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28.3.23

Violência no namoro. É preciso “vacinação comportamental” para criar “imunidade de grupo”

Carla Bernardino, in Delas

UMAR, APAV e AMCV pedem no parlamento medidas concretas para combater violência no namoro em Portugal: do código penal às escolas, da sensibilização à educação, da combate à agressão e à publicação de imagens íntimas não consentidas

Um sistema legal distintivo para os menores que pratiquem violência no namoro, separação de vítimas e agressores, políticas públicas transversais em vez de projetos-piloto, mais educação nas escolas e penalização por divulgação de imagens não consentidas na internet. Estas foram algumas das medidas que associações que trabalham diretamente com vítimas de violência de género, doméstica e no namoro pediram esta terça-feira aos deputados, numa audição na Subcomissão para a Igualdade e Não Discriminação.

Ana Leonor Marciano, advogada da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR), pediu “processos tutelares educativos e processos de promoção e prevenção” e lembrou que o “sistema legal e protetivo de menores tem de ser capaz de dar resposta às vítimas e a agressores de violência no namoro e aplicar medidas em concreto, passar informação clara aos jovens que estes modelos de atuação não são aceitáveis”.

A UMAR considerou que “têm de existir consequências”, ainda que os agressores sejam menores de 16 anos – e por isso inimputáveis – e pediu que “as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens possam trabalhar nas escolas de forma continuada e reiterada”.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) vincou a importância da avaliação dos programas para se perceber os impactos e atuar em conformidade, lembrando que a violência no namoro nem sempre acaba com o fim da relação, arriscando, quando não acautelada, ser a antecâmara de mais agressão no futuro. A APAV pede “programas estruturados com lógica curricular em todo o ano letivo e que comecem o mais cedo possível, no primeiro ciclo” – e até antes – “para sensibilizar e educar para os relacionamentos”.

Solicitou ainda aos deputados soluções para que os programas sejam de aplicação territorial universal e uniformizada em todas as escolas, com “formação de profissionais para denunciarem as realidades com as quais contactam”. Os responsáveis da APAV falaram mesmo com recurso aos conceitos da saúde pública, de “um processo de vacinação comportamental que chegue a todos e produza uma imunidade de grupo”.

“Alérgica a programas-piloto” por serem “promotores de discriminação, Margarida Medina Martins, presidente da Associação de Mulheres Contra a Violência, alertou para políticas públicas transversais, em todo o território. Aos deputados, pediu para que a “Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens esteja mais acima na responsabilidade do país”, uma vez que “Portugal abandona quase totalmente os jovens de cima abaixo”, considerou.

Margarida Medina Martins revelou que a pandemia deixou sequelas graves em crianças que, por terem assistido a violência doméstica, violação e pornografia hardcore, “aos quatro anos já abusam de crianças de quatro anos ou menores” quando chegam a casas-abrigo. A responsável pede “uma revolução na escola” e uma atuação sistematizada. “Têm de ser criados dentro dos serviços públicos fluxogramas, quem faz o quê dentro dessa teia e quem é o interlocutor”, considera.

21.3.23

Mealhada: Associações juvenis desafiadas a combater a violência no namoro

in Diário As Beiras

As associações do concelho da Mealhada têm uma palavra a dizer na prevenção da violência no namoro, considerou Hugo Silva, vereador da Juventude, que participou numa mesa redonda sobre o tema que decorreu no último fim de semana.

Perante representantes da Prevenção Criminal e Policiamento da GNR de Anadia, do Instituto da Juventude (IPDJ) e de instituições do setor, o autarca deixou o desafio aos jovens e associações juvenis para que “abracem o desafio do voluntariado e que os jovens se possam comprometer com esta temática, disseminando de cultura de tolerância e de partilha na construção das suas relações, de forma a que estas sejam saudáveis”.

Combate à intolerância

No debate que decorreu no Luso ficaram bem claras as maiores fragilidades da sociedade atual: “a falta de tolerância e empatia para com o outro, a ausência de uma verdadeira educação para a igualdade de género, bem como a necessidade de se fazer um corte na violência geracional e transgeracional”.

Para combater este flagelo social existe o programa “Namorar com fair play”, do IPDJ, apresentado por Isabel Henriques, dirigido a entidades privadas sem fins lucrativos e a jovens entre os 14 e os 30 anos, que visa prevenir a violência com base nas desigualdades de género, sabendo que a violência está presente no namoro, seja ela física, psicológica ou sexual.

Participaram Pedro Pala de Sá, psicólogo; Vera Carnapete, psicóloga da Associação para o Planeamento da Família e o cabo-mor Marques, da GNR de Anadia. Refletiram sobre a violência e agressividade dos jovens, mas também do perigo que constituem as relações virtuais encetadas nas redes sociais.

1.2.23

PSP recebeu 2019 denúncias

Marta  Gonçalves, in Expresso

EM DESTAQUE VIOLÊNCIA NO NAMORO

Número é o mais baixo dos últimos quatro anos. APAV alerta: menos denúncias não significa menos crime

A Polícia de Segurança Pública (PSP) recebeu 2019 denúncias por violência no namoro no ano passado. O número revelado ao Expresso dá conta de uma diminuição das queixas apresentadas, quer comparativamente a 2020 (2051) e 2021 (2215), quer também relativamente aos anos pré-pandemia (2185 queixas em 2019). É preciso recuar a 2018 para encontrar um número mais baixo (1920).

A tendência de redução mantém-se também entre os mais jovens. Também entre a faixa etária compreendida, entre os 13 e 25 anos, a diminuição é notada: 500 denúncias no ano passado (dados ainda provisórios). “Estamos em crer que para este decréscimo contribui também o trabalho de proatividade da PSP, nomeadamente através das ações de sensibilização junto da comunidade escolar”, refere fonte daquela força de segurança que vinca que a diminuição das queixas “é muito relevante. Nestas ações abordamos os tipos mais comuns de violência, desde a física, passando pela restrição ou proibição de contactos com outras pessoas do círculo de amigos da pessoa violentada, restrições à forma de vestir ou de conviver, etc.”.

Nos últimos cinco anos, entre os mais jovens, a PSP recebeu mais de 3 mil denúncias, sendo 2019 (845) o período com mais queixas. Em 2018 foram 703, em 2020 o registo foi de 688 e em 2021 de 733. “As vítimas, ou qualquer outra pessoa que seja testemunha, devem apresentar queixa nas esquadras ou procurar ajuda junto das equipas da Escola Segura ou das equipas de Proteção e Apoio à Vítima”, apela a PSP.

Há “muita” violência psicológica e emocional, sobretudo controlo. É ainda comum a pressão para iniciar a vida sexual

No âmbito do programa Escola Segura, no último ano letivo, a PSP fez 1297 ações de sensibilização relacionadas com a temática da violência no namoro e que contaram com a participação de 24 mil alunos.

Para a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) é essencial vincar que, tal como na violência doméstica, nestes casos há uma “cifra negra” que pode esconder uma realidade mais preocupante do que aquela que o número de denúncias revela. “Não podemos dizer face ao decréscimo de denúncias que há uma diminuição do tipo de crime”, diz Daniel Cotrim, psicólogo e o responsável pela área de violência doméstica e de género da APAV. “Acreditamos que o número negro pode ser mais elevado. Por outro lado, haver uma diminuição do número de denúncias é importante porque significa que as campanhas de prevenção e sensibilização estão a surtir efeito.”

CIÚME, PRESSÃO, AMEAÇAS, SEXO

O fenómeno da violência no namoro, diz ainda o psicólogo, imita muitas vezes o da violência doméstica. Também aqui o controlo constante da vítima por parte do agressor dificulta a denúncia. “Há muitas jovens que nem dizem aos pais que namoram, quanto mais denunciar. Isto é mais uma barreira”, aponta Cotrim. “No século XXI continuamos a ouvir raparigas de 12, 13, 14 ou 15 anos a dizerem que os pais não as deixam namorar e, se souberem, ficam de castigo. Esta desigualdade e discurso patriarcal continua muito vincado nesta forma de violência. Temos de envolver as famílias e as comunidades nestes processos”, defende.

As vítimas são maioritariamente do género feminino e “raramente” são as próprias a pedir ajuda. À APAV os casos chegam por via de professores que se apercebem das relações violentas ou porque a vítima confidenciou.

O controlo é das formas mais comuns de agressão às vítimas de violência no namoro. “O controlo das redes sociais, na forma de vestir, nas amizades, com quem se pode falar. Depois há o ciúme, tolerado como uma manifestação romântica”, diz Cotrim. “No campo da violência sexual há a pressão para ter relações, forçar a vítima com a ameaça de, se não fizer, vai ser contado na escola e aos amigos”, continua. Há ainda a violência na internet. “Quando querem terminar, ameaçam divulgar fotos e conversas íntimas.”