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11.5.23

Pobreza está a levar mais pessoas com formação superior a pedir ajuda

Por Lusa, in Público online

Assistência Médica Internacional (AMI) aponta alimentação como maior necessidade de quem procura ajuda. Organização também tem recebido mais pedidos de apoio psicológico.

Há cada vez mais pessoas com formação superior a pedir ajuda devido à situação de pobreza, alertou esta quarta-feira a Assistência Médica Internacional (AMI), assinalando que “os salários muito baixos” não permitem fazer face às necessidades.

“Começam já a aparecer aqui números preocupantes de pessoas que têm uma escolaridade mais avançada, um nível de literacia maior. Até pessoas que tiraram formação superior e, ou não conseguem arranjar algo que seja compatível com a sua formação, ou conseguem, mas com ordenados muito baixos”, disse à Lusa a directora da AMI, Salomé Marques, no Centro Porta Amiga de Chelas (Lisboa).

“O [pedido] flagrante é a alimentação. [As pessoas] dirigem-se ao centro (…) com essa necessidade. Só que depois, em ambiente de gabinete, percebemos que, além da alimentação, há toda uma série de necessidades muita alargada, quer a água, a luz, o gás, as rendas, a medicação e, às vezes exames, que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) não comparticipa”, realçou.

A responsável salientou também que a organização não-governamental (ONG) tem recebido mais pedidos de ajuda para apoio psicológico.

“Estamos a sentir a saúde mental das pessoas cada vez mais fragilizada. Isto é muito preocupante, porque não há emprego, não há poder económico e claro que toda a estabilidade emocional vai ficar afectada. Acaba por ser uma bola de neve”, afirmou.

Salomé Marques antecipou também que a situação de pobreza em Portugal deverá “agravar-se mais” nos próximos tempos.

Segundo um relatório da ONG, publicado no final de Abril, o número de novos pedidos de ajuda à AMI aumentou 46% no primeiro trimestre deste ano e 53% nos casos de pessoas em situação de sem-abrigo face ao período homólogo.

A AMI especificou que os seus serviços sociais apoiaram no primeiro trimestre 5409 pessoas em situação de vulnerabilidade social, das quais 533 procuraram apoio pela primeira vez, um aumento de 46% em relação ao mesmo período de 2022.

Das pessoas apoiadas, 2692 são homens e 2717 são mulheres, encontrando-se a maioria em idade activa, entre os 16 e os 66 anos (70%), seguida de menores de 16 anos (21%) e dos maiores de 66 anos (7%).

A maioria (79%) são naturais de Portugal e 6% dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

No que diz respeito ao emprego, 43% das pessoas com mais de 16 anos não exerce qualquer actividade profissional e 41% não tem formação profissional.

De acordo com a AMI, os recursos económicos provêm sobretudo de apoios sociais como o RSI - Rendimento Social de Inserção (18%), pensões e reformas (10%), e subsídios e apoios institucionais (5%).

15.2.21

Presidente da Cáritas dos Açores prevê ano de grandes dificuldades

in Agência Ecclesia

Anabela Borba, reconduzida na direção da organização católica, pede aposta na educação e numa economia «forte» no arquipélago

Angra do Heroísmo, Açores, 14 fev 2021 (Ecclesia) – A presidente da Cáritas Diocesana dos Açores, Anabela Borba, disse temer que a pandemia e as suas consequências sociais crime “grande dificuldade” no arquipélago, em 2021.

“Primeiro existe a questão das cercas sanitárias. Depois as pessoas têm hoje mais consciência e mais medo e isso também retrai o consumo. Portanto, as empresas estão em dificuldades”, assume a convidada da entrevista conjunta Ecclesia/Renascença, emitida e publicada semanalmente ao domingo.

Anabela Borba, que iniciou esta quinta-feira um novo mandato à frente da Cáritas nos Açores, considera que é necessária uma ajuda “bastante musculada” do Governo, na região e a nível nacional, para superar a crise provocada pela Covid-19.

A responsável mostra-se particularmente preocupada com a situação das empresas ligadas ao setor do turismo e à promoção das festividades locais, atingidas pelos vários confinamentos.

A presidente da Cáritas Diocesana dos Açores fala ainda do impacto da pandemia nos mais velhos, “que estão sós, em instituições sociais com muitas dificuldades para cuidar”.

“Esta pandemia vem mostrar, de facto, como é que estas pessoas sofrem, e agora sofrem mais ainda porque têm de estar isoladas das suas famílias”, alerta.

Questionada sobre o novo Governo de direito na Região Autónoma, Anabela Borba defende que a educação tem de ser uma “prioridade” e adverte para a necessidade de investir na saúde e de contrariar a quebra demográfica.

“Os desafios são muito grandes nos Açores, mas penso que não pode haver combate à pobreza e à exclusão sem economia forte. Esse, de facto, tem sido um dos problemas da região: é o problema de não termos uma economia forte”, acrescenta.

A responsável assinala que as principais preocupações da Cáritas se centram nas ilhas de São Miguel e da Terceira, admitindo que, se o desemprego ainda não aumentou de uma forma drástica, nos Açores, 2021 “vai ser o ano de todas as dificuldades”.

“Sem uma educação forte e sem um desenvolvimento do tecido económico e social, as respostas serão sempre limitadas e terão sempre um efeito bastante assistencial e não tanto do desenvolvimento que todos ambicionamos”, aponta.

Henrique Cunha (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)
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25.1.21

“Posso comer? Pago no final do mês”. Há pessoas com fome aqui ao pé

Maria João Costa, in RR

Para responder a situações de fome e carência, há empresários a abdicarem do lucro para ajudar. É o caso de um café nas Caldas da Rainha que está a oferecer bifanas e de uma padaria e pastelaria em Faro que oferece pão.

Cansados, mas felizes. É assim que estão dois empresários da restauração que por iniciativa própria resolveram abdicar do lucro para ajudarem quem precisa e está a enfrentar dificuldades financeiras em tempo de pandemia.

É o caso de Emanuel Chamusco, proprietário do Caldas Bar nas Caldas da Rainha há 6 anos. No dia em que ouviu um estudante da Escola Superior de Artes e Design das Caldas (ESAD-CR) a perguntar o que poderia “comer com 80 cêntimos?” percebeu que tinha de fazer alguma coisa.

O dono deste estabelecimento que fica em frente à rodoviária das Caldas da Rainha conta à Renascença que esse estudante revelou que tinha outros colegas que também já tinham o pagamento dos quartos em atraso e o dinheiro mal dava para comer. Entre os que entravam pela porta do café, teve quem lhe perguntasse de forma envergonhada: “Posso comer? Pago no final do mês.”

Face a isto, Emanuel Chamusco decidiu oferecer bifanas a quem não tivesse o que comer. No dia em que colocou a informação na página de Facebook do bar, teve “19 mil visualizações”. Este empresário, natural de Óbidos conta que não teve mãos a medir, mas faz questão de sublinhar que também ele foi ajudado ao longo da vida.

“A minha família tinha muitas dificuldades e precisei de muita ajuda de várias pessoas para crescer e construir uma família.” Hoje e depois de passar por um cancro em 2008, Emanuel Chamusco diz que “a vida tem corrido bem”. Por isso, decidiu com a mulher com quem partilha o trabalho no Caldas Bar, “abdicar do lucro e tentar ajudar as pessoas”.

Sem colocar os seus dois colaboradores em lay-off, o dono do Caldas Bar continuou a trabalhar. Começou por servir 20 bifanas no primeiro dia. “Hoje em média são 200 bifanas por dia”, conta este empresário que tomou conta de uma casa muito conhecida nas Caldas, fundada em 1955 e onde a receita das bifanas tem um segredo no mel que leva no molho.
Quem pede ajuda para comer?

Sobre quem procura esta ajuda alimentar diz que são “desempregados”, “agora mais estudantes da ESAD-CR”, mas também funcionários de fábricas que estão paradas. “São pessoas de 40 anos ou mais, como eu”, explica este empresário da restauração que faz questão de sublinhar que “não vê abusos”. “Há pessoas que vão todos os dias” ao seu estabelecimento, refere Emanuel, que sabe que muitas já “têm a eletricidade e água, em atraso”.

Por sua iniciativa, Emanuel começou também a entregar bifanas ao pessoal médico do Hospital das Caldas da Rainha que faz “turnos de 8 a 10 horas”, conta-nos ao telefone. Como viu que além de médicos e enfermeiros da urgência, também a sala de espera estava cheia, passou a levar cerca de 70 bifanas para dar a quem precisa de comer.

Quem também ajuda o pessoal médico, mas do Hospital de Faro, é Sidónio Rodrigues. É um madeirense que há mais de 20 anos está no continente e é proprietário da padaria e pastelaria Trigo Dourado em Faro. À hora de almoço, quando falou com a Renascença estava a fazer mais uma fornada de pão.

“De um dia para o outro, não aproveitávamos o pão e os bolos e dávamos para a igreja, instituições ou para as pessoas darem às galinhas. Depois percebemos que há pessoas com fome aqui ao pé”, conta este empresário que resolveu por ao dispor de quem precisava, o pão que sobrava.

Ri-se ao dizer que “a boa publicidade demora”, mas neste caso, quando colocou na página de Facebook da padaria uma imagem de pão embalado com um papel a dizer “Não precisa pedir! Nós oferecemos. Leve o que precisa”, teve em três horas, mil partilhas.

À sua porta começaram a ir pessoas buscar pão, “desde o mais pobre até à classe média”, relata Sidónio que diz que as pessoas agradecem e levam um saco ou dois. Esta situação já deu mesmo a Sidónio Rodrigues uma ideia: “no futuro vou criar uma secção para venda dos produtos do dia anterior”.

Este empresário que recorda que saiu da Madeira por dificuldades há mais de 20 anos, diz, no entanto, que teve já de por 10 empregados em lay-off. A trabalhar tem 6 pessoas e diz que não tem mãos a medir. Nesta altura, quando vê que falta pão para dar, vai fazer mais uma fornada. Já não oferece apenas as sobras, mas sim, pão e bolos frescos.

“Tenho dormido duas, três horas no máximo. Estou esgotadíssimo, mas contente. É uma felicidade enorme”, confessa este empresário de 45 anos. À ajuda que dá aos vários serviços do Hospital local chama-lhe “miminhos”, e acrescenta que “se todos os empresários fizerem um miminho, vamos receber em dobro.”

Até quando vão poder ajudar os empresários?

Estes dois empresários que não se conhecem, têm a mesma atitude. Não querem donativos em dinheiro. Nas Caldas da Rainha, Emanuel diz que já houve pessoas individuais e empresas a oferecerem carne para as bifanas e conta também que o padeiro que lhe entrega o pão, por vezes, “só cobra metade”. Também o talho que o fornece lhe tem dado uma ajuda.

Também em Faro, na pastelaria Trigo Dourado, Sidónio Rodrigues afirma que não aceita donativos. “Fica para gorjeta dos colaboradores”, o dinheiro que “pessoas do mais alto nível” entregam para comprar farinha para fazer pão.

Questionados sobre até quando aguentarão, ambos não sabem, mas mostram resiliência em não desistir. Emanuel Chamusco, desabafa, no entanto: “Não sei se vou conseguir muito tempo”. Mas este empresário que dispôs de parte do seu lucro para ajudar, lembra que com os donativos em géneros, talvez aguente “um mês e meio ou dois”.

Já em Faro, Sidónio diz que “a empresa está sólida”. Este empresário do Algarve admite estar “disposto a investir capital próprio”. “Este ano não quero perder, nem ganhar. Quero ajudar as pessoas”, conclui o dono da Trigo Dourado.

1.4.20

Sem clientes, sem dinheiro e sem tecto: a prostituição também sofre com a Covid-19

Sofia Marvão, in JN

Profissionais do sexo atestam uma grande dificuldade na obtenção de rendimentos ou de meios de subsistência, durante o período de quarentena

Com a saúde em risco e a crescente escassez de clientes, profissionais do sexo lutam pela sobrevivência face à ameaça que constitui a pandemia da Covid-19. Paralelamente, as plataformas de pornografia registam um aumento de visualizações por parte de quem fica em casa.

Pamela (nome fictício), prostituta de 46 anos, vive em Toulouse, França. Quando não trabalha na rua, tem de viajar para se encontrar com os clientes. Há mais de duas semanas que não trabalha, desde que o país fechou as fronteiras para impedir a disseminação do vírus. Apenas viagens essenciais são permitidas . "As solicitações não deixaram de existir completamente", explicou à agência AFP. Contudo, "comparando uma multa de 135 euros a 50 euros de um cliente", a profissional prefere ignorá-las, mas se o cenário resistir acredita que as suas economias não vão ser suficientes. "Vou ter que correr riscos"diz. "Mesmo que tenha dois clientes por semana, pagaria pelo menos a comida". No caso de prostitutas que já são mães, a situação agrava-se.

A agência francesa avança que os poucos profissionais do sexo registados como trabalhadores independentes não podem reivindicar o apoio de 1500 euros prometido pelo Governo aos trabalhadores independentes para compensar a queda de atividade provocada pelo surto. No sentido de dar resposta às suas necessidades, algumas iniciativas de angariação de fundos começaram a surgir no meio digital. A partir da página "tapotepute" (sua prostituta amiga), foram recolhidos cerca de 10 mil euros para ajudar pelo menos 30 trabalhadores do sexo. Os que continuam a trabalhar foram aconselhados pelo STRASS (Sindicato do Trabalho Sexual) a "evitar contacto com a saliva" ou "qualquer posição sexual cara a cara".

À semelhança do que acontece em França, o ato da prostituição em Portugal também não é considerado ilegal. Contudo, muitos trabalhadores do sexo, mulheres e homens, lutam pela descriminalização total, isto é, para que a profissão seja vista como outra qualquer, com sindicatos e todas as regalias sociais (como Segurança Social, seguro de saúde, vistos de trabalho para trabalhadores migrantes, locais de trabalho seguros, sem proxenetas e geridos pelos próprios trabalhadores sexuais).

A possibilidade de estes profissionais ficarem sem abrigo por falta de pagamento da renda ou pelo encerramento de alojamentos locais também preocupa alguns coletivos portugueses, entre os quais o Movimento dxs Trabalhadorxs do Sexo (MTS). "Os que nos contactaram a pedir ajuda já estão nas várias dezenas e aumentam todos os dias" diz Margarida Maria, que também ajudou a organizar uma campanha de angariação de fundos a nível nacional "para ajudar quem foi mais afetado pela pandemia, e que se encontra nas situações mais precárias e marginalizadas" como migrantes, transexuais, mães/pais, com problemas de saúde e em estado de habitação vulnerável.

Na quarta-feira passada, foi enviada uma carta aberta à Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, onde eram solicitadas "medidas extraordinárias de apoio", alertando para a iminência de se atingir um "ponto crítico". "Atesta-se uma dificuldade severa na obtenção de rendimentos ou de meios de subsistência, bem como no recurso a modelos alternativos de trabalho" tais como o teletrabalho e as "webcams". O documento foi redigido com a participação das associações Rede de Trabalho Sexual (RTS), A Coletiva e Grupo de Partilha D'a Vida.

Aumento do consumo de pornografia

Depois de fornecer acesso gratuito ao seu conteúdo "premium" em Itália, França e Espanha para incentivar as pessoas a ficarem em casa, como forma de evitar o contágio do novo coronavírus, o Pornhub alargou a oferta para todo o mundo até 23 de abril. A ação faz parte da campanha "StayHomehub", com o intuito de contribuir para uma maior adesão ao distanciamento social

De acordo com a plataforma de conteúdos pornográficos, à medida que cada vez mais pessoas se submetem a quarentena, bem como ao teletrabalho, manifesta-se um aumento substancial na atividade da página. Aproximadamente 120 milhões de pessoas consomem diariamente os conteúdos disponíveis. Num dia, houve um aumento 5,7% maior do que o habitual, com preferência pela parte da manhã.


26.3.20

Sem rendimentos das feiras, comunidade cigana "já pede ajuda a familiares"

Por Maria Augusta Casaca, in TSF

Com receio da propagação do vírus, comunidade cigana apela a que as autoridades sanitárias olhem para acampamentos sem condições de higiene.

Em estado de emergência e com a esmagadora maioria do país fechado em casa, também as feiras e mercados ficaram sem gente. Sem poderem, por estes dias, vender nesses mesmos espaços, muitos feirantes ciganos estão a passar dificuldades.

"Para ter uma ideia, em Portugal somos cerca de 50 mil ciganos e 70% a 80% são feirantes", diz o presidente da Federação Cigana de Portugal. Rafael Ximens conta que habitualmente estes feirantes têm três a quatro feiras semanais e, não podendo fazer nenhuma, " já estão a pedir ajuda a familiares" para porem o pão na mesa.

Outro problema são as condições precárias em que vivem. Em Beja, por exemplo, está instalada uma grande comunidade desta etnia.

No bairro da Pedreira moram cerca de 800 pessoas. Algumas em casas, outras num acampamento onde só há uma torneira para centenas de pessoas.

Apesar dos alertas que já fez à sua comunidade para que tenha cuidados de higiene, o presidente da Associação de Mediadores Ciganos de Portugal (AMEC), que mora naquele bairro, receia que, nesta altura de pandemia, tal não seja o suficiente.

"Há aqui muitas crianças e eles estão com muito receio", revela Prudêncio Canhoto." Há uma torneira para 300 pessoas."

Por isso, esta associação cigana pede à Cruz Vermelha e à Proteção Civil que coloque tendas no local, com um enfermeiro para ajudar as pessoas e sobretudo produtos desinfetantes."Eles não têm álcool, não têm gel, não têm nada", conta.

25.3.20

“O sabão não é caro, mas é preciso ter ter água corrente”

Ana Cristina Pereira, in Público on-line

Há mais de três mil famílias ciganas a viver em tendas de lona, barracas de madeira, tijolo e/ou zinco ou auto-caravanas. Um desafio ao combate à propagação do coronavírus. Nos últimos dias, os nómadas ainda foram empurrados de um lado para o outro.

Não é um pequeno grupo. Estima-se que mais de três mil famílias ciganas vivam em tendas, barracas ou alojamento móvel. Bruno Gonçalves, vice-presidente da Letras Nómadas, teme o pior. Sabendo que a melhor forma de prevenir a covid-19 é manter alguma distância e lavar as mãos, amiúde, com água e sabão ou com uma solução feita à base de álcool, pergunta-se: “Como é que as pessoas vão fazer isso? O sabão não é caro, mas é preciso ter ter água corrente.”

O número até pode pecar por defeito. No âmbito da Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, em 2013 e 2014 o Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana fez um questionário e chegou àquela estimativa: 32% das famílias ciganas residentes em Portugal têm por morada uma habitação “não clássica”, isto é, uma tenda de lona, uma barraca de madeira, tijolo e/ou zinco ou uma autocaravana.

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Sozinhos em cidades paralisadas por uma pandemia
Esse contexto tem valido assíduos reparos de organismos internacionais, como o Comité Consultivo da Convenção para a Protecção das Minorias Nacionais ou o Comité Europeu dos Direitos Sociais. E está a tirar o sono a activistas como Bruno Gonçalves agora que o mundo procura travar uma pandemia. Como enfrentar o vírus sem pé-de-meia, água canalizada, corrente eléctrica, saneamento básico, recolha de lixo?


Maria José Casa-Nova, coordenadora do Observatório das Comunidades Ciganas, revela particular preocupação com as pessoas que vivem em itinerância – “não forçada por lei, mas forçada de facto”. “Estão numa situação ainda mais precária”, salienta. “Vão sendo expulsas dos locais. Se eventualmente alguma for portadora do vírus, temos uma situação muito delicada.” Nos últimos dias, várias foram empurradas de um lado para o outro.

Essa é a realidade de um grupo de 67 que na sexta-feira se viu forçado a sair de Espanha e tentou acampar num olival próximo de Vila Boim, Elvas. Expulso no domingo, uma parte avançou para os arredores de Estremoz, outra para os arredores de Vila Viçosa. Rui Salabarda, da associação Sílaba Dinâmica, mobilizou outros activistas e a associação Gota d'arte e o Banco Alimentar de Elvas para os ajudar. Sem computadores, nem telefones, não sabiam que havia uma pandemia. Salabarda é que lhes explicou o que estava a acontecer e que cuidados deviam ter.

Alertado por Salabarda, o Alto Comissariado para as Migrações (ACM) accionou a saúde e o apoio social. Foi-lhes então assegurado aquilo a que o gabinete da Secretária de Estado para a Integração e as Migrações chama um “espaço seguro para quarentena”. A caminho de Évora, domingo, uns fizeram paragem em Vimieiro e os outros no Redondo, para que os animais que puxam as suas carroças pudessem descansar. Segunda-feira de manhã, chegaram ao destino e ficaram à espera que a autarquia decidisse onde improvisará um parque nómada, onde serão colocadas sanitas e chuveiros, bem como uma cozinha portátil. Instalaram-se lá, nas imediações da Barragem de Monte Novo, esta terça-feira. “É o que é possível”, resume Salabarda. Pelo menos para já, o delegado de saúde não encontrou sintomas de covid-19 no grupo. Esta quarta-feira, instalou-se um ponto de água e distribuíram-se refeições.


Em Elvas, o Chega “recolheu o ódio da população” contra os ciganos e ganhou votos
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Emergência alimentar
De Norte a Sul, a Bruno Gonçalves, residente na Figueira da Foz, vão chegando notícias de como a pobreza se agrava agora que as feiras não se montam e os mercados não abrem. Nem todos os feirantes preencherão os requisitos para receber os apoios previstos para empresários em nome individual. E alguns têm de pôr mais pratos na mesa ao almoço e ao lanche, agora que as escolas estão fechadas.

Segundo o Ministério da Educação, há cerca de 700 escolas preparadas para continuar a servir refeições aos alunos mais carenciados. Pode ser grande a distância entre a casa e o agrupamento e as autarquias ainda estão a accionar alternativas, como a entregar cabazes de produtos alimentares aos encarregados de educação.

Organizados, dirigentes associativos e mediadores municipais identificaram 70 famílias particularmente vulneráveis - em Afândega da Fé, Barcelos, Ovar, Leiria, Lisboa, Almada, Elvas, Estremoz, etc. Na semana da declaração do estado de emergência, fizeram uma angariação de fundos para lhes fazer chegar vales de supermercado. Isso inclui 15 famílias despejadas do bairro Alfredo Bensaúde, na freguesia dos Olivais, em Lisboa, e a dormir em tendas e carrinhas e patamares de prédios.

“Estamos a priorizar as famílias com crianças ou pessoas mais velhas que necessitem de medicação, mas há muitas que precisam de ser apoiados”, diz Bruno Gonçalves. “Apelo aos bancos alimentares e a outras entidades que tem essa missão de apoiar com alimentos que não se esqueçam destas famílias que ficarem sem o rendimento que as feiras e os mercados lhes davam.” A campanha prossegue (associacaoletrasnomadascigana@gmail.com ).

“Temos estado em contacto permanente com os serviços que prestam assistência a estas comunidades no sentido de dar resposta às necessidades sentidas nesta altura”, responde, por escrito, o gabinete da secretária de Estado. “No caso das crianças e jovens, estamos em articulação com o Ministério da Educação para assegurar o acesso a alimentação proporcionada pelas escolas, assim como a actividades pedagógicas.”

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O gabinete de Cláudia Pereira afiança ainda ter reforçado o acompanhamento, via telefónica, a equipas municipais de mediadores, as equipas de projectos Escolhas, associações ciganas e entidades promotoras de projectos de inserção profissional de populações ciganas. Os mediadores interculturais “têm tido um papel crucial na articulação entre as famílias, as autoridades locais e o Alto Comissariado para as Migrações.”

Especializada em educação, Maria José Casa-Nova chama a atenção para as crianças e jovens, ciganas e não ciganas, que não têm acesso a computador e Internet e que, por isso, não podem acompanhar actividades lectivas online. Muitas nem têm pais que os possam ajudar. “Acho que nos exames nacionais teremos de ver onde ficaram as escolas na altura da paragem para uniformizar e saber que temas podem sair sem prejudicar os jovens que não têm acesso a Net em casa.” Parece-lhe até que, no ensino básico, não sendo possível retomar as aulas nos seus moldes habituais este ano lectivo, se deverá ponderar a possibilidade de passagens administravas.


8.7.15

Nível de vida das famílias portuguesas regrediu em 2013 para níveis de 1990

in SicNotícias

Após uma tímida aproximação aos parceiros europeus, o nível de vida dos portugueses recuou, em 2013, para valores de 1990, ficando 25% abaixo da média europeia, revela o estudo "Três Décadas de Portugal Europeu: Balanço e perspetivas".

O documento, coordenado pelo economista Augusto Mateus e encomendado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, vai ser apresentado hoje e atualiza um estudo anterior ("25 anos de Portugal Europeu") com os anos de 2011 a 2013, os primeiros anos da 'troika' em Portugal, cobrindo todos os ciclos de programação de fundos comunitários desde a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) (1989-1993, 1994-1999, 2000-2006 e 2007-2013).

Segundo o relatório, o "Portugal Europeu passou de uma rota de convergência, concentrada nos anos seguintes à adesão à CEE e na segunda metade da década de 90 e mais intensa em termos de consumo das famílias, para um processo de visível divergência".

No panorama europeu atual, Portugal é incluído num segundo patamar de convergência, composto por países com um nível de vida 20 a 30% abaixo do padrão europeu, incluindo a Eslovénia, República Checa, Eslováquia, Lituânia, Grécia e Estónia, destaca o estudo, indicando que, desde 1999, Portugal apenas se aproximou da média europeia em 2005 e 2009.

Entre 2010 e 2013, o PIB 'per capita' português caiu 7% face ao padrão europeu e o nível de vida das famílias regrediu mais de 20 anos, refletindo a crise económica, a aceleração do processo de globalização, o alargamento da União Europeia a Leste e a aplicação do programa de resgate.

Portugal foi o país europeu que registou maior aumento na fiscalidade entre 2010 e 2013, com a carga fiscal a subir mais de 11%.

O aumento das receitas do Estado ficou a dever-se sobretudo aos impostos diretos, em particular o IRS, que aumentou mais de um terço entre 2010 e 2013, tendo os impostos e contribuições sociais absorvido em 2013, mais de um terço da riqueza criada em Portugal, totalizando cerca de 60 mil milhões de euros.

Portugal é também o Estado-membro em que os juros absorvem uma maior proporção da riqueza criada e o décimo que mais gasta em prestações sociais.

Os encargos com juros aumentaram em 2013 para 5% do PIB, refletindo as dificuldades no acesso a financiamento decorrentes da crise das dívidas soberanas, mas situam-se ainda assim abaixo dos valores registados até meados da década de 90.

O peso das despesas públicas no PIB que, em - 2009, cresceu cerca de cinco pontos percentuais, mantem-se desde essa altura em torno dos 50%, com crescente relevância das despesas com proteção social, cujo impacto no orçamento subiu de 30% em 1995 para 40% em 2013.

O destaque positivo vai para as exportações, cujo peso no PIB passou de 25% para 41% nos 28 anos de Portugal Europeu, enquanto as importações passaram de 27% para 39%. O ano de 2013 foi o primeiro em que o saldo comercial português foi positivo, salientando-se o contributo das exportações de serviços: se, em 1986, valiam um quarto das exportações nacionais, em 2013 já representavam cerca de um terço.

O estudo realça, aliás, que o "Portugal Europeu registou um intenso processo de terciarização, com os serviços a serem responsáveis por mais de três quartos da riqueza gerada em Portugal em 2013" e a registarem um peso na economia nacional 4% superior ao padrão europeu quando em 1987 era 10% inferior

O desenvolvimento da economia portuguesa nas últimas décadas ficou também marcado pela perda de relevância da indústria. Nos últimos 28 anos, o peso das indústrias transformadoras na economia caiu dez pontos percentuais, e só as indústrias alimentares conseguiam alcançar, em 2013, um volume de vendas superior ao registado em 2007.

No entanto, o Norte de Portugal, com um em cada cinco trabalhadores empregados na indústria, continua a destacar-se como uma das regiões europeias mais industrializadas.

Também o setor primário, dominado pela agricultura e produção animal, registou "um claro declínio nos últimos 28 anos", tendo o seu contributo para a criação de riqueza nacional diminuído de 8% em 1986, altura em que representavam mais do dobro da média europeia, para 2% em 2013.

Estas atividades conseguiram interromper, no entanto, nos últimos anos, "o definhamento global registado desde 1995, com um ligeiro aumento do seu peso na economia nacional, a par de progressos mais nítidos nas exportações agroindustriais".

O turismo, responsável em 2013, por 16% do PIB, 18% do emprego e 13% das exportações, tem vindo a afirmar-se como uma das principais atividades económicas em Portugal.

Atualmente, Portugal é o sexto Estado-membro em que o turismo mais pesa no PIB, o quinto em termos de emprego e o quarto em termos de relevância nas exportações.

Lusa

29.12.14

Jovens portugueses emigram para estudar sem pagar propinas

por Ana Bela Ferreira, in Diário de Notícias

Cerca de 200 estão na Dinamarca, onde o ensino superior é grátis. Outros 1200 estão no Reino Unido que financia estudos até arranjarem emprego.

Milhares de jovens portugueses decidiram fazer o curso superior no estrangeiro aproveitando o facto de não pagarem propinas ou poderem contar com financiamento da formação. Um mercado cada vez maior, que já motivou a criação de empresas que ajudam na inscrição e instalação dos estudantes nas regiões e universidades escolhidas.

A Dinamarca é dos países europeus onde não existem propinas o que mais sucesso tem feito junto dos universitários nacionais - em Portugal o valor máximo fixado para as universidades públicas para o ano letivo 2014/15 é de 1069 euros e as privadas estabelecem os seus valores. Neste momento, estudam naquele país do norte da Europa cerca de 200 portugueses, tendo em conta os processos tratados pela agência Information Planet, que também coloca alunos na Austrália, Reino Unido e Canadá.

Miguel Oliveira é um desses exemplos. A frequentar o mestrado de Cultura, Comunicação e Globalização da Universidade de Aalborg, chegou à Dinamarca ainda para fazer a licenciatura, depois de ter recebido "um email" da avó polaca "a informar de uma oportunidade obscura" de estudar neste país "gratuitamente".

Miguel decidiu informar-se da veracidade desta oferta e depois de confirmada e de "uma discussão familiar" sobre o tema, ficou "imediatamente decidido que iria fazer um esforço para me candidatar num dos cursos que queria em Portugal - Gestão Hoteleira". Contou com a ajuda da Information Planet e acabou não só por fazer a licenciatura na University College Nordyjulland, como decidiu continuar para o mestrado.

19.12.14

Desempregados têm quase 4 vezes maior risco de cortar na alimentação

Nuno Guedes, in TSF

Um estudo da DGS mostra que 27,3% dos portugueses adultos que frequentam centros de saúde alteraram o consumo de algum alimento essencial devido a dificuldades económicas. E 17,3% têm insegurança alimentar moderada ou grave.

Os desempregados e as famílias com 3 ou mais filhos têm muito maior risco de cortar na alimentação e estar naquilo a que as autoridades de saúde classificam como «insegurança alimentar moderada ou grave».

Os números estão num estudo publicado esta quinta-feira pela Direção-Geral de Saúde (DGS), "Portugal - Alimentação Saudável em Números 2014".

O trabalho concluiu que 27,3% dos portugueses adultos que frequentam centros de saúde alteraram, em 2013, o consumo de algum alimento essencial devido a dificuldades económicas.

Os números baseiam-se num inquérito que questionou 1282 utentes e perto de 17% são incluídos pela DGS nas categorias de famílias com «insegurança alimentar moderada ou grave». Vendo mais ao detalhe, a insegurança alimentar moderada, que se refere a pessoas que já alteraram ou reduziram uma ou outra refeição ao longo do dia devido a restrições, maioritariamente financeiras, atinge 10,1% dos entrevistados.

A insegurança alimentar grave, referente a pessoas que restringiram drasticamente pelo menos uma das refeições ao longo do dia, atinge 7,2%. Há ainda 33,4% das famílias preocupadas em não ter alimentos suficientes para comer, a chamada «insegurança alimentar ligeira».

Outros cálculos feitos pela DGS, com dados dos inquéritos feitos de 2011 a 2013, permitem ainda ver que os desempregados têm um risco 3,7 vezes maior que um activo de estar numa situação de insegurança alimentar grave.

Nas famílias com 2 filhos o risco de estar em insegurança alimentar moderada ou grave sobe ligeiramente, mas dispara a partir do terceiro filho. Uma família com 3 ou 4 filhos tem um risco 1,6 a 1,9 vezes superior ao de quem tem apenas um filho. Valores que sobem para 3,1 quando olhamos para as famílias com 5 ou mais descendentes.

O diretor do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, e um dos autores do relatório, diz que a caracterização anterior é particularmente importante pois permite identificar os grupos que merecem mais atenção. Pedro Graça explica que o risco de insegurança alimentar é claramente maior no Algarve e na região de Lisboa e Vale do Tejo, em pessoas de famílias mais numerosas e entre os desempregados: «são claramente estes os grupos de risco a que devemos estar mais atentos e preocupados».

O especialista sublinha ainda que os dados revelam que, naturalmente, as pessoas com baixo peso têm 2 vezes maior probabilidade de estar numa situação de insegurança alimentar moderada ou grave, mas esse risco também é ligeiramente maior entre os obesos, numa conclusão que já tinha sido detetada nos Estados Unidos da América e que se encontrou, agora, pela primeira vez em Portugal.

10.12.14

Quarenta mil idosos passam fome em Portugal

in Público on-line

Setenta e seis por cento dos inquiridos têm hábitos alimentares pouco saudáveis, os quais pioram com o avançar da idade Paulo Pimenta

Pelo menos 40 mil idosos portugueses não têm capacidade financeira para comprar alimentos, concluiu um inquérito realizado pela Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco). De acordo com o mesmo estudo, o custo dos produtos alimentares é ainda uma das razões para que não consumam refeições mais saudáveis.

O estudo, realizado entre Fevereiro e Março através de um questionário a que responderam 3400 idosos, com idades entre os 65 e 79 anos, e que será publicado na edição de Novembro da revista Proteste, concluiu que “o preço é o factor que mais decide a escolha” dos alimentos para 64 por cento dos inquiridos, seguindo-se o sabor e a qualidade dos alimentos.

Ainda de acordo com os inquiridos, 76 por cento dos portugueses têm “hábitos alimentares pouco saudáveis, os quais pioram com o avançar da idade”, enquanto cerca de um quarto dos afirmou ter uma alimentação saudável. A “difícil situação económica e a falta de autonomia influenciam de forma negativa o que se come: mais de um quinto dos inquiridos indicou ter dificuldades financeiras”, acrescenta a Deco.

Os autores da investigação apuraram mesmo que três por cento dos inquiridos passou fome na semana anterior a responderem a estas perguntas. Entre os motivos que os idosos apresentam para comer mal estão os problemas dentários (35 por cento), as dificuldades económicas (24 por cento), a falta de apetite (13 por cento) e os medicamentos (12 por cento).

Partindo do princípio que uma dieta equilibrada e saudável precisa de refeições sem mais de quatro horas de intervalo, o inquérito apurou que apenas cinco por cento dos idosos seguem esta norma. Sete por cento dos inquiridos não tomam o pequeno-almoço e, em média, os idosos fazem quatro refeições diárias, o que “é pouco”. As regiões do Norte, Centro e Alentejo são as que têm mais inquiridos a “comer mal”.

No que diz respeito aos alimentos, o estudo apurou uma preferência pela carne em detrimento do peixe, uma opção “pouco saudável”. “O custo do peixe é um dos factores que explica esta opção”, lê-se no estudo.

O inquérito revela ainda que, principalmente nos homens, os idosos bebem mais álcool do que deviam: mais de dois copos por dia, o que “é excessivo”. Também em demasia se encontra o consumo de doces, já que 70 por cento indicaram que os comem, pelo menos, duas vezes por dia.

Este estudo foi realizado a propósito do Dia Internacional dos Idosos, que se assinala quarta-feira.

10.10.14

Crise impede doentes mentais crónicos de irem às consultas

Natália Faria, in Público on-line

Segurança Social tem de dar resposta às pessoas que não têm dinheiro para ir às consultas, alerta Álvaro de Carvalho, director do Programa Nacional de Saúde Mental.

A crise está a fazer diminuir a afluência das pessoas com doença crónica mental às consultas. “As pessoas deixaram de ter dinheiro para custear os transportes, porque estão desempregadas; ou, estando empregadas, porque as entidades patronais se tornaram mais exigentes”, adiantou ao PÚBLICO Álvaro de Carvalho, o director do Programa Nacional para a Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde (DGS).

Não se trata de uma realidade quantificável, mas, para Álvaro de Carvalho, é urgente que a Segurança Social apoie “as pessoas que, por dificuldades económicas comprovadas, deixaram de comparecer às consultas”. Até porque, se não houver resposta atempada, a factura a pagar será muito mais elevada. “Se as pessoas deixarem de se tratar, vão acabar por ir parar às urgências”, sublinhou.

A crise tem, por outro lado, feito a aumentar os casos de maus-tratos a crianças e adolescentes que acorrem quer às urgências psiquiátricas quer às consultas de psiquiatria infantil. “Tal como em qualquer situação de crise económica, temos assistido a um aumento das situações de maus-tratos e de mortes violentas e a uma redução das mortes por acidente de viação”, contextualizou aquele responsável, a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental que se assinala esta sexta-feira.

No diagnóstico à capacidade de resposta dos serviços de saúde mental, há várias lacunas a apontar. Desde logo, faltam camas para internar crianças e adolescentes com problemas mentais. O país dispõe de apenas 20 (10 em Lisboa e 10 no Porto) e seriam precisas pelo menos 40. Já em Julho, o director do Serviço de Pedopsiquiatria do Hospital Psiquiátrico de Coimbra, José Garrido, explicava que a inexistência de camas para internamento obriga a que estas crianças e adolescentes sejam incorrectamente seguidos em consultas externas. Consequentemente, os médicos recorrem a “doses de medicação mais elevadas para conter comportamentos desadequados de forma puramente química”, como alertou então aquele responsável.

Cinco médicos para 66 mil habitantes
O grupo de trabalho que avaliou, em meados deste ano, a prestação de cuidados de saúde mental em Portugal, e a fazer um levantamento das respectivas necessidades, concluiu que, no âmbito da psiquiatria da infância e adolescência, existem apenas cinco pedopsiquiatras por cada 66 mil habitantes. No Alentejo, a desproporção é ainda mais vincada: há apenas um médico por cada 66 mil habitantes. A resposta a este problema, segundo Álvaro de Carvalho, terá de passar pelo reforço da capacidade formativa. “Só temos dois centros formativos nesta área, em Lisboa e no Porto. Quando tivermos Coimbra também a funcionar, vamos aumentar essa capacidade em pelo menos um terço”, enfatizou.

No tocante à psiquiatria de adultos, há médicos que cheguem mas estão mal distribuídos. Portugal tem dois médicos por cada 25 mil habitantes, o dobro do recomendado, mas no Alentejo, por exemplo, esse rácio desce para os 0,5 médicos por cada 25 mil habitantes. Por causa de problemas como este, o relatório, que esteve até ao final de Setembro em consulta pública, conclui: “Os tempos de espera para consulta, mormente após a alta de um episódio de internamento, facilitam os reinternamentos, obstaculizando as probabilidades de recuperação de padrões de vida compatíveis com a dignidade da pessoa portadora de doença mental”.

2.10.14

Um quinto dos idosos no Alentejo não tem dinheiro para comida

in Jornal de Notícias

Um quinto dos idosos no Alentejo afirma não ter dinheiro para se alimentar, revelaram esta segunda-feira os responsáveis do Observatório de Saúde, apontando o envelhecimento da população sem os cuidados adequados como um dos problemas mais graves do país.

A denúncia foi feita durante uma audição na Comissão Parlamentar de Saúde, requerida pelo BE e pelo PS, para "esclarecimentos sobre o Relatório da Primavera 2014".

Os coordenadores do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) Ana Escoval e Manuel Lopes apontaram a população idosa e a saúde mental como dois dos assuntos mais "graves" e a necessitar de respostas urgentes.

Sobe os idosos, Manuel Lopes revelou aos deputados da comissão que "alguns grupos de investigação estão a estudar os idosos e dizem que o que está a acontecer no Alentejo é que 20% destas pessoas afirmam que não têm dinheiro para se alimentar adequadamente".

Outro aspeto sublinhado é que para a população com mais de 75 anos a questão da difícil autonomia e necessidade de ajuda é "muito grave".

"Há pessoas enclausuradas em casa há muitos anos, em prédios antigos sem elevador, e sem cuidadores. Isto é um problema muito grave. Preferimos alimentar a indústria do betão do que dar a possibilidade de as pessoas se manterem em casa", afirmou o responsável, citando duas recentes teses de doutoramento sobre esta realidade nos bairros históricos e Lisboa e do Porto.

O coordenador do OPSS salientou ainda que nos casos em que os idosos têm cuidadores, estes são frequentemente pessoas de idade idêntica, com dificuldades idênticas e em exaustão.

Relativamente ao problema da saúde mental, os responsáveis mostraram-se particularmente preocupados com a falta de recursos humanos para cuidar destes doentes e com o tempo de espera entre o aparecimento dos sintomas e o início dos tratamentos.

O tempo que medeia o início dos sintomas, a primeira consulta e o começo dos tratamentos "está acima de todas as médias europeias" e está a aumentar, disse, considerando este um dado de "enorme importância que precisa de ser considerado".

Ana Escoval apontou ainda o facto de os hospitais serem financiados em função do número de camas, ficando sem meios para fazer o acompanhamento domiciliário, os tratamentos na comunidade.

Para ilustrar a falta de recursos humanos nesta área e a incapacidade de contratar alguém, a mesma responsável contou que num hospital do Norte foi dada ordem para encerrar o serviço de psiquiatria no mês de agosto.

O serviço só não fechou, porque os profissionais se organizaram e voluntariaram para conseguir manter a unidade em funcionamento, não acatando a ordem superior de encerramento, contou.

Para a responsável este é um dos casos que se passam nas unidades do Serviço Nacional de Saúde e que são sintomáticos do estado de exaustão em que se encontram os profissionais e para o qual as ordens dos médicos e dos enfermeiros têm vindo a alertar.

Manuel Lopes salientou que os serviços de saúde mental e de psiquiatria que o país tem são "muito maus", frisando que "em toda a região sul não há resposta nenhuma para a área da saúde mental".

Nesta audição, os deputados limitaram-se a tecer considerações sobre o conteúdo do documento, com os partidos da esquerda a sublinhar as conclusões do relatório e os deputados da direita a acusarem o observatório de ser movido por interesses político-partidários.

Teresa Caeiro, do CDS, disse mesmo que o relatório é um "canhenho de subjetividade", a pretender fazer literatura em vez de apresentar propostas.

Em resposta, Manuel Lopes afirmou que a "acusação de subjetividade a pessoas que se preocupam com investigação é das coisas mais ofensivas que se pode dizer".

Ana Escoval quis deixar claro que "isto não é para fazer panfleto político, é para chamar a atenção das pessoas, fazendo-o com base na evidência científica existente".

19.9.14

Padres alertam para "drama" na região do Douro

por Olímpia Mairos, in RR

Padres da Régua, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio denunciam graves problemas económicos e sociais associados à vitivinicultura. “A pobreza está a aumentar no Douro", alertam, pedindo a intervenção “urgente” de Presidente da República, Governo e Assembleia da República.

Os párocos da região do Douro - Régua, Santa Marta de Penaguião e Mesão Frio - alertam, em comunicado, para o "drama socioeconómico” dos pequenos e médios vitivinicultores do Douro, que “há praticamente uma década, perdem rendimentos provenientes da vinha”.

“A pobreza está a aumentar no Douro e ninguém faz nada para contrariar a situação”, diz à Renascença Luís Marçal, pároco do Peso da Régua, salientando que “há vinhas onde o produto da venda das uvas não dá sequer para pagar a vindima”.

O sacerdote diz que, nos últimos 10 anos, o preço dos vinhos para os pequenos e médios viticultores diminuiu “mais de 50%”, ao mesmo tempo que “as despesas de cultivo foram sempre aumentando”, havendo, por isso, "vitivinicultores a arrancarem as vinhas”.

“Percorremos o Douro e vemos vinhas transformadas em monte, abandonadas, e há montes que estão a ser saibrados para serem transformados em vinha. Se dá para alguns transformarem os montes em vinha, por que é que, para outros, não dá, a ponto de terem que a abandonar?”, questiona o padre Luís Marçal.

O sacerdote garante que “é possível" fazer do Douro uma “mesa enorme”, onde todos se sentem “ao mesmo nível, a comer do mesmo pão, a beber do mesmo vinho”, assegurando que os sacerdotes da região vão continuar a “lutar por essa possibilidade”.

“É preciso acabar com o jogo em que o poderoso engole o mais fraco”
Rrecorrendo a uma passagem do Antigo Testamento, Luís Marçal lembra que “quando o patriarca Jacob deixou a herança aos filhos, chamou ao vinho o sangue das uvas”, para concluir que “as uvas são sangue da videira e a videira é o sangue do lavrador”.

“É pena que, na nossa região, poucos vampiros e sanguessugas chupem o sangue de tanta gente”, lamenta.

Em causa está, sobretudo, a falta de “medidas” que protejam os pequenos e médios vitivinicultores face à actuação das “grandes empresas de comercialização”, que “dominam cada vez mais o mercado”, refere o pároco.

O relacionamento entre as duas partes, na região demarcada do Douro, é “cada vez mais desigual”, sublinha o sacerdote, e “o luxo protegido dos mais poderosos contrasta com a miséria e as lágrimas da maioria dos que ali residem e fazem vida”, conclui.

“É preciso acabar com o jogo da competitividade, da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco”, defende o padre Luís Marçal.

Por outro lado, as instituições ligadas aos pequenos produtores, como as adegas cooperativas, “entraram, por múltiplas razões, em crise financeira” e outros organismos foram pura e simplesmente extintos”.

A extinção da Casa do Douro, que era, há mais de 80 anos, “o sustentáculo dos produtores de vinho da região, uma espécie de mãe dos vitivinicultores” e a passagem das suas “atribuições” para “um organismo do Estado”, o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), é outra das preocupações dos sacerdotes.

"Nada" de política
Não é intenção dos párocos “assumir qualquer posição político-partidária”. O que os move é “a defesa dos pequenos e médios vitivinicultores desta região”. Por este motivo, pedem uma intervenção “urgente” do Presidente da República, Governo e Assembleia da República.

“Tão urgente quanto necessário, para tranquilizar os lavradores do Douro. Para lhes dar um pouco de conforto, de alegria e de paz. Para evitar as tantas insónias que sofrem ao verem que terminou a vindima e têm que começar outra colheita, sem apoios nem garantias - a cavar a sua sepultura económica”, defende o padre Luís Marçal.

24.7.14

Portugueses consumiram menos fruta, carne, leite e vinho em 2013

in Jornal de Notícias

Os portugueses consumiram menos carne, leite, fruta, vinho e cereais em 2013, um ano que fica também marcado por um ligeiro aumento do défice da balança comercial de produtos agrícolas e agroalimentares, segundo o Instituto Nacional de Estatística.

Cada residente em território nacional consumiu, em média 105 quilos de carne (106 em 2012), 130 quilos de cereais (131 em 2012), 80 litros de leite (83 em 2012) e 40 litros de vinho (47 em 2012).

O consumo de leite e derivados tem vindo a decrescer desde 2008 (-10,3% entre 2008 e 2013), atingindo apenas 1307 mil toneladas em 2013.

No caso do vinho, a produção registou um acréscimo de 12,2% na campanha de 2012/2013, enquanto o consumo caiu 16,5%, melhorando o grau de aprovisionamento

Quanto ao arroz, o consumo humano manteve-se estável (16,3 quilos em 2013 face aos 16,2 quilos consumidos em 2012), não acompanhando a tendência de decréscimo da produção (-6,4%), o que obrigou a um aumento das importações (58,3%) para satisfazer as necessidades de consumo.

Em termos de fruta, o consumo "per capita" ficou-se pelos 98 quilos na campanha de 2012/2013, menos 13,4 quilos do que na anterior campanha.

Portugal não é autossuficiente em frutos e importou, em média, cerca de 30% do que consumiu entre 2010/2011 e 2012/2013.

No que respeita à carne, Portugal produziu apenas 72,9% da quantidade necessária para satisfazer as necessidades de consumo (76% em 2012).

O saldo da balança comercial agroalimentar em 2013 foi deficitário em 3,7 mil milhões de euros, o que significa mais 39 milhões de euros do que no ano anterior.

As importações aumentaram 5,6%, atingindo um valor de 7,2 mil milhões de euros, enquanto as exportações cresceram 11% face a 2012, totalizando 3,5 mil milhões de euros.

O saldo da balança comercial dos produtos florestais manteve-se excedentário (2,5 mil milhões de euros) e melhorou 140 milhões de euros face a 2012.

21.7.14

Desemprego vale redução na renda em bairros sociais de Gaia

Pedro Oliveira Pinto/ Pedro Rothes/ Miguel Cervan, in RTP

Os moradores dos bairros sociais de Vila Nova de Gaia que fiquem desempregados vão passar a beneficiar de uma redução nas rendas durante um período de três meses. Durante esse tempo vão ter pagar apenas cinco euros mensais de prestação. A medida surge como resposta aos vários pedidos de ajuda. Só no ano passado, a autarquia recebeu setecentos pedidos de reavaliação do valor das rendas.

Governo português anuncia bolsas de 1.200 euros para jovens desempregados que voltem a estudar

in Portal Digital

O governo português anunciou a criação de 3.000 bolsas, no valor de 1.200 euros anuais, para jovens desempregados, com menos de 30 anos, que queiram voltar a estudar no próximo ano letivo.

Lisboa - O governo português anunciou a criação de 3.000 bolsas, no valor de 1.200 euros anuais, para jovens desempregados, com menos de 30 anos, que queiram voltar a estudar no próximo ano letivo.

Estarem em comprovada situação de desemprego, teram menos de 30 anos e conseguir completar a licenciatura até essa idade são algumas das exigências do governo do primeiro-ministro Passos Coelho. E, é claro, terão de comprovar aproveitamento escolar.

As bolsas, no valor de 100 euros mensais (cerca de 300 reais), suportam, na prática, o custo das mensalidades (propinas) cobradas pelas instituições públicas de ensino. O governo, por seu turno, pagará às instituições de ensino 300 euros por cada aluno que admitam.

Milhares de jovens portugueses abandonaram as universidades nos últimos anos por falta de condições económicas para prosseguirem os estudos.

1.7.14

Débitos directos. Falta de saldo leva à recusa de 39 mil pagamentos por dia

Por Filipe Paiva Cardoso, in iOnline

Durante o ano passado foram recusados mais de 2 mil milhões de euros em pagamentos por débito directo por falta de dinheiro dos clientes. Total de recusas subiu 5%

Foram recusados mais de 38,6 mil pagamentos por débito directo em cada dia do ano passado, perto de 10% do total de pagamentos realizados diariamente por esta via, segundo dados do Banco de Portugal ontem divulgados. Houve assim um crescimento de 5,1% nas recusas de débitos directos face a 2012, ano em que se registaram 36,7 mil recusas por dia.

Segundo as estatísticas disponibilizadas pelo banco central, em 2013 registaram-se um total de 141,2 milhões de operações por débito directo em Portugal, um valor 6% acima dos 133,2 milhões de pagamentos deste género registados em 2012. Das 141,2 milhões de operações de débito directo de 2013, mais de 15 milhões foram rejeitadas, a grande maioria das quais (91,7%) por falta de saldo nas contas associadas aos pagamentos. No ano anterior, e ainda segundo o banco central, tinham sido recusados 14,6 milhões de débitos directos, 13,4 milhões dos quais (91,8%) por falta de provisão.

Fazendo contas às duas percentagens para o peso da falta de dinheiro nas recusas de débitos directos, conclui-se que houve um crescimento de 4,8% no total de pagamentos recusados por falta de dinheiro nas contas de 2012 para 2013 - os 13,4 milhões de débitos directos recusados em 2012 passaram a 14,05 milhões em 2013. Apesar da subida no total de débitos directos recusados, acabou por se registar uma quebra no total do valor que ficou por pagar.

Os dados do Banco de Portugal mostram que no total de débitos directos recusados em 2013 ficaram em causa pagamentos no valor de 2,34 mil milhões de euros, montante que em 2012 atingia os 2,67 mil milhões de euros. A diferença de valores significa que no ano passado ficaram por pagar 5,7 milhões de euros por dia, ao passo que em 2012 esta verba ficou muito perto dos 6,5 milhões de euros diários. Esta queda ocorre num cenário em que o valor dos pagamentos feitos por dia até subiu, 1,6%, de 49,6 milhões de euros em 2012 para 50,4 milhões durante o ano passado.

Cheques em queda abrupta O Banco de Portugal avançou ontem com o Relatório dos Sistemas de Pagamentos de 2013, onde, além dos dados relativos a débitos directos, foram também divulgados valores relativos aos outros meios de pagamentos disponíveis em Portugal. Neste campo, destaque para os cheques, cada vez mais em desuso, que registaram uma redução de 14,4% na quantidade utilizada. Esta quebra implicou também uma redução no total de cheques devolvidos, que em 2013 atingira os 302 mil, uma queda de 36,7% face a 2012.

Do total de cheques devolvidos no ano passado, a maioria deveu-se igualmente à falta ou insuficiência de provisão (222 mil), com os cheques carecas a representarem 73,5% do total de devoluções. Em 2012 tinham sido devolvidos por falta ou insuficiência de provisão 370 mil cheques, mais 40% que no ano passado. Os cheques que foram devolvidos por estarem fora de prazo foram o segundo mais grupo dos devolvidos, com um peso de 6,4%, seguidos pelo dos cheques devolvidos a pedido do banco tomador (5,9%).


Taxa de rejeição mais elevada no crédito ao consumo

Débito directo regista taxa de rejeição mais alta nos pagamentos

Os pagamentos por débito directo registam “uma taxa de rejeição média significativamente mais elevada” que os cartões de pagamento, cheques ou transferências, avança o Banco dePortugal no relatório ontem divulgado. “Contudo, as empresas credoras que utilizam este instrumento de pagamento apresentam rácios de devolução bastante distintos entre sectores de actividade”, lê-se também no mesmo relatório sobre a utilização dos meios de pagamento em Portugal durante 2013.

Há assim uma enorme variação nas taxas de rejeição de cada sector, que em termos individuais vão de uma empresa com 0,52% de débitos directos rejeitados a outra com 69,59%, segundo o banco central. Tendo em conta a dificuldade de viver sem luz, água ou gás, não é de estranhar que este sector registe a taxa mais baixa de rejeição de débitos directos, na ordem de 1,3%. Por outro lado, “as ‘actividades desportivas/culturais’ registaram uma taxa de rejeição de 6,3%. Os serviços prestados por seguradoras corresponderam à terceira categoria em que o peso relativo das rejeições foi menos elevado”, com 9,2%.

Já nas telecomunicações, diz o Banco dePortugal, os pagamentos por débito directo rejeitados representam 11% do total, um valor que todavia é inflacionado por “uma entidade credora com um comportamento que difere de forma notória das restantes, registando uma taxa de rejeição bastante superior e influenciando negativamente o indicador deste sector”. Segundo o BdP, “caso esta entidade não fosse tomada em consideração”, as telecomunicações teriam uma taxa de rejeição de apenas 3,9%. Obanco central não divulga qual a entidade que tem uma taxa anormalmente elevada de rejeições.

Por fim, é no crédito ao consumo que se encontra a taxa de rejeição mais elevada, com 29,6% segundo o banco central.

4.6.14

"Dificuldades têm de ter um horizonte em que a cruz não pese só sobre uns"

Por Notícias Ao Minuto

D. António Francisco dos Santos fala com “pena” da austeridade e do impacto que as medidas do programa de ajustamento tiveram nos portugueses. Em entrevista ao Diário Económico, o bispo do Porto classifica o desemprego como um “dos dramas maiores” e que, quando prolongado, pode criar “desilusão” nos portugueses.

Três anos de uma elevada dose de austeridade volvidos, o bispo do Porto diz que ainda encontra “dificuldade, privação e alguma ansiedade em relação ao futuro com a ameaça do desemprego”.
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Em entrevista ao Diário Económico, D. António Francisco dos Santos classifica o desemprego como “um dos dramas maiores, sobretudo quando é demorado”.

Para o sacerdote, “as pessoas que não encontram emprego começam a viver uma certa desilusão” e os “portugueses precisam de sentir” a verdade “com mais clareza” através de uma “mensagem mais compreensível”.

Ainda sobre a crise financeira que assolou as famílias portuguesas, o bispo diz que “as dificuldades têm de ter um horizonte de sacrifícios em que a cruz não pese apenas sobre uns e outros sejam dispensados desse esforço”.

Sobre a igualde do pacote de austeridade nos portugueses, D. António Francisco dos Santos revela que “o peso das dificuldades recaiu mais sobre as pessoas frágeis” e que tal o deixa com “pena”.

“Creio que todos nós podemos ajudar a corrigir erros e a percorrer caminhos em que a equidade e a repartição das exigências sejam justas”, conclui.

11.4.14

A diferença que faz mais 15 euros no salário mínimo

por Joana Costa, in RR

O Governo admite aumentar o salário mínimo para os 500 euros. Maria, Patrícia e Carla continuariam a fazer contas à vida, mas ficariam satisfeitas.

São mães. Trabalham. Muito. Mas têm outro denominador comum: ganham o salário mínimo nacional. Ou menos. Numa altura em que o Governo volta a colocar na ordem do dia o possível aumento do salário mínimo para os 500 euros, a Renascença foi conhecer as histórias de Maria, Patrícia e Carla.

''Mais 15 euros já dão para a água''

São 482 euros a dividir por dois. É esta, todos os meses, a conta da vida de Maria de Fátima Correia.

Natural de Resende, 45 anos, vive há 10 no Porto, onde é empregada de balcão num café. Mãe solteira tem uma filha de 16 anos a cargo. As incansáveis e longas 11 horas de trabalho diário dão-lhe um ordenado base ligeiramente abaixo do salário mínimo.

“Com esse dinheiro pago 283 euros de renda, 48,50 de luz, mais 13 ou 14 euros de água, internet, compras de supermercado. Tento comprar tudo linhas brancas, não me posso dar ao luxo de comprar comidas e roupas de marca. Compro roupa nas feiras, nos chineses, e tenho pessoas amigas que também nos vão dando roupas”, diz.

Há muito que Maria não sabe o que é jantar ou almoçar fora. “Faço isso só duas vezes por ano, no aniversário da minha filha e no meu. É uma espécie de miminho”, confessa à Renascença. E as refeições caseiras não incluem “menus caros, como vitela ou salmão”.

Outra maneira de “equilibrar” as contas é “evitar transportes”. “Tentei sempre procurar casa e escola para a minha filha perto do trabalho. É assim que consigo ir vivendo e no fim do mês, se me sobrar umas moedas, dou graças a Deus”, desabafa.

A ajuda, a baixa e a sombra do desemprego
Apesar do rigor quase milimétrico no controlo das contas mensais, Maria de Fátima recebe um apoio para o sufoco ser menor. À Cáritas do Porto vai buscar, mensalmente, um cabaz com alimentos básicos. Foi também a esta IPSS que, há pouco tempo, pediu, pela primeira vez, ajuda para pagar a renda. Ainda espera resposta.

“Fui operada e estive de baixa dois meses. Se o ordenado assim já não dá, imagine com 50 ou 60%”, explica.

É também, por isso, que defende o aumento do salário mínimo nacional para os 500 euros.

“Pode não fazer muita diferença, mas já é uma ajuda. Mais 15 euros já dão para a água e o dinheiro que dava antes para a água já vai dar para fazer mais compras no fim do mês. É muito pouco, mas é melhor que nada”, refere.

Enquanto esse valor não chega, Maria procura empregos com salário mais alto. Mas a quarta classe já não chega sequer para encontrar outra opção na sua área de trabalho, a restauração. A sombra e o medo do desemprego ganham ainda mais força na sua vida.

“Se ficar desempregada tenho de abandonar tudo, ir para alguém da minha família, porque aí não consigo mesmo. O fundo de desemprego dura algum tempo. Mas depois começa a diminuir. Se eu com o dinheiro da baixa não estou a conseguir viver, porque tive de pedir ajuda, se for para o fundo do desemprego também não consigo”, diz.

Há dez anos recomeçou a vida do zero, deixando Resende rumo ao Porto. Mas nessa época vivia melhor. “O meu ordenado era o mesmo de agora, mas as coisas não eram tão caras. Tudo aumentou e os ordenados continuam iguais. Sobrevive-se. Vivemos um dia de cada vez à espera do que vem a seguir”.

Sobrevive-se a viver em casa dos pais

“Este casaco foram os meus pais que me deram nos meus anos. Vão dando muita coisa. O meu pai, graças a Deus, mantém um bom emprego e os meus avós sempre ajudaram. Sobrevive-se com a ajuda e a viver em casa dos pais”.

Aos 28 anos e com um filho de dois, Patrícia Rebelo viu-se obrigada a regressar a casa dos pais, juntamente com o companheiro, mesmo tendo comprado um apartamento em 2006. Agora ganha o salário mínimo.

“No trabalho anterior também ganhava o ordenado mínimo, mas ganhava subsídio de alimentação que dava uma média de 600 euros a nível de recibo. E recebia comissões, porque era num cabeleireiro da alta sociedade. No total, recebia entre 900 a 1200 euros por mês”, conta para explicar a aquisição do imóvel que hoje está fechado, apesar das despesas contínuas.

Com os 467 euros que agora caem mensalmente na sua conta, Patrícia paga a prestação da casa (onde não vive), água e luz da mesma, o infantário do filho e o gasóleo que a permite ir de Fânzeres, Gondomar, onde vive, até Vila Nova de Gaia, onde ainda trabalha como cabeleireira.

É assim há um ano. Sobram 50 euros. “Por isso, o aumento do salário mínimo de que agora falam faz diferença. Quinze euros quando só sobram 50 no fim do mês fazem a diferença”.

Onze horas a trabalhar
“Esta semana apareceu-me um trabalho novo. Liguei, fui à entrevista. Para a semana vou uma tarde à experiência. Se correr bem vou receber 550 euros limpos. Vale a pena, porque é muito mais perto de casa e gasto muito menos em transportes”, confessa, sem esconder a ansiedade.

Trabalhadora com contrato a termo certo, renovável a cada seis meses, diz ter sido obrigada a aceitar o emprego actual. Recebeu subsídio de desemprego durante nove meses.

“Desde que estou empregada que, todos os dias, procuro um novo emprego, um onde não seja explorada. Na nossa área há muita exploração, sobretudo a nível de horas. Trabalho 11 horas por dia. Das oito e meia da manhã às sete e meia da tarde, com uma hora de almoço”, refere.

Apesar do actual cenário, Patrícia tem a esperança da juventude na voz. “Sou positiva perante a vida. Acho que isto vai melhorar e que vou conseguir uma coisa melhor”.

''Nem que fossem só 50 cêntimos a mais''

Viver com o salário mínimo é uma luta. Mas há quem viva com menos.

Se ganhasse o dobro, Carla Silva, 42 anos, empregada de limpeza, ganharia pouco mais do que o ordenado mínimo. As quatro horas e meia de trabalho diárias, repartidas por “dois horários ingratos” no início da manhã e no final do dia, pagam-lhe 266 euros por mês.

“Pouco sobra para a gente comer ou para suportar qualquer tipo de despesas”, deixa escapar mal recebe a Renascença em sua casa. A mesma que lhe tira 250 euros todos os meses, a maior fatia do magro orçamento familiar.

“A primeira coisa é pagar a renda. Não posso ficar sem casa, porque tenho uma filha”.

Sem janelas nos quartos e virada para as traseiras de uma rua central do Porto, é mais barata do que a anterior. Na rua paralela pagava 310 euros até Agosto passado. Na altura, estava longe de imaginar o que lhe iria acontecer.

“Usufruía do Rendimento Social de Inserção. Como trabalho, recebia só uma parte no valor de 122 euros. Mas, no ano passado, apareceram uns serviços extra. Fiz a prova anual de rendimentos em Dezembro na Segurança Social e em Janeiro recebi uma carta a dizer que me retiravam esse dinheiro por ter feito umas horas a mais”, conta, com lágrimas nos olhos.

Luta constante
Com uma filha de nove anos e um marido desempregado há mais de três anos a cargo, conta até Maio com mais 140 euros mensais – o valor da formação de Fernando, o marido, no centro de emprego.

“É uma luta constante. Este ano foi mesmo uma desgraça total, logo no início com a perda do RSI. Perdi também o sector onde fazia duas horas a mais. Depois veio a grande conta da luz. Foi tudo um caos. Bati no poço e tive de pedir ajuda”, desabafa.

A Cáritas Diocesana do Porto, para além de um cabaz mensal de alimentos, que “por vezes inclui iogurtes para a menina”, paga também a medicação do marido, que sofre de depressão.

A saúde é, aliás, uma das maiores preocupações de Carla, na hora de fazer contas. “Se a minha filha fica doente, eu não tenho dinheiro para uma receita”.

Órfã desde os 18 anos, encontra na sogra o único e parco apoio familiar. Talvez por isso não esqueça a sua grande prioridade na hora dos desejos para o futuro.

“Nem que fossem só mais 50 cêntimos. Cinco euros a mais por mês. Hoje em dia fazem muita falta. Dariam para o leite, para que nada falte à minha filha. Pelo menos, para ela. Tentamos sempre que o sofrimento dela seja mínimo”.

27.3.14

Dez quilómetros de sofrimento para ter consultas

Paulo Lourenço, in Jornal de Notícias

Sem transportes, nem dinheiro para táxis, Ofélia empurra a cadeira de rodas da filha deficiente, estrada fora, para a levar ao médico. Mas o drama social começa na falta de condições da casa onde vivem.

Desde setembro, que Ofélia Marques, 52 anos, é vista a empurrar a cadeira de rodas da filha pela berma da Estrada Nacional 3 (EN3), entre Vaqueiros, a aldeia onde habitam, e Pernes (concelho de Santarém), onde fica o Centro de Saúde onde ambas são assistidas. São cinco quilómetros em cada sentido a enfrentar o perigo e a despender um esforço desumano. "Qualquer dia rebento", desabafa ao JN, sem esconder a amargura pela situação que se arrasta desde setembro, quando o médico deixou de dar consultas na extensão da sua aldeia.

A Junta de Freguesia lembra que a população da aldeia é maioritariamente idosa e reclama o regresso das consultas à aldeia uma vez por semana e diz que disponibilizou instalações, equipamento informático e uma administrativa, mas tal não voltou a acontecer. Uma situação que a responsável pelos Centros de Saúde de Santarém justifica pela fraca utilização daquele posto de saúde.

Sem médico à porta, a vida de Ofélia e da filha Patrícia, atualmente com 31 anos, complicou-se ainda mais. Divorciada desde que a bebé tinha 3 meses, criou sozinha, e sem qualquer apoio do ex--marido, a menina. Nunca teve oportunidade de trabalhar. Hoje, subsiste apenas com os 400 euros de pensão que recebe pela invalidez da filha.

A casa onde vivem não tem as mínimas condições de habitabilidade, muito menos para acolher uma deficiente profunda, pelo que a solução proposta pelo ministro Paulo Macedo de consultas domiciliárias (ver caixa) levanta algumas reservas.

"A Ofélia está disponível para ir viver com a filha para uma instituição que as acolha. Estamos a tentar encontrar uma, mas não é fácil, resume Carlos Trigo, presidente da Junta de Freguesia.