renome como jornalista, sendo considerada, por muitos, a melhor profissional do seu segmento, até hoje. Estávamos em 1971 quando Maria Elisa se iniciou na RTP ao integrar a nova vaga de locutores de continuidade, a par de profissionais como Ana Zanatti, Eládio Clímaco, Maria Margarida, Fernando Balsinha e Raul Durão. De locutora a jornalista de primeiro plano foi o salto dado com ambição e talento. Maria Elisa foi pioneira no formato de entrevista de cariz político na televisão portuguesa. Mais tarde, no verão de 1980, foi convidada por Daniel Proença de Carvalho [na época era o presidente do Conselho de Administração da RTP] para assumir o cargo de diretora de programas do canal público, cargo a que regressou em março de 1998.

Em 1988, foi a primeira diretora da edição portuguesa da Marie Claire, revista que dirigiu até 1992. Antes disso, a 22 de abril de 1989, foi nomeada Comendadora da Ordem de Mérito pelo Presidente da República, Mário Soares. Maria Elisa também desempenhou papéis na esfera política, primeiro como assessora de imprensa da primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo (entre 1979 e 1980) e, mais tarde, como deputada independente integrada nas listas do PSD (a convite de Durão Barroso, nas eleições de 2002). Entre os seus muitos talentos, há um que sobressai e que contribuiu para a afirmação do seu nome como profissional do Jornalismo: o de entrevistadora. Prova disso, também, é a entrevista que fez a José Mourinho e que foi publicada na Máxima, em outubro de 2006, numa altura em que nenhum outro meio de comunicação social conseguiu chegar até ao treinador português. A entrevista também contribuiu para que essa edição tivesse sido a mais vendida de sempre da Máxima.

Leonor Xavier. “Sou uma devoradora da vida”
Antes de se ter tornado jornalista considerou ser médica e, até, atriz...
Podia ter sido [médica], sim… Eu tenho trabalhado sempre muito sobre saúde, sobretudo em pesquisa, e, neste momento, estou a escrever um livro sobre os 40 anos do Serviço Nacional de Saúde (SNS). É uma área com a qual me sinto sempre muito ligada porque aquele que se considera [ser] o pai do SNS, António Arnaut, que faleceu em maio passado, anunciou o projeto num programa meu. É uma área que me agrada. Eu gosto de investigar e de falar com médicos e com cientistas. O que me desagradou no curso de medicina é que os primeiros anos são muito de decorar sem compreender. Claro que depois teria gostado da outra parte, a da prática. Na minha família ainda há um gozo [para comigo] porque eu faço muitas vezes diagnósticos e acerto.

Como é que descobriu o seu primeiro emprego como jornalista?
Descobri o meu primeiro emprego a ouvir o [locutor] Henrique Mendes a ler as notícias do telejornal. Foi no final de um desses telejornais que ele anunciou que estava aberto um concurso para novos locutores. Concorremos 500 pessoas para que, num processo de eliminação que durou um ano, fôssemos escolhidos apenas dez. Isso mudou a minha vida e foi uma das razões para abandonar os estudos de Medicina e o Conservatório. Eu ainda estive um ano ou dois no grupo Cénico de Direito, porque em Medicina não havia Teatro. Entretanto, eu casei.
Foi uma das jornalistas na cobertura televisiva do 1.º de maio, um mês depois de ter sido mãe. Depois, tudo aconteceu muito rápido, tendo assumido o cargo de diretora de Informação. Como recorda esses momentos?
Eu ainda estava de licença de parto quando me telefonaram a dizer que tinha de ir [trabalhar]. Estávamos todos muito empolgados com a Revolução e com o novo país a construir e eu não tive coragem de [lhes] dizer que não. Esses primeiros acontecimentos de liberdade foram momentos muito empolgantes. E foi a minha primeira saída de casa após ter um filho que tinha apenas um mês. Foi uma alegria imensa associar as duas coisas.

Sentiu a Censura?
Foi por pouco tempo. Mas todos a sentimos, sim. A minha entrada para a Televisão, no sentido administrativo, deu-se a 1 de janeiro de 1973, mas eu já fazia reportagem há vários meses. Nesses primeiros tempos, eu frequentei o Conservatório e fiz parte da primeira formação do Grupo de Teatro A Comuna, ou seja, eu vinha do meio artístico… Talvez isso me tenha preservado de grandes contactos com a Censura. Nesse tempo havia muitos programas de cariz cultural na RTP, como magazines de artes plásticas, de cinema… E eu trabalhava sobretudo nesses programas. Mas, de algum modo, a Censura existia na nossa cabeça.

Foi uma das mulheres a abrir caminho no jornalismo televisivo e a primeira a fazer entrevistas de cariz político. Como recorda essa era?
Não me comparavam com ninguém. Não havia sequer mulheres a fazer essas coisas… Ao ser a primeira mulher a fazer esse trabalho não sofri a comparação. É claro que senti que me faltavam ferramentas. Foi por isso que deixei Portugal e que fui para Paris estudar Jornalismo.

Em que altura é que tomou essa decisão?
Fui [para Paris], pela primeira vez, no final de 1974 para frequentar um curso organizado por uma escola francesa especificamente [vocacionada] para jovens portugueses que queriam ser jornalistas, a pedido do [então] Ministério da Comunicação Social. Mais tarde fui fazer um curso mais longo com uma bolsa de estudo que me foi dada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros francês. Foi em 1976 e o meu filho tinha dois anos…

Sentiu a pressão de escolher entre a profissão e a maternidade?
Claro que sim! E eu tive a sorte de ter os meus pais disponíveis a todo o momento. Havia o pai, mas ele era médico e trabalhava imenso. De qualquer maneira, até morrermos ficamos sempre a pensar se fizemos bem ou mal. Eu tinha 30 anos [em 1981] quando eu tive, primeira vez, uma direção a meu cargo.
Chefiava homens mais velhos…

E muitos! Um cargo de chefia, ter 30 anos, ser mulher e dirigir 600 pessoas… Eu sentia muito esse peso e estava sempre a ser julgada. Naquele tempo eu já falava de Feminismo. Sempre li sobre o tema e já me considerava feminista. Mas não havia o mesmo respeito pelo trabalho das mulheres, de maneira alguma. Como tentava controlar o medo e tinha medo de falhar, (a solução) era trabalhar, trabalhar, trabalhar… Tinha no máximo oito dias de férias por ano e não tinha fins de semana.

Benazir Bhutto e Margareth Thatcher são algumas das personalidades mais importantes que entrevistou. Qual foi a entrevista que mais a marcou?
A pessoa que mais me impressionou na vida foi o Jorge Luis Borges. Fui entrevistá-lo a Buenos Aires e passei uma semana com ele. Se alguma vez eu conheci alguém com uma aura, era ele. Era praticamente cego, via sombras… Tinha uma presença e uma espiritualidade absolutamente extraordinárias. A Senhora Thatcher também me impressionou pela determinação muito refinada e por ser tão feminina. Entrevistei a Benazir Bhutto na cozinha da irmã dela, em Londres. Foi uma mulher que marcou e que teve um papel precursor no Paquistão.

Ao longo da sua carreira existiram momentos específicos em que tenha sentido as discrepâncias na igualdade de género? Sentiu-se discriminada? Assediada?
Há um tema sobre o qual eu ainda não falei, mas sobre o qual tenciono escrever, um dia. Sobre todas as pessoas ligadas ao assédio sexual. É claro que o senti e muito… Eu era uma miúda quando entrei para a Televisão. Da parte dos homens mais velhos havia uma grande prepotência e passei por situações muito complicadas de gerir porque se tratava de pessoas com quem tive de continuar a trabalhar. A partir do momento em que passei a ter poder passou a acontecer-me muito menos. Não se falava dessas coisas, acontecia tudo em surdina, como continua a acontecer hoje. Agora há, a nível mundial, espaço para as pessoas se sentirem apoiadas. Não se é ostracizada.

Como é a Maria Elisa espetadora, nos dias de hoje?
Eu continuo a não conseguir ver televisão, nem a ir ao teatro como uma pessoa normal. Estou sempre a pensar como é que eu teria feito, como é que se poderia fazer melhor.

22.10.18

"Para acabar com os estereótipos sobre as mulheres negras"

in Diário de Notícias

Instituto da Mulher Negra em Portugal é apresentado este sábado, em Lisboa. No INMUNE, mulheres, negras, feministas interseccionais querem questionar o instituído pela sociedade, a narrativa única, contrariar o poder, acabar com estereótipos. De todo o tipo.

"Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos", lê-se no artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pelas Nações Unidas, a 10 de dezembro de 1948. "Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação", lê-se no artigo 2.º da mesma declaração, que ao todo tem três dezenas de artigos.

70 anos passados sobre a adoção deste importante documento, comprova-se que, a cada minuto, a cada hora e a cada dia que passa, em várias partes do mundo, nos mais variados tipos de situações, o que nele consta não é respeitado. Comprova-se que este é um dos muitos exemplos de disposições, declarações, tratados, leis, diretivas, protocolos que parecem estar muito à frente do seu tempo por não serem acompanhados pela realidade.
"Se olharmos para países como Portugal, Espanha, Itália, quantas mulheres são assassinadas por violência doméstica? Há um nível de emancipação a nível da legislação que não acompanha a realidade. E isto significa algo. Que nada está garantido", diz ao DN Joacine Katar Moreira, académica e ativista negra, presidenta do Instituto da Mulher Negra em Portugal (INMUNE). Porque nada está garantido, ela e mais de três dezenas de mulheres negras decidiram criar este instituto, que é oficialmente apresentado este sábado, às 17.00, na Cordoaria Nacional, em Lisboa.

21.9.18

Quase metade dos jovens de Gaia considera legítimo controlar a pessoa com quem namora

in Diário de Notícias

Os rapazes legitimam mais a violência no namoro do que as raparigas, refere um estudo realizado em escolas de Gaia, segundo o qual 40% dos inquiridos considera que controlar o companheiro é um comportamento normal.

"É de salientar que, em todos os comportamentos avaliados, os rapazes legitimam mais a violência do que as raparigas. Em algumas situações, (...) a legitimação da violência é mais de três vezes superior nos rapazes", lê-se no estudo levado a cabo junto de rapazes e raparigas do concelho de Vila Nova de Gaia, distrito do Porto.

O controlo, que pode revelar-se em aspetos como proibir o namorado ou namorada de usar uma peça de roupa específica ou interferir nas amizades e companhias do parceiro, é o tipo de violência que os jovens inquiridos mais identificam nos namoros, com 40% a legitimar esse tipo de comportamentos.

Estes números, relativos a 2017, fazem parte um estudo hoje divulgado e que resulta do projeto "Art'themis +" levado a cabo pela União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP) e pela Câmara de Vila Nova de Gaia.

Em traços gerais, o aspeto perseguição ganha relevância ao reunir 28% das respostas, com 35% dos rapazes e 19% das raparigas a considerar que estes comportamentos não são atos de violência no namoro.

O acesso a redes sociais por parte do companheiro, sem autorização, é também considerado um comportamento normal para 44% dos rapazes e 33% das raparigas das escolas de Gaia alvos do estudo.

A violência sexual, com 26%, a violência através das redes sociais, com 25%, e a violência psicológica, com 15%, também são comportamentos legitimados pelos alunos de Gaia, e referidos no estudo, no qual apenas 6% dos inquiridos considera legítima a violência física no namoro.

Estes dados, bem como números relacionados com questionários semelhantes feitos já este ano, vão ser apresentados hoje no auditório da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia no seminário "Gaia, pela Prevenção do Assédio e Violência de Género".

Na mesma sessão está previsto ser apresentado um outro estudo que resulta de sessões e inquéritos levados a cabo em três escolas do distrito do Porto, não identificadas no documento.
Neste é descrito que os jovens têm "tendência para culpabilizar a vítima pelo assédio sexual".

No que respeita à intervenção, todos os grupos consideraram fundamental recorrer a um adulto para falar sobre a situação e pedir ajuda, ainda que os jovens do sexo masculino tenham respondido em maior percentagem que não se sentem à vontade neste aspeto.

"Foi ainda evidenciado que as barreiras para a intervenção são o medo de represálias, a falta de segurança e de coragem, não saberem identificar uma situação de assédio sexual e sentirem-se excluídos do grupo", lê-se nas conclusões.

16.1.18

Papa pede perdão pelos abusos sexuais cometidos por membros da Igreja chilena

Elvis Gonzalez/EPA, in o Observador

O Papa Francisco falava num encontro, no Chile, quando afirmou sentir "dor e a vergonha" pela dor causada às crianças, pelos membros da Igreja, referindo-se aos abusos sexuais.

O papa Francisco pediu perdão pelos crimes de pedofilia cometidos por membros da Igreja Católica no Chile, referindo que sentiu “dor e vergonha” diante do “dano irreparável” causado às crianças vítimas de abuso sexual, numa declaração feita esta terça-feira durante uma visita ao país.

Francisco, que se encontra no Chile para uma visita de três dias, falava durante um encontro com membros do corpo diplomático e políticos chilenos. “Aqui não posso deixar de manifestar a dor e a vergonha que sinto perante o dano irreparável causado às crianças por elementos da Igreja”, disse.

As palavras do Papa foram recebidas com aplausos por quase 700 pessoas. “Quero unir meus irmãos no episcopado, pois é justo pedir perdão e apoiar as vítimas com todas as suas forças, ao mesmo tempo devemos nos esforçar para não nos repetir”, disse o papa.

A chegada de Francisco reviveu o escândalo dos sacerdotes que abusaram de crianças, tendo a organização Bishop Accountability publicado esta semana uma lista de 80 sacerdotes, clérigos e uma freira acusados de abusos sexuais de menores no país sul-americano.

O papa aterrou na noite de segunda-feira na capital chilena para uma visita ao país, durante a qual se esperam protestos contra os abusos sexuais realizados por padres e demonstrações de ceticismo face à Igreja Católica Romana. Esta é a primeira visita do papa a esta nação com 17 milhões de habitantes, desde que assumiu o papado, em 2013.

Acontece numa altura em que muitos chilenos estão descontentes com a decisão de Francisco, tomada em 2015, de nomear um bispo próximo do reverendo Fernando Karadima, que o Vaticano considerou culpado, em 2011, de abusar sexualmente de dezenas de menores ao longo de décadas.

Durante os próximos três dias, Francisco tem previsto celebrar missas em Santiago e nas cidades de Temuco, no sul, e Iquique, no norte. Na quinta-feira, o papa parte para o Peru, para uma visita de três dias.

4.8.17

Todos os dias são abertos dois inquéritos por assédio sexual em Portugal

Aline Flor, in Público on-line

A lei que criminalizou os piropos de teor sexual entrou em vigor há dois anos, mas ainda não é possível encontrar dados precisos sobre denúncias ou condenações. No ano passado, o crime de importunação sexual, que inclui os piropos, levou à abertura de 733 inquéritos.

“Fazia-te isto", “metia não sei o quê”, “tu queres é tal”, muitos assobios. Os comentários repetiram-se várias vezes, num café de esquina da Rua do Telhal, em Lisboa, num final de tarde em meados de Junho. Ricardo Moreira descia a rua de carro, mas o trânsito estava lento o suficiente para presenciar, ao longo de vários minutos, os comentários que um grupo de quatro homens fazia “a cada rapariga ou mulher que passava”.

“Fiz aquilo que é natural. Sendo que é crime, liguei para a polícia”, relatou ao PÚBLICO. “Expliquei o que se estava a passar, disse onde, qual era o café, quantos rapazes é que eram, o que estavam a fazer, e perguntei se podiam passar pelo local.” O que intrigou este investigador do ministério do Trabalho — e o levou a partilhar o episódio numa publicação no Facebook — foi quando lhe perguntaram “por três vezes” o que é que os homens estavam a fazer para além disso. “Não achei natural a reacção da polícia face a uma coisa que hoje não é legal, achar tão esquisito eu estar a ligar.” Mas, por fim, o agente garantiu-lhe que iria ser enviado alguém para tratar da situação.
Bloco leva piropo ao Parlamento com punição até três anos
Bloco leva piropo ao Parlamento com punição até três anos

Em Portugal, o debate sobre a criminalização do piropo foi aceso, nas redes sociais e nos media. A questão acabou solucionada discretamente, em Agosto de 2015, quando as “propostas de teor sexual” foram incluídas no crime de importunação sexual através do mesmo diploma que alterou os crimes de violação e coacção sexual e criou os crimes de mutilação genital feminina, perseguição e casamento forçado.

Contudo, nestes dois anos desde que a formulação de “propostas de teor sexual” passou a ser crime, o impacto da lei sobre os piropos ofensivos ainda não é conhecido.

Contactadas pelo PÚBLICO, as forças de segurança não fornecem dados específicos sobre denúncias de importunação através da formulação de "propostas de teor sexual". Os dados surgem sempre agregados aos outros comportamentos previstos no crime de importunação sexual. O porta-voz da PSP, Hugo Palma, acredita que “não será uma tipologia com muita dimensão”, o que justifica que os dados relativamente a esses comportamentos — enquadrados num crime “que vai desde as palavras aos gestos” — não estejam tratados.

Da mesma forma que não existem dados sobre as denúncias, não é ainda possível saber se houve alguma condenação. O Ministério Público também possui apenas dados gerais relativamente ao crime de importunação sexual, que mostram que no ano passado foram instaurados 733 inquéritos pela eventual prática deste crime, que abrange as "propostas de teor sexual" (vulgo piropos), "actos exibicionistas" e "constrangimento a contacto de natureza sexual". Ou seja, este tipo de situações deram origem a dois inquéritos por dia.

No mesmo período, foram deduzidas 75 acusações pelo mesmo tipo de crime.

Da parte do Ministério da Justiça, as estatísticas relativas a 2016 só estarão disponíveis no final de Outubro. Em 2015 não houve processos findos nos tribunais pelo crime de importunação sexual. Recorde-se que a lei tinha entrado em vigor na segunda metade do ano.
"Há muito trabalho pela frente"

Para Isabel Moreira, deputada socialista que fez parte do Grupo de Trabalho para estudar as Implicações Legislativas da Convenção de Istambul (que funcionou entre Março de 2014 e Outubro de 2015), a lei pode estar a ter um efeito dissuasor.

“Há uma maior sensibilidade. O que algumas pessoas mais próximas me contaram foi terem avisado as pessoas de que o que estavam a fazer era crime — isto não deve ser confundido com um simples piropo, que não é crime —, e que se a coisa continuasse chamaria a polícia. Curiosamente há muita gente que fica surpreendida, mas calam-se. O efeito dissuasor funciona”, considera a deputada. “Acho é que há muito trabalho pela frente, sobretudo de sensibilização, para as pessoas saberem que existe”, remata.

O porta-voz da PSP considera que o aparentemente baixo número de queixas pode estar relacionado com a falta de reconhecimento do problema. “A minha sensibilidade é que na maioria dos casos a situação passa-se, incomoda, mas a pessoa que é vítima acaba por não querer entrar por todo o processo de fazer a queixa na polícia e ir a tribunal”, nota Hugo Palma.

Esta impressão também é partilhada por Maria José Magalhães, presidente da UMAR — União de Mulheres Alternativa e Resposta, que explica que não chegou ao conhecimento da associação nenhum caso denunciado. A dificuldade em encontrar exemplos não surpreende a activista e docente da Universidade do Porto: “As pessoas não fazem queixa porque sabem que vai ser um processo muito difícil, a sua vida vai ser escrutinada, o apoio à vítima é reduzido. Isto acontece no assédio como nas outras formas de violência sexual contra mulheres — sobretudo mulheres, mas as vítimas de violência sexual não são só elas."
Piropo não é elogio

O primeiro inquérito municipal à violência doméstica e de género feito no concelho de Lisboa, apresentado na semana passada, revela que tanto homens como mulheres ouvem piropos. “Os homens também são vítimas de assédio, fundamentalmente através do piropo, só que a reacção é diferente”, explica ao PÚBLICO o sociólogo Manuel Lisboa, director do Observatório Nacional de Violência e Género e coordenador do inquérito. “Enquanto os homens sentem-se gloriosos, as mulheres respondem que se sentem incomodadas e diminuídas, e vêem como uma agressão."

O estudo feito em Lisboa mostrou que “o local mais perigoso para as mulheres continua a ser a casa”, mas no espaço público — no local de trabalho, na rua, nos transportes — “o tipo de violência que surge mais visível é a violência sexual”, relata Manuel Lisboa. Os dados mostram que as situações de violência geram insegurança.

A nível das reacções a situações de violência (física, psicológica e/ou sexual), o estudo mostra que 62,3% das mulheres não faz nada em relação aos actos de que são vítimas — e tendem a recorrer à polícia apenas em situações graves ou quando se sentem em perigo de vida. Entre os principais motivos estão o facto de não atribuírem importância suficiente ao sucedido (18%) ou não terem confiança no trabalho das entidades competentes (14%).

Maria José Magalhães, da UMAR, é também coordenadora do projecto europeu Bystanders: desenvolver respostas ao assédio sexual, que trabalha em escolas para aumentar a consciência e trabalhar as possíveis respostas a situações de assédio sexual. Desde o início do ano, a equipa liderada pela docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto tem falado com jovens estudantes, professores e funcionários para perceber como estes comportamentos são vistos.

As conversas com os jovens mostram que a maioria “enquadra o assédio sexual naquilo a que chamamos o contínuo da violência”. “Em termos culturais, de concepções, eles não separam o assédio sexual de outras formas de violência, percebem que se integra nesse contínuo… do piropo, da agressão verbal, do apalpanço, da coacção sexual, até à violação”, descreve a investigadora.
A culpa é da vítima?

Maria José Magalhães sublinha que também é preciso trabalhar a questão das denúncias. “Outra conclusão que é muito evidente no nosso país, apesar de ser comum também aos outros países, é aquilo que nós chamamos de culpabilização das vítimas, que é esta ideia de que elas é que provocam… que no fundo criam as condições para serem assediadas.”

“O que é interessante é que este blaming the victim está mais presente nos adultos do que nos jovens", alerta. "Ainda existe esta ideia de que elas gostam, de que elas querem, de que elas fazem por isso. Nos adultos, a culpabilização das vítimas é de uma proporção que mostra que precisamos fazer muito trabalho de sensibilização."

E este lançar de culpas sobre as vítimas leva a que estas, muitas vezes, calem as suas queixas. “Não denunciam porque, do seu ponto de vista, ninguém faz nada. Não vale a pena falar com a polícia, não vale a pena falar com a direcção da escola, não vale a pena falar com o director de turma, porque ninguém faz nada.”

Não é possível afirmar que isto aconteça no caso das denúncias de “piropos”, mas a presidente da UMAR garante que acontece nas denúncias de outras formas de violência sexual. Enquanto Portugal fez grandes avanços no combate à violência doméstica, ainda há problemas nos casos de vítimas de violência sexual por desconhecidos. “São situações que ainda não estão completamente concretizadas na aplicação da lei. É o mesmo problema que acontece com o assédio sexual, ainda estão imbuídas dos tabus sociais, de que as vítimas ‘provavelmente querem’.”