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5.6.23

Mais de 1100 explorados na apanha ilegal de amêijoa no Tejo

Textos  Raquel Moleiro, foto Luís Barra, in Expresso


Estudo científico traça a exploração e evolução da espécie e suporta o Plano de Ação pedido pelo Governo. Negócio está na mão de redes, atestam autoridades


Já tinham passado cinco anos desde que a exploração da amêijoa japonesa no estuário do Tejo fora objeto de um levantamento científico. Mas mesmo antes dos investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FC-UL) porem um pé novamente no terreno, era já certo que a apanha desta espécie invasora se mantinha, e fulgurante, numa área onde é maioritariamente proibida ou com classificação C, devido aos níveis elevados de contaminação que a tornam imprópria para consumo sem tratamento.

Basta esperar a maré baixa, seja de dia ou de noite, ir até à área norte do Parque das Nações, em Lisboa, e olhar o rio, ou atravessá-lo pela Ponte Vasco da Gama até às salinas do Samouco ou Alcochete, na margem sul, para detetar os mariscadores. São às centenas os vultos, a fazer as duas marés de um dia, meio corpo dentro de água ou plantados nos bancos de areia, curvados sobre si, a esgravatar o leito arenoso deixado a descoberto. Outros há que, aos comandos de barquinhos — diminuídos pela distância —, arrastam ganchorras de metal com que aram o chão do Tejo e de lá tiram tudo o que vier.

Serão 1128 os apanhadores que ali se dedicam anualmente a esta atividade, 579 todos os dias, a maioria apeados (678), e os restantes no arrasto (279), com berbigoeiro (153) ou a mergulhar com escafandro (18), contabilizou o projeto Nipoges, desenvolvido entre 2019 e 2022, sob coordenação da investigadora Paula Chainho, do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da FC-UL, e cujos resultados foram agora revelados ao Expresso.

O rendimento anual estimado de €17,7 milhões por cerca de 5600 toneladas de amêijoa capturada ajuda a explicar a atração da apanha. E a quase total ausência de regras — e de impostos — também. Em 2019 apenas havia ali 190 mariscadores licenciados e a venda não era declarada em lota — menos de 4 toneladas anuais —, mas feita diretamente em mercados, restaurantes, cafés ou canalizada para intermediários primários e secundários que exportam os bivalves para toda a Europa, sem controlo sanitário.

Em relação ao último estudo, de 2014, o Nipoges já detetou alterações. A amêijoa japónica tem alargado a sua área de distribuição no estuário do Tejo, tendo sido encontrada em 73% da área analisada, mas existe com menos abundância e menor tamanho, duas consequências da sobre-exploração.

Em 2019, ano em que foi feito o levantamento, foi constatada também uma redução dos apanhadores no estuário do Tejo — menos 500 a 600 —, mas um aumento exponencial da utilização de ganchorra, uma arte ilegal que faz sozinha o trabalho de muitos homens, e que foi utilizada em 80% das capturas. Em breve haverá novos números. Os investigadores do MARE voltaram esta semana ao Tejo para mais uma campanha de amostragem. O objetivo é manter o projeto sempre atualizado.

“Tudo o que acontece ali é ilegal a inúmeros níveis. A pesca é a única forma de controlar a expansão desta espécie invasora, mas não assim, de forma desregulada. Com uma apanha sustentável e controlada pode minimizar-se os impactos e aproveitar a importância socioeconómica da amêijoa japonesa”, explica Paula Chainho, que contou com o apoio dos mariscadores nas campanhas e nas estimativas do fenómeno.

Na proposta de modelo de gestão resultante do estudo sugere-se a criação de áreas de exploração e de regime livre, o aumento da fiscalização e vigilância, a criação de unidades de transformação industrial e áreas de transposição (tratamento), a atribuição de licenças em coletes com QR code, lotas ambulatórias, identificação e punição dos poluidores, certificação de origem, entre outras medidas.

É com base nos resultados do Nipoges — que analisou também a lagoa de Óbidos, a ria de Aveiro e estuário do Sado — que a investigadora do Universidade de Lisboa está agora a desenvolver o Plano de Ação Nacional para a Amêijoa Japonesa, a pedido do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Será entregue em novembro deste ano, para posterior aprovação em Conselho de Ministros.

O OUTRO LADO DO RIO

Mas falta a esta história outro lado, que não cabe num estudo científico, que se afasta da amêijoa e se centra em quem a apanha e quem lucra com ela. Nunca são a mesma pessoa. Falta a parte do crime. Há cerca de uma década que o negócio milionário da amêijoa japonesa do Tejo é explorado por redes organizadas, com portugueses à cabeça, que levam ilegalmente os bivalves para Espanha, França, Itália, Bélgica e Holanda, graças a guias com origem falsificada no Sado, e vendem-nos pelo dobro. Há quem tenha trocado o tráfico de droga por isto.

No fundo da cadeia estão milhares de apanhadores, muitos migrantes, que são explorados e coagidos. Fazem duas marés, vivem em condições indignas, ganham o mínimo. É como olhar para as estufas de Odemira, só que lá ajoelham-se na terra e aqui é no lodo do Tejo.

E há mais parecenças. “Os portugueses e os europeus, de leste, romenos e moldavos, foram desaparecendo e a maioria dos apanhadores agora é de origem asiática. Primeiro vieram os tailandeses, mas já há nepaleses e malaios. Foram explorados na agricultura e agora vêm para aqui, onde conseguem ganhar um pouco mais”, explica uma fonte policial. “Mas não me parece que haja menos pessoas no rio. Aliás, acho que isto está cada vez pior”, assegura.

Só no ano passado, GNR e Polícia Marítima capturam 33.505 toneladas de amêijoa japonesa, a maioria durante o transporte a partir do Samouco e Alcochete. Este ano somam quase 5 mil toneladas.

“Isto começou há 15 anos e por incompetência das mais diversas entidades ganhou esta dimensão. Agora envolve uma série de crimes, de saúde pública, económicos, ambientais, de segurança”, critica o presidente da Câmara de Alcochete, Fernando Pinto, que recentemente voltou a denunciar a situação ao Conselho da Área Metropolitana de Lisboa.

O último alerta juntou-se às duas moções aprovadas pela autarquia a exigir o combate da apanha ilegal, enviadas ao Governo, Presidência da República e Parlamento; os e-mails quase diários que mandava com fotografias a Eduardo Cabrita, quando este era ministro da Administração Interna; a reunião com a secretária de Estado Patrícia Gaspar na anterior legislatura “cheia de promessas”; ou a conversa informal que teve com José Luís Carneiro, o atual MAI, no passado mês de março, após o Conselho de Ministros descentralizado em Setúbal.

“É preciso uma task force, como a da vacinação, que ponha as entidades a trabalhar todas juntas, articuladas. Isto não vai lá atacando um a um, os tentáculos do polvo”, critica o autarca. “É preciso ir à cabeça.”

2.12.22

PJ diz que é tempo de combater a exploração e o tráfico de seres humanos

in SIC

Megaoperação da PJ envolveu mais de 400 inspetores e 35 pessoas foram detidas por suspeitas de tráfico de seres humanos. O diretor da Polícia Judiciária destaca o papel do poder local, de sindicatos e de Organizações Não Governamentais na operação realizada no distrito de Beja.

Luís Neves adianta que é tempo de combater a exploração e o tráfico de seres humanos.

A PJ deteve na quarta-feira 35 pessoas de uma rede criminosa que contratava trabalhadores estrangeiros para a agricultura no Baixo Alentejo.

A rede era formada por estrangeiros, nomeadamente famílias romenas, e alguns portugueses que lhes davam apoio.

As vítimas de nacionalidades romena, moldova, marroquina, paquistanesa e senegalesa eram contratadas para explorações agrícolas em Beja, Cuba e Ferreira do Alentejo, entre outros locais.

Os 35 detidos estão "fortemente indiciados" pela prática de crimes de associação criminosa, tráfico de pessoas, branqueamento de capitais e falsificação de documentos, entre outros crimes.

A operação envolveu cerca de 400 operacionais da PJ, em várias cidades e freguesias da região do Baixo Alentejo, que procederam ao cumprimento de 65 mandados de busca domiciliária e não domiciliária.

4.5.21

Zmar dispensável: imigrantes distribuídos por Pousada, residência de estudantes, feira de Odemira e Alfeite

Carlos Dias e Helena Pereira, in Público on-line

Bastonário da Ordem dos Advogados fala em violação dos direitos humanos na requisição civil do Zmar. Pousada da juventude de Almograve, residência de estudantes de Odemira e a FACECO (Feira das Actividades Culturais e Económicas) podem ser suficientes para todos os casos activos de covid-19 e quarentenas

A requisição do empreendimento Zmar - Eco Camping Resort, aprovada no último Conselho de Ministros para acolher pessoas em isolamento profiláctico, indicia, segundo a Constituição da República portuguesa, “um caso de violação dos direitos humanos”. Quem o diz é Luís Menezes Leitão, bastonário da Ordem dos Advogados, que esteve esta segunda à tarde em Odemira. O bastonário sublinhou que, como o país já não se encontra em estado de emergência, a requisição das instalações do empreendimento turístico “só poderia ter sido feita com um mandado judicial”, o que não aconteceu.

Por outro lado, disse não acreditar que os proprietários de habitações do Zmar, a Multiparques a Céu Aberto, aceitem abandonar o espaço de que são proprietários. “Ninguém pode entrar num domicílio privado” sem estar devidamente autorizado pelas instâncias judiciais – estamos perante habitação própria e permanente”, acentua o bastonário. E, nestas condições, não se compreenderia como é que os proprietários de casas do Zmar “poderiam ser colocados na rua para instalar estranhos, que usariam os seus móveis e outros pertences”. Ora isto pode ser entendido como uma situação que “coloca em causa a vida privada”, acrescenta Menezes Leitão.

Também Nuno Silva Vieira, advogado dos proprietários de habitações no empreendimento Zmar, se insurge contra o modo como o Governo avançou para a requisição das instalações para alojar quem estiver em isolamento profiláctico ou sem condições de habitabilidade.

“O Governo diz que convocou o Zmar" para discutir a possibilidade de alojamento de infectados com a Covid-19 “mas não chegou a acordo” com os proprietários, forçando assim a requisição das instalações. Silva Vieira garante que o Governo “nunca conversou connosco” sobre esta questão. Deixa ainda, como hipótese, que alguém do Zmar tenha sido contactado. “Mas se aconteceu, desconheço”, afirma.

O complexo turístico do Zmar ocupa uma área de 81 hectares e inclui um eco-hotel com tipologias T1 a T3, com 170 habitações privadas e 100 com fins turísticos.

Neste momento, no Zmar, só estão alojados proprietários de habitações, refere o advogado, alertando para as consequências resultantes da requisição que surge 15 dias depois da assembleia de credores ter acordado, no Tribunal Judicial de Odemira, um plano de insolvência da empresa, tendo sido também foi deliberada a manutenção da actividade da empresa, que neste momento tem cerca de 100 trabalhadores. O pedido de insolvência teve como requerente a sociedade Ares Lusitani - Stc, S.A., que tem uma participação de 56,6% na empresa. A Zmar tem cerca de 420 credores (entre os quais, o Estado), que reclamam créditos num valor superior a 40 milhões de euros.

Segundo o bastonário da Ordem dos Advogados, que se reuniu com o presidente da câmara local, José Alberto Guerreiro, o autarca garantiu que “está a fazer tudo para evitar a ocupação do Zmar” para o transformar num centro de acolhimento de imigrantes sem abrigo ou em regime de quarentena. De acordos com dados do Governo, existem cerca de 80 casos activos em Odemira e aproximadamente 200 casos acumulados nos últimos 14 dias.

A pousada da juventude de Almograve tem capacidade para receber 55 pessoas infectadas, a residência de estudantes de Odemira a capacidade para receber cerca de 40 pessoas em quarentena e existem ainda as instalações da FACECO (Feira das Actividades Culturais e Económicas do Concelho de Odemira), em São Teotónio, que pode vir a receber infectados e pessoas em quarentena. Este espaço, que se situa na freguesia que tem 90% dos casos de covid, já serviu como pavilhão de vacinação.

Menezes Leitão disse ao PÚBLICO que, apesar da requisição decretada pelo Governo, “os interesses dos trabalhadores têm de ser acautelados” mas “sem colocar em causa os interesses dos proprietários de habitações do Zmar”, alegando que seria um “erro colocarmo-nos uns contra os outros”.

A opção do Governo pelo complexo turístico instalado na freguesia da Longueira, uma das que está em cerca sanitária, terá à partida colocado de parte a possibilidade das pessoas com problemas habitacionais ou a quem é imposta a quarentena, poderem ser deslocadas para a Base Aérea nº 11 em Beja, onde está montado um centro de acolhimento com capacidade para 60 pessoas, mas que, neste momento, segundo as informações prestadas ao PÚBLICO pelo Gabinete de Relações Públicas da Força Aérea, “está sem ninguém”. Informações recolhidas pelo PÚBLICO indicam que alguns destes trabalhadores sazonais de Odemira infectados com covid-19 já estiveram na Base do Alfeite, estando actualmente lá quatro.

Até ao final do dia de ontem, “ninguém foi transferido” para o Zmar em Odemira, confirmou ao PÚBLICO Nuno Silva Vieira, advogado dos proprietários de habitações no empreendimento turístico.

O que se sabe, e com base na informação prestada à Lusa pelo autarca de Odemira, estima-se que “no mínimo seis mil” dos 13 mil trabalhadores agrícolas do concelho, permanentes e temporários, “não têm condições de habitabilidade”.