Luís Reis Ribeiro, in DN
Em Portugal, em 2017, quase 81% conseguiram arranjar trabalho. Na Alemanha, nível de concretização está em 91%.
O nível de emprego dos jovens que, em Portugal, acabaram recentemente cursos de grau mais elevado - secundário do 10.º ao 12.º ano, pós-secundário e ensino superior - regressou aos níveis pré-troika, mas continua a ser um dos mais baixos da Europa, indicam dados do Eurostat obtidos pelo DN/Dinheiro Vivo. Segundo os números oficiais, em 2017, 80,7% desses indivíduos (com idades dos 20 aos 34 anos e que acabaram o respetivo curso há três anos, no máximo) conseguiram arranjar emprego. Trata-se de uma proporção que está ao nível de 2010 (80,6%), último ano antes da bancarrota e do início do programa de ajustamento da troika.
Esta taxa de empregabilidade dos jovens com cursos mais avançados (licenciaturas e não só), que no fundo acaba por ser um indicador que também ajuda a medir o retorno do investimento em qualificações, está a subir desde 2012, ano em que atingiu o valor mais baixo da série do gabinete de estatísticas da União Europeia. Nessa altura, a taxa de emprego deste grupo de pessoas atingiu um mínimo de 67,5%.
dinheiro vivo
Há quase 500 vagas de emprego no Algarve. E para entrada imediata
A recuperação nos níveis de empregabilidade assente em qualificações mais altas não é um exclusivo de Portugal. Isso aconteceu em todos os países europeus.
Em termos comparativos, Portugal, embora esteja ligeiramente acima da média da União Europeia, continua a ter das empregabilidades mais baixas ao nível dos tais jovens mais qualificados que acabaram o curso há três anos ou menos.
A média da UE está nos 80,2%. Portugal está em 18.º lugar no grupo dos 28 da União. Em termos de empregabilidade, está atrás de concorrentes diretos do Leste Europeu, como Eslovénia, Estónia ou Eslováquia.
Os países com maiores taxas de sucesso na obtenção de emprego são Malta (94,5%), Alemanha (90,9%) e Holanda (90,4%). No fundo da tabela estão Croácia (65,9%), Itália (55,2%) e Grécia (52%).
mercado laboral
57% do emprego está nas empresas de baixa tecnologia
"Nível de escolaridade assume um papel crucial"
Fonte da Comissão Europeia congratula-se com o facto de "em 2017, mais de 80% dos graduados recentes na União Europeia estarem empregados" e de este ser "o quarto ano consecutivo de aumento" na taxa de emprego deste grupo de pessoas. "Reverteu-se a descida observada entre 2008 e 2013."
A mesma fonte explica que "os graduados recentes são pessoas com idades dos 20 aos 34 anos, que não estão a receber educação ou formação, e que completaram os seus estudos há três anos no máximo". "O nível de escolaridade considerado é, pelo menos, o secundário superior [10.º a 12.º anos], o que também inclui o ensino superior".
"Quando estes graduados recentes estão à procura de trabalho, o seu nível de escolaridade assume um papel crucial", observam os peritos da Comissão. Isto é, a nível europeu, "as taxas de emprego para quem concluiu graus do ensino superior foi de 85% em 2017, ao passo que a mesma taxa para quem concluiu graus de ensino vocacional (secundário e pós-secundário) foi de 77%".
Já a empregabilidade de quem apenas cumpriu o ensino secundário e pós-secundário-geral (sem vertente vocacional, logo não especializado) "foi consideravelmente mais baixa", cerca de 64% ao nível da UE.
A Portugal acontece o mesmo. Quanto mais elevado o nível de escolarização, mais alta a taxa de emprego destes jovens com 20 a 34 anos que terminaram o curso há três anos, no máximo.
ensino superior
"Crescemos a ouvir: vamos para a faculdade para ter emprego melhor"
Como já referido, 80,7% arranjaram emprego quando se considera o grupo onde estão as pessoas com ensino superior. Quando se expurga os licenciados, mas se considera o ensino secundário e pós-secundário com vertentes vocacionais, a taxa reduz-se ligeiramente, para 78,9%, ainda assim elevada.
Já no grupo dos jovens com curso secundário ou pós-secundário simples, genérico, a taxa de emprego baixa para 73,2% em 2017, indicam as bases de dados do Eurostat.
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18.7.18
15.7.16
Livro sobre Segurança Social responsabiliza troika pelo défice português
in Económico on-line
Francisco Louçã é um dos coordenadores da obra.
O défice em Portugal “seria zero” se tivessem sido evitadas as medidas da 'troika' que provocaram o aumento do desemprego, disse hoje, à Lusa, Francisco Louçã, um dos coordenadores do livro “Segurança Social – Defender a Democracia”.
“Nós damos um exemplo no livro: se um em cada cinco dos desempregados e um em cada dois dos que saíram de Portugal durante a 'troika' estivessem a trabalhar cá, o défice português seria zero, porque se pagariam menos cinco mil milhões de euros de subsídio de desemprego e o aumento da receita da segurança social – por causa das pessoas que estariam a trabalhar – seria de 1.300 a 2.700 milhões de euros. Não teríamos défice simplesmente”, explicou Francisco Louçã.
Sendo assim, Francisco Louçã afirmou que as sanções da Comissão Europeia a Portugal, a confirmarem-se, vão ter um efeito simbolicamente punitivo e recordou que antes das últimas eleições legislativas, "quando não se sabia ainda quem seria o Governo", a Comissão Europeia fez um comunicado referindo que a reforma da segurança social tinha de ser uma prioridade.
“A eventual aplicação de sanções, além do drama para o povo português que é a austeridade, é também a criação de uma economia de fronteira entre uma parte que beneficia das aplicações financeiras e da distribuição de rendas do Estado - uma economia extrativa - e uma parte importante da população que trabalha por retribuições salariais e pensões que são comprimidas até ao limite da vida decente e essa é a grande partição social que esta doutrina neoliberal justifica”, criticou.
O economista, ex-dirigente do Bloco de Esquerda, é um dos coordenadores do livro “Segurança Social – Defender a Democracia”, que conta com textos de José Luís Albuquerque, Vítor Junqueira, João Ramos de Almeida, Manuel Pires, Maria Clara Murteira, Nuno Serra e Ricardo Antunes.
Para Francisco Louçã, a austeridade imposta pelo Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu "é uma mecânica social destrutiva" porque retira o horizonte de vida, a capacidade social, destrói a economia, tendo, por isso, “enorme efeito" sobre a Segurança Social.
Louçã frisou que o “problema chave” da economia portuguesa é a criação de emprego, a redução da precariedade que destrói o emprego e a sustentação da segurança social.
No livro, os autores - além de constatarem que há um problema de envelhecimento na sociedade portuguesa – referem que os reformados foram muito maltratados, no período da 'troika' e, sobretudo, os mais pobres, foram muito atingidos.
O mesmo aconteceu, segundo o livro, na população em geral, pois o rendimento médio dos 10% mais pobres baixou 24 por cento, levando a que os pobres ficassem ainda mais pobres.
“Esta política atingiu os reformados de modo particularmente agressivo: fizemos as contas ao que perderam os que recebiam entre 500 e 1.000 euros de pensão, comparado com o que teriam sem cortes e com a subida da pensão pela inflação, verificamos que entre 2009 e 2015 perderam respetivamente 2.935 e 10.202 euros. A austeridade agravou as dificuldades e a injustiça”, refere o livro.
Os textos agora publicados são resultado dos trabalhos das Oficinas sobre Políticas Alternativas, desenvolvidas durante os anos da 'troika' no âmbito do Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
“Quisemos apresentar ao grande público informação rigorosa sobre como ler os números, como perceber a pobreza, o desemprego, as prestações sociais e como conhecer os detalhes para que qualquer pessoa possa formar a sua opinião com um fundamento sólido”, explicou à Lusa Francisco Louçã, acrescentando que em Portugal há ainda uma falta de cultura estatística.
“Nós estamos no patamar abaixo do que era necessário na experiência democrática, do ponto de vista da informação geral aos cidadãos e é verdade também que estas dificuldades por falta de preparação, informação, ou, por vezes, por algum enviesamento ideológico uma utilização abusiva”, disse Louçã sobre o livro, que aborda também a forma como o jornalismo tratou a questão da Segurança Social ao longo dos últimos anos.
O livro “Segurança Social – Defender a Democracia” (Bertrand Editora, 247 páginas) chega às livrarias na sexta-feira e conta com um prefácio assinado por Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República.
Francisco Louçã é um dos coordenadores da obra.
O défice em Portugal “seria zero” se tivessem sido evitadas as medidas da 'troika' que provocaram o aumento do desemprego, disse hoje, à Lusa, Francisco Louçã, um dos coordenadores do livro “Segurança Social – Defender a Democracia”.
“Nós damos um exemplo no livro: se um em cada cinco dos desempregados e um em cada dois dos que saíram de Portugal durante a 'troika' estivessem a trabalhar cá, o défice português seria zero, porque se pagariam menos cinco mil milhões de euros de subsídio de desemprego e o aumento da receita da segurança social – por causa das pessoas que estariam a trabalhar – seria de 1.300 a 2.700 milhões de euros. Não teríamos défice simplesmente”, explicou Francisco Louçã.
Sendo assim, Francisco Louçã afirmou que as sanções da Comissão Europeia a Portugal, a confirmarem-se, vão ter um efeito simbolicamente punitivo e recordou que antes das últimas eleições legislativas, "quando não se sabia ainda quem seria o Governo", a Comissão Europeia fez um comunicado referindo que a reforma da segurança social tinha de ser uma prioridade.
“A eventual aplicação de sanções, além do drama para o povo português que é a austeridade, é também a criação de uma economia de fronteira entre uma parte que beneficia das aplicações financeiras e da distribuição de rendas do Estado - uma economia extrativa - e uma parte importante da população que trabalha por retribuições salariais e pensões que são comprimidas até ao limite da vida decente e essa é a grande partição social que esta doutrina neoliberal justifica”, criticou.
O economista, ex-dirigente do Bloco de Esquerda, é um dos coordenadores do livro “Segurança Social – Defender a Democracia”, que conta com textos de José Luís Albuquerque, Vítor Junqueira, João Ramos de Almeida, Manuel Pires, Maria Clara Murteira, Nuno Serra e Ricardo Antunes.
Para Francisco Louçã, a austeridade imposta pelo Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e Banco Central Europeu "é uma mecânica social destrutiva" porque retira o horizonte de vida, a capacidade social, destrói a economia, tendo, por isso, “enorme efeito" sobre a Segurança Social.
Louçã frisou que o “problema chave” da economia portuguesa é a criação de emprego, a redução da precariedade que destrói o emprego e a sustentação da segurança social.
No livro, os autores - além de constatarem que há um problema de envelhecimento na sociedade portuguesa – referem que os reformados foram muito maltratados, no período da 'troika' e, sobretudo, os mais pobres, foram muito atingidos.
O mesmo aconteceu, segundo o livro, na população em geral, pois o rendimento médio dos 10% mais pobres baixou 24 por cento, levando a que os pobres ficassem ainda mais pobres.
“Esta política atingiu os reformados de modo particularmente agressivo: fizemos as contas ao que perderam os que recebiam entre 500 e 1.000 euros de pensão, comparado com o que teriam sem cortes e com a subida da pensão pela inflação, verificamos que entre 2009 e 2015 perderam respetivamente 2.935 e 10.202 euros. A austeridade agravou as dificuldades e a injustiça”, refere o livro.
Os textos agora publicados são resultado dos trabalhos das Oficinas sobre Políticas Alternativas, desenvolvidas durante os anos da 'troika' no âmbito do Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
“Quisemos apresentar ao grande público informação rigorosa sobre como ler os números, como perceber a pobreza, o desemprego, as prestações sociais e como conhecer os detalhes para que qualquer pessoa possa formar a sua opinião com um fundamento sólido”, explicou à Lusa Francisco Louçã, acrescentando que em Portugal há ainda uma falta de cultura estatística.
“Nós estamos no patamar abaixo do que era necessário na experiência democrática, do ponto de vista da informação geral aos cidadãos e é verdade também que estas dificuldades por falta de preparação, informação, ou, por vezes, por algum enviesamento ideológico uma utilização abusiva”, disse Louçã sobre o livro, que aborda também a forma como o jornalismo tratou a questão da Segurança Social ao longo dos últimos anos.
O livro “Segurança Social – Defender a Democracia” (Bertrand Editora, 247 páginas) chega às livrarias na sexta-feira e conta com um prefácio assinado por Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República.
24.5.16
Austeridade tornou pobres mais pobres
In "Jornal de Notícias"
O processo de ajustamento financeiro não afetou todos de igual forma. Carlos Farinha Rodrigues, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Nova de Lisboa, um dos oradores da 2.ª Conferência de Gaia, aumenta o zoom para desmontar ideias que a crise instalou.
A classe média não foi a que mais sofreu, os pobres ficaram mais pobres, as prestações sociais perderam fôlego, e não se pode criar riqueza primeiro para depois distribui-la porque o processo só faz sentido em simultâneo. Cenários que assentam em números.
O rendimento das famílias e os salários "tiveram um decréscimo fortíssimo". Todos sabem. Mas quando se analisam os extremos percebe-se que a crise tornou os pobres ainda mais pobres. "Os rendimentos dos 10% mais ricos desceram cerca de 13%. Os rendimentos dos 10% mais pobres desceram 25%". "O programa de ajustamento foi profundamente desigual, afetando os mais pobres", sustenta.
A classe média foi a mais afetada com a crise? Não. "Teve um recuo efetivo mas nada quando se compara com os mais pobres". E as respostas sociais não aumentaram. "O que se esconde é que houve um forte corte nas prestações sociais". E desigualdade e pobreza continuam a andar de mãos dadas.
António Teixeira Fernandes, professor catedrático jubilado e investigador do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, coloca o dedo na ferida. "Não é a pobreza que coloca a democracia em perigo, mas a angústia que ela cria".
"A pobreza, como modo de vida, tende a perpetuar-se". Por isso, precisam-se de medidas. "Os pobres têm de quebrar as cadeias da sua dependência", defende. O Estado não pode amarrar a participação coletiva e as instituições do setor devem estar no terreno. O combate, na sua opinião, deve começar pela preparação das novas gerações para "impedir a reprodução da pobreza". E um aviso de catedrático: "As prestações sociais não podem ser um simples subvenção social".
O Estado cria ou não cria emprego? Luís Capucha, professor do ISCTE, demonstra que sim com números e gráficos. Em 2001, o Plano Nacional de Emprego criou entre 20 a 25 mil postos de trabalho. "Quanto menor o papel do mercado maior relevância tem a componente política na criação de emprego". E há a austeridade. "O Estado social não foi um fator de vulnerabilidade, foi um fator de proteção formal aos efeitos da crise".
A linguagem que se usa faz diferença para João Teixeira Lopes, professor e sociólogo. E há muitos termos martelados em tempos de crise. "Exclusão é sobretudo um conceito administrativo para nomear uma realidade crescente dos grupos ditos críticos e vulneráveis".
O processo de ajustamento financeiro não afetou todos de igual forma. Carlos Farinha Rodrigues, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Nova de Lisboa, um dos oradores da 2.ª Conferência de Gaia, aumenta o zoom para desmontar ideias que a crise instalou.
A classe média não foi a que mais sofreu, os pobres ficaram mais pobres, as prestações sociais perderam fôlego, e não se pode criar riqueza primeiro para depois distribui-la porque o processo só faz sentido em simultâneo. Cenários que assentam em números.
O rendimento das famílias e os salários "tiveram um decréscimo fortíssimo". Todos sabem. Mas quando se analisam os extremos percebe-se que a crise tornou os pobres ainda mais pobres. "Os rendimentos dos 10% mais ricos desceram cerca de 13%. Os rendimentos dos 10% mais pobres desceram 25%". "O programa de ajustamento foi profundamente desigual, afetando os mais pobres", sustenta.
A classe média foi a mais afetada com a crise? Não. "Teve um recuo efetivo mas nada quando se compara com os mais pobres". E as respostas sociais não aumentaram. "O que se esconde é que houve um forte corte nas prestações sociais". E desigualdade e pobreza continuam a andar de mãos dadas.
António Teixeira Fernandes, professor catedrático jubilado e investigador do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, coloca o dedo na ferida. "Não é a pobreza que coloca a democracia em perigo, mas a angústia que ela cria".
"A pobreza, como modo de vida, tende a perpetuar-se". Por isso, precisam-se de medidas. "Os pobres têm de quebrar as cadeias da sua dependência", defende. O Estado não pode amarrar a participação coletiva e as instituições do setor devem estar no terreno. O combate, na sua opinião, deve começar pela preparação das novas gerações para "impedir a reprodução da pobreza". E um aviso de catedrático: "As prestações sociais não podem ser um simples subvenção social".
O Estado cria ou não cria emprego? Luís Capucha, professor do ISCTE, demonstra que sim com números e gráficos. Em 2001, o Plano Nacional de Emprego criou entre 20 a 25 mil postos de trabalho. "Quanto menor o papel do mercado maior relevância tem a componente política na criação de emprego". E há a austeridade. "O Estado social não foi um fator de vulnerabilidade, foi um fator de proteção formal aos efeitos da crise".
A linguagem que se usa faz diferença para João Teixeira Lopes, professor e sociólogo. E há muitos termos martelados em tempos de crise. "Exclusão é sobretudo um conceito administrativo para nomear uma realidade crescente dos grupos ditos críticos e vulneráveis".
Pobres fi caram 25% mais pobres durante os anos da troika
In "A Defesa"
Os portugueses mais carenciados ficaram 25% mais pobres durante os anos em que decorreu o programa de ajustamento financeiro. Entre os mais ricos, o impacto da crise foi bem menor, revelou à Rádio Renascença o Presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza. Aumentaram as assimetrias e, de acordo com o estudo que a Rede Europeia Anti-Pobreza, as instituições de solidariedade social também viram emagrecer os seus orçamentos, ao ponto de algumas terem de se endividar.
Os portugueses mais carenciados ficaram 25% mais pobres durante os anos em que decorreu o programa de ajustamento financeiro. Entre os mais ricos, o impacto da crise foi bem menor, revelou à Rádio Renascença o Presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza. Aumentaram as assimetrias e, de acordo com o estudo que a Rede Europeia Anti-Pobreza, as instituições de solidariedade social também viram emagrecer os seus orçamentos, ao ponto de algumas terem de se endividar.
10.5.16
Principais vítimas da troika em Portugal foram os mais pobres
In "Esquerda"
No Encontro Nacional da rede Anti-Pobreza, o investigador Carlos Farinha Rodrigues contrariou a ideia de que foi a classe média a ver mais reduzido o seu rendimento nos últimos anos. Os números disponíveis mostram que os 10% mais pobres perderam 24% do rendimento.
Entre 2009 e 2013, “o rendimento dos 10% mais ricos desceu 8%. Quando analisámos a quebra do rendimento dos 10% mais pobres verificámos que desceu 24%”, revela o especialista do ISEG em estudos sobre pobreza em declarações à TSF.
Apesar de ser comum a ideia de que foi a classe média a perder mais nos anos da troika, com cortes salariais e aumento de impostos, enquanto os mais pobres estariam mais protegidos dos sacrifícios, a realidade desmente a propaganda do processo de ajustamento português. Os cortes nas prestações sociais levaram à queda acentuada do rendimento dos que já tinham muito pouco, conclui Farinha Rodrigues.
"O balanço social deste processo de ajustamento é, quase que poderíamos dizer, trágico. Regredimos em termos de indicadores de pobreza e exclusão social praticamente para o ínicio do século”, acrescenta o investigador do ISEG, que alerta para o agravamento da taxa de pobreza, apoiando-se nos números disponíveis.
A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) em Portugal esteve reunida em Santarém e à saída do encontro a diretora executiva falou à Rádio Renascença sobre os contactos mantidos com o atual governo. Sandra Araújo diz ter encontrado “abertura a um trabalho de parceria efectivo”, além de “muita sensibilidade para a necessidade de uma estratégia nacional” de combate à pobreza.
A EAPN Portugal também desafiou a Assembleia da República a assumir o combate à pobreza como prioridade e a avaliar anualmente “as políticas públicas com impacto na pobreza e na exclusão social”. Esta rede vai organizar uma petição pública por uma estratégia nacional de combate à pobreza.
“O objectivo é mobilizar toda a sociedade, todos os cidadãos e instituições, para os sensibilizar para a importância de Portugal construir uma estratégia integrada de combate à pobreza e o que isso implica na mudança das políticas e na nossa forma de estar enquanto cidadãos”, afirmou Sandra Araújo à Rádio Renascença.
No Encontro Nacional da rede Anti-Pobreza, o investigador Carlos Farinha Rodrigues contrariou a ideia de que foi a classe média a ver mais reduzido o seu rendimento nos últimos anos. Os números disponíveis mostram que os 10% mais pobres perderam 24% do rendimento.
Entre 2009 e 2013, “o rendimento dos 10% mais ricos desceu 8%. Quando analisámos a quebra do rendimento dos 10% mais pobres verificámos que desceu 24%”, revela o especialista do ISEG em estudos sobre pobreza em declarações à TSF.
Apesar de ser comum a ideia de que foi a classe média a perder mais nos anos da troika, com cortes salariais e aumento de impostos, enquanto os mais pobres estariam mais protegidos dos sacrifícios, a realidade desmente a propaganda do processo de ajustamento português. Os cortes nas prestações sociais levaram à queda acentuada do rendimento dos que já tinham muito pouco, conclui Farinha Rodrigues.
"O balanço social deste processo de ajustamento é, quase que poderíamos dizer, trágico. Regredimos em termos de indicadores de pobreza e exclusão social praticamente para o ínicio do século”, acrescenta o investigador do ISEG, que alerta para o agravamento da taxa de pobreza, apoiando-se nos números disponíveis.
A Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN) em Portugal esteve reunida em Santarém e à saída do encontro a diretora executiva falou à Rádio Renascença sobre os contactos mantidos com o atual governo. Sandra Araújo diz ter encontrado “abertura a um trabalho de parceria efectivo”, além de “muita sensibilidade para a necessidade de uma estratégia nacional” de combate à pobreza.
A EAPN Portugal também desafiou a Assembleia da República a assumir o combate à pobreza como prioridade e a avaliar anualmente “as políticas públicas com impacto na pobreza e na exclusão social”. Esta rede vai organizar uma petição pública por uma estratégia nacional de combate à pobreza.
“O objectivo é mobilizar toda a sociedade, todos os cidadãos e instituições, para os sensibilizar para a importância de Portugal construir uma estratégia integrada de combate à pobreza e o que isso implica na mudança das políticas e na nossa forma de estar enquanto cidadãos”, afirmou Sandra Araújo à Rádio Renascença.
16.2.16
Pedro Portugal: Ajustamento do mercado de trabalho “foi uma tragédia”
Catarina Almeida Pereira, in Negócios on-line
A duração do desemprego e os indicadores sobre a “rigidez” ao nível dos salários e do despedimento individual provam que o ajustamento no mercado de trabalho não foi bem sucedido, sustenta Pedro Portugal.
Portugal até foi "relativamente bem sucedido" ao nível do ajustamento orçamental e financeiro, mas o ajustamento ao nível do mercado de trabalho "foi uma tragédia", na análise de Pedro Portugal, professor da Universidade Nova e investigador na área da economia do trabalho.
"O ajustamento correu razoavelmente bem na parte financeira e nos reequilíbrios externos, no controle orçamental, mas do ponto de vista orçamental foi uma tragédia", afirmou, num debate sobre "O mercado de trabalho", incluído nas conferências "Economia Viva", organizado pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.
Na opinião do investigador do departamento de estudos económicos do Banco de Portugal, a intensidade e a duração dos períodos de desemprego, os tempos de duração do subsídio de desemprego – que chega a ser superior do que o período de descontos, por depender da idade, sustenta – são provas de que o ajustamento foi mal sucedido.
"Vê-se na evolução do emprego, na duração do desemprego e na incidência do desemprego", referiu Pedro Portugal. O economista referiu dados da OCDE para sustentar que Portugal é um dos países desenvolvidos com maior generosidade, uma "generosidade mal desenhada".
E mesmo depois das alterações ao regime de despedimento aprovados em 2012, "Portugal continua a ser o país da OCDE em que a legislação sobre despedimentos individuais é mais restritiva", afirmou, citando dados de 2013. "A protecção ao emprego tem um impacto sobre a natureza do mercado de trabalho: diminui a incidência de fluxos no desemprego mas aumenta a duração. Também tem um efeito de perda de produtividade", sustentou.
O outro lado desta moeda foi referido por Ricardo Pinheiro Alves, director do gabinete de estudos do ministério da Economia. Se é certo que Portugal pode dificultar, à luz das comparações internacionais, o despedimento individual, "facilita muito o despedimento colectivo. Pode ser de dois ou três trabalhadores. Esta legislação, qual o incentivo que dá? Em situações de crise é as empresas fazerem despedimentos colectivos para despedir duas ou três pessoas". "Estamos em último nos despedimentos individuais mas nos colectivos estamos para aí em 3º".A troika "tentou" mudar isso, mas não conseguiu, em parte devido às restrições constitucionais, referiu.
Ainda assim, Ricardo Pinheiro Alves subscreveu a crítica à rigidez do salário ao afirmar que acordos para a redução temporária de salários poderiam ter evitado algum desemprego. Se da parte de patrões e sindicatos "tivesse havido uma intervenção mais activa – de temporariamente reduzirem os salários – não tinha havido tanto desemprego", considerou.
Carvalho da Silva, o terceiro dos oradores nesta conferência, considerou que a questão não se pode colocar desta maneira. "Dizem que os trabalhadores, se puderem perder uma perna em vez de perder a vida, perdem a perna. Agora, o conceito de salário não é isto", referiu.
Durante o programa de ajustamento, e em particular com a reforma de 2012, o anterior Governo flexibilizou os critérios de escolha no despedimento por extinção de posto de trabalho, reduziu as futuras compensações tanto dos despedimentos individuais como colectivos, reduziu quatro feriados e três dias de férias, reduziu o valor a pagar por horas extraordinárias e introduziu o chamado "banco de horas" (que na prática flexibiliza os horários, reduzindo o custo por horas extraordinárias) por negociação individual. Esta última medida será revogada pelo Governo, numa altura em que o Parlamento já aprovou, na generalidade, a reposição dos feriados.
Reforma gerou transferência de três mil milhões de euros por ano
O balanço de Carvalho da Silva foi igualmente crítico, mas com base numa argumentação totalmente diferente. O investigador do Centro de Estudos Sociais (CES), que foi secretário-geral da CGTP ao longo de mais de duas décadas, as alterações laborais traduziram-se, essencialmente, numa transferência de rendimentos do trabalho para o capital.
"O emprego diminuiu quantitativamente e qualitativamente em relação a áreas muito significativas. E nada justifica isso. Muitas das alterações que foram introduzidas visaram apenas alterações de poder e de rendimentos. Calculamos que o somatório das alterações legislativas produziram como efeito que em cada ano se transferiram 3 mil milhões de euros que estavam do lado do factor trabalho para o lado do factor capital", disse, citando as conclusões do Centro de Estudos Sociais. E com transferência de riqueza houve transferência de poderes", sustentou.
A duração do desemprego e os indicadores sobre a “rigidez” ao nível dos salários e do despedimento individual provam que o ajustamento no mercado de trabalho não foi bem sucedido, sustenta Pedro Portugal.
Portugal até foi "relativamente bem sucedido" ao nível do ajustamento orçamental e financeiro, mas o ajustamento ao nível do mercado de trabalho "foi uma tragédia", na análise de Pedro Portugal, professor da Universidade Nova e investigador na área da economia do trabalho.
"O ajustamento correu razoavelmente bem na parte financeira e nos reequilíbrios externos, no controle orçamental, mas do ponto de vista orçamental foi uma tragédia", afirmou, num debate sobre "O mercado de trabalho", incluído nas conferências "Economia Viva", organizado pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.
Na opinião do investigador do departamento de estudos económicos do Banco de Portugal, a intensidade e a duração dos períodos de desemprego, os tempos de duração do subsídio de desemprego – que chega a ser superior do que o período de descontos, por depender da idade, sustenta – são provas de que o ajustamento foi mal sucedido.
"Vê-se na evolução do emprego, na duração do desemprego e na incidência do desemprego", referiu Pedro Portugal. O economista referiu dados da OCDE para sustentar que Portugal é um dos países desenvolvidos com maior generosidade, uma "generosidade mal desenhada".
E mesmo depois das alterações ao regime de despedimento aprovados em 2012, "Portugal continua a ser o país da OCDE em que a legislação sobre despedimentos individuais é mais restritiva", afirmou, citando dados de 2013. "A protecção ao emprego tem um impacto sobre a natureza do mercado de trabalho: diminui a incidência de fluxos no desemprego mas aumenta a duração. Também tem um efeito de perda de produtividade", sustentou.
O outro lado desta moeda foi referido por Ricardo Pinheiro Alves, director do gabinete de estudos do ministério da Economia. Se é certo que Portugal pode dificultar, à luz das comparações internacionais, o despedimento individual, "facilita muito o despedimento colectivo. Pode ser de dois ou três trabalhadores. Esta legislação, qual o incentivo que dá? Em situações de crise é as empresas fazerem despedimentos colectivos para despedir duas ou três pessoas". "Estamos em último nos despedimentos individuais mas nos colectivos estamos para aí em 3º".A troika "tentou" mudar isso, mas não conseguiu, em parte devido às restrições constitucionais, referiu.
Ainda assim, Ricardo Pinheiro Alves subscreveu a crítica à rigidez do salário ao afirmar que acordos para a redução temporária de salários poderiam ter evitado algum desemprego. Se da parte de patrões e sindicatos "tivesse havido uma intervenção mais activa – de temporariamente reduzirem os salários – não tinha havido tanto desemprego", considerou.
Carvalho da Silva, o terceiro dos oradores nesta conferência, considerou que a questão não se pode colocar desta maneira. "Dizem que os trabalhadores, se puderem perder uma perna em vez de perder a vida, perdem a perna. Agora, o conceito de salário não é isto", referiu.
Durante o programa de ajustamento, e em particular com a reforma de 2012, o anterior Governo flexibilizou os critérios de escolha no despedimento por extinção de posto de trabalho, reduziu as futuras compensações tanto dos despedimentos individuais como colectivos, reduziu quatro feriados e três dias de férias, reduziu o valor a pagar por horas extraordinárias e introduziu o chamado "banco de horas" (que na prática flexibiliza os horários, reduzindo o custo por horas extraordinárias) por negociação individual. Esta última medida será revogada pelo Governo, numa altura em que o Parlamento já aprovou, na generalidade, a reposição dos feriados.
Reforma gerou transferência de três mil milhões de euros por ano
O balanço de Carvalho da Silva foi igualmente crítico, mas com base numa argumentação totalmente diferente. O investigador do Centro de Estudos Sociais (CES), que foi secretário-geral da CGTP ao longo de mais de duas décadas, as alterações laborais traduziram-se, essencialmente, numa transferência de rendimentos do trabalho para o capital.
"O emprego diminuiu quantitativamente e qualitativamente em relação a áreas muito significativas. E nada justifica isso. Muitas das alterações que foram introduzidas visaram apenas alterações de poder e de rendimentos. Calculamos que o somatório das alterações legislativas produziram como efeito que em cada ano se transferiram 3 mil milhões de euros que estavam do lado do factor trabalho para o lado do factor capital", disse, citando as conclusões do Centro de Estudos Sociais. E com transferência de riqueza houve transferência de poderes", sustentou.
28.1.16
Mercado de trabalho na agenda das reuniões com a troika
Márcia Galrão, in Económico on-line
Reuniões de hoje com o ministério de Vieira da Silva centraram-se no mercado de trabalho, combate à pobreza, pensões e prestações sociais.
Mercado de trabalho na agenda das reuniões com a troika
As reuniões técnicas que os membros da troika mantiveram durante o dia de hoje com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social estão a centrar-se sobretudo nas questões relativas ao mercado de trabalho e combate à pobreza, mas também sobre pensões e prestações sociais.
Segundo apurou o Diário Económico, a busca de soluções para problemas e preocupações que são comuns aos vários Estados-membro da zona euro, tais como o desemprego jovem e de longa duração ou a exclusão social e o combate à pobreza estão no centro da discussão.
Sendo esta avaliação da troika, a terceira depois do fim do resgate, destinada sobretudo a fazer um 'follow-up' das recomendações deixadas a Portugal em Julho de 2015, o ministério de Vieira da Silva usará como bandeira a reposição dos valores de referência do Complemento Solidário para Idosos e do Rendimento Social de Inserção, medidas tomadas já por este Governo. recorde-se que uma das recomendações dos peritos internacionais tinha sido precisamente que se empregassem esforços no sentido de “uma cobertura adequada da protecção social, nomeadamente do regime de rendimento mínimo”.
Reuniões de hoje com o ministério de Vieira da Silva centraram-se no mercado de trabalho, combate à pobreza, pensões e prestações sociais.
Mercado de trabalho na agenda das reuniões com a troika
As reuniões técnicas que os membros da troika mantiveram durante o dia de hoje com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social estão a centrar-se sobretudo nas questões relativas ao mercado de trabalho e combate à pobreza, mas também sobre pensões e prestações sociais.
Segundo apurou o Diário Económico, a busca de soluções para problemas e preocupações que são comuns aos vários Estados-membro da zona euro, tais como o desemprego jovem e de longa duração ou a exclusão social e o combate à pobreza estão no centro da discussão.
Sendo esta avaliação da troika, a terceira depois do fim do resgate, destinada sobretudo a fazer um 'follow-up' das recomendações deixadas a Portugal em Julho de 2015, o ministério de Vieira da Silva usará como bandeira a reposição dos valores de referência do Complemento Solidário para Idosos e do Rendimento Social de Inserção, medidas tomadas já por este Governo. recorde-se que uma das recomendações dos peritos internacionais tinha sido precisamente que se empregassem esforços no sentido de “uma cobertura adequada da protecção social, nomeadamente do regime de rendimento mínimo”.
7.8.15
Portugal tem "almofada" financeira de 15,9 mil milhões
in Jornal de Notícias
O Fundo Monetário Internacional recomendou que Portugal mantenha "uma almofada financeira ampla", uma vez que as necessidades de financiamento de médio prazo "continuam elevadas".
No relatório divulgado esta quinta-feira, relativo à segunda missão de monitorização pós-programa, que teve lugar de 4 a 12 de junho, o FMI afirma que "as condições de financiamento pioraram desde março", embora considere que "continuam geríveis".
A instituição liderada por Christine Lagarde recorda que Portugal já executou três quartos das emissões de dívida previstas para 2015, que as recompras de dívida de curto prazo ajudaram a suavizar o perfil de amortização de dívida e que as autoridades portuguesas tinham em maio uma almofada financeira de 15,9 mil milhões de euros, "suficiente para cobrir as necessidades de financiamento até março de 2016".
Para o Fundo, "vai ser essencial manter a credibilidade política para assegurar condições de financiamento favoráveis", apontando a Grécia como um fator de risco a ter em conta.
"Com o aumento da volatilidade dos mercados financeiros no contexto dos desenvolvimentos na Grécia, é crucial garantir que os investidores continuam confiantes nas políticas económicas", adverte o FMI, destacando ainda que esta maior volatilidade "implica riscos significativos em torno do plano de financiamento inicial".
Além da Grécia, a instituição identifica o elevado 'stock' de dívida pública, privada e externa como "uma fonte de vulnerabilidade".
Por isso, a instituição reitera que Portugal deve "continuar a reter uma almofada financeira ampla para manter a flexibilidade na implementação do seu programa de financiamento".
Na resposta, o Governo disse estar confiante de que Portugal está isolado de qualquer volatilidade de curto prazo relacionada com a Grécia e que a almofada financeira do país "é suficiente para navegar com sucesso a turbulência de curto prazo do mercado", reiterando que o ajustamento orçamental e as reformas adotadas "reforçaram tanto a credibilidade dos investidores como a resiliência da economia".
Além disso, o executivo de Pedro Passos Coelho garantiu ao FMI que pretende "manter uma almofada suficiente para cobrir pelo menos seis meses de necessidades brutas de financiamento numa base contínua até 2017".
O Fundo Monetário Internacional recomendou que Portugal mantenha "uma almofada financeira ampla", uma vez que as necessidades de financiamento de médio prazo "continuam elevadas".
No relatório divulgado esta quinta-feira, relativo à segunda missão de monitorização pós-programa, que teve lugar de 4 a 12 de junho, o FMI afirma que "as condições de financiamento pioraram desde março", embora considere que "continuam geríveis".
A instituição liderada por Christine Lagarde recorda que Portugal já executou três quartos das emissões de dívida previstas para 2015, que as recompras de dívida de curto prazo ajudaram a suavizar o perfil de amortização de dívida e que as autoridades portuguesas tinham em maio uma almofada financeira de 15,9 mil milhões de euros, "suficiente para cobrir as necessidades de financiamento até março de 2016".
Para o Fundo, "vai ser essencial manter a credibilidade política para assegurar condições de financiamento favoráveis", apontando a Grécia como um fator de risco a ter em conta.
"Com o aumento da volatilidade dos mercados financeiros no contexto dos desenvolvimentos na Grécia, é crucial garantir que os investidores continuam confiantes nas políticas económicas", adverte o FMI, destacando ainda que esta maior volatilidade "implica riscos significativos em torno do plano de financiamento inicial".
Além da Grécia, a instituição identifica o elevado 'stock' de dívida pública, privada e externa como "uma fonte de vulnerabilidade".
Por isso, a instituição reitera que Portugal deve "continuar a reter uma almofada financeira ampla para manter a flexibilidade na implementação do seu programa de financiamento".
Na resposta, o Governo disse estar confiante de que Portugal está isolado de qualquer volatilidade de curto prazo relacionada com a Grécia e que a almofada financeira do país "é suficiente para navegar com sucesso a turbulência de curto prazo do mercado", reiterando que o ajustamento orçamental e as reformas adotadas "reforçaram tanto a credibilidade dos investidores como a resiliência da economia".
Além disso, o executivo de Pedro Passos Coelho garantiu ao FMI que pretende "manter uma almofada suficiente para cobrir pelo menos seis meses de necessidades brutas de financiamento numa base contínua até 2017".
1.7.15
Gregos começam a perder a esperança. “Nós já não estamos no euro”
por Catarina Fernandes Martins, em Atenas, RR
País já entrou em incumprimento perante os credores e os cidadãos de Atenas não conseguem prever as consequências do referendo de domingo, vença o “sim” ou o “não”.
Os gregos já não conseguem levantar os 60 euros permitidos por dia. As notas nas caixas de levantamento de dinheiro (ATM) começam a rarear e a população receia, cada vez mais, o regresso ao dracma.
A Grécia entrou formalmente em incumprimento perante o Fundo Monetário Internacional (FMI) na noite de terça-feira. Esta quarta-feira, em Atenas, já se sente a preocupação nas ruas.
Perto da Praça Syntagma, cerca de 10, 15 pessoas fazem fila num ATM. Um olhar mais aproximado revela o seu desespero. "Nós já não estamos no euro", diz-se.
A incerteza é grande: os gregos não sabem o que vai acontecer, repetem, "Votar para quê? Nós não sabemos qual é a consequência do 'sim', qual é a consequência do 'não'".
Os cidadãos da capital grega não conseguem prever o que vai acontecer em qualquer um dos cenários que saia do referendo de domingo, que quer decidir se o país aceita as propostas feitas na semana passada pelos credores internacionais e o governo de Alexis Tsipras rejeitou.
O Governo encerrou os bancos e impôs um controlo de capitais desde segunda-feira e durante uma semana, permitindo um levantamento diário máximo de 60 euros para a população. Só no passado fim-de-semana foram retirados dos bancos gregos 1,3 mil milhões de euros na sequência do aprofundamento da crise política.
Os turistas não são afectados pela medida e podem levantar com os seus cartões, emitidos no estrangeiro, somas mais elevadas. Em comunicado, o Ministério do Turismo, responsável por uma indústria decisiva para a entrada de divisas e que dá emprego a muitos gregos, garantiu que o fornecimento de combustível está assegurado, à semelhança de todos os produtos e serviços "para que as férias dos turistas não sejam perturbadas em qualquer região do país, nas ilhas ou na Grécia continental".
Em paralelo, foi anunciado que todos os transportes públicos, incluindo o metro, serão gratuitos enquanto forem aplicadas estas medidas de excepção.
Algumas agências seleccionadas abriram portas esta quarta-feira para permitir aos reformados levantar parte das pensões, cerca de 100 euros e não muito mais.
A Grécia falhou o pagamento de 1, 6 mil milhões de euros ao FMI na terça-feira e entrou em incumprimento. Pede agora mais tempo aos credores. Esta quarta-feira está marcada mais uma reunião que pode ser decisiva para uma solução que permita manter o país na Zona Euro.
País já entrou em incumprimento perante os credores e os cidadãos de Atenas não conseguem prever as consequências do referendo de domingo, vença o “sim” ou o “não”.
Os gregos já não conseguem levantar os 60 euros permitidos por dia. As notas nas caixas de levantamento de dinheiro (ATM) começam a rarear e a população receia, cada vez mais, o regresso ao dracma.
A Grécia entrou formalmente em incumprimento perante o Fundo Monetário Internacional (FMI) na noite de terça-feira. Esta quarta-feira, em Atenas, já se sente a preocupação nas ruas.
Perto da Praça Syntagma, cerca de 10, 15 pessoas fazem fila num ATM. Um olhar mais aproximado revela o seu desespero. "Nós já não estamos no euro", diz-se.
A incerteza é grande: os gregos não sabem o que vai acontecer, repetem, "Votar para quê? Nós não sabemos qual é a consequência do 'sim', qual é a consequência do 'não'".
Os cidadãos da capital grega não conseguem prever o que vai acontecer em qualquer um dos cenários que saia do referendo de domingo, que quer decidir se o país aceita as propostas feitas na semana passada pelos credores internacionais e o governo de Alexis Tsipras rejeitou.
O Governo encerrou os bancos e impôs um controlo de capitais desde segunda-feira e durante uma semana, permitindo um levantamento diário máximo de 60 euros para a população. Só no passado fim-de-semana foram retirados dos bancos gregos 1,3 mil milhões de euros na sequência do aprofundamento da crise política.
Os turistas não são afectados pela medida e podem levantar com os seus cartões, emitidos no estrangeiro, somas mais elevadas. Em comunicado, o Ministério do Turismo, responsável por uma indústria decisiva para a entrada de divisas e que dá emprego a muitos gregos, garantiu que o fornecimento de combustível está assegurado, à semelhança de todos os produtos e serviços "para que as férias dos turistas não sejam perturbadas em qualquer região do país, nas ilhas ou na Grécia continental".
Em paralelo, foi anunciado que todos os transportes públicos, incluindo o metro, serão gratuitos enquanto forem aplicadas estas medidas de excepção.
Algumas agências seleccionadas abriram portas esta quarta-feira para permitir aos reformados levantar parte das pensões, cerca de 100 euros e não muito mais.
A Grécia falhou o pagamento de 1, 6 mil milhões de euros ao FMI na terça-feira e entrou em incumprimento. Pede agora mais tempo aos credores. Esta quarta-feira está marcada mais uma reunião que pode ser decisiva para uma solução que permita manter o país na Zona Euro.
A teoria de Krugman e Stiglitz. Os gregos devem votar "não" no referendo
in Diário de Notícias
A teoria de Krugman e Stiglitz. Os gregos devem votar "não" no referendo
Os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ambos distinguidos com o prémio Nobel, consideram que só sem mais medidas de austeridade os gregos podem ter esperança no futuro.
No artigo de opinião de hoje no The New York Times, Paul Krugman escreve que "a Grécia deve votar 'não' e o Governo grego deve estar preparado, se necessário, para sair do euro", argumentando que é verdade que o executivo grego "estava a gastar acima das suas possibilidades no final dos anos 2000" mas que "desde então cortou repetidamente a despesa e aumentou impostos".
"O emprego público caiu mais de 25% e as pensões (que eram de facto demasiado generosas) têm sido cortadas abruptamente. Se a isto se somarem todas as medidas de austeridade, fizeram mais do que o suficiente para eliminar o défice e passarem a ter um amplo excedente", nota Krugman.
A explicação para que a correção não se tenha verificado na Grécia é que "a economia grega colapsou, muito devido às muitas medidas de austeridade, que afundaram as receitas" do Estado, defende o economista norte-americano, acrescentando que este colapso "esteve muito ligado ao euro, que amarrou a Grécia num colete-de-forças económico".
Krugman aponta três razões para que os gregos votem "não" no referendo: "após cinco anos [de duras medidas de austeridade], a Grécia está pior do que nunca", "o tão temido caos gerado por um 'Grexit' [saída da Grécia da zona euro] já aconteceu", ou seja, os bancos estão fechados e foram impostos controlos de capital e, finalmente, "ceder ao ultimato da 'troika' iria representar o abandono final de qualquer pretensão de independência grega".
O Nobel da Economia de 2008 deixa mesmo um apelo aos gregos: "Não se deixem levar pelos que dizem que os oficiais da 'troika' são só tecnocratas a explicar aos gregos ignorantes o que tem de ser feito. Estes pretensos tecnocratas são, de facto, fantasistas, que desconsideraram tudo o que sabemos sobre macroeconomia e estiveram sempre errados. Isto não é sobre análise, é sobre poder - o poder dos credores para dispararem sobre a economia grega, que vai persistir enquanto a saída do euro for considerada impensável".
Para Krugman, "é tempo de pôr fim" a esta visão de que sair do euro é impensável ou então "a Grécia vai confrontar-se com uma austeridade interminável e com uma depressão sem solução e sem fim".
Também Joseph Stiglitz, que foi distinguido com o Prémio Nobel da Economia em 2001, assina hoje um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian, intitulado "Como eu votaria no referendo grego".
Stiglitz reconhece que "nenhuma alternativa - aprovação ou rejeição dos termos da 'troika' - vai ser fácil e ambas implicam riscos" e sublinha que, se ganhar o "sim", isso vai significar "uma depressão quase sem fim".
"Talvez um país empobrecido - que vendeu todos os seus ativos e cujos jovens brilhantes emigraram - possa finalmente conseguir um perdão da dívida. Talvez transformando-se numa economia de rendimentos médios, a Grécia possa finalmente aceder à assistência do Banco Mundial. Tudo isto pode acontecer na próxima década ou talvez na década a seguir a essa", resume o economista ao retratar o futuro da Grécia, caso os gregos aceitem as condições que os credores internacionais estão a pedir.
Já num cenário em que os gregos votam "não" no referendo de 05 de julho, Stiglitz considera que isso "pelo menos ia abrir a possibilidade de a Grécia, com a sua forte tradição democrática, ter a oportunidade de decidir o seu destino por si".
"Os gregos podem ganhar a oportunidade de desenhar um futuro que, ainda que não seja tão próspero como no passado, é de longe mais esperançoso do que a tortura sem consciência do presente", reitera o economista.
A crise que opõe o Governo grego aos credores internacionais (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) assumiu um rumo inédito depois de o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ter anunciado na sexta-feira à noite a convocação de um referendo sobre o programa apresentado pelos credores para desbloquear ajuda financeira ao país.
No sábado, o Eurogrupo recusou-se a prolongar o programa de assistência financeira à Grécia que termina terça-feira, dia 30.
A Grécia, que enfrenta problemas de liquidez, arrisca-se a entrar em incumprimento, tendo de pagar até terça-feira à noite mais de 1,5 mil milhões de euros ao FMI.
A teoria de Krugman e Stiglitz. Os gregos devem votar "não" no referendo
Os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ambos distinguidos com o prémio Nobel, consideram que só sem mais medidas de austeridade os gregos podem ter esperança no futuro.
No artigo de opinião de hoje no The New York Times, Paul Krugman escreve que "a Grécia deve votar 'não' e o Governo grego deve estar preparado, se necessário, para sair do euro", argumentando que é verdade que o executivo grego "estava a gastar acima das suas possibilidades no final dos anos 2000" mas que "desde então cortou repetidamente a despesa e aumentou impostos".
"O emprego público caiu mais de 25% e as pensões (que eram de facto demasiado generosas) têm sido cortadas abruptamente. Se a isto se somarem todas as medidas de austeridade, fizeram mais do que o suficiente para eliminar o défice e passarem a ter um amplo excedente", nota Krugman.
A explicação para que a correção não se tenha verificado na Grécia é que "a economia grega colapsou, muito devido às muitas medidas de austeridade, que afundaram as receitas" do Estado, defende o economista norte-americano, acrescentando que este colapso "esteve muito ligado ao euro, que amarrou a Grécia num colete-de-forças económico".
Krugman aponta três razões para que os gregos votem "não" no referendo: "após cinco anos [de duras medidas de austeridade], a Grécia está pior do que nunca", "o tão temido caos gerado por um 'Grexit' [saída da Grécia da zona euro] já aconteceu", ou seja, os bancos estão fechados e foram impostos controlos de capital e, finalmente, "ceder ao ultimato da 'troika' iria representar o abandono final de qualquer pretensão de independência grega".
O Nobel da Economia de 2008 deixa mesmo um apelo aos gregos: "Não se deixem levar pelos que dizem que os oficiais da 'troika' são só tecnocratas a explicar aos gregos ignorantes o que tem de ser feito. Estes pretensos tecnocratas são, de facto, fantasistas, que desconsideraram tudo o que sabemos sobre macroeconomia e estiveram sempre errados. Isto não é sobre análise, é sobre poder - o poder dos credores para dispararem sobre a economia grega, que vai persistir enquanto a saída do euro for considerada impensável".
Para Krugman, "é tempo de pôr fim" a esta visão de que sair do euro é impensável ou então "a Grécia vai confrontar-se com uma austeridade interminável e com uma depressão sem solução e sem fim".
Também Joseph Stiglitz, que foi distinguido com o Prémio Nobel da Economia em 2001, assina hoje um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian, intitulado "Como eu votaria no referendo grego".
Stiglitz reconhece que "nenhuma alternativa - aprovação ou rejeição dos termos da 'troika' - vai ser fácil e ambas implicam riscos" e sublinha que, se ganhar o "sim", isso vai significar "uma depressão quase sem fim".
"Talvez um país empobrecido - que vendeu todos os seus ativos e cujos jovens brilhantes emigraram - possa finalmente conseguir um perdão da dívida. Talvez transformando-se numa economia de rendimentos médios, a Grécia possa finalmente aceder à assistência do Banco Mundial. Tudo isto pode acontecer na próxima década ou talvez na década a seguir a essa", resume o economista ao retratar o futuro da Grécia, caso os gregos aceitem as condições que os credores internacionais estão a pedir.
Já num cenário em que os gregos votam "não" no referendo de 05 de julho, Stiglitz considera que isso "pelo menos ia abrir a possibilidade de a Grécia, com a sua forte tradição democrática, ter a oportunidade de decidir o seu destino por si".
"Os gregos podem ganhar a oportunidade de desenhar um futuro que, ainda que não seja tão próspero como no passado, é de longe mais esperançoso do que a tortura sem consciência do presente", reitera o economista.
A crise que opõe o Governo grego aos credores internacionais (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) assumiu um rumo inédito depois de o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ter anunciado na sexta-feira à noite a convocação de um referendo sobre o programa apresentado pelos credores para desbloquear ajuda financeira ao país.
No sábado, o Eurogrupo recusou-se a prolongar o programa de assistência financeira à Grécia que termina terça-feira, dia 30.
A Grécia, que enfrenta problemas de liquidez, arrisca-se a entrar em incumprimento, tendo de pagar até terça-feira à noite mais de 1,5 mil milhões de euros ao FMI.
Alemanha ganha 41 mil milhões em juros com crise na zona euro
in iOnline
"A Alemanha está a ganhar qualquer coisa como 41 mil milhões de euros com a crise europeia graças à redução dos juros que lhe são cobrados." As conclusões são da revista alemã "Der Spiegel", que ontem fez eco de uma resposta do Ministério das Finanças alemão aos deputados locais, onde a real ideia de solidariedade de Berlim fica evidente: entre 2010 e 2014, com a sucessiva queda dos países europeus sob alçada da troika, os juros cobrados ao governo alemão caíram a pique, fazendo com que todas as previsões tenham saído furadas - mas neste caso os alemães até agradeceram.
Segundo a resposta dos responsáveis das finanças alemãs, Berlim vai poupar 40,9 mil milhões de euros (equivalente grosso modo a 25% do PIB português) em juros entre a despesa que tinha projectado de 2010 a 2014 e aquela em que realmente está a incorrer. Como exemplo veja-se que este ano os alemães projectavam um gasto de 40,6 mil milhões em juros e empréstimos, que afinal vão ficar-se pelos 31,6 mil milhões.
Este ganho não advém apenas da quebra dos juros cobrados às emissões de dívida da Alemanha - assustados pelo risco de outras economias europeias, os investidores passaram a emprestar dinheiro a um preço muito mais baixo aos alemães -, o ganho surge também devido à queda das próprias necessidades de financiamento alemãs. Ao contrário do que acontece na maior parte da zona euro, as contas públicas alemãs têm ganho durante a crise da Europa, já que o emprego, a indústria e as exportações estão a ganhar terreno no mercado europeu, aumentando as receitas fiscais do país.
A entrada de dinheiro nos cofres alemães cresceu em tal ordem que só entre 2010 e 2012 o governo local acabou por emitir menos 73 mil milhões de nova dívida do que esperava (valor que equivale a mais de 34% da dívida do Estado português).
Os valores avançados pelo governo de Angela Merkel ainda referem que a exposição de Berlim à dívida de curto prazo (mais cara que a de longo prazo) caiu neste período de 71% do total, para apenas 51%, com os alemães a aproveitarem o seu boom económico para mudar substancialmente o perfil da sua dívida.
Apesar de todos estes ganhos, nos números citados pela revista "Spiegel" não estão incluídos, por exemplo, os lucros da Alemanha com os empréstimos feitos à Grécia ou a Portugal, por exemplo. Ainda assim, diz o documento do ministério de Wolfgang Schaüble, até ao momento a crise europeia custou aos alemães 599 milhões de euros - isto quando Portugal vai pagar um total de 34,4 mil milhões de euros só em juros pelo empréstimo solidário da troika, ou seja, os 78 mil milhões da "ajuda" internacional vão custar 112,4 mil milhões aos contribuintes residentes em Portugal.
A economia alemã cresceu 0,7% no segundo trimestre deste ano, tendo alguns dos seus ganhos económicos ajudado parcialmente a conter a dimensão da crise nos outros países europeus, com o aumento das importações do país.
"A Alemanha está a ganhar qualquer coisa como 41 mil milhões de euros com a crise europeia graças à redução dos juros que lhe são cobrados." As conclusões são da revista alemã "Der Spiegel", que ontem fez eco de uma resposta do Ministério das Finanças alemão aos deputados locais, onde a real ideia de solidariedade de Berlim fica evidente: entre 2010 e 2014, com a sucessiva queda dos países europeus sob alçada da troika, os juros cobrados ao governo alemão caíram a pique, fazendo com que todas as previsões tenham saído furadas - mas neste caso os alemães até agradeceram.
Segundo a resposta dos responsáveis das finanças alemãs, Berlim vai poupar 40,9 mil milhões de euros (equivalente grosso modo a 25% do PIB português) em juros entre a despesa que tinha projectado de 2010 a 2014 e aquela em que realmente está a incorrer. Como exemplo veja-se que este ano os alemães projectavam um gasto de 40,6 mil milhões em juros e empréstimos, que afinal vão ficar-se pelos 31,6 mil milhões.
Este ganho não advém apenas da quebra dos juros cobrados às emissões de dívida da Alemanha - assustados pelo risco de outras economias europeias, os investidores passaram a emprestar dinheiro a um preço muito mais baixo aos alemães -, o ganho surge também devido à queda das próprias necessidades de financiamento alemãs. Ao contrário do que acontece na maior parte da zona euro, as contas públicas alemãs têm ganho durante a crise da Europa, já que o emprego, a indústria e as exportações estão a ganhar terreno no mercado europeu, aumentando as receitas fiscais do país.
A entrada de dinheiro nos cofres alemães cresceu em tal ordem que só entre 2010 e 2012 o governo local acabou por emitir menos 73 mil milhões de nova dívida do que esperava (valor que equivale a mais de 34% da dívida do Estado português).
Os valores avançados pelo governo de Angela Merkel ainda referem que a exposição de Berlim à dívida de curto prazo (mais cara que a de longo prazo) caiu neste período de 71% do total, para apenas 51%, com os alemães a aproveitarem o seu boom económico para mudar substancialmente o perfil da sua dívida.
Apesar de todos estes ganhos, nos números citados pela revista "Spiegel" não estão incluídos, por exemplo, os lucros da Alemanha com os empréstimos feitos à Grécia ou a Portugal, por exemplo. Ainda assim, diz o documento do ministério de Wolfgang Schaüble, até ao momento a crise europeia custou aos alemães 599 milhões de euros - isto quando Portugal vai pagar um total de 34,4 mil milhões de euros só em juros pelo empréstimo solidário da troika, ou seja, os 78 mil milhões da "ajuda" internacional vão custar 112,4 mil milhões aos contribuintes residentes em Portugal.
A economia alemã cresceu 0,7% no segundo trimestre deste ano, tendo alguns dos seus ganhos económicos ajudado parcialmente a conter a dimensão da crise nos outros países europeus, com o aumento das importações do país.
Uma estranha forma de solidariedade
José Cabrita Saraiva, in iOnline
Hoje em dia, quando penso nos gregos, não me lembro de Homero, Péricles ou Platão, mas sim de uma viagem que fiz em 2011. Foram 15 dias fantásticos passados em Atenas, Delfos, Corinto, Epidauro e algumas ilhas. Tudo correu lindamente, tirando dois ou três contratempos: quando nos cobraram seis euros por um iogurte; quando fomos enganados acerca da hora de chegada de um barco e nos vimos, às cinco da manhã, com um bebé num local desconhecido; ou quando pagámos 50 euros por uma pescada num restaurante manhoso. A Grécia é um país belíssimo, mas fiquei com a impressão de que muitos gregos são machistas, brutamontes e exploradores.
Ainda assim, é preciso dizer que nenhum povo merece passar por aquilo que os gregos terão de passar caso se concretize a saída do país do euro. Compreendo, por isso, perfeitamente a enorme onda de solidariedade que se tem gerado um pouco por toda a Europa. Um jovem britânico bem-intencionado chegou a lançar uma campanha de crowdfunding para pagar a dívida grega...
Mas o que significa exactamente a palavra solidariedade? Em português é um belo conceito que, à custa de tanto ser repetido, começa a perder conteúdo. Significa entreajuda, sacrificar-se pelo outro, cumprir o velho lema dos mosqueteiros: “Um por todos e todos por um.” Ou seja, implica uma ideia de reciprocidade.
Porém, talvez em grego a palavra queira dizer outra coisa qualquer. Por um lado, parece ser um eufemismo para “financiem o nosso modo de vida” – ou seja, uma solidariedade de sentido único. Por outro lado, Alexis Tsipras já deixou bem claro: “Fiquem a saber que, se cairmos no abismo, tudo faremos para vos arrastarmos connosco.” Ao mesmo tempo que ameaçava isto, o primeiro-ministro grego ia negociando com a Rússia, para assustar (chantagear) a Europa. É uma estranha ideia de solidariedade, convenhamos.
Continuemos a falar desta palavra tão cara aos que tomam o partido dos gregos. Em 1985, a Grécia vetou a entrada de Portugal e da Espanha na CEE. Para aceitar a inclusão dos países ibéricos, exigiu um valor astronómico. Qual solidariedade, qual carapuça. E, só para aqueles que são mesmo muito esquecidos, recordemos que em 2011 os credores perdoaram à Grécia cerca de metade da sua dívida, no valor de 200 mil milhões de euros.
Há quem traga para o debate o legado dos filósofos, a invenção da democracia ou as atrocidades nazis para mostrar que a Europa é que está em dívida para com a Grécia, não o contrário. Ora, se se lembram tão bem do que aconteceu há 70 e até há 2500 anos, porque insistem em ignorar o que aconteceu em 1985 e em 2011? A memória, às vezes, prega-nos destas partidas.
Hoje em dia, quando penso nos gregos, não me lembro de Homero, Péricles ou Platão, mas sim de uma viagem que fiz em 2011. Foram 15 dias fantásticos passados em Atenas, Delfos, Corinto, Epidauro e algumas ilhas. Tudo correu lindamente, tirando dois ou três contratempos: quando nos cobraram seis euros por um iogurte; quando fomos enganados acerca da hora de chegada de um barco e nos vimos, às cinco da manhã, com um bebé num local desconhecido; ou quando pagámos 50 euros por uma pescada num restaurante manhoso. A Grécia é um país belíssimo, mas fiquei com a impressão de que muitos gregos são machistas, brutamontes e exploradores.
Ainda assim, é preciso dizer que nenhum povo merece passar por aquilo que os gregos terão de passar caso se concretize a saída do país do euro. Compreendo, por isso, perfeitamente a enorme onda de solidariedade que se tem gerado um pouco por toda a Europa. Um jovem britânico bem-intencionado chegou a lançar uma campanha de crowdfunding para pagar a dívida grega...
Mas o que significa exactamente a palavra solidariedade? Em português é um belo conceito que, à custa de tanto ser repetido, começa a perder conteúdo. Significa entreajuda, sacrificar-se pelo outro, cumprir o velho lema dos mosqueteiros: “Um por todos e todos por um.” Ou seja, implica uma ideia de reciprocidade.
Porém, talvez em grego a palavra queira dizer outra coisa qualquer. Por um lado, parece ser um eufemismo para “financiem o nosso modo de vida” – ou seja, uma solidariedade de sentido único. Por outro lado, Alexis Tsipras já deixou bem claro: “Fiquem a saber que, se cairmos no abismo, tudo faremos para vos arrastarmos connosco.” Ao mesmo tempo que ameaçava isto, o primeiro-ministro grego ia negociando com a Rússia, para assustar (chantagear) a Europa. É uma estranha ideia de solidariedade, convenhamos.
Continuemos a falar desta palavra tão cara aos que tomam o partido dos gregos. Em 1985, a Grécia vetou a entrada de Portugal e da Espanha na CEE. Para aceitar a inclusão dos países ibéricos, exigiu um valor astronómico. Qual solidariedade, qual carapuça. E, só para aqueles que são mesmo muito esquecidos, recordemos que em 2011 os credores perdoaram à Grécia cerca de metade da sua dívida, no valor de 200 mil milhões de euros.
Há quem traga para o debate o legado dos filósofos, a invenção da democracia ou as atrocidades nazis para mostrar que a Europa é que está em dívida para com a Grécia, não o contrário. Ora, se se lembram tão bem do que aconteceu há 70 e até há 2500 anos, porque insistem em ignorar o que aconteceu em 1985 e em 2011? A memória, às vezes, prega-nos destas partidas.
Nada será como dantes
Rui Bebiano, in o Observatório da Grécia
Foram grandes as expectativas criadas em Portugal com a vitória do Syriza nas eleições do passado Janeiro. A direita no governo, apoiada por uma maioria dos órgãos de comunicação transformada em caixa-de-ressonância, rapidamente desenhou os piores cenários, considerando-a um erro de avaliação da parte dos gregos – obviamente entendidos como crianças grandes, politicamente menorizadas –, e antevendo, como consequência, o incumprimento do pagamento da dívida, tal como a saída da Grécia do euro ou mesmo da União Europeia. Ao mesmo tempo, um sobressalto transversal foi partilhado pela quase totalidade da esquerda e do centro-esquerda, traduzido numa visível simpatia pelo novo governo de Atenas e por alguns dos seus protagonistas, bem como num apoio expresso ou tácito às suas escolhas.
Foi assim que alguns militantes e dirigentes do Partido Socialista, bem como muitos dos seus simpatizantes e presumíveis votantes, exultaram publicamente com aquela vitória, embora, como era de esperar, desde o início outros a temessem ou rejeitassem de forma liminar. Foi assim que o PCP, sem apoiar expressamente o Syriza, se eximiu de o criticar, ao contrário daquilo que, como é sabido, tem feito o KKE, o Partido Comunista da Grécia, que o combate por lhe atribuir um papel de mera «muleta do capitalismo». Foi assim também que a nossa «esquerda da esquerda» apoiou incondicionalmente a experiência grega, assumindo como suas as suas escolhas, por muito que algumas delas, em particular aquelas que têm privilegiado os fatores de unidade e de moderação, sejam estranhas às suas opções políticas internas.
Aquilo que ninguém nesta área política fez foi, porém, prever a forte possibilidade da experiência grega falhar, suscitando uma onda de choque capaz de mergulhar no desânimo e de deixar sem um vislumbre de saída otimista, quem, por um exercício de vontade, numa primeira fase participou dessa exaltação quase unanimista. À hora a que escrevo ninguém poderá, é um facto, salvo se enveredar por um inútil exercício de adivinhação, traçar o desfecho desta etapa dramática da história da Grécia. Mas uma coisa é certa: todos, cá e lá, estamos a experimentar um banho de realismo, uma vez que poucas coisas aconteceram como o previsto. Um banho cujos efeitos na nossa perceção da coisa pública – e da relação da esquerda com a conquista e o exercício do poder na Europa de hoje – se encontra ainda por avaliar.
A dimensão do recuo do Syriza, tal como a das fraturas que por esse motivo este irá inevitavelmente conhecer, é ainda desconhecida. Como o é a capacidade do povo grego para conservar nas circunstâncias presentes o seu capital de esperança. Mas uma coisa é segura: uma vez mais está a ficar provado que não é possível moldar o curso da história apenas por um exercício de vontade ou com recurso a gestos de bravura. O que força sempre a procurar novas vias para reduzir os danos e evitar o pior, agregando forças de forma aberta e criativa com base no que é prioritário para a vida das pessoas e dos Estados. Governar a direito, essencialmente a régua e esquadro e na rejeição da democracia, tentaram-no Hitler ou Estaline, com os resultados que se conhecem. Só ao estabelecer consensos, unindo o que houver a unir, se poderá conhecer o modo de evitá-lo. Neste domínio o Syriza tem sido exemplar. Pelo menos até agora.
Foram grandes as expectativas criadas em Portugal com a vitória do Syriza nas eleições do passado Janeiro. A direita no governo, apoiada por uma maioria dos órgãos de comunicação transformada em caixa-de-ressonância, rapidamente desenhou os piores cenários, considerando-a um erro de avaliação da parte dos gregos – obviamente entendidos como crianças grandes, politicamente menorizadas –, e antevendo, como consequência, o incumprimento do pagamento da dívida, tal como a saída da Grécia do euro ou mesmo da União Europeia. Ao mesmo tempo, um sobressalto transversal foi partilhado pela quase totalidade da esquerda e do centro-esquerda, traduzido numa visível simpatia pelo novo governo de Atenas e por alguns dos seus protagonistas, bem como num apoio expresso ou tácito às suas escolhas.
Foi assim que alguns militantes e dirigentes do Partido Socialista, bem como muitos dos seus simpatizantes e presumíveis votantes, exultaram publicamente com aquela vitória, embora, como era de esperar, desde o início outros a temessem ou rejeitassem de forma liminar. Foi assim que o PCP, sem apoiar expressamente o Syriza, se eximiu de o criticar, ao contrário daquilo que, como é sabido, tem feito o KKE, o Partido Comunista da Grécia, que o combate por lhe atribuir um papel de mera «muleta do capitalismo». Foi assim também que a nossa «esquerda da esquerda» apoiou incondicionalmente a experiência grega, assumindo como suas as suas escolhas, por muito que algumas delas, em particular aquelas que têm privilegiado os fatores de unidade e de moderação, sejam estranhas às suas opções políticas internas.
Aquilo que ninguém nesta área política fez foi, porém, prever a forte possibilidade da experiência grega falhar, suscitando uma onda de choque capaz de mergulhar no desânimo e de deixar sem um vislumbre de saída otimista, quem, por um exercício de vontade, numa primeira fase participou dessa exaltação quase unanimista. À hora a que escrevo ninguém poderá, é um facto, salvo se enveredar por um inútil exercício de adivinhação, traçar o desfecho desta etapa dramática da história da Grécia. Mas uma coisa é certa: todos, cá e lá, estamos a experimentar um banho de realismo, uma vez que poucas coisas aconteceram como o previsto. Um banho cujos efeitos na nossa perceção da coisa pública – e da relação da esquerda com a conquista e o exercício do poder na Europa de hoje – se encontra ainda por avaliar.
A dimensão do recuo do Syriza, tal como a das fraturas que por esse motivo este irá inevitavelmente conhecer, é ainda desconhecida. Como o é a capacidade do povo grego para conservar nas circunstâncias presentes o seu capital de esperança. Mas uma coisa é segura: uma vez mais está a ficar provado que não é possível moldar o curso da história apenas por um exercício de vontade ou com recurso a gestos de bravura. O que força sempre a procurar novas vias para reduzir os danos e evitar o pior, agregando forças de forma aberta e criativa com base no que é prioritário para a vida das pessoas e dos Estados. Governar a direito, essencialmente a régua e esquadro e na rejeição da democracia, tentaram-no Hitler ou Estaline, com os resultados que se conhecem. Só ao estabelecer consensos, unindo o que houver a unir, se poderá conhecer o modo de evitá-lo. Neste domínio o Syriza tem sido exemplar. Pelo menos até agora.
22.6.15
Portugal foi o país intervencionado que mais 'tirou' aos pobres
in Notícias ao Minuto
Portugal foi o país intervencionado que mais 'tirou' aos pobres Famílias com rendimentos baixos sofreram “consideráveis perdas”. Portugal cortou mais do que todos os países alvos de ajuda externa.
As famílias pobres foram mais atingidas por cortes em Portugal do que na Grécia e na Irlanda. Esta é a conclusão de um estudo da OCDE sobre medidas dos governos de dez países, durante um período de cinco anos.
“As famílias de baixos rendimentos enfrentaram consideráveis perdas em Portugal devido aos cortes na assistência social”, diz a OCDE no relatório, concluindo que, entre 2008 e 2013, os agregados familiares que ganham menos de metade do rendimento médio português perderam 8% da sua riqueza.
O corte de rendimento entre os pobres em Portugal é o maior da lista, ultrapassando a Grécia, Irlanda, Estónia, Islândia, Espanha, Reino Unido, Alemanha, França e Estados Unidos.
A classe média também foi afetada, principalmente devido ao “brutal aumento de impostos”. Apenas Islândia e Irlanda ‘tiraram’ mais rendimento a quem ganha um salário dentro da média.
Portugal foi o país intervencionado que mais 'tirou' aos pobres Famílias com rendimentos baixos sofreram “consideráveis perdas”. Portugal cortou mais do que todos os países alvos de ajuda externa.
As famílias pobres foram mais atingidas por cortes em Portugal do que na Grécia e na Irlanda. Esta é a conclusão de um estudo da OCDE sobre medidas dos governos de dez países, durante um período de cinco anos.
“As famílias de baixos rendimentos enfrentaram consideráveis perdas em Portugal devido aos cortes na assistência social”, diz a OCDE no relatório, concluindo que, entre 2008 e 2013, os agregados familiares que ganham menos de metade do rendimento médio português perderam 8% da sua riqueza.
O corte de rendimento entre os pobres em Portugal é o maior da lista, ultrapassando a Grécia, Irlanda, Estónia, Islândia, Espanha, Reino Unido, Alemanha, França e Estados Unidos.
A classe média também foi afetada, principalmente devido ao “brutal aumento de impostos”. Apenas Islândia e Irlanda ‘tiraram’ mais rendimento a quem ganha um salário dentro da média.
Por que razão Ana diz que pobreza não se mede só com números?
Andreia Sanches, in Público on-line
Projecto tem como objectivo acompanhar um grupo de pessoas em “situação de vulnerabilidade” entre 2011 e 2020. Resultados intercalares são publicados em livro nesta segunda-feira. O que diz quem participa?
Estamos no final do almoço, sábado quente de Junho, mesa posta numa varanda da zona do Intendente, em Lisboa. Ana, 48 anos, ganha 460 euros por mês, paga uma renda de 200 e precisa, para comer, de recorrer a um banco alimentar. Explica assim, em pouca palavras, por que razão faz sentido para ela participar num estudo sobre pobreza que não contabiliza apenas os pobres que existem, e o dinheiro com que vivem, mas que acompanha um grupo deles ao longo de anos e lhes dá voz: “Estatísticas há muitas.”
Neste grupo, há ex-sem-abrigo, famílias com trabalho mas salário curto, reformados com pensões mínimas, doentes crónicos, desempregados, todos, tecnicamente, em “situação de vulnerabilidade”. A equipa do Barómetro do Observatório da Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, responsável pelo dito estudo, convidou-os para este almoço porque o livro com a análise das entrevistas que lhes foram feitas em 2014 vai ser lançado nesta segunda-feira, em Lisboa. Os investigadores acharam que Ana, mas também Luís, Isabel, António, Helena e outros que foram entrevistados deviam ser os primeiros a folheá-lo.
“Márcia? Como Márcia? Eu sou a Isabel Maria!” — é a reacção de Isabel, desempregada, 58 anos, quando folheia a publicação de capa cinzenta. Faz rir todos ao redor da mesa comprida. Os investigadores usaram na obra nomes fictícios para proteger a identidade dos entrevistados. Mas Márcia diz que nada tem a esconder. “O meu nome é Isabel”, insiste. E ri-se muito quando dá com uma citação sua nas páginas impressas. Perguntavam-lhe na altura sobre os cursos de formação que tinha feito já como desempregada. E ela respondia: “Já tirei uns três. Mas foi dar em nada, e só para dizer que tenho aquilo no currículo. Fiz recursos humanos, eventos e Excel. Foi através do centro de emprego. E fiz pela DECO o ‘Vamos deitar contas à vida’, para uma pessoa aprender a orientar-se. Este veio através da assistente social.” Isabel Maria — perdão, Márcia no livro — continua desempregada.
Em Novembro, o PÚBLICO divulgou os primeiros resultados deste trabalho do Dinâmia — Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território/Instituto Universitário de Lisboa, feito em parceria com o Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, e que agora será editado, na sua versão final, com o título Evolução na Continuidade, pela EAPN Portugal /Rede Europeia Anti-Pobreza.
Das 57 pessoas que em 2011, por diferentes razões, viviam uma situação de vulnerabilidade social e que tinham sido, pela primeira vez, entrevistadas pelos investigadores deste projecto, apenas duas tinham saído da situação de pobreza na segunda leva de conversas, em 2014. Tinham arranjado um trabalho que permitia à família ter um rendimento de mais de mil euros.
Na generalidade dos casos, contudo, sublinhava-se, a situação de vulnerabilidade dos entrevistados piorara.
Para Sérgio Aires, que dirige o Observatório em Lisboa, “não se podendo extrapolar os dados obtidos para o resto do país”, o que se passa “em muitas cidades portuguesas, como Setúbal, Porto, Braga ou Faro” não será diferente do que se encontra em Lisboa. Acrescenta Jardim Moreira, presidente da EAPN Portugal, no prefácio: este estudo “reflecte o desenvolvimento do país nos últimos três anos onde, como se verificou, a austeridade tem como impacto: o aumento das dificuldades das pessoas em situação de pobreza e o aumento do número de pobres; as insuficientes dos factores de inserção no mercado de trabalho; as incapacidades das políticas sociais.”
Luís de 73 anos, diz que a crise se traduziu na vida dele num corte de 35 euros por mês na pensão: “Para quem recebia 430 euros, 35 euros faz muita diferença, mas isso os políticos não sabem. Quando me falaram de participar neste estudo achei muito interessante. Mas vai ficar no papel. Sou um bocadinho cínico, sabe? Os políticos usam a pobreza como estandarte mas não sabem nada dela. Vão pegar neste livro e pôr numa prateleira.”
Luís não é o único a queixar-se de cortes: segundo o estudo, 26 dos entrevistados relataram ter visto apoios como o Rendimento Social de Inserção ou o Complemento Solidário para Idosos reduzir-se ou acabar entre 2011 e 2014. Na mesa, almoço terminado, cafés a chegar, quase todos acham o mesmo que ele: “Se alguém se desse ao trabalho de ler o que nós dizemos [no livro] ia ser útil... mas não sei”, diz António, 56 anos, operador de grua.
Ninguém, contudo, esconde um certo orgulho por poder contribuir para um livro destes, “uma coisa séria”, como alguém diz ao almoço. Haverá mais entrevistas até 2020, quando se prevê que o projecto chegue ao fim.
Para já, Ana conta que deixou de se sentir pobre como dantes. Como assim, pergunta-lhe o conviva do lado, com um ar céptico, quase crítico? Pois se ela ainda recorre ao banco alimentar... Pois se o dinheiro não lhe chega... Ana sorri. É que, lá está, a pobreza não é só uma questão de números: “Eu considerava-me uma pessoa pobre monetariamente e de espírito.” Entre 2011 e 2014 os problemas de saúde de que sofria agravaram-se, não tinha emprego, vivia muitos conflitos em casa, os filhos já trabalhavam mas não ajudavam nada e continuavam lá, ela era vítima de violência do marido. “Mas agora separei-me do meu marido. Trabalho como assistente de hospital, ainda na semana passada tive de pedir dinheiro para uma bilha de gás... mas vivo sozinha, tenho trabalho, tenho tecto.” Diz que já não se sente “pobre de espírito” e que isso é meio caminho andado para o resto.
O projecto em resumo
— Em 2011, 74 pessoas foram escolhidas para integrar o Barómetro do Observatório da Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa. O grupo incluia diferentes “perfis de vulnerabilidade”. Foram todos entrevistados por uma equipa coordenada pela socióloga Sónia Costa.
— Em 2014, nova ronda de entrevistas. Foral localizadas 57 dos entrevistados iniciais (algumas tinham morrido, outras emigrado outras não foi possível localizar). Muitos (17) eram “trabalhadores pobres” e 10 estavam incapacitados para o trabalho por motivos de doença.
— Objectivo: voltar aos mesmo painel de três em três anos. Nova ronda de entrevistas está prevista para 2017 e depois em 2020. Sempre com as mesmas pessoas.
— Recomendações: o livro que hoje será apresentado em Lisboa, com a participação do pelo economista Carlos Farinha Rodrigues, deixa várias. Dois exemplos: há que “aprofundar mecanismos de acompanhamento personalizado, nomeadamente no âmbito de medidas de política pública relacionadas com a inserção profisisonal” e “assegurar o acesso à habitação dos mais vulneráveis, através, entre outros, do alargamento da oferta de habitação municipal”.
Projecto tem como objectivo acompanhar um grupo de pessoas em “situação de vulnerabilidade” entre 2011 e 2020. Resultados intercalares são publicados em livro nesta segunda-feira. O que diz quem participa?
Estamos no final do almoço, sábado quente de Junho, mesa posta numa varanda da zona do Intendente, em Lisboa. Ana, 48 anos, ganha 460 euros por mês, paga uma renda de 200 e precisa, para comer, de recorrer a um banco alimentar. Explica assim, em pouca palavras, por que razão faz sentido para ela participar num estudo sobre pobreza que não contabiliza apenas os pobres que existem, e o dinheiro com que vivem, mas que acompanha um grupo deles ao longo de anos e lhes dá voz: “Estatísticas há muitas.”
Neste grupo, há ex-sem-abrigo, famílias com trabalho mas salário curto, reformados com pensões mínimas, doentes crónicos, desempregados, todos, tecnicamente, em “situação de vulnerabilidade”. A equipa do Barómetro do Observatório da Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, responsável pelo dito estudo, convidou-os para este almoço porque o livro com a análise das entrevistas que lhes foram feitas em 2014 vai ser lançado nesta segunda-feira, em Lisboa. Os investigadores acharam que Ana, mas também Luís, Isabel, António, Helena e outros que foram entrevistados deviam ser os primeiros a folheá-lo.
“Márcia? Como Márcia? Eu sou a Isabel Maria!” — é a reacção de Isabel, desempregada, 58 anos, quando folheia a publicação de capa cinzenta. Faz rir todos ao redor da mesa comprida. Os investigadores usaram na obra nomes fictícios para proteger a identidade dos entrevistados. Mas Márcia diz que nada tem a esconder. “O meu nome é Isabel”, insiste. E ri-se muito quando dá com uma citação sua nas páginas impressas. Perguntavam-lhe na altura sobre os cursos de formação que tinha feito já como desempregada. E ela respondia: “Já tirei uns três. Mas foi dar em nada, e só para dizer que tenho aquilo no currículo. Fiz recursos humanos, eventos e Excel. Foi através do centro de emprego. E fiz pela DECO o ‘Vamos deitar contas à vida’, para uma pessoa aprender a orientar-se. Este veio através da assistente social.” Isabel Maria — perdão, Márcia no livro — continua desempregada.
Em Novembro, o PÚBLICO divulgou os primeiros resultados deste trabalho do Dinâmia — Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território/Instituto Universitário de Lisboa, feito em parceria com o Observatório de Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa, e que agora será editado, na sua versão final, com o título Evolução na Continuidade, pela EAPN Portugal /Rede Europeia Anti-Pobreza.
Das 57 pessoas que em 2011, por diferentes razões, viviam uma situação de vulnerabilidade social e que tinham sido, pela primeira vez, entrevistadas pelos investigadores deste projecto, apenas duas tinham saído da situação de pobreza na segunda leva de conversas, em 2014. Tinham arranjado um trabalho que permitia à família ter um rendimento de mais de mil euros.
Na generalidade dos casos, contudo, sublinhava-se, a situação de vulnerabilidade dos entrevistados piorara.
Para Sérgio Aires, que dirige o Observatório em Lisboa, “não se podendo extrapolar os dados obtidos para o resto do país”, o que se passa “em muitas cidades portuguesas, como Setúbal, Porto, Braga ou Faro” não será diferente do que se encontra em Lisboa. Acrescenta Jardim Moreira, presidente da EAPN Portugal, no prefácio: este estudo “reflecte o desenvolvimento do país nos últimos três anos onde, como se verificou, a austeridade tem como impacto: o aumento das dificuldades das pessoas em situação de pobreza e o aumento do número de pobres; as insuficientes dos factores de inserção no mercado de trabalho; as incapacidades das políticas sociais.”
Luís de 73 anos, diz que a crise se traduziu na vida dele num corte de 35 euros por mês na pensão: “Para quem recebia 430 euros, 35 euros faz muita diferença, mas isso os políticos não sabem. Quando me falaram de participar neste estudo achei muito interessante. Mas vai ficar no papel. Sou um bocadinho cínico, sabe? Os políticos usam a pobreza como estandarte mas não sabem nada dela. Vão pegar neste livro e pôr numa prateleira.”
Luís não é o único a queixar-se de cortes: segundo o estudo, 26 dos entrevistados relataram ter visto apoios como o Rendimento Social de Inserção ou o Complemento Solidário para Idosos reduzir-se ou acabar entre 2011 e 2014. Na mesa, almoço terminado, cafés a chegar, quase todos acham o mesmo que ele: “Se alguém se desse ao trabalho de ler o que nós dizemos [no livro] ia ser útil... mas não sei”, diz António, 56 anos, operador de grua.
Ninguém, contudo, esconde um certo orgulho por poder contribuir para um livro destes, “uma coisa séria”, como alguém diz ao almoço. Haverá mais entrevistas até 2020, quando se prevê que o projecto chegue ao fim.
Para já, Ana conta que deixou de se sentir pobre como dantes. Como assim, pergunta-lhe o conviva do lado, com um ar céptico, quase crítico? Pois se ela ainda recorre ao banco alimentar... Pois se o dinheiro não lhe chega... Ana sorri. É que, lá está, a pobreza não é só uma questão de números: “Eu considerava-me uma pessoa pobre monetariamente e de espírito.” Entre 2011 e 2014 os problemas de saúde de que sofria agravaram-se, não tinha emprego, vivia muitos conflitos em casa, os filhos já trabalhavam mas não ajudavam nada e continuavam lá, ela era vítima de violência do marido. “Mas agora separei-me do meu marido. Trabalho como assistente de hospital, ainda na semana passada tive de pedir dinheiro para uma bilha de gás... mas vivo sozinha, tenho trabalho, tenho tecto.” Diz que já não se sente “pobre de espírito” e que isso é meio caminho andado para o resto.
O projecto em resumo
— Em 2011, 74 pessoas foram escolhidas para integrar o Barómetro do Observatório da Luta Contra a Pobreza na Cidade de Lisboa. O grupo incluia diferentes “perfis de vulnerabilidade”. Foram todos entrevistados por uma equipa coordenada pela socióloga Sónia Costa.
— Em 2014, nova ronda de entrevistas. Foral localizadas 57 dos entrevistados iniciais (algumas tinham morrido, outras emigrado outras não foi possível localizar). Muitos (17) eram “trabalhadores pobres” e 10 estavam incapacitados para o trabalho por motivos de doença.
— Objectivo: voltar aos mesmo painel de três em três anos. Nova ronda de entrevistas está prevista para 2017 e depois em 2020. Sempre com as mesmas pessoas.
— Recomendações: o livro que hoje será apresentado em Lisboa, com a participação do pelo economista Carlos Farinha Rodrigues, deixa várias. Dois exemplos: há que “aprofundar mecanismos de acompanhamento personalizado, nomeadamente no âmbito de medidas de política pública relacionadas com a inserção profisisonal” e “assegurar o acesso à habitação dos mais vulneráveis, através, entre outros, do alargamento da oferta de habitação municipal”.
26.5.15
E se os programas da troika tiverem sido mal desenhados?
in Expresso
O economista italiano, Tito Boeri, acredita que sim. Pelo menos, na parte do mercado de trabalho. O FMI e a Comissão Europeia discordam. O debate decorreu hoje no Fórum do BCE em Sintra
O impacto das medidas dirigidas ao mercado de trabalho depende fortemente do momento em que são feitas. Timing, em termos de ciclo económico, é palavra de ordem quando fazem reformas laborais. E há uma série de medidas que não devem ser tomadas quando a economia está em recessão. Mas isso aconteceu na Grécia e também em Portugal. Quem o diz é Tito Boeri, economista italiano da universidade de Bocconi em Milão que abriu os trabalhos de hoje do Fórum do BCE, e gerou enorme debate entre os participantes.
Entre outras coisas, Boeri analisou a dinâmica do mercado de trabalho na zona euro e levantou algumas dúvidas sobre a resposta dos programas da austeridade que foram aplicados e também sobre a forma de resolver o elevado desemprego que persiste em alguns países. A ideia base, que serve tanto para a Grécia ou Portugal, como para outros países que não tiveram resgates internacionais, é que o efeito das reformas não é sempre o mesmo e, em tempo de recessão, há medidas que podem ser contraproducentes.
É o que acontece, por exemplo, com alterações do subsídio de desemprego: “A proteção no desemprego deve ter em conta a elasticidade entre o subsidio e o desemprego e, em recessão, esta é menor bem, assim como o risco moral”. Traduzindo do ‘economês’, tentar incentivar o regresso ao mercado de trabalho de desempregados através da redução do subsídio (seja em montante, seja em duração) pode não funcionar quando a economia está recessão. Simplesmente porque, em muitos casos, não há postos de trabalho suficientes para absorver estes trabalhadores.
Isto verifica-se, por exemplo, em países com recessões prolongadas como Portugal onde há uma parte significativa dos desempregados sem subsídio – cerca de dois terços -, muitos dos quais ficam longos períodos nesta situação e, nem por isso, conseguem regressar ao mercado. Boeri chamou mesmo a algumas destas medidas como “má condicionalidade”, numa alusão às medidas impostas pela troika nos países resgatados, precisamente por não terem em conta o timing do ciclo económico.
Desacordo na sala
Uma das críticas a esta posição, a começar pelo economista francês Giles Saint-Paul que foi o comentador da apresentação, é que a situação destes países não era normal, não havia acesso a financiamento normal no mercado e, por isso, a margem de atuação era mais reduzia. Boeri deu como o exemplo o caso grego onde o desemprego disparou de 9,4% em 2009 para mais de 27% em 2014. Em janeiro, o último mês disponível do Eurostat, estava em 25,7%.
O caso grego, tinha sublinhado no entanto Boeri, foi o resultado da recessão já que, pelas suas contas, o agravamento da taxa esteve em linha com o efeito esperado de acordo com a chamada lei de Okun que relacionada crescimento e desemprego.
Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) que faz parte da troika que desenhou o programa grego, fez uma intervenção da assistência onde lembrou que várias das medidas usadas na Grécia, em termos de mercado de trabalho, tiveram mais a ver com a necessidade de ter resultados de curto prazo do que propriamente por uma estratégia de fundo. Lembrou ainda que, naquela altura, não houve tempo para discutir questões mais estruturais relacionadas com as instituições gregas que, segundo Boeri, têm um papel importante.
Também Marco Buti, igualmente italiano e diretor-geral de Assuntos Económicos e Financeiros da Comissão Europeia, defendeu a sua ‘dama’ – leia-se os programas de ajustamento aplicados na zona euro e, em particular, na Grécia– com a urgência de atuar num momento em que os países estavam sob forte pressão.
Uma outra solução defendida por Tito Boeri foi um sistema de “contrato igual, que não é igual a um contrato único”, e que serviria para dar flexibilidade e segurança, em simultâneo, transferindo parte do pagamento de eventuais indemnizações por despedimento para o nível europeu.
E sublinhou também que a própria idade de reforma deve poder variar consoante o momento do ciclo económico – porque pode funcionar como amortecedor – desde que, em contrapartida, a sustentabilidade do sistema de pensões esteja assegurada e seja transparente. “Todos os países devem avaliar a sustentabilidade dos sistemas de pensões.”
O economista italiano, Tito Boeri, acredita que sim. Pelo menos, na parte do mercado de trabalho. O FMI e a Comissão Europeia discordam. O debate decorreu hoje no Fórum do BCE em Sintra
O impacto das medidas dirigidas ao mercado de trabalho depende fortemente do momento em que são feitas. Timing, em termos de ciclo económico, é palavra de ordem quando fazem reformas laborais. E há uma série de medidas que não devem ser tomadas quando a economia está em recessão. Mas isso aconteceu na Grécia e também em Portugal. Quem o diz é Tito Boeri, economista italiano da universidade de Bocconi em Milão que abriu os trabalhos de hoje do Fórum do BCE, e gerou enorme debate entre os participantes.
Entre outras coisas, Boeri analisou a dinâmica do mercado de trabalho na zona euro e levantou algumas dúvidas sobre a resposta dos programas da austeridade que foram aplicados e também sobre a forma de resolver o elevado desemprego que persiste em alguns países. A ideia base, que serve tanto para a Grécia ou Portugal, como para outros países que não tiveram resgates internacionais, é que o efeito das reformas não é sempre o mesmo e, em tempo de recessão, há medidas que podem ser contraproducentes.
É o que acontece, por exemplo, com alterações do subsídio de desemprego: “A proteção no desemprego deve ter em conta a elasticidade entre o subsidio e o desemprego e, em recessão, esta é menor bem, assim como o risco moral”. Traduzindo do ‘economês’, tentar incentivar o regresso ao mercado de trabalho de desempregados através da redução do subsídio (seja em montante, seja em duração) pode não funcionar quando a economia está recessão. Simplesmente porque, em muitos casos, não há postos de trabalho suficientes para absorver estes trabalhadores.
Isto verifica-se, por exemplo, em países com recessões prolongadas como Portugal onde há uma parte significativa dos desempregados sem subsídio – cerca de dois terços -, muitos dos quais ficam longos períodos nesta situação e, nem por isso, conseguem regressar ao mercado. Boeri chamou mesmo a algumas destas medidas como “má condicionalidade”, numa alusão às medidas impostas pela troika nos países resgatados, precisamente por não terem em conta o timing do ciclo económico.
Desacordo na sala
Uma das críticas a esta posição, a começar pelo economista francês Giles Saint-Paul que foi o comentador da apresentação, é que a situação destes países não era normal, não havia acesso a financiamento normal no mercado e, por isso, a margem de atuação era mais reduzia. Boeri deu como o exemplo o caso grego onde o desemprego disparou de 9,4% em 2009 para mais de 27% em 2014. Em janeiro, o último mês disponível do Eurostat, estava em 25,7%.
O caso grego, tinha sublinhado no entanto Boeri, foi o resultado da recessão já que, pelas suas contas, o agravamento da taxa esteve em linha com o efeito esperado de acordo com a chamada lei de Okun que relacionada crescimento e desemprego.
Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI) que faz parte da troika que desenhou o programa grego, fez uma intervenção da assistência onde lembrou que várias das medidas usadas na Grécia, em termos de mercado de trabalho, tiveram mais a ver com a necessidade de ter resultados de curto prazo do que propriamente por uma estratégia de fundo. Lembrou ainda que, naquela altura, não houve tempo para discutir questões mais estruturais relacionadas com as instituições gregas que, segundo Boeri, têm um papel importante.
Também Marco Buti, igualmente italiano e diretor-geral de Assuntos Económicos e Financeiros da Comissão Europeia, defendeu a sua ‘dama’ – leia-se os programas de ajustamento aplicados na zona euro e, em particular, na Grécia– com a urgência de atuar num momento em que os países estavam sob forte pressão.
Uma outra solução defendida por Tito Boeri foi um sistema de “contrato igual, que não é igual a um contrato único”, e que serviria para dar flexibilidade e segurança, em simultâneo, transferindo parte do pagamento de eventuais indemnizações por despedimento para o nível europeu.
E sublinhou também que a própria idade de reforma deve poder variar consoante o momento do ciclo económico – porque pode funcionar como amortecedor – desde que, em contrapartida, a sustentabilidade do sistema de pensões esteja assegurada e seja transparente. “Todos os países devem avaliar a sustentabilidade dos sistemas de pensões.”
25.5.15
Troika: E depois do adeus?
João Madeira, in Sol
Portugal assinala este fim-de-semana a saída da troika. Um ano depois, o crescimento económico e a redução do desemprego são as diferenças mais visíveis, mas o desempenho está aquém dos programas anteriores. Em 1978 e 1985, Portugal livrou-se do FMI com o PIB a subir 6,2% e 1,6%.
Esforço de consolidação orçamental abrandou depois da saída da troika. Despesa e carga fiscal estão idênticas
Foi a 17 de Maio do ano passado que um dos períodos mais conturbados da economia portuguesa chegou ao fim. O programa de assistência financeira estabelecido com a troika terminou e desde então, apesar de continuar a haver técnicos estrangeiros a aterrar na Portela para avaliar o país, as decisões de política económica já só dependem do Palácio de São Bento.
O desempenho de Portugal depois da despedida foi ambíguo. A comparação de indicadores conhecidos no início deste ano face aos que o país apresentava na saída da troika mostra que o esforço de consolidação orçamental abrandou desde a despedida dos técnicos do FMI, da Comissão Europeia e do BCE. A despesa do Estado e a carga fiscal mantêm-se praticamente inalteradas, enquanto o défice diminuiu de forma ligeira e a dívida aumentou.
Do lado positivo, a economia voltou a respirar e o emprego melhorou desde a saída da troika: mais de 110 mil portugueses conseguiram sair das estatísticas do desemprego.
Só 0,9% de crescimento
Mas, num país que ficou sem moeda própria para levar a cabo ajustamentos económicos mais rápidos, a velocidade da recuperação económica é pouco robusta. Dos três programas de ajustamento do FMI que o país já teve desde a década de 70 do século XX, esta está a ser a mais lenta das retomas.
Em Maio de 1978, o FMI saiu de Portugal depois de um programa de ajustamento de um ano, após uma grave crise nas contas externas. Nesse ano, o país registou um crescimento de 6,2%. Em 1985, depois de um plano de estabilização da economia de um ano e meio imposto pelo FMI, o ritmo abrandou, mas ainda assim Portugal cresceu 1,6%.
O cenário actual está longe deste desempenho: Portugal cresceu 0,9% neste ano após a saída da troika, depois de uma quebra da actividade económica mais pronunciada do que nas décadas anteriores. Já nos primeiros três meses deste ano, o PIB cresceu 1,4% em termos homólogos.
«O desempenho dos dois primeiros programas foi muito melhor: no primeiro nem houve recessão e no segundo ela foi curta e leve. A recuperação económica e do emprego foi rápida, apesar dos níveis de inflação e o défice público se terem mantido altos», explica ao SOL Ana Bela Nunes, historiadora económica do ISEG que estudou os programas de ajustamento do FMI.
Os problemas de finais da década de 70 e da primeira metade dos anos 80 não eram muito diferentes dos actuais. Nos três casos houve desequilíbrios «negativos e muito elevados» na balança de pagamentos e nas contas públicas.
Foco 'excessivo' no défice
A principal diferença reside na moeda: nos primeiros programas Portugal ainda tinha o escudo e podia desvalorizá-lo para ganhar competitividade, o que permitiu obter resultados «rápidos e significativos». Sem a opção cambial, o processo actual «está a ser mais lento e penoso, pois o ajustamento teve de ser feito com austeridade e sem ilusão monetária», explica Ana Bela Nunes.
As inibições cambiais no actual programa fizeram com que as autoridades se tivessem concentrado de forma «excessiva» no controlo das contas públicas. «O programa partiu de premissas erradas, de pouco conhecimento da economia portuguesa, por isso foi mal calibrado».
Nos programas anteriores, a prioridade era combater o défice externo - as trocas com o exterior do país como um todo, e não apenas do Estado - já que o défice público poderia ser neutralizado pela emissão monetária do Banco de Portugal.
O desempenho desde a saída da troika, contudo, foi «objectivamente fraco». Ana Bela Nunes destaca que o desemprego está a sofrer ligeiras flutuações sazonais mas mantém-se bastante alto e que o crescimento é positivo, embora «muito insuficiente para reduzir o desemprego de forma sustentada».
O economista João César das Neves considera que o desempenho pós-troika foi «positivo mas ambíguo», com o país a obter um «sucesso relativo». Cresceu e conseguiu condições de funcionamento e financiamento mais favoráveis, mas deixou «ainda muito por resolver».
O docente da Católica entende que o colapso do Grupo Espírito Santo assinalou a falta de ajustamento que ainda persiste em largas áreas da economia, sobretudo nas mais próximas do Estado. O défice e a dívida pública permanecem «um grave problema».
César das Neves faz o paralelo com os programas anteriores: «As diferenças são muitas porque o país é hoje muito mais rico e mais complexo e também porque o endividamento desta vez foi (e é) muito maior. Mas, curiosamente, registam-se também semelhanças importantes. Nos dois primeiros programas também se verificou um ajustamento sobretudo privado, acompanhado por uma certa apatia pública. Aliás, nesses primeiros programas o défice público até subiu, não desceu».
Portugal assinala este fim-de-semana a saída da troika. Um ano depois, o crescimento económico e a redução do desemprego são as diferenças mais visíveis, mas o desempenho está aquém dos programas anteriores. Em 1978 e 1985, Portugal livrou-se do FMI com o PIB a subir 6,2% e 1,6%.
Esforço de consolidação orçamental abrandou depois da saída da troika. Despesa e carga fiscal estão idênticas
Foi a 17 de Maio do ano passado que um dos períodos mais conturbados da economia portuguesa chegou ao fim. O programa de assistência financeira estabelecido com a troika terminou e desde então, apesar de continuar a haver técnicos estrangeiros a aterrar na Portela para avaliar o país, as decisões de política económica já só dependem do Palácio de São Bento.
O desempenho de Portugal depois da despedida foi ambíguo. A comparação de indicadores conhecidos no início deste ano face aos que o país apresentava na saída da troika mostra que o esforço de consolidação orçamental abrandou desde a despedida dos técnicos do FMI, da Comissão Europeia e do BCE. A despesa do Estado e a carga fiscal mantêm-se praticamente inalteradas, enquanto o défice diminuiu de forma ligeira e a dívida aumentou.
Do lado positivo, a economia voltou a respirar e o emprego melhorou desde a saída da troika: mais de 110 mil portugueses conseguiram sair das estatísticas do desemprego.
Só 0,9% de crescimento
Mas, num país que ficou sem moeda própria para levar a cabo ajustamentos económicos mais rápidos, a velocidade da recuperação económica é pouco robusta. Dos três programas de ajustamento do FMI que o país já teve desde a década de 70 do século XX, esta está a ser a mais lenta das retomas.
Em Maio de 1978, o FMI saiu de Portugal depois de um programa de ajustamento de um ano, após uma grave crise nas contas externas. Nesse ano, o país registou um crescimento de 6,2%. Em 1985, depois de um plano de estabilização da economia de um ano e meio imposto pelo FMI, o ritmo abrandou, mas ainda assim Portugal cresceu 1,6%.
O cenário actual está longe deste desempenho: Portugal cresceu 0,9% neste ano após a saída da troika, depois de uma quebra da actividade económica mais pronunciada do que nas décadas anteriores. Já nos primeiros três meses deste ano, o PIB cresceu 1,4% em termos homólogos.
«O desempenho dos dois primeiros programas foi muito melhor: no primeiro nem houve recessão e no segundo ela foi curta e leve. A recuperação económica e do emprego foi rápida, apesar dos níveis de inflação e o défice público se terem mantido altos», explica ao SOL Ana Bela Nunes, historiadora económica do ISEG que estudou os programas de ajustamento do FMI.
Os problemas de finais da década de 70 e da primeira metade dos anos 80 não eram muito diferentes dos actuais. Nos três casos houve desequilíbrios «negativos e muito elevados» na balança de pagamentos e nas contas públicas.
Foco 'excessivo' no défice
A principal diferença reside na moeda: nos primeiros programas Portugal ainda tinha o escudo e podia desvalorizá-lo para ganhar competitividade, o que permitiu obter resultados «rápidos e significativos». Sem a opção cambial, o processo actual «está a ser mais lento e penoso, pois o ajustamento teve de ser feito com austeridade e sem ilusão monetária», explica Ana Bela Nunes.
As inibições cambiais no actual programa fizeram com que as autoridades se tivessem concentrado de forma «excessiva» no controlo das contas públicas. «O programa partiu de premissas erradas, de pouco conhecimento da economia portuguesa, por isso foi mal calibrado».
Nos programas anteriores, a prioridade era combater o défice externo - as trocas com o exterior do país como um todo, e não apenas do Estado - já que o défice público poderia ser neutralizado pela emissão monetária do Banco de Portugal.
O desempenho desde a saída da troika, contudo, foi «objectivamente fraco». Ana Bela Nunes destaca que o desemprego está a sofrer ligeiras flutuações sazonais mas mantém-se bastante alto e que o crescimento é positivo, embora «muito insuficiente para reduzir o desemprego de forma sustentada».
O economista João César das Neves considera que o desempenho pós-troika foi «positivo mas ambíguo», com o país a obter um «sucesso relativo». Cresceu e conseguiu condições de funcionamento e financiamento mais favoráveis, mas deixou «ainda muito por resolver».
O docente da Católica entende que o colapso do Grupo Espírito Santo assinalou a falta de ajustamento que ainda persiste em largas áreas da economia, sobretudo nas mais próximas do Estado. O défice e a dívida pública permanecem «um grave problema».
César das Neves faz o paralelo com os programas anteriores: «As diferenças são muitas porque o país é hoje muito mais rico e mais complexo e também porque o endividamento desta vez foi (e é) muito maior. Mas, curiosamente, registam-se também semelhanças importantes. Nos dois primeiros programas também se verificou um ajustamento sobretudo privado, acompanhado por uma certa apatia pública. Aliás, nesses primeiros programas o défice público até subiu, não desceu».
7.5.15
Mãe, posso voltar para casa? Levo mulher e filhos
Isabel Tavares, in onLine
São famílias três-em-um. Filhos que regressam a casa dos pais, muitas vezes com os seus filhos, num movimento contranatura
Podíamos chamar-lhes família Moulinex: todos na picadora e um, dois, três: avós, filhos e netos, tudo desfeito de uma vez só. É a família que sobra da austeridade, a família do pós-troika, reunida pela falta de dinheiro e de alternativas.
Isabel Casal Ribeiro faz parte de uma dessas famílias. A firma onde trabalhava desde sempre, das mais antigas do país, fechou portas em 2009. Decidiu não baixar os braços – “viver de subsídios não era solução e não está no meu feitio” – , por isso pôs mãos à obra e transformou o desemprego numa oportunidade.
Abriu um negócio próprio e contratou todos os ex-colegas do seu departamento, mesmo depois de o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) se ter recusado a dar-lhe à cabeça o dinheiro a que tinha direito, apenas porque não.
Fez-se sócia-gerente e o marido, Pedro, juntou-se ao negócio. Trabalhavam dia e noite, mas depressa conseguiram contratos internacionais e, em 2012, tinham até propostas de marcas clientes, multinacionais, para deslocalizar a sua produção na China, o que lhes valeria vendas de 2 milhões de euros.
O senão é que precisavam de máquinas mais modernas e isso significava um investimento demasiado pesado. Havia ainda a questão de ficarem períodos de tempo sem trabalho e as encomendas chegarem todas ao mesmo tempo, o que os punha a trabalhar, por curtos períodos, 24 sobre 24 horas. Além disso, “o material para satisfazer as encomendas tinha de ser pago a pronto, quando a empresa recebia a 90 dias”, lembra.
A firma, que exportava quase tudo o que produzia, acabou por fechar, com uma carteira de encomendas superior a 300 mil euros. Dezoito pessoas ficaram no desemprego devido a problemas de tesouraria.
Isabel ainda pediu apoio ao banco, ainda tentou candidatar-se a fundos comunitários, ainda pediu ajuda ao governo. Chegou tudo demasiado tarde. “Havia bancos a aplicar spreads de 10 por cento. O ministro da Economia [Álvaro Santos Pereira] disse que havia um gabinete de apoio e protecção às PME, mas nunca chegámos lá. As linhas de financiamento eram para esquecer e o QREN [Quadro de Referência Estratégica Nacional] deixava de fora as empresas de Lisboa”, conta.
Depois foi o efeito de dominó. Tudo ruiu à sua volta e da sua família. Isabel e Pedro Casal Ribeiro não tiveram direito a qualquer subsídio ou ajuda por terem ficado sem emprego, apesar de terem todos os impostos em dia e de ambos descontarem para a Segurança Social. Tentaram em vão, numa época em que só se ouvia falar de cortes.
O dinheiro começou a escassear. Isabel continuou a responder a anúncios e a procurar, “desesperada”, um emprego. Sem êxito. Pedro também. As perspectivas eram nulas e adivinhava-se que a taxa de desemprego atingiria os 18 por cento em Portugal. “Os miúdos saídos da faculdade não conseguiam emprego, mesmo com mestrados e doutoramentos. Como é que eu, sem um curso superior e com mais de 40, ou o meu marido, quase 20 anos mais velho, iríamos sobreviver?”
O que tanto temiam acabou por acontecer. “As contas começaram a chegar, e nós a desesperar. Fomos pedindo dinheiro à família enquanto isso foi possível. Eu vendi ouros e dobrões, até que já não tinha mais nada.”
A casa tinha sido comprada com carência de amortização do capital. Nos primeiros dois anos apenas pagavam juros e, só a partir de então, a prestação mensal respectiva. Era “agora que ia começar a doer”. A primeira coisa de que se desfizeram foi dos carros. Primeiro um, depois outro. “Tentámos renegociar o empréstimo à habitação com o banco, mas acabámos por ter de deixar a casa”, uma moradia com jardim em Sintra, perto do local onde tinham a empresa.
A seguir foi sempre a descer. “As pessoas não têm ideia.” Ou têm, porque “encontrávamos muita gente na nossa situação e, se isso não nos tornava mais felizes, fazia com que nos sentíssemos um tanto acompanhados”.
Tudo pareciam obstáculos. Isabel e Pedro Casal Ribeiro têm dois filhos, agora com 19 e 22 anos. O mais velho, Frederico, estava doente e a precisar de médicos. Mariana entrou em crise. Para trás ficaram ainda dois gatos e um cão, o “ai-jesus” de Mariana.
A solução foi ir viver para casa dos sogros de Isabel, pais de Pedro. Uma vivenda no Estoril com um grande jardim. “Mas animais, nem pensar!” É difícil para pessoas com mais de 90 anos, habituadas a uma rotina, mudar de vida assim de repente. Os gatos ainda foram metidos, à socapa. O cão, um rafeiro arraçado de Labrador, acabou em casa de amigos.
Quem é que pediu ajuda? “Isso deve ter sido o mais difícil de tudo, admitir que, sozinhos, já não conseguíamos. O Pedro demorou até perceber e foi preciso engolir muito orgulho.”
Isabel, Pedro, Frederico e Mariana Casal Ribeiro tiveram sorte no meio do azar. A família acolheu-os e a casa onde moram agora é independente da dos sogros/ pais/avós. Vivem no rés-do-chão/cave que era parte do rendimento dos pais de Pedro, alugado a turistas no Verão.
Pedro sofreu, sentiu-se falhado. Era ele o homem da família, a quem – acredita – competia proteger e sustentar mulher e filhos. Além disso, Pedro e Isabel têm irmãos, dois de um lado, três do outro. Alguns deles, também a passar por dificuldades financeiras. Porquê ajudar uns e não outros, perguntavam-se.
Os pais de Pedro viram a sua vida mudar. Ainda que independentes, não é a mesma coisa morar em casa dos pais ou ter casa própria. Mas há amigos que estão a viver debaixo do mesmo tecto: avós, filhos e netos. Partilham zangas, discussões, “metem-se” na vida uns dos outros, opinam, “às vezes, já não se podem nem ver”. Muitas vezes, o ódio toma o lugar do amor.
Nesta família, apesar de tudo, as coisas correm bem. Mas já houve amuos, ingerências. “Coisas, às vezes, sem querer, até sem importância, mas que acabam por magoar, por serem exacerbadas pela situação de dependência em que estamos, em que nos sentimos. Estamos mais fragilizados”, diz Isabel.
Todos sentem falta de poder brincar, de se distrair, “fazer uma avaria, ir a um cinema, beber um copo sem nos sentirmos culpados”, explicam.
“É difícil para todos.” Frederico e Mariana concordam. Ele guarda tudo, diz que compreende tudo, mas quis deixar os estudos para poder ajudar os pais nas despesas. Ela extravasa, fica nervosa, não consegue concentrar-se nas aulas, tem más notas e lamenta ter perdido tudo. Os dois revoltados, cada um à sua maneira. “Tiraram-nos tudo”, diz Mariana. “Como é possível fazerem isto a pessoas que sempre fizeram o que era certo?”, questiona.
Os pais, primeiro, teimaram, explicaram a importância de um curso superior, de uma licenciatura. Mas acabaram vencidos. Os dois filhos enveredaram por cursos técnico-profissionais. Frederico já está a trabalhar e recebe os maiores elogios. Pode ser que volte para a escola mais tarde.
Mariana ficou doente e desistiu do curso. E foi na procura de ajuda para a filha que Isabel encontrou um emprego. Trabalha que se farta e ganha muito abaixo do salário mínimo. De tal forma que, volta e meia, é Frederico quem se oferece para ajudar nas compras.
Chega a casa depois das oito e meia da noite, “sem cabeça para nada”. Pedro também não desiste e, como tantos, procura ganhar em comissões. De tudo o que aparece. Pouco a pouco, as coisas parecem estar a recompor-se. Excepto quando tudo parece voltar para trás, tudo parece demasiado. Isabel, às vezes, ainda chora. Às vezes, choram todos.
São famílias três-em-um. Filhos que regressam a casa dos pais, muitas vezes com os seus filhos, num movimento contranatura
Podíamos chamar-lhes família Moulinex: todos na picadora e um, dois, três: avós, filhos e netos, tudo desfeito de uma vez só. É a família que sobra da austeridade, a família do pós-troika, reunida pela falta de dinheiro e de alternativas.
Isabel Casal Ribeiro faz parte de uma dessas famílias. A firma onde trabalhava desde sempre, das mais antigas do país, fechou portas em 2009. Decidiu não baixar os braços – “viver de subsídios não era solução e não está no meu feitio” – , por isso pôs mãos à obra e transformou o desemprego numa oportunidade.
Abriu um negócio próprio e contratou todos os ex-colegas do seu departamento, mesmo depois de o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) se ter recusado a dar-lhe à cabeça o dinheiro a que tinha direito, apenas porque não.
Fez-se sócia-gerente e o marido, Pedro, juntou-se ao negócio. Trabalhavam dia e noite, mas depressa conseguiram contratos internacionais e, em 2012, tinham até propostas de marcas clientes, multinacionais, para deslocalizar a sua produção na China, o que lhes valeria vendas de 2 milhões de euros.
O senão é que precisavam de máquinas mais modernas e isso significava um investimento demasiado pesado. Havia ainda a questão de ficarem períodos de tempo sem trabalho e as encomendas chegarem todas ao mesmo tempo, o que os punha a trabalhar, por curtos períodos, 24 sobre 24 horas. Além disso, “o material para satisfazer as encomendas tinha de ser pago a pronto, quando a empresa recebia a 90 dias”, lembra.
A firma, que exportava quase tudo o que produzia, acabou por fechar, com uma carteira de encomendas superior a 300 mil euros. Dezoito pessoas ficaram no desemprego devido a problemas de tesouraria.
Isabel ainda pediu apoio ao banco, ainda tentou candidatar-se a fundos comunitários, ainda pediu ajuda ao governo. Chegou tudo demasiado tarde. “Havia bancos a aplicar spreads de 10 por cento. O ministro da Economia [Álvaro Santos Pereira] disse que havia um gabinete de apoio e protecção às PME, mas nunca chegámos lá. As linhas de financiamento eram para esquecer e o QREN [Quadro de Referência Estratégica Nacional] deixava de fora as empresas de Lisboa”, conta.
Depois foi o efeito de dominó. Tudo ruiu à sua volta e da sua família. Isabel e Pedro Casal Ribeiro não tiveram direito a qualquer subsídio ou ajuda por terem ficado sem emprego, apesar de terem todos os impostos em dia e de ambos descontarem para a Segurança Social. Tentaram em vão, numa época em que só se ouvia falar de cortes.
O dinheiro começou a escassear. Isabel continuou a responder a anúncios e a procurar, “desesperada”, um emprego. Sem êxito. Pedro também. As perspectivas eram nulas e adivinhava-se que a taxa de desemprego atingiria os 18 por cento em Portugal. “Os miúdos saídos da faculdade não conseguiam emprego, mesmo com mestrados e doutoramentos. Como é que eu, sem um curso superior e com mais de 40, ou o meu marido, quase 20 anos mais velho, iríamos sobreviver?”
O que tanto temiam acabou por acontecer. “As contas começaram a chegar, e nós a desesperar. Fomos pedindo dinheiro à família enquanto isso foi possível. Eu vendi ouros e dobrões, até que já não tinha mais nada.”
A casa tinha sido comprada com carência de amortização do capital. Nos primeiros dois anos apenas pagavam juros e, só a partir de então, a prestação mensal respectiva. Era “agora que ia começar a doer”. A primeira coisa de que se desfizeram foi dos carros. Primeiro um, depois outro. “Tentámos renegociar o empréstimo à habitação com o banco, mas acabámos por ter de deixar a casa”, uma moradia com jardim em Sintra, perto do local onde tinham a empresa.
A seguir foi sempre a descer. “As pessoas não têm ideia.” Ou têm, porque “encontrávamos muita gente na nossa situação e, se isso não nos tornava mais felizes, fazia com que nos sentíssemos um tanto acompanhados”.
Tudo pareciam obstáculos. Isabel e Pedro Casal Ribeiro têm dois filhos, agora com 19 e 22 anos. O mais velho, Frederico, estava doente e a precisar de médicos. Mariana entrou em crise. Para trás ficaram ainda dois gatos e um cão, o “ai-jesus” de Mariana.
A solução foi ir viver para casa dos sogros de Isabel, pais de Pedro. Uma vivenda no Estoril com um grande jardim. “Mas animais, nem pensar!” É difícil para pessoas com mais de 90 anos, habituadas a uma rotina, mudar de vida assim de repente. Os gatos ainda foram metidos, à socapa. O cão, um rafeiro arraçado de Labrador, acabou em casa de amigos.
Quem é que pediu ajuda? “Isso deve ter sido o mais difícil de tudo, admitir que, sozinhos, já não conseguíamos. O Pedro demorou até perceber e foi preciso engolir muito orgulho.”
Isabel, Pedro, Frederico e Mariana Casal Ribeiro tiveram sorte no meio do azar. A família acolheu-os e a casa onde moram agora é independente da dos sogros/ pais/avós. Vivem no rés-do-chão/cave que era parte do rendimento dos pais de Pedro, alugado a turistas no Verão.
Pedro sofreu, sentiu-se falhado. Era ele o homem da família, a quem – acredita – competia proteger e sustentar mulher e filhos. Além disso, Pedro e Isabel têm irmãos, dois de um lado, três do outro. Alguns deles, também a passar por dificuldades financeiras. Porquê ajudar uns e não outros, perguntavam-se.
Os pais de Pedro viram a sua vida mudar. Ainda que independentes, não é a mesma coisa morar em casa dos pais ou ter casa própria. Mas há amigos que estão a viver debaixo do mesmo tecto: avós, filhos e netos. Partilham zangas, discussões, “metem-se” na vida uns dos outros, opinam, “às vezes, já não se podem nem ver”. Muitas vezes, o ódio toma o lugar do amor.
Nesta família, apesar de tudo, as coisas correm bem. Mas já houve amuos, ingerências. “Coisas, às vezes, sem querer, até sem importância, mas que acabam por magoar, por serem exacerbadas pela situação de dependência em que estamos, em que nos sentimos. Estamos mais fragilizados”, diz Isabel.
Todos sentem falta de poder brincar, de se distrair, “fazer uma avaria, ir a um cinema, beber um copo sem nos sentirmos culpados”, explicam.
“É difícil para todos.” Frederico e Mariana concordam. Ele guarda tudo, diz que compreende tudo, mas quis deixar os estudos para poder ajudar os pais nas despesas. Ela extravasa, fica nervosa, não consegue concentrar-se nas aulas, tem más notas e lamenta ter perdido tudo. Os dois revoltados, cada um à sua maneira. “Tiraram-nos tudo”, diz Mariana. “Como é possível fazerem isto a pessoas que sempre fizeram o que era certo?”, questiona.
Os pais, primeiro, teimaram, explicaram a importância de um curso superior, de uma licenciatura. Mas acabaram vencidos. Os dois filhos enveredaram por cursos técnico-profissionais. Frederico já está a trabalhar e recebe os maiores elogios. Pode ser que volte para a escola mais tarde.
Mariana ficou doente e desistiu do curso. E foi na procura de ajuda para a filha que Isabel encontrou um emprego. Trabalha que se farta e ganha muito abaixo do salário mínimo. De tal forma que, volta e meia, é Frederico quem se oferece para ajudar nas compras.
Chega a casa depois das oito e meia da noite, “sem cabeça para nada”. Pedro também não desiste e, como tantos, procura ganhar em comissões. De tudo o que aparece. Pouco a pouco, as coisas parecem estar a recompor-se. Excepto quando tudo parece voltar para trás, tudo parece demasiado. Isabel, às vezes, ainda chora. Às vezes, choram todos.
14.4.15
"Os portugueses já são um pouco como os alemães"
por Luís Reis Ribeiro, in Dinheiro Vivo
Entrevista a Klaus Regling, diretor-geral do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE).
É o representante do maior credor de Portugal na Europa: o MEE emprestou 26 mil milhões de euros que o país terá de pagar nas próximas décadas. Esteve em Lisboa na passada sexta-feira para um debate sobre a zona euro, a convite da ministra das Finanças. Faz grandes elogios aos portugueses e espera que estes continuem o esforço de ajustamento nos próximos dez a 20 anos.
No caso de Portugal existe a preocupação sobre a sustentabilidade da dívida e o seu tamanho. Considera que há tempo suficiente para fazer o ajustamento necessário para cumprir as regras? Não sente que existe, no futuro, risco do país não conseguir pagar a tempo?
Realmente, não acho. Claro que a dívida atingiu um nível alto. Até certo ponto isto era inevitável porque a crise significou uma redução do PIB. Quando o denominador cai, o rácio da dívida sobe. Mas quando o país concluir os principais esforços de reforma existe uma base nova para um crescimento potencial mais elevado e afastar-se-á destes rácios de dívida muito elevados.
Deve o Governo de Portugal pagar antecipadamente ao FEEF/MEE como fez com o FMI?
Substituir dívida do FEEF por dívida privada não ajudaria porque o nível de dívida continuaria a ser o mesmo. E o problema é que as taxas de juro de mercado seriam mais altas do que as nossas.
Mesmo agora?
Claro. O nosso rating é AA+ e, apesar de as taxas de juro de Portugal terem descido muito - penso que a maturidade a dez anos foi de cerca de 1,6% na semana passada - para nós continua a ser muito mais baixa que 1%. O FMI cobra taxas muito mais altas e comissões do que o FEEF/MEE. Por isso faz sentido comercial pagar ao FMI. De momento, não faz sentido pagar-nos [antecipadamente] porque as nossas condições são muito favoráveis.
Mas é possível pagar mais cedo?
Sim, se for aprovado pelo Eurogrupo.
Ainda há quem levante dúvidas em relação à dívida portuguesa. Porquê? Por causa da economia?
Penso que são principalmente académicos que questionam isso. Pessoas que defendem a necessidade de um haircut [redução do capital em dívida] e de uma reestruturação. Não penso que estejam corretos.
Porquê?
Na análise de sustentabilidade feita pelas instituições podemos ver que a sustentabilidade é possível se as reformas continuarem. Défices orçamentais pequenos são um elemento importante já que reduzem a acumulação de dívida todos anos. À medida que o tempo passa, as reformas estruturais vão proporcionar crescimento mais forte e ajudar mais a cortar o rácio da dívida.
Para cumprir as regras do Tratado, Portugal precisa de crescer muito mais rápido do que alguma vez no passado. É realista?
Nos próximos dois anos, não, mas ao longo do tempo, sim. O BCE está determinado em fazer subir a inflação até à sua meta de próximo de 2% e não vejo por que razão Portugal não será capaz de atingir taxas de crescimento potenciais de 2%. O crescimento real em Portugal deverá ser mais alto que o da média da zona euro porque existe um desvio significativo nos níveis de produtividade.
Com que rapidez deve isso acontecer?
Acredito que este desvio deverá ser reduzido de forma significativa nos próximos dez a 20 anos. Com as políticas corretas, Portugal pode crescer muito mais rápido do que a média do euro.
Um crescimento potencial de 2% é realista?
É um número por alto. Na zona euro, atualmente, o crescimento potencial é de cerca de 1% a 1,25%. Isto pode ser reforçado com reformas estruturais embora tenhamos de ser realistas porque a demografia não é muito favorável. Não sei por que razão Portugal não haverá de convergir outra vez como fez no passado.
Existe compromisso suficiente em Portugal para isso? No longo prazo, digo.
Para os economistas é muito fácil dizer o que tem de ser feito. Compreendo completamente que a implementação política é difícil em todos os países, sejam pequenos ou grandes. Como economista posso apenas encorajar Portugal e outros a fazerem-no porque a recompensa virá. Hoje, já estamos a ver isso na Europa.
Onde?
Vemos claramente na Irlanda e em Espanha, mas também em países que não atravessarem crises nos últimos anos. Compare França e Alemanha, por exemplo. As pessoas esquecem-se que entre 1995 e 2005, durante dez anos, França cresceu, em média, por ano, um ponto percentuais mais do que a Alemanha. Agora, a Alemanha está melhor do que França. Porquê? Porque a Alemanha implementou mais reformas do que os outros na última década. É a razão chave.
Mas antes dessas reformas a Alemanha já era uma economia forte a nível global, não?
Sim, mas tinha grandes problemas. O maior delas era o desemprego. Havia à volta de cinco milhões de desempregados, hoje há apenas 2,7 milhões, o que é ainda muito, mas o país tem a taxa de desemprego mais baixa da Europa. Não teve uma crise de acesso ao mercado, mas teve uma crise interna porque havia muita gente desempregada.
Sente que os Portugueses podem ser como os alemães, nesse sentido [reformas]?
Penso que já são um pouco como os alemães, nesse sentido, porque os portugueses começaram a implementar reformas há cinco anos.
Com sucesso? Com resultados? Alguns, como as missões do FMI e da Comissão, dizem que as reformas foram anunciadas e que sentem um certo aumento na complacência.
Estou ciente disso. Mas se me está a perguntar: foi um sucesso? Eu digo sim. E não apenas no acesso ao mercado. Se vir os indicadores da OCDE, do Banco Mundial, do Fórum Económico Mundial, Portugal está no top 5 dos reformadores.
Então não são apenas reformas anunciadas?
As estatísticas da OCDE e do Banco Mundial olham para as reformas implementadas e até para os resultados. Isto não significa que tudo esteja feito. As preocupações manifestadas pelo FMI e pela Comissão estão focadas no facto de ainda haver trabalho por finalizar. O MEE, que participa na vigilância pós-programa de Portugal, também partilha esta visão. Mas, olhando para trás, temos de dar crédito à população portuguesa e ao governo pelo que foi já alcançado.
Fala com imensos investidores internacionais. Eles sentem-se confortáveis com um cenário de mudança de governo em Portugal, com um possível governo de centro-esquerda socialista, por exemplo?
Os investidores estrangeiros olham sempre para o ambiente político. E de forma ainda mais atenta depois da crise global ter acontecido. Nas democracias, as mudanças de governo acontecem. Penso que os investidores estão a tomar nota das posições dos diferentes partidos. Eles não veem qualquer partido anti-europeu em Portugal. Não veem um género de oposição radical aqui como viram na Grécia, por exemplo, e penso que isso tranquiliza os mercados.
É esse o maior ativo na perspetiva do mercado?
Sim, é um fator positivo quando os investidores avaliam o futuro de um país.
Como avalia a saúde do sector bancário português?
O MEE não está envolvido como outras instituições no acompanhamento do sector bancário, mas após a avaliação completa feita pelo SSM, o supervisor único, em novembro último, a situação parece boa, basicamente. O episódio BES foi uma surpresa desagradável, mas foi gerida com sucesso. E de momento não sei de quaisquer problemas significativos.
Os ativos por impostos diferidos não poderão ser um problema? Pode afetar os maiores bancos do país.
Termos de ver como é que o SSM quer lidar com isso. Não é um problema só de Portugal. Pode afetar Itália, Espanha e outros países. Tem razão: dependendo de como o SSM interpretar isso, poderá haver necessidade adicional de capital, mas não estou envolvido nessas avaliações.
Entrevista a Klaus Regling, diretor-geral do Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE).
É o representante do maior credor de Portugal na Europa: o MEE emprestou 26 mil milhões de euros que o país terá de pagar nas próximas décadas. Esteve em Lisboa na passada sexta-feira para um debate sobre a zona euro, a convite da ministra das Finanças. Faz grandes elogios aos portugueses e espera que estes continuem o esforço de ajustamento nos próximos dez a 20 anos.
No caso de Portugal existe a preocupação sobre a sustentabilidade da dívida e o seu tamanho. Considera que há tempo suficiente para fazer o ajustamento necessário para cumprir as regras? Não sente que existe, no futuro, risco do país não conseguir pagar a tempo?
Realmente, não acho. Claro que a dívida atingiu um nível alto. Até certo ponto isto era inevitável porque a crise significou uma redução do PIB. Quando o denominador cai, o rácio da dívida sobe. Mas quando o país concluir os principais esforços de reforma existe uma base nova para um crescimento potencial mais elevado e afastar-se-á destes rácios de dívida muito elevados.
Deve o Governo de Portugal pagar antecipadamente ao FEEF/MEE como fez com o FMI?
Substituir dívida do FEEF por dívida privada não ajudaria porque o nível de dívida continuaria a ser o mesmo. E o problema é que as taxas de juro de mercado seriam mais altas do que as nossas.
Mesmo agora?
Claro. O nosso rating é AA+ e, apesar de as taxas de juro de Portugal terem descido muito - penso que a maturidade a dez anos foi de cerca de 1,6% na semana passada - para nós continua a ser muito mais baixa que 1%. O FMI cobra taxas muito mais altas e comissões do que o FEEF/MEE. Por isso faz sentido comercial pagar ao FMI. De momento, não faz sentido pagar-nos [antecipadamente] porque as nossas condições são muito favoráveis.
Mas é possível pagar mais cedo?
Sim, se for aprovado pelo Eurogrupo.
Ainda há quem levante dúvidas em relação à dívida portuguesa. Porquê? Por causa da economia?
Penso que são principalmente académicos que questionam isso. Pessoas que defendem a necessidade de um haircut [redução do capital em dívida] e de uma reestruturação. Não penso que estejam corretos.
Porquê?
Na análise de sustentabilidade feita pelas instituições podemos ver que a sustentabilidade é possível se as reformas continuarem. Défices orçamentais pequenos são um elemento importante já que reduzem a acumulação de dívida todos anos. À medida que o tempo passa, as reformas estruturais vão proporcionar crescimento mais forte e ajudar mais a cortar o rácio da dívida.
Para cumprir as regras do Tratado, Portugal precisa de crescer muito mais rápido do que alguma vez no passado. É realista?
Nos próximos dois anos, não, mas ao longo do tempo, sim. O BCE está determinado em fazer subir a inflação até à sua meta de próximo de 2% e não vejo por que razão Portugal não será capaz de atingir taxas de crescimento potenciais de 2%. O crescimento real em Portugal deverá ser mais alto que o da média da zona euro porque existe um desvio significativo nos níveis de produtividade.
Com que rapidez deve isso acontecer?
Acredito que este desvio deverá ser reduzido de forma significativa nos próximos dez a 20 anos. Com as políticas corretas, Portugal pode crescer muito mais rápido do que a média do euro.
Um crescimento potencial de 2% é realista?
É um número por alto. Na zona euro, atualmente, o crescimento potencial é de cerca de 1% a 1,25%. Isto pode ser reforçado com reformas estruturais embora tenhamos de ser realistas porque a demografia não é muito favorável. Não sei por que razão Portugal não haverá de convergir outra vez como fez no passado.
Existe compromisso suficiente em Portugal para isso? No longo prazo, digo.
Para os economistas é muito fácil dizer o que tem de ser feito. Compreendo completamente que a implementação política é difícil em todos os países, sejam pequenos ou grandes. Como economista posso apenas encorajar Portugal e outros a fazerem-no porque a recompensa virá. Hoje, já estamos a ver isso na Europa.
Onde?
Vemos claramente na Irlanda e em Espanha, mas também em países que não atravessarem crises nos últimos anos. Compare França e Alemanha, por exemplo. As pessoas esquecem-se que entre 1995 e 2005, durante dez anos, França cresceu, em média, por ano, um ponto percentuais mais do que a Alemanha. Agora, a Alemanha está melhor do que França. Porquê? Porque a Alemanha implementou mais reformas do que os outros na última década. É a razão chave.
Mas antes dessas reformas a Alemanha já era uma economia forte a nível global, não?
Sim, mas tinha grandes problemas. O maior delas era o desemprego. Havia à volta de cinco milhões de desempregados, hoje há apenas 2,7 milhões, o que é ainda muito, mas o país tem a taxa de desemprego mais baixa da Europa. Não teve uma crise de acesso ao mercado, mas teve uma crise interna porque havia muita gente desempregada.
Sente que os Portugueses podem ser como os alemães, nesse sentido [reformas]?
Penso que já são um pouco como os alemães, nesse sentido, porque os portugueses começaram a implementar reformas há cinco anos.
Com sucesso? Com resultados? Alguns, como as missões do FMI e da Comissão, dizem que as reformas foram anunciadas e que sentem um certo aumento na complacência.
Estou ciente disso. Mas se me está a perguntar: foi um sucesso? Eu digo sim. E não apenas no acesso ao mercado. Se vir os indicadores da OCDE, do Banco Mundial, do Fórum Económico Mundial, Portugal está no top 5 dos reformadores.
Então não são apenas reformas anunciadas?
As estatísticas da OCDE e do Banco Mundial olham para as reformas implementadas e até para os resultados. Isto não significa que tudo esteja feito. As preocupações manifestadas pelo FMI e pela Comissão estão focadas no facto de ainda haver trabalho por finalizar. O MEE, que participa na vigilância pós-programa de Portugal, também partilha esta visão. Mas, olhando para trás, temos de dar crédito à população portuguesa e ao governo pelo que foi já alcançado.
Fala com imensos investidores internacionais. Eles sentem-se confortáveis com um cenário de mudança de governo em Portugal, com um possível governo de centro-esquerda socialista, por exemplo?
Os investidores estrangeiros olham sempre para o ambiente político. E de forma ainda mais atenta depois da crise global ter acontecido. Nas democracias, as mudanças de governo acontecem. Penso que os investidores estão a tomar nota das posições dos diferentes partidos. Eles não veem qualquer partido anti-europeu em Portugal. Não veem um género de oposição radical aqui como viram na Grécia, por exemplo, e penso que isso tranquiliza os mercados.
É esse o maior ativo na perspetiva do mercado?
Sim, é um fator positivo quando os investidores avaliam o futuro de um país.
Como avalia a saúde do sector bancário português?
O MEE não está envolvido como outras instituições no acompanhamento do sector bancário, mas após a avaliação completa feita pelo SSM, o supervisor único, em novembro último, a situação parece boa, basicamente. O episódio BES foi uma surpresa desagradável, mas foi gerida com sucesso. E de momento não sei de quaisquer problemas significativos.
Os ativos por impostos diferidos não poderão ser um problema? Pode afetar os maiores bancos do país.
Termos de ver como é que o SSM quer lidar com isso. Não é um problema só de Portugal. Pode afetar Itália, Espanha e outros países. Tem razão: dependendo de como o SSM interpretar isso, poderá haver necessidade adicional de capital, mas não estou envolvido nessas avaliações.
1.4.15
Comissário europeu: "É preciso continuar o ímpeto reformista" em Portugal
in RR
Pierre Moscovici diz que medidas chave, como a reforma das pensões, não avançaram o suficiente.
O comissário europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros elogia o desempenho de Portugal durante a crise, mas deixa claro que o país tem ainda muito pela frente. Para Pierre Moscovici, "é preciso continuar o ímpeto reformista".
"As reformas estruturais são fundamentais. Portugal fez progressos, mas é preciso continuar o ímpeto reformista", disse Moscovici, ouvido nas comissões parlamentares de Assuntos Europeus e de Orçamento, Finanças e Administração Pública, esta terça-feira, no Parlamento.
O comissário francês considerou que, "em concreto, no que respeita às finanças públicas, algumas medidas-chave que estavam em preparação, como a reforma das pensões, não parecem ter progredido o suficiente".
Quanto ao mercado de trabalho e às qualificações, Pierre Moscovici deixou também um aviso, que vinha incluído nas recomendações específicas da Comissão Europeia a Portugal, divulgadas em Fevereiro: é preciso "facilitar o acesso a contratos permanentes [de trabalho] para reduzir o nível de segmentação do mercado laboral português" e é preciso "fazer mais" ao nível da educação e da formação profissional.
"Pensamos que o crescimento da pobreza exige o reforço da ajuda social e não a sua diminuição", sublinhou.
"Se queremos orientar de maneira duradoura a economia portuguesa para a produção de bens exportáveis, o país tem necessidade imperativa de investimento privado. Penso que é essa a chave de tudo", afirmou o comissário, dando exemplos concretos: melhor integração transfronteiriça das redes de energia, o desenvolvimento da pesquisa, o apoio à inovação, a realização de infra-estruturas ferroviária e portuária.
A visita do ex-ministro das Finanças francês a Lisboa enquadra-se no âmbito do Semestre Europeu de 2015 e da definição das prioridades europeias em matéria de assuntos económicos e monetários, incluindo o Tratado Orçamental, bem como sobre as propostas da Comissão Europeia referentes ao Plano de Investimento para a Europa e ao Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos, o 'plano Juncker', que prevê investimentos de mais de 300 mil milhões de euros em toda a Europa.
Défice abaixo dos 3% em 2015
Pierre Moscovici afirmou que o défice de Portugal pode ficar abaixo dos 3% em 2015, considerando que cabe ao Parlamento decidir sobre a necessidade de implementar medidas suplementares.
Questionado pelo deputado do PSD António Rodrigues sobre se acredita que Portugal vai conseguir que o défice orçamental fique abaixo dos 3% em 2015, o comissário disse: "sim, há um compromisso de [o défice orçamental] não passar dos 3% e esse compromisso deve ser respeitado".
"Se pode ser respeitado? Sim, acreditamos que isso pode ser feito. Mas a questão que se deve colocar é como" é que Portugal pode cumprir este compromisso, replicou o comissário francês, acrescentando que, "se isso vai exigir esforços suplementares ou não, cabe ao parlamento decidir".
CE alertou para desequilíbrios económicos excessivos
Em Fevereiro, a Comissão Europeia divulgou as recomendações específicas aos países da União Europeia e colocou Portugal sob "monitorização específica" por desequilíbrios económicos excessivos, tendo criticado a estratégia de consolidação orçamental seguida, que assenta em factores cíclicos e "não facilita" o cumprimento dos objectivos de médio prazo.
No relatório, que dá seguimento ao mecanismo de alerta (de desequilíbrios macroeconómicos) realizado em Novembro no âmbito do calendário do Semestre Europeu, Bruxelas refere que as medidas discricionárias subjacentes à estratégia orçamental recente "têm sido substancialmente reduzidas", o que quer dizer que a diminuição do défice orçamental decorre "sobretudo da recuperação cíclica em curso".
Outra das críticas apontadas a Portugal foi o facto de o sistema de protecção social não ter sido capaz de lidar com o aumento da pobreza nos últimos anos.
O executivo comunitário afirmou ainda que algumas das medidas tomadas recentemente pelo Governo, como o corte nos apoios sociais, "tiveram um impacto negativo no rendimento disponível", afectando "desproporcionalmente os mais pobres" e "as crianças com menos de dez anos".
Pierre Moscovici diz que medidas chave, como a reforma das pensões, não avançaram o suficiente.
O comissário europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros elogia o desempenho de Portugal durante a crise, mas deixa claro que o país tem ainda muito pela frente. Para Pierre Moscovici, "é preciso continuar o ímpeto reformista".
"As reformas estruturais são fundamentais. Portugal fez progressos, mas é preciso continuar o ímpeto reformista", disse Moscovici, ouvido nas comissões parlamentares de Assuntos Europeus e de Orçamento, Finanças e Administração Pública, esta terça-feira, no Parlamento.
O comissário francês considerou que, "em concreto, no que respeita às finanças públicas, algumas medidas-chave que estavam em preparação, como a reforma das pensões, não parecem ter progredido o suficiente".
Quanto ao mercado de trabalho e às qualificações, Pierre Moscovici deixou também um aviso, que vinha incluído nas recomendações específicas da Comissão Europeia a Portugal, divulgadas em Fevereiro: é preciso "facilitar o acesso a contratos permanentes [de trabalho] para reduzir o nível de segmentação do mercado laboral português" e é preciso "fazer mais" ao nível da educação e da formação profissional.
"Pensamos que o crescimento da pobreza exige o reforço da ajuda social e não a sua diminuição", sublinhou.
"Se queremos orientar de maneira duradoura a economia portuguesa para a produção de bens exportáveis, o país tem necessidade imperativa de investimento privado. Penso que é essa a chave de tudo", afirmou o comissário, dando exemplos concretos: melhor integração transfronteiriça das redes de energia, o desenvolvimento da pesquisa, o apoio à inovação, a realização de infra-estruturas ferroviária e portuária.
A visita do ex-ministro das Finanças francês a Lisboa enquadra-se no âmbito do Semestre Europeu de 2015 e da definição das prioridades europeias em matéria de assuntos económicos e monetários, incluindo o Tratado Orçamental, bem como sobre as propostas da Comissão Europeia referentes ao Plano de Investimento para a Europa e ao Fundo Europeu para Investimentos Estratégicos, o 'plano Juncker', que prevê investimentos de mais de 300 mil milhões de euros em toda a Europa.
Défice abaixo dos 3% em 2015
Pierre Moscovici afirmou que o défice de Portugal pode ficar abaixo dos 3% em 2015, considerando que cabe ao Parlamento decidir sobre a necessidade de implementar medidas suplementares.
Questionado pelo deputado do PSD António Rodrigues sobre se acredita que Portugal vai conseguir que o défice orçamental fique abaixo dos 3% em 2015, o comissário disse: "sim, há um compromisso de [o défice orçamental] não passar dos 3% e esse compromisso deve ser respeitado".
"Se pode ser respeitado? Sim, acreditamos que isso pode ser feito. Mas a questão que se deve colocar é como" é que Portugal pode cumprir este compromisso, replicou o comissário francês, acrescentando que, "se isso vai exigir esforços suplementares ou não, cabe ao parlamento decidir".
CE alertou para desequilíbrios económicos excessivos
Em Fevereiro, a Comissão Europeia divulgou as recomendações específicas aos países da União Europeia e colocou Portugal sob "monitorização específica" por desequilíbrios económicos excessivos, tendo criticado a estratégia de consolidação orçamental seguida, que assenta em factores cíclicos e "não facilita" o cumprimento dos objectivos de médio prazo.
No relatório, que dá seguimento ao mecanismo de alerta (de desequilíbrios macroeconómicos) realizado em Novembro no âmbito do calendário do Semestre Europeu, Bruxelas refere que as medidas discricionárias subjacentes à estratégia orçamental recente "têm sido substancialmente reduzidas", o que quer dizer que a diminuição do défice orçamental decorre "sobretudo da recuperação cíclica em curso".
Outra das críticas apontadas a Portugal foi o facto de o sistema de protecção social não ter sido capaz de lidar com o aumento da pobreza nos últimos anos.
O executivo comunitário afirmou ainda que algumas das medidas tomadas recentemente pelo Governo, como o corte nos apoios sociais, "tiveram um impacto negativo no rendimento disponível", afectando "desproporcionalmente os mais pobres" e "as crianças com menos de dez anos".
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