Miguel Morgado, in Sapo25
A Comunidade Viva e Paz ajuda os sem-abrigo, que clamam que não os abandonem nestes dias de distanciamento social. Lisboa está deserta, sem viva alma. A não ser quem vive nas ruas num T0 de cartão, ao lado de carros de supermercado, enfiados em sacos cama, encostados a paredes, colados à linha férrea, debaixo de pontes e palas. Escutámos o Henrique, que foi médico e o Henrique que quer ser Uber. E a Maria, que conversa com Deus.
A sede da instituição Comunidade Viva e Paz (CVP), rua R. Domingos Bontempo 7, em Lisboa, quatro carrinhas são abastecidas com refeições. Divididas pelas letras de A a D, são preparadas para quatro rondas noturnas no apoio aos sem-abrigo.
Gestos mecânicos feitos por quem ali está voluntariamente. Dobram caixas de cartão, montam cestos, colocam sacos com comida e bebida, e transportam o “takeaway” para as viaturas. Há novos voluntários. “Viemos por causa de uma reportagem onde se falou que havia falta de apoios”, afirma Alexandre Vieira. “Achámos que era a altura ideal para arregaçar mangas e dar o nosso contributo”, refere Catarina Almeida.
Nuno Fraga, voluntário há mais de 10 anos, explica o grito de alerta. Com a declaração do estado de emergência a cidade fechou-se em si mesmo. “Algumas instituições não estavam a ir para a rua. Estávamos todos focados no Eu e em estar em casa de quarentena”, recorda. “Num dia normal, os sem-abrigo ganhavam uns trocos a arrumarem uns carros, teriam ajuda de supermercados, restaurantes, da Refood ... de um momento para o outro, tudo isso parou. Partilhei o meu sentimento de angústia”.
José Lopes inicia o briefing. Na palestra descreve a adaptação à “nova metodologia da rua”, em que passaram de “400 refeições para mais de 800”. Não esquece quem está na retaguarda que preparam o que será distribuído e deixam “mensagens e rebuçados”. Juntos, voluntários de casa e de rua fazem “toda a diferença”, relembra. “Não voltem com sobras. E em caso de alguém necessitar de ajuda, ligar 112. Não se mede pulsos, nem nada”, remata Margarida. Há luvas e máscaras para todos.
O SAPO24 seguiu na carrinha C. Nuno Fraga, José Rosinha e Sarah Pimenta, voluntários. Nuno roda a chave na ignição. “O nosso modelo é diferente. Mais do que dar comida, é ajudar a tirar pessoas da rua e mudarem de vida. Queremos conversa. Sporting, Benfica ou telenovela. Mas não só. O senhor Nélson fala connosco de Brexit. Não é só famílias desestruturadas que estão na rua. Há de tudo”, garante.
Primeira paragem: Olivais. Vítor é sem-abrigo. Está deitado, tapado por mantas e sacos cama. “Boa noite, comunidade Vida e Paz”, anuncia Nuno Fraga. Vítor, natural de Cabo Verde, levantou-se lentamente. Deixa metade do corpo a descoberto. Encosta-se aos vidros da loja que lhe serve de encosto. Vive debaixo das arcadas de um prédio.
Não fala. Não está para conversas. Abana a cabeça e sorri. Nuno Fraga tenta arrancar palavras. Recorda a visita que Carlos Mané, jogador de futebol, então ao serviço do Sporting Clube de Portugal, fez com a CVP. Promete voltar com a miss Cabo Verde. Uma promessa à qual Vítor respondeu com os braços ao céu e as mãos, que lentamente, desceram pelo rosto, destapando um sorriso.
A visita não demorou mais de dois minutos. “Uns falam, outros não. Num dia normal, há tendência para ficar a conversar. O nosso objetivo é criar empatia mais do que distribuir comida. É criar relação”, adianta. A atualidade dita outra realidade.
Olivais Velho. Duas casas sem luz e dois sem-abrigo numa habitação que não lhes pertence. Um abre a pequena janela. Acede a dois dedos de conversa. O Sporting poderia ser pano para mangas. A pedido, mostra placas e emblemas leoninos de outros tempos. O verde está demasiado esbatido. Recua com a refeição quente (bacalhau) e o amor da sua vida. Dois passos ao lado, Nuno Fraga anuncia. “Boa noite, Comunidade Vida e Paz”. Um rosto rasga o quadrado de vidro, estende a mão, solta “obrigado” e desaparece na escuridão. Sem mais comentários.
“Estamos todos os dias na rua. 354 dias, 96 pontos da cidade”, assegura Nuno Fraga. Dirigimo-nos para o Parque das Nações. Não há música no Altice Arena. Não há concertos, nem filas. Não há ninguém a não ser quem vive na rua. Nas imediações, um sem-abrigo, de cigarro na boca, pega no saco e deambula pela rua. Senta-se mais à frente para jantar. Há amontoado de sacos cama salpicados na paisagem.
Arrancámos. Estacionamos ao lado de duas carrinhas dos Paramédicos de Catástrofe Internacional, Unidade de Cuidados Intensivos. Estão equipados de fatos brancos, coletes amarelos identificativos ao corpo a que pertencem, luvas, máscaras, óculos e uma boina. Há algo de apocalíptico na indumentária. Preparam-se para servir sumos que receberam de outras instituições. E ajuda médica a quem necessite.
“Onde é que estão os meus amigos?”
No Pavilhão de Portugal são distribuídas “20 e tal refeições”, enumera. Uma sem-abrigo, de sacos na mão, pergunta pelos amigos. “Onde é que estão os meus amigos?”. Não sabe. Tinha encontro combinado. “Onde é que estão os meus amigos?”, repetiu.
À volta da pala de Siza Vieira há vários T0. 2 metros quadrados. Pé direito de um metro. Sem janelas, mas com paredes “ecológicas” feitas de cartão. Carrinhos de supermercado servem de dispensa. Multiplicam funcionalidades e serventias. Servem de ponto de nó para atar cobertores, que, por sua vez, funcionam como uma divisão.
Numa zona de restaurantes não há uma única porta aberta. “Obrigado, se não fossem vocês ... muito obrigado”, agradece uma voz anónima. Fala com um cigarro colado no canto da boca. Pede mais um saco para um “rapaz que deve estar a chegar”. Aponta para outros esconderijos. “Há ali, daquele lado, há ali mais uns”, alerta. Prossegue a conversa com os seus vizinhos que se juntaram à volta de uma garrafa de vinho.
Abastecimento feito. Seguimos. O interior da Estação do Oriente deixou de servir de teto. A Web Summit assim o ditou. A carrinha da Comunidade Vida e Paz estaciona perto de uma paragem de autocarro. Seres mutantes, saídos do nada, dirigem-se, em fila, para o porta-bagagem. São perto de três dezenas. É um “toca e foge”. O gesto é mecânico. Esticam braços e recolhem a comida. A maioria são homens. A maior parte move-se em silêncio. Pedem mais um saco para alguém que não está ali.
Antes da nossa viagem pela noite dos sem-abrigo, José Rosinha, voluntário com muitas voltas nos ombros, tinha avisado. “No Oriente, temos um médico na rua”. Lá estava ele. É o Henrique. “Médico de clínica geral e doenças infetocontagiosas”, informa. Não diz muito mais. “Não vale a pena falar”, avisa. Quebra o que disse e deixa escapar. “Fiz um acordo com Deus de não fumar e não beber”. O cigarro na boca contraria-o.
Caminha com a ajuda de muletas. Curvado. Sem conseguir olhar nos olhos de quem quer que seja. As roupas pertencem a outro corpo. Estão demasiado largas. Caem pelos ombros e cintura abaixo. O cabelo, não conhece mises, está enrolado e preso num carrapito. Parece uma palmeira em cima da cabeça.
Nuno Fraga não se cansa de avisar que o Casal Vistoso, pavilhão disponibilizado pela câmara municipal de Lisboa, está aberto a partir das 18h00. Aparecem dois interessados. Fraga liga para os virem buscar. Só um se desloca para o ponto de recolha. O outro desaparece sem deixar rasto.
Às 22h20 deixamos um Parque das Nações às escuras. No Beato e Xabregas o cenário é desolador. Lugar demasiado inóspito, ausência de sinais de vida a mais numa capital europeia. A monstruosidade de um futuro hub, em carcaça arquitetónica, à vista desarmada, não ajuda. Os semáforos funcionam indiferentes à ausência de carros.
Ao lado de restaurantes, perto do Instituto do Emprego e Formação Profissional, Nuno Fraga bate a uma porta. Vai entregar a refeição a um cliente habitual. “É fanático pelo Sporting”, diz, ele mesmo sócio do clube de Alvalade. A chegada a um prédio abandonado é feita ao som da buzina. Identifica a instituição e espreita para o fosso que separa um muro da casa à procura de sem-abrigo. Sem sucesso.
“Não é difícil vir parar a sem-abrigo. Basta não pagar a casa”
O navio cruzeiro MSC Fantasia, está atracado no Cais de Santa Apolónia. Está de quarentena e às escuras. Transportava 1338 passageiros.
Na estação de Santa Apolónia, assistimos a um remake do que se viu no Oriente. As luzes da carrinha anunciam a chegada. Há quem esteja já à espera, sentado, numa paragem de autocarro. Nuno Fraga aponta o local de estacionamento. Sobe o passeio e quase cola à estação de comboios. À esquerda e à direita, aparecem do nada. Segundos antes, eram cinco ou seis. Multiplicaram e são mais de 20.
“Olha, tem aí bacalhau”, exclama Sarah Pimenta, que se estreia no voluntariado. Pegam no saco e seguem. Uns aproveitam e entram no autocarro com o letreiro Oriente. Mais à frente viemos a saber que não andaram mais do que uma paragem.
Henrique aproxima-se. “Não é difícil vir parar a sem-abrigo. Basta não pagar a casa”, alertou. Deixa-se fotografar, sem vergonha de assumir a situação.
Sarah dá um conselho estético. “Tem de cortar a barba”. A barba farta encontra uma explicação na lei da vida. “É para impedir o bicho”, sorri. Promete mudanças quando “isto acabar”, antecipa-se. “Vou lavar-me com sabão azul e branco e faço pente 4”.
Lamenta não conseguir visitar a mãe, 85 anos, em Porto de Mós. Vive com o sobrinho, “filho do meu irmão que se separou cedo da mulher”. Recorda a aldeia que o viu nascer, onde “pais e a vizinhança tomavam conta de nós”. Fala da vida, da preferência clubística (“sou do Sporting”) e dos sonhos. “Queria ser Uber, mas agora deixo-me estar. Estou velhote e gostava de ter família”, atira. Despede-se e caminha para lado nenhum ao lado de um amigo da rua que promete ir ao Casal Vistoso “para a semana”.
“Falo todos os dias com o Deus e Ele fala comigo”
Na discoteca Lux não há filas para entrarem, nem porteiros a selecionar. Cinco pessoas vivem ali, debaixo da saliência do piso superior, num pequeno passeio que divide duas faixas de rodagem. Mais à frente, uma ponte rodoviária esconde mais de 15 pessoas. Há mesas-de-cabeceira, cadeiras, paletes, carrinhos de supermercado, tendas, bicicletas, candeeiros, caixas de cartão e cobertores num caos decorativo organizado. Coabitam num caldeirão cultural.
Um cidadão nepalês, de turbante na cabeça e chinelos nos pés, fala em língua inglesa e agradece com as mãos no peito. Um brasileiro pergunta, educadamente, entre risos, se há “lagostim, caviar e chocolate quente”. O romeno, que se apresenta como tendo feito parte da elite que circulava à volta do antigo líder, Nicolae Ceauşescu, recolhe o jantar, acena e deita-se. Maria, a portuguesa, fala até a deixarem falar. Das idas ao “banco” e ao “supermercado”. Mas o tema principal gira à volta da “praga lançada à terra pelo Diabo”, dos “milhares de Anjos no Céu” que foram enganados e da “outra peste, aquela de há 100 anos”. Sossega-nos. “Falo todos os dias com o Deus e Ele fala comigo.” Ele “sabe que 40% da população é religiosa (católica) e que virá à terra salvar-nos e às outras pessoas”. Entrelaça a conversa de Deus e o Diabo com citações bíblicas. “Nenhuma praga chegará à tua tenda”, solta. Sarah completa. “Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda” (Salmo 91:10,11).
Na zona da Fábrica da Nacional, do lado da linha de comboio, fomos em busca de pontos de passagem entre as carruagens de contentores. Subimos e descemos, subimos, de novo. Demos de caras com três sem-abrigo deitados num minúsculo balcão na parede à distância de metro e meio da montanha de ferro. Atmosfera é sufocante e claustrofóbica para quem vem fora, segura para quem ali dorme. “Há mais?”, questiona Nuno Fraga. Resposta afirmativa. O braço serve de GPS. Saltámos do comboio e demos a volta. Caixas de televisores XL servem de paredes de duas “casas”.
Em plena Ribeira das Naus, espaço de reencontro com o Tejo e com a história da cidade, não há registo de um movimento, exceção feita aos autocarros e à polícia municipal. Ninguém passeia. Não se vê ninguém. A Doca Seca esconde duas vidas. Um sem-abrigo acorda. Vive quase encostado à parede. Aproveitou um relevo daquele local quinhentista para montar casa. A cabeça de um cão mantém-nos a uma margem maior do distanciamento social recomendado. Ao lado, quatro pedras por cima de uma manta pendurada indiciam que o inquilino não está. Não foi deixado saco.
A Humanidade num Rossio abandonado às suas fontes
Uma vida dormia debaixo do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência. Os litros de vinho explicam o sono profundo. O jantar fica para quando acordar. O mercado da Ribeira impressiona. Deserto e limpo. Sem vestígios de copos da noite ou legumes da manhã. A Rua de São Paulo, Chiado e Sé parece um filme a preto e branco percorrido entre os carris do elétrico.
A rota faz uma pausa no Rossio, na praça abandonada às suas fontes. Sinais de vida só mesmo na entrada do Teatro Dona Maria II onde pernoitam quem não tem outro local para dormir. A palavra Humanidade nas arcadas ganha significado bíblico.
A Avenida da Liberdade é feita aos soluços. Há quem estenda as mãos a pedir como se estivesse num restaurante. Agradecem e seguem caminho. “O Saldanha é das zonas com mais gente”, lamenta Nuno Fraga. Sente-se que por lá andou outra equipa, mas há que cumprir o mandamento de não levar sobras. No Arco do Cego, à volta da escola Filipa de Lencastre, Fraga, sabe quase de cor todos os esconderijos onde pode ajudar.
0:59. Fim de ronda. Encontro fortuito com outra equipa. Os voluntários despendem-se.
“Ser voluntário em estado de emergência, ou fora deste estado, é de destacar. Não somos heróis. Somos humanos mais atentos aos outros”, elogia. “O maior ativo do país são as pessoas e empresas socialmente responsáveis. Sem saber o que será o dia de amanhã, as empresas apoiaram e as pessoas saíram para a rua”, refere contente e orgulhoso. “Não me sai da cabeça uma frase: não nos abandonem”, remata.
Mostrar mensagens com a etiqueta Sem abrigo - Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sem abrigo - Lisboa. Mostrar todas as mensagens
2.4.20
28.6.19
“Enquanto ignorarem a psiquiatria, não pode deixar de haver sem-abrigo”
in ionline
A autarquia da capital quer tirar os sem-abrigo da rua até 2021. Ao i, o psiquiatra António Bento – que acompanha o fenómeno há décadas –, identifica os obstáculos que o objetivo enfrenta.
A Câmara Municipal de Lisboa (CML) aprovou o Plano Municipal Para a Pessoa em situação de Sem-Abrigo (PMSA) para o triénio 2019-2021 com um objetivo ousado: tirar todos os sem-abrigo das ruas da cidade até 2021. A ideia foi expressa pelo vereador dos Direitos Sociais, Manuel Grilo, durante a reunião pública da autarquia: “a minha visão é retirar todas as 361 pessoas da rua no decorrer deste plano”, afirmou.
Atualmente, de acordo com os dados mais recentes, relativos ao final de 2018, vivem na capital 2473 pessoas sem-abrigo – dessas, 361 vivem na rua e 1967 residem em centros de acolhimento.
Mas será a previsão de tirar, até 2021, essas 361 pessoas da rua, realista? O psiquiatra António Bento, diretor do Serviço de Psiquiatria Geral e Transcultural do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa - Hospital Júlio de Matos e que há mais de 30 anos acompanha o fenómeno das pessoas sem-abrigo em Portugal, é cauteloso. “A resposta não pode ser sim ou não. A Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo 2017-2023 (ENIPSSA) e a Europa têm uma posição que é que ninguém esteja na rua mais de 48 horas por falta de respostas. Mas enquanto ignorarem a psiquiatria, não pode deixar de haver sem-abrigo na rua”, afirma ao i.
O fenómeno dos sem-abrigo nada tem de simples: uns, aceitam sair da rua e ir para centros de acolhimento, mas muitos não. Desses, se nem todos sofriam já de doença mental antes de acabarem na rua, muitos acabam por desenvolver problemas. Em casos mais graves, como assinala António Bento, há quem se esqueça mesmo do próprio nome. E isso torna o processo da sua retirada da rua muito complexo. Em fevereiro, o i noticiou o caso de um sem-abrigo que não sabia o nome e que, mesmo assim, acabou por ser levado pelas autoridades e internado compulsivamente, mas o caso, nota ao i o médico, “foi uma vitória e só foi possível porque o estado de saúde do senhor estava realmente degradado”.
Para se retirar uma pessoa com doença mental da rua, é necessário, em primeiro lugar, que um psiquiatra elabore um relatório que constate que a pessoa tem doença psiquiatra, enviando-o depois para a autoridade de saúde competente, que no seu seguimento emite um mandado de condução. Depois, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) com a Polícia de Segurança Pública (PSP), acompanhados pela associação que opera na área onde vive o sem-abrigo e que o que sinalizou, levam-no ao hospital, onde os psiquiatras decidem se do mandado de condução resulta ou não o internamento compulsivo. Por fim, o internamento é sancionado pelo tribunal – um passo cujo objetivo é zelar pela liberdade dos cidadãos.
“Neste momento, há vários sem-abrigo que não sabem o nome e que estão muito doentes, mas não podem ser tirados da rua porque não se sabe qual o seu nome. Anteontem, fiz três relatórios para as autoridades de saúde sem nome, que responderam que não podem fazer nada porque não têm nenhum nome para colocar na ficha”, lamenta o médico ao i, explicando que as autoridades de saúde são obrigadas a colocar um nome para evitar, por exemplo, que a polícia leve a pessoa errada. “Nos casos das pessoas que não sabem o nome, a lei é omissa”, acrescenta.
Segundo as contas de António Bento, 90% das pessoas sem-abrigo têm doença mental e não são assim tão poucas as que não se lembram do nome. Por isso, apesar de aplaudir o investimento em respostas aos sem-abrigo, como o Housing First, o psiquiatra defende que há um problema de base, da competência do Estado, “que tem uma estratégia nacional”, e em relação ao qual as autarquias pouco podem fazer: “Os responsáveis políticos ainda não perceberam quem são os sem-abrigo”, afirma. Para o psiquiatra, essa questão é fundamental para se conseguir tirar os sem-abrigo da rua, um fenómeno no qual, de resto, a doença mental tem um enorme peso – afeta, de acordo com as suas contas, 90% das pessoas sem-abrigo. Os casos de internamento compulsivo confirmam-no.
“Quanto mais milhões a Câmara Municipal de Lisboa der para este novo Plano, melhor. Não é esse o problema, simplesmente não se está a ir ao fundo da questão. A câmara não pode substituir o Estado”, conclui.
A autarquia da capital quer tirar os sem-abrigo da rua até 2021. Ao i, o psiquiatra António Bento – que acompanha o fenómeno há décadas –, identifica os obstáculos que o objetivo enfrenta.
A Câmara Municipal de Lisboa (CML) aprovou o Plano Municipal Para a Pessoa em situação de Sem-Abrigo (PMSA) para o triénio 2019-2021 com um objetivo ousado: tirar todos os sem-abrigo das ruas da cidade até 2021. A ideia foi expressa pelo vereador dos Direitos Sociais, Manuel Grilo, durante a reunião pública da autarquia: “a minha visão é retirar todas as 361 pessoas da rua no decorrer deste plano”, afirmou.
Atualmente, de acordo com os dados mais recentes, relativos ao final de 2018, vivem na capital 2473 pessoas sem-abrigo – dessas, 361 vivem na rua e 1967 residem em centros de acolhimento.
Mas será a previsão de tirar, até 2021, essas 361 pessoas da rua, realista? O psiquiatra António Bento, diretor do Serviço de Psiquiatria Geral e Transcultural do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa - Hospital Júlio de Matos e que há mais de 30 anos acompanha o fenómeno das pessoas sem-abrigo em Portugal, é cauteloso. “A resposta não pode ser sim ou não. A Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo 2017-2023 (ENIPSSA) e a Europa têm uma posição que é que ninguém esteja na rua mais de 48 horas por falta de respostas. Mas enquanto ignorarem a psiquiatria, não pode deixar de haver sem-abrigo na rua”, afirma ao i.
O fenómeno dos sem-abrigo nada tem de simples: uns, aceitam sair da rua e ir para centros de acolhimento, mas muitos não. Desses, se nem todos sofriam já de doença mental antes de acabarem na rua, muitos acabam por desenvolver problemas. Em casos mais graves, como assinala António Bento, há quem se esqueça mesmo do próprio nome. E isso torna o processo da sua retirada da rua muito complexo. Em fevereiro, o i noticiou o caso de um sem-abrigo que não sabia o nome e que, mesmo assim, acabou por ser levado pelas autoridades e internado compulsivamente, mas o caso, nota ao i o médico, “foi uma vitória e só foi possível porque o estado de saúde do senhor estava realmente degradado”.
Para se retirar uma pessoa com doença mental da rua, é necessário, em primeiro lugar, que um psiquiatra elabore um relatório que constate que a pessoa tem doença psiquiatra, enviando-o depois para a autoridade de saúde competente, que no seu seguimento emite um mandado de condução. Depois, o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) com a Polícia de Segurança Pública (PSP), acompanhados pela associação que opera na área onde vive o sem-abrigo e que o que sinalizou, levam-no ao hospital, onde os psiquiatras decidem se do mandado de condução resulta ou não o internamento compulsivo. Por fim, o internamento é sancionado pelo tribunal – um passo cujo objetivo é zelar pela liberdade dos cidadãos.
“Neste momento, há vários sem-abrigo que não sabem o nome e que estão muito doentes, mas não podem ser tirados da rua porque não se sabe qual o seu nome. Anteontem, fiz três relatórios para as autoridades de saúde sem nome, que responderam que não podem fazer nada porque não têm nenhum nome para colocar na ficha”, lamenta o médico ao i, explicando que as autoridades de saúde são obrigadas a colocar um nome para evitar, por exemplo, que a polícia leve a pessoa errada. “Nos casos das pessoas que não sabem o nome, a lei é omissa”, acrescenta.
Segundo as contas de António Bento, 90% das pessoas sem-abrigo têm doença mental e não são assim tão poucas as que não se lembram do nome. Por isso, apesar de aplaudir o investimento em respostas aos sem-abrigo, como o Housing First, o psiquiatra defende que há um problema de base, da competência do Estado, “que tem uma estratégia nacional”, e em relação ao qual as autarquias pouco podem fazer: “Os responsáveis políticos ainda não perceberam quem são os sem-abrigo”, afirma. Para o psiquiatra, essa questão é fundamental para se conseguir tirar os sem-abrigo da rua, um fenómeno no qual, de resto, a doença mental tem um enorme peso – afeta, de acordo com as suas contas, 90% das pessoas sem-abrigo. Os casos de internamento compulsivo confirmam-no.
“Quanto mais milhões a Câmara Municipal de Lisboa der para este novo Plano, melhor. Não é esse o problema, simplesmente não se está a ir ao fundo da questão. A câmara não pode substituir o Estado”, conclui.
8.1.19
Lisboa. Número de sem-abrigo caiu para metade em dois anos
in Jornal I
Dados apresentados pela autarquia
O vereador dos direitos civis da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Grilo, revelou no sábado que a autarquia estima que, entre 2015 e 2017, houve "uma redução de 50% no número de pessoas em situação de sem-abrigo".
"Em termos numéricos, entre 2015 e o final de 2017, houve uma redução de 50% do número de pessoas em situação de sem-abrigo, a dormir efetivamente na rua", disse aos jornalistas, durante uma visita com o Presidente da República a vários locais da cidade onde existem sem-abrigo.
Manuel Grilo explicou à agência Lusa que a Câmara de Lisboa está agora a realizar uma nova contagem e que os números não deverão mudar muito.
Tendo em conta as baixas temperaturas que se têm feito sentir no país, a autarquia lançou medidas de precaução, como a abertura dos centros de acolhimento às 16h00. Para além disso, se as temperaturas baixarem até aos 3 ºC, é lançado um plano de contingência, que abrange medidas como a abertura de estações de metro e de pavilhões.
Dados apresentados pela autarquia
O vereador dos direitos civis da Câmara Municipal de Lisboa, Manuel Grilo, revelou no sábado que a autarquia estima que, entre 2015 e 2017, houve "uma redução de 50% no número de pessoas em situação de sem-abrigo".
"Em termos numéricos, entre 2015 e o final de 2017, houve uma redução de 50% do número de pessoas em situação de sem-abrigo, a dormir efetivamente na rua", disse aos jornalistas, durante uma visita com o Presidente da República a vários locais da cidade onde existem sem-abrigo.
Manuel Grilo explicou à agência Lusa que a Câmara de Lisboa está agora a realizar uma nova contagem e que os números não deverão mudar muito.
Tendo em conta as baixas temperaturas que se têm feito sentir no país, a autarquia lançou medidas de precaução, como a abertura dos centros de acolhimento às 16h00. Para além disso, se as temperaturas baixarem até aos 3 ºC, é lançado um plano de contingência, que abrange medidas como a abertura de estações de metro e de pavilhões.
15.11.18
Resposta aos sem-abrigo de Lisboa está estagnada
Margarida David Cardoso e João Pedro Pincha, in Público on-line
Um quiosque de saúde fechou, a atribuição de cacifos está suspensa e a de casas também. Câmara de Lisboa nega atrasos na execução de programa municipal.
Quase uma dezena de projectos de apoio a pessoas sem-abrigo em Lisboa estão atrasados. A um mês e meio do fim do ano, momento em que devia estar plenamente em vigor o Programa Municipal para a Pessoa Sem-Abrigo 2016-2018 (PMSA), há iniciativas paradas a meio e outras que não chegaram a sair do papel. Algumas associações do sector queixam-se de “estagnação” mas também de “desinvestimento”, denunciando que há respostas a esta população que podem ter de acabar brevemente. A câmara de Lisboa aprova esta quinta-feira a continuidade de alguns protocolos até Outubro de 2019, nega atrasos e garante estar a trabalhar num novo PMSA.
"Não há atraso na implementação ou execução de medidas contidas no programa anterior. Trata-se de um documento estratégico que tinha, como todos os planos, natureza previsional: o que se verifica é a necessidade de adequar algumas das respostas, designadamente no que se refere ao Housing First, à realidade actual", respondeu o gabinete de Manuel Grilo, vereador dos Direitos Sociais, a perguntas do PÚBLICO.
A Crescer, associação responsável pelo Espaço Âncora, teme pelo futuro desta infra-estrutura da freguesia de Arroios frequentada por cerca de 400 pessoas por ano. Ali é disponibilizado acesso a material asséptico para consumo, cuidados de enfermagem, comida e roupa, balneários, computadores e televisão, assim como actividades ocupacionais.
“Estamos completamente sem rede. Este executivo cortou no financiamento, mas cortou sem diálogo. Havia aqui uma relação de confiança que se perdeu”, diz Américo Nave, presidente da Crescer. Duarte Paiva, da ACA, denuncia a mesma dificuldade de comunicação: “Estamos sozinhos, sem ajuda. Hoje sentimos que somos o sustento do NPISA (Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo), não parceiros da estratégia da cidade.” O presidente da Conversa Amiga diz ainda que tenta há vários meses reunir com a coordenação do NPISA, sem sucesso.
vereador Manuel Grilo diz que estas três respostas "não estavam consideradas no anterior PMPSA e eram avaliadas periodicamente e no âmbito de candidaturas pontuais". O eleito garante que está a fazer uma "análise tendo em vista a possibilidade de estarem contempladas no PMPSA com apoios mais consistentes".
Até Março do ano passado, o PMSA e o NPISA eram liderados pela mesma pessoa, João Marrana, que entretanto abandonou a pasta. Actualmente, o PMSA é coordenado pelo vereador dos Direitos Sociais, Manuel Grilo, do Bloco de Esquerda, que chegou ao cargo há poucos meses, substituindo Ricardo Robles. Já o NPISA é liderado por Teresa Bispo, depois de ter passado por pelo menos mais duas pessoas.
O gabinete de Manuel Grilo diz ainda que desconhece as queixas das associações sobre o NPISA. "Não temos qualquer conhecimento verbal ou documental de algum descontentamento com o NPISA, tanto mais que acabou de aprovar por unanimidade os dois novos eixos (Saúde e Alojamento/ Empregabilidade) e um alargado leque de novas candidaturas por parte de outras entidades, estando já a aguardar os procedimentos de novos pedidos de adesão."
A criação do NPISA, em Janeiro de 2015, mudou por completo a intervenção junto desta população. O facto de as associações estarem reunidas no mesmo espaço e partilharem bases de dados e recursos agilizou os processos de apoio, tornou mais fácil o encaminhamento para respostas de alojamento, cuidados de saúde, tratamento de dependências, e reduziu o risco de se repetirem intervenções. Instituiu-se a figura do gestor de caso, responsável por tudo o que diz respeito à intervenção junto das pessoas sem-abrigo que estão a seu cargo, e deu a todas as associações a possibilidade de requerer apoios à Santa Casa da Misericórdia.
As associações viram as suas respostas tornarem-se mais eficazes. E conseguiram chegar a franjas mais excluídas, que praticamente não tinham relação com a rede social. “Começámos efectivamente a tirar as pessoas da rua”, resume Madalena Curado, gestora de caso da Associação Ares do Pinhal.
O trabalho concertado pôs a cidade na linha da frente da estratégia nacional para a integração de pessoas sem-abrigo, num momento em que, primeiro Marcelo Rebelo de Sousa e depois o ministro Vieira da Silva assumiram a eliminação deste fenómeno como um desígnio nacional.
Atribuição de casas atrasada
A situação terá mudado entretanto. “Não se ofereceu nem mais uma cama à cidade, nem mais um projecto, nem mais um apoio. O que nasceu, morreu”, critica João Marrana. “Estamos outra vez no básico”, corrobora Duarte Paiva, da ACA. “Voltámos à Lisboa de há cinco anos, com a coordenação [do NPISA] a mostrar um completo desconhecimento da realidade”, afirma.
Desde o final do ano passado que a atribuição de 50 casas a pessoas sem-abrigo está apenas dependente da assinatura de um protocolo, denunciam João Marrana e confirmam as duas entidades envolvidas. As associações responsáveis por este projecto de Housing First (assente na ideia de que a autonomização das pessoas sem-abrigo começa com uma habitação digna) foram escolhidas por concurso em meados de 2017: a Crescer e a Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS), as mesmas que gerem as 80 casas deste modelo já existentes em Lisboa. O PMSA previa que até ao final de 2018 a cidade tivesse mais 100 casas – metade criada em 2017, a outra metade este ano.
Teresa Duarte, presidente da AEIPS, não sentiu o desinvestimento de que se queixam as outras associações. Mas diz que o sucesso das 80 casas Housing First já existentes demonstra a necessidade de mais investimento. “A generalização desta resposta vai de encontro ao desígnio do Presidente da República de deixar de ter pessoas na rua até 2023. E para isso é preciso habitação”, afirma.
"O programa Housing First foi desenhado no anterior mandato, não tendo previsto o drástico aumento de preços da habitação no mercado privado. Neste âmbito, importa referir que os valores orçamentados para o actual PMPSA já não são suficientes e serão corrigidos no próximo programa", informa Manuel Grilo. "A subida de preços do mercado livre de habitação tornou a opção anteriormente tomada de arrendar em mercado livre muito onerosa para o município. A afectação de habitações municipais adicionais para utilização na área dos sem-abrigo, seja para projectos em modelo Housing First ou apartamentos partilhados é a solução para este problema."
Outros projectos, alguns com orçamento aprovado e prontos a executar, ficaram igualmente parados no último ano e meio. Quando, em Março de 2017, João Marrana deixou a pasta, “tinha na mão as chaves de quatro apartamentos T3 partilhados”, prontos a ser atribuídos à associação que os iria gerir. O antigo responsável ficou sem perceber porque nada avançou entretanto.
Estava igualmente preparado o concurso para a criação de quatro espaços de ocupação diurna, desenhada uma unidade móvel de saúde e higiene, cativo um espaço para criação de um centro de reconciliação familiar (para facilitar o contacto entre pessoas sem-abrigo e as suas famílias). Uma proposta de Plano de Saúde para a População em Situação de Sem-Abrigo, trabalho de vários meses de um grupo de associações, também ficou na gaveta.
Lurdes vive na carcaça de uma antiga escola. Para onde irá agora?
O vereador afirma que os pontos previstos neste plano "serão integrados no Plano de saúde, Qualidade de Vida e Bem-Estar de Lisboa, que ainda carece de finalização e aprovação em reunião de câmara".
Até ao final deste ano estava também prevista a abertura de três núcleos de apoio local (existem dois destes espaços onde as pessoas sem-abrigo podem comer, trocar de roupa e receber acompanhamento social), de um espaço de formação profissional e de um restaurante que seria um projecto de promoção de emprego. Para este último projecto, a câmara atribuiu a primeira parte do financiamento (60 mil euros), mas a associação responsável, a Crescer, espera desde o ano passado autorização para fazer as obras. Manuel Grilo espera que em 2019 a situação esteja resolvida.
Obras por avançar
Entre os projectos parados consta ainda a requalificação do centro de alojamento temporário do Beato, o maior da cidade, gerido pela associação Vitae. As obras e a mudança no modelo de intervenção estão previstas há vários anos. Com 271 camas, disponíveis para que a maioria das pessoas apenas ali pernoite, este centro funciona em moldes que já não se coadunam com a filosofia de intervenção assumida pela estratégia nacional para a população sem-abrigo. Esta advoga por uma redução das camas de emergência e o aumento das respostas de longa duração, com acompanhamento personalizado.
O plano pensado para o centro continua assente nesta filosofia, assegura Sónia Ferreira Gonçalves, presidente da Vitae. A visita e o “empenho demonstrado” pelo vereador Manuel Grilo no início deste mês deixou-a optimista de que, “apesar do impasse”, as obras avancem em breve. “Neste momento, o que fazemos fica aquém do que gostaríamos e do que estas pessoas merecem”, afirma. "Neste mandato, estamos finalmente a iniciar de uma forma concertada todo este processo de requalificação desta resposta", afiança Manuel Grilo.
As propostas que se discutem esta quinta-feira em reunião de câmara são a extensão do financiamento a algumas respostas em vigor: housing first, Núcleo de Apoio Local de Arroios e equipas técnicas de rua. Nos documentos a votação lê-se que, daqui a um ano, “estará em pleno vigor o novo plano municipal”.
O melhor do Público no email
“Agora o NPISA está numa fase mais mexida, porque a coordenação teve que ir descobrir tudo o que estava a ser feito. Está agora a descobrir os prazos para cumprir e parece-me que tenta reunir todos os esforços para conseguir concretizar o trabalho”, afirma Madalena Curado, da Ares do Pinhal.
Fruto do que diz ser o desinvestimento recente, João Marrana tem a percepção de que a população sem-abrigo aumentou. Compara o cenário actual com as contagens feitas em 2013 e 2015: “Zonas que não tinham pessoas na rua como Benfica, Campo de Ourique, Graça, agora começam a ter”.
Um quiosque de saúde fechou, a atribuição de cacifos está suspensa e a de casas também. Câmara de Lisboa nega atrasos na execução de programa municipal.
Quase uma dezena de projectos de apoio a pessoas sem-abrigo em Lisboa estão atrasados. A um mês e meio do fim do ano, momento em que devia estar plenamente em vigor o Programa Municipal para a Pessoa Sem-Abrigo 2016-2018 (PMSA), há iniciativas paradas a meio e outras que não chegaram a sair do papel. Algumas associações do sector queixam-se de “estagnação” mas também de “desinvestimento”, denunciando que há respostas a esta população que podem ter de acabar brevemente. A câmara de Lisboa aprova esta quinta-feira a continuidade de alguns protocolos até Outubro de 2019, nega atrasos e garante estar a trabalhar num novo PMSA.
"Não há atraso na implementação ou execução de medidas contidas no programa anterior. Trata-se de um documento estratégico que tinha, como todos os planos, natureza previsional: o que se verifica é a necessidade de adequar algumas das respostas, designadamente no que se refere ao Housing First, à realidade actual", respondeu o gabinete de Manuel Grilo, vereador dos Direitos Sociais, a perguntas do PÚBLICO.
A Crescer, associação responsável pelo Espaço Âncora, teme pelo futuro desta infra-estrutura da freguesia de Arroios frequentada por cerca de 400 pessoas por ano. Ali é disponibilizado acesso a material asséptico para consumo, cuidados de enfermagem, comida e roupa, balneários, computadores e televisão, assim como actividades ocupacionais.
“Estamos completamente sem rede. Este executivo cortou no financiamento, mas cortou sem diálogo. Havia aqui uma relação de confiança que se perdeu”, diz Américo Nave, presidente da Crescer. Duarte Paiva, da ACA, denuncia a mesma dificuldade de comunicação: “Estamos sozinhos, sem ajuda. Hoje sentimos que somos o sustento do NPISA (Núcleo de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo), não parceiros da estratégia da cidade.” O presidente da Conversa Amiga diz ainda que tenta há vários meses reunir com a coordenação do NPISA, sem sucesso.
vereador Manuel Grilo diz que estas três respostas "não estavam consideradas no anterior PMPSA e eram avaliadas periodicamente e no âmbito de candidaturas pontuais". O eleito garante que está a fazer uma "análise tendo em vista a possibilidade de estarem contempladas no PMPSA com apoios mais consistentes".
Até Março do ano passado, o PMSA e o NPISA eram liderados pela mesma pessoa, João Marrana, que entretanto abandonou a pasta. Actualmente, o PMSA é coordenado pelo vereador dos Direitos Sociais, Manuel Grilo, do Bloco de Esquerda, que chegou ao cargo há poucos meses, substituindo Ricardo Robles. Já o NPISA é liderado por Teresa Bispo, depois de ter passado por pelo menos mais duas pessoas.
O gabinete de Manuel Grilo diz ainda que desconhece as queixas das associações sobre o NPISA. "Não temos qualquer conhecimento verbal ou documental de algum descontentamento com o NPISA, tanto mais que acabou de aprovar por unanimidade os dois novos eixos (Saúde e Alojamento/ Empregabilidade) e um alargado leque de novas candidaturas por parte de outras entidades, estando já a aguardar os procedimentos de novos pedidos de adesão."
A criação do NPISA, em Janeiro de 2015, mudou por completo a intervenção junto desta população. O facto de as associações estarem reunidas no mesmo espaço e partilharem bases de dados e recursos agilizou os processos de apoio, tornou mais fácil o encaminhamento para respostas de alojamento, cuidados de saúde, tratamento de dependências, e reduziu o risco de se repetirem intervenções. Instituiu-se a figura do gestor de caso, responsável por tudo o que diz respeito à intervenção junto das pessoas sem-abrigo que estão a seu cargo, e deu a todas as associações a possibilidade de requerer apoios à Santa Casa da Misericórdia.
As associações viram as suas respostas tornarem-se mais eficazes. E conseguiram chegar a franjas mais excluídas, que praticamente não tinham relação com a rede social. “Começámos efectivamente a tirar as pessoas da rua”, resume Madalena Curado, gestora de caso da Associação Ares do Pinhal.
O trabalho concertado pôs a cidade na linha da frente da estratégia nacional para a integração de pessoas sem-abrigo, num momento em que, primeiro Marcelo Rebelo de Sousa e depois o ministro Vieira da Silva assumiram a eliminação deste fenómeno como um desígnio nacional.
Atribuição de casas atrasada
A situação terá mudado entretanto. “Não se ofereceu nem mais uma cama à cidade, nem mais um projecto, nem mais um apoio. O que nasceu, morreu”, critica João Marrana. “Estamos outra vez no básico”, corrobora Duarte Paiva, da ACA. “Voltámos à Lisboa de há cinco anos, com a coordenação [do NPISA] a mostrar um completo desconhecimento da realidade”, afirma.
Desde o final do ano passado que a atribuição de 50 casas a pessoas sem-abrigo está apenas dependente da assinatura de um protocolo, denunciam João Marrana e confirmam as duas entidades envolvidas. As associações responsáveis por este projecto de Housing First (assente na ideia de que a autonomização das pessoas sem-abrigo começa com uma habitação digna) foram escolhidas por concurso em meados de 2017: a Crescer e a Associação para o Estudo e Integração Psicossocial (AEIPS), as mesmas que gerem as 80 casas deste modelo já existentes em Lisboa. O PMSA previa que até ao final de 2018 a cidade tivesse mais 100 casas – metade criada em 2017, a outra metade este ano.
Teresa Duarte, presidente da AEIPS, não sentiu o desinvestimento de que se queixam as outras associações. Mas diz que o sucesso das 80 casas Housing First já existentes demonstra a necessidade de mais investimento. “A generalização desta resposta vai de encontro ao desígnio do Presidente da República de deixar de ter pessoas na rua até 2023. E para isso é preciso habitação”, afirma.
"O programa Housing First foi desenhado no anterior mandato, não tendo previsto o drástico aumento de preços da habitação no mercado privado. Neste âmbito, importa referir que os valores orçamentados para o actual PMPSA já não são suficientes e serão corrigidos no próximo programa", informa Manuel Grilo. "A subida de preços do mercado livre de habitação tornou a opção anteriormente tomada de arrendar em mercado livre muito onerosa para o município. A afectação de habitações municipais adicionais para utilização na área dos sem-abrigo, seja para projectos em modelo Housing First ou apartamentos partilhados é a solução para este problema."
Outros projectos, alguns com orçamento aprovado e prontos a executar, ficaram igualmente parados no último ano e meio. Quando, em Março de 2017, João Marrana deixou a pasta, “tinha na mão as chaves de quatro apartamentos T3 partilhados”, prontos a ser atribuídos à associação que os iria gerir. O antigo responsável ficou sem perceber porque nada avançou entretanto.
Estava igualmente preparado o concurso para a criação de quatro espaços de ocupação diurna, desenhada uma unidade móvel de saúde e higiene, cativo um espaço para criação de um centro de reconciliação familiar (para facilitar o contacto entre pessoas sem-abrigo e as suas famílias). Uma proposta de Plano de Saúde para a População em Situação de Sem-Abrigo, trabalho de vários meses de um grupo de associações, também ficou na gaveta.
Lurdes vive na carcaça de uma antiga escola. Para onde irá agora?
O vereador afirma que os pontos previstos neste plano "serão integrados no Plano de saúde, Qualidade de Vida e Bem-Estar de Lisboa, que ainda carece de finalização e aprovação em reunião de câmara".
Até ao final deste ano estava também prevista a abertura de três núcleos de apoio local (existem dois destes espaços onde as pessoas sem-abrigo podem comer, trocar de roupa e receber acompanhamento social), de um espaço de formação profissional e de um restaurante que seria um projecto de promoção de emprego. Para este último projecto, a câmara atribuiu a primeira parte do financiamento (60 mil euros), mas a associação responsável, a Crescer, espera desde o ano passado autorização para fazer as obras. Manuel Grilo espera que em 2019 a situação esteja resolvida.
Obras por avançar
Entre os projectos parados consta ainda a requalificação do centro de alojamento temporário do Beato, o maior da cidade, gerido pela associação Vitae. As obras e a mudança no modelo de intervenção estão previstas há vários anos. Com 271 camas, disponíveis para que a maioria das pessoas apenas ali pernoite, este centro funciona em moldes que já não se coadunam com a filosofia de intervenção assumida pela estratégia nacional para a população sem-abrigo. Esta advoga por uma redução das camas de emergência e o aumento das respostas de longa duração, com acompanhamento personalizado.
O plano pensado para o centro continua assente nesta filosofia, assegura Sónia Ferreira Gonçalves, presidente da Vitae. A visita e o “empenho demonstrado” pelo vereador Manuel Grilo no início deste mês deixou-a optimista de que, “apesar do impasse”, as obras avancem em breve. “Neste momento, o que fazemos fica aquém do que gostaríamos e do que estas pessoas merecem”, afirma. "Neste mandato, estamos finalmente a iniciar de uma forma concertada todo este processo de requalificação desta resposta", afiança Manuel Grilo.
As propostas que se discutem esta quinta-feira em reunião de câmara são a extensão do financiamento a algumas respostas em vigor: housing first, Núcleo de Apoio Local de Arroios e equipas técnicas de rua. Nos documentos a votação lê-se que, daqui a um ano, “estará em pleno vigor o novo plano municipal”.
O melhor do Público no email
“Agora o NPISA está numa fase mais mexida, porque a coordenação teve que ir descobrir tudo o que estava a ser feito. Está agora a descobrir os prazos para cumprir e parece-me que tenta reunir todos os esforços para conseguir concretizar o trabalho”, afirma Madalena Curado, da Ares do Pinhal.
Fruto do que diz ser o desinvestimento recente, João Marrana tem a percepção de que a população sem-abrigo aumentou. Compara o cenário actual com as contagens feitas em 2013 e 2015: “Zonas que não tinham pessoas na rua como Benfica, Campo de Ourique, Graça, agora começam a ter”.
9.2.15
Lisboa Plano de apoio aos sem-abrigo assistiu 121 pessoas em dois dias
in Notícias ao Minuto
O plano de contingência de Lisboa para os sem-abrigo vai manter-se ativo até às 08:00 de segunda-feira, depois de ter prestado assistência a 121 pessoas em dois dias, disse hoje o vereador dos Assuntos Sociais.
O Dispositivo Integrado de Apoio aos Sem-Abrigo (DIASA) está a funcionar desde as 20:00 de sexta-feira, no Pavilhão Desportivo do Casal Vistoso, onde são servidas refeições quentes e agasalhos para ajudar a enfrentar as baixas temperaturas registadas nos últimos dias.
PUB
O vereador dos Assuntos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa, João Afonso, disse à agência Lusa que, entre sexta-feira e as 19:00 de hoje, foram acolhidas 121 pessoas no pavilhão.
Hoje foram acolhidas 35 pessoas, até às 19:00 e, ao longo do dia de sábado, foi prestado apoio a 64 pessoas, disse o vereador à agência Lusa. "Mas é sempre à noite que aumenta a afluência de pessoas ao pavilhão", acrescentou o autarca.
Os sem-abrigo são encaminhados para o pavilhão por equipas de rua localizadas junto das estações do metropolitano dos Restauradores (em frente à antiga Loja do Cidadão), do Intendente (porta da rua Andrade) e do Saldanha (perto do Edifício Monumental) e da fachada principal da estação de comboios de Santa Apolónia (átrio principal) e da Gare do Oriente, em frente ao centro comercial Vasco da Gama.
Segundo o vereador João Afonso, o plano vai manter-se ativo até às 08:00 de segunda-feira, "embora possa ser prolongado se as condições climatéricas o exigirem".
O autarca salientou que as previsões meteorológicas apontam para a subidas das temperaturas na segunda-feira, mas "será feita uma nova avaliação da situação após a atualização das previsões meteorológicas às 22:00".
O plano de contigência para os sem-abrigo foi ativado devido às previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que colocaram todo o país sob aviso amarelo, entre as 07:00 de sexta-feira e as 11:59 de domingo.
Este plano é ativado quando se registam pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas mínimas abaixo de três graus.
O IPMA mantém o distrito de Lisboa sob aviso amarelo, o terceiro mais grave de uma escala de quatro, e prevê, para segunda-feira, temperaturas entre os três e os 14 graus centígrados.
O plano de contingência de Lisboa para os sem-abrigo vai manter-se ativo até às 08:00 de segunda-feira, depois de ter prestado assistência a 121 pessoas em dois dias, disse hoje o vereador dos Assuntos Sociais.
O Dispositivo Integrado de Apoio aos Sem-Abrigo (DIASA) está a funcionar desde as 20:00 de sexta-feira, no Pavilhão Desportivo do Casal Vistoso, onde são servidas refeições quentes e agasalhos para ajudar a enfrentar as baixas temperaturas registadas nos últimos dias.
PUB
O vereador dos Assuntos Sociais da Câmara Municipal de Lisboa, João Afonso, disse à agência Lusa que, entre sexta-feira e as 19:00 de hoje, foram acolhidas 121 pessoas no pavilhão.
Hoje foram acolhidas 35 pessoas, até às 19:00 e, ao longo do dia de sábado, foi prestado apoio a 64 pessoas, disse o vereador à agência Lusa. "Mas é sempre à noite que aumenta a afluência de pessoas ao pavilhão", acrescentou o autarca.
Os sem-abrigo são encaminhados para o pavilhão por equipas de rua localizadas junto das estações do metropolitano dos Restauradores (em frente à antiga Loja do Cidadão), do Intendente (porta da rua Andrade) e do Saldanha (perto do Edifício Monumental) e da fachada principal da estação de comboios de Santa Apolónia (átrio principal) e da Gare do Oriente, em frente ao centro comercial Vasco da Gama.
Segundo o vereador João Afonso, o plano vai manter-se ativo até às 08:00 de segunda-feira, "embora possa ser prolongado se as condições climatéricas o exigirem".
O autarca salientou que as previsões meteorológicas apontam para a subidas das temperaturas na segunda-feira, mas "será feita uma nova avaliação da situação após a atualização das previsões meteorológicas às 22:00".
O plano de contigência para os sem-abrigo foi ativado devido às previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que colocaram todo o país sob aviso amarelo, entre as 07:00 de sexta-feira e as 11:59 de domingo.
Este plano é ativado quando se registam pelo menos dois dias consecutivos com temperaturas mínimas abaixo de três graus.
O IPMA mantém o distrito de Lisboa sob aviso amarelo, o terceiro mais grave de uma escala de quatro, e prevê, para segunda-feira, temperaturas entre os três e os 14 graus centígrados.
19.1.15
Sem-abrigo. No mapa de Lisboa, são tão conhecidos como as ruas onde dormem
Por Marta Cerqueira, in iOnline
Há quem passe sem reparar neles, mas há também quem já estranhe as suas ausências. São sem-abrigo há tanto tempo que a sua história já se mistura com as das ruas que usam como casa. A Maria dos Restauradores, o João da Sé, o Francisco do Oriente ou o Pedro das Docas são algumas das personagens de Lisboa com passados complicados e futuros com poucas certezas. Para muitos, a única é mesmo só a de saber que a rua onde dormem será sempre a sua casa. No entretanto, há tempo para pedir esmola e arrumar carros em troca do suficiente para comer naquele dia. Entre os que recusam dinheiro do Estado e comida das associações de voluntariado e os que dependem disso para sobreviver existem pontos comuns de quem partilha vivências. Dormem quase sempre sozinhos, têm uma ou duas pessoas de confiança porque não há espaço para mais. Lisboa tem para cima de 800 sem-abrigo e o i tirou a fotografia e ouviu as histórias dos mais conhecidos de cada zona da cidade. “Qualquer coisa já sabem onde me encontrar”, disse-nos o Pedro, ajudando a traçar um dos mapas mais escuros da capital
1. “Tenho que mexer na porcaria para comer. Mas às vezes até sai lagosta”
Maria José cambaleia pela rua 1.o de Dezembro até chegar ao número 9, uma sapataria cuja entrada lhe serve de cama há dez anos. Natural do Algarve, veio trabalhar para Lisboa onde casou e tinha uma vida estável. “Tudo como as outras pessoas normais”. Quando o marido morreu, Maria José começou a “desleixar--se”, expressão que serve para caracterizar os anos em que começou a beber e a dar-se com más companhias. “Deixei a vida andar e acabei aqui”.
Apesar de viver sem salário nem subsídios, Maria José recusa-se a comer o que as carrinhas oferecem todas as noites. Para compensar o capricho, procura no lixo aquilo que os outros não querem. “Tenho que mexer na porcaria mas olhe que às vezes saem coisas boas, até já comi lagosta e sapateira”, conta, apontando para as marisqueiras que preenchem o início da Rua Augusta. Para ajudar nos dias em que o lixo não dá nada, Maria recorre à esmola, que muitas vezes lhe chega à mão mesmo sem pedir. “Pegue estes 2 euros para uma sopinha”, interrompe uma senhora que lá passa todos os dias.
2. Para Ali, a música serve de bilhete de identidade
Não tem poiso nem na hora de dormir. É habitual ver Ali Regep a deambular pelas principais ruas de Lisboa, do Chiado à Mouraria, do Campo das Cebolas ao Cais do Sodré. Da língua portuguesa conhece poucas palavras e na hora de se apresentar, saca dum monte de papéis que traz no bolso e que servem de cartão de visita. Entre eles está a sua fotografia com os restantes membros da Orquestra Todos, com a qual já chegou a actuar até no Rock in Rio.
A meio da conversa solta o cântico que o caracteriza. Não se percebe sequer que língua é, mas o tom é de lamúria numa potência de voz quase inconfundível. “Lá está ele outra vez”, dizem os colegas que já se habituaram a que Ali troque as palavras por música. O romeno de origem turca é imigrante ilegal e vive na rua com a mulher, de origem búlgara. Com 40 anos, há sete que vive em Lisboa e se pudesse escolher era cá que ficava. “Muito melhor aqui”, nas poucas frases que consegue articular em português. Emociona-se a falar do filho de 24 anos que ficou na Bulgária e que não vê desde que saiu do país. Mais uma vez é no bolso do casaco que traz as memórias e apresenta o filho num cartão quase ilegível, com foto e dados pessoais, que confirmam a idade mas que provam o discurso incoerente que intercala com as cantorias. “Meu filho. Primeiro-ministro. Bulgária”, dizia em loop.
Na fila da comida que as associações vêm entregar mantém-se à parte, de guitarra partida na mão, encostado a um semáforo. “Sopa não. Não gosto”. E assim fica à espera do segundo prato. “Para onde vai a seguir?”, perguntamos. Mais uma vez sem palavras, Ali responde com um gesto de quem diz “algures por aí”.
3. “Não tenho amigos. As companhias da rua são más”
João escolhe o canto mais à direita da escadaria da Sé de Lisboa para passar a noite. É assim há seis anos, sem falhas. Antes de escolher este poiso, foram mais cinco anos pelas ruas da cidade até escolher o sítio onde, sem companhia, descansa o corpo entre turnos a arrumar carros junto à Casa dos Bicos. “Não gosto de ter companhia, as companhias da rua são más, é só alcoólicos e drogados”, explica, apagando o cigarro – o seu único vício – num frasco vazio que tem junto às caixas que lhe servem de cama. “Vê? Não incomodo ninguém, nem a rua sujo”.
João conta-nos que a família existe, “mas é como se não existisse”. Do dinheiro que enviava todos os meses para a mulher e para a filha durante os anos em que trabalhou fora do país, ficou sem nada. “Roubaram-me tudo. Decidi pegar nas minhas coisas e vir embora”. O “ir embora” acabou por fazê-lo perder rumo e João teve de se resignar a viver na rua e a sobreviver do que lhe dão. Aos seus pés tem um cartaz com a expressão “Help me” e espaço para as moedas que os turistas e conhecidos vão deixando. O seu emprego – “pelo menos é assim que o encaro” – é arrumar carros, num largo com poucos lugares, mas com clientes fixos.
João faz uma pausa no descanso para receber a comida que vem das associações. Trata todos os voluntários pelos nomes e já sabe identificar quais as carrinhas que trazem comida a seu gosto. “Já me deram pão duro, bolos com bolor, mas é com isso que tenho de me remediar”.
Quando se fala de futuro, João volta ao passado. “Há uns anos tive uns quistos no cérebro que nem sei se estão curados”. Sobre a possibilidade de mudar de vida, João não deixa abertas. “Já é tarde para mim”.
4. “Já tive um cliente a levar-me a jantar fora. Foi um regalo”
“Quantos anos acha que eu tenho?”. Arriscamos 63. “Na mouche”. Está dado o mote para uma conversa curta mas que, pela vontade de Pedro, durava a noite toda.
Arruma carros no largo à entrada das Docas há muitos anos, tantos que já não consegue dar um número. “Já toda a gente me conhece”, garante. Com base na confiança de quem ajuda a estacionar os mesmos clientes todos os dias, tem sempre quem lhe ofereça dinheiro, tabaco e até já o levaram a jantar. “Foi um professor de espanhol que no Natal me convidou para ir a uma marisqueira aqui em Alcântara”. A primeira coisa a vir para a mesa foi uma sapateira. “Foi um regalo”. Aproveitando a boa vontade típica da época natalícia, juntou uns trocos extra aos sete a oito euros que costuma fazer por dia. “Ao fim-de-semana a coisa melhora e entre sexta e domingo consigo tirar uns 70 euros”. Todos os trocos do dia se juntam aos 180 euros que recebe de subsídio por ter ficado incapacitado num acidente de trabalho. Tudo junto paga a pensão onde vive sozinho, por não ter dinheiro para uma casa. “O meu sonho é encontrar uma velha rica para ficar comigo”, brinca enquanto esfrega os dedos das mãos em sinal de dinheiro.
Apesar de atracado nas Docas, Pedro já conheceu meio mundo. “Fiz de tudo um pouco. Fazia o que era preciso e ia para onde havia trabalho”. A trabalhar nas obras, a apanhar fruta ou como servente de pedreiro, viveu em pelo menos quatro cidades espanholas, no Canadá e nos Estados Unidos. Contrapartida? “Quando cheguei tinha um par de cornos da minha mulher que nem queira imaginar”. Mesmo depois do divórcio, continuou sempre em contacto com as três filhas e os cinco netos que não sabem o que ele faz no dia-a-dia. “Vou vivendo, é o que lhes digo”.
Com o saco de plástico cheio de comida dado pelas associações, Pedro diz adeus. “Qualquer coisa já sabem onde me encontrar”.
5. A “casa portuguesa” de Stanislaw é uma caravana em Santa Apolónia
O cabelo comprido num metro e noventa de homem chamam a atenção. “O polaco”, como é conhecido, olha desconfiado por debaixo das abas de chapéu de Indiana Jones que ajudam a criar um look conhecido nas ruas de Lisboa. Apresenta-se por escrito. Escreve Stanislaw Szalpuk nas costas de um postal que traz no bolso e, à falta de palavras portuguesas no vocabulário, é com letras e desenhos que tenta passar a mensagem.
10.12.2010 são os primeiros números a surgir no papel e que marcam a data em que decidiu sair da Polónia. “Dia da assinatura da declaração universal dos Direitos Humanos”. Uma pesquisa rápida na Wikipédia prova que tem razão. Foram vinte dias a atravessar a Alemanha, a França e a Espanha até chegar a Lisboa numa caravana que ainda hoje lhe serve de abrigo. “Quando cheguei, estacionei debaixo da ponte mas a polícia marítima blá blá blá, tive de sair”. Há quatro anos que tem estacionamento permanente ao pé da estação de Santa Apolónia, “zona má, de drogas e álcool”, mas onde já conhece toda a gente e onde todas as noites espera pela refeição quente trazida pelas associações de voluntariado.
Aos 40 anos, Stanislaw fala do que o trouxe a Portugal com um entusiasmo quase infantil. “Mariza” é a palavra mais vezes repetida ao longo do discurso, que deixa dúvidas sobre uma eventual relação profissional com a fadista, mas a certeza de uma admiração sem limites. Sabe a data dos concertos, o nome das salas de espectáculo. “Quer mais? Veja o meu Facebook”. Assim fizemos. Post sim, post não, aí está a referência à fadista, com vídeos, partilhas e comentários em cascata. “Eu não maluco, eu não psicopata, eu fã”, esclarece.
Antes de ir embora faz questão de provar o porquê de na Polónia ser considerado “um artista”, palavras suas. Saca da flauta do bolso esquerdo e improvisa durante uns minutos. A seguir vai para a carrinha, “a minha casa”, descansar. No passo descontraído que o caracteriza, vai trauteando “é uma casa portuguesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa”.
6. “Pelo menos no Estado Novo não haviasem-abrigos”
Recusa ser fotografado. “Toda a gente me conhece”, justifica. Parece ser mesmo assim, tendo em conta os beijinhos e os acenos que dá a quem conhece. Dormiu na rua 18 anos, os últimos no Largo do Caldas “e sempre fui simpático para quem foi simpático comigo”. Conseguiu agora “um espacinho” numa casa. “Mas não paga renda”, adianta Natália, uma das poucas amigas que ficou da vida na rua e que espera com ele pelas refeições entregues nas carrinhas dos voluntários.
Não fosse a barba de alguns dias a denunciar alguma falta de cuidado, ninguém diria que Nelson ocupa sozinho um “espacinho” numa casa. Camisa, pullover e casaco de fazenda. “Foi tudo dado, mas tento andar arranjado”.
Se o aspecto não o denuncia, muito menos o discurso. Fala de política e economia com recurso a números certos e datas sem erro. “Tenho ideias monárquicas sabe? Esta democracia não funciona”. A desilusão com o que sobrou de uma vida como electricista e dos anos no Ultramar, levam-no a criticar tudo o que seja novidade. “Não gosto de tecnologias, nem da igreja ter sido posta de parte na vida das pessoas e muito menos destes políticos”, iniciando um rol de queixas que terminam com: “Isto devia ser uma monarquia como na Holanda e na Bélgica”. À falta de reis, apela ao regresso de um Salazar. “Pelo menos no Estado Novo não havia sem-abrigos”.
Aos 63 anos, acha que já não vai a tempo de mudar de vida. Só pede uma amiga “que lhe aqueça os pés à noite” e que não o deixe morrer sem saber o que é ter uma mulher.
7. “Sou filho desta gente toda. Esta rua é como se fosse a minha família”
Já são tantos os anos na rua que Rui já não os consegue contar. Sabe dizer, no entanto, que já são pelo menos sete a dormir da Rua Palmira, nas traseiras da Igreja dos Anjos. Quando nos conhecemos, há um mês, a sua “casa” era a porta abrigada dos CTT, um edifício que entretanto ficou vazio. “Os correios fecharam, mas a minha casa não. Continua a ser a mesma”, garante.
A arrumar carros ganha uma média de dez euros por dia, o que “às vezes dá para almoçar, outras para jantar e, nos dias de sorte, dá para o almoço e o jantar”. Recusa-se a receber apoio do Estado e comida das associações. “Tenho uma boca esquisita”, justifica.
A filha de 18 anos, que está a cargo dos padrinhos desde que a mãe morreu, não sabe que o pai dorme na rua. “Nem ela sonha e ai de quem lhe diga”, ameaça. Às perguntas mais difíceis da filha, a resposta é sempre a mesma: “O pai cá se arranja”.
8. “Se pudesse estava no Hotel Tivoli, a apanhar sol na barriga”
São poucos os dentes, mas o sorriso que nos dá é dos mais simpáticos da noite. Francisco Leiroa viveu mais de 40 horas como um nómada. “Já apalpei um bocadinho desta terra toda”. Dos anos em França, Itália, Alemanha, Suíça Espanha e Palma de Maiorca trouxe a experiência como serralheiro, mas também uma clavícula partida que ditou o fim da sua capacidade de continuar a exercer a profissão.
Em casa tinha uma mulher doente e uma filha insatisfeita com a vida que levavam em Vila Viçosa, de onde é natural. Ao falar delas, o ar simpático do início muda para uma expressão carregada que traduz a desilusão que sentiu quando as duas vieram para Lisboa, cortando o contacto com Francisco. “Abandonaram-me, sabe? E isso fez crescer uma raiva dentro de mim”.
De Vila Viçosa para a Gare do Oriente, onde dorme todas as noites, há um lapso de discurso que Francisco recusa explorar. “É aqui que vivo é aqui que vou morrer”.
Para afogar as mágoas e aquecer o corpo, Francisco bebe “um copinho todas as noites”. O cheiro a álcool e os pacotes de vinho vazios denunciam que será um pouco mais. “Gosto de beber, o que quer que lhe faça?”. O dinheiro que lhe sobra da curta reforma que lhe foi atribuída depois de ficar incapacitado, dá para umas garrafas que divide com os companheiros de rua. “Às vezes também dá para comida”, garante Francisco, traduzindo as prioridades do seu grupo de amigos.
Francisco tem uma casa na Pontinha e saca do maço de chaves que traz no bolso para o provar. “Mas aquilo tinha os esgotos entupidos e a canalização toda estragada. Estou melhor aqui”. Do pouco contacto que tem com a filha, omite que dorme há sete anos em frente à estação do Oriente. “Era um desgosto muito grande e eu não gosto de dar desgostos a ninguém”.
O frio deste inverno que o faz acordar todos os dias com as mãos “geladinhas , geladinhas”, leva a sua imaginação a voar longe. “Se pudesse escolher estava no Hotel Tivoli, deitado com a janela aberta para apanhar sol na barriga”.
9. “Somos honestos e fazemos as pessoas sorrir, duas coisas que o mundo precisa”
No meio de Jose e Lyndon está o cão e a cerveja, dois dos companheiros de viagem destes que se intitulam de “pedintes preguiçosos”. Há 12 anos que percorrem o mundo, escolhendo as ruas principais das cidades a pedir dinheiro. Nada de novo à partida, não fosse a sinceridade com que o fazem. Em vez do ar cabisbaixo comum de quem depende da esmola de quem passa, Jose e Lyndon, estão sempre com o ar mais relaxado do mundo. Em cartazes que colocam à sua frente estão os pedidos diferenciados: “para cerveja”, “para vinho”, para charros” e “para ressaca”. Quem passa pode escolher para que causa fazer a doação o que, no seu conjunto, parece contribuir para o sorriso constante com que encaram os olhares de estranheza de quem passa por eles pela primeira vez.
Ocupam o Chiado durante o dia e dormem na Gago Coutinho à noite. Da polícia não têm queixa. “No geral, olham para nós, sorriem e deixam-nos em paz”.
Fazem isto por gosto, garantem. “Somos honestos e fazemos as pessoas sorrir, duas coisas que o mundo precisa: honestidade e felicidade”. Sobre a escolha do próximo destino, põem o dedo em riste, rodam e pousam num mapa imaginário que traduzem em palavras: Sevilha ou Granada.
Há quem passe sem reparar neles, mas há também quem já estranhe as suas ausências. São sem-abrigo há tanto tempo que a sua história já se mistura com as das ruas que usam como casa. A Maria dos Restauradores, o João da Sé, o Francisco do Oriente ou o Pedro das Docas são algumas das personagens de Lisboa com passados complicados e futuros com poucas certezas. Para muitos, a única é mesmo só a de saber que a rua onde dormem será sempre a sua casa. No entretanto, há tempo para pedir esmola e arrumar carros em troca do suficiente para comer naquele dia. Entre os que recusam dinheiro do Estado e comida das associações de voluntariado e os que dependem disso para sobreviver existem pontos comuns de quem partilha vivências. Dormem quase sempre sozinhos, têm uma ou duas pessoas de confiança porque não há espaço para mais. Lisboa tem para cima de 800 sem-abrigo e o i tirou a fotografia e ouviu as histórias dos mais conhecidos de cada zona da cidade. “Qualquer coisa já sabem onde me encontrar”, disse-nos o Pedro, ajudando a traçar um dos mapas mais escuros da capital
1. “Tenho que mexer na porcaria para comer. Mas às vezes até sai lagosta”
Maria José cambaleia pela rua 1.o de Dezembro até chegar ao número 9, uma sapataria cuja entrada lhe serve de cama há dez anos. Natural do Algarve, veio trabalhar para Lisboa onde casou e tinha uma vida estável. “Tudo como as outras pessoas normais”. Quando o marido morreu, Maria José começou a “desleixar--se”, expressão que serve para caracterizar os anos em que começou a beber e a dar-se com más companhias. “Deixei a vida andar e acabei aqui”.
Apesar de viver sem salário nem subsídios, Maria José recusa-se a comer o que as carrinhas oferecem todas as noites. Para compensar o capricho, procura no lixo aquilo que os outros não querem. “Tenho que mexer na porcaria mas olhe que às vezes saem coisas boas, até já comi lagosta e sapateira”, conta, apontando para as marisqueiras que preenchem o início da Rua Augusta. Para ajudar nos dias em que o lixo não dá nada, Maria recorre à esmola, que muitas vezes lhe chega à mão mesmo sem pedir. “Pegue estes 2 euros para uma sopinha”, interrompe uma senhora que lá passa todos os dias.
2. Para Ali, a música serve de bilhete de identidade
Não tem poiso nem na hora de dormir. É habitual ver Ali Regep a deambular pelas principais ruas de Lisboa, do Chiado à Mouraria, do Campo das Cebolas ao Cais do Sodré. Da língua portuguesa conhece poucas palavras e na hora de se apresentar, saca dum monte de papéis que traz no bolso e que servem de cartão de visita. Entre eles está a sua fotografia com os restantes membros da Orquestra Todos, com a qual já chegou a actuar até no Rock in Rio.
A meio da conversa solta o cântico que o caracteriza. Não se percebe sequer que língua é, mas o tom é de lamúria numa potência de voz quase inconfundível. “Lá está ele outra vez”, dizem os colegas que já se habituaram a que Ali troque as palavras por música. O romeno de origem turca é imigrante ilegal e vive na rua com a mulher, de origem búlgara. Com 40 anos, há sete que vive em Lisboa e se pudesse escolher era cá que ficava. “Muito melhor aqui”, nas poucas frases que consegue articular em português. Emociona-se a falar do filho de 24 anos que ficou na Bulgária e que não vê desde que saiu do país. Mais uma vez é no bolso do casaco que traz as memórias e apresenta o filho num cartão quase ilegível, com foto e dados pessoais, que confirmam a idade mas que provam o discurso incoerente que intercala com as cantorias. “Meu filho. Primeiro-ministro. Bulgária”, dizia em loop.
Na fila da comida que as associações vêm entregar mantém-se à parte, de guitarra partida na mão, encostado a um semáforo. “Sopa não. Não gosto”. E assim fica à espera do segundo prato. “Para onde vai a seguir?”, perguntamos. Mais uma vez sem palavras, Ali responde com um gesto de quem diz “algures por aí”.
3. “Não tenho amigos. As companhias da rua são más”
João escolhe o canto mais à direita da escadaria da Sé de Lisboa para passar a noite. É assim há seis anos, sem falhas. Antes de escolher este poiso, foram mais cinco anos pelas ruas da cidade até escolher o sítio onde, sem companhia, descansa o corpo entre turnos a arrumar carros junto à Casa dos Bicos. “Não gosto de ter companhia, as companhias da rua são más, é só alcoólicos e drogados”, explica, apagando o cigarro – o seu único vício – num frasco vazio que tem junto às caixas que lhe servem de cama. “Vê? Não incomodo ninguém, nem a rua sujo”.
João conta-nos que a família existe, “mas é como se não existisse”. Do dinheiro que enviava todos os meses para a mulher e para a filha durante os anos em que trabalhou fora do país, ficou sem nada. “Roubaram-me tudo. Decidi pegar nas minhas coisas e vir embora”. O “ir embora” acabou por fazê-lo perder rumo e João teve de se resignar a viver na rua e a sobreviver do que lhe dão. Aos seus pés tem um cartaz com a expressão “Help me” e espaço para as moedas que os turistas e conhecidos vão deixando. O seu emprego – “pelo menos é assim que o encaro” – é arrumar carros, num largo com poucos lugares, mas com clientes fixos.
João faz uma pausa no descanso para receber a comida que vem das associações. Trata todos os voluntários pelos nomes e já sabe identificar quais as carrinhas que trazem comida a seu gosto. “Já me deram pão duro, bolos com bolor, mas é com isso que tenho de me remediar”.
Quando se fala de futuro, João volta ao passado. “Há uns anos tive uns quistos no cérebro que nem sei se estão curados”. Sobre a possibilidade de mudar de vida, João não deixa abertas. “Já é tarde para mim”.
4. “Já tive um cliente a levar-me a jantar fora. Foi um regalo”
“Quantos anos acha que eu tenho?”. Arriscamos 63. “Na mouche”. Está dado o mote para uma conversa curta mas que, pela vontade de Pedro, durava a noite toda.
Arruma carros no largo à entrada das Docas há muitos anos, tantos que já não consegue dar um número. “Já toda a gente me conhece”, garante. Com base na confiança de quem ajuda a estacionar os mesmos clientes todos os dias, tem sempre quem lhe ofereça dinheiro, tabaco e até já o levaram a jantar. “Foi um professor de espanhol que no Natal me convidou para ir a uma marisqueira aqui em Alcântara”. A primeira coisa a vir para a mesa foi uma sapateira. “Foi um regalo”. Aproveitando a boa vontade típica da época natalícia, juntou uns trocos extra aos sete a oito euros que costuma fazer por dia. “Ao fim-de-semana a coisa melhora e entre sexta e domingo consigo tirar uns 70 euros”. Todos os trocos do dia se juntam aos 180 euros que recebe de subsídio por ter ficado incapacitado num acidente de trabalho. Tudo junto paga a pensão onde vive sozinho, por não ter dinheiro para uma casa. “O meu sonho é encontrar uma velha rica para ficar comigo”, brinca enquanto esfrega os dedos das mãos em sinal de dinheiro.
Apesar de atracado nas Docas, Pedro já conheceu meio mundo. “Fiz de tudo um pouco. Fazia o que era preciso e ia para onde havia trabalho”. A trabalhar nas obras, a apanhar fruta ou como servente de pedreiro, viveu em pelo menos quatro cidades espanholas, no Canadá e nos Estados Unidos. Contrapartida? “Quando cheguei tinha um par de cornos da minha mulher que nem queira imaginar”. Mesmo depois do divórcio, continuou sempre em contacto com as três filhas e os cinco netos que não sabem o que ele faz no dia-a-dia. “Vou vivendo, é o que lhes digo”.
Com o saco de plástico cheio de comida dado pelas associações, Pedro diz adeus. “Qualquer coisa já sabem onde me encontrar”.
5. A “casa portuguesa” de Stanislaw é uma caravana em Santa Apolónia
O cabelo comprido num metro e noventa de homem chamam a atenção. “O polaco”, como é conhecido, olha desconfiado por debaixo das abas de chapéu de Indiana Jones que ajudam a criar um look conhecido nas ruas de Lisboa. Apresenta-se por escrito. Escreve Stanislaw Szalpuk nas costas de um postal que traz no bolso e, à falta de palavras portuguesas no vocabulário, é com letras e desenhos que tenta passar a mensagem.
10.12.2010 são os primeiros números a surgir no papel e que marcam a data em que decidiu sair da Polónia. “Dia da assinatura da declaração universal dos Direitos Humanos”. Uma pesquisa rápida na Wikipédia prova que tem razão. Foram vinte dias a atravessar a Alemanha, a França e a Espanha até chegar a Lisboa numa caravana que ainda hoje lhe serve de abrigo. “Quando cheguei, estacionei debaixo da ponte mas a polícia marítima blá blá blá, tive de sair”. Há quatro anos que tem estacionamento permanente ao pé da estação de Santa Apolónia, “zona má, de drogas e álcool”, mas onde já conhece toda a gente e onde todas as noites espera pela refeição quente trazida pelas associações de voluntariado.
Aos 40 anos, Stanislaw fala do que o trouxe a Portugal com um entusiasmo quase infantil. “Mariza” é a palavra mais vezes repetida ao longo do discurso, que deixa dúvidas sobre uma eventual relação profissional com a fadista, mas a certeza de uma admiração sem limites. Sabe a data dos concertos, o nome das salas de espectáculo. “Quer mais? Veja o meu Facebook”. Assim fizemos. Post sim, post não, aí está a referência à fadista, com vídeos, partilhas e comentários em cascata. “Eu não maluco, eu não psicopata, eu fã”, esclarece.
Antes de ir embora faz questão de provar o porquê de na Polónia ser considerado “um artista”, palavras suas. Saca da flauta do bolso esquerdo e improvisa durante uns minutos. A seguir vai para a carrinha, “a minha casa”, descansar. No passo descontraído que o caracteriza, vai trauteando “é uma casa portuguesa com certeza, é com certeza uma casa portuguesa”.
6. “Pelo menos no Estado Novo não haviasem-abrigos”
Recusa ser fotografado. “Toda a gente me conhece”, justifica. Parece ser mesmo assim, tendo em conta os beijinhos e os acenos que dá a quem conhece. Dormiu na rua 18 anos, os últimos no Largo do Caldas “e sempre fui simpático para quem foi simpático comigo”. Conseguiu agora “um espacinho” numa casa. “Mas não paga renda”, adianta Natália, uma das poucas amigas que ficou da vida na rua e que espera com ele pelas refeições entregues nas carrinhas dos voluntários.
Não fosse a barba de alguns dias a denunciar alguma falta de cuidado, ninguém diria que Nelson ocupa sozinho um “espacinho” numa casa. Camisa, pullover e casaco de fazenda. “Foi tudo dado, mas tento andar arranjado”.
Se o aspecto não o denuncia, muito menos o discurso. Fala de política e economia com recurso a números certos e datas sem erro. “Tenho ideias monárquicas sabe? Esta democracia não funciona”. A desilusão com o que sobrou de uma vida como electricista e dos anos no Ultramar, levam-no a criticar tudo o que seja novidade. “Não gosto de tecnologias, nem da igreja ter sido posta de parte na vida das pessoas e muito menos destes políticos”, iniciando um rol de queixas que terminam com: “Isto devia ser uma monarquia como na Holanda e na Bélgica”. À falta de reis, apela ao regresso de um Salazar. “Pelo menos no Estado Novo não havia sem-abrigos”.
Aos 63 anos, acha que já não vai a tempo de mudar de vida. Só pede uma amiga “que lhe aqueça os pés à noite” e que não o deixe morrer sem saber o que é ter uma mulher.
7. “Sou filho desta gente toda. Esta rua é como se fosse a minha família”
Já são tantos os anos na rua que Rui já não os consegue contar. Sabe dizer, no entanto, que já são pelo menos sete a dormir da Rua Palmira, nas traseiras da Igreja dos Anjos. Quando nos conhecemos, há um mês, a sua “casa” era a porta abrigada dos CTT, um edifício que entretanto ficou vazio. “Os correios fecharam, mas a minha casa não. Continua a ser a mesma”, garante.
A arrumar carros ganha uma média de dez euros por dia, o que “às vezes dá para almoçar, outras para jantar e, nos dias de sorte, dá para o almoço e o jantar”. Recusa-se a receber apoio do Estado e comida das associações. “Tenho uma boca esquisita”, justifica.
A filha de 18 anos, que está a cargo dos padrinhos desde que a mãe morreu, não sabe que o pai dorme na rua. “Nem ela sonha e ai de quem lhe diga”, ameaça. Às perguntas mais difíceis da filha, a resposta é sempre a mesma: “O pai cá se arranja”.
8. “Se pudesse estava no Hotel Tivoli, a apanhar sol na barriga”
São poucos os dentes, mas o sorriso que nos dá é dos mais simpáticos da noite. Francisco Leiroa viveu mais de 40 horas como um nómada. “Já apalpei um bocadinho desta terra toda”. Dos anos em França, Itália, Alemanha, Suíça Espanha e Palma de Maiorca trouxe a experiência como serralheiro, mas também uma clavícula partida que ditou o fim da sua capacidade de continuar a exercer a profissão.
Em casa tinha uma mulher doente e uma filha insatisfeita com a vida que levavam em Vila Viçosa, de onde é natural. Ao falar delas, o ar simpático do início muda para uma expressão carregada que traduz a desilusão que sentiu quando as duas vieram para Lisboa, cortando o contacto com Francisco. “Abandonaram-me, sabe? E isso fez crescer uma raiva dentro de mim”.
De Vila Viçosa para a Gare do Oriente, onde dorme todas as noites, há um lapso de discurso que Francisco recusa explorar. “É aqui que vivo é aqui que vou morrer”.
Para afogar as mágoas e aquecer o corpo, Francisco bebe “um copinho todas as noites”. O cheiro a álcool e os pacotes de vinho vazios denunciam que será um pouco mais. “Gosto de beber, o que quer que lhe faça?”. O dinheiro que lhe sobra da curta reforma que lhe foi atribuída depois de ficar incapacitado, dá para umas garrafas que divide com os companheiros de rua. “Às vezes também dá para comida”, garante Francisco, traduzindo as prioridades do seu grupo de amigos.
Francisco tem uma casa na Pontinha e saca do maço de chaves que traz no bolso para o provar. “Mas aquilo tinha os esgotos entupidos e a canalização toda estragada. Estou melhor aqui”. Do pouco contacto que tem com a filha, omite que dorme há sete anos em frente à estação do Oriente. “Era um desgosto muito grande e eu não gosto de dar desgostos a ninguém”.
O frio deste inverno que o faz acordar todos os dias com as mãos “geladinhas , geladinhas”, leva a sua imaginação a voar longe. “Se pudesse escolher estava no Hotel Tivoli, deitado com a janela aberta para apanhar sol na barriga”.
9. “Somos honestos e fazemos as pessoas sorrir, duas coisas que o mundo precisa”
No meio de Jose e Lyndon está o cão e a cerveja, dois dos companheiros de viagem destes que se intitulam de “pedintes preguiçosos”. Há 12 anos que percorrem o mundo, escolhendo as ruas principais das cidades a pedir dinheiro. Nada de novo à partida, não fosse a sinceridade com que o fazem. Em vez do ar cabisbaixo comum de quem depende da esmola de quem passa, Jose e Lyndon, estão sempre com o ar mais relaxado do mundo. Em cartazes que colocam à sua frente estão os pedidos diferenciados: “para cerveja”, “para vinho”, para charros” e “para ressaca”. Quem passa pode escolher para que causa fazer a doação o que, no seu conjunto, parece contribuir para o sorriso constante com que encaram os olhares de estranheza de quem passa por eles pela primeira vez.
Ocupam o Chiado durante o dia e dormem na Gago Coutinho à noite. Da polícia não têm queixa. “No geral, olham para nós, sorriem e deixam-nos em paz”.
Fazem isto por gosto, garantem. “Somos honestos e fazemos as pessoas sorrir, duas coisas que o mundo precisa: honestidade e felicidade”. Sobre a escolha do próximo destino, põem o dedo em riste, rodam e pousam num mapa imaginário que traduzem em palavras: Sevilha ou Granada.
22.12.14
A vida normal de dois sem-abrigo
Paulo Moura (texto), Miguel Manso (fotografia) e Vera Moutinho (video), in Público on-line
Todos os dias há novos sem-abrigo em Lisboa. Não por serem loucos ou anti-sociais, mas porque não conseguem um emprego nem pagar uma renda. Não são desadaptados: adaptaram-se. Esta é a história de dois deles, Vítor e João. Como emprego, arrumam carros no Campo das Cebolas. Um vive nas escadarias da Sé, o seu palácio, outro num buraco sem luz nem ar, o seu bunker. Foram atirados para a rua. Mas não desistiram de nada.
São 7 da manhã e chove torrencialmente no Campo das Cebolas. Uma daquelas cargas de água que, em meia hora, provocam uma inundação em Lisboa. Não há ninguém na rua, excepto um homem franzino e hirto como uma estátua, com uma barbicha e um boné de pano na cabeça, mas sem chapéu-de-chuva nem qualquer intenção de correr para um abrigo. Ele não me vê, mas eu sim, da minha janela. Ali está ele, como todos os dias, a aguentar, a aguentar. Ainda não chegou nenhum carro ao parque, mas o horário é sagrado: às 6 da manhã, João desce da catedral até ao local de trabalho. Varre as folhas mortas e todo o lixo que possa ter-se acumulado junto à oliveira de José Saramago (tarefa pela qual a Fundação da Casa dos Bicos lhe paga um euro por dia), distribui os pinos pelos lugares vagos do parque de estacionamento.
A sua função é arrumar carros, até às 3 da tarde, hora a que começa o turno de Vítor, que se estende até à noite. Dividem assim a gestão do território, que integra um pequeno quarteirão da Rua dos Bacalhoeiros e os dois lados do pátio da Casa dos Bicos, incluindo o da Rua da Alfândega, onde o estacionamento é proibido. De todos os lugares da zona, aliás, só dois são absolutamente legais, não contando com um reservado a deficientes, dois a motos, outros dois à Fundação.
À semelhança do modelo de negócio de todos os arrumadores urbanos, o de João, de 64 anos, e Vítor, de 46, consiste em tomar conta dos veículos, mediante o pagamento de uma gorjeta.
Se vêem aproximar-se um funcionário da EMEL, correm para o parquímetro e retiram um ticket de 30 cêntimos, que colocam à pressa no pára-brisas de cada carro à sua responsabilidade. Os clientes não têm de accionar os parquímetros, nem de pagar o valor correspondente ao tempo que deixam o carro estacionado. Além desta poupança, os fregueses habituais beneficiam de um serviço personalizado de reservas e ainda, graças à excelência da gestão de superfícies, de uma garantia extraordinária de espaço supranumerário last-minute.
Confiam nos arrumadores, ao ponto de lhes deixarem as chaves dos automóveis, apesar de nenhum deles ter carta de condução. João e Vítor são conhecidos e conhecem toda a gente, desde a esquina do restaurante Lua Dourada até à última mesa da esplanada do Solar dos Bicos. Dão-se com os moradores, os donos e empregados dos restaurantes e lojas, os outros arrumadores e sem-abrigo, os músicos de rua, os guias turísticos, os condutores de tuk-tuk, os vendedores de relógios e óculos de contrafacção, os traficantes de droga e até os polícias.
A praça conhecida como Campo das Cebolas, que na realidade é o largo circunscrito pelas ruas dos Bacalhoeiros, Arameiros e da Alfândega, é um foco de todos os contrastes da cidade, com as suas leitarias e lojas de souvenirs, restaurantes chiques e tascas, alojamentos de luxo e pensões degradadas. Contígua ao Terreiro do Paço, nas traseiras do Ministério das Finanças, é um antro de marialvas, fadistas, turistas, vagabundos, queques, ciganos, traficantes, comerciantes, músicos, mendigos, mafiosos, ociosos, bêbados, polícias, ladrões, gourmets e apreciadores de gin tónico de fim de tarde. Tudo isto como uma dança ritual em torno da árvore do Nobel, entre manifestações anti-troika, multidões a entrar e sair dos barcos do Tejo às horas de ponta, praxes académicas e filas de pobres à espera da comida que chega na carrinha dos voluntários, todos os dias, às 20h30, sem falta, e que, para João, Vítor e a maioria dos “pindéricos” que vagabundeiam em torno do Campo das Cebolas constitui a única refeição do dia.
“Pindéricos” é como Vítor chama aos sem-abrigo que enchem as ruas, da Penha de França à Almirante Reis, e daí até à Baixa e à Avenida da Liberdade, alastrando-se pelo Cais do Sodré e a zona de Santos, ou desde Santa Apolónia ao Parque das Nações e a Estação do Oriente, aos milhares, com os seus cartões, as suas trouxas, as suas manias, as suas histórias, a sua fome.
A pequena casa que Vítor construiu com tábuas, do lado de fora do bunker. A cadela Crazy e o gato Boris são a sua família
O Campo das Cebolas é uma das estações da sua vagabundagem, por causa das carrinhas. São várias instituições (Comunidade Vida e Paz, Concha de Santiago, Frei Fabiano, etc.) e vêm em diferentes dias da semana, com particularidades que os utentes conhecem: uma, de Torres Vedras, manda todos darem as mãos e rezar, depois de receberem o prato. Uma repete sempre a ementa. A sopa de outra provoca diarreia. Outra, a que João está particularmente atento, traz roupas e mantas. Ao contrário de Vítor, que manda a roupa para a lavandaria uma vez por semana, ele usa-a até à última, e depois vai buscar outra.
À chuva, encharcado da cabeça aos pés, João começa a posicionar os pinos de plástico, abrindo espaço para os carros dos primeiros clientes — gerentes de alguns restaurantes, funcionários da Fundação Saramago.
Há um enorme parque de estacionamento no meio da praça, mas esse é controlado por outros arrumadores. É um negócio demasiado chorudo para que não estivesse controlado por tubarões. Movimenta centenas de veículos e rende outro tanto em euros, por dia.
João e Vítor chegaram a trabalhar lá, antes de a crise apertar, mas não resistiram à pressão das invejas. Agora, “sem uma guerra”, seria impossível, diz Vítor. A competição é feroz. Há lutas violentas, retaliações e golpes intimidatórios. Há uns anos, um arrumador foi morto aqui, em circunstâncias que a polícia não apurou.
De momento, Vítor e João dão-se por satisfeitos por controlarem o perímetro dos Bacalhoeiros. Não é uma grande quinta, mas chega a render 10 euros nos dias melhores, o que a torna também alvo de cobiças.
É preciso montar guarda o dia inteiro. O abandono do posto por meia hora seria suficiente para que algum arrumador no desemprego invadisse o território e se instalasse.
João e Vítor formam uma empresa, em que o primeiro, por ser mais velho, é o patrão (esta hierarquia nem sempre é consensual), e distribuem entre si o trabalho por turnos, a cumprir rigorosamente. Em certos fins de tarde sem movimento, Vítor gostaria de sair mais cedo, mas tem de ficar a guardar o posto. A menos que, na arrumação dos últimos veículos, consiga colocar estrategicamente atravessados aqueles que só sairão no dia seguinte, por forma a ocuparem todos os lugares. Assim não haverá negócio para eventuais usurpadores.
O expediente está assegurado desde as 6 da manhã, quando João desce do palácio, até às 8 da noite, quando Vítor sobe ao bunker. Mas não é um trabalho full-time para nenhum deles. João tem outro emprego, que exerce na própria residência. Vítor, durante a manhã, ocupa-se da família.
O abrigo de João, 64 anos, é a escadaria da Sé Catedral, no canto superior direito, junto à entrada
São ambos sem-abrigo, embora, em rigor, a designação não seja correcta, observa Vítor. “Abrigo temos sempre. O que nós somos é homeless. O João vive no seu palácio, eu no meu bunker.”
No caso de João, o abrigo é a escadaria da Sé Catedral. É lá que vive, no canto superior direito, junto à entrada, na confluência de duas paredes, para obter protecção do vento e da chuva.
Guarda as coisas por cima da paragem do eléctrico 28, no Jardim Augusto Rosa, entrada da Rua das Cruzes. Roupa, cartões, um colchão, saco-cama e manta. Às 8 da noite, após serem fechadas as portas da catedral, leva tudo para o seu canto, para dormir. Acorda duas horas depois, para ir buscar comida à carrinha. Geralmente prefere esta à das Cebolas, “onde se junta a escumalha toda. Metem-se à frente na fila, insultam e agridem, deitam comida para o chão”. A carrinha da Sé é mais calma e selecta.
Até à meia-noite, holofotes iluminam o monumento e as escadas. Só depois João volta a adormecer, após ouvir um pouco de rádio, até às cinco.
“A minha casa foi construída em 1149”, diz ele. “É a mais antiga do país.” Nas arengas dos guias turísticos, nas inscrições da parede e também através das suas explorações pessoais, aprendeu tudo sobre o seu palácio, a antiga mesquita, a conquista de Lisboa, as relíquias de S. Vicente. “Há uma pedra em que está gravada a cruz de David”, diz com ar misterioso.
Durante a tarde, João tem outra ocupação, para arredondar o salário. Trata-se de um ramo totalmente diferente, que exige skills de outra natureza: uma verdadeira incarnação de personagem. Só tem de descer um pouco as escadas, afivelar uma expressão desgraçada, estender um copo com algumas moedas no fundo e confiar na caridade dos crentes.
A concorrência não é muita: apenas uma mulher um pouco mais velha e aparentemente doente, a pedir do lado esquerdo de quem sobe.
Entre turistas e frequentadores das missas, milhares de pessoas cruzam a escadaria. O problema é que, quando dão esmola, optam pela mulher. É um caso de sucesso da mendicidade beato-urbana, talvez por ter uma muleta pousada junto ao joelho, por levantar a camisola mostrando as cicatrizes da barriga, ou por lançar, entre sorrisos, umas frases invocadoras da culpa cristã. João, com o seu boné coreano e a sua barbicha à Ho Chi Minh, bem injecta os olhos verdes de toda a infelicidade que consegue sentir e imaginar, mas não chega. No máximo, faz dois ou três euros por dia, enquanto a mulher factura mais de 100.
Ao início da tarde, a animação está no auge no Campo das Cebolas. Vítor corre de um lado para o outro, chamando os carros com gestos espaventosos. “Só portadores de vistos dourados! Só vistos dourados!” João recolhe os pinos, arruma as suas coisas no hall da entrada do número 14, conclui os últimos negócios complementares.
São uma actividade paralela, mas fundamental. Na rua, tudo se vende e compra, há um fluxo comercial permanente. Os bens são sempre transaccionáveis, embora os preços raramente ultrapassem os dez euros. Se uma T-shirt apanhada no lixo for comprada por 20 cêntimos e vendida por 80, é um negócio que vale a pena. Quem encontrar um telemóvel, o limpar e vender por dez euros já ganhou o dia.
Vítor comprou um relógio por três euros e vendeu-o por 20. Outras vezes não se importa de perder dinheiro, só para escoar mercadoria. “Não temos armazéns para guardar stocks, por isso os bens circulam muito rapidamente”, explica ele. “Todos ficam a ganhar.” Por exemplo, como ninguém tem onde guardar roupas de um ano para o outro, é normal que no início do Inverno haja uma corrida ao comércio de agasalhos.
A João deram três sacos-cama. Entregou dois a Vítor, que os vendeu, por cinco e três euros, a arrumadores de carros. “Foi abaixo do valor real, mas eles precisavam dos sacos.” Entregou cinco euros a João e ficou com três. Todos ganharam.
Noutra ocasião, ofereceram a Vítor três euroticket de seis euros e 80 cêntimos. Vendeu dois a um sem-abrigo, por quatro euros, que chegaram para levar a roupa à lavandaria. Gastou o terceiro em comida no Pingo Doce — água, conservas e comida de cão.
João chega cedo, por volta das 7h. A meio do dia, Vítor cumpre o seu horário. "Somos os dois com barriga, não é? Dividimos." A vida normal de dois sem-abrigo. Vera Moutinho
Há compradores para tudo, os produtos nunca ficam encalhados. Uma vez, ofereci ao Vítor uma televisão usada. Ele e João carregaram-na escadas abaixo. Mal puseram um pé fora da porta, um cigano ofereceu-lhes dez euros. “Foi logo, cinco euros para cada um.” Na pior das hipóteses, iam aos africanos da Praça da Figueira, que compram tudo, porque dominam um circuito de distribuição, que inclui venda de quinquilharia para países africanos.
“Somos retalhistas de rua. Compramos e vendemos”, diz Vítor. “Se não fosse isso, como é que vivíamos? Fazemos entre nós um mercado. Com o sistema de trocas, conseguimos ter o que precisamos. Mas também é necessário dinheiro. Na nossa sociedade, não é possível viver sem gastar dinheiro, todos os dias. Até os sem-abrigo têm de gastar dinheiro.”
Para além dos bens tangíveis, funciona também na rua um dinâmico mercado de serviços.
Vítor, por exemplo, vai comprar drogas aos turistas, mediante o pagamento de uma comissão. Não é tráfico, apenas serviço de estafeta. O último foi com um tenente de um navio italiano. Além da comissão de 50 euros sobre o preço da cocaína, ainda ganhou uma gorjeta. Mas essa deu-a a João, “por generosidade”.
Outro serviço para que ele e outros sem-abrigo são frequentemente solicitados é a transferência de fundos para o estrangeiro.
Basta acompanhar o cliente a uma casa de câmbios e preencher os papéis em seu nome para o envio de 50 mil ou 100 mil euros, geralmente para a China. Não custa nada e recebe-se dez euros pelo serviço. Nem Vítor nem João fazem isto, porque acreditam que mais tarde ou mais cedo haverá investigações policiais sobre transferências de capital suspeitas.
Vítor deixou-se porém tentar por outro conhecido esquema da imigração ilegal: o casamento. Conheceu, há três anos, uma ucraniana de meia-idade que lhe fez uma proposta inesperada: “Quer casar com a minha filha?”
A jovem candidata à cidadania europeia lá veio para a encenação. Fizeram fotografias juntos, pediram a amigos que, sob juramento, confirmassem a autenticidade da relação. Mas no dia da cerimónia o conservador disse: “Não vamos avançar porque se trata de uma fraude.” Ficou tudo calado, e foi Vítor quem quebrou o gelo: “Tragam lá o papel para desfazer isto.”
Há dias, João também se encarregou de um matrimónio, embora apenas do sector do estacionamento, com idêntico insucesso. Organizou, mediante o honorário prometido de três euros, todo o parqueamento em frente à Sé, onde decorreu a cerimónia. Mal esta terminou, os noivos partiram para a lua-de-mel sem pagar o prometido.
Nos negócios da rua, as fronteiras da legalidade não são fáceis de distinguir. Como tudo é informal, poderíamos pensar que nenhuma norma ética se aplica, e que vale tudo, desde que dê lucro. Mas não é assim. Precisamente porque não são definidas pela lei, as regras dependem do critério moral de cada um.
João e Vítor recusam traficar drogas, comprar ou vender produtos roubados. Não se deixam enganar. “Se o João me aparecer com um iPhone novo para vender”, diz Vítor, “eu olho para ele e olho para o iPhone e vejo logo que ali houve descuido de alguém”.
É verdade que as transacções que fazem não pagam impostos, mas não é isso que lhes tira o sono. “Eu já pago IVA sobre tudo o que compro nas lojas”, diz Vítor. “Não preciso de pagar mais taxas, porque também não tenho direito a nenhum benefício do Estado.”
Não é que nas Cebolas e arredores domine a alta criminalidade. Organizada, sim. Por exemplo, as romenas que atacam em dupla — um elemento distrai o turista, outro surripia-lhe a carteira ou o telemóvel. Vivem em hotéis na Almirante Reis e percorrem a Baixa durante o dia, agora quase exclusivamente atrás de chineses, que, é hoje do conhecimento geral, se passeiam com avultadas quantias nos bolsos, em cash.
“Desculpem, posso interromper?” costuma Vítor avisar os turistas. “Têm quatro carteiristas atrás de vocês.”
Já os ciganos vendedores de droga, esses, estão completamente inocentes. Pelo menos é o que alegam quando são apanhados. O haxixe, “pó” e “cavalo” que vendem aos turistas são falsos, feitos à base de caldos knorr e farinhas, pelo que não incorrem em qualquer crime.
Quando os intercepta na Rua Augusta, o que a polícia faz é tirar-lhes o dinheiro que ganharam durante o dia. Numa dessas operações, que Vítor presenciou, os agentes encostaram-nos à parede e colocaram todo o dinheiro no chapéu do homem-estátua.
O artista de rua manteve-se imóvel, como é seu apanágio, embora esfregando as mãos imaginariamente, sob o olhar danado dos falsos traficantes.
Ao chegar a casa, ao fim do dia, não lhe importará mais como ganhou o dinheiro do que importará aos ciganos como o perderam. Na rua, os dias não deixam rasto e cada ser aceita o que lhe coube em sorte na grande tômbola da sobrevivência. E para todos, sem excepção, desde que não tenham desistido da sua humanidade, há um chegar a casa, ao fim do dia.
O de Vítor é difícil e furtivo. Depois das oito, passa pela carrinha para apanhar alguma comida, pelo supermercado para comprar vinho e velas, se necessário, ração para cães e gatos. Sobe a Almirante Reis e todas as ruelas até ao seu bunker, que se situa no buraco coberto de lixo do que outrora terá sido a cave de um edifício, hoje sem tecto.
A aproximação deve ser discreta, e é preciso esperar que não haja nenhum vizinho na rua, ou à janela de algum dos prédios em redor. Ninguém pode saber que Vítor vive ali.
A descida executa-se em três fases. Antes de mais, atravessa-se uma rede, por um rasgão de cima a baixo. Depois vem a escalada de um muro de tijolos podres. Os pés são colocados nos poucos tijolos que deram provas de solidez.
A segunda fase inclui um salto. O corpo, virado de costas, vai deslizando até as mãos atingirem o nível de uma barra de ferro atravessada entre duas pedras. Há que segurar a barra, ganhar balanço e deixar-se cair, sem torcer os tornozelos nos calhaus, garrafas partidas ou lascas de caixotes despedaçados.
Atravessando a enorme lixeira, atinge-se o ponto da terceira fase. Na parede do edifício, em ruínas e totalmente emparedado, abre-se, a um metro do chão, um buraco com pouco mais de meio metro de diâmetro.
Só há uma forma de entrar. Primeiro, uma perna, depois a cabeça, o corpo, a outra perna. Na parede interior há uma saliência onde nos podemos agarrar. E eis-nos no bunker.
Era neste corredor contíguo à abertura que Vítor inicialmente dormia, por estar mais perto da luz e do oxigénio. Mas uma noite caiu do tecto um grande bloco de pedras e estuque. Por milagre, não lhe acertou na cabeça. Foi necessário adentrar-se mais na escuridão, até um quarto repleto de lixo, onde preparou um canto, para dormir.
O abrigo de Vítor: uma plataforma flutuante, criada com duas portas de madeira deitadas sobre o lixo e os excrementos de um ocupante anterior
Aqui é o abrigo de Vítor — uma ilha roubada à lixeira. Ou antes uma plataforma flutuante, porque foi criada com duas portas de madeira deitadas sobre o lixo e os excrementos de um ocupante anterior. “Não quero saber o que está por baixo”, diz Vítor. “Esta manta já cá estava.”
A superfície é exígua, mas tem lá tudo: no sector da toilette existe um garrafão de plástico cortado ao meio e dois panos, para os banhos; material para fazer a barba, um perfume, marca Star. Numa espécie de prateleira, estão guardados brinquedos, peças de rádios, telemóveis e lanternas, velas, pacotes de vinho do Pingo Doce, material para as ganzas. Roupas, sapatos, bugigangas, coisas encontradas no lixo.
Ao lado fica o “frigorífico”, um tupperware com restos de delícias do mar, um pouco de água, um pouco de refrigerante, a ração dos animais.
Vítor tem uma cadela rafeira, a Crazy, e um gato amarelo às riscas, o Boris. Encontrou-os ali quando chegou, e adoptou-os. São a sua família. Do dinheiro que ganha no parque de estacionamento, a prioridade é a compra de ração para eles. Só com o que sobra, quando sobra, compra comida e cigarros para si.
A Crazy tem um ar bem tratado, o Boris o pêlo sedoso, corpo esguio e patas ágeis. Passa o dia fora, embora volte sempre, ao contrário da Crazy, que não consegue, sozinha, sair do buraco.
Comem de manhã e à noite, leite e ração, que custam um pouco mais de um euro por dia. A comida não pode ficar à vista, para não ser roubada pelo rato que vive no lixo, no outro lado do quarto.
“Quando não consigo ganhar dinheiro suficiente para trazer comida para casa, tenho de ficar até mais tarde, ou fazer algum daqueles serviços extraordinários, de comprar droga para os turistas”, explica Vítor. Mas quando está frio tem de vir para casa mais cedo, para se deitarem os três e se aquecerem uns aos outros.
No aposento, o ar é rarefeito, o cheiro concentrado (apesar do spray que Vítor espalhou, antes da minha visita) e a escuridão total. A iluminação é feita com velas, que ficam acesas toda a noite, também para aquecer e para afastar mosquitos e melgas. É mais uma despesa: a 25 cêntimos cada vela, Vítor gasta 50 cêntimos por dia, 15 euros por mês. “Mais do que a conta de electricidade em algumas casas.”
À noite, Vítor brinca com Crazy e Boris, diverte-se com os jogos do telemóvel, fuma duas ganzas e bebe um litro de vinho, para conseguir dormir duas horas.
Sinto uma barreira de estranheza, quando tento imaginar aquele sítio à noite, o silêncio, a humidade, o sufoco, mas nesse momento Vítor mostra-me os livros que guarda por baixo do travesseiro: uma Bíblia, um manual da Igreja da Cientologia, o Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago… e um livro meu, Longe do Mar.
Mais escondido, à cabeceira, está a peça central de todo o sistema de defesa do bunker: uma espada de lâmina curta, disfarçada no interior de uma bengala.
Será usada apenas em último recurso. Uma série de armadilhas espera o eventual intruso: tijolos instáveis, tábuas soltas, buracos, lixo, já para não falar de Crazy e Boris. “Deixo objectos de plástico no chão, para fazer barulho, se alguém entrar durante a noite”, diz Vítor. O plano está bem delineado. Um plano terrível. “Se alguém vier aqui durante a noite, só pode ser para me lixar. Por isso, lixo-o eu.”
Confirmada a presença do adventício, será apagada a vela. Vítor não precisa de luz, porque conhece de cor cada centímetro de chão. Já o outro é certo que irá tropeçar e cair. Numa luta corpo-a-corpo no escuro, Vítor não terá dificuldade em dominá-lo. Depois, é só puxá-lo para dentro, matá-lo com a espada, sair e tapar a entrada com tijolos. O atacante ficará lá sepultado.
A segurança é uma das preocupações centrais dos sem-abrigo. “Viver nas rua é difícil”, diz João. “As pessoas vêm à noite para roubar.” Aconteceu-lhe várias vezes, geralmente com murros e pontapés, por isso dorme calçado, para não lhe roubarem os sapatos, e com uma barra de ferro à cabeceira. “Acordo várias vezes durante a noite, para ver se a minha comida ainda lá está. Muitos sem-abrigo não vão às carrinhas, preferem roubar à noite a comida dos outros.” É mais vantajoso por isso dormir em grupos, fazendo turnos de vigilância, como acontece na estação velha do Terreiro do Paço, ou nas arcadas da Almirante Reis. Pelo contrário, nos albergues institucionais, a concentração de sem-abrigo apenas torna a experiência mais perigosa. João evita-a a todo o custo.
Quando dormia no Terreiro do Paço, Vítor acordou uma vez sob uma chuva de pedradas. Um bando de rapazolas decidia armar-se perante as miúdas, à saída do karaoke, competindo a ver quem acertava nos sem-abrigo.
Vítor e João são pessoas normais. Há quem, por muito menos, tenha abdicado da sua dignidade, mas não eles. Não estão na rua por serem inadaptados. Ao contrário, o que fizeram foi “adaptar-se”, explica Vítor. E agora vão ter de enfrentar um novo desafio de adaptação, por causa desse monstro que ameaça as suas vidas, a grua que está prestes a chegar ao Campo das Cebolas.
João, que ainda consome drogas, recusa-se a traficar. E, se tem acumulado agasalhos nas malas que guarda na Casa dos Bicos, é para os distribuir no Inverno por outros sem-abrigo.
Vítor desenha, lê, tem uma página no Facebook, a que acede através do wifi do telemóvel e de passwords roubadas. Está a par das notícias, “porque a vida não pode ser apenas arrumar carros”.
Quando estamos juntos e algum pobre nos vem pedir esmola, eu não dou, mas eles dão, mesmo que seja a última moeda que têm no bolso.
Porque fazem eles isto? Para me provocar? Só depois de me aproximar muito consegui perceber esse sentimento de estarem na mesma luta, não obstante todas as rivalidades e agressões. Não na luta pela sobrevivência, que essa é solitária, mas pela sanidade.
A vida na rua enlouquece. “Tudo o que passamos, as drogas e o álcool que é preciso consumir”, explica Vítor. “As pessoas passam-se. Isto só se aguenta com muito vinho. Mas esse hábito destrói-nos. Alguns começam a beber logo pela manhã, para parar de tremer.”
João está de acordo: “Isto faz com que um gajo vá à loucura mesmo. Não acredito que todos os que vemos assim sejam malucos de nascença.”
Um, por exemplo, só se ri, “parece um boneco”. Anda sempre atrás de alguém. “Uma vez dei-lhe um cigarro e ele veio atrás de mim”, conta Vítor. “Sozinho não se consegue fazer à pista. Tem menos de 30 anos.”
Outro começou a esquecer-se de tudo. Deixou de se calçar, ia ao supermercado e não comprava comida, mas coisas esquisitas, de que não precisava. “Era preciso dizer-lhe o que fazer”, conta João. “Era um pau-mandado. Até tinham de lhe dizer quando tinha de ir à casa de banho.”
Vítor contactou uma associação, arranjaram-lhe um psicólogo, foi internado. Pouco depois, morreu. “Da última vez que o vi, ele já não conhecia ninguém”, recorda Vítor. “Dei-lhe um pacote de leite, mas ele nem sabia para que servia a palhinha. E era um tipo supervivido. Tinha 36 anos.”
Há ainda um que esvazia todos os caixotes do lixo que encontra, outro que come coisas do chão. Todos os dias chegam novas pessoas à rua, e é vê-las como lutam, para se adaptar. Vítor conta que nos últimos quatro dias viu chegarem quatro. Entre elas uma rapariga, que se aproximou de um grupo na Almirante Reis. “Posso dormir aqui? Para não ficar sozinha?”, perguntou ela.
Percebia-se facilmente que era o seu primeiro dia. A partir daí, quase será possível contar as marcas do seu percurso, como as camadas de líquenes que confirmam os milénios numa ponta de sílex. O que nunca se saberá é o que lhe ditou o destino, os níveis de violência a que foi submetida, as portas que, atrás dela, deixou fechadas para sempre.
Vítor apanhou a primeira sova do pai aos sete anos, por lhe ter deixado cair a garrafa de vinho. Pelo menos dessa vez sabe qual foi o motivo. O vinho era importante já para o avô, que veio da zona rural de Alcochete para o bairro Alfama, onde conheceu a avó de Vítor.
Este passou a infância lá, em Alfama. Os pais conheceram-se na Rua dos Correeiros, ela vendia ao balcão, ele era estafeta, bebia e batia nos filhos e na mulher. Vítor lembra-se de, desde muito cedo, se tentar colocar entre os dois, para proteger a mãe, e levar por tabela.
Às águas furtadas onde viviam não chegava a água canalizada do prédio, pelo que era preciso encher garrafões na fonte e subi-los até ao 5.º andar. Uma noite, Vítor acordou com sede, viu um garrafão, tirou a tampa e bebeu. Era lixívia, foi em coma para o hospital. Tinha seis anos e quase morreu.
Vítor andou na escola até ao 7.º ano. Como reprovou duas vezes, o pai mandou-o trabalhar.
Vinte anos antes, na Cruz de Pau, na margem sul do Tejo, a infância de João não foi muito diferente. O pai bebia e batia na família toda. Trabalhava nas obras, era analfabeto, como a mulher. Dos seis filhos, só um estudou. Mas todos apanhavam pancada.
Mal chegava a casa, bêbado, o pai gritava para a mãe: “Minha puta! Onde é que eles estão?” Referia-se aos filhos, recorda João. “Dava pontapés em tudo, destruía tudo.” João fugia de casa e só regressava após se certificar de que o pai já dormia. “Quando não estava bêbado, era um bom pai. Mas estava quase sempre bêbado.” Morreu alcoolizado, num choque da sua motorizada contra um carro.
João também só estudou até ao 8.º ano. Foi trabalhar para as obras e pouco depois, tal como Vítor faria uma geração mais tarde, iniciava o consumo de drogas.
Vítor teve várias profissões. Trabalhou na limpeza do centro comercial Dolce Vita, na Amadora, na construção da Ponte Vasco da Gama, como fiscal das betoneiras, foi tipógrafo e depois operador de computador na mesma gráfica, operador de manutenção da mata de Monsanto.
Sempre a tentar equilibrar-se, sempre a reerguer-se. Pouco depois dos 20 anos, teve um filho. Mais tarde uma filha. Viveu em quartos, em apartamentos, ou na rua, durante o primeiro mês de um emprego, antes de receber o primeiro salário. À hora do almoço, quando os colegas iam todos ao restaurante, ele, cheio de fome, dizia: “Vou ali dar uma volta, vou ter com um amigo”, porque não tinha para onde ir, nem dinheiro para comer. “Vivo em casa de uma tia”, mentia, quando lhe perguntavam.
Noutros períodos, chegou a arrendar um apartamento de três quartos, com um salário de 380 contos limpos e conta no Barclays. “Não é qualquer sem-abrigo que tem conta no Barclays!” Mas sempre em intermitências com a heroína, tratamentos, recaídas, contratempos. Sempre alguma coisa corria mal. “Quando estou a endireitar a vida, acontece qualquer coisa.”
Durante o trabalho em Monsanto, teve um acidente. Segurava um tronco de eucalipto que um colega cortava com uma motosserra. Ao puxar o tronco para a frente, a motosserra atingiu-lhe a mão. O osso ficou exposto, o pulso quebrado. Os colegas entraram em pânico, mas não fizeram nada. Foi Vítor que se arrastou até um restaurante, onde uma mulher lhe deu guardanapos para estancar o sangue. Vítor segurou a sua própria mão, para a manter no lugar, até chegar ao hospital. “Eu é que salvei a minha mão”, diz ele. “Já tive situações em que, se entrasse em pânico, estava lixado.”
Tal como é sempre ele que se condena, também é ele que se salva. Sem no entanto alguma vez se afastar decisivamente da vulnerabilidade fundamental que é a sua, como se qualquer imprevisto o atirasse sempre para fora, para a margem a que pertence.
João, quando atingiu a idade de cumprir o serviço militar, foi mandado para Angola. Como faltou à primeira chamada, fez a recruta em 1972 e seguiu para a guerra em 1973.
O 25 de Abril apanhou-o lá, em Bolongongo, província do Cuanza Norte. Integraram-no no 2.º Bart (Batalhão de Artilharia) 6222, que esteve em Piri, a 30 quilómetros de Luanda, e depois em zonas onde os “turras” lançavam ataques de retaliação contra fazendeiros, depois da revolução em Lisboa.
“Cheguei a ir a fazendas onde estava tudo morto”, lembra João. Foi um período de confusão, traições e vinganças. “Os turras faziam emboscadas, túneis, ataques a civis. Quando os apanhávamos, entregávamo-los à PIDE. Na cadeia, davam-lhes porrada até dizerem onde estavam os companheiros.”
Foi um tempo fora do tempo, um buraco negro aspirando João de um mundo mesquinho para outro mundo mesquinho, sonegando-lhe a Primavera de 1974, todo esse alimento onírico que à desilusão futura daria algum sentido e alívio. “Não percebi logo que o 25 de Abril significava acabar com as colónias”, diz ele.
Ainda antes de partir, na recruta, conheceu uma mulher, com quem casou, obrigado. “Desonrei-a, e explicaram-me que, ou casava, ou apanhava dois anos de prisão.” No dia em que regressou, em 1975, disseram-lhe que a tinham visto com outros, e ele decidiu separar-se. “Nunca me divorciei. Recebi uma carta do Registo Civil, mas não apareci.”
A certa altura, perguntei a Vítor e a João qual tinha sido o melhor período das suas vidas. Para João, foi quando viveu em Espanha, durante quase 15 anos.
Partiu em 1977, com a mulher com quem vivia e que estava grávida. Arranjaram emprego na casa de uma viúva rica, antiga cantora de ópera, em Madrid. Ele era mordomo, ela cozinheira.
Era um prédio todo em vidro, junto à Plaza del Rey. A viúva dava festas e João servia à mesa, fardado. Tinha um dia de folga por semana, ia às compras de carro, com o motorista, passava temporadas na vivenda de campo da família. A viúva gostava dele e até queria que tirasse a carta de condução, para ser seu chauffer.
A filha nasceu e ficou com um casal amigo, em Portugal. Terá sido essa uma das razões, ou “saudades da família” em geral, que os fizeram voltar, em 1993. Ainda que não tenham iniciado nenhum relacionamento com a família, nem com a filha, que ficou daí em diante entregue à mãe de João.
Este voltou a trabalhar nas obras, a consumir heroína e a sair com outra mulher. A legítima desconfiou, montava-lhe vigilância. João não gostou disso e abandonou-a. A outra deixou-o pouco depois.
Procurou apoio da família, mas não quiseram saber. “Meteram-se todos contra mim. Estou na rua por causa da minha família”, diz ele. Foi há dez anos.
Vítor completou o 9.º ano, nas Novas Oportunidades, a viver na rua, depois inscreveu-se num curso de programação de computadores
O melhor tempo da vida de Vítor foi o do tratamento de recuperação. Mais de uma centena de ex-toxicodependentes viviam numa quinta de oito hectares no Alentejo. Trabalhavam, faziam desporto, tomavam conta uns dos outros. Os mais velhos na instituição responsabilizavam-se pelos mais novos. Falavam sobre os problemas, em reuniões diárias, distribuíam tarefas.
Vítor, que viveu lá cinco anos, estava incumbido da saúde e da farmácia. “Se alguém precisava de um Ben-u-ron, era eu que dava.”
Era uma comunidade de recuperação e entreajuda. “Dávamo-nos todos bem. Se um tinha frio, outro tirava a T-shirt para lhe dar. Cá fora, se eu fizer isso, sou considerado um otário. Foi um tempo muito fixe, enriqueci-me muito.”
Neste centro, Vítor arranjou uma companheira. E foi por ela que decidiu sair, com o plano de construírem uma vida em comum. Ele à frente, para encontrar emprego e casa.
A primeira coisa que fez foi telefonar ao pai. Encontraram-se no meio da rua, à chuva. O pai chegou, saiu do carro, não cumprimentou, atirou três contos em notas para o chão e disse: “Tu não és meu filho.” Meteu-se no carro e arrancou. Vítor, encharcado, foi ter com ele a casa, de táxi, mas ele não abriu a porta.
Quando Vítor arranjou trabalho, numa empresa de catering, a companheira veio ter com ele. Pouco depois, ele apanhou-a a consumir heroína e recaiu também. Fizeram os dois o desmame, sozinhos, a sangue-frio. Conseguiram, Vítor está limpo, até hoje, mas ela adoeceu, com toxoplasmose, e morreu.
Vítor completou o 9.º ano, nas Novas Oportunidades, a viver na rua, depois inscreveu-se num curso de programação de computadores, que lhe daria o 12.º ano. Ganhava 200 euros por mês, pagava 175 de renda por um quarto. Vivia com 25 euros, mas estava disposto a tudo para fazer o curso. “Se conseguisse, arranjaria depois um estágio. E queria que o meu filho um dia dissesse: ‘O velho pode ter sido isto e aquilo, mas aos 45 anos foi tirar o 12.º ano’.”
A renda do quarto foi aumentada, Vítor não conseguiu pagar, foi despejado. Viveu na rua, mas não interrompeu o curso. Com um grupo de 15 sem-abrigo, ocupou uma mansão abandonada.
Tinham água, uma puxada de electricidade, um quintal com legumes e flores. Mas a polícia chegou um dia e deu dez minutos a todos para abandonarem a casa. Vítor encontrou, numa pensão, um cubículo sem electricidade, que o obrigava a fazer os trabalhos de casa numa loja de indianos.
Entretanto, a mãe tinha morrido, e o pai, que é diabético, foi submetido a uma cirurgia, na qual lhe foram amputadas as duas pernas.
Ficou em casa sozinho, numa cadeira de rodas, e Vítor foi viver com ele. Cozinhava-lhe as refeições, levava-o à casa de banho, mas nem por isso ele deixava de o maltratar. “Batia-me, como se eu tivesse cinco anos. Ele ali, sem pernas, e eu com as mãos atrás das costas a gritar: ‘Se quiser dar, dê.’ Mas não ia bater no meu pai.”
Na véspera do exame final do curso, Vítor estava desesperado, a estudar, mas o pai insistia em tirar-lhe o computador, que queria usar para ver a Sport TV.
“Porque passas tanto tempo ao computador?”, perguntava o pai.
“Então, se fosse carpinteiro, precisava de martelo e pregos, como sou programador, preciso do computador. E tenho o exame amanhã.”
O pai não se importou, tirou-lhe o computador. “Ele, que quando eu tinha 12 anos me tirou da escola porque os meus testes não eram bons, agora, aos 45 anos, não me deixava fazer o último teste.”
Vítor ainda tentou, mas, segundo o professor, a resposta à pergunta mais importante estava incompleta. Reprovou, por meio valor.
Dias depois, aproveitando o momento em que o pai foi a um tratamento, no hospital dos Capuchos, Vítor saiu de casa e deixou a chave. “Agora, não sei como ele se safa. Se rasteja até à cozinha e à casa de banho. Nem quero saber. Toda a gente tem o que merece. Nem mais nem menos.”
Vítor é diabético, como o pai. Foi ao médico, que receitou uns comprimidos que deveria tomar sempre, mas não toma. “Deixavam-me com uma grande moca. Também tinha uma maquinazinha para controlar a insulina, mas perdi-a. Como um gajo anda sempre em mudanças… Às vezes, sinto-me um bocado esquisito. Mas pode ser da fraqueza. É raro tomar pequeno-almoço. Há muitos dias em que a primeira coisa que como é uma sopa do Exército de Salvação, às 7 da tarde.”
Outro problema é os dentes. Vítor conseguiu uma placa, da Segurança Social mediante um respeitável argumento: “Trabalho na restauração, o sorriso é fundamental.” Mas a placa rapidamente se partiu em três. Quando a levou ao técnico, ele foi claro: “Não pagou nada por esta placa, pois não? É que o material é fatela. Foi comprada nos chineses.”
João já teve quistos no cérebro. “Começava a ver tudo enevoado, e caía. Amigos levaram-me para o hospital, cheio de sangue. Fiquei internado dois anos.” Acredita que foi consequência dos comprimidos que lhe deram quando se queixou de sequelas psicológicas da Guerra Colonial.
Agora tem uma hérnia. No hospital, durante uma crise, disseram-lhe que tem de ser operado. Mas isso implica passar dois dias no hospital, perdendo o “salário” do parque de estacionamento.
“Só tens uma hipótese”, sugere Vítor. “Vais poupando, até teres o dinheiro de dois dias.”
Mas há o problema da grua. Pode chegar a qualquer momento. O prédio ao lado da Casa dos Bicos está em obras, e uma gigantesca grua vai ocupar a via pública, diz João. Isso significa que não haverá lugares de estacionamento e os dois sócios perderão o emprego.
Quando a grua ocupar a via pública, João terá que se dedicar a tempo inteiro ao seu segundo emprego
João fala da grua como um monstro mitológico. Tudo nela é desmesurado e assustador. Vai ocupar todo o quarteirão, durante um ano e meio, pagando uma taxa de 15 mil euros por dia. “A grua vai chegar amanhã, já está aqui a polícia”, diz ele, todos os dias, num exercício de pensamento mágico.
Há uma estranha mas intensa apropriação dos espaços da cidade por quem vive na rua. Habitando a margem, eles são, de certa forma, os verdadeiros cidadãos. Vêem coisas que aos outros passam despercebidas.
Nas escadas da Sé, há duas semanas, João deparou-se com uma luz muito intensa, um círculo branco, a uns 200 metros de altitude. Girou no céu, em torno de outro círculo luminoso mais pequeno, antes de desaparecer. “Mas não acredito que sejam extraterrestres. Inclino-me mais para coisas de espionagem”, diz João.
Já Vítor acredita que as 100 ou 200 pequenas chapas metálicas que observou a voar em formação são manifestações de vida intergaláctica. “Os americanos há muito que viajam para outros planetas. Porque é que no Google Maps não se vê a área 51, em Roswell? Alguém esconde algo.”
Para Vítor, há outros mundos, acima e abaixo de nós. No fundo dos mares há uma civilização de sereias. Está provado. Foram encontrados esqueletos dentro de baleias. Crânios e membros no estômago de tubarões. “Os gajos das petrolíferas andam a mapear o fundo do oceano e divulgaram imagens de uma mão estranha colada à janela do submarino. A mão de um ser metade humano, metade peixe.”
Vítor passa horas na Internet à procura de coisas inexplicáveis. “Foi encontrado um martelo com 650 milhões de anos. Datado com Carbono 14. Há vestígios de sandálias com 300 milhões de anos.”
Tem um telemóvel sem saldo, mas com acesso à Internet, por wifi, num sistema que desenvolveu para acompanhar a vida do filho, através do Facebook.
Viu-o apenas uma vez, num funeral. “É um rapaz alto e magro, de óculos. Não tive coragem de lhe falar.” Pediu-lhe amizade no Facebook, mas ele nunca respondeu.
Quando a grua chegar, será preciso “fazerem-se à pista”. Vítor tenciona ocupar um pedaço de passeio do outro lado da rua. O plano de João é dedicar-se full time ao segundo emprego. A seu pedido, dei-lhe uma muleta que me sobrou de um entorse. Colocou-a a seu lado, na escadaria, para competir com a outra pedinte na corrida da desgraça. Mas desistiu. “Não sou capaz, não é honesto.”
Com o avanço do Inverno, Vítor apanhou um susto. A chuva e o vento provocaram a queda de um enorme pedregulho junto à entrada do seu refúgio. “E se eu fico lá dentro?”, pensou. E meteu-se a construir uma pequena casa com tábuas, do lado de fora do bunker.
A estrutura está periclitante, porque pregar pregos despertaria a curiosidade da vizinhança. As placas equilibram-se por um sistema de forças. Tudo está pensado com minúcia de engenheiro. A tábua superior, inclinada para que a água da chuva escorra, apoia-se num pacote de vinho tinto moldado na perfeição e fechado de forma a que a pressão do ar no interior produza um efeito de almofada, absorvendo as vibrações da estrutura.
A calafetagem é feita com sacos térmicos do Pingo Doce (“criei um efeito de estufa”) e todas as entradas de ar foram controladas colocando um cigarro aceso no meio do recinto, e registando as direcções em que o fumo se movimentava. “Assim posso dormir num ângulo desviado de todas as correntes de ar”, explica Vítor. Para garantir os banhos, meias garrafas de plástico foram espalhadas pela lixeira para captar água da chuva.
As condições melhoraram muito. A um canto da casa nova, Vítor colocou até um menino Jesus, um pequeno burro de barro e um galo de Barcelos — o seu presépio. Mas eu senti mais frio e desconforto do que na primeira visita.
Pousei um joelho na cama, deixei que a Crazy viesse brincar comigo na manta áspera e senti que a minha pesquisa da história de Vítor e João tinha chegado ao fim da linha, ao limite da minha utilidade como repórter. Agora que somos amigos, como posso viver com isto?
Todos os dias há novos sem-abrigo em Lisboa. Não por serem loucos ou anti-sociais, mas porque não conseguem um emprego nem pagar uma renda. Não são desadaptados: adaptaram-se. Esta é a história de dois deles, Vítor e João. Como emprego, arrumam carros no Campo das Cebolas. Um vive nas escadarias da Sé, o seu palácio, outro num buraco sem luz nem ar, o seu bunker. Foram atirados para a rua. Mas não desistiram de nada.
São 7 da manhã e chove torrencialmente no Campo das Cebolas. Uma daquelas cargas de água que, em meia hora, provocam uma inundação em Lisboa. Não há ninguém na rua, excepto um homem franzino e hirto como uma estátua, com uma barbicha e um boné de pano na cabeça, mas sem chapéu-de-chuva nem qualquer intenção de correr para um abrigo. Ele não me vê, mas eu sim, da minha janela. Ali está ele, como todos os dias, a aguentar, a aguentar. Ainda não chegou nenhum carro ao parque, mas o horário é sagrado: às 6 da manhã, João desce da catedral até ao local de trabalho. Varre as folhas mortas e todo o lixo que possa ter-se acumulado junto à oliveira de José Saramago (tarefa pela qual a Fundação da Casa dos Bicos lhe paga um euro por dia), distribui os pinos pelos lugares vagos do parque de estacionamento.
A sua função é arrumar carros, até às 3 da tarde, hora a que começa o turno de Vítor, que se estende até à noite. Dividem assim a gestão do território, que integra um pequeno quarteirão da Rua dos Bacalhoeiros e os dois lados do pátio da Casa dos Bicos, incluindo o da Rua da Alfândega, onde o estacionamento é proibido. De todos os lugares da zona, aliás, só dois são absolutamente legais, não contando com um reservado a deficientes, dois a motos, outros dois à Fundação.
À semelhança do modelo de negócio de todos os arrumadores urbanos, o de João, de 64 anos, e Vítor, de 46, consiste em tomar conta dos veículos, mediante o pagamento de uma gorjeta.
Se vêem aproximar-se um funcionário da EMEL, correm para o parquímetro e retiram um ticket de 30 cêntimos, que colocam à pressa no pára-brisas de cada carro à sua responsabilidade. Os clientes não têm de accionar os parquímetros, nem de pagar o valor correspondente ao tempo que deixam o carro estacionado. Além desta poupança, os fregueses habituais beneficiam de um serviço personalizado de reservas e ainda, graças à excelência da gestão de superfícies, de uma garantia extraordinária de espaço supranumerário last-minute.
Confiam nos arrumadores, ao ponto de lhes deixarem as chaves dos automóveis, apesar de nenhum deles ter carta de condução. João e Vítor são conhecidos e conhecem toda a gente, desde a esquina do restaurante Lua Dourada até à última mesa da esplanada do Solar dos Bicos. Dão-se com os moradores, os donos e empregados dos restaurantes e lojas, os outros arrumadores e sem-abrigo, os músicos de rua, os guias turísticos, os condutores de tuk-tuk, os vendedores de relógios e óculos de contrafacção, os traficantes de droga e até os polícias.
A praça conhecida como Campo das Cebolas, que na realidade é o largo circunscrito pelas ruas dos Bacalhoeiros, Arameiros e da Alfândega, é um foco de todos os contrastes da cidade, com as suas leitarias e lojas de souvenirs, restaurantes chiques e tascas, alojamentos de luxo e pensões degradadas. Contígua ao Terreiro do Paço, nas traseiras do Ministério das Finanças, é um antro de marialvas, fadistas, turistas, vagabundos, queques, ciganos, traficantes, comerciantes, músicos, mendigos, mafiosos, ociosos, bêbados, polícias, ladrões, gourmets e apreciadores de gin tónico de fim de tarde. Tudo isto como uma dança ritual em torno da árvore do Nobel, entre manifestações anti-troika, multidões a entrar e sair dos barcos do Tejo às horas de ponta, praxes académicas e filas de pobres à espera da comida que chega na carrinha dos voluntários, todos os dias, às 20h30, sem falta, e que, para João, Vítor e a maioria dos “pindéricos” que vagabundeiam em torno do Campo das Cebolas constitui a única refeição do dia.
“Pindéricos” é como Vítor chama aos sem-abrigo que enchem as ruas, da Penha de França à Almirante Reis, e daí até à Baixa e à Avenida da Liberdade, alastrando-se pelo Cais do Sodré e a zona de Santos, ou desde Santa Apolónia ao Parque das Nações e a Estação do Oriente, aos milhares, com os seus cartões, as suas trouxas, as suas manias, as suas histórias, a sua fome.
A pequena casa que Vítor construiu com tábuas, do lado de fora do bunker. A cadela Crazy e o gato Boris são a sua família
O Campo das Cebolas é uma das estações da sua vagabundagem, por causa das carrinhas. São várias instituições (Comunidade Vida e Paz, Concha de Santiago, Frei Fabiano, etc.) e vêm em diferentes dias da semana, com particularidades que os utentes conhecem: uma, de Torres Vedras, manda todos darem as mãos e rezar, depois de receberem o prato. Uma repete sempre a ementa. A sopa de outra provoca diarreia. Outra, a que João está particularmente atento, traz roupas e mantas. Ao contrário de Vítor, que manda a roupa para a lavandaria uma vez por semana, ele usa-a até à última, e depois vai buscar outra.
À chuva, encharcado da cabeça aos pés, João começa a posicionar os pinos de plástico, abrindo espaço para os carros dos primeiros clientes — gerentes de alguns restaurantes, funcionários da Fundação Saramago.
Há um enorme parque de estacionamento no meio da praça, mas esse é controlado por outros arrumadores. É um negócio demasiado chorudo para que não estivesse controlado por tubarões. Movimenta centenas de veículos e rende outro tanto em euros, por dia.
João e Vítor chegaram a trabalhar lá, antes de a crise apertar, mas não resistiram à pressão das invejas. Agora, “sem uma guerra”, seria impossível, diz Vítor. A competição é feroz. Há lutas violentas, retaliações e golpes intimidatórios. Há uns anos, um arrumador foi morto aqui, em circunstâncias que a polícia não apurou.
De momento, Vítor e João dão-se por satisfeitos por controlarem o perímetro dos Bacalhoeiros. Não é uma grande quinta, mas chega a render 10 euros nos dias melhores, o que a torna também alvo de cobiças.
É preciso montar guarda o dia inteiro. O abandono do posto por meia hora seria suficiente para que algum arrumador no desemprego invadisse o território e se instalasse.
João e Vítor formam uma empresa, em que o primeiro, por ser mais velho, é o patrão (esta hierarquia nem sempre é consensual), e distribuem entre si o trabalho por turnos, a cumprir rigorosamente. Em certos fins de tarde sem movimento, Vítor gostaria de sair mais cedo, mas tem de ficar a guardar o posto. A menos que, na arrumação dos últimos veículos, consiga colocar estrategicamente atravessados aqueles que só sairão no dia seguinte, por forma a ocuparem todos os lugares. Assim não haverá negócio para eventuais usurpadores.
O expediente está assegurado desde as 6 da manhã, quando João desce do palácio, até às 8 da noite, quando Vítor sobe ao bunker. Mas não é um trabalho full-time para nenhum deles. João tem outro emprego, que exerce na própria residência. Vítor, durante a manhã, ocupa-se da família.
O abrigo de João, 64 anos, é a escadaria da Sé Catedral, no canto superior direito, junto à entrada
São ambos sem-abrigo, embora, em rigor, a designação não seja correcta, observa Vítor. “Abrigo temos sempre. O que nós somos é homeless. O João vive no seu palácio, eu no meu bunker.”
No caso de João, o abrigo é a escadaria da Sé Catedral. É lá que vive, no canto superior direito, junto à entrada, na confluência de duas paredes, para obter protecção do vento e da chuva.
Guarda as coisas por cima da paragem do eléctrico 28, no Jardim Augusto Rosa, entrada da Rua das Cruzes. Roupa, cartões, um colchão, saco-cama e manta. Às 8 da noite, após serem fechadas as portas da catedral, leva tudo para o seu canto, para dormir. Acorda duas horas depois, para ir buscar comida à carrinha. Geralmente prefere esta à das Cebolas, “onde se junta a escumalha toda. Metem-se à frente na fila, insultam e agridem, deitam comida para o chão”. A carrinha da Sé é mais calma e selecta.
Até à meia-noite, holofotes iluminam o monumento e as escadas. Só depois João volta a adormecer, após ouvir um pouco de rádio, até às cinco.
“A minha casa foi construída em 1149”, diz ele. “É a mais antiga do país.” Nas arengas dos guias turísticos, nas inscrições da parede e também através das suas explorações pessoais, aprendeu tudo sobre o seu palácio, a antiga mesquita, a conquista de Lisboa, as relíquias de S. Vicente. “Há uma pedra em que está gravada a cruz de David”, diz com ar misterioso.
Durante a tarde, João tem outra ocupação, para arredondar o salário. Trata-se de um ramo totalmente diferente, que exige skills de outra natureza: uma verdadeira incarnação de personagem. Só tem de descer um pouco as escadas, afivelar uma expressão desgraçada, estender um copo com algumas moedas no fundo e confiar na caridade dos crentes.
A concorrência não é muita: apenas uma mulher um pouco mais velha e aparentemente doente, a pedir do lado esquerdo de quem sobe.
Entre turistas e frequentadores das missas, milhares de pessoas cruzam a escadaria. O problema é que, quando dão esmola, optam pela mulher. É um caso de sucesso da mendicidade beato-urbana, talvez por ter uma muleta pousada junto ao joelho, por levantar a camisola mostrando as cicatrizes da barriga, ou por lançar, entre sorrisos, umas frases invocadoras da culpa cristã. João, com o seu boné coreano e a sua barbicha à Ho Chi Minh, bem injecta os olhos verdes de toda a infelicidade que consegue sentir e imaginar, mas não chega. No máximo, faz dois ou três euros por dia, enquanto a mulher factura mais de 100.
Ao início da tarde, a animação está no auge no Campo das Cebolas. Vítor corre de um lado para o outro, chamando os carros com gestos espaventosos. “Só portadores de vistos dourados! Só vistos dourados!” João recolhe os pinos, arruma as suas coisas no hall da entrada do número 14, conclui os últimos negócios complementares.
São uma actividade paralela, mas fundamental. Na rua, tudo se vende e compra, há um fluxo comercial permanente. Os bens são sempre transaccionáveis, embora os preços raramente ultrapassem os dez euros. Se uma T-shirt apanhada no lixo for comprada por 20 cêntimos e vendida por 80, é um negócio que vale a pena. Quem encontrar um telemóvel, o limpar e vender por dez euros já ganhou o dia.
Vítor comprou um relógio por três euros e vendeu-o por 20. Outras vezes não se importa de perder dinheiro, só para escoar mercadoria. “Não temos armazéns para guardar stocks, por isso os bens circulam muito rapidamente”, explica ele. “Todos ficam a ganhar.” Por exemplo, como ninguém tem onde guardar roupas de um ano para o outro, é normal que no início do Inverno haja uma corrida ao comércio de agasalhos.
A João deram três sacos-cama. Entregou dois a Vítor, que os vendeu, por cinco e três euros, a arrumadores de carros. “Foi abaixo do valor real, mas eles precisavam dos sacos.” Entregou cinco euros a João e ficou com três. Todos ganharam.
Noutra ocasião, ofereceram a Vítor três euroticket de seis euros e 80 cêntimos. Vendeu dois a um sem-abrigo, por quatro euros, que chegaram para levar a roupa à lavandaria. Gastou o terceiro em comida no Pingo Doce — água, conservas e comida de cão.
João chega cedo, por volta das 7h. A meio do dia, Vítor cumpre o seu horário. "Somos os dois com barriga, não é? Dividimos." A vida normal de dois sem-abrigo. Vera Moutinho
Há compradores para tudo, os produtos nunca ficam encalhados. Uma vez, ofereci ao Vítor uma televisão usada. Ele e João carregaram-na escadas abaixo. Mal puseram um pé fora da porta, um cigano ofereceu-lhes dez euros. “Foi logo, cinco euros para cada um.” Na pior das hipóteses, iam aos africanos da Praça da Figueira, que compram tudo, porque dominam um circuito de distribuição, que inclui venda de quinquilharia para países africanos.
“Somos retalhistas de rua. Compramos e vendemos”, diz Vítor. “Se não fosse isso, como é que vivíamos? Fazemos entre nós um mercado. Com o sistema de trocas, conseguimos ter o que precisamos. Mas também é necessário dinheiro. Na nossa sociedade, não é possível viver sem gastar dinheiro, todos os dias. Até os sem-abrigo têm de gastar dinheiro.”
Para além dos bens tangíveis, funciona também na rua um dinâmico mercado de serviços.
Vítor, por exemplo, vai comprar drogas aos turistas, mediante o pagamento de uma comissão. Não é tráfico, apenas serviço de estafeta. O último foi com um tenente de um navio italiano. Além da comissão de 50 euros sobre o preço da cocaína, ainda ganhou uma gorjeta. Mas essa deu-a a João, “por generosidade”.
Outro serviço para que ele e outros sem-abrigo são frequentemente solicitados é a transferência de fundos para o estrangeiro.
Basta acompanhar o cliente a uma casa de câmbios e preencher os papéis em seu nome para o envio de 50 mil ou 100 mil euros, geralmente para a China. Não custa nada e recebe-se dez euros pelo serviço. Nem Vítor nem João fazem isto, porque acreditam que mais tarde ou mais cedo haverá investigações policiais sobre transferências de capital suspeitas.
Vítor deixou-se porém tentar por outro conhecido esquema da imigração ilegal: o casamento. Conheceu, há três anos, uma ucraniana de meia-idade que lhe fez uma proposta inesperada: “Quer casar com a minha filha?”
A jovem candidata à cidadania europeia lá veio para a encenação. Fizeram fotografias juntos, pediram a amigos que, sob juramento, confirmassem a autenticidade da relação. Mas no dia da cerimónia o conservador disse: “Não vamos avançar porque se trata de uma fraude.” Ficou tudo calado, e foi Vítor quem quebrou o gelo: “Tragam lá o papel para desfazer isto.”
Há dias, João também se encarregou de um matrimónio, embora apenas do sector do estacionamento, com idêntico insucesso. Organizou, mediante o honorário prometido de três euros, todo o parqueamento em frente à Sé, onde decorreu a cerimónia. Mal esta terminou, os noivos partiram para a lua-de-mel sem pagar o prometido.
Nos negócios da rua, as fronteiras da legalidade não são fáceis de distinguir. Como tudo é informal, poderíamos pensar que nenhuma norma ética se aplica, e que vale tudo, desde que dê lucro. Mas não é assim. Precisamente porque não são definidas pela lei, as regras dependem do critério moral de cada um.
João e Vítor recusam traficar drogas, comprar ou vender produtos roubados. Não se deixam enganar. “Se o João me aparecer com um iPhone novo para vender”, diz Vítor, “eu olho para ele e olho para o iPhone e vejo logo que ali houve descuido de alguém”.
É verdade que as transacções que fazem não pagam impostos, mas não é isso que lhes tira o sono. “Eu já pago IVA sobre tudo o que compro nas lojas”, diz Vítor. “Não preciso de pagar mais taxas, porque também não tenho direito a nenhum benefício do Estado.”
Não é que nas Cebolas e arredores domine a alta criminalidade. Organizada, sim. Por exemplo, as romenas que atacam em dupla — um elemento distrai o turista, outro surripia-lhe a carteira ou o telemóvel. Vivem em hotéis na Almirante Reis e percorrem a Baixa durante o dia, agora quase exclusivamente atrás de chineses, que, é hoje do conhecimento geral, se passeiam com avultadas quantias nos bolsos, em cash.
“Desculpem, posso interromper?” costuma Vítor avisar os turistas. “Têm quatro carteiristas atrás de vocês.”
Já os ciganos vendedores de droga, esses, estão completamente inocentes. Pelo menos é o que alegam quando são apanhados. O haxixe, “pó” e “cavalo” que vendem aos turistas são falsos, feitos à base de caldos knorr e farinhas, pelo que não incorrem em qualquer crime.
Quando os intercepta na Rua Augusta, o que a polícia faz é tirar-lhes o dinheiro que ganharam durante o dia. Numa dessas operações, que Vítor presenciou, os agentes encostaram-nos à parede e colocaram todo o dinheiro no chapéu do homem-estátua.
O artista de rua manteve-se imóvel, como é seu apanágio, embora esfregando as mãos imaginariamente, sob o olhar danado dos falsos traficantes.
Ao chegar a casa, ao fim do dia, não lhe importará mais como ganhou o dinheiro do que importará aos ciganos como o perderam. Na rua, os dias não deixam rasto e cada ser aceita o que lhe coube em sorte na grande tômbola da sobrevivência. E para todos, sem excepção, desde que não tenham desistido da sua humanidade, há um chegar a casa, ao fim do dia.
O de Vítor é difícil e furtivo. Depois das oito, passa pela carrinha para apanhar alguma comida, pelo supermercado para comprar vinho e velas, se necessário, ração para cães e gatos. Sobe a Almirante Reis e todas as ruelas até ao seu bunker, que se situa no buraco coberto de lixo do que outrora terá sido a cave de um edifício, hoje sem tecto.
A aproximação deve ser discreta, e é preciso esperar que não haja nenhum vizinho na rua, ou à janela de algum dos prédios em redor. Ninguém pode saber que Vítor vive ali.
A descida executa-se em três fases. Antes de mais, atravessa-se uma rede, por um rasgão de cima a baixo. Depois vem a escalada de um muro de tijolos podres. Os pés são colocados nos poucos tijolos que deram provas de solidez.
A segunda fase inclui um salto. O corpo, virado de costas, vai deslizando até as mãos atingirem o nível de uma barra de ferro atravessada entre duas pedras. Há que segurar a barra, ganhar balanço e deixar-se cair, sem torcer os tornozelos nos calhaus, garrafas partidas ou lascas de caixotes despedaçados.
Atravessando a enorme lixeira, atinge-se o ponto da terceira fase. Na parede do edifício, em ruínas e totalmente emparedado, abre-se, a um metro do chão, um buraco com pouco mais de meio metro de diâmetro.
Só há uma forma de entrar. Primeiro, uma perna, depois a cabeça, o corpo, a outra perna. Na parede interior há uma saliência onde nos podemos agarrar. E eis-nos no bunker.
Era neste corredor contíguo à abertura que Vítor inicialmente dormia, por estar mais perto da luz e do oxigénio. Mas uma noite caiu do tecto um grande bloco de pedras e estuque. Por milagre, não lhe acertou na cabeça. Foi necessário adentrar-se mais na escuridão, até um quarto repleto de lixo, onde preparou um canto, para dormir.
O abrigo de Vítor: uma plataforma flutuante, criada com duas portas de madeira deitadas sobre o lixo e os excrementos de um ocupante anterior
Aqui é o abrigo de Vítor — uma ilha roubada à lixeira. Ou antes uma plataforma flutuante, porque foi criada com duas portas de madeira deitadas sobre o lixo e os excrementos de um ocupante anterior. “Não quero saber o que está por baixo”, diz Vítor. “Esta manta já cá estava.”
A superfície é exígua, mas tem lá tudo: no sector da toilette existe um garrafão de plástico cortado ao meio e dois panos, para os banhos; material para fazer a barba, um perfume, marca Star. Numa espécie de prateleira, estão guardados brinquedos, peças de rádios, telemóveis e lanternas, velas, pacotes de vinho do Pingo Doce, material para as ganzas. Roupas, sapatos, bugigangas, coisas encontradas no lixo.
Ao lado fica o “frigorífico”, um tupperware com restos de delícias do mar, um pouco de água, um pouco de refrigerante, a ração dos animais.
Vítor tem uma cadela rafeira, a Crazy, e um gato amarelo às riscas, o Boris. Encontrou-os ali quando chegou, e adoptou-os. São a sua família. Do dinheiro que ganha no parque de estacionamento, a prioridade é a compra de ração para eles. Só com o que sobra, quando sobra, compra comida e cigarros para si.
A Crazy tem um ar bem tratado, o Boris o pêlo sedoso, corpo esguio e patas ágeis. Passa o dia fora, embora volte sempre, ao contrário da Crazy, que não consegue, sozinha, sair do buraco.
Comem de manhã e à noite, leite e ração, que custam um pouco mais de um euro por dia. A comida não pode ficar à vista, para não ser roubada pelo rato que vive no lixo, no outro lado do quarto.
“Quando não consigo ganhar dinheiro suficiente para trazer comida para casa, tenho de ficar até mais tarde, ou fazer algum daqueles serviços extraordinários, de comprar droga para os turistas”, explica Vítor. Mas quando está frio tem de vir para casa mais cedo, para se deitarem os três e se aquecerem uns aos outros.
No aposento, o ar é rarefeito, o cheiro concentrado (apesar do spray que Vítor espalhou, antes da minha visita) e a escuridão total. A iluminação é feita com velas, que ficam acesas toda a noite, também para aquecer e para afastar mosquitos e melgas. É mais uma despesa: a 25 cêntimos cada vela, Vítor gasta 50 cêntimos por dia, 15 euros por mês. “Mais do que a conta de electricidade em algumas casas.”
À noite, Vítor brinca com Crazy e Boris, diverte-se com os jogos do telemóvel, fuma duas ganzas e bebe um litro de vinho, para conseguir dormir duas horas.
Sinto uma barreira de estranheza, quando tento imaginar aquele sítio à noite, o silêncio, a humidade, o sufoco, mas nesse momento Vítor mostra-me os livros que guarda por baixo do travesseiro: uma Bíblia, um manual da Igreja da Cientologia, o Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago… e um livro meu, Longe do Mar.
Mais escondido, à cabeceira, está a peça central de todo o sistema de defesa do bunker: uma espada de lâmina curta, disfarçada no interior de uma bengala.
Será usada apenas em último recurso. Uma série de armadilhas espera o eventual intruso: tijolos instáveis, tábuas soltas, buracos, lixo, já para não falar de Crazy e Boris. “Deixo objectos de plástico no chão, para fazer barulho, se alguém entrar durante a noite”, diz Vítor. O plano está bem delineado. Um plano terrível. “Se alguém vier aqui durante a noite, só pode ser para me lixar. Por isso, lixo-o eu.”
Confirmada a presença do adventício, será apagada a vela. Vítor não precisa de luz, porque conhece de cor cada centímetro de chão. Já o outro é certo que irá tropeçar e cair. Numa luta corpo-a-corpo no escuro, Vítor não terá dificuldade em dominá-lo. Depois, é só puxá-lo para dentro, matá-lo com a espada, sair e tapar a entrada com tijolos. O atacante ficará lá sepultado.
A segurança é uma das preocupações centrais dos sem-abrigo. “Viver nas rua é difícil”, diz João. “As pessoas vêm à noite para roubar.” Aconteceu-lhe várias vezes, geralmente com murros e pontapés, por isso dorme calçado, para não lhe roubarem os sapatos, e com uma barra de ferro à cabeceira. “Acordo várias vezes durante a noite, para ver se a minha comida ainda lá está. Muitos sem-abrigo não vão às carrinhas, preferem roubar à noite a comida dos outros.” É mais vantajoso por isso dormir em grupos, fazendo turnos de vigilância, como acontece na estação velha do Terreiro do Paço, ou nas arcadas da Almirante Reis. Pelo contrário, nos albergues institucionais, a concentração de sem-abrigo apenas torna a experiência mais perigosa. João evita-a a todo o custo.
Quando dormia no Terreiro do Paço, Vítor acordou uma vez sob uma chuva de pedradas. Um bando de rapazolas decidia armar-se perante as miúdas, à saída do karaoke, competindo a ver quem acertava nos sem-abrigo.
Vítor e João são pessoas normais. Há quem, por muito menos, tenha abdicado da sua dignidade, mas não eles. Não estão na rua por serem inadaptados. Ao contrário, o que fizeram foi “adaptar-se”, explica Vítor. E agora vão ter de enfrentar um novo desafio de adaptação, por causa desse monstro que ameaça as suas vidas, a grua que está prestes a chegar ao Campo das Cebolas.
João, que ainda consome drogas, recusa-se a traficar. E, se tem acumulado agasalhos nas malas que guarda na Casa dos Bicos, é para os distribuir no Inverno por outros sem-abrigo.
Vítor desenha, lê, tem uma página no Facebook, a que acede através do wifi do telemóvel e de passwords roubadas. Está a par das notícias, “porque a vida não pode ser apenas arrumar carros”.
Quando estamos juntos e algum pobre nos vem pedir esmola, eu não dou, mas eles dão, mesmo que seja a última moeda que têm no bolso.
Porque fazem eles isto? Para me provocar? Só depois de me aproximar muito consegui perceber esse sentimento de estarem na mesma luta, não obstante todas as rivalidades e agressões. Não na luta pela sobrevivência, que essa é solitária, mas pela sanidade.
A vida na rua enlouquece. “Tudo o que passamos, as drogas e o álcool que é preciso consumir”, explica Vítor. “As pessoas passam-se. Isto só se aguenta com muito vinho. Mas esse hábito destrói-nos. Alguns começam a beber logo pela manhã, para parar de tremer.”
João está de acordo: “Isto faz com que um gajo vá à loucura mesmo. Não acredito que todos os que vemos assim sejam malucos de nascença.”
Um, por exemplo, só se ri, “parece um boneco”. Anda sempre atrás de alguém. “Uma vez dei-lhe um cigarro e ele veio atrás de mim”, conta Vítor. “Sozinho não se consegue fazer à pista. Tem menos de 30 anos.”
Outro começou a esquecer-se de tudo. Deixou de se calçar, ia ao supermercado e não comprava comida, mas coisas esquisitas, de que não precisava. “Era preciso dizer-lhe o que fazer”, conta João. “Era um pau-mandado. Até tinham de lhe dizer quando tinha de ir à casa de banho.”
Vítor contactou uma associação, arranjaram-lhe um psicólogo, foi internado. Pouco depois, morreu. “Da última vez que o vi, ele já não conhecia ninguém”, recorda Vítor. “Dei-lhe um pacote de leite, mas ele nem sabia para que servia a palhinha. E era um tipo supervivido. Tinha 36 anos.”
Há ainda um que esvazia todos os caixotes do lixo que encontra, outro que come coisas do chão. Todos os dias chegam novas pessoas à rua, e é vê-las como lutam, para se adaptar. Vítor conta que nos últimos quatro dias viu chegarem quatro. Entre elas uma rapariga, que se aproximou de um grupo na Almirante Reis. “Posso dormir aqui? Para não ficar sozinha?”, perguntou ela.
Percebia-se facilmente que era o seu primeiro dia. A partir daí, quase será possível contar as marcas do seu percurso, como as camadas de líquenes que confirmam os milénios numa ponta de sílex. O que nunca se saberá é o que lhe ditou o destino, os níveis de violência a que foi submetida, as portas que, atrás dela, deixou fechadas para sempre.
Vítor apanhou a primeira sova do pai aos sete anos, por lhe ter deixado cair a garrafa de vinho. Pelo menos dessa vez sabe qual foi o motivo. O vinho era importante já para o avô, que veio da zona rural de Alcochete para o bairro Alfama, onde conheceu a avó de Vítor.
Este passou a infância lá, em Alfama. Os pais conheceram-se na Rua dos Correeiros, ela vendia ao balcão, ele era estafeta, bebia e batia nos filhos e na mulher. Vítor lembra-se de, desde muito cedo, se tentar colocar entre os dois, para proteger a mãe, e levar por tabela.
Às águas furtadas onde viviam não chegava a água canalizada do prédio, pelo que era preciso encher garrafões na fonte e subi-los até ao 5.º andar. Uma noite, Vítor acordou com sede, viu um garrafão, tirou a tampa e bebeu. Era lixívia, foi em coma para o hospital. Tinha seis anos e quase morreu.
Vítor andou na escola até ao 7.º ano. Como reprovou duas vezes, o pai mandou-o trabalhar.
Vinte anos antes, na Cruz de Pau, na margem sul do Tejo, a infância de João não foi muito diferente. O pai bebia e batia na família toda. Trabalhava nas obras, era analfabeto, como a mulher. Dos seis filhos, só um estudou. Mas todos apanhavam pancada.
Mal chegava a casa, bêbado, o pai gritava para a mãe: “Minha puta! Onde é que eles estão?” Referia-se aos filhos, recorda João. “Dava pontapés em tudo, destruía tudo.” João fugia de casa e só regressava após se certificar de que o pai já dormia. “Quando não estava bêbado, era um bom pai. Mas estava quase sempre bêbado.” Morreu alcoolizado, num choque da sua motorizada contra um carro.
João também só estudou até ao 8.º ano. Foi trabalhar para as obras e pouco depois, tal como Vítor faria uma geração mais tarde, iniciava o consumo de drogas.
Vítor teve várias profissões. Trabalhou na limpeza do centro comercial Dolce Vita, na Amadora, na construção da Ponte Vasco da Gama, como fiscal das betoneiras, foi tipógrafo e depois operador de computador na mesma gráfica, operador de manutenção da mata de Monsanto.
Sempre a tentar equilibrar-se, sempre a reerguer-se. Pouco depois dos 20 anos, teve um filho. Mais tarde uma filha. Viveu em quartos, em apartamentos, ou na rua, durante o primeiro mês de um emprego, antes de receber o primeiro salário. À hora do almoço, quando os colegas iam todos ao restaurante, ele, cheio de fome, dizia: “Vou ali dar uma volta, vou ter com um amigo”, porque não tinha para onde ir, nem dinheiro para comer. “Vivo em casa de uma tia”, mentia, quando lhe perguntavam.
Noutros períodos, chegou a arrendar um apartamento de três quartos, com um salário de 380 contos limpos e conta no Barclays. “Não é qualquer sem-abrigo que tem conta no Barclays!” Mas sempre em intermitências com a heroína, tratamentos, recaídas, contratempos. Sempre alguma coisa corria mal. “Quando estou a endireitar a vida, acontece qualquer coisa.”
Durante o trabalho em Monsanto, teve um acidente. Segurava um tronco de eucalipto que um colega cortava com uma motosserra. Ao puxar o tronco para a frente, a motosserra atingiu-lhe a mão. O osso ficou exposto, o pulso quebrado. Os colegas entraram em pânico, mas não fizeram nada. Foi Vítor que se arrastou até um restaurante, onde uma mulher lhe deu guardanapos para estancar o sangue. Vítor segurou a sua própria mão, para a manter no lugar, até chegar ao hospital. “Eu é que salvei a minha mão”, diz ele. “Já tive situações em que, se entrasse em pânico, estava lixado.”
Tal como é sempre ele que se condena, também é ele que se salva. Sem no entanto alguma vez se afastar decisivamente da vulnerabilidade fundamental que é a sua, como se qualquer imprevisto o atirasse sempre para fora, para a margem a que pertence.
João, quando atingiu a idade de cumprir o serviço militar, foi mandado para Angola. Como faltou à primeira chamada, fez a recruta em 1972 e seguiu para a guerra em 1973.
O 25 de Abril apanhou-o lá, em Bolongongo, província do Cuanza Norte. Integraram-no no 2.º Bart (Batalhão de Artilharia) 6222, que esteve em Piri, a 30 quilómetros de Luanda, e depois em zonas onde os “turras” lançavam ataques de retaliação contra fazendeiros, depois da revolução em Lisboa.
“Cheguei a ir a fazendas onde estava tudo morto”, lembra João. Foi um período de confusão, traições e vinganças. “Os turras faziam emboscadas, túneis, ataques a civis. Quando os apanhávamos, entregávamo-los à PIDE. Na cadeia, davam-lhes porrada até dizerem onde estavam os companheiros.”
Foi um tempo fora do tempo, um buraco negro aspirando João de um mundo mesquinho para outro mundo mesquinho, sonegando-lhe a Primavera de 1974, todo esse alimento onírico que à desilusão futura daria algum sentido e alívio. “Não percebi logo que o 25 de Abril significava acabar com as colónias”, diz ele.
Ainda antes de partir, na recruta, conheceu uma mulher, com quem casou, obrigado. “Desonrei-a, e explicaram-me que, ou casava, ou apanhava dois anos de prisão.” No dia em que regressou, em 1975, disseram-lhe que a tinham visto com outros, e ele decidiu separar-se. “Nunca me divorciei. Recebi uma carta do Registo Civil, mas não apareci.”
A certa altura, perguntei a Vítor e a João qual tinha sido o melhor período das suas vidas. Para João, foi quando viveu em Espanha, durante quase 15 anos.
Partiu em 1977, com a mulher com quem vivia e que estava grávida. Arranjaram emprego na casa de uma viúva rica, antiga cantora de ópera, em Madrid. Ele era mordomo, ela cozinheira.
Era um prédio todo em vidro, junto à Plaza del Rey. A viúva dava festas e João servia à mesa, fardado. Tinha um dia de folga por semana, ia às compras de carro, com o motorista, passava temporadas na vivenda de campo da família. A viúva gostava dele e até queria que tirasse a carta de condução, para ser seu chauffer.
A filha nasceu e ficou com um casal amigo, em Portugal. Terá sido essa uma das razões, ou “saudades da família” em geral, que os fizeram voltar, em 1993. Ainda que não tenham iniciado nenhum relacionamento com a família, nem com a filha, que ficou daí em diante entregue à mãe de João.
Este voltou a trabalhar nas obras, a consumir heroína e a sair com outra mulher. A legítima desconfiou, montava-lhe vigilância. João não gostou disso e abandonou-a. A outra deixou-o pouco depois.
Procurou apoio da família, mas não quiseram saber. “Meteram-se todos contra mim. Estou na rua por causa da minha família”, diz ele. Foi há dez anos.
Vítor completou o 9.º ano, nas Novas Oportunidades, a viver na rua, depois inscreveu-se num curso de programação de computadores
O melhor tempo da vida de Vítor foi o do tratamento de recuperação. Mais de uma centena de ex-toxicodependentes viviam numa quinta de oito hectares no Alentejo. Trabalhavam, faziam desporto, tomavam conta uns dos outros. Os mais velhos na instituição responsabilizavam-se pelos mais novos. Falavam sobre os problemas, em reuniões diárias, distribuíam tarefas.
Vítor, que viveu lá cinco anos, estava incumbido da saúde e da farmácia. “Se alguém precisava de um Ben-u-ron, era eu que dava.”
Era uma comunidade de recuperação e entreajuda. “Dávamo-nos todos bem. Se um tinha frio, outro tirava a T-shirt para lhe dar. Cá fora, se eu fizer isso, sou considerado um otário. Foi um tempo muito fixe, enriqueci-me muito.”
Neste centro, Vítor arranjou uma companheira. E foi por ela que decidiu sair, com o plano de construírem uma vida em comum. Ele à frente, para encontrar emprego e casa.
A primeira coisa que fez foi telefonar ao pai. Encontraram-se no meio da rua, à chuva. O pai chegou, saiu do carro, não cumprimentou, atirou três contos em notas para o chão e disse: “Tu não és meu filho.” Meteu-se no carro e arrancou. Vítor, encharcado, foi ter com ele a casa, de táxi, mas ele não abriu a porta.
Quando Vítor arranjou trabalho, numa empresa de catering, a companheira veio ter com ele. Pouco depois, ele apanhou-a a consumir heroína e recaiu também. Fizeram os dois o desmame, sozinhos, a sangue-frio. Conseguiram, Vítor está limpo, até hoje, mas ela adoeceu, com toxoplasmose, e morreu.
Vítor completou o 9.º ano, nas Novas Oportunidades, a viver na rua, depois inscreveu-se num curso de programação de computadores, que lhe daria o 12.º ano. Ganhava 200 euros por mês, pagava 175 de renda por um quarto. Vivia com 25 euros, mas estava disposto a tudo para fazer o curso. “Se conseguisse, arranjaria depois um estágio. E queria que o meu filho um dia dissesse: ‘O velho pode ter sido isto e aquilo, mas aos 45 anos foi tirar o 12.º ano’.”
A renda do quarto foi aumentada, Vítor não conseguiu pagar, foi despejado. Viveu na rua, mas não interrompeu o curso. Com um grupo de 15 sem-abrigo, ocupou uma mansão abandonada.
Tinham água, uma puxada de electricidade, um quintal com legumes e flores. Mas a polícia chegou um dia e deu dez minutos a todos para abandonarem a casa. Vítor encontrou, numa pensão, um cubículo sem electricidade, que o obrigava a fazer os trabalhos de casa numa loja de indianos.
Entretanto, a mãe tinha morrido, e o pai, que é diabético, foi submetido a uma cirurgia, na qual lhe foram amputadas as duas pernas.
Ficou em casa sozinho, numa cadeira de rodas, e Vítor foi viver com ele. Cozinhava-lhe as refeições, levava-o à casa de banho, mas nem por isso ele deixava de o maltratar. “Batia-me, como se eu tivesse cinco anos. Ele ali, sem pernas, e eu com as mãos atrás das costas a gritar: ‘Se quiser dar, dê.’ Mas não ia bater no meu pai.”
Na véspera do exame final do curso, Vítor estava desesperado, a estudar, mas o pai insistia em tirar-lhe o computador, que queria usar para ver a Sport TV.
“Porque passas tanto tempo ao computador?”, perguntava o pai.
“Então, se fosse carpinteiro, precisava de martelo e pregos, como sou programador, preciso do computador. E tenho o exame amanhã.”
O pai não se importou, tirou-lhe o computador. “Ele, que quando eu tinha 12 anos me tirou da escola porque os meus testes não eram bons, agora, aos 45 anos, não me deixava fazer o último teste.”
Vítor ainda tentou, mas, segundo o professor, a resposta à pergunta mais importante estava incompleta. Reprovou, por meio valor.
Dias depois, aproveitando o momento em que o pai foi a um tratamento, no hospital dos Capuchos, Vítor saiu de casa e deixou a chave. “Agora, não sei como ele se safa. Se rasteja até à cozinha e à casa de banho. Nem quero saber. Toda a gente tem o que merece. Nem mais nem menos.”
Vítor é diabético, como o pai. Foi ao médico, que receitou uns comprimidos que deveria tomar sempre, mas não toma. “Deixavam-me com uma grande moca. Também tinha uma maquinazinha para controlar a insulina, mas perdi-a. Como um gajo anda sempre em mudanças… Às vezes, sinto-me um bocado esquisito. Mas pode ser da fraqueza. É raro tomar pequeno-almoço. Há muitos dias em que a primeira coisa que como é uma sopa do Exército de Salvação, às 7 da tarde.”
Outro problema é os dentes. Vítor conseguiu uma placa, da Segurança Social mediante um respeitável argumento: “Trabalho na restauração, o sorriso é fundamental.” Mas a placa rapidamente se partiu em três. Quando a levou ao técnico, ele foi claro: “Não pagou nada por esta placa, pois não? É que o material é fatela. Foi comprada nos chineses.”
João já teve quistos no cérebro. “Começava a ver tudo enevoado, e caía. Amigos levaram-me para o hospital, cheio de sangue. Fiquei internado dois anos.” Acredita que foi consequência dos comprimidos que lhe deram quando se queixou de sequelas psicológicas da Guerra Colonial.
Agora tem uma hérnia. No hospital, durante uma crise, disseram-lhe que tem de ser operado. Mas isso implica passar dois dias no hospital, perdendo o “salário” do parque de estacionamento.
“Só tens uma hipótese”, sugere Vítor. “Vais poupando, até teres o dinheiro de dois dias.”
Mas há o problema da grua. Pode chegar a qualquer momento. O prédio ao lado da Casa dos Bicos está em obras, e uma gigantesca grua vai ocupar a via pública, diz João. Isso significa que não haverá lugares de estacionamento e os dois sócios perderão o emprego.
Quando a grua ocupar a via pública, João terá que se dedicar a tempo inteiro ao seu segundo emprego
João fala da grua como um monstro mitológico. Tudo nela é desmesurado e assustador. Vai ocupar todo o quarteirão, durante um ano e meio, pagando uma taxa de 15 mil euros por dia. “A grua vai chegar amanhã, já está aqui a polícia”, diz ele, todos os dias, num exercício de pensamento mágico.
Há uma estranha mas intensa apropriação dos espaços da cidade por quem vive na rua. Habitando a margem, eles são, de certa forma, os verdadeiros cidadãos. Vêem coisas que aos outros passam despercebidas.
Nas escadas da Sé, há duas semanas, João deparou-se com uma luz muito intensa, um círculo branco, a uns 200 metros de altitude. Girou no céu, em torno de outro círculo luminoso mais pequeno, antes de desaparecer. “Mas não acredito que sejam extraterrestres. Inclino-me mais para coisas de espionagem”, diz João.
Já Vítor acredita que as 100 ou 200 pequenas chapas metálicas que observou a voar em formação são manifestações de vida intergaláctica. “Os americanos há muito que viajam para outros planetas. Porque é que no Google Maps não se vê a área 51, em Roswell? Alguém esconde algo.”
Para Vítor, há outros mundos, acima e abaixo de nós. No fundo dos mares há uma civilização de sereias. Está provado. Foram encontrados esqueletos dentro de baleias. Crânios e membros no estômago de tubarões. “Os gajos das petrolíferas andam a mapear o fundo do oceano e divulgaram imagens de uma mão estranha colada à janela do submarino. A mão de um ser metade humano, metade peixe.”
Vítor passa horas na Internet à procura de coisas inexplicáveis. “Foi encontrado um martelo com 650 milhões de anos. Datado com Carbono 14. Há vestígios de sandálias com 300 milhões de anos.”
Tem um telemóvel sem saldo, mas com acesso à Internet, por wifi, num sistema que desenvolveu para acompanhar a vida do filho, através do Facebook.
Viu-o apenas uma vez, num funeral. “É um rapaz alto e magro, de óculos. Não tive coragem de lhe falar.” Pediu-lhe amizade no Facebook, mas ele nunca respondeu.
Quando a grua chegar, será preciso “fazerem-se à pista”. Vítor tenciona ocupar um pedaço de passeio do outro lado da rua. O plano de João é dedicar-se full time ao segundo emprego. A seu pedido, dei-lhe uma muleta que me sobrou de um entorse. Colocou-a a seu lado, na escadaria, para competir com a outra pedinte na corrida da desgraça. Mas desistiu. “Não sou capaz, não é honesto.”
Com o avanço do Inverno, Vítor apanhou um susto. A chuva e o vento provocaram a queda de um enorme pedregulho junto à entrada do seu refúgio. “E se eu fico lá dentro?”, pensou. E meteu-se a construir uma pequena casa com tábuas, do lado de fora do bunker.
A estrutura está periclitante, porque pregar pregos despertaria a curiosidade da vizinhança. As placas equilibram-se por um sistema de forças. Tudo está pensado com minúcia de engenheiro. A tábua superior, inclinada para que a água da chuva escorra, apoia-se num pacote de vinho tinto moldado na perfeição e fechado de forma a que a pressão do ar no interior produza um efeito de almofada, absorvendo as vibrações da estrutura.
A calafetagem é feita com sacos térmicos do Pingo Doce (“criei um efeito de estufa”) e todas as entradas de ar foram controladas colocando um cigarro aceso no meio do recinto, e registando as direcções em que o fumo se movimentava. “Assim posso dormir num ângulo desviado de todas as correntes de ar”, explica Vítor. Para garantir os banhos, meias garrafas de plástico foram espalhadas pela lixeira para captar água da chuva.
As condições melhoraram muito. A um canto da casa nova, Vítor colocou até um menino Jesus, um pequeno burro de barro e um galo de Barcelos — o seu presépio. Mas eu senti mais frio e desconforto do que na primeira visita.
Pousei um joelho na cama, deixei que a Crazy viesse brincar comigo na manta áspera e senti que a minha pesquisa da história de Vítor e João tinha chegado ao fim da linha, ao limite da minha utilidade como repórter. Agora que somos amigos, como posso viver com isto?
12.5.14
Há mais de 500 imigrantes sem-abrigo em Lisboa
in TVI24
Estudo identifica, pelo menos, 680 estrangeiros a viver nas ruas de Portugal
Um estudo sobre imigrantes sem-abrigo a viver em Portugal identificou 680 pessoas, a maioria das quais em Lisboa, sobretudo homens oriundos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
Os dados pertencem ao estudo «Imigrantes sem-abrigo em Portugal», coordenado por Teresa Líbano Monteiro e editado pelo Observatório da Imigração, e mostram que foi possível identificar 680 pessoas imigrantes a viver na condição de sem-abrigo.
Os autores sublinham que «o acesso a estes indivíduos é particularmente difícil» pelo facto de estarem em causa dois tipos de população que normalmente é considerada «oculta» e «escondida».
O levantamento foi, por isso, feito através dos técnicos que trabalham nas instituições que prestam apoio a estas pessoas, tendo sido possível conhecer 680 imigrantes sem-abrigo, um número que, não sendo representativo, «é a aproximação possível a um universo de contornos indefinidos».
Segundo o estudo, a maioria dos imigrantes sem-abrigo está na cidade de Lisboa, onde foram identificados 514 (75,6%), um fenómeno espectável, segundo as autoras, «tendo em conta a relação existente entre os fenómenos de urbanização, atração de mão-de-obra migrante e intensificação de pobreza».
Em termos de caraterização sociodemográfica, a grande maioria (90,3%) destas pessoas são homens, havendo apenas 66 mulheres, sobretudo oriundos dos PALOP (40,3%), com idade entre os 36 e os 45 anos. Há também uma percentagem elevada (23,7%) entre os 26 e os 35 anos e entre os 46 e os 55 anos (27,3%).
Em termos de país de origem, a Ucrânia surge em segundo lugar (16%), logo seguida pela Roménia (6%).
As investigadoras apontam que «apesar da nacionalidade brasileira ser a mais representada na imigração atual, os sem-abrigo brasileiros representam apenas 6% dos indivíduos em análise», fenómeno explicado pela «maior empregabilidade e integração social» dos cidadãos brasileiros.
De destacar que 34 dos 680 imigrantes vêm de países da Europa Ocidental, nomeadamente Itália, Espanha, Alemanha, França, Áustria, Dinamarca, Noruega, Reino Unido, Bélgica, Grécia e Irlanda.
No entanto, não foi possível compreender melhor o perfil destas pessoas, de modo a perceber que características do seu percurso de vida fizeram com que, apesar de serem oriundos de países com maior índice de desenvolvimento que Portugal, tenham acabado na condição de sem-abrigo.
Em relação à escolaridade, a maioria (cerca de 42%) tem o nível básico ou menos, sendo que destes, 6% não possui qualquer qualificação.
Por outro lado, há 17% que têm o ensino secundário concluído e 6% com uma licenciatura.
Os indivíduos dos PALOP são aqueles que têm menos qualificações, enquanto no lado oposto (com ensino superior ou formação profissional) estão os cidadãos da Ucrânia e de outros países de Leste.
Metade das pessoas não tem documentação legal, enquanto apenas 30% tem um visto ou uma autorização de residência, sendo que na maioria destes casos (79,1%), a autorização de residência destina-se ao exercício de atividade profissional subordinada. Estes 79,1% representam 91 pessoas, sendo que destas, 74 estão desempregadas.
Aliás, no que diz respeito à situação laboral, o estudo demonstra que «a esmagadora maioria» dos inquiridos (544) está desempregada.
Em matéria de saúde, praticamente metade (49%) encontra-se doente e a condição de saúde mais referida (35%) foi o alcoolismo.
O estudo, coordenado por Teresa Líbano Monteiro, foi realizado por Verónica Policarpo, Vanda Ramalho e Isabel Santos.
Estudo identifica, pelo menos, 680 estrangeiros a viver nas ruas de Portugal
Um estudo sobre imigrantes sem-abrigo a viver em Portugal identificou 680 pessoas, a maioria das quais em Lisboa, sobretudo homens oriundos dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
Os dados pertencem ao estudo «Imigrantes sem-abrigo em Portugal», coordenado por Teresa Líbano Monteiro e editado pelo Observatório da Imigração, e mostram que foi possível identificar 680 pessoas imigrantes a viver na condição de sem-abrigo.
Os autores sublinham que «o acesso a estes indivíduos é particularmente difícil» pelo facto de estarem em causa dois tipos de população que normalmente é considerada «oculta» e «escondida».
O levantamento foi, por isso, feito através dos técnicos que trabalham nas instituições que prestam apoio a estas pessoas, tendo sido possível conhecer 680 imigrantes sem-abrigo, um número que, não sendo representativo, «é a aproximação possível a um universo de contornos indefinidos».
Segundo o estudo, a maioria dos imigrantes sem-abrigo está na cidade de Lisboa, onde foram identificados 514 (75,6%), um fenómeno espectável, segundo as autoras, «tendo em conta a relação existente entre os fenómenos de urbanização, atração de mão-de-obra migrante e intensificação de pobreza».
Em termos de caraterização sociodemográfica, a grande maioria (90,3%) destas pessoas são homens, havendo apenas 66 mulheres, sobretudo oriundos dos PALOP (40,3%), com idade entre os 36 e os 45 anos. Há também uma percentagem elevada (23,7%) entre os 26 e os 35 anos e entre os 46 e os 55 anos (27,3%).
Em termos de país de origem, a Ucrânia surge em segundo lugar (16%), logo seguida pela Roménia (6%).
As investigadoras apontam que «apesar da nacionalidade brasileira ser a mais representada na imigração atual, os sem-abrigo brasileiros representam apenas 6% dos indivíduos em análise», fenómeno explicado pela «maior empregabilidade e integração social» dos cidadãos brasileiros.
De destacar que 34 dos 680 imigrantes vêm de países da Europa Ocidental, nomeadamente Itália, Espanha, Alemanha, França, Áustria, Dinamarca, Noruega, Reino Unido, Bélgica, Grécia e Irlanda.
No entanto, não foi possível compreender melhor o perfil destas pessoas, de modo a perceber que características do seu percurso de vida fizeram com que, apesar de serem oriundos de países com maior índice de desenvolvimento que Portugal, tenham acabado na condição de sem-abrigo.
Em relação à escolaridade, a maioria (cerca de 42%) tem o nível básico ou menos, sendo que destes, 6% não possui qualquer qualificação.
Por outro lado, há 17% que têm o ensino secundário concluído e 6% com uma licenciatura.
Os indivíduos dos PALOP são aqueles que têm menos qualificações, enquanto no lado oposto (com ensino superior ou formação profissional) estão os cidadãos da Ucrânia e de outros países de Leste.
Metade das pessoas não tem documentação legal, enquanto apenas 30% tem um visto ou uma autorização de residência, sendo que na maioria destes casos (79,1%), a autorização de residência destina-se ao exercício de atividade profissional subordinada. Estes 79,1% representam 91 pessoas, sendo que destas, 74 estão desempregadas.
Aliás, no que diz respeito à situação laboral, o estudo demonstra que «a esmagadora maioria» dos inquiridos (544) está desempregada.
Em matéria de saúde, praticamente metade (49%) encontra-se doente e a condição de saúde mais referida (35%) foi o alcoolismo.
O estudo, coordenado por Teresa Líbano Monteiro, foi realizado por Verónica Policarpo, Vanda Ramalho e Isabel Santos.
14.1.14
A Casinha tira sem-abrigo das ruas e senta-os à mesa
por Joana Carvalho Fernandes, in Diário de Notícias
Na associação A Casinha, em Lisboa, há diariamente 150 pessoas sem-abrigo ou carenciadas sentadas à mesa e é daqui - do prato cheio e da conversa - que parte um processo de integração social que já tirou gente da rua.
A Casinha é uma casa que pretende construir outras, uma família. É a memória da casa da avó, de uma avó.
Tem soalho, duas salas luminosas com mesas postas -- com aprumo -- sobre toalhas de pano, cadeiras de madeira trabalhada, cómodas e armários cobertos com naperões e enfeitados com jarras de flores, plantas, peças de loiça e santos. Tem sofás, livros, quadros, fotografias de família e uma gaiola com dois canários.
Cada detalhe tem uma função, explica à Lusa a socióloga Fátima Correia, de 57 anos, mentora do projeto.
"Nada é por acaso ou para enfeitar, faz parte do projeto, é para tocar as sensibilidades das memórias. Muitas das pessoas que vêm aqui estão desagregadas da parte familiar. Chegam e dizem: 'Ah, a minha avó tinha este móvel, tinha este copo!'. E, sem estarmos a pressionar, estamos a suscitar lembranças, a fazê-los ir buscar algum laço que ainda possa existir", diz.
O primeiro andar direito do número 3 da rua Nova do Desterro, entre o Intendente e o Martim Moniz, tem também a porta a aberta a todos: aos que vêm para comer, conversar ou pedir outro tipo de ajuda, mas também aos que vêm jantar e lanchar e deixam donativos, para que o trabalho possa continuar.
Durante a semana, aos jantares, a associação cozinha para grupos e para famílias (ou cede-lhes o espaço para que eles cozinhem) e, aos sábados à tarde, A Casinha transforma-se num salão de chá, com bolos caseiros e scones.
Os donativos que recebe com essas atividades -- que "atraem gente das letras e do cinema", disse a responsável -- financiam o trabalho social, que já chega, todos os dias, a cerca de 150 pessoas, entre as que estão "fidelizadas" (cerca de 80), as que aparecem de forma irregular e as que vão à associação buscar comida que levam para casa.
Fátima Correia admite que o sucesso do projeto neste primeiro ano "ultrapassou em 200%" as suas expectativas, mas consegue justificá-lo: "A abordagem que fazemos aqui é muito simples - poucas perguntas. Assim saímos do ritmo que é normal nas instituições. Eu não quero ouvir mentiras, por isso pergunto o nome e a idade. O resto é no dia-a-dia que vamos conquistando".
Todo o trabalho é feito por uma equipa de seis pessoas, incluindo a coordenadora, e dois dos elementos da equipa -- os mais jovens -- são já produto do trabalho que A Casinha desenvolveu este ano.
Duarte Lemos e Pedro Leitão, ambos de 28 anos, entraram aqui para pedir ajuda. Começaram por sentar-se à mesa, entretanto saíram da rua e são agora "os braços e as pernas" de Fátima Correia. Um é responsável de sala, o outro ajudante de cozinha.
Filomena Galizes, de 63 anos, está desempregada e é voluntária na associação, a cara atrás do balcão onde se serve o café. Diz que esta experiência a tem feito crescer e que sente mudanças no comportamento dos seus 'habitués': "Agora chegam, cumprimentam, deixam sua rebeldia lá fora. Passaram a estar mais comedidos aqui dentro, há um cuidado. Se acontece alguma coisa, pedem desculpa", conta.
Fátima Correia sublinha que é falso que as pessoas não queiram sair da rua, considerando que o problema é antes haver "demasiada burocracia" e "falta de respostas".
Esta semana, contou, a associação conseguiu tirar da rua um casal. Tem outras 20 pessoas à espera de uma reposta que, neste momento, não tem recursos para oferecer.
Por isso, A Casinha vai pedir financiamento para pôr a funcionar uma rede de apoio domiciliário "com uma dinâmica diferente", com a ajuda dos utentes da associação. A ideia é fazer com que os que de entre eles são profissionais nas áreas das necessidades encontradas -- "arranjar uma janelinha, arranhar uma porta, uma pintura", enumerou a coordenadora -- retribuam, com ajuda a outros, a ajuda que recebem.
Na associação A Casinha, em Lisboa, há diariamente 150 pessoas sem-abrigo ou carenciadas sentadas à mesa e é daqui - do prato cheio e da conversa - que parte um processo de integração social que já tirou gente da rua.
A Casinha é uma casa que pretende construir outras, uma família. É a memória da casa da avó, de uma avó.
Tem soalho, duas salas luminosas com mesas postas -- com aprumo -- sobre toalhas de pano, cadeiras de madeira trabalhada, cómodas e armários cobertos com naperões e enfeitados com jarras de flores, plantas, peças de loiça e santos. Tem sofás, livros, quadros, fotografias de família e uma gaiola com dois canários.
Cada detalhe tem uma função, explica à Lusa a socióloga Fátima Correia, de 57 anos, mentora do projeto.
"Nada é por acaso ou para enfeitar, faz parte do projeto, é para tocar as sensibilidades das memórias. Muitas das pessoas que vêm aqui estão desagregadas da parte familiar. Chegam e dizem: 'Ah, a minha avó tinha este móvel, tinha este copo!'. E, sem estarmos a pressionar, estamos a suscitar lembranças, a fazê-los ir buscar algum laço que ainda possa existir", diz.
O primeiro andar direito do número 3 da rua Nova do Desterro, entre o Intendente e o Martim Moniz, tem também a porta a aberta a todos: aos que vêm para comer, conversar ou pedir outro tipo de ajuda, mas também aos que vêm jantar e lanchar e deixam donativos, para que o trabalho possa continuar.
Durante a semana, aos jantares, a associação cozinha para grupos e para famílias (ou cede-lhes o espaço para que eles cozinhem) e, aos sábados à tarde, A Casinha transforma-se num salão de chá, com bolos caseiros e scones.
Os donativos que recebe com essas atividades -- que "atraem gente das letras e do cinema", disse a responsável -- financiam o trabalho social, que já chega, todos os dias, a cerca de 150 pessoas, entre as que estão "fidelizadas" (cerca de 80), as que aparecem de forma irregular e as que vão à associação buscar comida que levam para casa.
Fátima Correia admite que o sucesso do projeto neste primeiro ano "ultrapassou em 200%" as suas expectativas, mas consegue justificá-lo: "A abordagem que fazemos aqui é muito simples - poucas perguntas. Assim saímos do ritmo que é normal nas instituições. Eu não quero ouvir mentiras, por isso pergunto o nome e a idade. O resto é no dia-a-dia que vamos conquistando".
Todo o trabalho é feito por uma equipa de seis pessoas, incluindo a coordenadora, e dois dos elementos da equipa -- os mais jovens -- são já produto do trabalho que A Casinha desenvolveu este ano.
Duarte Lemos e Pedro Leitão, ambos de 28 anos, entraram aqui para pedir ajuda. Começaram por sentar-se à mesa, entretanto saíram da rua e são agora "os braços e as pernas" de Fátima Correia. Um é responsável de sala, o outro ajudante de cozinha.
Filomena Galizes, de 63 anos, está desempregada e é voluntária na associação, a cara atrás do balcão onde se serve o café. Diz que esta experiência a tem feito crescer e que sente mudanças no comportamento dos seus 'habitués': "Agora chegam, cumprimentam, deixam sua rebeldia lá fora. Passaram a estar mais comedidos aqui dentro, há um cuidado. Se acontece alguma coisa, pedem desculpa", conta.
Fátima Correia sublinha que é falso que as pessoas não queiram sair da rua, considerando que o problema é antes haver "demasiada burocracia" e "falta de respostas".
Esta semana, contou, a associação conseguiu tirar da rua um casal. Tem outras 20 pessoas à espera de uma reposta que, neste momento, não tem recursos para oferecer.
Por isso, A Casinha vai pedir financiamento para pôr a funcionar uma rede de apoio domiciliário "com uma dinâmica diferente", com a ajuda dos utentes da associação. A ideia é fazer com que os que de entre eles são profissionais nas áreas das necessidades encontradas -- "arranjar uma janelinha, arranhar uma porta, uma pintura", enumerou a coordenadora -- retribuam, com ajuda a outros, a ajuda que recebem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

