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1.7.15

A teoria de Krugman e Stiglitz. Os gregos devem votar "não" no referendo

in Diário de Notícias

A teoria de Krugman e Stiglitz. Os gregos devem votar "não" no referendo

Os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ambos distinguidos com o prémio Nobel, consideram que só sem mais medidas de austeridade os gregos podem ter esperança no futuro.

No artigo de opinião de hoje no The New York Times, Paul Krugman escreve que "a Grécia deve votar 'não' e o Governo grego deve estar preparado, se necessário, para sair do euro", argumentando que é verdade que o executivo grego "estava a gastar acima das suas possibilidades no final dos anos 2000" mas que "desde então cortou repetidamente a despesa e aumentou impostos".

"O emprego público caiu mais de 25% e as pensões (que eram de facto demasiado generosas) têm sido cortadas abruptamente. Se a isto se somarem todas as medidas de austeridade, fizeram mais do que o suficiente para eliminar o défice e passarem a ter um amplo excedente", nota Krugman.

A explicação para que a correção não se tenha verificado na Grécia é que "a economia grega colapsou, muito devido às muitas medidas de austeridade, que afundaram as receitas" do Estado, defende o economista norte-americano, acrescentando que este colapso "esteve muito ligado ao euro, que amarrou a Grécia num colete-de-forças económico".

Krugman aponta três razões para que os gregos votem "não" no referendo: "após cinco anos [de duras medidas de austeridade], a Grécia está pior do que nunca", "o tão temido caos gerado por um 'Grexit' [saída da Grécia da zona euro] já aconteceu", ou seja, os bancos estão fechados e foram impostos controlos de capital e, finalmente, "ceder ao ultimato da 'troika' iria representar o abandono final de qualquer pretensão de independência grega".

O Nobel da Economia de 2008 deixa mesmo um apelo aos gregos: "Não se deixem levar pelos que dizem que os oficiais da 'troika' são só tecnocratas a explicar aos gregos ignorantes o que tem de ser feito. Estes pretensos tecnocratas são, de facto, fantasistas, que desconsideraram tudo o que sabemos sobre macroeconomia e estiveram sempre errados. Isto não é sobre análise, é sobre poder - o poder dos credores para dispararem sobre a economia grega, que vai persistir enquanto a saída do euro for considerada impensável".

Para Krugman, "é tempo de pôr fim" a esta visão de que sair do euro é impensável ou então "a Grécia vai confrontar-se com uma austeridade interminável e com uma depressão sem solução e sem fim".

Também Joseph Stiglitz, que foi distinguido com o Prémio Nobel da Economia em 2001, assina hoje um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian, intitulado "Como eu votaria no referendo grego".

Stiglitz reconhece que "nenhuma alternativa - aprovação ou rejeição dos termos da 'troika' - vai ser fácil e ambas implicam riscos" e sublinha que, se ganhar o "sim", isso vai significar "uma depressão quase sem fim".

"Talvez um país empobrecido - que vendeu todos os seus ativos e cujos jovens brilhantes emigraram - possa finalmente conseguir um perdão da dívida. Talvez transformando-se numa economia de rendimentos médios, a Grécia possa finalmente aceder à assistência do Banco Mundial. Tudo isto pode acontecer na próxima década ou talvez na década a seguir a essa", resume o economista ao retratar o futuro da Grécia, caso os gregos aceitem as condições que os credores internacionais estão a pedir.

Já num cenário em que os gregos votam "não" no referendo de 05 de julho, Stiglitz considera que isso "pelo menos ia abrir a possibilidade de a Grécia, com a sua forte tradição democrática, ter a oportunidade de decidir o seu destino por si".

"Os gregos podem ganhar a oportunidade de desenhar um futuro que, ainda que não seja tão próspero como no passado, é de longe mais esperançoso do que a tortura sem consciência do presente", reitera o economista.

A crise que opõe o Governo grego aos credores internacionais (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) assumiu um rumo inédito depois de o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ter anunciado na sexta-feira à noite a convocação de um referendo sobre o programa apresentado pelos credores para desbloquear ajuda financeira ao país.

No sábado, o Eurogrupo recusou-se a prolongar o programa de assistência financeira à Grécia que termina terça-feira, dia 30.

A Grécia, que enfrenta problemas de liquidez, arrisca-se a entrar em incumprimento, tendo de pagar até terça-feira à noite mais de 1,5 mil milhões de euros ao FMI.

Nada será como dantes

Rui Bebiano, in o Observatório da Grécia

Foram grandes as expectativas criadas em Portugal com a vitória do Syriza nas eleições do passado Janeiro. A direita no governo, apoiada por uma maioria dos órgãos de comunicação transformada em caixa-de-ressonância, rapidamente desenhou os piores cenários, considerando-a um erro de avaliação da parte dos gregos – obviamente entendidos como crianças grandes, politicamente menorizadas –, e antevendo, como consequência, o incumprimento do pagamento da dívida, tal como a saída da Grécia do euro ou mesmo da União Europeia. Ao mesmo tempo, um sobressalto transversal foi partilhado pela quase totalidade da esquerda e do centro-esquerda, traduzido numa visível simpatia pelo novo governo de Atenas e por alguns dos seus protagonistas, bem como num apoio expresso ou tácito às suas escolhas.

Foi assim que alguns militantes e dirigentes do Partido Socialista, bem como muitos dos seus simpatizantes e presumíveis votantes, exultaram publicamente com aquela vitória, embora, como era de esperar, desde o início outros a temessem ou rejeitassem de forma liminar. Foi assim que o PCP, sem apoiar expressamente o Syriza, se eximiu de o criticar, ao contrário daquilo que, como é sabido, tem feito o KKE, o Partido Comunista da Grécia, que o combate por lhe atribuir um papel de mera «muleta do capitalismo». Foi assim também que a nossa «esquerda da esquerda» apoiou incondicionalmente a experiência grega, assumindo como suas as suas escolhas, por muito que algumas delas, em particular aquelas que têm privilegiado os fatores de unidade e de moderação, sejam estranhas às suas opções políticas internas.

Aquilo que ninguém nesta área política fez foi, porém, prever a forte possibilidade da experiência grega falhar, suscitando uma onda de choque capaz de mergulhar no desânimo e de deixar sem um vislumbre de saída otimista, quem, por um exercício de vontade, numa primeira fase participou dessa exaltação quase unanimista. À hora a que escrevo ninguém poderá, é um facto, salvo se enveredar por um inútil exercício de adivinhação, traçar o desfecho desta etapa dramática da história da Grécia. Mas uma coisa é certa: todos, cá e lá, estamos a experimentar um banho de realismo, uma vez que poucas coisas aconteceram como o previsto. Um banho cujos efeitos na nossa perceção da coisa pública – e da relação da esquerda com a conquista e o exercício do poder na Europa de hoje – se encontra ainda por avaliar.

A dimensão do recuo do Syriza, tal como a das fraturas que por esse motivo este irá inevitavelmente conhecer, é ainda desconhecida. Como o é a capacidade do povo grego para conservar nas circunstâncias presentes o seu capital de esperança. Mas uma coisa é segura: uma vez mais está a ficar provado que não é possível moldar o curso da história apenas por um exercício de vontade ou com recurso a gestos de bravura. O que força sempre a procurar novas vias para reduzir os danos e evitar o pior, agregando forças de forma aberta e criativa com base no que é prioritário para a vida das pessoas e dos Estados. Governar a direito, essencialmente a régua e esquadro e na rejeição da democracia, tentaram-no Hitler ou Estaline, com os resultados que se conhecem. Só ao estabelecer consensos, unindo o que houver a unir, se poderá conhecer o modo de evitá-lo. Neste domínio o Syriza tem sido exemplar. Pelo menos até agora.

9.11.12

Créditos bancários em incumprimento podem começar a ser renegociados Publicado às 15.13 22 6 0 As famílias com crédito à habitação em incumprimento podem começar a ser renegociados

in Jornal de Notícias

As famílias com crédito à habitação em incumprimento podem começar a renegociar o empréstimo com o banco a partir de segunda-feira, depois de ter sido publicado esta sexta-feira em "Diário da República" o regime extraordinário que prevê condições mais favoráveis.

Este diploma, que foi promulgado na semana passada pelo presidente da República, Cavaco Silva, foi publicado esta sexta-feira em "Diário da Republica", entrando em vigor no "dia seguinte ao da sua publicação", ou seja, no sábado. No entanto, como os bancos estão fechados ao fim de semana, as famílias em situação de incumprimento podem a partir de segunda-feira renegociar o empréstimo ao abrigo deste regime extraordinário que vigora até finais de 2015.

No entanto, os agregados familiares têm de cumprir vários requisitos para aceder a este regime. Segundo disse a Deco à Lusa em setembro, tendo apenas em conta os critérios dos rendimentos do agregado familiar, "mais de 60% dos pedidos de ajuda (na Deco) ficariam excluídos", afirmou Natália Nunes, responsável do Gabinete de Apoio ao Sobre-endividamento da Associação para a Defesa do Consumidor.

Também esta sexta-feira foram publicadas em "Diário da República" outras alterações à legislação, que foram discutidas este ano no grupo de trabalho parlamentar criado propositadamente para debater os contratos de crédito à habitação.

Sábado entra em vigor a alteração à lei que passa de 70 para 85% o valor base da primeira licitação quando uma casa vai a hasta pública por penhora.

Já em dezembro passa a ser proibido aumentar o 'spread' (margem de lucro do banco) do empréstimo à habitação em caso de arrendamento da casa devido a mudança de local de trabalho de pelo menos 50 quilómetros; desemprego e renegociação contratual em caso de divórcio, separação ou morte de um dos cônjuges. Neste caso, o banco apenas não pode aumentar os encargos se a pessoa que ficar como titular do empréstimo comprovar que a prestação representa uma taxa de esforço inferior a 55% dos seus rendimentos ou 60% num agregado com dois ou mais dependentes.

Os bancos só podem ainda cessar o contrato de concessão de crédito à habitação se houver pelo menos três prestações não pagas. Também a aprovação de crédito, seja para habitação ou outros, "deve atender ao perfil de risco da operação de crédito".

Por fim, em janeiro, entra em vigor a alteração à lei que permite o resgate dos Planos de Poupança Reforma (PPR) e PPR Educação (PPRE) para pagamento das prestações de crédito à habitação, sem penalizações e perda de benefícios fiscais.

29.10.12

Entrega de imóveis ao banco cai para metade em relação ao início do ano

in Público on-line

Cerca de 1100 imóveis foram entregues aos bancos para pagamento da dívida no terceiro trimestre deste ano, o que representa um aumento em relação aos três meses anteriores, mas uma redução para quase metade face ao início do ano.

Segundo dados da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), a que a agência Lusa teve hoje acesso, entre Janeiro e Setembro foram entregues 4400 imóveis em dação em pagamento, tanto por famílias como por promotores imobiliários, tendo um quarto deste número sido registado entre Julho e Setembro.

A análise da APEMIP mostra que no terceiro trimestre o fenómeno registou um aumento de 9,9% em relação aos três meses anteriores, mas os valores estão muito mais baixos do que no primeiro trimestre, quando foram entregues 2300 casas.

Este aumento, diz a associação no mesmo documento, é o “corolário da continuidade de um ano extremamente difícil, com níveis de confiança no mercado combalidos e expectáveis perante o futuro desenvolvimento do sector imobiliário e do mercado, quer no âmbito nacional, quer global”.

Entre Janeiro e Setembro, os distritos onde foram entregues mais imóveis em dação em pagamento foram os do Porto, de Lisboa e de Faro, representando em conjunto 40,5% do total.

Entre os dez distritos onde o fenómeno é mais relevante encontram-se ainda os de Setúbal, de Santarém e de Coimbra, que representam 23,8% do total, e, por último, os de Aveiro, de Braga e os arquipélagos da Madeira e dos Açores, que somam 21,9% dos imóveis entregues até Setembro.

A APEMIP adianta ainda que as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto concentraram quase um terço (31,7%) do número de casas entregues entre Janeiro e Setembro, sendo que só no terceiro trimestre o valor foi de 22,7%.

Em termos de municípios, os mais penalizados são o Entroncamento, que regista uma média de 2,8%, graças a uma subida do número de casas entregues em Setembro para 8,6%.

Entre as três autarquias onde houve mais entregas de imóveis em dação em pagamento contam-se ainda as de Vila Nova de Gaia, com 2,7%, e da Figueira da Foz, com 2,1%.

“A divulgação dos dados das dações do primeiro trimestre deste ano pela APEMIP, bem como a mediatização da sentença do tribunal de Portalegre [que determinou que a entrega da casa liquida na totalidade o empréstimo concedido], fizeram com que o sector financeiro passasse a olhar este fenómeno com outros olhos”, afirma o presidente da associação na nota hoje divulgada.

Segundo Luís Lima, este conjunto de situações criou um “ambiente mais propício à renegociação dos créditos, para que a prática da entrega de imóveis não passasse a regra em vez de excepção”.

30.5.12

Incumprimento no crédito deve continuar a subir em 2012

in Jornal de Notícias

O rácio de incumprimento no crédito em Portugal já se encontra em níveis historicamente altos mas, segundo as previsões do Banco de Portugal, deverá continuar a crescer ao longo de 2012 devido à conjuntura económica desfavorável.

"O quadro recessivo que marcou o ano de 2011 e o início do ano corrente traduziu-se numa considerável deterioração da situação financeira do setor privado não financeiro e na consequente materialização do risco de crédito. A evolução da situação financeira dos particulares foi marcada pela redução do seu rendimento disponível, associada à quebra das remunerações e das prestações sociais e ao agravamento da carga fiscal, e pela redução ligeira da taxa de poupança", lê-se no Relatório de Estabilidade Financeira (REF), divulgado, esta terça-feira, pelo Banco de Portugal.

"No caso das sociedades não financeiras, destaca-se a redução da poupança e a queda das necessidades de financiamento para investimento num contexto de forte deterioração da atividade económica", acrescentou o supervisor.

"Em resultado deste agravamento, o rácio de incumprimento e o fluxo anual de novos empréstimos em incumprimento atingiram o valor mais elevado desde o início da área do euro, sendo de esperar que esta situação se intensifique ao longo de 2012", antecipa a entidade liderada por Carlos Costa.

Enquanto o rácio de incumprimento nos empréstimos a particulares para aquisição de habitação tem vindo a crescer de forma relativamente gradual, o incumprimento nos empréstimos a particulares para consumo e outros fins e nos empréstimos a sociedades não financeiras tem registado fortes aumentos.

Relativamente às sociedades não financeiras, a deterioração dos indicadores de qualidade de crédito foi transversal a todos os setores de atividade, sendo no entanto particularmente acentuada nos setores da construção, das atividades imobiliárias, no comércio por grosso e a retalho, e na reparação de veículos automóveis e motociclos.

Este aumento foi também generalizado por dimensão da empresa e da exposição, continuando o incumprimento a ser mais frequente e significativo nos empréstimos com montantes mais reduzidos e nas empresas de menor dimensão.

"O processo de ajustamento em curso na economia portuguesa deverá continuar a implicar um abrandamento da atividade económica ao longo de 2012 e o consequente aumento do desemprego e do número de empresas em processo de falência e insolvência. É assim de esperar que se continue a assistir a uma maior materialização do risco de crédito, o que sugere a necessidade de os bancos continuarem a aumentar a dotação de imparidade para perdas na carteira de crédito", salientou o supervisor.

Noutro ponto do REF, é destacado que "o significativo aumento dos recursos de clientes sob a forma de depósitos tem permitido melhorar a posição estrutural de liquidez do sistema bancário português, em especial das instituições domésticas, num contexto de virtual ausência de acesso aos mercados internacionais de dívida por grosso".

Este crescimento dos depósitos demonstra a confiança dos depositantes no sistema bancário português, dando alguma folga aos bancos, que estão mais dependentes do que nunca do financiamento concedido a título excecional pelo Banco Central Europeu (BCE), já que o mercado interbancário está fechado há praticamente dois anos.

O aumento dos depósitos, a par da menor concessão de crédito, permite que a banca portuguesa se aproxime mais rapidamente das metas de desalavancagem impostas pela 'troika'.