por Ana Rodrigues, in RR
O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza não tem dúvidas: falta estratégia na União Europeia para o combate à pobreza. Em entrevista à Renascença, Sérgio Aires diz-se muito preocupado com a forma desordenada como são gastos os fundos estruturais. E afirma que “cada país faz o que quer, porque faltam medidas concretas".
A União Europeia quer tirar 20 milhões de pessoas da situação de pobreza até 2020. É o objectivo concreto dos fundos estruturais atribuídos para o combate à pobreza e à exclusão social. Os Estados-membros são obrigados a canalizar, para esse fim, 20% do Fundo Social Europeu, o mais antigo dos fundos estruturais.
Por cá, exemplo disso, é o Programa de Apoio ao Emprego, que terá mais de dois mil milhões de euros. Mas, será que o dinheiro está a ser bem aplicado? Esta foi uma das dúvidas colocadas no 13º encontro de pessoas em situação de pobreza que decorreu em Bruxelas, este ano dedicado ao financiamento do combate à pobreza e à exclusão.
Portugal marcou presença com uma delegação composta por técnicos e com 3 mulheres que representaram os “rostos anónimos” da exclusão social no nosso país.
A jornalista Ana Rodrigues foi conhecer estas histórias de vida e falar com duas delas. Vivem em diferentes zonas do país, têm histórias de vida diferentes, mas são mulheres em situação de pobreza.
A Ana tem mais de 40 anos e é mãe. A Marina está na casa dos 20. Ambas apostaram na formação académica, licenciaram-se, mas não conseguem fugir ao desemprego. Em Bruxelas ouviram falar muito do combate à pobreza e de fundos estruturais para apoiar uma luta difícil.
Quem sente na pele o que é viver numa situação de pobreza quer ter voz nos programas de combate a este flagelo e foram estes testemunhos que foram levados a Bruxelas.
O presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza também esteve presente. É português. Sérgio Aires, sociólogo, é também responsável pelo Observatório da Luta Contra a Pobreza na cidade de Lisboa.
Em entrevista à Renascença coloca o dedo na ferida, para dizer que “a União Europeia não tem uma estratégia eficaz de combate à pobreza” e acrescenta que este é o momento ideal para se fazerem mudanças.
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2.10.14
25.9.14
Além dos jovens desempregados, há ainda os que trabalham e vivem na pobreza
Ana Cristina Pereira (em Bruxelas), in Público on-line
Os jovens têm de ter empregos que respeitem “as necessidades do mercado, mas também os seus sonhos”, recomendaram participantes no 13º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza, que decorre em Bruxelas
Ana Magalhães esforçava-se para calar o embaraço de falar em público, ainda por cima em inglês. Não podia ficar calada. O assunto não lhe podia interessar mais. Há mais de 5,3 milhões de jovens sem trabalho na União Europeia. E quando estarão como ela, a fazer o que calha, à espera de fazer o que sonham? Percebe o cansaço, o alheamento, a necessidade de recuperar esperança.
No Museu Auto World, no Parque do Cinquentenário, em Bruxelas, delegados do 13.º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza, organizado pela Rede Europeia Antipobreza, EAPN, com o patrocínio da Comissão Europeia, dividiam-se por cinco oficinas temáticas: pobreza juvenil, habitação e sem-abrigo, pobreza e exclusão de imigrantes, riqueza e desigualdade, rendimento mínimo garantido. Todos a trocar experiências e a extrair recomendações para fazer à comissão.
Naquela sala, na terça-feira à tarde, ao ouvir falar de gente de tantos lugares mais ou menos distantes, Ana sentia um estranho conforto. “Não me sinto tão sozinha. As pessoas têm os mesmos problemas, as mesmas dúvidas, a mesma vontade de os ultrapassar. Tive necessidade de partilhar a minha experiência. É importante fazermos ouvir a nossa voz. Ninguém melhor do que nós pode dizer o que estamos a viver.”
A rapariga, de 24 anos, cresceu nos arredores de Vila Real. Sabe o que é pobreza, embora só tenha tomado consciência dela depois de começar a participar nas reuniões da EAPN Portugal. A mãe não sabe escrever nem ler, ganhava a vida a trabalhar à jorna, no campo. E o pai, lixeiro na Suíça, pouco contribuía. Foi ganhar dinheiro na Suíça para arranjar a casa, mas a casa nunca chegou a ser arranjada e ele para lá ficou.
Os quatro membros da delegação portuguesa sentaram-se a um canto na oficina de pobreza juvenil. Por causa de Ana, licenciada em Serviço Social pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro a trabalhar numa loja de gomas, mas também por causa de Marina Ferreira, 22 anos, saída do curso de Educação Ambiental da Escola Superior de Educação de Viseu, a tentar entrar no mercado de trabalho e a sentir-se impedida de sonhar com mais do que um estágio profissional.
Apesar do problema ser europeu, a desigualdade, dentro do espaço comunitário, é evidente. Em Portugal, Ana só ouve falar em partir. A irmã dela, um ano e meio mais nova, partiu. Faz limpezas e cuida de crianças em Zurique. Ela dá-se com o pai. Ana nunca engoliu os anos de abandono, de privação. E ia sentir-se “um bocadinho mal” por deixar a mãe, que tanto se esforçou para fazer dela “doutora”, a primeira na família, e até o Estado, que lhe deu uma bolsa.
Sobra gente da idade dela numa teia de estágios, cursos, subempregos, aprendizagens, desempregos, retornos à escola – na União Europeia inteira e em particular nos países mais afectados pela crise, como Portugal. O Instituto Nacional de Estatística vai actualizando o retrato: pobreza juvenil a rondar os 30%; salário juvenil a ficar 23% abaixo do praticado entre trabalhadores por contra de outrem; taxa de desemprego entre menores de 30 a ultrapassar os 26%.
O assunto está na ordem do dia, até porque muitos jovens deixaram de acreditar na União Europeia. Ainda em Junho o Parlamento Europeu aprovou um reforço da dotação orçamental da Garantia Jovem 2020, programa destinada a assegurar que todos os jovens com menos de 25 recebem proposta de emprego, formação contínua ou estágio profissional no prazo de quatro meses após terem terminado os estudos ou ficado desempregados. Recomendou normas mínimas de qualidade dos estágios, remunerações dignas, medidas adicionais para incentivar o empreendedorismo.
Na manhã desta quarta-feira, Ana estava agradada com a mensagem que o seu grupo apresentou na Comissão Europeia, Zoltán Kazatsay, director adjunto da Direcção Geral do Emprego, dos Assuntos Sociais e da Inclusão, e Thomas Dominique, presidente do Comité da Protecção Social. “Temos de dar esperança aos jovens. Os jovens têm de ser capacitados e de participar, de ter um emprego que respeite as necessidades do mercado, mas também os seus sonhos”, leu um rapaz. Não basta olhar para o desemprego. É preciso ter um olhar mais abrangente, que abarque a precaridade, o nível salarial. Há cada vez mais jovens que trabalham e vivem em situação de pobreza e exclusão.
A jornalista viajou a Bruxelas a convite da Comissão Europeia
Os jovens têm de ter empregos que respeitem “as necessidades do mercado, mas também os seus sonhos”, recomendaram participantes no 13º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza, que decorre em Bruxelas
Ana Magalhães esforçava-se para calar o embaraço de falar em público, ainda por cima em inglês. Não podia ficar calada. O assunto não lhe podia interessar mais. Há mais de 5,3 milhões de jovens sem trabalho na União Europeia. E quando estarão como ela, a fazer o que calha, à espera de fazer o que sonham? Percebe o cansaço, o alheamento, a necessidade de recuperar esperança.
No Museu Auto World, no Parque do Cinquentenário, em Bruxelas, delegados do 13.º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza, organizado pela Rede Europeia Antipobreza, EAPN, com o patrocínio da Comissão Europeia, dividiam-se por cinco oficinas temáticas: pobreza juvenil, habitação e sem-abrigo, pobreza e exclusão de imigrantes, riqueza e desigualdade, rendimento mínimo garantido. Todos a trocar experiências e a extrair recomendações para fazer à comissão.
Naquela sala, na terça-feira à tarde, ao ouvir falar de gente de tantos lugares mais ou menos distantes, Ana sentia um estranho conforto. “Não me sinto tão sozinha. As pessoas têm os mesmos problemas, as mesmas dúvidas, a mesma vontade de os ultrapassar. Tive necessidade de partilhar a minha experiência. É importante fazermos ouvir a nossa voz. Ninguém melhor do que nós pode dizer o que estamos a viver.”
A rapariga, de 24 anos, cresceu nos arredores de Vila Real. Sabe o que é pobreza, embora só tenha tomado consciência dela depois de começar a participar nas reuniões da EAPN Portugal. A mãe não sabe escrever nem ler, ganhava a vida a trabalhar à jorna, no campo. E o pai, lixeiro na Suíça, pouco contribuía. Foi ganhar dinheiro na Suíça para arranjar a casa, mas a casa nunca chegou a ser arranjada e ele para lá ficou.
Os quatro membros da delegação portuguesa sentaram-se a um canto na oficina de pobreza juvenil. Por causa de Ana, licenciada em Serviço Social pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro a trabalhar numa loja de gomas, mas também por causa de Marina Ferreira, 22 anos, saída do curso de Educação Ambiental da Escola Superior de Educação de Viseu, a tentar entrar no mercado de trabalho e a sentir-se impedida de sonhar com mais do que um estágio profissional.
Apesar do problema ser europeu, a desigualdade, dentro do espaço comunitário, é evidente. Em Portugal, Ana só ouve falar em partir. A irmã dela, um ano e meio mais nova, partiu. Faz limpezas e cuida de crianças em Zurique. Ela dá-se com o pai. Ana nunca engoliu os anos de abandono, de privação. E ia sentir-se “um bocadinho mal” por deixar a mãe, que tanto se esforçou para fazer dela “doutora”, a primeira na família, e até o Estado, que lhe deu uma bolsa.
Sobra gente da idade dela numa teia de estágios, cursos, subempregos, aprendizagens, desempregos, retornos à escola – na União Europeia inteira e em particular nos países mais afectados pela crise, como Portugal. O Instituto Nacional de Estatística vai actualizando o retrato: pobreza juvenil a rondar os 30%; salário juvenil a ficar 23% abaixo do praticado entre trabalhadores por contra de outrem; taxa de desemprego entre menores de 30 a ultrapassar os 26%.
O assunto está na ordem do dia, até porque muitos jovens deixaram de acreditar na União Europeia. Ainda em Junho o Parlamento Europeu aprovou um reforço da dotação orçamental da Garantia Jovem 2020, programa destinada a assegurar que todos os jovens com menos de 25 recebem proposta de emprego, formação contínua ou estágio profissional no prazo de quatro meses após terem terminado os estudos ou ficado desempregados. Recomendou normas mínimas de qualidade dos estágios, remunerações dignas, medidas adicionais para incentivar o empreendedorismo.
Na manhã desta quarta-feira, Ana estava agradada com a mensagem que o seu grupo apresentou na Comissão Europeia, Zoltán Kazatsay, director adjunto da Direcção Geral do Emprego, dos Assuntos Sociais e da Inclusão, e Thomas Dominique, presidente do Comité da Protecção Social. “Temos de dar esperança aos jovens. Os jovens têm de ser capacitados e de participar, de ter um emprego que respeite as necessidades do mercado, mas também os seus sonhos”, leu um rapaz. Não basta olhar para o desemprego. É preciso ter um olhar mais abrangente, que abarque a precaridade, o nível salarial. Há cada vez mais jovens que trabalham e vivem em situação de pobreza e exclusão.
A jornalista viajou a Bruxelas a convite da Comissão Europeia
22.9.14
Quem sabe o que é pobreza vai discutir uso de fundos comunitários
Ana Cristina Pereira, in Público on-line
Começa esta segunda-feira, em Bruxelas, o 13.º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza.
O tema pode parecer fora do alcance de quem se aflige para pagar as contas, mas está na ordem do dia. O financiamento da luta contra a pobreza, fundos estruturais incluídos, estão a partir desta segunda-feira em debate em Bruxelas, no 13º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza.
Organizado pela Rede Europeia Antipobreza, EAPN na sigla original, com o apoio da Comissão Europeia, o encontro junta ao longo de três dias pessoas de 30 países. De Portugal partiu uma pequena delegação, que inclui três mulheres com um percurso de vida marcado pela exclusão.
Este é o momento ideal para discutir as questões relacionadas com o financiamento, diz Sérgio Aires, presidente da EAPN. É que a Estratégia Europa 2020 – o plano da União Europeia para sair da crise e desenvolver um modelo de crescimento “inclusivo” – atribui um papel mais importante aos fundos estruturais. Um dos objectivos é tirar 20 milhões de pessoas da pobreza. Os Estados-membros são obrigados a canalizar para isso pelo menos 20% do Fundo Social Europeu.
Cada país preparou um grupo. Os delegados de cada um deles deverão agora apresentar exemplos de como os fundos estruturais têm sido aplicados. Deverão também ser capazes de sugerir tipos de projectos que, em seu entender, serão capazes de chegar aos grupos mais vulneráveis – crianças em risco, jovens com poucas qualificações, pessoas com incapacidade física ou mental, minorias étnicas, requerentes de asilo, refugiados, imigrantes desempregados de longa duração.
Os Estados já definiram os acordos de parceria. Resta agora, diz Sérgio Aires, tentar influenciar a aplicação de medidas. Parece-lhe fundamental envolver a sociedade civil na preparação e no acompanhamento, sobretudo “as pessoas que vivem situação de pobreza e de exclusão social”.
A verba pode ser aplicada de forma transversal ou em programas operacionais. No caso de Portugal, a grande novidade é o Programa Operacional Inclusão Social e Emprego, para o qual serão canalizados 1971 mil milhões de euros provenientes do Fundo Social Europeu.
Começa esta segunda-feira, em Bruxelas, o 13.º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza.
O tema pode parecer fora do alcance de quem se aflige para pagar as contas, mas está na ordem do dia. O financiamento da luta contra a pobreza, fundos estruturais incluídos, estão a partir desta segunda-feira em debate em Bruxelas, no 13º Encontro de Pessoas em Situação de Pobreza.
Organizado pela Rede Europeia Antipobreza, EAPN na sigla original, com o apoio da Comissão Europeia, o encontro junta ao longo de três dias pessoas de 30 países. De Portugal partiu uma pequena delegação, que inclui três mulheres com um percurso de vida marcado pela exclusão.
Este é o momento ideal para discutir as questões relacionadas com o financiamento, diz Sérgio Aires, presidente da EAPN. É que a Estratégia Europa 2020 – o plano da União Europeia para sair da crise e desenvolver um modelo de crescimento “inclusivo” – atribui um papel mais importante aos fundos estruturais. Um dos objectivos é tirar 20 milhões de pessoas da pobreza. Os Estados-membros são obrigados a canalizar para isso pelo menos 20% do Fundo Social Europeu.
Cada país preparou um grupo. Os delegados de cada um deles deverão agora apresentar exemplos de como os fundos estruturais têm sido aplicados. Deverão também ser capazes de sugerir tipos de projectos que, em seu entender, serão capazes de chegar aos grupos mais vulneráveis – crianças em risco, jovens com poucas qualificações, pessoas com incapacidade física ou mental, minorias étnicas, requerentes de asilo, refugiados, imigrantes desempregados de longa duração.
Os Estados já definiram os acordos de parceria. Resta agora, diz Sérgio Aires, tentar influenciar a aplicação de medidas. Parece-lhe fundamental envolver a sociedade civil na preparação e no acompanhamento, sobretudo “as pessoas que vivem situação de pobreza e de exclusão social”.
A verba pode ser aplicada de forma transversal ou em programas operacionais. No caso de Portugal, a grande novidade é o Programa Operacional Inclusão Social e Emprego, para o qual serão canalizados 1971 mil milhões de euros provenientes do Fundo Social Europeu.
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