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9.2.23

Redes de tráfico alugam bancas de crack aos concorrentes e negócio prospera, alerta a PSP

Hugo Franco, in Expresso

Na Quinta do Loureiro e Mouraria, em Lisboa, e na Pasteleira, no Porto, disparou o consumo mas também a oferta da droga que veio ocupar o espaço que nos anos 90 pertencia à heroína. A PSP fala em redes de tráfico mais complexas e violentas

A Mouraria e a Quinta do Loureiro são considerados pela PSP como dois dos piores bairros em Lisboa no que respeita ao tráfico e consumo de crack, embora haja outros também considerados preocupantes como Chelas ou o Portugal Novo.

Antes da pandemia, em cada três ‘bolsas’ [conjunto de várias doses] de cocaína apreendidas aos dealers, duas eram da crua [em pó] e uma cozida [crack]. Com o fim da covid-19, o crack igualou a coca com maior grau de pureza nas apreensões e nas duas últimas grandes operações policiais nos dois bairros, os agentes apanharam pela primeira vez mais coca cozida do que crua. “A procura pelo crack é tanta na Mouraria e no Loureiro que o preço de venda na rua subiu e já igualou o da cocaína tradicional”, confidencia uma fonte da PSP que conhece bem o fenómeno. Hoje é possível comprar uma ‘quarta’ (0,25 gramas) por 10 euros e uma ‘meia’ (0,50 gramas) por 20 euros de ambas as qualidades de cocaína. “É lucro em cima de lucro para o traficante que no crack coloca menos cocaína e mais produto de corte, usando substâncias mais aditivas e destrutivas para o consumidor”, acrescenta a mesma fonte.

Entre os traficantes há quem seja oriundo desses bairros mas também há muitos que são de outras zonas da cidade. Nestes casos, as redes forasteiras chegam a alugar bancas de droga ou casas de recuo [esconderijos para guardar a droga] aos ‘donos’ dos bairros trabalhando em sistemas de turnos com horários definidos, como se de uma empresa legal se tratasse. Mesmo entre rivais do negócio este sistema funciona quase sem percalços e de forma articulada. “Se tudo correr bem há ganhos mútuos de parte a parte”, diz esta fonte. Os da ‘casa’ ganham dinheiro pelo aluguer sem correrem riscos, os de fora conseguem vender a droga nestes ‘mercados’ com maior procura. Por vezes, auxiliam-se entre si, fornecendo ‘bolsas’ uns aos outros num sistema de empréstimo quando por exemplo um deles é alvo de uma rusga policial.

O à vontade entre muitos destes grupos é tão grande que muitos vendem a droga ou vigiam as entradas e saídas dos bairros sentados em cadeiras ou colocam portas blindadas em casas de recuo para retardar a entrada da polícia em rusgas. Às queixas dos moradores de que as autoridades nada fazem para acabar com este tráfico a céu aberto, a polícia responde que há muito trabalho de investigação que não é visível aos moradores. “Demora o seu tempo perceber todo o canal da droga: quem são os distribuidores, os vigias, as suas dinâmicas. Além disso, é preciso recolher o máximo de provas para que os traficantes apanhem penas efetivas e duras. Muitos voltam a ser colocados em liberdade pelos juízes de instrução por haver menos factos consolidados contra eles”, explica este PSP. Entre todo este cenário negro, há uma ponta de otimismo: nos últimos anos, a média de condenações contra os traficantes nestes dois bairros subiu e é hoje superior a cinco anos de prisão.

PASTELEIRA DOMINA TRÁFICO NO PORTO

O bairro da Pasteleira é o local onde o tráfico de crack é mais intenso no Porto. “Com a demolição do bairro do Aleixo na última década, o tráfico centralizou-se na Pasteleira e quase não há droga nos outros bairros da Invicta”, conta uma fonte policial.

Ao contrário do que acontece em Lisboa, o crack já tem um longo historial no Porto sobretudo entre os consumidores de longa duração e com pouco poder de compra. Mas tal como na capital, o consumo tem estado a aumentar, a par e passo com as apreensões da polícia daquela droga. Apesar de haver uma maior procura, os preços do crack não subiram como aconteceu em Lisboa. “Há muita procura mas também existe muita oferta desta droga”, confidencia a mesma fonte. As populares micro-doses de 0,10 gramas vendem-se a 5 euros enquanto um grama vale 30 euros nas ruas.

A Pasteleira é onde moram as mais importantes redes de distribuição e de venda desta droga no Norte do país, que têm ligações à Galiza, mas também ao resto de Espanha e até aos Países Baixos. “O conceito da rede familiar de há dez anos praticamente desapareceu. Estes grupos são hoje muito flexíveis, constituídos por pessoas vindas de fora do bairro. Muitas delas nem tocam na droga. Mantêm-se à distância a controlar o negócio”, frisa esta fonte. Para esconder a origem ilícita do tráfico, dedicam-se ao branqueamento de capitais já que um quilo de cocaína importada da América do Sul pode gerar rapidamente 100 mil euros de lucro.

“Fazemos por ano cerca de mil detenções na área do tráfico de droga. Podíamos fazer 1500 mas estamos a tentar conter o fenómeno”, acrescenta a mesma fonte. Mas por cada grupo detido, surge outro no seu lugar, tão ou mais poderoso. E eventualmente mais violento.

Pelos enormes lucros que gera, o tráfico do crack é cada vez mais constituído por grupos armados que se digladiam pelo controlo do seu território e não admitem passos em falso. Nos últimos dois anos, as ruas do Porto, mas também de Lisboa, têm sido alvo de alguns ajustes de contas que, em alguns casos, terminam com sangue. Um destes episódios ligados ao tráfico na Pasteleira deu-se no verão passado quando um jovem de 24 anos tentou matar três homens com uma shotgun. Um deles ficou ferido com gravidade enquanto os outros tiveram ferimentos ligeiros. “A maioria dos moradores do bairro sofre com este cenário de droga e de violência mas infelizmente há alguns deles coniventes com estas redes. O dinheiro que se pode ganhar é tentador.”

11.11.22

Há crianças de oito anos envolvidas no tráfico de droga

in Público

Ministro da Administração Interna referiu a existência de “delinquência juvenil, de crianças e adolescentes com 8, 9, 10, 11 ou 12 anos”.

Há crianças entre os oito e os 12 anos envolvidas em tráfico de droga. O alerta é feito pelo ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro. Em entrevista ao Expresso, o responsável referiu a existência de “delinquência juvenil, de crianças e adolescentes com 8, 9, 10, 11 ou 12 anos com comportamentos que exigem um acompanhamento especial” das forças de segurança, salientando os efeitos que a pandemia teve na saúde mental.

As declarações do ministro foram proferidas na sequência de uma pergunta sobre a eventual reactivação do plano de prevenção de suicídio nas forças de segurança. “Convém termos cons­ciência de que a função policial é muito exigente. Os níveis de segurança do país dependem em muito das atitudes, dos comportamentos de cada um de nós. Quando a polícia intervém já é o fim da linha”, disse José Luís Carneiro, dando o exemplo das crianças envolvidas em situações de criminalidade violenta.

E continuou: “Há identificação em determinados contextos que exigem uma atenção especial da parte da tutela educativa e de sinalização que se exige que comece a ser feita nas escolas e depois se articule com as matérias da saúde, da segurança social e com os mecanismos de policiamento de proximidade, como acontece com a PSP com a Escola Segura”.

José Luís Carneiro adiantou, na entrevista, que em “zonas urbanas sensíveis têm sido identificadas pelos serviços e pelas forças de segurança, dimensões que estão muito articuladas com as estruturas familiares e, muitas vezes, com fenómenos conectados com o tráfico de droga”. José Luís Carneiro assumiu que “a desestruturação familiar tem efeitos nocivos”, associando-a a um aumento da criminalidade juvenil.

Na entrevista, o ministro adiantou também que já houve expulsões das forças de segurança por racismo. “O que podemos garantir é que, quando existe uma manifestação visível e demonstrável de manifestações que atentem contra o Estado de Direito, a autoridade é exercida e as penalidades são aplicadas”, afirmou, considerando como positivo a extinção do Movimento Zero.

31.5.16

Outras tendências no tráfico e consumo de drogas

Natália Faria, in Público on-line

Do tráfico por via electrónica às novas drogas sintéticas, muito continua mudar na oferta de drogas na Europa e no mundo.

Tráfico vale 24,3 mil milhões de euros

O mercado retalhista de drogas ilícitas na União Europeia valia 24,3 mil milhões de euros em 2013, de acordo com uma estimativa conservadora do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Os produtos de cannabis, com um valor retalhista estimado de 9,3 mil milhões de euros, eram responsáveis por 38% do mercado total, constituindo assim a maior quota do mercado europeu de drogas ilícitas. Seguiam-se a heroína, com um valor estimado de 6,8 mil milhões de euros, e a cocaína, com um valor estimado de 5,7 mil milhões. A América do Sul, a Ásia Ocidental e o Norte de África são origem de grande parte das drogas ilícitas que entram na Europa, sendo as novas substâncias psicoactivas oriundas da China e da Índia. Mas a Europa também é uma região produtora de cannabis e drogas sintéticas: “a primeira é sobretudo produzida para consumo local, enquanto algumas drogas sintéticas se destinam à exportação”.

Na última década, uma percentagem cada vez mais significativa do tráfico faz-se por via electrónica, seja na Internet “de superfície”, com a venda de químicos precursores não controlados, de novas substâncias psicoactivas ou de medicamentos falsificados ou contrafeitos. Mas o comércio ilegal de drogas opera também na Internet “oculta” (deep web), através de mercados privados ou encriptados, como o Alphabay ou o extinto Silk Road. Com características muito semelhantes ao eBay ou à Amazon, mas dedicados à venda de serviços e bens ilícitos, estes mercados privados protegem a privacidade dos utilizadores com recurso a tecnologias cada vez mais avançadas. E tendem a crescer nos próximos anos.
Apreensões: cannabis no topo da lista

A cannabis é a droga com maior número de apreensões, correspondendo a mais de três quartos das apreensões efectuadas na Europa (78%). A cocaína ocupa o segundo lugar (9%), seguida pelas anfetaminas (5%), pela heroína (4%) e pela MDMA (2%). Ainda quanto à cannabis, e entre marijuana e haxixe, em 2014 foram notificadas 682.000 apreensões na União Europeia. Nesse mesmo ano, Portugal somou 4.027 apreensões de haxixe e marijuana, para um total de 32.985 quilos daquela substância apreendidos.

A Espanha, porém, continua a ser um importante ponto de entrada na Europa da cannabis produzida em Marrocos, tendo sido por isso responsável por dois terços da quantidade total apreendida na Europa em 2014. Aliás, a Espanha foi, juntamente com o Reino Unido, responsável por cerca de 60% das apreensões realizadas na União Europeia. Os dados relativos às apreensões apontam também para um crescimento continuado do mercado de novas drogas. Em 2014, foram efectuadas quase 50.000 apreensões de novas substâncias em toda a Europa, com um peso aproximado de quatro toneladas. E os canabinoides sintéticos foram responsáveis pela maioria das apreensões (quase 30.000, o equivalente a 1,3 toneladas)
Oferta de heroína volta a crescer

O Afeganistão continua a ser o maior produtor ilegal de ópio a nível mundial e o maior fornecedor da heroína encontrada na Europa. Contudo, a descoberta de dois laboratórios de conversão de morfina em heroína em Espanha e na República Checa levou os autores do relatório a apontar a possibilidade de a heroína estar também a ser fabricada actualmente na Europa. Os dados relativos ao número de apreensões de heroína apontam para um declínio de cerca de 50.000 apreensões em 2009 para apenas 32.000 em 2014. A quantidade de heroína apreendida também revelou um declínio, tendo passado de 10 toneladas em 2002 para cinco toneladas em 2012. Porém, em 2014, a quantidade de heroína apreendida voltou a subir para as 8,9 toneladas, com vários países a registar apreensões recorde de heroína em 2013 e 2014. Existe assim “um potencial para uma maior oferta desta droga”, lê-se no relatório, consubstanciado também no facto de a pureza daquela substância ter aumentado em 2014.
Detectadas 98 novas substâncias em 2015

Em 2015, o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência detectou 98 novas substâncias psicoactivas. Elevou-se assim para 560 o número de novas substâncias monitorizadas por aquele organismo, das quais 380 (70%) foram detectadas nos últimos cinco anos. Entre os psicoactivos (catinonas sintéticas, fenetilaminas, opiáceos, benzodiazepinas…), destacam-se os 160 novos canabinoides sintéticos detectados desde 2008, incluindo os 24 novos canabinoides comunicados em 2015. Os canabinoides sintéticos são vendidos como substitutos “legais” da cannabis e podem ser publicitados como uma “mistura exótica de incenso” e “não destinado a consumo humano”, numa tentativa de contornar as leis de defesa do consumidor e dos medicamentos. As autoridades europeias reiteram, por isso, a preocupação com a rapidez com que os produtores conseguem colocar novos canabinoides no mercado, logo que os produtos existentes são sujeitos a medidas de fiscalização.
MDMA com 6,1 milhões de comprimidos apreendidos

Os comprimidos de ecstasy voltaram a ser o principal produto de MDMA presente no mercado europeu. Após um período em que os relatórios sugeriam que a maioria dos comprimidos vendidos como ecstasy não continha MDMA (ou apenas a continham em doses reduzidas), os dados mais recentes sugerem que essa situação mudou e apontam um aumento de oferta, tanto de comprimidos de MDMA de dosagem elevada, como sob a forma de pó ou cristais. Sem surpresas, os autores do relatório apontam o recrudescimento da sua produção, tradicionalmente concentrada em redor dos Países Baixos. Os dados disponíveis estimam que poderão ter sido apreendidos 6,1 milhões de comprimidos de MDMA na Europa em 2014.


4.2.13

"Fecho de 'smartshops' pode reforçar mercado negro"

por Gastão Costa Nunes e Cristina Branco, in RR

A abertura das lojas de drogas legais criou uma nova geração de toxicodependentes, admite o funcionário de um destes estabelecimentos, em entrevista à Renascença.

Com ordem anunciada para encerrar existe o risco de alguns "smartshops" tentarem escoar a mercadoria que têm em stock no mercado negro.

Esta é uma realidade reconhecida pelo director do Serviço de Intervenção dos Comportamentos Aditivos e Dependências, antigo Instituto da Droga e Toxicodependência.

João Goulão reconhece que a proibição da venda destas drogas legais leva ao tráfico nas ruas, mas defende que, ainda assim, a medida é benéfica: “Há benefícios com o impedir desta comercialização em lojas de porta aberta. Há a possibilidade de que algumas das substâncias apareçam no mercado ilícito, mas aí serão objecto de intervenção a cargo das forças policiais e aduaneiras”.

O especialista diz que estas lojas abriram as portas a uma nova geração de toxicodependentes: “Temos a noção que haverá bastante uso destas substâncias por novos consumidores, em alguns casos pessoas muito jovens. Temos ainda muito poucos pedidos de ajuda para se libertarem da dependência propriamente. Aquilo que ocorre com o uso destas substâncias são sobretudo situações agudas que motivam o recurso a urgências hospitalares.”

“Não há dúvida que esta é uma porta de entrada para o uso continuado de substâncias. Estas lojas conferem aos utilizadores uma falsa sensação de segurança. As pessoas compram de forma incauta convencidos de que se é vendido numa loja normal não pode ser perigoso”, confirma.

Um trabalhador de uma das destas lojas, que não quis ser identificado, diz à Renascença que está a nascer um novo tipo de tráfico: “Estamos a perder, para além de produto, clientes, devido ao medo destas lojas fecharem, principalmente para toxicodependentes, o produto começou a vender-se na rua. O Estado permitiu que entrasse uma quantidade enorme de estupefacientes em Portugal, uma vez que existem mais de 40 lojas no país. Ao fecharem, todo o produto vai ser escoado no mercado negro”.

Nas lojas oficiais o produto começa a escassear: “Vai-se notando uma quebra porque cada vez é mais difícil os produtos passarem na alfândega. Muitos dos produtos vêm da Ásia, Índia, e por aí”.

O funcionário explica que as chamadas “Smartshops” introduziram no país uma nova geração de toxicodependentes: “É uma hipocrisia da parte do Governo terem permitido que estas lojas estivessem abertas tanto tempo, criando uma nova geração de toxicodependentes. Os clientes dizem que os pós que vendemos são mais potentes que a cocaína e até que a heroína”, explica.

São estes produtos que agora, alegadamente, estão a comercializar-se no mercado negro, face ao encerramento anunciado dos “smartshops”.

O Governo anunciou uma lei para proibir a venda das chamadas drogas legais nos “smartshops” em Janeiro depois de uma série de casos de incidentes envolvendo menores, alguns dos quais tiveram de ser internados. A proibição deve entrar em vigor em Março, segundo os planos do Executivo.