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3.5.22

Expectativa de melhorar o nível de vida é menor do que na década de 1940

in RR

A pobreza "não resulta da preguiça, da falta de autocontrolo ou de um planeamento deficiente", mas antes de "fatores estruturantes, como o desemprego alto, os salários estagnados e a discriminação".

A pobreza e a riqueza tendem a perpetuar-se durante gerações e a possibilidade de uma criança aspirar a ter uma vida melhor que a dos pais é menor do que na década de 1940. A conclusão consta num relatório do relator especial da ONU para a pobreza extrema e direitos humanos, Olivier De Schutter.

O relatório refere que a escola é um lugar "onde as hierarquias se reproduzem e, no pior dos casos, se magnificam".

Nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), as crianças pobres tardam em média quatro a cinco gerações para alcançar o rendimento médio do seu país. No Brasil, Colômbia e África do Sul demoram nove ou mais gerações.

Nos Estados Unidos, uma criança de uma família de rendimentos altos conhece o dobro das palavras face a uma criança de uma família pobre, realça o relatório, exemplificando as desigualdades de oportunidades.

O documento conclui que a pobreza "não resulta da preguiça, da falta de autocontrolo ou de um planeamento deficiente", mas antes de "fatores estruturantes, como o desemprego alto, os salários estagnados e a discriminação".

Para o relator Olivier De Schutter, será necessário "investir na educação e nos cuidados na primeira infância, garantir que as escolas são verdadeiramente inclusivas e apoiar os jovens mediante uma garantia de rendimento básico" para que se possa quebrar "os círculos viciosos que fazem com que a pobreza se perpetue".

A sociedade "não pode permitir-se a desperdiçar talento nem deteriorar o tecido social", sublinha.


8.7.15

Portugueses gastam o dobro do que gastavam quando aderiram à CEE

in Jornal de Notícias

Os portugueses gastam atualmente o dobro do dinheiro que gastavam quando Portugal aderiu à CEE, em 1986, conclui um estudo sobre a evolução do "Portugal Europeu" nas últimas três décadas.

Portugueses gastam o dobro do que gastavam quando aderiram à CEE
foto Paulo Spranger/Global Imagens
Consumo 'per capita' escalou ininterruptamente do mínimo de 1986 ao máximo de 2008

"Sem o resvalar da crise de 2003, o consumo 'per capita' escalou ininterruptamente do mínimo de 1986 ao máximo de 2008", nota o relatório, encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que é apresentado esta quarta-feira.

O Portugal Europeu passou de uma conjuntura "marcada por pressões inflacionistas", com os preços a subirem 13% em 1986, para uma situação marcada pelas pressões deflacionistas, com os preços a subirem em média 0,5% entre 2008 e 2013.

Ainda assim "o nível geral de preços em Portugal é 14% inferior ao padrão médio europeu", destaca o estudo, apontando o elevado nível geral de preços que se verifica nos países nórdicos, com a Dinamarca (40% acima da média europeia).

A educação foi o setor onde mais se sentiu a subida de preços entre 1986 e 2013, mas é igualmente a atividade em que o nível de preços está mais distante do padrão europeu, distância que se vem acentuando desde 1999.

Pelo contrário, as comunicações, que registaram a menor subida de preços, são a única classe de serviços em que o preço está acima do padrão europeu.

O estudo salienta ainda que os preços dos restaurantes e hotéis, que se encontravam, em 2013, 25% abaixo do padrão europeu.

Em 2013, o consumo de bens alimentares manteve-se próximo do pico de 2010, mas o consumo de bens correntes e serviços recuou dez anos, enquanto o consumo de bens duradouros não chegava a dois terços do volume de 2007/2008.

Portugueses mais atentos na hora de comprar

"Os ajustamentos em baixa no emprego, nas componentes do ganho para além do salário base, e nas pensões de reforma e, em alta nos impostos, geraram uma nova relação de incerteza com o rendimento que mudou o consumidor português em anos recentes", lê-se no documento.

Os portugueses, acrescenta o estudo "Três décadas de Portugal Europeu", estão agora mais predispostos a "fazer em casa", alugar, partilhar, reutilizar ou trocar, mais atentos às promoções e valorizam mais os produtos nacionais, ou seja, estão mais atentos "à eficácia das compras do que ao nível da despesa".

Estimulado pelo consumo privado, que absorveu sete em cada dez euros de riqueza criada, o PIB português cresceu 76% desde 1986.

Com um modelo de crescimento assente no consumo privado e bastante dependente do financiamento bancário e das importações de bens e serviços, Portugal, que foi entre 1986 e 1994 o país da União Europeia que mais cresceu pela procura interna, tornou-se o quarto país com um contributo mais negativo no que diz respeito a este indicador entre 2007 e 2013.

Depois de ter registado sucessivos défices externos, que atingiram um máximo histórico em 2008, com um valor superior a 11% do PIB, "a relação económica de Portugal com o resto do mundo sofreu uma profunda alteração nos últimos anos".

O estudo realça, no entanto, que o défice externo sofreu um processo de correção sob o impacto da crise económica e financeira e do programa de resgate obtendo o primeiro saldo externo positivo em 2013 (1,3%).

Ainda assim, Portugal "permanece numa posição bastante vulnerável, sobretudo pela acumulação de um nível de dívida externa dificilmente sustentável, para além do montante de juros que é anualmente subtraído à riqueza nacional, expondo a estabilidade financeira à volatilidade dos fluxos internacionais de capital".

Em 2013, Portugal continuava entre os Estados-membros mais endividados.

Nível de vida das famílias portuguesas regrediu em 2013 para níveis de 1990

in SicNotícias

Após uma tímida aproximação aos parceiros europeus, o nível de vida dos portugueses recuou, em 2013, para valores de 1990, ficando 25% abaixo da média europeia, revela o estudo "Três Décadas de Portugal Europeu: Balanço e perspetivas".

O documento, coordenado pelo economista Augusto Mateus e encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, vai ser apresentado hoje e atualiza um estudo anterior ("25 anos de Portugal Europeu") com os anos de 2011 a 2013, os primeiros anos da 'troika' em Portugal, cobrindo todos os ciclos de programação de fundos comunitários desde a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) (1989-1993, 1994-1999, 2000-2006 e 2007-2013).

Segundo o relatório, o "Portugal Europeu passou de uma rota de convergência, concentrada nos anos seguintes à adesão à CEE e na segunda metade da década de 90 e mais intensa em termos de consumo das famílias, para um processo de visível divergência".

No panorama europeu atual, Portugal é incluído num segundo patamar de convergência, composto por países com um nível de vida 20 a 30% abaixo do padrão europeu, incluindo a Eslovénia, República Checa, Eslováquia, Lituânia, Grécia e Estónia, destaca o estudo, indicando que, desde 1999, Portugal apenas se aproximou da média europeia em 2005 e 2009.

Entre 2010 e 2013, o PIB 'per capita' português caiu 7% face ao padrão europeu e o nível de vida das famílias regrediu mais de 20 anos, refletindo a crise económica, a aceleração do processo de globalização, o alargamento da União Europeia a Leste e a aplicação do programa de resgate.

Portugal foi o país europeu que registou maior aumento na fiscalidade entre 2010 e 2013, com a carga fiscal a subir mais de 11%.

O aumento das receitas do Estado ficou a dever-se sobretudo aos impostos diretos, em particular o IRS, que aumentou mais de um terço entre 2010 e 2013, tendo os impostos e contribuições sociais absorvido em 2013, mais de um terço da riqueza criada em Portugal, totalizando cerca de 60 mil milhões de euros.

Portugal é também o Estado-membro em que os juros absorvem uma maior proporção da riqueza criada e o décimo que mais gasta em prestações sociais.

Os encargos com juros aumentaram em 2013 para 5% do PIB, refletindo as dificuldades no acesso a financiamento decorrentes da crise das dívidas soberanas, mas situam-se ainda assim abaixo dos valores registados até meados da década de 90.

O peso das despesas públicas no PIB que, em - 2009, cresceu cerca de cinco pontos percentuais, mantem-se desde essa altura em torno dos 50%, com crescente relevância das despesas com proteção social, cujo impacto no orçamento subiu de 30% em 1995 para 40% em 2013.

O destaque positivo vai para as exportações, cujo peso no PIB passou de 25% para 41% nos 28 anos de Portugal Europeu, enquanto as importações passaram de 27% para 39%. O ano de 2013 foi o primeiro em que o saldo comercial português foi positivo, salientando-se o contributo das exportações de serviços: se, em 1986, valiam um quarto das exportações nacionais, em 2013 já representavam cerca de um terço.

O estudo realça, aliás, que o "Portugal Europeu registou um intenso processo de terciarização, com os serviços a serem responsáveis por mais de três quartos da riqueza gerada em Portugal em 2013" e a registarem um peso na economia nacional 4% superior ao padrão europeu quando em 1987 era 10% inferior

O desenvolvimento da economia portuguesa nas últimas décadas ficou também marcado pela perda de relevância da indústria. Nos últimos 28 anos, o peso das indústrias transformadoras na economia caiu dez pontos percentuais, e só as indústrias alimentares conseguiam alcançar, em 2013, um volume de vendas superior ao registado em 2007.

No entanto, o Norte de Portugal, com um em cada cinco trabalhadores empregados na indústria, continua a destacar-se como uma das regiões europeias mais industrializadas.

Também o setor primário, dominado pela agricultura e produção animal, registou "um claro declínio nos últimos 28 anos", tendo o seu contributo para a criação de riqueza nacional diminuído de 8% em 1986, altura em que representavam mais do dobro da média europeia, para 2% em 2013.

Estas atividades conseguiram interromper, no entanto, nos últimos anos, "o definhamento global registado desde 1995, com um ligeiro aumento do seu peso na economia nacional, a par de progressos mais nítidos nas exportações agroindustriais".

O turismo, responsável em 2013, por 16% do PIB, 18% do emprego e 13% das exportações, tem vindo a afirmar-se como uma das principais atividades económicas em Portugal.

Atualmente, Portugal é o sexto Estado-membro em que o turismo mais pesa no PIB, o quinto em termos de emprego e o quarto em termos de relevância nas exportações.

Lusa