in Diário de Notícias
Para assinalar o Dia Internacional da Juventude, serão divulgados 12 vídeos inspirados no "Retrato dos Jovens em Portugal 2017", elaborados pela base de dados Pordata
Os jovens portugueses estão mais instruídos do que há duas décadas, têm menos trabalho, emigram mais e adiam a decisão de casar e ter filhos, segundo um retrato feito pela base de dados Pordata.
Para assinalar o Dia Internacional da Juventude, que se comemora no sábado, o Conselho Nacional da Juventude, a Pordata e o município de Cascais uniram-se para divulgar 12 vídeos inspirados no "Retrato dos Jovens em Portugal 2017", elaborado pela base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração - Jovens qualificados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Emigração - Jovens qualificados. Mostrar todas as mensagens
16.8.17
19.12.14
No dia seguinte ninguém emigrou
Texto de Hugo Carvalho, in Público on-line
Precisamos de uma agenda de investimento público que relance a economia e assuma o compromisso primordial de trazer de volta os “bons rapazes” que voluntariamente convidámos a sair
Imaginemos um país. Imaginemos um país fora da centralidade da europa dos “grandes”, com uma democracia jovem e que viveu outros tantos anos sob a custódia de um regime ditatorial. Imaginemos, pois, esse mesmo país com um défice estrutural de qualificações da sua população, com várias gerações a ser impedidas de se qualificar, sem perspetiva, mesmo que utópica, de extravaso de estrato social.
Imaginemos um país com importantes défices estruturais na economia, com uma forte dependência energética do exterior e com um tecido empresarial assente em mão de obra intensiva, pouco mecanizado e de baixa incorporação tecnológica. Imaginemos, então, que este país foi capaz de criar pacificamente um regime democrático, capaz de abandonar os paradigmas do passado e de construir um conjunto de valores para o futuro assente num modelo de Estado Providência e de solidariedade intergeracional.
Imaginemos, agora, que as gerações impedidas de se qualificar deram lugar à geração mais qualificada de sempre. Imaginemos os “novos jovens” a serem reconhecidos pela excelência da sua formação, pela capacidade de inovar e de acrescentar valor ao tecido empresarial ou a serem referências nas áreas sociais.
Imaginemos, porém, 128 mil habitantes desse país a emigrar todos os anos e a deixar para trás o sonho de fazer mais pelo seu país e de construir o seu futuro junto daqueles que lhe são próximos. A deixar de lado a sua cultura, o seu saber, as suas tradições, para embarcar numa nova diáspora - maioritariamente forçada -, mas sem a esperança de um retorno anunciado.
Vamos parar de imaginar.
Portugal precisa de potenciar o desenvolvimento, apostando em novas áreas estratégicas e incorporando o conhecimento dos jovens quadros que produz. Precisamos de uma agenda de investimento público que relance a economia e assuma o compromisso primordial de trazer de volta os “bons rapazes” que voluntariamente convidámos a sair. Esses mesmos jovens que outros países – os nossos irmãos europeus –, a coberto da ditadura do mercado souberam incorporar no seu tecido produtivo. Jovens, na generalidade dos casos, amplamente qualificados, pelos quais não gastaram um cêntimo na sua formação e de quem recebem o retorno que outro país – o nosso - realizou.
Este é o denominador comum da emigração jovem de hoje: um país de gente extraordinariamente capaz, que foi convencida pelo seu próprio Governo - aquele a quem em primeira instância compete zelar pelo bem comum - que dar o seu contributo para outro país é uma oportunidade. Será de facto uma oportunidade, mas será de antemão uma oportunidade perdida de Portugal.
Digo “de antemão”, porque a fatalidade na emigração não está na saída dos jovens do nosso país, mas a jusante, na incapacidade de criarmos condições para que no futuro sejamos capaz de os atrair e de aproveitar as mais-valias da sua experiencia. Este aspeto é um (dos muitos) erros estratégicos do Orçamento de Estado de 2015 que, centrando-se em tributações e taxações, relegou para segundo plano uma agenda de crescimento onde deveria estar patente a ambição de “resgatar” aqueles que saíram do nosso país, para que, fazendo uso do seu conhecimento e experiencia, possamos construir um Portugal de futuro
Fazendo hoje este caminho, poderemos dizer, numa analogia com José Saramago, no dia seguinte ninguém emigrou.
Precisamos de uma agenda de investimento público que relance a economia e assuma o compromisso primordial de trazer de volta os “bons rapazes” que voluntariamente convidámos a sair
Imaginemos um país. Imaginemos um país fora da centralidade da europa dos “grandes”, com uma democracia jovem e que viveu outros tantos anos sob a custódia de um regime ditatorial. Imaginemos, pois, esse mesmo país com um défice estrutural de qualificações da sua população, com várias gerações a ser impedidas de se qualificar, sem perspetiva, mesmo que utópica, de extravaso de estrato social.
Imaginemos um país com importantes défices estruturais na economia, com uma forte dependência energética do exterior e com um tecido empresarial assente em mão de obra intensiva, pouco mecanizado e de baixa incorporação tecnológica. Imaginemos, então, que este país foi capaz de criar pacificamente um regime democrático, capaz de abandonar os paradigmas do passado e de construir um conjunto de valores para o futuro assente num modelo de Estado Providência e de solidariedade intergeracional.
Imaginemos, agora, que as gerações impedidas de se qualificar deram lugar à geração mais qualificada de sempre. Imaginemos os “novos jovens” a serem reconhecidos pela excelência da sua formação, pela capacidade de inovar e de acrescentar valor ao tecido empresarial ou a serem referências nas áreas sociais.
Imaginemos, porém, 128 mil habitantes desse país a emigrar todos os anos e a deixar para trás o sonho de fazer mais pelo seu país e de construir o seu futuro junto daqueles que lhe são próximos. A deixar de lado a sua cultura, o seu saber, as suas tradições, para embarcar numa nova diáspora - maioritariamente forçada -, mas sem a esperança de um retorno anunciado.
Vamos parar de imaginar.
Portugal precisa de potenciar o desenvolvimento, apostando em novas áreas estratégicas e incorporando o conhecimento dos jovens quadros que produz. Precisamos de uma agenda de investimento público que relance a economia e assuma o compromisso primordial de trazer de volta os “bons rapazes” que voluntariamente convidámos a sair. Esses mesmos jovens que outros países – os nossos irmãos europeus –, a coberto da ditadura do mercado souberam incorporar no seu tecido produtivo. Jovens, na generalidade dos casos, amplamente qualificados, pelos quais não gastaram um cêntimo na sua formação e de quem recebem o retorno que outro país – o nosso - realizou.
Este é o denominador comum da emigração jovem de hoje: um país de gente extraordinariamente capaz, que foi convencida pelo seu próprio Governo - aquele a quem em primeira instância compete zelar pelo bem comum - que dar o seu contributo para outro país é uma oportunidade. Será de facto uma oportunidade, mas será de antemão uma oportunidade perdida de Portugal.
Digo “de antemão”, porque a fatalidade na emigração não está na saída dos jovens do nosso país, mas a jusante, na incapacidade de criarmos condições para que no futuro sejamos capaz de os atrair e de aproveitar as mais-valias da sua experiencia. Este aspeto é um (dos muitos) erros estratégicos do Orçamento de Estado de 2015 que, centrando-se em tributações e taxações, relegou para segundo plano uma agenda de crescimento onde deveria estar patente a ambição de “resgatar” aqueles que saíram do nosso país, para que, fazendo uso do seu conhecimento e experiencia, possamos construir um Portugal de futuro
Fazendo hoje este caminho, poderemos dizer, numa analogia com José Saramago, no dia seguinte ninguém emigrou.
11.3.14
Adriano Moreira. Saída de Portugal de jovens qualificados é “um perigo para o país”
iOnline
“Não podemos olhar com indiferença para o facto de que fizemos um esforço enorme na investigação e no ensino e que os resultados desse esforço são a favor dos países para onde essa gente nova emigra, que é o que está a acontecer”, lamenta
A saída de Portugal de jovens qualificados é “um perigo para o país”, alerta o professor e politólogo Adriano Moreira, confessando uma “grande inquietação” face ao “empobrecimento terrível” que tal representa para a nação.
“Não podemos olhar com indiferença para o facto de que fizemos um esforço enorme na investigação e no ensino e que os resultados desse esforço são a favor dos países para onde essa gente nova emigra, que é o que está a acontecer”, lamenta o ex-líder do CDS, ex-ministro e ex-deputado, recordando que os países estrangeiros costumam elogiar as “excelentes qualidades” dos portugueses.
“Se aquilo que acontece, e está a acontecer no nosso país, é que aqueles que têm mais avanço científico e conhecimento emigram, em regime de globalização, fica-se mais exposto aos efeitos negativos”, alerta o professor, especialista em relações internacionais.
Perante “a circunstância de estarmos a perder o avanço científico e técnico que já tínhamos conseguido e que está a traduzir-se na crise das universidades”, o professor considera a situação “grave”, admitindo “grande inquietação” face ao “empobrecimento terrível do país”.
Criticando os “reformadores da economia” por se orientarem pelo conceito de “destruição construtiva”, Adriano Moreira ironiza: “A primeira parte vai muito bem, agora a segunda é aquela que falta...”
Para o professor, a “destruição construtiva” faz sentido quando faz a comunidade avançar, como aconteceu com a invenção do caminho de ferro, exemplificou. “É uma coisa completamente diferente” ver partir “os melhores”, contrapôs.
“Os que não são melhores vão-se ver no futuro nos sítios onde ainda a sua dedicação e capacidade é aproveitável, alguns em situações deploráveis (…), outros muito bem acolhidos”, repara, sublinhando que “é preciso cuidar da redefinição da utilização das pessoas dispensadas pelo avanço técnico e científico”, criando “um novo futuro para essa gente”.
Ele próprio pai de um filho recentemente regressado de três anos em Moçambique, confessa: “Não há nenhum pai que veja partir os filhos… sem saber o que vai acontecer, ou se alguma vez os volta a ver, porque vão à aventura, saber do futuro que aqui não encontram.”
“Não podemos olhar com indiferença para o facto de que fizemos um esforço enorme na investigação e no ensino e que os resultados desse esforço são a favor dos países para onde essa gente nova emigra, que é o que está a acontecer”, lamenta
A saída de Portugal de jovens qualificados é “um perigo para o país”, alerta o professor e politólogo Adriano Moreira, confessando uma “grande inquietação” face ao “empobrecimento terrível” que tal representa para a nação.
“Não podemos olhar com indiferença para o facto de que fizemos um esforço enorme na investigação e no ensino e que os resultados desse esforço são a favor dos países para onde essa gente nova emigra, que é o que está a acontecer”, lamenta o ex-líder do CDS, ex-ministro e ex-deputado, recordando que os países estrangeiros costumam elogiar as “excelentes qualidades” dos portugueses.
“Se aquilo que acontece, e está a acontecer no nosso país, é que aqueles que têm mais avanço científico e conhecimento emigram, em regime de globalização, fica-se mais exposto aos efeitos negativos”, alerta o professor, especialista em relações internacionais.
Perante “a circunstância de estarmos a perder o avanço científico e técnico que já tínhamos conseguido e que está a traduzir-se na crise das universidades”, o professor considera a situação “grave”, admitindo “grande inquietação” face ao “empobrecimento terrível do país”.
Criticando os “reformadores da economia” por se orientarem pelo conceito de “destruição construtiva”, Adriano Moreira ironiza: “A primeira parte vai muito bem, agora a segunda é aquela que falta...”
Para o professor, a “destruição construtiva” faz sentido quando faz a comunidade avançar, como aconteceu com a invenção do caminho de ferro, exemplificou. “É uma coisa completamente diferente” ver partir “os melhores”, contrapôs.
“Os que não são melhores vão-se ver no futuro nos sítios onde ainda a sua dedicação e capacidade é aproveitável, alguns em situações deploráveis (…), outros muito bem acolhidos”, repara, sublinhando que “é preciso cuidar da redefinição da utilização das pessoas dispensadas pelo avanço técnico e científico”, criando “um novo futuro para essa gente”.
Ele próprio pai de um filho recentemente regressado de três anos em Moçambique, confessa: “Não há nenhum pai que veja partir os filhos… sem saber o que vai acontecer, ou se alguma vez os volta a ver, porque vão à aventura, saber do futuro que aqui não encontram.”
21.1.14
“Portugal pagou os meus estudos e eu vou ter de aplicá-los lá fora”
Texto de Amanda Ribeiro, in Público on-line (P3)
A Fundação Ciência e Tecnologia reduziu o número de bolsas individuais atribuídas este ano. O P3 ouviu um dos 2072 investigadores que não foram contemplados com bolsas de pós-doutoramento. Quais planos para o futuro?
"Não ganhar a bolsa foi um golpe emocional muito grande. Aquilo que mais custou admitir na recusa do projecto, de que ainda vou recorrer, foi a não argumentação. De acordo com a avaliação, o projecto é excelente, mas mesmo assim não dão a bolsa. É a humilhação de nos dizerem que somos bons, que valemos a pena, mas que não podemos ser financiados. Não estou de mal com a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), até porque me financiaram o doutoramento, mas é doloroso. É uma dor — e dói mesmo.
[De acordo com dados provisórios recolhidos pela Associação de Bolseiros de Investigação Científica], este ano foram atribuídas cinco bolsas em Estudos Literários e Linguística. Sem dúvida que as ciências exactas são mais compreendidas enquanto ciência, mas o corte foi transversal, idêntico em todas as áreas, e também há menos gente a fazer investigação em Ciências Humanas. Às vezes tenho de explicar o que raio estou a fazer a colegas de Engenharia. O conhecimento da nossa história, da nossa literatura, da nossa cultura é tão fundamental como compreender como reagem determinados elementos químicos para fazer um novo produto. Investigar em estudos culturais é perscrutar o coração de uma sociedade, de uma cultura.
Faço parte de um grupo chamado Seminário Medieval de Literatura, Pensamento e Sociedade que pertence ao Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). É um grupo bastante coeso e estamos a fazer bastante investigação, temo-nos internacionalizado muito e são as bolsas que o permitem. Por muito que gostemos, há que pagar as contas, há que ter uma vida própria, que comer, que viajar muito para ir a congressos, fazer pesquisa em bibliotecas.
Eu, agora, felizmente, estou num projecto de investigação na área da Filosofia, que envolve a transcrição e a análise de manuscritos sobre comentários do “De Anima” de Aristóteles. Este projecto termina a 30 de Junho e depois ia começar o “pós-doc”. Agora é um mistério. Vou recorrer dos resultados — a 1.ª fase para contestar é até 28 de Janeiro — mas isto vai demorar meses, demora sempre meses. São meses que passam...
O que eu posso fazer aqui é continuar a concorrer a projectos exploratórios deste tipo, que são anuais, às vezes nem isso, sem nenhum projecto individual em que eu seja responsável pela investigação. Mas para evoluirmos enquanto investigadores temos de ter um projecto próprio e grande, do qual somos inteiramente responsáveis. Nós fazemos falta às universidades. Na FLUP há poucas pessoas e os bolseiros dão apoio, podem dar algumas aulas, dão outro “insight” que os professores não têm. Perde-se qualidade no ensino. E variedade.
Dar filhos para o estrangeiro
Sou sincera. A minha primeira reacção quando soube [os resultados] foi “eu vou-me embora daqui”. E eu não quero ir embora de Portugal, atenção. Sou teimosa. Chorei, fiquei desolada porque não quero embora. Mas se eu não puder ser bolseira de projectos mais pequenos — que são sempre a prazo, é difícil planear a vida — vou ter de ir lá para fora. Sempre disse só ia quando me dessem um pontapé ou me pusessem uma faca nas costas — o que torna tudo mais perverso. Nós fomos formados em Portugal: o ensino básico, a licenciatura, o mestrado, o doutoramento, financiado pela FCT. O nosso resultado académico depende muito do ensino público. O meu país pagou os meus estudos e eu agora vou ter de dar a render aquilo que aprendi aqui lá fora.
Isto está a ficar cada vez mais um país de velhos que nem serve para os velhos. No meu caso, tenho 29 anos, há coisas que gostava de poder fazer e sei que não posso porque não tenho essa estabilidade. Não posso pensar em constituir família. E como eu há pessoas que estão em situações ainda mais graves. Vamos lá para fora e as crianças que temos também ficam lá fora. É quase um país que está a dar filhos para o estrangeiro, sobretudo os mais qualificados, os que tiveram uma formação de topo. E chegamos lá fora e somos reconhecidos.
Sim, eu tenho outras competências e sei fazer outras coisas, mas se chego a uma empresa para trabalhar como secretária com 29 anos e um doutoramento dizem que não sei fazer nada. Em qualquer outra área, fora da investigação, acham que uma pessoa esteve a passear, que não trabalhou a sério. Uma pessoa que tem um doutoramento para que serve? Ainda para mais nesta área?
Não me habituo à vida a termo e dói-me muito, mas não me vejo a largar a investigação. É uma paixão, e quando se faz um trabalho com gosto ainda produzimos mais. Deixar a investigação não, mas estou farta de viver a curto-prazo. Mesmo a bolsa de pós-doutoramento dura, no máximo, seis anos, e não é garantido porque a renovação é anual. Não vou deixar de fazer investigação na minha área, mas provavelmente só lá fora. Sou filha única e vim morar para junto do meu pai, ele tem problemas de saúde. Eu não queria abandonar os meus pais, queria poder usufruir do tempo que tenho com eles, que ainda vai ser muito, claro. A nível emocional, parece que temos de andar a fazer uma jigajoga para conseguir combinar as nossas vidas com as das outras pessoas para podermos comer. O que eles querem de nós é que andemos a correr o mundo com três filhos às costas."
A Fundação Ciência e Tecnologia reduziu o número de bolsas individuais atribuídas este ano. O P3 ouviu um dos 2072 investigadores que não foram contemplados com bolsas de pós-doutoramento. Quais planos para o futuro?
"Não ganhar a bolsa foi um golpe emocional muito grande. Aquilo que mais custou admitir na recusa do projecto, de que ainda vou recorrer, foi a não argumentação. De acordo com a avaliação, o projecto é excelente, mas mesmo assim não dão a bolsa. É a humilhação de nos dizerem que somos bons, que valemos a pena, mas que não podemos ser financiados. Não estou de mal com a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), até porque me financiaram o doutoramento, mas é doloroso. É uma dor — e dói mesmo.
[De acordo com dados provisórios recolhidos pela Associação de Bolseiros de Investigação Científica], este ano foram atribuídas cinco bolsas em Estudos Literários e Linguística. Sem dúvida que as ciências exactas são mais compreendidas enquanto ciência, mas o corte foi transversal, idêntico em todas as áreas, e também há menos gente a fazer investigação em Ciências Humanas. Às vezes tenho de explicar o que raio estou a fazer a colegas de Engenharia. O conhecimento da nossa história, da nossa literatura, da nossa cultura é tão fundamental como compreender como reagem determinados elementos químicos para fazer um novo produto. Investigar em estudos culturais é perscrutar o coração de uma sociedade, de uma cultura.
Faço parte de um grupo chamado Seminário Medieval de Literatura, Pensamento e Sociedade que pertence ao Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). É um grupo bastante coeso e estamos a fazer bastante investigação, temo-nos internacionalizado muito e são as bolsas que o permitem. Por muito que gostemos, há que pagar as contas, há que ter uma vida própria, que comer, que viajar muito para ir a congressos, fazer pesquisa em bibliotecas.
Eu, agora, felizmente, estou num projecto de investigação na área da Filosofia, que envolve a transcrição e a análise de manuscritos sobre comentários do “De Anima” de Aristóteles. Este projecto termina a 30 de Junho e depois ia começar o “pós-doc”. Agora é um mistério. Vou recorrer dos resultados — a 1.ª fase para contestar é até 28 de Janeiro — mas isto vai demorar meses, demora sempre meses. São meses que passam...
O que eu posso fazer aqui é continuar a concorrer a projectos exploratórios deste tipo, que são anuais, às vezes nem isso, sem nenhum projecto individual em que eu seja responsável pela investigação. Mas para evoluirmos enquanto investigadores temos de ter um projecto próprio e grande, do qual somos inteiramente responsáveis. Nós fazemos falta às universidades. Na FLUP há poucas pessoas e os bolseiros dão apoio, podem dar algumas aulas, dão outro “insight” que os professores não têm. Perde-se qualidade no ensino. E variedade.
Dar filhos para o estrangeiro
Sou sincera. A minha primeira reacção quando soube [os resultados] foi “eu vou-me embora daqui”. E eu não quero ir embora de Portugal, atenção. Sou teimosa. Chorei, fiquei desolada porque não quero embora. Mas se eu não puder ser bolseira de projectos mais pequenos — que são sempre a prazo, é difícil planear a vida — vou ter de ir lá para fora. Sempre disse só ia quando me dessem um pontapé ou me pusessem uma faca nas costas — o que torna tudo mais perverso. Nós fomos formados em Portugal: o ensino básico, a licenciatura, o mestrado, o doutoramento, financiado pela FCT. O nosso resultado académico depende muito do ensino público. O meu país pagou os meus estudos e eu agora vou ter de dar a render aquilo que aprendi aqui lá fora.
Isto está a ficar cada vez mais um país de velhos que nem serve para os velhos. No meu caso, tenho 29 anos, há coisas que gostava de poder fazer e sei que não posso porque não tenho essa estabilidade. Não posso pensar em constituir família. E como eu há pessoas que estão em situações ainda mais graves. Vamos lá para fora e as crianças que temos também ficam lá fora. É quase um país que está a dar filhos para o estrangeiro, sobretudo os mais qualificados, os que tiveram uma formação de topo. E chegamos lá fora e somos reconhecidos.
Sim, eu tenho outras competências e sei fazer outras coisas, mas se chego a uma empresa para trabalhar como secretária com 29 anos e um doutoramento dizem que não sei fazer nada. Em qualquer outra área, fora da investigação, acham que uma pessoa esteve a passear, que não trabalhou a sério. Uma pessoa que tem um doutoramento para que serve? Ainda para mais nesta área?
Não me habituo à vida a termo e dói-me muito, mas não me vejo a largar a investigação. É uma paixão, e quando se faz um trabalho com gosto ainda produzimos mais. Deixar a investigação não, mas estou farta de viver a curto-prazo. Mesmo a bolsa de pós-doutoramento dura, no máximo, seis anos, e não é garantido porque a renovação é anual. Não vou deixar de fazer investigação na minha área, mas provavelmente só lá fora. Sou filha única e vim morar para junto do meu pai, ele tem problemas de saúde. Eu não queria abandonar os meus pais, queria poder usufruir do tempo que tenho com eles, que ainda vai ser muito, claro. A nível emocional, parece que temos de andar a fazer uma jigajoga para conseguir combinar as nossas vidas com as das outras pessoas para podermos comer. O que eles querem de nós é que andemos a correr o mundo com três filhos às costas."
8.10.13
Emigrantes qualificados abandonam Portugal para "deixarem de ser jovens"
in iOnline
A descrição desta “Geração Europa” foi feita à agência Lusa pelo sociólogo João Teixeira Lopes, professor da Universidade do Porto e autor do estudo “Novos emigrantes para França”
Os novos emigrantes portugueses em França são qualificados, abandonam Portugal para “deixarem de ser jovens”, ter casa própria e constituir família, integram-se como “europeus” e para eles “Paris continua a ser uma festa”.
A descrição desta “Geração Europa” foi feita à agência Lusa pelo sociólogo João Teixeira Lopes, professor da Universidade do Porto e autor do estudo “Novos emigrantes para França”, cujas conclusões de 2013 vão ser apresentadas na quarta-feira no Colóquio “Imagem da (e)migração vs (e)migração em imagens”, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto.
“Esta nova vaga é feminizada, qualificada, planeia [a viagem] e vai para França porque quer deixar de ser jovem. Estão fartos. Em Portugal só podem ser jovens, isto é, precários, intermitentes, constantemente adiando o futuro, permanecendo até muito tarde em casa dos pais, sem qualquer capacidade de constituírem família”, descreve o professor, referindo-se ao estudo realizado para a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas sobre a recente vaga de emigração portuguesa para França.
A investigação, que se centrou em jovens entre os 20 e os 35 anos, qualificados e emigrantes em França, serviu para desmistificar a ideia de que “as novas gerações não estão tão voltadas para os valores familiares”.
“A minha amostra está, e de que maneira”, assegura Teixeira Lopes, vincando esta vontade dos jovens em se tornarem adultos como motivo para saírem de Portugal, onde não conseguem “ter casa própria, constituir família e ter uma carreira”.
“Não é por desespero nem por exclusão. É porque em Portugal não conseguem passar à condição de adultos”, garante o investigador.
A amostra abordada pelo estudo do sociólogo é bastante “feminizada” o que, na sua perspetiva, é revelador de um “grau de autonomia que mulheres e raparigas têm para sair do país que não existia antes”.
“É também um indicador de fortíssimas alterações nas relações de género em Portugal”, destaca.
Outro aspeto diferenciador é o facto de se integrarem como “jovens europeus em França”.
“Não agem como comunidade. Daí a geração Europa. Não se veem na condição de emigrantes e tanto não contactam com a comunidade francesa como com as velhas comunidades portuguesas. Estão inseridos em dinâmicas de globalização e vivem as relações sociais à distância sem grandes problemas”, descreve Teixeira Lopes.
É por isso que depois de ter recorrido a instituições financeiras, redes consulares, associações, autoridades nacionais e francesas, a investigação do sociólogo apenas conseguiu encontrar esta nova vaga de emigrantes “nas redes sociais”.
“Esta emigração qualificada prepara a viagem e não trata de todos os processos e documentos como trataria em Portugal”, justifica.
Relacionando-se sobretudo com outros novos emigrantes portugueses qualificados, para estes jovens “viajar e trabalhar fora é algo natural” e o seu estilo de vida não está “virado para as poupanças e as remessas”, como acontecia com as anteriores gerações de emigrantes.
“Jantam fora, viajam, visitam exposições, trabalham bastante e têm um trabalho bastante reconhecido”, defende Teixeira Lopes.
Por outro lado, ao mesmo tempo que a emigração não qualificada se dirige atualmente para as zonas de França onde se concentra o “turismo e a agricultura”, a qualificada vai “para Paris, para o setor mais avançado dos serviços”.
“Para eles, Paris continua a ser uma festa”, nota Teixeira Lopes.
De tal forma que, acrescenta, “muitos deles chegam como assalariados, mas muito rapidamente se tornam profissionais liberais ou patrões”.
A descrição desta “Geração Europa” foi feita à agência Lusa pelo sociólogo João Teixeira Lopes, professor da Universidade do Porto e autor do estudo “Novos emigrantes para França”
Os novos emigrantes portugueses em França são qualificados, abandonam Portugal para “deixarem de ser jovens”, ter casa própria e constituir família, integram-se como “europeus” e para eles “Paris continua a ser uma festa”.
A descrição desta “Geração Europa” foi feita à agência Lusa pelo sociólogo João Teixeira Lopes, professor da Universidade do Porto e autor do estudo “Novos emigrantes para França”, cujas conclusões de 2013 vão ser apresentadas na quarta-feira no Colóquio “Imagem da (e)migração vs (e)migração em imagens”, na Biblioteca Almeida Garrett, no Porto.
“Esta nova vaga é feminizada, qualificada, planeia [a viagem] e vai para França porque quer deixar de ser jovem. Estão fartos. Em Portugal só podem ser jovens, isto é, precários, intermitentes, constantemente adiando o futuro, permanecendo até muito tarde em casa dos pais, sem qualquer capacidade de constituírem família”, descreve o professor, referindo-se ao estudo realizado para a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas sobre a recente vaga de emigração portuguesa para França.
A investigação, que se centrou em jovens entre os 20 e os 35 anos, qualificados e emigrantes em França, serviu para desmistificar a ideia de que “as novas gerações não estão tão voltadas para os valores familiares”.
“A minha amostra está, e de que maneira”, assegura Teixeira Lopes, vincando esta vontade dos jovens em se tornarem adultos como motivo para saírem de Portugal, onde não conseguem “ter casa própria, constituir família e ter uma carreira”.
“Não é por desespero nem por exclusão. É porque em Portugal não conseguem passar à condição de adultos”, garante o investigador.
A amostra abordada pelo estudo do sociólogo é bastante “feminizada” o que, na sua perspetiva, é revelador de um “grau de autonomia que mulheres e raparigas têm para sair do país que não existia antes”.
“É também um indicador de fortíssimas alterações nas relações de género em Portugal”, destaca.
Outro aspeto diferenciador é o facto de se integrarem como “jovens europeus em França”.
“Não agem como comunidade. Daí a geração Europa. Não se veem na condição de emigrantes e tanto não contactam com a comunidade francesa como com as velhas comunidades portuguesas. Estão inseridos em dinâmicas de globalização e vivem as relações sociais à distância sem grandes problemas”, descreve Teixeira Lopes.
É por isso que depois de ter recorrido a instituições financeiras, redes consulares, associações, autoridades nacionais e francesas, a investigação do sociólogo apenas conseguiu encontrar esta nova vaga de emigrantes “nas redes sociais”.
“Esta emigração qualificada prepara a viagem e não trata de todos os processos e documentos como trataria em Portugal”, justifica.
Relacionando-se sobretudo com outros novos emigrantes portugueses qualificados, para estes jovens “viajar e trabalhar fora é algo natural” e o seu estilo de vida não está “virado para as poupanças e as remessas”, como acontecia com as anteriores gerações de emigrantes.
“Jantam fora, viajam, visitam exposições, trabalham bastante e têm um trabalho bastante reconhecido”, defende Teixeira Lopes.
Por outro lado, ao mesmo tempo que a emigração não qualificada se dirige atualmente para as zonas de França onde se concentra o “turismo e a agricultura”, a qualificada vai “para Paris, para o setor mais avançado dos serviços”.
“Para eles, Paris continua a ser uma festa”, nota Teixeira Lopes.
De tal forma que, acrescenta, “muitos deles chegam como assalariados, mas muito rapidamente se tornam profissionais liberais ou patrões”.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

