Sónia Santos Pereira, in DN
Crise após crise, as remunerações dos portugueses perdem valor. Jovens qualificados são empurrados para fora, porque tecido empresarial não acompanhou a sua evolução.
75% do emprego em Portugal está em setores com baixa produtividade e isso reflete-se nos níveis remuneratórios.
Foi há quase vinte anos que surgiu o termo mileuristas para designar os jovens altamente qualificados que entravam no mercado de trabalho com um salário de 1000 euros. O conceito surgiu em Espanha, mas atravessou fronteiras. O problema estava longe de se circunscrever ao país vizinho. Em Portugal, as remunerações de entrada dos recém-licenciados eram até mais baixas. Passaram duas décadas e o problema mantém-se no essencial. E ao longo deste período houve uma real perda de poder de compra. Como aponta o economista João Cerejeira, "para comprar o mesmo que se comprava em 2002 com um salário de mil euros, seria necessário hoje um salário de 1422 euros", ou seja, mais 42%. Nestes vinte anos, os salários pouco subiram e muitos congelaram, principalmente no período da troika. A grande exceção foi o salário mínimo nacional, que duplicou. No ano passado, 56% dos trabalhadores recebiam um salário inferior a 1000 euros. Nos mais jovens, a percentagem era de 65%.
Para João Cerejeira, há três dimensões que explicam a existência destes mileuristas. O professor da Universidade do Minho lembra que o número de alunos do ensino superior registou um crescimento exponencial (desde a entrada na União Europeia, o número de universitários multiplicou por quatro) e o efeito foi o aumento da oferta no mercado de trabalho dos mais qualificados. Em simultâneo, as universidades diversificaram as propostas educativas e surgiram mais graus académicos. Estes movimentos criaram "uma maior heterogeneidade nos retornos económicos dessas formações. O que notamos nos estudos mais recentes é que a dispersão dos salários de quem acaba o curso é maior do que era há uns anos". No cerne, temos "o fraco crescimento da economia portuguesa que vai desde 2000 até à pandemia", diz. São 20 anos "de crescimento muito lento", em que "o emprego aumenta, mas o valor gerado por trabalhador sobe muito pouco. E isso está associado a um crescimento muito lento dos salários".
O crescimento quase anémico da economia portuguesa deve-se ao seu padrão de especialização, que se caracteriza pela "presença muito forte no conjunto da atividade económica de ramos com baixa produtividade", aponta o economista José Reis. A realidade é que "75% do emprego em Portugal está em ramos com produtividade igual ou inferior a 90% da produtividade média, alguns até bastante inferior". E desse volume de emprego, 22% concentra-se no comércio, alojamento e restauração; 17% em atividades administrativas e de apoio (serviços); 8,4% nos ramos industriais menos produtivos; e 5% na agricultura. José Reis lembra que a economia do país bateu no fundo em 2013, mas conseguiu recuperar o emprego. Embora de níveis salariais baixos. Até 2019, foram "criados 520 mil postos de trabalho, mas 314 mil foram nestes ramos de baixa produtividade", sublinha. Na sua opinião, o país "desindustrializou-se mal e terciarizou-se através de ramos de baixa produtividade". Exemplo disso é o setor do alojamento, restauração e similares, onde o salário médio corresponde a 69% do salário médio nacional.
A consequência mais evidente destes níveis salariais é a emigração. José Reis lembra que, desde 2011 para cá, a média anual de emigrantes aproxima-se das 100 mil pessoas. "Este valor é da emigração permanente e temporária [menos de um ano]. Há gente que vai lá para fora mesmo que vá voltar no próprio ano". Para o professor da Universidade de Coimbra o sistema de emprego português "não é inclusivo" e os jovens portugueses, hoje mais qualificados, cosmopolitas, têm apetência pelo estrangeiro. A estrutura da economia não mudou o suficiente nestes vinte anos para que um jovem tenha uma oferta salarial muito melhor, diz. "Podem estar a beneficiar do salário médio valorizado, mas temos o algodão da emigração que não engana". Para José Reis, as empresas "acantonam-se no lado fácil da economia. Os grandes protetores da classe empresarial portuguesa são os trabalhadores que são incorporados nessas empresas através de níveis salariais muito baixos", critica. E defende a necessidade "de olhar para as baixas qualificações das lideranças empresariais e do tipo de organização que criam".
O sociólogo Elísio Estanque também reconhece a existência de "um défice de visão estratégica e de formação de liderança" na classe empresarial, admitindo que possa ter havido falhas na criação de "programas de formação profissional para quem dirige as empresas, nomeadamente as indústrias, que continuarão a ser vitais na oferta de emprego e para alavancar a economia". Até porque o crescimento da economia nacional não acompanhou a elevação das qualificações das gerações mais novas, gorando as expectativas criadas com a integração na União Europeia de mobilidade social ascendente, melhoria das condições de vida e dos padrões de consumo. "O tecido económico, nomeadamente do setor privado, não teve capacidade de acolher essas competências técnicas, tecnológicas e formativas das novas gerações", frisa. Segundo Elísio Estanque, "Portugal em certa medida estagnou, porque é muito difícil compreender que 20 anos depois o poder de compra real não tenha evoluído significativamente". "O salário mínimo aumentou, mas os salários médios mantêm-se praticamente idênticos", diz. O contexto junto de "uma juventude que começou a pensar numa escala transnacional" conduziu à emigração. "Estou convencido que essa camada de jovens que emigraram, bem qualificados, são bem-sucedidos no estrangeiro, onde os salários são maiores e as condições laborais e de carreira melhores".
Como alterar este panorama? José Reis defende "a óbvia necessidade de industrialização em setores de criação de valor e de uma terciarização qualificada, porque isto está ligado aos salários". Para Elísio Estanque, as micro e pequenas empresas de base tecnológica que têm surgido, algumas com grande capacidade competitiva à escala internacional, dão algumas notas de esperança, embora não tenham um impacto no mercado de emprego como os setores mais tradicionais e público. João Cerejeira aponta o dedo à carga fiscal sobre o trabalho e as empresas, que na sua opinião precisa de uma remodelação profunda. E considera que o relevante não é proteger as PME, mas assegurar o seu crescimento.
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6.6.23
5.12.14
Famílias com maior rendimento perderam mais poder de compra
in Diário de Notícias
Rendimentos mais altos, em Portugal, foram os mais afectados pelo quadro de dificuldades económicas, de acordo com relatório da Organização Internacional do Trabalho.
As famílias com maior rendimento perderam mais poder de compra do que as de menores rendimentos nos últimos anos em Portugal, de acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado esta sexta-feira, em Genebra.
A OIT indica que a desigualdade de rendimento entre famílias de alto rendimento e famílias de baixo rendimento diminuiu em Portugal por causa da diminuição dos salários nas que tinham maior poder de compra.
A autora do "Relatório Global de Salários 2014/15", a economista Rosalia Vazquez-Alvarez, explicou à agência Lusa que houve "uma diminuição dos salários e de todo o tipo de rendimentos em geral", mas "o poder aquisitivo diminui muito mais para as famílias com maior rendimento que para as famílias com menor rendimento".
Esta diminuição deveu-se, principalmente, a cortes nos salários das famílias com maiores rendimentos e este fenómeno, chamado "efeito de nivelação", deu lugar a uma redução das desigualdades entre as famílias.
Diminuir desigualdades
Segundo a OIT, os salários formam a maior fonte de rendimento nos países desenvolvidos e a evolução dos salários bem com a diminuição das desigualdades dependem dos governos.
"A curto prazo, a evolução dos salários depende muito das políticas dos governos. A desigualdade vai diminuir se se aumentar o salário mínimo, mas esse aumento depende das políticas aplicadas pelos governos", adiantou.
De acordo com Rosalia Vazquez-Alvarez, esse aumento pode ser feito com base em políticas económicas que reflictam o custo de vida bem como o custo de produção.
O documento da OIT analisa as principais tendências dos salários nos países desenvolvidos, emergentes e países em desenvolvimento e aponta também as desigualdades no mercado de trabalho e no rendimento familiar.
Rendimentos mais altos, em Portugal, foram os mais afectados pelo quadro de dificuldades económicas, de acordo com relatório da Organização Internacional do Trabalho.
As famílias com maior rendimento perderam mais poder de compra do que as de menores rendimentos nos últimos anos em Portugal, de acordo com um relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado esta sexta-feira, em Genebra.
A OIT indica que a desigualdade de rendimento entre famílias de alto rendimento e famílias de baixo rendimento diminuiu em Portugal por causa da diminuição dos salários nas que tinham maior poder de compra.
A autora do "Relatório Global de Salários 2014/15", a economista Rosalia Vazquez-Alvarez, explicou à agência Lusa que houve "uma diminuição dos salários e de todo o tipo de rendimentos em geral", mas "o poder aquisitivo diminui muito mais para as famílias com maior rendimento que para as famílias com menor rendimento".
Esta diminuição deveu-se, principalmente, a cortes nos salários das famílias com maiores rendimentos e este fenómeno, chamado "efeito de nivelação", deu lugar a uma redução das desigualdades entre as famílias.
Diminuir desigualdades
Segundo a OIT, os salários formam a maior fonte de rendimento nos países desenvolvidos e a evolução dos salários bem com a diminuição das desigualdades dependem dos governos.
"A curto prazo, a evolução dos salários depende muito das políticas dos governos. A desigualdade vai diminuir se se aumentar o salário mínimo, mas esse aumento depende das políticas aplicadas pelos governos", adiantou.
De acordo com Rosalia Vazquez-Alvarez, esse aumento pode ser feito com base em políticas económicas que reflictam o custo de vida bem como o custo de produção.
O documento da OIT analisa as principais tendências dos salários nos países desenvolvidos, emergentes e países em desenvolvimento e aponta também as desigualdades no mercado de trabalho e no rendimento familiar.
1.10.13
Pensionistas perderam 20% do poder de compra
Ilídia Pinto, in Jornal de Notícias
A austeridade está a pesar mais nos bolsos dos reformados e pensionistas. Desde 2010 perderam quase 20% do poder de compra. A quebra dos trabalhadores vai dos 15% no privado aos 18% da Função Pública.
O poder de compra dos portugueses diminuiu entre 15% e 20% desde 2010. E dois terços desta quebra devem-se ao aumento dos impostos e só um terço à inflação. Estas são as conclusões do mais recente estudo do economista Eugénio Rosa.
Os mais afetados são os pensionistas, em especial os da Caixa Geral de Aposentações, que, só por via do agravamento das taxas do IRS e da contribuição extraordinária de solidariedade, entre outros, viram o seu rendimento mensal reduzido em mais de 13%. Os reformados da Segurança Social perderam 12,5%. A isto junta-se o "efeito corrosivo" do aumento dos preços, de 7,5% no período em causa. Eugénio Rosa estima que, no caso dos trabalhadores do setor privado, a perda devida aos impostos seja de 8,3% (14,7% no total) e de 11,8% na Função Pública (18% no total).
Mas, nem assim, a dívida pública para de crescer. Eugénio Rosa socorre-se dos dados do Eurostat para provar que a política de "cortes brutais" não está a surtir efeitos. "Entre 1996 e 2006, a dívida pública cresceu 10,2 pontos percentuais, nos quatro anos seguintes aumentou 24,6 pontos percentuais e, entre 2010 e 2012, com a troika, aumentou 29,6 pontos percentuais".
Para José Reis, diretor da Faculdade de Economia de Coimbra, a redução do poder de compra traz consigo uma "insidiosa alteração" das relações sociais, dada a "fortíssima penalização" dos rendimentos do trabalho em favor dos financeiros". Reis reclama a reposição do trabalho e seus rendimentos em "lugar digno, para que possam ter efeito positivo na economia". Para João Duque, presidente do ISEG, a resposta está em alterar o padrão do PIB nacional, aumentando as exportações e diminuindo o peso percentual do consumo. Mas reconhece que "não é fácil".
A austeridade está a pesar mais nos bolsos dos reformados e pensionistas. Desde 2010 perderam quase 20% do poder de compra. A quebra dos trabalhadores vai dos 15% no privado aos 18% da Função Pública.
O poder de compra dos portugueses diminuiu entre 15% e 20% desde 2010. E dois terços desta quebra devem-se ao aumento dos impostos e só um terço à inflação. Estas são as conclusões do mais recente estudo do economista Eugénio Rosa.
Os mais afetados são os pensionistas, em especial os da Caixa Geral de Aposentações, que, só por via do agravamento das taxas do IRS e da contribuição extraordinária de solidariedade, entre outros, viram o seu rendimento mensal reduzido em mais de 13%. Os reformados da Segurança Social perderam 12,5%. A isto junta-se o "efeito corrosivo" do aumento dos preços, de 7,5% no período em causa. Eugénio Rosa estima que, no caso dos trabalhadores do setor privado, a perda devida aos impostos seja de 8,3% (14,7% no total) e de 11,8% na Função Pública (18% no total).
Mas, nem assim, a dívida pública para de crescer. Eugénio Rosa socorre-se dos dados do Eurostat para provar que a política de "cortes brutais" não está a surtir efeitos. "Entre 1996 e 2006, a dívida pública cresceu 10,2 pontos percentuais, nos quatro anos seguintes aumentou 24,6 pontos percentuais e, entre 2010 e 2012, com a troika, aumentou 29,6 pontos percentuais".
Para José Reis, diretor da Faculdade de Economia de Coimbra, a redução do poder de compra traz consigo uma "insidiosa alteração" das relações sociais, dada a "fortíssima penalização" dos rendimentos do trabalho em favor dos financeiros". Reis reclama a reposição do trabalho e seus rendimentos em "lugar digno, para que possam ter efeito positivo na economia". Para João Duque, presidente do ISEG, a resposta está em alterar o padrão do PIB nacional, aumentando as exportações e diminuindo o peso percentual do consumo. Mas reconhece que "não é fácil".
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