Internista do Hospital de São João afirmou que não é negacionista e sabe que a pandemia de Covid-19 é um problema muito grave.
O internista António Ferreira, do Hospital de São João, considerou esta quarta-feira que as medidas de combate à Covid-19 que levam à paragem da atividade social e económica, como o confinamento ou o recolher obrigatório, "são inúteis e prejudiciais".
Na sua intervenção na conferência "71 minutos pela Saúde", organizada pela Convenção Nacional da Saúde, António Ferreira começou por afirmar que não é negacionista.
"Sei que a pandemia de Covid-19 é um problema muito grave de saúde pública e também social. Defendo convictamente as medidas de prevenção não farmacológica, consubstanciada no distanciamento social, na higiene das mãos e no uso de máscara e não subscrevo as posições de alguns países e de alguns investigadores e epidemiologistas que defendem que se deixa o vírus circular para criar imunidade de grupo", afirmou o especialista.
Disse ainda discordar "radicalmente das atitudes e da estratégia que está a ser seguida para o combate à pandemia na maior parte dos países industrializados e em Portugal também", mas que as cumpre estritamente.
Para António Ferreira, da Faculdade de Medicina do Porto, "confinar mais, confinar menos, não confinar, não tem efeito naquilo que interessa que é a mortalidade".
"As medidas extremistas, sanitaristas, não as outras medidas de prevenção, são prejudiciais tem um impacto social e económico gravoso, conduzem à miséria social, induzem ao aumento da conflitualidade social", disse.
No seu entender, estas medidas e "a centralização obsessiva na resposta desorganizada e inútil" que está a ser implementada à Covid, tem também "consequências gravosas" na prestação de cuidados de saúde aos doentes não Covid-19 e isto traduz-se no excesso de mortalidade.
Os dados oficiais do Instituto Nacional de Estatística publicados recentemente mostram um aumento de mortalidade de cerca de 8%, mais oito mil óbitos do que a média dos anos anteriores. A mortalidade atribuída à Covid explica 27% dessas mortes, ou seja, quase 5740 óbitos não têm explicação.
Em Portugal, o INE demonstra que a mortalidade hospitalar aumentou 6% este ano comparativamente com os últimos cinco anos a quase toda esta mortalidade é explicada pelos óbitos Covid, mas a mortalidade fora do hospital, no domicílio, aumentou 23%.
"É fácil perceber que os doentes crónicos com situações que agudizam, que doentes que têm doenças agudas não estão a ser tratados e morrem em casa", alertou o intensivista.
No seu entender, "o fechamento" dos cuidados primários que são a porta de entrada no SNS fará com que os novos casos diabetes, de doenças cardiovasculares, de neoplasias não sejam diagnosticados, tratados a tempo e irão condicionar o aumento da mortalidade em 2021, 2022.
"Este encerramento dos cuidados de saúde não faz sentido, particularmente agora que o número de casos já tinha ultrapassado há muito a capacidade de resposta dos nossos colegas da Medicina Geral e Familiar centrados apenas no registo e na monitorização dos casos de Covid que não têm tempo para atender outros doentes", sublinhou.
Segundo o médico, há clusters de doentes positivos que ao fim de uma semana ainda não foram contactados pelas autoridades de saúde, o que não permite nenhuma intervenção preventiva.
Acrescentou ainda que não se preparou a resposta das instituições hospitalares e disse não compreender porque é que não se usa generalizadamente os testes rápidos para "diagnosticar e rastrear todos os que têm infeção pelo vírus sintomáticos e assintomáticos para que se possa intervir junto desses e deixar a esmagadora maioria da população trabalhar produzir e a sociedade funcionar.
"Se conseguirmos isto é muito mais eficaz que qualquer recolher obrigatório seletivo em determinadas horas de fim de semana, após a noite", defendeu.
Perante esta situação, António Ferreira considerou que "a cura é pior que a maleita, está a fazer mais mal".
"Felizmente em Portugal, ao contrário de outros países cuja cultura é o receio dos processos judiciais e os leva a cumprir rigorosamente as recomendações das organizações de saúde, em Portugal os médicos marimbam-se nisto, como se maribam nas da Direção-Geral da Saúde no que diz respeito à terapêutica (...)e fazem a medicina como deve ser feita e talvez este seja um dos fatores do nosso sucesso".
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19.11.20
11.11.20
Novas medidas vão aumentar desemprego e pobreza
Sónia Peres Pinto, in Sol
O número de desempregados ultrapassou os 655 mil trabalhadores, mas apenas 230 mil receberam o subsídio de desemprego no terceiro trimestre do ano. O alerta foi dado por Eugénio Rosa ao garantir que “o apoio aos desempregados diminuiu e a pobreza alastra no país”, acrescentando que as “as medidas tomadas pelo Governo devido à segunda vaga da covid vão causar um maior afundamento da economia e mais desemprego”.O economista lembra que para compreender a diferença entre desemprego oficial e desemprego real é preciso conhecer a forma como o INE calcula o desemprego oficial e dá uma explicação: “Só considera como desempregados os trabalhadores que não têm emprego e que procuraram emprego no período em que fez o inquérito”, diz, acrescentando que “os desempregados que não procuraram emprego na altura em que o INE fez o inquérito, que designa por ‘inativos disponíveis e indisponíveis’, não são incluídos pelo INE no número oficial de desempregados que divulga no fim de cada trimestre, apesar de serem desempregados”.
Feitas as contas, segundo Eugénio Rosa, “o número de desempregados que o INE não tem incluído no número oficial do desemprego foram 169 900 desempregados no primeiro trimestre e no segundo trimestre foram 337 500, enquanto no terceiro trimestre foram 251 mil desempregados”. Esta situação, de acordo com o mesmo, “mostra a diferença grande entre o desemprego oficial divulgado pelo INE e o desemprego real, aquele que efetivamente existe no país”.
O economista vai mais longe ao garantir que a crise causada pela pandemia começou a ter “efeitos dramáticos na economia, com o fecho das empresas, a reclusão das pessoas em casa e os despedimentos” a partir de março de 2020. Segundo o INE, o desemprego oficial foi de 352 400 no quarto trimestre e de 278 400 no segundo. “Nesta altura foi denunciado que a queda continuada nos números do desemprego oficial do INE não refletia a realidade, em que o desemprego real tinha disparado. Depois de denunciada tal situação, o INE aumentou, no terceiro trimestre, o desemprego oficial em 125 mil, mas ainda deixando de fora desse número 251 mil desempregados (inativos disponíveis e não disponíveis)”, afirmou, acrescentando que “a diferença entre a taxa de desemprego oficial e a taxa de desemprego real aumentou significativamente entre o quatro e o terceiro trimestre. No quarto trimestre, essa diferença era de 2,9 pontos percentuais (6,7% e 9,6%) e no terceiro trimestre era já de 4,2 pontos percentuais (7,8% e 12%). É reduzindo artificialmente o desemprego oficial que se esconde aos portugueses a verdadeira dimensão do desemprego e da pobreza, e mesmo o seu alastrar”.
Pobreza sobe De acordo com Eugénio Rosa, o desemprego é a causa mais importante da pobreza no país. “Mesmo antes da pandemia, 47,5% dos desempregados estavam no limiar da pobreza. A maioria dos desempregados não recebem o subsídio de desemprego porque a lei os exclui”, salienta.
E dá números: “No terceiro trimestre, o desemprego aumentou em 39 mil, mas os que recebem subsídio de desemprego subiram apenas oito mil. No segundo trimestre, 36 em cada 100 desempregados recebiam-no”. Esta situação, de acordo com o economista, mostra que “o desemprego aumentou, mas o apoio aos desempregados diminuiu. Logo, a pobreza cresceu”.
E o responsável vai mais longe ao considerar que “o agravamento da pandemia e as medidas tomadas vão determinar inevitavelmente um novo afundamento da economia e, por conseguinte, o aumento significativo do desemprego”, acrescentando que “na economia não há milagres: as consequências são certas, como foi referido no início da pandemia, em março”.
Eugénio Rosa lembra que, nessa altura, “foi como se a economia não existisse e como se a crise de saúde pública causada pela covid fosse de curta duração”, desvalorizando-se as consequências em termos de emprego destruído, de perda de rendimentos e no alastrar da pobreza.
E considera que a criação de um apoio extraordinário aos desempregados que perderam o subsídio de desemprego e o aumento das pensões mais baixas em dez euros, apesar de entender que são “medidas importantes”, “não são suficientes para combater a pobreza, que está a aumentar”.
Aponta dedo ao teletrabalho Eugénio Rosa afirma ainda que o teletrabalho – que já abrangia 681 900 trabalhadores no fim do terceiro trimestre –, além de provocar a desorganização das empresas e dos serviços públicos, contribuiu ainda para “a diminuição da capacidade de resposta e produtividade, pela dimensão que tem e pela falta de organização, planeamento e competências que exige mas não existem. E também causa uma diminuição acentuada do consumo interno, o que é visível por quem percorra as ruas das cidades, com estabelecimentos abertos mas vazios de clientes, o que levará a falências e fecho de inúmeras empresas, acelerando de uma forma significativa o aumento do desemprego”.
E, de acordo com o economista, “se associamos a tudo isto uma queda das exportações portuguesas – no segundo trimestre, as exportações diminuíram 39,5% quando comparado com o período homólogo de 2019 – previsível devido à implementação, pelos respetivos Governos, de medidas semelhantes nos países para os quais Portugal mais exporta (Espanha, França, Alemanha), é fácil de concluir a situação dramática em que cairão mais centenas de milhares de famílias portuguesa, causada pela redução da atividade, pelo desemprego e pela consequente perda de rendimentos”.
Segundo o responsável, “é necessário tratar a economia da mesma forma que se trata a saúde, investindo muito mais e atempadamente no SNS para garantir não só a defesa da saúde pública, mas também o funcionamento da economia. A incapacidade de planear e organizar atempadamente quando se sabia que iria dar-se uma segunda vaga, e nada ou pouco se fez – só agora se aprovou a contratação de mais médicos e enfermeiros quando isso devia ter sido feito há mais tempo – e a falta de investimentos no SNS estão a contribuir muito também para afundar a economia e vão obrigar a recorrer aos grupos privados de saúde, com custos elevados para o erário publico. E a proposta de OE 2021 não resolve a falta de investimento no SNS)”, conclui.
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